O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 30 de 30

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O Homem de Giz

Duas semanas mais tarde

– É isso.

Sinto um pequeno abalo no coração.

– Como sabias em que sítio ele caíra? A menos que estivesses presente?

A sua expressão perde vivacidade.

– Por que razão havia de matar o Mickey?

– Porque ele finalmente descobriu que foste tu o culpado do acidente? Ia contar ao Gav, escrever no livro? Diz-me tu.

Fita-me demasiado longamente, o que não me deixa à vontade. Depois, estende-me o cantil de bolso, a empurrá-lo contra o meu peito.

– Por vezes, Ed… é melhor não saber todas as respostas.

Duas semanas mais tarde

É estranho como a nossa vida parece pequena quando a deixamos para trás.

Ao fim de quarenta e dois anos, imaginava que o meu espaço sobre a terra havia de ser maior, a minha marca no tempo mais dilatada. Mas não, como acontece com quase toda a gente, a maior parte da minha vida – pelo menos a parte material – cabe sem dificuldade dentro de um grande camião de mudanças.

Fico a ver até que as portas se fecham sobre os meus últimos haveres, encaixotados e etiquetados. Os últimos, ou quase.

Dirijo aos homens das mudanças um sorriso que pretende ser jovial e cúmplice.

– Tudo em ordem?

– Tudo em ordem – repete o mais velho do grupo. – Tudo arrumado.

– Bom, bom.

Olho para a casa. O letreiro VENDIDO fita-me acusador, como que a dizer-me que de algum modo falhei, que aceitei a derrota. Pensei que a minha mãe ficasse triste por eu vender a casa, mas pareceu-me aliviada. Fez questão de não aceitar nem um tostão da venda.

– Vais precisar dele, Eddie. Instala-te. Um novo começo. Todos precisamos de um.

Levanto o braço quando o camião das mudanças se afasta. Aluguei um apartamento com uma única divisão, de maneira que a maior parte dos meus pertences vai directa para um armazém. Regresso à casa com todo o vagar.

Do mesmo modo que a vida me parece mais pequena, agora que os meus haveres foram retirados, inevitavelmente a casa parece-me maior. Deambulo sem destino pelo corredor até que subo a escada em passos pesados e vou ao meu quarto.

Sob a janela, onde a cómoda costumava estar, há uma mancha escura no chão. Dirijo-me para lá, ajoelho-me e tiro do bolso uma pequena chave de parafusos. Introduzo-a na ranhura entre as pranchas e levanto-as. Lá dentro só ficaram duas coisas.

Pego com cuidado na primeira: uma grande caixa de plástico. Por baixo, dobrada, uma mochila velha. A minha mãe comprou-ma depois de ter perdido a bolsa de cintura na feira. Já vos falei nisso? Gostava daquela mochila. Tinha uma imagem das Jovens Tartarugas Ninjas Mutantes e era muito mais porreira do que a bolsa de cintura. E também melhor para guardar coisas.

Tinha-a comigo quando pedalei para o bosque naquela manhã límpida e fria. Sozinho. Não sei dizer porquê. Era ainda muito cedo, e não tinha o hábito de ir sozinho para o bosque.

Especialmente no Inverno. Talvez fosse um pressentimento. Afinal de contas, nunca se sabe quando se vai encontrar qualquer coisa interessante.

 

E nessa manhã encontrei uma coisa muito interessante.

Tropecei na mão. Passado o choque da surpresa e depois de algumas buscas, encontrei o pé dela. Depois, a mão esquerda. As pernas. O tronco. E, por fim, a peça mais importante do puzzle humano. A cabeça.

Repousava sobre uma pequena pilha de folhas, a olhar para a cúpula de arvoredo. A luz do Sol filtrava-se por entre os ramos despidos, a formar poças de luz no solo da mata. Ajoelhei-me a seu lado, estendi uma mão trémula de expectativa, acariciei-lhe os cabelos e afastei-os do rosto. As cicatrizes já não pareciam tão horríveis. Do mesmo modo que o senhor Halloran as dissimulara com os toques suaves do pincel, a morte também as suavizara com a carícia fria da sua mão esquelética. Era de novo bela. Mas triste. E perdida.

Acariciei-lhe o rosto com os dedos e depois, sem pensar, levantei-a. Era mais pesada do que pensava. E agora que lhe tinha tocado, não era capaz de a largar. Não a podia deixar ali, perdida entre as folhas amareladas do Outono. A morte não só a tornara de novo bela como a fizera especial. E era eu o único a poder vê-la, o único a poder agarrá-la.

Com gestos cuidadosos e reverentes sacudi algumas folhas e coloquei-a na mochila. Ficava quente e seca, e não era obrigada a levantar os olhos para o sol. Também não queria que ela olhasse para a escuridão, ou que pedaços de giz se lhe enfiassem nos olhos. Por isso estendi a mão e fechei-lhe as pálpebras.

Antes de sair do bosque, peguei num pedaço de giz e desenhei indicações para o seu corpo, para que a polícia a pudesse encontrar. Para que o que restava dela não ficasse perdido por muito tempo.

No caminho de regresso, ninguém me interpelou nem me deteve. Se o tivessem feito, talvez confessasse. Quando cheguei a casa, levei para dentro a mochila com o meu novo e precioso bem e escondi-a debaixo das pranchas do soalho.

Percebi que tinha um problema. Precisava de falar de imediato à polícia sobre o corpo. E se me perguntassem pela cabeça? Não era um mentiroso convincente. Se percebessem que a levara? Se me metessem na prisão?

Foi então que tive a ideia. Peguei na caixa com os paus de giz e desenhei figuras de homem.

Para Hoppo, para o Gav Gordo e para Mickey. Mas troquei as cores para criar confusão. Para que ninguém soubesse quem as tinha desenhado.

Cheguei mesmo a desenhar um homem de giz para mim e fingi – até para comigo – que o encontrara ao acordar. Depois, cavalguei a bicicleta e dirigi-me ao parque de jogos.

Mickey já lá se encontrava. Os outros apareceram logo a seguir. Como eu esperava que fizessem.

Retiro a tampa do contentor e espreito lá para dentro. As órbitas vazias correspondem ao

Retiro a tampa do contentor e espreito lá para dentro. As órbitas vazias correspondem ao meu olhar. Algumas madeixas de cabelo estaladiço, fino como algodão-doce, agarram-se ao crânio amarelado. Olhando de perto continuam a notar-se pequenas incisões nos malares, onde a peça metálica do carrossel lhe retalhou a carne.

Não esteve em descanso durante todo este tempo. Ao fim de algumas semanas, o cheiro a podre no quarto tornou-se insuportável. O quarto dos adolescentes costuma cheirar mal, mas não assim. Escavei um buraco na extremidade do quintal e guardei-a lá vários meses. Mas voltei a levá-la para casa. Para a ter perto de mim. Em segurança.

Estico o braço para lhe tocar mais uma vez. Depois, olho para o relógio. Reponho relutantemente a tampa, enfio a caixa dentro da mochila e desço a escada.

Meto a mochila no porta-bagagem do automóvel e cubro-a com vários casacos e sacos. Não espero ser parado e interrogado sobre o conteúdo da mala, mas nunca se sabe. Podia ser embaraçoso.

Estou quase a sentar-me ao volante quando percebo que me esqueci das chaves de casa. O

agente imobiliário tem um conjunto, mas antes de sair tencionava deixar as minhas na caixa do correio, para o novo dono. Volto a pisar a gravilha do caminho, pego nas chaves e introduzo-as na…

Fico quieto. Na… do correio?

Procuro recordar-me da palavra, mas quanto mais tento mais ela parece escapar-me. … do correio? O raio da… do correio?

Acode-me à memória o meu pai, a olhar para o puxador da porta, incapaz de se lembrar da palavra óbvia que se lhe esquivava, a confusão e a frustração estampadas no rosto. Pensa, Ed.

Pensa.

E, por fim, chego lá. A ranhura do correio. É isso. A ranhura do correio.

Sacudo a cabeça. Estúpido. Entrei em pânico. Não foi nada. Estou só cansado e tenso, por causa da mudança. Está tudo bem. Não sou o meu pai.

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