O Homem de Giz
Capítulo 1986
– Deixa que te mostre uma coisa.
Ergue-se e sai da cozinha. Com relutância, levanto-me do assento e vou atrás dela.
Estaca à entrada da saleta.
– Perguntei a mim mesma se não andarias a ver coisas, depois da conversa com o teu amigo.
– Mostra lá o que é, Chloe.
– Está bem.
Empurra a porta.
Uma das poucas alterações que introduzi na casa foi a substituição da velha lareira por um fogão de sala com recuperador de calor.
Olho para ele. O fogão está coberto de desenhos que se destacam violentamente a branco sobre a placa cinzenta. Dezenas e dezenas, uns por cima dos outros, como num acesso de furor.
Homens de giz.
1986
Apareceu um polícia lá em casa. Nunca tínhamos tido um polícia em casa. Até àquele Verão, creio que nem nunca tinha visto um de perto.
Este era alto e magro. Com uma grande cabeleira escura e uma cara que parecia quadrada.
Assemelhava-se a uma gigantesca peça de Lego, só que não era amarelo. Chamava-se agente Thomas.
Espreitou para dentro da caixa, meteu-a num saco de lixo e levou-a para o carro da polícia.
Voltou e sentou-se desajeitadamente na cozinha enquanto fazia perguntas ao meu pai e à minha mãe e escrevia num pequeno bloco com um arame em espiral.
– Foi o vosso filho que encontrou o pacote lá fora?
– Exacto – disse a minha mãe, que olhou para mim. – Não foi, Eddie?
Fiz que sim com a cabeça.
– Foi sim, senhor.
– A que horas foi isso?
– Às 16 h e 4 m – respondeu a mamã. – Olhei para o relógio antes de descer.
O polícia tomou mais apontamentos.
– E não viste ninguém perto de casa ou na rua?
Abanei a cabeça.
– Não, senhor.
– Muito bem.
Mais garatujas no bloco. O meu pai agitou-se na cadeira.
– Ouça, isto não faz qualquer sentido – afirmou. – Todos sabemos quem deixou o pacote.
O agente Thomas dirigiu-lhe um olhar muito pouco simpático.
– Sabemos mesmo?
– Claro que sabemos. Algum dos membros da pequena quadrilha do reverendo Martin.
Andam a intimidar a minha mulher e a minha família, e já é tempo de alguém acabar com isso.
– Tem alguma prova?
– Não, mas é óbvio, não é?
– Talvez seja melhor deixarmos por agora as alegações sem fundamento.
– Sem fundamento?
Percebi que o meu pai começava a perder a cabeça. Não acontecia muitas vezes, mas quando acontecia – como na festa –, saltava-lhe mesmo a tampa.
– Não há nenhuma lei contra os protestos pacíficos, meu caro senhor.
Só então percebi. O polícia não estava do lado do meu pai e da minha mãe. Estava do lado dos manifestantes.
– Tem razão – disse a minha mãe, muito calma. – Os protestos pacíficos não são ilegais. Mas intimidar, perseguir e ameaçar são-no com certeza. Espero que esteja a levar este assunto a sério.
O agente Thomas fechou o bloco com força.
– Com certeza que sim. Se conseguirmos encontrar os culpados, pode crer que receberão o castigo apropriado.
Levantou-se, a arrastar ruidosamente a cadeira no chão de mosaicos.
– Agora, se me dão licença…
Abandonou a cozinha. Ouviu-se bater a porta da frente.
Voltei-me para a minha mãe.
– Ele quer mesmo ajudar?
Ela soltou um suspiro.
– Sim. Claro que quer.
O meu pai fungou.
– Talvez ajudasse mais se a filha não fizesse parte dos manifestantes.
– Geoff – admoestou-o a minha mãe. – Deixa-te disso.
– Muito bem.
Levantou-se, e por um instante não me pareceu nada o meu pai. O rosto estava contorcido num esgar de fúria.
– Mas se a polícia não tratar disto, trato eu.
Antes do começo das aulas, reunimo-nos como deve ser pela última vez. Foi na casa do Gav Gordo. Como de costume. Era quem tinha o quarto maior e o melhor quintal, com um baloiço e uma casa na árvore, e a mãe dele abastecia-nos com gasosas e batatas fritas.
Estávamos deitados na relva, a falar de ninharias e a chatear-nos uns aos outros. Apesar do pacto com o senhor Halloran, contei-lhes parte do meu encontro com o irmão de Mickey. Tive de contar, pois ele sabia dos homens de giz, o que significava que o nosso segredo tinha deixado de o ser. É claro que, na minha versão, me debati heroicamente e tinha conseguido escapar. Preocupava-me um pouco a possibilidade de Sean ter contado a Mickey, que se apressaria a desmentir-me com grande prazer, mas ao que parecia o senhor Halloran tinha-o assustado o suficiente para ele também não abrir a boca.
– Então o teu irmão sabe dos homens de giz? – perguntou o Gav Gordo a Mickey, com ar de poucos amigos. – És um linguarudo.
– Eu não lhe disse nada – choramingou Mickey. – Deve ter descoberto sozinho. Quero dizer, nós desenhámos dezenas. É provável que nos tenha visto.
Estava a mentir, mas pouco me importava saber como Sean tinha descoberto. O facto é que tinha, e isso alterava tudo.
– Podemos sempre inventar novas mensagens – disse Hoppo, mas sem grande convicção.
Percebi como ele se sentia. Agora que havia mais alguém a saber – em especial Sean – estava tudo estragado.
– De qualquer maneira era um jogo muito estúpido – disse Nicky, a dar um jeito ao cabelo.
Olhei para ela, ofendido e um tanto irritado. Naquele dia comportava-se de uma maneira estranha. Por vezes acontecia. Mal-humorada e sempre a discutir.
– Não, não era nada – disse o Gav Gordo. – Mas parece-me que não vale a pena continuar a jogá-lo, uma vez que Sean o conhece. Além disso, a escola começa amanhã.
– Pois é.
O grupo soltou um suspiro colectivo. Naquela tarde, todos estávamos um pouco cabisbaixos.
Nem o Gav Gordo se saía com as piadas do costume. E o tempo reflectia a nossa disposição. O
céu azul dera lugar a um cinzento-soturno. As nuvens galopavam de um lado para o outro, como se estivessem impacientes por desencadear uma chuvada a sério.
– Tenho de ir andando – disse Hoppo. – A minha mãe quer que eu parta uns cavacos para o lume.
Tal como nós, Hoppo e a mãe tinham uma lareira antiga na sua velha casa em banda.
– Eu também vou – disse Metal Mickey. – Esta noite vamos lanchar a casa da minha avó.
– Vocês desiludem-me, meeeuus – contrapôs o Gav Gordo, mas sem grande entusiasmo.
– Também tenho de ir – disse eu.
A minha mãe tinha-me comprado algumas roupas novas para a escola e queria que as experimentasse antes da hora do chá, para o caso de alguma precisar de arranjo.
Levantámo-nos, e pouco depois Nicky fez o mesmo.
O Gav Gordo deixou-se cair sobre a relva, numa pose teatral.
– Vão-se embora, vão. Vocês matam-me.
Olhando em retrospectiva, creio que foi a última vez que estivemos juntos assim.
Descontraídos, amigos, ainda uma quadrilha, antes de as coisas começarem a desintegrar-se.
Hoppo e Metal Mickey tomaram uma direcção. Nicky e eu tomámos outra. O vicariato não ficava muito longe da nossa casa e por vezes eu e Nicky fazíamos o caminho juntos. Mas não muitas vezes. Em geral, Nicky era a primeira a sair. Por causa do pai, julgo eu. Era muito rigoroso com os horários. Sempre tive a impressão de que não gostava que Nicky confraternizasse connosco. Mas nunca pensámos muito no assunto. Era um vigário e para nós isso era uma explicação suficiente. Quero dizer, os vigários não estão de acordo com nada, não é?
– Então, ehh… estás preparada para a escola? – perguntei quando atravessámos a rua nos semáforos, em direcção ao parque.
Atirou-me um dos seus olhares de pessoa adulta.
– Eu sei.
– Sabes o quê?
– Do pacote.
– Oh!
Não tinha falado aos outros no pacote. Era demasiado complicado e confuso e constituía uma deslealdade para com o meu pai e a minha mãe.
Tanto quanto sabia, não tinha havido consequências. O agente da polícia não voltara e não tinha constado que alguém tivesse sido preso. A clínica da minha mãe tinha aberto e os manifestantes continuavam cá fora, a marchar em círculos como abutres.
– A polícia veio falar com o meu pai.
– Oh!
– Sim.
– Lamento… – comecei a dizer.
– Lamentas porquê? O meu pai é um idiota.
– É mesmo?
– Toda a gente tem medo de o dizer porque ele é o vigário, até o polícia. Foi patético…
Calou-se e baixou os olhos para os dedos, quatro deles envoltos em ligaduras.
– O que aconteceu à tua mão?
Levou muito tempo a responder. Cheguei a pensar que não me responderia.
Até que disse:
– Gostas muito do teu pai e da tua mãe?
Franzi a testa. Não era o que eu esperava que ela dissesse.
– Com certeza que sim.
– Pois olha, eu odeio o meu pai. É verdade, odeio-o mesmo.
– Não estás a falar a sério.
– Estou, sim. Fiquei contente quando o teu pai lhe deu um soco. Só lamento que não tenha sido com mais força.
Olhou para mim, e qualquer coisa nos seus olhos me provocou um ligeiro calafrio.
– Gostaria que o tivesse matado.
Atirou os cabelos para cima do ombro e desatou a andar, tão determinada que percebi que não queria que a seguisse.
Esperei até os cabelos ruivos desaparecerem ao virar da esquina e retomei a caminhada em passos cansados. Parecia carregar sobre os ombros o peso do dia. A única coisa que queria era chegar a casa.
Quando entrei, o meu pai estava a preparar o lanche; para comer tinha o meu prato favorito: lombinhos de peixe panados e batatas fritas.
– Posso ir ver televisão? – perguntei.
– Não. – Agarrou-me o braço. – A tua mãe está lá dentro com uma pessoa. Vai-te lavar e
– Não. – Agarrou-me o braço. – A tua mãe está lá dentro com uma pessoa. Vai-te lavar e depois vem comer.
– Quem está lá com ela?
– Vai-te lavar e volta.
Entrei no corredor. A porta da saleta estava escancarada. A minha mãe estava sentada no sofá com uma rapariga loura. A rapariga chorava e a minha mãe abraçava-a. Pareceu-me alguém conhecido, mas não a identifiquei de imediato.
Foi só depois de me servir da sanita e de ter lavado as mãos é que percebi quem era. Era a amiga loura da Rapariga do Carrossel, a mesma que tinha visto a manifestar-se à porta da clínica. Perguntei-me o que teria ido ali a fazer e por que razão estaria a chorar. Talvez tivesse vindo pedir desculpa à minha mãe. Ou então estava metida nalgum sarilho.
Como se veio a saber, era este o caso. Mas não o género de sarilho que eu imaginara.
Encontraram o corpo num domingo de manhã, três semanas depois do recomeço das aulas.
De certo modo, e embora nenhum de nós o admitisse, voltar à escola depois das férias de Verão não era mau de todo. Seis semanas de férias eram bestiais. Mas brincar e encontrar coisas para nos divertirmos tornava-se um pouco cansativo.
E naquele Verão as férias tinham sido um tanto estranhas. Fiquei contente por deixá-las para trás e por retomar a vida normal. A mesma rotina, as mesmas aulas, os mesmos rostos. Bem, se não contar com o senhor Halloran.
Não era meu professor, o que era uma pena, mas ao mesmo tempo um alívio. Sabia demasiado acerca dele. Os professores devem ser simpáticos e afáveis, mas também devem guardar um certo distanciamento. Eu e o senhor Halloran partilhávamos um segredo, e embora de certa maneira isso fosse formidável, fazia-me sentir embaraçado na sua presença, como se nos tivéssemos visto despidos, ou coisa parecida.
É evidente que me cruzava com ele na escola. Estava lá à hora do almoço, às vezes de serviço durante o intervalo, e um dia deu-nos aula porque a senhora Wilkinson, a nossa professora de Inglês, estava doente. Era um bom professor.
Divertido, interessante, muito bom a tornar as aulas numa sessão alegre e nada monótona.
Tão bom, que depressa nos esquecíamos do seu aspecto, embora isso não impedisse os rapazes de lhe porem uma alcunha logo no primeiro dia: o Senhor Giz ou o Homem de Giz.
Aquele domingo decorria sem nada digno de registo. O que para mim era excelente. Era bom não ter nada para fazer, como de costume. A minha mãe e o meu pai também pareciam um pouco menos tensos. Estava lá em cima, no meu quarto a ler, quando ouvi a campainha da porta. Como às vezes me acontece, tive logo a percepção de que alguma coisa tinha acontecido.
Alguma coisa má.
– Eddie? – chamou cá de baixo a minha mãe. – O Mickey e o David estão aqui.
– Já vou.
Um tanto contrariado, desci a escada e dirigi-me à porta da frente. A minha mãe desapareceu na cozinha.
Metal Mickey e Hoppo esperavam na soleira da porta, com as respectivas bicicletas. Mickey estava muito corado e excitado.
– Caiu um miúdo ao rio.
– Pois foi – corroborou Hoppo. – Está lá uma ambulância, a polícia passou uma fita, e essas merdas todas. Queres vir ver?
Gostaria de poder dizer que achei macabro e despropositado o entusiasmo deles por irem ver um garoto morto. Mas tinha doze anos. É claro que também queria ver.
– Está bem.
– Então anda daí – incitou Mickey, impaciente.
– É só tirar a bicicleta.
– Despacha-te – incitou Hoppo. – Se não, quando lá chegarmos já não há nada para ver.
– O que há para ver? – perguntou a minha mãe, a espreitar da cozinha.
– Nada, mamã – respondi.
– Parecem com muita pressa para não irem ver nada.
– São só umas coisas novas no parque de jogos – mentiu Mickey.
Sempre foi muito bom a mentir.
– Não te demores. Quero-te em casa à hora de almoço.
– Está bem.
Montei na bicicleta e descemos a rua a toda a velocidade.
– Onde está o Gav Gordo? – perguntei a Mickey, que em geral o contactava sempre em primeiro lugar.
– A mãe dele disse que o mandou às compras. Ele é que fica a perder.
Como se veio a verificar, não foi ele quem perdeu. Foi Mickey.
Havia um cordão a vedar o acesso à margem do rio e um polícia afastava as pessoas que se aproximavam demasiado. Os adultos juntavam-se em pequenos grupos, com ar circunspecto.
Parámos as bicicletas junto a uma pequena turba de mirones.
Para dizer a verdade, foi um desapontamento. Além do cordão, a polícia tinha montado um grande pano de tenda verde. Não se via mesmo nada.
– Achas que o corpo está por detrás daquilo? – perguntou Mickey.
Hoppo encolheu os ombros.
– Provavelmente.
– Aposto que está verde e inchado e que os peixes lhe comeram os olhos.
– Que nojo! – exclamou Hoppo, que emitiu um som de repulsa.
Tentei expulsar da cabeça a imagem que Mickey tinha criado, mas ela recusou-se a mexer.
– É uma merda – suspirou ele. – Viemos demasiado tarde.
– Espera, estão a tirar qualquer coisa – disse eu.
Sentiu-se alguma agitação. Os polícias deslocavam com muito cuidado qualquer coisa que estava por detrás do pano verde. Não era um corpo. Era uma bicicleta. Pelo menos o que restava dela. Retorcida, presa por uma correia e coberta de limos viscosos. Mas assim que a vimos, compreendemos. Todos compreendemos. Era uma bicicleta de corrida BMX. De um vermelho-vivo e com uma caveira negra pintada.
Quem se levantasse cedo ao sábado ou ao domingo poderia ver Sean e a sua bicicleta de corrida BMX a circular pela cidade para distribuir jornais. No entanto, naquele domingo de manhã, ao sair para procurar a bicicleta, Sean verificara que ela tinha desaparecido. Alguém a tinha roubado.
No ano anterior houvera uma onda de roubos de bicicletas. Alguns dos rapazes mais velhos que andavam na secundária cortavam-lhes as correntes e atiravam-nas para o rio, pelo simples prazer de pregarem uma partida.
Deve ter sido por isso que foi o primeiro sítio onde Sean procurou. Adorava aquela bicicleta.
Mais do que tudo. Assim, quando viu o guiador a emergir da água, preso entre os ramos secos das árvores, resolveu entrar na água para a ir buscar, embora toda a gente soubesse que a corrente era forte e Sean Cooper um péssimo nadador.
Por pouco não conseguiu. Já tinha desembaraçado a bicicleta dos ramos das árvores quando o peso lhe fez perder o equilíbrio e caiu de costas. A água chegava-lhe ao peito. O blusão e as calças de ganga puxavam-no para baixo como dezenas de mãos a agarrá-lo. E estava gelado.
Terrivelmente gelado.
Agarrou-se aos ramos. Gritou, mas ainda era muito cedo, e nem havia ninguém a passear o cão. Deve ter sido então que Sean Cooper entrou em pânico. A corrente envolveu-lhe as pernas e os braços e começou a arrastá-lo.
Esperneou desesperadamente, na tentativa de chegar à margem, mas esta ficava-lhe cada vez mais longe e a cabeça não parava de submergir, e em vez de ar o que respirava era a água castanha e malcheirosa.
Na verdade, eu não sabia nada disto. Uma parte, descobri mais tarde. O resto, imaginei. A minha mãe sempre disse que eu tinha uma imaginação fértil. Proporcionava-me boas notas a Inglês, mas também me provocava pesadelos terríveis.
Creio que não dormi nessa noite, apesar do leite quente que a minha mãe me deu antes de me deitar. Só imaginava Sean Cooper verde, inchado e coberto de limos viscosos, como a sua bicicleta. Havia ainda outra coisa que não me saía da cabeça, uma coisa que o senhor Halloran tinha dito: karma. Colhe-se o que se semeia.
– Fazem-se coisas más, e elas acabam por nos vir morder o traseiro. O dia daquele rapaz há-de chegar. Podes estar certo disso.
Mas não tinha a certeza. Sean Cooper podia ter feito coisas más. Mas seriam assim tão más?
Mas não tinha a certeza. Sean Cooper podia ter feito coisas más. Mas seriam assim tão más?
Então e o Mickey? O que tinha ele feito?
O senhor Halloran não tinha visto a cara do Mickey quando percebeu que a bicicleta era a do irmão, nem ouviu o grito angustiado que ele lançou. Nunca mais queria voltar a ouvir aquele som.
Fomos precisos os dois, eu e Hoppo, para o impedir de correr para a tenda. Por fim, o alarido que ele fazia era tal que um polícia se acercou de nós. Quando explicámos quem o Mickey era, passou-lhe um braço pelos ombros e quase que o transportou para o carro. Ao cabo de alguns minutos, arrancaram. Senti-me muitíssimo aliviado. Ver a bicicleta de Sean tinha sido mau.
Ver Mickey naquele estado, enlouquecido e a gritar, foi pior.
– Sentes-te bem, Eddie?
O meu pai aconchegou-me os cobertores e sentou-se na beira da cama. O peso do seu corpo serviu para me tranquilizar.
– O que acontece quando morremos, papá?
– Uau! É uma boa pergunta, Eddie. Acho que ninguém sabe ao certo, ninguém tem a certeza.
– Então não vamos para o Céu ou para o Inferno?
– Há quem pense que sim. Mas há muitas outras pessoas que não acreditam que o Céu e o Inferno existam.
– Então não tem importância se tivermos sido maus, é isso?
– Não, Eddie. Não me parece que as nossas acções em vida façam alguma diferença depois de morrermos. Boas ou más. Mas fazem uma enorme diferença enquanto estamos vivos. Para as outras pessoas. É por isso que deves sempre fazer o possível por tratá-las bem.
Reflecti sobre aquilo e acenei. Quero dizer, achei que era um logro passar a vida a ser bom e depois não ir para o Céu, mas a outra parte agradou-me. Por muito que odiasse Sean Cooper, não me agradava a ideia de que ardesse eternamente nas chamas do Inferno.
– Eddie – disse o meu pai –, aquilo que aconteceu a Sean Cooper foi muito triste. Um acidente trágico. Mas não foi mais do que isso. Um acidente. Por vezes as coisas acontecem sem qualquer razão. A vida é assim. E a morte também.
– Estou a ver.
– Achas que agora consegues dormir?
– Sim.
Não me parecia, mas não queria que o meu pai pensasse que era um bebé.
– Muito bem, Eddie. Vamos apagar a luz.
Inclinou-se e deu-me um beijo na testa. Era raro fazê-lo. Naquela noite gostei de sentir o picar da barba hirsuta. Depois, apagou a luz e o quarto encheu-se de sombras. Há muito que me livrara da luz nocturna, mas naquela noite senti-lhe a falta.
Deitei a cabeça na almofada e procurei uma posição confortável. Ao longe, ouviu-se o piar de uma coruja. Um cão uivou, tentei pensar em coisas alegres e não em rapazes mortos afogados.
Coisas como andar de bicicleta, gelados e Pac-Man. Enterrei a cabeça mais fundo na almofada.
Os meus pensamentos vaguearam à deriva para os seus suaves recessos. Ao fim de algum tempo não pensava em nada. O sono acercou-se de mansinho e empurrou-me para o mundo das trevas.
Qualquer coisa me despertou de repente. Um fustigar insistente, como de chuva ou granizo.
Franzi a testa e virei-me na cama. Voltei a ouvi-lo. Pedrinhas a bater no vidro da janela. Saltei da cama, atravessei o soalho de pranchas nuas e afastei as cortinas.
Devia ter dormido bastante tempo, pois lá fora já era noite cerrada. A Lua era uma pincelada de prata, como um recorte de papel sobre o negrume do céu.
A fornecer-me apenas a luz suficiente para ver Sean Cooper.
De pé sobre a relva, na extremidade do pátio. Vestido com calças de ganga e o blusão azul de basebol, sujo e rasgado. Não estava verde nem inchado e os peixes não lhe tinham comido os olhos; apenas extremamente pálido e morto.
Um sonho. Tinha de ser um sonho. Acorda, pensei. Acorda, acorda, ACORDA!
– Ei, Cara de Merda.
Sorriu. Senti uma contracção no estômago. Com uma tranquilidade horrenda e doentia, percebi que não se tratava de um sonho. Era um pesadelo.
– Vai-te embora – articulei entredentes, os punhos cerrados, a enterrar as unhas nas palmas das mãos.
– Tenho uma mensagem para ti.
– Não quero saber. Vai-te embora – disse lá para baixo.
Procurei assumir um tom seguro, de desafio. Mas o medo paralisava-me a garganta e as palavras saíram-me num guincho agudo.
– Ouve, Cara de Merda, se não vieres cá abaixo tenho de ir aí buscar-te.
Sean Cooper morto no quintal era mau, mas Sean Cooper morto no meu quarto ainda era pior. E continuava a ser um sonho, não era? Só tinha de alinhar com ele até acordar.
– Está bem… Dá-me só um minuto.
Agarrei nos ténis que estavam aos pés da cama e calcei-os com mãos trémulas. Dirigi-me para a porta em bicos de pés, peguei na maçaneta e abri-a. Não me atrevi a acender a luz, de modo que segui às apalpadelas na parede até à escada, que desci centímetro a centímetro, como um caranguejo.
Cheguei ao fim da escada. Atravessei o corredor e entrei na cozinha. A porta das traseiras estava aberta. Saí para o exterior. O ar da noite beliscou-me a pele através do algodão fino do pijama, e uma brisa ligeira cariciou-me o cabelo. No ar pairava um odor a humidade, a azedo e a podridão.
– Deixa de farejar o ar como a porra de um cão, Cara de Merda.
Voltei-me de um salto. Sean Cooper estava de pé, à minha frente. Visto de perto, o seu
Voltei-me de um salto. Sean Cooper estava de pé, à minha frente. Visto de perto, o seu aspecto era mais horrendo do que da janela do quarto. A pele apresentava uma estranha tonalidade azulada. Viam-se-lhe as veias finas por baixo. Os olhos eram amarelos e encovados.
Perguntei-me se haveria um momento em que não seria possível sentir mais medo. Se havia, julgava tê-lo atingido.
– O que estás aqui a fazer?
– Já te disse. Tenho uma mensagem para ti.
– Qual é?
– Atenção aos homens de giz.
– Não percebo.
– E eu, pensas que percebo?
Deu um passo na minha direcção.
– Pensas que quero lá estar? Julgas que quero estar morto? Que gosto de cheirar assim mal?
Apontou para mim com um braço preso ao ombro de uma maneira estranha. Na verdade, percebi então, o braço não encaixava no ombro. Estava rasgado na parte superior. Os ossos brancos cintilavam sob a claridade enevoada da Lua.
– Só aqui estou por tua causa.
– Por minha causa?
– Isto é culpa tua, Cara de Merda. Foste tu quem começou isto.
Recuei um passo, em direcção à porta.
– Peço desculpa… peço muita desculpa.
– Realmente. – Os seus lábios contorceram-se num esgar. – Se assim é, por que não me mostras a tua esculp…
Agarrou-me o braço. Senti o calor da urina a escorrer-me pela perna.
– Chupa-me a picha.
– NÃÃÃOOO!
Puxei o braço com força. No mesmo instante em que o caminho de acesso era inundado por uma luz branca e intensa, proveniente da janela do patamar.
– EDDIE, ESTÁS ACORDADO? O QUE ESTÁS A FAZER?
Por um momento. Sean Cooper ficou iluminado como uma horrenda árvore de Natal, atravessado pela luz. Depois, à maneira de todos os monstros bons libertados das trevas, desmoronou-se e flutuou no ar como uma pequena nuvem de pó branco.
Olhei para baixo. No lugar onde ele antes se encontrava estava agora outra coisa. Um desenho. De uma brancura gritante, em contraste com o negrume da vereda. Uma figura rígida, meio submersa em ondas apenas esboçadas, com um braço erguido como se dissesse adeus. Não, pensei. Está a afogar-se. Não está a dizer adeus. E não era uma figura rígida… era um homem de giz.
Fui sacudido por um arrepio.
– Eddie?
Corri para casa e fechei a porta tão silenciosamente quanto pude.
– Está tudo bem, mamã. Só vim beber um copo de água.
– Não ouvi a porta das traseiras?
– Não, mamã.
– Bem, bebe a água e volta para a cama. Amanhã tens escola.
– Está bem, mamã.
– Lindo menino.
Tranquei a porta. Os dedos tremiam-me tanto que precisei de várias tentativas para rodar a chave na fechadura. Subi a escada, despi as calças molhadas do pijama e enfiei-as no cesto da roupa suja. Tirei umas calças lavadas e meti-me na cama. Durante muito tempo não consegui conciliar o sono. Deitado, imóvel, à espera de ouvir mais pedras a bater nas vidraças, ou o som abafado de pés molhados a subir os degraus.
A dado momento, quando lá fora os pássaros começavam a chilrear nas árvores, devo ter sido vencido pelo sono. Não por muito tempo. Acordei cedo. Antes da minha mãe e do meu pai.
Corri escada abaixo e abri a porta das traseiras, na esperança de que tudo não tivesse passado de um sonho. Não vi nenhum Sean Cooper morto. Não vi nenhum…