O Homem de Giz
Capítulo 1986
Mittens olha-me, divertido – Assustei-te, não foi, Eddie? –, e depois avança em movimentos furtivos, agarra o que resta da ratazana entre os dentes brancos pontiagudos e desaparece na noite.
Solto uma gargalhada histérica.
– Foda-se para isto!
Uma ratazana. A origem do sangue. Apenas uma ratazana e a porra de um gato. Sou invadido por uma onda de alívio. Até que uma vozinha me segreda ao ouvido:
– Mas o gato e a ratazana não explicam a porta das traseiras aberta, pois não, Eddie? E os preparativos inacabados para o jantar? O que quer dizer isto tudo?
Regresso a casa.
– Chloe! – grito.
Subo a escada a correr e páro à porta dela. Bato uma vez e abro, esperançado em ver uma cabeça desgrenhada a emergir de entre os lençóis. Mas a cama está vazia. O quarto está vazio.
Num impulso, abro a porta do guarda-vestidos. Os cabides vazios entrechocam-se. Abro violentamente as gavetas da cómoda. Nada. Nada. Nada.
Chloe foi-se embora.
1986
Julguei que teria de deixar passar algum tempo antes de ter a oportunidade de me escapulir.
Mas só tive de esperar dois dias, até ao fim-de-semana.
A minha mãe recebeu um telefonema e teve de ir a correr para a clínica. O meu pai, que devia tomar conta de mim, tinha um prazo para entregar o trabalho e estava fechado no escritório. Vi o bilhete que a minha mãe lhe deixou: «Prepara o pequeno-almoço do Eddie. Cereais ou torradas. NADA de batatas fritas ou de chocolates! Beijos, Marianne.»
Creio que o meu pai nunca o chegou a ler. Parecia mais distraído do que nunca. Quando me dirigi ao louceiro, vi que tinha posto o leite numa prateleira e guardado o café no frigorífico.
Abanei a cabeça, tirei uma tigela, despejei lá para dentro uma pequena porção de Rice Krispies e um pouco de leite e deixei-a no escorredouro do lava-loiças, com uma colher lá dentro.
Agarrei num pacote de batatas fritas e comi-as rapidamente na saleta, enquanto via Saturday Superstore. Deixei a televisão ligada e voltei para o quarto em bicos de pés. Arredei a cómoda para o lado, tirei a caixa de sapatos e levantei a tampa.
O anel continuava lá dentro. Ainda sujo da humidade do solo da floresta, mas não queria limpá-lo. Se o fizesse, não seria mais dela, não seria especial. Aquilo era importante. Se nos queremos afeiçoar a uma coisa temos de o fazer na sua integralidade. Para recordar o tempo e o lugar.
Mas havia alguém que precisava mais dele. Alguém que a amava e que não tinha nada para a recordar. Bem, tinha os quadros. Mas os quadros não faziam parte dela, não lhe tinham tocado a pele nem ficado encostados a ela enquanto arrefecia no chão da floresta.
Voltei a embrulhar o anel num pedaço de papel higiénico e guardei-o no bolso com todo o cuidado. Creio que naquele momento não sabia o que tencionava fazer. Na minha cabeça, imaginava-me a visitar o senhor Halloran, a dizer-lhe quanta pena sentia, a dar-lhe o anel e ele a ficar muito agradecido, e era uma maneira de o recompensar por tudo quanto tinha feito por mim. Creio que não queria mais nada.
Ouvi um ruído proveniente da porta ao lado: tosse, o ranger da cadeira do meu pai e o zumbido e o matraquear da impressora. Voltei a arrastar a cómoda para o sítio e desci a escada sem fazer barulho. Agarrei no casaco grosso de inverno e no cachecol e, para o caso de o meu pai descer e ficar preocupado, escrevi-lhe apressadamente um bilhete. «Fui a casa do Hoppo.
Não o quis incomodar. Eddie.»
De uma maneira geral, não era um garoto desobediente. Mas era teimoso, obsessivo mesmo.
De uma maneira geral, não era um garoto desobediente. Mas era teimoso, obsessivo mesmo.
Quando se me metia uma ideia na cabeça, nada ma fazia largar. Não posso afirmar que não fui assaltado pela dúvida e pela ansiedade ao pedalar para fora da garagem e ao longo da estrada, em direcção à vivenda do senhor Halloran.
Este já devia ter partido para a Cornualha. Mas a polícia pedira-lhe para não ir, por causa da investigação. Por essa altura eu não sabia como eles estavam perto de considerar se tinham ou não provas suficientes para o acusarem do homicídio da Rapariga do Carrossel.
Na verdade, as provas que tinham eram irrelevantes. Na sua maior parte eram circunstanciais, e de ouvir dizer. Todos queriam que ele fosse culpado porque seria bonito, limpo e compreensível. Era um forasteiro, e além disso um forasteiro de aspecto estranho, que já tinha demonstrado a sua perversão ao corromper uma jovem.
A teoria deles era que a Rapariga do Carrossel quis acabar com a relação e que o senhor Halloran se passara e que a tinha matado quando ela lho dissera. Isto era em parte confirmado pela mãe da Rapariga do Carrossel, que havia contado à polícia que na noite anterior a filha tinha vindo para casa lavada em lágrimas, depois de uma discussão com o senhor Halloran.
Este reconheceu que discutiram, mas negou que tivessem terminado a relação. Admitiu mesmo que combinaram encontrar-se no bosque na noite em que ela foi morta, mas que, depois da discussão que tinham tido, ele resolvera não aparecer. Não posso ter a certeza de qual será a verdade, e não havia ninguém que pudesse confirmar ou negar qualquer das histórias, excepto uma rapariga que nunca mais voltaria a falar, salvo num lugar onde a sua voz seria abafada pela terra e pelos vermes.
Era uma calma manhã de sábado, uma daquelas manhãs em que o dia parece não ter pressa de se levantar da cama, como um adolescente amuado que se recusa a afastar os cobertores e a abrir as cortinas à madrugada. Às dez horas, o dia continuava cinzento e escuro, e a única luz na estrada provinha dos raros automóveis que circulavam. A maioria das casas continuava às escuras. Embora não faltasse muito tempo para o Natal, poucas eram as decorações. Creio que ninguém tinha vontade de festejar. O meu pai ainda não tinha comprado uma árvore e eu mal me tinha lembrado do meu aniversário.
A vivenda erguia-se como um fantasma branco de contornos algo desfocados sob a luz difusa. O automóvel do senhor Halloran estava estacionado cá fora. Parei a curta distância e olhei em redor. A vivenda, isolada, ficava num extremo de Armory’s Lane, uma rua pequena onde havia mais algumas moradias. Não havia ninguém à vista. Apesar disso, em vez de encostar a bicicleta à casa do senhor Halloran, deixei-a em frente, meio escondida por uma sebe, onde dificilmente podia ser vista. Atravessei a rua com rapidez e corri pelo caminho de acesso.
As cortinas estavam abertas, mas lá dentro não se viam luzes. Ergui a mão, bati à porta e esperei. Não se ouviu qualquer som de movimentos. Tentei outra vez. O silêncio perdurou.
Bem, não era bem silêncio. Julguei ouvir um ruído. Hesitei. Talvez ele não quisesse ver ninguém. Talvez o melhor fosse voltar para casa. Estive quase a fazê-lo. Mas houve qualquer coisa – ainda hoje não sei o quê – que me impeliu a ficar, dizendo: Experimenta a porta.
Pousei a mão no puxador e rodei. A porta abriu-se. Olhei para a nesga escura que me convidava a entrar.
– Está aí, senhor Halloran?
Não houve resposta. Inspirei fundo e dei um passo para dentro.
– Está aí alguém?
Olhei em volta. Continuava a haver caixas empilhadas por todo o lado, mas havia uma coisa nova na pequena sala de estar. Garrafas. De vinho, de cerveja, e duas mais baixas e atarracadas, com um rótulo onde se lia Jim Beam. Franzi a testa. Tinha a impressão de que todos os adultos bebiam de vez em quando. Mas eram muitas garrafas.
Do piso de cima chegou-me o som de água a correr. Era esse o ruído distante que tinha ouvido antes. Experimentei uma sensação de alívio. O senhor Halloran estava a preparar um banho. Fora por isso que não me ouvira bater à porta.
É claro que aquilo me deixou numa situação incómoda. Não podia gritar lá para cima. Ele podia estar despido, ou assim. E ficaria a saber que lhe tinha entrado em casa, sem que me convidasse. Mas também não queria esperar lá fora, não fosse dar-se o caso de alguém me ver.
Depois de alguns momentos de hesitação, decidi-me. Dirigi-me pé ante pé para a cozinha.
Tirei o anel da algibeira e deixei-o ficar em cima da mesa, onde ele não deixaria de o encontrar.
Devia ter deixado também um bilhete, mas não vi nenhum papel nem caneta. Olhei para cima. O tecto apresentava uma mancha estranha. Mais escura do que o resto. Passou-me pela cabeça que havia ali algo de errado, a juntar ao contínuo correr da água. De repente, ouviu-se na rua o escape de um motor. Sobressaltei-me, alertado pelo som, para o facto de ser um intruso em casa alheia, e também a recordar-me do aviso solene do meu pai e da minha mãe. O
meu pai já devia ter acabado o trabalho; e se a minha mãe tivesse voltado para casa? Deixara um bilhete, mas ela podia sempre desconfiar e telefonar à mãe de Hoppo para confirmar.
Com o coração aos saltos no peito, esgueirei-me para fora da vivenda e fechei a porta atrás de mim. Atravessei a rua a correr e agarrei na bicicleta. Pedalei em direcção a casa tão depressa quanto pude, encostei a bicicleta à porta das traseiras, despi o casaco e o cachecol e atirei-me para o sofá da sala de estar. O meu pai desceu cerca de vinte minutos mais tarde e meteu a cabeça pela porta.
– Tudo bem, Eddie? Saíste?
– Fui à procura do Hoppo, mas ele não estava.
– Devias ter-me avisado.
– Deixei um bilhete. Não o queria incomodar.
Sorriu.
– És um bom rapaz E se fôssemos fazer uns queques, para quando a mãe voltar para casa?
– Está bem.
Gostava de fazer bolos com o papá. Alguns miúdos pensavam que fazer bolos era coisa de raparigas, mas quando o papá os fazia não era. Não seguia nenhuma receita e misturava na massa as coisas mais extravagantes. Ou ficavam muito bons ou um bocado esquisitos, mas descobri-lo era sempre uma aventura.
Estávamos a tirar do forno os queques de passas, Marmite e manteiga de amendoim quando a minha mãe voltou, decorrida mais ou menos uma hora.
– Estamos aqui! – exclamou o meu pai em voz alta.
A minha mãe entrou. Percebi imediatamente que alguma coisa estava mal.
– Tudo bem na clínica? – perguntou o meu pai.
– O quê? Sim, sim. Tudo resolvido.
Mas o ar dela não indicava que tudo estivesse bem. Parecia preocupada e transtornada.
– O que se passa, mamã?
Olhou para mim e para o meu pai e finalmente disse:
– No regresso passei em frente da casa do senhor Halloran.
O meu corpo inteiriçou-se. Ter-me-ia visto? Com certeza que não. Estava em casa há imenso tempo. Ou talvez alguém me tivesse visto e lhe fosse contar, ou talvez apenas soubesse, porque era a minha mãe e tinha um sexto sentido para as minhas asneiras.
Mas não era nada disso.
– Havia polícias cá fora… e uma ambulância.
– Uma ambulância? – repetiu o meu pai. – Porquê?
A minha mãe respondeu em voz abafada.
– Estavam a retirar um corpo, numa maca.
Suicídio. A polícia fora lá a casa para prender o senhor Halloran, mas tinham-no encontrado no andar de cima, dentro da banheira a transbordar. O tecto da sala de baixo estava cheio de bolhas e a cair aos pedaços. As gotas de água que caíam do tecto sobre a mesa da cozinha tinham uma coloração rósea. Na água do banho, onde jazia o senhor Halloran, a cor era mais escura, devido aos golpes nos seus antebraços, cortados dos cotovelos até aos pulsos. No sentido do comprimento. Não fora um grito a pedir auxílio. Fora um grito de adeus.
Encontraram o anel. Ainda com terra do bosque agarrada. Para a polícia, foi um pormenor decisivo. Era a prova concreta de que precisavam. O senhor Halloran assassinara a Rapariga do Carrossel e depois suicidara-se.
Nunca confessei. Devia tê-lo feito, bem sei. Mas tinha doze anos, estava assustado e de qualquer maneira não sei se alguém teria acreditado em mim. A minha mãe havia de julgar que tentava ajudar o senhor Halloran, que já ninguém podia ajudar, bem como à Rapariga do Carrossel. De que valia dizer a verdade agora?
Não houve mais mensagens. Não houve mais homens de giz. Nem mais acidentes terríveis, ou crimes horrendos. Creio que a coisa pior que aconteceu em Anderbury durante os anos que
se seguiram foi o roubo, por uns ciganos, do telhado de cobre da igreja. Ah, e quando Mickey chocou com o automóvel numa árvore e quase se matou, bem como a Gav.
O que não quer dizer que as pessoas se tenham esquecido imediatamente. O crime, e todas as outras peripécias que se seguiram, conferiram a Anderbury uma triste fama. Os jornais locais chafurdaram no assunto durante semanas a fio.
– Não tarda que vão distribuir paus de giz com as edições de fim-de-semana – ouvi a minha mãe murmurar certa noite.
O Gav Gordo disse-me que o pai tinha pensado em mudar o nome do pub para O Homem de Giz, mas que a mãe o dissuadira.
– É demasiado cedo – afirmara.
Durante algum tempo, era frequente ver grupos de desconhecidos na cidade. Vestiam anoraques, calçavam sapatos práticos e traziam máquinas fotográficas e blocos de apontamentos. Faziam fila para entrar na igreja e deambulavam pelo bosque.
Paspalhões curiosos, como o meu pai lhes chamava.
Tive de lhe perguntar o que aquilo queria dizer.
– São pessoas que gostam de olhar para coisas terríveis ou de visitar o lugar onde uma coisa horrível aconteceu. Também conhecidos por perdigueiros mórbidos.
Gostei mais da segunda definição. Perdigueiros mórbidos. Condizia com o aspecto, os cabelos compridos, os rostos abatidos e a maneira como esmagavam o nariz contra os vidros das janelas para espreitar, ou se inclinavam para o chão para o fotografar com as suas Polaroids.
Por vezes também faziam perguntas como: Onde era a vivenda do Homem de Giz? Alguém o conheceu pessoalmente? Alguém possui algum dos seus desenhos?
Nunca perguntavam pela Rapariga do Carrossel. Ninguém o fazia. A mãe deu uma entrevista aos jornais. Disse que Elisa apreciava música, que aspirava a ser enfermeira, para ajudar as pessoas feridas, como acontecera com ela, e que tinha demonstrado uma grande coragem depois do acidente. Mas foi só um artigo curto. Era como se as pessoas a quisessem esquecer.