O Homem de Giz
Capítulo 2016
Como se lembrá-la como uma pessoa concreta que tinha morrido estragasse a magia da história.
Por fim, até os perdigueiros mórbidos regressaram aos seus canis. Outros acontecimentos terríveis ocuparam as primeiras páginas dos jornais. O crime era às vezes referido num artigo de revista, ou reencenado nalgum programa de reality show da televisão.
É claro que havia pontas soltas. Coisas bizarras que não faziam sentido. Toda a gente assumiu que tinha sido o senhor Halloran a agredir o reverendo Martin e a fazer os desenhos na igreja, mas ninguém conseguia explicar porquê. Nunca foi encontrado o machado que utilizara para decepar o corpo…
E, é claro, nunca encontraram a cabeça da Rapariga do Carrossel.
Mesmo assim, e embora nenhum de nós estivesse de acordo sobre quando aquilo tinha começado, todos acreditámos que o dia em que o senhor Halloran morreu assinalava o fim de tudo
2016
Sob certos aspectos, o funeral do meu pai ocorreu com vários anos de atraso. O homem que eu tinha conhecido morrera muito antes. O que restara fora uma casca vazia. Tudo o que fazia dele a pessoa que era, a simpatia, o humor, o calor humano, e mesmo as suas previsões falhadas do tempo, tinha desaparecido. E a sua memória também. O que talvez fosse o pior de tudo, pois quem somos nós senão o somatório das nossas experiências, as coisas que reunimos e congregamos ao longo da vida? Se nos tiram isso, não somos mais do que um monte de carne, ossos e vasos sanguíneos.
Se existe algo a que se possa chamar «alma» – e ainda não estou convencido disso –, então a do meu pai partiu muito antes de a pneumonia o arrebatar de um leito branco e estéril de hospital, onde gemia e delirava; uma versão mirrada e esquelética do homem alto e pleno de vitalidade que toda a vida conheci. Nunca o identifiquei naquela concha de ser humano. Tenho vergonha de dizer que quando me comunicaram a sua morte a minha primeira reacção não foi de desgosto, mas de alívio.
O funeral foi pequeno e teve lugar no crematório. Só a minha mãe e eu, alguns amigos dos jornais para os quais o meu pai escrevia, Hoppo e a mãe, o Gav Gordo e a família. Não me importei. Não creio que se possa aquilatar o valor de uma pessoa pelo número dos que comparecem no seu funeral. A maioria das pessoas tem demasiados amigos. E aqui uso a palavra «amigos» no seu sentido mais lato. Os «amigos» on line não são amigos verdadeiros. Os amigos verdadeiros são uma coisa diferente. Os amigos verdadeiros são os que estão presentes, sejam quais forem as circunstâncias. Os amigos verdadeiros são pessoas que amamos e odiamos na mesma medida, mas que são parte integrante de nós.
Depois do serviço fúnebre, fomos todos para nossa casa. A minha mãe tinha preparado sanduíches e outras coisas para comer, mas o que as pessoas sobretudo fizeram foi beber.
Embora antes de morrer o meu pai tivesse estado num lar durante mais de um ano e a casa nunca tivesse visto tanta gente, creio que nunca a senti tão vazia como nessa ocasião.
No dia do aniversário da sua morte, eu e a minha mãe vamos ao crematório. A minha mãe deve lá ir mais vezes. Há sempre flores frescas junto da pequena placa com o seu nome, e uma ou duas linhas no Livro de Recordações.
Encontro-a lá hoje, sentada num dos bancos do jardim. O Sol descobre de vez em quando.
Uma massa de nuvens cinzentas cavalga o céu sem descanso, empurrada por uma brisa impaciente. A minha mãe veste umas calças de ganga e um elegante casaco vermelho.
– Olá.
– Olá, mãe.
Sento-me a seu lado.
Os pequenos óculos redondos, tão meus conhecidos, assentam-lhe no nariz e reflectem a luz quando se vira para mim.
– Tens um ar cansado, Ed.
– É verdade. Foi uma semana cansativa. Desculpe ter-lhe abreviado as férias.
Desvaloriza o assunto com um gesto da mão.
– Não abreviaste nada. Foi uma opção minha. Além disso, quem já viu um lago já viu todos.
– De qualquer maneira, muito obrigado por ter vindo.
– Bem, quatro dias na companhia de Mittens deve ter sido de mais para os dois.
Esboço um sorriso. Requer esforço.
– Então, vais contar-me o que se passa?
Olha para mim como costumava fazer quando eu era garoto. Aquele olhar que me faz sentir que consegue ver o âmago das minhas mentiras.
– Chloe desapareceu.
– Desapareceu?!
– Fez as malas e pôs-se a andar. Desapareceu.
– Sem uma palavra?
– Sim.
Nem espero nenhuma. Não, é mentira. Durante os primeiros dois dias acalentei a esperança ténue de que entrasse em contacto. Que entrasse casualmente pela porta, preparasse um café e me olhasse, com uma sobrancelha irónica levantada, enquanto me dava uma explicação lacónica e plausível que me faria sentir pequeno, idiota e paranóico.
Mas não o fez. Agora, decorrida quase uma semana, seja qual for o aspecto que considere, não encontro qualquer explicação, além da óbvia. É uma jovem de carácter ínvio que resolveu levar-me à certa.
– Bem, a rapariga nunca me caiu no goto – diz a minha mãe –, mas não me parece coisa dela.
– Não devo ser um bom avaliador do carácter das pessoas.
– Não te culpes, Ed. Há pessoas que mentem muito bem.
– Sim, pois há. Lembra-se da Hannah Thomas, mãe?
Franze o sobrolho.
– Lembro-me, mas o que…
– Chloe é filha da Hannah Thomas.
Arregala um pouco os olhos por detrás das lentes, mas sem perder a compostura.
– Estou a ver. E foi ela quem te disse isso, não foi?
– Não, foi a Nicky.
– Falaste com a Nicky?
– Fui vê-la.
– Como está ela?
– Deve estar mais ou menos como estava quando a mãe a foi ver, há uns cinco anos… para lhe contar o que de facto acontecera ao pai dela.
Segue-se um silêncio prolongado. A minha mãe olha para baixo. Tem as mãos enclavinhadas, sulcadas de veias azuis. As mãos traem-nos sempre, acho eu. A idade. Os nervos. As mãos da minha mãe eram capazes de fazer coisas maravilhosas. Desfazer os nós do meu cabelo emaranhado, acariciar-me gentilmente o rosto, lavar e aplicar um emplastro num joelho esfolado. Mas também eram capazes de fazer outras coisas. Coisas que algumas pessoas considerariam menos aceitáveis.
Por fim, diz:
– Foi o Gerry que me convenceu a ir. Contei-lhe tudo. Fiquei aliviada, depois de confessar.
Fez-me ver que devia uma explicação a Nicky. Que lhe devia a verdade.
– E qual era a verdade?
Sorri com tristeza.
– Sempre te disse para não te arrependeres de nada. Quando se toma uma decisão é a que no momento nos parece mais correcta. Mesmo que mais tarde se venha a revelar errada, temos de viver com isso.
– Nunca olhes para trás.
– Sim. Mas é mais fácil dizer do que fazer.
Espero. Ela deixa escapar um suspiro.
– Hannah Thomas era uma jovem vulnerável. Fácil de manipular. Sempre à espera de alguém a quem seguir. De alguém a quem venerar. Infelizmente, encontrou-o a ele.
– O reverendo Martin?
Confirma com um aceno de cabeça.
– Foi visitar-me uma noite…
– Eu lembro-me.
– Lembras-te?
– Vi-a consigo, na saleta.
– Ela devia ter marcado consulta na clínica. Eu devia ter insistido, mas ela estava tão transtornada, pobre rapariga, não sabia com quem falar, de maneira que a deixei entrar, fiz-lhe uma chávena de chá…
– Embora ela fosse uma das manifestantes?
– Sou médica. Os médicos não julgam. E estava grávida. De quatro meses. Apavorada com a ideia de contar ao pai. E tinha apenas dezasseis anos.
– Ela queria ter o bebé?
– Não sabia o que queria. Não passava de uma rapariguinha.
– O que lhe disse?
– Disse-lhe o mesmo que dizia às mulheres que me apareciam na clínica. Fiz-lhe ver todas as opções. E, é claro, perguntei se o pai estaria disposto a ajudar.
– O que disse ela?
– Ao princípio negou-se a dizer quem era, mas depois saiu-lhe tudo num repelão. Que ela e o reverendo estavam apaixonados, mas que a Igreja os proibia de se continuarem a ver. – Abana a cabeça. – Aconselhei-a o melhor que pude, e quando se foi embora estava um pouco mais calma. Mas devo admitir que fiquei perturbada, dividida. E naquele dia, no funeral, quando o pai dela entrou de rompante para acusar Sean Cooper de a ter violado…
– Já sabia a verdade?
– Sabia, mas o que podia fazer? Não podia trair a confiança da Hannah.
– Contou ao papá?
Diz que sim com a cabeça.
– Ele já sabia que ela tinha vindo falar comigo. Nessa noite contei-lhe tudo. Ele queria ir à polícia e à Igreja denunciar o reverendo Martin, mas convenci-o a ficar calado.
– Mas ele não conseguiu, pois não?
– Não. Quando nos atiraram o tijolo pela janela ficou furioso. Discutimos…
– Eu ouvi-os. O pai saiu e embriagou-se…
Já conheço o resto, mas deixo que a minha mãe acabe.
– O pai de Hannah e alguns dos amigos estavam nessa noite no pub. O teu pai tinha bebido muito, estava furioso…
– E disse-lhes que o reverendo Martin era o pai da criança de Hannah?
A minha mãe volta a assentir.
– Tens de perceber que ele não podia prever o que aconteceria. O que eles fariam ao reverendo Martin naquela noite. Entrar-lhe em casa, arrastá-lo para a igreja e espancarem-no como fizeram.
– Eu sei. E compreendo.
Da mesma maneira que Gav não podia ter previsto o que aconteceria quando roubara a bicicleta de Sean. Como eu não podia ter previsto o que aconteceria quando deixara o anel em casa do senhor Halloran.
– Mas depois, por que razão a mãe nunca disse nada? Por que razão o pai nunca falou no assunto?
– Andy Thomas era agente da polícia. E não podíamos provar nada.
– Portanto, ficou assim? Deixou que escapassem com aquilo que tinham feito?
Leva algum tempo a responder.
– Não foi só isso. Naquela noite, Andy Thomas e os amigos estavam bêbedos e sedentos de sangue. Não tenho dúvidas de que foram eles que fizeram o reverendo Martin em papas…
– Mas…?
– Aqueles horríveis desenhos a giz e os golpes nas costas? Ainda hoje acho difícil que tenham
– Aqueles horríveis desenhos a giz e os golpes nas costas? Ainda hoje acho difícil que tenham sido eles a fazer isso.
Asas de anjos. Acode-me à memória a pequena tatuagem no pulso de Nicky. «Em memória do meu pai.»
E outra coisa que ela disse, pouco antes de se ir embora, quando lhe perguntei sobre os desenhos.
– O meu pai adorava aquela igreja. Era a única coisa que ele amava. Aqueles desenhos. A violação do seu precioso santuário. Esquece o espancamento. Era isso que era capaz de o matar.
Sou assaltado por uma onda de frio. Um sopro gélido, fino como uma teia de aranha.
– Devem ter sido eles – digo. – Quem mais poderia ter sido?
– Creio que sim. – Suspira. – Fiz coisas erradas, Ed. Contar ao teu pai. Nunca denunciar quem atacou o reverendo.
– Era por isso que o ia visitar todas as semanas? Porque se sentia responsável?
Confirma com um gesto da cabeça.
– Podia não ser um homem bom, mas todos merecemos perdão.
– Não de Nicky. Diz que só o irá visitar quando ele estiver morto.
A testa da minha mãe enrugou-se.
– Isso é estranho.
– É uma maneira de dizer.
– Não, quero dizer, é estranho porque ela o tem visitado.
– Desculpe?
– Segundo as enfermeiras, no último mês foi lá todos os dias.
À medida que vamos envelhecendo o mundo vai encolhendo à nossa volta. Tornamo-nos Gullivers no nosso pequeno Liliput. Recordava-me da casa de repouso de St. Magdalene como um edifício enorme. Uma mansão imponente ao fundo de uma longa alameda sinuosa, cercada por hectares de relva impecavelmente cortada.
Hoje, a alameda é mais curta, e o relvado não é maior do que um jardim suburbano, mal aparado e irregular. Nem sinal de um jardineiro que cuide dele e o mantenha. A velha cabana aguenta-se, adornada para um lado, a porta escancarada, a revelar algumas peças de equipamento negligenciadas e vários fatos-macaco pendurados nos cabides. Mais adiante, onde outrora encontrei a velha senhora com o grande chapéu, o mesmo conjunto de mobiliário de jardim em ferro forjado assenta sobre as pernas enferrujadas, entregue às inclemências do tempo e à porcaria dos pássaros.
A casa é mais pequena, as paredes brancas precisam de uma pintura e as janelas de madeira carcomida clamam por uma substituição urgente. À semelhança de alguns dos seus ocupantes, creio, a casa parece uma velha senhora a murchar nos seus anos crepusculares.
Primo a campainha da porta da frente. Há uma pausa, ouve-se um estalido, e uma voz
Primo a campainha da porta da frente. Há uma pausa, ouve-se um estalido, e uma voz feminina pergunta em tom impaciente:
– Quem é?
– Edward Adams, para visitar o reverendo Martin.
– Está bem.
Oiço o zumbido do trinco e empurro a porta. Lá dentro, o lar não é tão diferente das minhas recordações. As paredes continuam amarelas, talvez mais cor de mostarda. Tenho a certeza de que os quadros são os mesmos, e o cheiro também. Fragrance à la Instituition. Detergente, urina e comida rançosa.
A um canto do corredor está uma secretária de recepção, vazia. Um computador exibe um screensaver irrequieto, e no telefone pisca uma luz. O livro de registo dos visitantes está aberto.
Avanço e olho em volta. Percorro a página com o dedo, a examinar nomes e datas…
Não são muitos. Ou os residentes não têm família ou, como diria Chloe, foram abandonados por esta, que os deixou a afundar-se lentamente no pântano lamacento das suas mentes.
Encontro logo o nome de Nicky. Visitou-o na semana passada. Então, por que razão me mentiu?
– Posso ajudá-lo?
Dou um pulo. O livro dos visitantes fecha-se. Uma mulher possante, de rosto severo, com o cabelo apanhado atrás num carrapito e ameaçadoras unhas falsas, olha-me de sobrancelhas erguidas. Pelo menos parece-me que estão. Podem ser apenas pintadas.
– Bom dia… ehhh, só estava a assinar o livro.
– Estava, não estava?
As enfermeiras têm o mesmo olhar das mães. Daquelas que dizem: Não me tentes enganar, rapaz. Sei muito bem o que estavas a fazer.
– Desculpe, o livro estava aberto na página errada e…
Bufa desdenhosamente, aproxima-se, abre o livro e folheia-o até encontrar a página do dia, que marca com um talão brilhante de cor púrpura.
– Nome. Pessoa que vem visitar. Amigo ou parente.
– Está bem.
Agarro numa esferográfica e escrevo o meu nome e o do reverendo Martin. Após um momento de hesitação acrescento: «Amigo.»
A enfermeira observa-me.
– Já cá esteve antes? – pergunta.
– Ehhh, a minha mãe costuma visitá-lo.
Olha-me mais atento.
– Adams. Pois claro, Marianne.
A sua expressão suaviza-se.
– É uma boa mulher. Tem vindo ao longo de todos estes anos todas as semanas, para o ver e
– É uma boa mulher. Tem vindo ao longo de todos estes anos todas as semanas, para o ver e para lhe ler um bocadinho. – A sua testa enruga-se de súbito. – Ela está bem, não está?
– Está. Quero dizer, apanhou uma constipação. Foi por causa disso que vim.
Faz um gesto de assentimento.
– O reverendo está no quarto. Ia agora buscá-lo para o chá da tarde, mas se o quiser fazer…
Não queria. Agora que aqui estou, repugna-me a ideia de o ver, de estar perto dele, mas não tenho alternativa.
– Com certeza.
– Siga pelo corredor. O quarto do reverendo é a quarta porta do lado direito.
– Muito obrigado.
Começo a andar muito devagar, a arrastar os pés. Não foi para isto que vim. Vim para saber se Nicky tinha visitado o pai. Não sei bem porquê, mas senti que era importante. Agora que aqui estou, não sei mesmo porquê, mas tenho de dar continuidade à farsa.
Chego ao quarto do reverendo. A porta está fechada. Por pouco não me viro e volto atrás pelo corredor. Mas qualquer coisa me impede, talvez uma curiosidade mórbida. Levanto a mão e bato com os nós dos dedos. Não estou à espera de uma resposta, mas é uma questão de boa educação. Passado um momento, abro a porta.
Se o resto da casa tentava, sem êxito, parecer algo mais do que um hospital para doentes mentais irrecuperáveis, o quarto do reverendo resistia tenazmente a esses toques de domesticidade.
É vazio e austero. Não há quadros a adornar as paredes, nem jarras com flores. Não há livros, nem objectos de decoração ou recordações. Só uma cruz pendurada na parede, por cima da cama muito bem feita, e uma Bíblia na mesa-de-cabeceira. A janela dupla, de vidro simples e fecho inseguro, que não cumpre as normas de saúde e segurança, dá para um espaço de relva descuidada que se estende até à orla do bosque. Uma vista agradável para quem está em condições de a apreciar, o que duvido seja o caso do reverendo.
O homem, ou o que resta dele, está sentado numa cadeira de rodas a um canto do quarto, defronte de uma televisão. No braço da cadeira repousa um telecomando. Mas o ecrã da televisão permanece apagado.
Pergunto-me se estará a dormir, até que lhe vejo os olhos muito abertos, a olhar sem ver, como antes. O efeito é desconcertante. A boca dele move-se um pouco, a dar a impressão de que mantém um diálogo interior com alguém que só ele vê e ouve. Se calhar Deus.
Faço um esforço para entrar no quarto e detenho-me, num momento de incerteza. Parece-me uma intrusão, embora tenha a certeza de que o reverendo mal se apercebe da minha presença. Por fim, sento-me na beira da cama, ao lado dele.
– Olá, reverendo Martin.
Não há reacção. Mas, afinal, de que estava eu à espera?
– Provavelmente não se lembra de mim. Eddie Adams. A minha mãe vem visitá-lo todas as
– Provavelmente não se lembra de mim. Eddie Adams. A minha mãe vem visitá-lo todas as semanas, apesar… bem, apesar de tudo.
Silêncio, apenas quebrado pela sua respiração sibilante e rala. Nem o tiquetaque de um relógio. Nada para assinalar a passagem das horas. Mas num lugar como aquele talvez seja a última coisa que se deseja. Ser recordado do lento arrastar do tempo. Desvio o olhar, a evitar os olhos fixos e sem expressão do reverendo. Apesar de já ser adulto, continuam a parecer-me espectrais e um tanto assustadores.
– Da última vez que me viu eu ainda era garoto. Doze anos. Um dos amigos de Nicky.
Lembra-se dela? A sua filha?
Calo-me por um momento. Uma pergunta estúpida. Claro que se lembra. Algures, lá dentro.
Calo-me de novo. Não tivera a intenção de dizer nada, mas agora que aqui estou percebo que quero falar.
– O meu pai. Teve problemas mentais. Não como os seus. O problema dele foi um esvaziamento gradual. Um gotejar constante. Não retinha nada: nem recordações, nem palavras e, por fim, nem a sua identidade. Creio que o seu caso é o oposto. Está tudo fechado aí dentro. Algures. Muito fundo. Mas continua lá.
Ou então foi apagado, destruído, obliterado para sempre. Mas não acredito nisso. Os nossos pensamentos, as nossas recordações, têm de ir para qualquer lado. Os do meu pai podem ter-se escoado, mas tanto a minha mãe como eu tentámos limpar o que podíamos. A lembrarmo-nos por ele. A guardar em segurança nas nossas mentes os seus momentos mais preciosos.
No entanto, à medida que vou envelhecendo, tenho mais dificuldade em recuperá-los.
Acontecimentos, coisas que alguém disse, o que as pessoas vestiam, o seu aspecto, tudo se vai tornando indistinto. O passado esbate-se, como uma fotografia antiga, e por muito que me esforce não há nada que possa fazer para o evitar.
Volto a olhar para o reverendo, e por pouco não caio da beira da cama.
O homem olha para mim, com os olhos cinzentos límpidos e duros.
Os seus lábios movem-se e deixam escapar um sussurro:
– Confessa.
Sinto que se me eriçam os cabelos.
– O quê?
De repente, a mão dele move-se para me agarrar o braço. Para um homem que durante os últimos trinta anos não foi capaz de ir sozinho à retrete, o aperto é surpreendentemente forte.
– Confessa.
– Confesso o quê? Eu não…
Antes que consiga dizer mais alguma coisa, uma pancada na porta faz-me virar com brusquidão. O reverendo larga-me o braço.
Uma enfermeira espreita pela abertura da porta. Muito diferente da anterior. Magra e loura, com um rosto simpático.
– Olá – diz com um sorriso. – Vinha só ver se estava tudo bem por aqui. – O sorriso desvanece-se. – Está tudo bem, não está?
Tento recompor-me. A última coisa que desejo é que alguém accione o alarme e me obriguem a sair das instalações.
– Sim, está tudo bem. Só estávamos… só estava a falar.
A enfermeira sorri.
– Digo sempre às pessoas que devem falar com os residentes. É bom para eles. Parece que não estão a ouvir, mas percebem mais do que se pensa.
Esboço um sorriso forçado.
– Sei o que quer dizer. O meu pai teve Alzheimer. Era frequente reagir a coisas que pensávamos que não tinha compreendido.
Acena com a cabeça, a mostrar que percebe.
– Há tantas coisas que não sabemos a respeito das doenças mentais. Mas lá dentro continuam a ser pessoas. Seja o que for que tenha acontecido a isto – e bate com um dedo na cabeça –, o coração permanece o mesmo.
Volto a olhar para o reverendo. Os seus olhos retomaram a expressão abstracta.
Confessa.
– Pode ser que tenha razão.
– Vamos lanchar na sala comum – anuncia, em tom mais alegre. – Não quer trazer o reverendo?
– Sim, com certeza.
Faço o que for preciso para sair daqui. Agarro a cadeira de rodas e empurro-o pela porta.
Seguimos ao longo do corredor.
– Nunca o tinha visto por cá a visitá-lo – observa a enfermeira.
– Não. Quem costuma cá vir é a minha mãe.
– Oh, Marianne?
– Sim.
– Ela está bem?
– Apanhou uma constipação.
– Coitada. Espero que melhore depressa.
Abre a porta da sala comum – a mesma onde eu e a minha mãe já estivemos – e empurro a cadeira do reverendo lá para dentro. Resolvo arriscar.
– A minha mãe disse que a filha o tem vindo visitar.
A enfermeira assume uma pose pensativa.
– Sim, de facto, há pouco tempo vi uma jovem com ele. Magra, de cabelo escuro?
– Não – começo a dizer. – Nicky é…
Mas interrompo-me.
Mentalmente, dou uma palmada na testa. Pois claro. Não é Nicky que cá tem vindo, apesar Mentalmente, dou uma palmada na testa. Pois claro. Não é Nicky que cá tem vindo, apesar do que a jovem astuta escreveu no livro de visitas. O reverendo tem outra filha. Chloe. Chloe tem vindo visitar o pai.
– Peço desculpa – digo, a emendar-me. – Sim, deve ser ela.
A enfermeira acena.
– Não sabia que era da família. Bem, tenho de servir o chá.
– Muito bem. Com certeza.
Afasta-se. Algumas peças ajustam-se. Onde Chloe tem ido, quando não estava a trabalhar. A visita da semana passada. No mesmo dia em que voltou para casa embriagada e em lágrimas e a fazer aqueles estranhos comentários em relação à família.
Mas porquê? Mais pesquisas? A revisitar o passado? Que anda ela a tramar?
Empurro a cadeira do reverendo e posiciono-a de modo a que ele possa ver a televisão, onde passa um episódio antigo de Diagnosis Murder. Por Cristo, se alguém ainda não perdeu o juízo antes de cá entrar, ver todos os dias as interpretações exageradas de Dick Van Dyke e da família deve acabar com ele de vez.
É então que algo me desperta a atenção. Para lá da televisão e dos corpos reclinados nas cadeiras de espaldar, uma figura frágil está sentada do outro lado das portas duplas envidraçadas. Envolta num espesso casaco de peles, com um turbante cor de púrpura equilibrado na cabeça, a deixar ver algumas mechas de cabelo branco que se escapam por baixo.
A Dama do Jardim. A mesma que me contou um segredo. Mas já lá vão quase trinta anos.
Nem quero acreditar que ainda esteja viva. É possível que na época andasse apenas pelos sessenta e tal. Mas isso implicaria que já tem mais de noventa.
Movido pela curiosidade, avanço e abro a porta. O ar está fresco, mas o Sol imprime-lhe um pouco de calor.
– Olá?
A Dama do Jardim vira-se. Os seus olhos são leitosos, nublados pelas cataratas.
– Ferdinand?
– Não, o meu nome é Ed. Já cá vim uma vez, há muito tempo, com a minha mãe, lembra-se?
Inclina-se para a frente e olha-me de viés. Os olhos escondem-se por detrás de um leque de rugas castanhas, encarquilhadas como pergaminho velho.
– Lembro-me de ti. O rapaz. O ladrão.
Sinto vontade negar, mas para quê?
– Isso mesmo.
– Voltaste a pô-lo no sítio?
– Voltei.
– És um bom rapaz.
– Posso sentar-me? – pergunto, a indicar com um gesto da mão a única cadeira vaga
– Posso sentar-me? – pergunto, a indicar com um gesto da mão a única cadeira vaga existente.
Hesita antes de assentir.
– Mas só um pouco. Ferdinand deve estar a chegar.
– Com certeza.
Sento-me na cadeira.
– Veio vê-lo – diz ela.
– Ferdinand?
– Não – diz, a abanar a cabeça. – O reverendo.
Olho de relance para onde ele se encontra, afundado na cadeira. Confessa.
– Sim. Da outra vez disse que ele os engana a todos. O que queria dizer com isso?
– As pernas.
– Perdão?
Inclina-se para a frente e agarra-me a perna com uma garra branca e ossuda. Estremeço. Não gosto que me toquem sem aviso prévio, nem mesmo na ocasião apropriada. E esta não é uma ocasião apropriada.
– Gosto de um homem com boas pernas – diz ela. – Ferdinand. Tem boas pernas. Pernas fortes.
– Estou a ver. – Não estou, mas concordar torna as coisas mais fáceis. – O que tem isso a ver com o reverendo?
– O reverendo?!
A sua expressão volta a toldar-se. O reconhecimento esbate-se. Quase consigo ver-lhe a mente a saltar do presente para o passado. Larga-me a perna e olha para mim.
– Quem és tu? O que estás a fazer sentado na cadeira do Ferdinand?
– Peço desculpa – digo, a levantar-me.
Sinto um ardor na perna esquerda, do aperto que lhe deu.
– Vai chamar o Ferdinand. Está atrasado.
– Eu vou. Gostei… de a voltar a ver.
Acena com a mão, a despedir-me. Volto a transpor as portas duplas. A mesma enfermeira que me deixou entrar anda por ali, a limpar a boca de alguém. Ergue o olhar para mim.
– Não sabia que conhecia a Penny – observa.
– Conheci-a quando cá vim com a minha mãe, já lá vão muitos anos. Fiquei admirado por ainda a encontrar cá.
– Já vai nos novena e oito e continua rija.
Pernas fortes.
– E à espera do Ferdinand?
– Sim, claro.
– Isso é que é amor. Todos estes anos à espera do noivo.
– Era capaz de ser. – A enfermeira endireita-se e oferece-me outro sorriso rasgado. – Só que, ao que parece, o noivo que morreu chamava-se Alfred.
Regresso a casa em passo rápido. Podia ter ido de automóvel até St. Magdalene, mas são apenas trinta minutos a pé desde a cidade, e queria clarificar as ideias. Embora, para ser franco, não tenha havido qualquer clarificação. As palavras e as frases continuam a flutuar-me na cabeça, como confetti num globo de neve.
Confessa. Pernas fortes. O falecido noivo chamava-se realmente Alfred.
Há aqui qualquer coisa. Apenas perceptível por entre toda esta agitação. Mas não consigo dissipar o torvelinho dos meus pensamentos para a ver com clareza.
Levanto a gola do casaco. O Sol escondeu-se, substituído por nuvens cinzentas. O crepúsculo iminente ergue-se como uma sombra negra por detrás do ombro do dia.
Paira uma sensação de estranheza em redor das paisagens familiares. Como se eu fosse um estranho naquilo que é o meu mundo. Como se sempre tivesse olhado as coisas de maneira errada. Sem as ver bem. Tudo se afigura mais duro e acerado. Quase me é possível imaginar que se tocasse a folha de uma árvore ela me deceparia os dedos.
Rodeio o que era a orla do bosque, e que agora é um vasto complexo habitacional. Dou por mim a olhar para trás, a estremecer a cada rajada de vento. As únicas pessoas que vejo são um homem que passeia um labrador relutante e uma jovem mãe que empurra o carrinho do bebé em direcção à paragem do autocarro.
Mas não é verdade. Por uma ou duas vezes tenho a impressão de ver alguém ou alguma coisa escondida entre as sombras que se vão cerrando atrás de mim: um relance de pele cor de marfim, a aba de um chapéu preto, o reflexo pálido de uma cabeleira branca, vejo-os por fracções de segundo pelo canto do olho.
Chego a casa tenso e ofegante, encharcado em suor apesar da frescura do ar. Pouso a mão pegajosa sobre o puxador da porta. Tenho de chamar um serralheiro para mudar as fechaduras.