O Homem de Giz
Capítulo 1986
Nicky.
1986
– Tens de ter um sonho. Se não tiveres um sonho, como se pode o sonho tornar realidade?
Curiosamente, essa canção vem-me sempre à memória quando penso no dia em que a encontrámos. Conheço muitas canções de filmes musicais antigos, talvez por ser o que tinham sempre a tocar na casa de repouso, quando íamos visitar o papá. Depois de a minha mãe ter admitido a sua incapacidade para cuidar dele em casa.
Já vi muitos horrores, mas a terrível decadência do meu pai por causa da Alzheimer, antes de se poder reformar, é o que me atormenta os dias e me faz acordar encharcado em suores frios.
Há a morte violenta, repentina e sangrenta, e há outra coisa muito pior. Se tivesse de escolher, saberia por qual optar.
Tinha vinte e sete anos quando assisti à morte do meu pai. Tinha doze anos, onze meses e oito dias quando pela primeira vez vi um cadáver.
Por estranho que pareça, já esperava que acontecesse. Desde a agressão ao reverendo Martin.
Talvez mesmo desde o acidente de Sean Cooper e do primeiro homem de giz.
E também porque tinha tido um sonho.
Estava no bosque. Bem embrenhado. As árvores erguiam-se como velhos gigantes nodosos, a esticar os membros queixosos em direcção ao céu. Uma Lua pálida e remelosa espreitava-lhes por entre os dedos curvos e retorcidos.
Estava de pé numa pequena clareira, cercado por montões de folhas castanhas apodrecidas. O
ar húmido da noite penetrava-me na pele e entranhava-se-me nos ossos. Só trazia vestido o pijama, uns ténis e uma camisola com capuz. Arrepiado de frio, puxei para cima o fecho de correr da camisola. Frio como o gelo, o metal do fecho encostou-se-me ao queixo.
Verdadeiro. Demasiado verdadeiro.
Havia mais qualquer coisa. Um cheiro. Um cheiro doentio, adocicado e ao mesmo tempo azedo. Invadiu-me as narinas e entupiu-me a garganta. Uma vez tínhamos topado com um texugo morto no bosque. Já tinha apodrecido, e estava coberto de larvas. Era o mesmo cheiro.
Percebi de imediato. Já tinham decorrido quase três meses sobre o acidente. Muito tempo para estar debaixo de terra. Muito tempo para estar deitado num caixão duro e brilhante enquanto as flores se transformam em pó e os vermes castanhos se retorcem sobre a carne amolecida, a abrir caminho para o interior.
Virei-me. Sean Cooper, ou o que restava dele, sorria para mim com os lábios gretados que se desfaziam em escamas à volta dos pedúnculos esbranquiçados dos dentes que emergiam das
gengivas negras e apodrecidas.
– Ei, Cara de Merda.
No lugar onde antes eram os olhos agora só havia duas cavernas escuras e vazias. Mas não vazias. Lá dentro, consegui entrever coisas que se mexiam. Coisas pretas e brilhantes que deslizavam, frenéticas, no interior mole da concavidade das órbitas.
– O que estou aqui a fazer?
– Diz-me tu, Cara de Merda.
– Não sei. Não sei por que razão estou aqui. Não sei por que razão estás aqui.
– É fácil, Cara de Merda. Eu sou a Morte, a tua primeira experiência próxima com a Morte.
Parece que nunca te saio da cabeça.
– Não quero pensar em ti. Quero que te vás embora.
– Difícil como a merda. Mas não te preocupes, em breve terás mais merda para te aparecer em pesadelos.
– O quê?
– O que te parece?
Olhei em redor. Os troncos das árvores estavam cobertos de desenhos. Homens brancos, de giz. Moviam-se. Agitavam-se e vibravam sobre a casca, como que entregues a uma folia macabra. Os membros finos acenavam e esvoaçavam. Não tinham rosto, mas sem saber como, tinha a noção de que sorriam. E não era um sorriso agradável.
Senti um arrepio que me chegou aos ossos.
– Quem os desenhou?
– O que te parece, Cara de Merda?
– Não sei!
– Sabes sim, Cara de Merda. Só que ainda não percebeste. Piscou-me o olho, não sei como, pois não tinha olhos nem pálpebras, e desapareceu. Desta vez não foi numa nuvem de pó, mas numa repentina cascata de folhas que, chegadas ao solo, se começaram de imediato a encarquilhar e a decompor.
Voltei a erguer os olhos. Os homens de giz tinham desaparecido. O bosque também. Estava no meu quarto, a tremer de medo e de frio e sentia nas mãos as picadas da dormência. Enfiei-as nos bolsos. E só então me apercebi.
Tinha os bolsos cheios de giz.
A nossa quadrilha não se voltara a reunir desde a zaragata. Nicky tinha-se ido embora, como é óbvio, e agora o Metal Mickey tinha os seus novos companheiros. Quando encontrava algum de nós, Hoppo, o Gav Gordo ou eu, fingia não nos ver. Por vezes, quando passávamos, ouvíamos os risos abafados da quadrilha dele e alguém a murmurar «Maricas», «Panascas», ou qualquer outro insulto.
Naquela manhã, ao passar pelo parque de jogos, mal o reconheci. Tinha o cabelo mais comprido e mais claro. Começava a parecer-se assustadoramente com o irmão. E tive a certeza de que andava a vestir algumas das roupas de Sean.
Na verdade, durante um horrível momento, julguei ver o irmão sentado no carrossel, à minha espera.
– Ei, Cara de Merda, não me queres chupar a picha?
E desta vez tive a certeza – bem, tive quase a certeza – de que não se tratava de um sonho.
Para já, era de dia. Os espíritos e os zombies não aparecem à luz do dia. Só existem naquele vácuo adormecido que se arrasta da meia-noite até ao romper da madrugada e se desfazem em poeira sob os efeitos dos primeiros raios do Sol. Pelo menos era nisso que acreditava, quando tinha doze anos.
Mas então Mickey sorriu, e era apenas ele. Escorregou para fora do carrossel, onde se tinha encavalitado a mascar pastilha elástica e saltitou na minha direcção.
– Ei, Eddie Munster. Viste a mensagem?
Vira-a quando descera a escada, desenhada a azul no caminho de acesso. O símbolo que usávamos quando nos queríamos encontrar no parque, e três pontos de exclamação. Um, indicava urgência; dois, queria dizer que tinha de ser já; três, era uma questão de vida ou de morte.
– Para que queres um encontro? O que é assim tão urgente?
Mickey franziu a testa.
– Eu? Não fui eu que deixei a mensagem.
– Deixaste-me uma mensagem. A azul.
Sacudiu a cabeça.
– Não. Recebi uma mensagem do Hoppo. A verde.
Olhámo-nos.
– Uau! O regresso do filho pródigo! – exclamou o Gav Gordo ao entrar no parque. – O que se passa?
– Alguém te deixou uma mensagem para vires aqui? – perguntei.
– Sim. Foste tu, Cara de Caralho.
Entrávamos em explicações quando Hoppo chegou.
– Quem te disse para vires? – perguntou-lhe o Gav Gordo.
Hoppo lançou-lhe um olhar intrigado.
– Foste tu. O que se passa?
– Alguém quis que nos reuníssemos aqui – disse eu.
– Porquê?
– Sabes, sim, Cara de Merda. Só que ainda não percebeste.
– Penso que vão fazer mal a alguém, ou já fizeram.
– Vai-te lixar! – desdenhou Mickey.
Relanceei os olhos em volta. Outra mensagem. Tinha de haver outra, estava certo disso.
Comecei a andar à volta do parque de jogos. Os outros ficaram a olhar para mim, como se eu estivesse maluco. E então apontei. Por baixo do baloiço dos bebés. Um desenho a giz branco.
Mas este era diferente. A figura tinha cabelos compridos e usava um vestido. Não era um homem de giz, era uma rapariga, e desenhadas ao lado dela apareciam várias árvores, também a giz branco.
Recordo-me bem desse momento. A aspereza do giz branco sobre o alcatrão preto. O ligeiro ranger do ferrugento baloiço de bebé e o frio cortante do ar matinal.
– Mas que merda é esta? – perguntou Metal Mickey quando se aproximou.
Hoppo e o Gav Gordo vieram atrás dele. Todos baixaram os olhos para o desenho.
– Temos de ir ao bosque – disse eu.
– Não podes estar a falar a sério! – exclamou o Gav Gordo, mas sem grande convicção.
– Eu não vou ao bosque – declarou Metal Mickey. – Vai demorar imenso tempo, e para quê?
– Eu vou – afirmou Hoppo, e embora desconfiasse que dizia aquilo só para contrariar o Mickey, agradou-me ter o apoio dele.
O Gav Gordo revirou os olhos, encolheu os ombros e disse:
– Eu também alinho.
Metal Mickey deixou-se ficar de parte, numa atitude rebelde, com as mãos enfiadas nos bolsos. Olhei para os outros dois.
– Vamos embora.
Voltámos a atravessar o parque de jogos para ir buscar as bicicletas.
– Esperem! – Metal Mickey aproximou-se. Olhou para nós, ameaçador. – É melhor que isto não seja uma piada parva.
– Não é nenhuma piada – disse eu e ele assentiu com um gesto da cabeça.
Conduzimos as bicicletas à mão para fora do parque. Olhei para trás, na direcção dos baloiços. Não sei se algum dos outros reparou, mas havia algo de diferente na figura da rapariga. Parecia partida. As linhas do corpo não eram contínuas. Braços, Pernas. Cabeça. Não estavam juntos.
De uma maneira estranha – a mesma maneira como quando as coisas horríveis acontecem e se sente um desejo avassalador de rir até não se conseguir parar – a ida dessa manhã ao bosque foi a mais alegre e divertida de sempre.
Era raro irmos ao bosque durante o Inverno, com excepção de Hoppo, que pedalava até lá para ir buscar lenha. Naquele dia o Sol brilhava, e o vento cortante fustigava-nos o rosto e sacudia-nos o cabelo. Sentia na pele um formigueiro fresco. As minhas pernas pareciam conseguir pedalar mais rapidamente do que nunca. Nada nos poderia parar. Apetecia-me que a
cavalgada não tivesse fim, o que, como é evidente, não podia ser. Mais depressa do que esperávamos, a massa escura do bosque surgiu-nos à frente.
– E agora? – perguntou o Metal Mickey, um pouco ofegante.
Descemos das bicicletas. Olhei em volta. Foi então que o vi. Desenhado na cerca de madeira, perto dos degraus. Um braço de giz, com um dedo a apontar para a frente.
– Para a frente é que é o caminho – disse o Gav Gordo, a levantar a bicicleta por cima dos degraus.
A expressão dos seus olhos denunciava o mesmo que eu sentia. Um pressentimento, uma excitação que rondava a histeria. Não sei se algum deles sabia ao certo o que devia procurar. Ou talvez soubessem, mas não se atreviam a dizê-lo em voz alta.
Não há miúdo que não anseie por encontrar um cadáver. Melhor do que isso só se for uma nave espacial, um tesouro enterrado ou uma revista pornográfica. Naquele dia estávamos dispostos a encontrar uma coisa horrível. E foi o que aconteceu. Mas creio que ninguém previu a que ponto seria horrível.
O Gav Gordo seguia à frente e lembro-me de isso me ter irritado. Aquela aventura era minha.
Era a minha coisa. Mas o Gav Gordo sempre tinha sido o nosso chefe, de modo que achei justo.
A quadrilha estava de novo reunida. Quase.
Penetrámos muito fundo no bosque antes de a ver. Uma mão desenhada no tronco de uma árvore.
– Por aqui – disse o Gav Gordo, já a arquejar.
– Sim, isso já nós vimos – observou o Metal Mickey, a desvalorizar a indicação.
Hoppo e eu trocámos um olhar e sorrimos. Parecia que as coisas voltavam à normalidade. As altercações estúpidas. Os comentários depreciativos de Mickey.
Abandonámos a vereda e fomos avançando com dificuldade pela espessura do matagal. De vez em quando ouvia-se um súbito restolhar e um bando de estorninhos ou de corvos debandava das árvores. Por duas vezes julguei ouvir o restolhar ao nível do solo. Possivelmente um coelho, ou alguma raposa, que por vezes também lá apareciam.
– Parem! – ordenou o Gav Gordo, e todos estacámos.
Apontou para outra árvore, à nossa frente. No tronco da árvore, desta vez não havia nenhum braço desenhado, mas uma rapariga. Por cima de um grande montão de folhas. Olhámos uns para os outros. E depois de novo para o montão de folhas, de onde emergia qualquer coisa.
– Foda-se! – exclamou o Gav Gordo.
Eram dedos.
As unhas eram curtas e limpas, pintadas de uma bela cor pastel. Nem roídas, nem partidas, nada. A polícia diria que ela não oferecera resistência. Ou que não tivera hipótese. A pele era mais clara do que eu me recordava, com o bronzeado do Verão a dar lugar a uma pigmentação
mais própria do Inverno. No dedo médio usava um pequeno anel de prata com uma pedra verde ao centro. Assim que o vi, percebi que o braço pertencia à Rapariga do Carrossel.
Hoppo foi o primeiro a debruçar-se. De todos nós, era quem tinha mais estômago. Uma vez vi-o pôr cobro com uma pedra ao sofrimento de um pássaro ferido. Com a mão, afastou mais folhas.
– Oh, merda! – murmurou Metal Mickey.
A extremidade lascada do osso era muito branca. Foi o que mais me despertou a atenção, mais do que o sangue, que tinha coagulado num tom baço, de ferrugem, que se confundia com as folhas que continuavam a cobrir parcialmente o braço. Cortado por altura do ombro.
De repente o Gav Gordo sentou-se no chão.
– É um braço – disse num sussurro. – É a porra de um braço.
– Bem visto, Sherlock – comentou Mickey, mas até os seus habituais comentários cáusticos lhe saíam com uma tremura na voz.
O Gav Gordo olhou para mim, esperançado.
– Isto pode ser uma piada? Pode não ser verdadeiro?
– É verdadeiro – respondi.
– O que fazemos?
– Chamamos a polícia – disse Hoppo.
– É isso, é isso – murmurou Gav. – Pode ser que ainda esteja viva…
– Não pode estar viva, meu gordo estúpido – contrapôs Mickey. – Está tão morta como o Sean.
– Não sabes isso.
– Sabemos, sim – repliquei, a apontar para outra árvore, onde se via um dedo desenhado a giz. – Há mais indicações… para os restos dela.
– Temos de chamar a polícia – insistiu Hoppo.
– Ele tem razão – apoiou Mickey. – Venham daí. Temos de lá ir.
Todos anuímos. Começámos a andar. Até que o Gav Gordo disse:
– Não devia ficar alguém… para o caso de…?
– De quê? De o braço se levantar e fugir? – troçou Mickey.
– Não. Não sei. Só para termos a certeza de que não lhe acontece nada.
Trocámos olhares. Ele tinha razão. Alguém tinha de ficar de guarda. Mas ninguém queria.
Nenhum de nós desejava ficar sozinho na clareira do bosque com um braço desmembrado, a ouvir o restolhar das folhas caídas, a sobressaltar-se com a debandada dos pássaros, a imaginar…
– Eu fico – prontifiquei-me.
Quando os outros se foram embora, sentei-me ao lado dela. Estendi hesitantemente a mão e toquei-lhe nos dedos. Porque era o que ela também parecia querer. A estender a mão, para que
alguém a agarrasse. Esperasse que estivesse fria como o gelo. Mas na verdade era macia, e quase quente.
– Tenho muita pena. Tenho tanta pena – disse eu.
Não sei durante quanto tempo permaneci no bosque. Não deve ter sido mais do que meia hora. Quando a quadrilha regressou, acompanhada por dois polícias locais, as minhas pernas estavam entorpecidas e julgo ter caído numa espécie de transe.
Mas pude garantir à polícia que ninguém tinha vindo importunar o braço. Que estava tal e qual o tínhamos encontrado. O que era quase verdade.
A única diferença era um círculo ligeiramente mais claro no dedo médio, onde antes tinha estado um anel.
Encontraram o que restava dela espalhado pelo bosque, oculto debaixo de outros montes de folhas. Quero dizer, encontraram quase tudo. Deve ter sido por isso que levaram tanto tempo a perceber de quem se tratava. É claro que eu já sabia. Mas ninguém me perguntou. Perguntaram muitas outras coisas. O que andavam a fazer pelo bosque? Como encontraram o corpo? Quando lhes falámos nos desenhos a giz nas árvores mostraram grande interesse nisso, mas quando lhes tentei falar nos outros desenhos, nas mensagens, creio que não me perceberam.
É o mal dos adultos. Por vezes não dão importância ao que dizemos, só ouvem o que querem ouvir.
Para a polícia, éramos apenas garotos a brincar no bosque que seguiram as indicações traçadas a giz e depararam com um cadáver. Não foi assim que aconteceu, mas também não foi muito diferente. Deve ser assim que nascem os mitos. O passado é contado e recontado e, de cada vez que isso acontece, qualquer coisa é acrescentada ou elidida e ao fim de algum tempo a nova história acaba por se tornar um facto.
Como é natural, não havia ninguém na escola que não quisesse falar connosco. Foi mais ou menos como depois da feira, só que desta vez as pessoas estavam ainda mais interessadas, porque ela tinha morrido. E estava em bocados.
Houve uma reunião em que esteve presente um polícia que nos avisou para sermos muitíssimo cautelosos e não falarmos com desconhecidos. Por essa altura, havia inúmeros desconhecidos na cidade. Gente com câmaras de televisão e microfones, a falar pelas ruas ou na orla do bosque. Não fomos autorizados a voltar lá. Passaram uma fita a rodear o local, e por todo o lado havia polícias de guarda.
Tanto o Gav Gordo como o Metal Mickey deliciaram-se a relatar os pormenores macabros e a inventar outros. Hoppo e eu deixámos que fossem eles a fazer as despesas da conversa. Era uma coisa excitante, e tudo o mais, mas também me sentia um tanto culpado. Não me parecia correcto tirar tanto partido da morte de uma rapariga. Como me parecia injusto que a Rapariga do Carrossel tivesse sobrevivido àquele dia na feira sem perder a perna para que lha cortassem depois. Um monte de merda malcheirosa.
Também me senti mal por causa do senhor Halloran. Parecera-me tão triste da última vez que o vira, e a Rapariga do Carrossel estava viva e preparavam-se para partir e viver juntos.
Agora ela estava morta e não iria para lado algum, excepto para o mesmo lugar escuro e frio onde repousava Sean Cooper.
Uma noite, durante o jantar, tentei falar nisso ao meu pai e à minha mãe.
– Tenho muita pena do senhor Halloran.
– Do senhor Halloran? Porquê? – quis saber o meu pai.
– Porque ele a salvou e agora ela está morta e todo aquele trabalho foi para nada.
A minha mãe soltou um suspiro.
– Tu e o senhor Halloran foram muito corajosos nesse dia. E não penses que não valeu de nada. Nunca deves pensar isso, seja o que for que as pessoas digam.
– E o que dizem as pessoas?
A minha mãe e o meu pai trocaram um olhar de «adultos», daqueles de que julgam que os miúdos não se apercebem, como por magia.
– Eddie – disse a minha mãe –, sabemos que gostas muito do senhor Halloran. Mas por vezes não conhecemos as pessoas tão bem como julgamos. O senhor Halloran não está cá há muito tempo. Ninguém o conhece verdadeiramente.
Olhei para um e para o outro.
– As pessoas pensam que foi ele quem a matou?
– Não foi isso que nós dissemos, Eddie.
Nem precisavam. Tinha doze anos, mas não era estúpido.
Senti um nó na garganta.
– Ele nunca a teria matado. Ele amava-a. Iam-se embora juntos. Foi ele que disse.
A minha mãe franziu a testa.
– Quando te disse ele isso, Eddie?
Estava encurralado.
– Quando o fui visitar.
– Foste visitá-lo? Quando?
Encolhi os ombros.
– Há mais ou menos duas semanas.
– A casa dele?
– Sim.
O meu pai pousou a faca com ruído.
– Eddie, nunca mais lá deves ir, percebes?