O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 20 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

Essa atmosfera de expectativa parecia pairar sobre toda a Anderbury. Tudo parecia suspenso.

A polícia ainda não tinha acusado ninguém do ataque ao reverendo Martin, de modo que talvez fosse o efeito da suspeita: um olhar em volta, a dúvida se alguém conhecido teria sido capaz de fazer uma tal coisa.

As folhas encarquilhavam-se, secavam e acabavam por perder a frágil ligação que as prendia às árvores. Uma sensação de atrofia e morte que penetrava todas as coisas. Já nada parecia fresco, colorido ou inocente. Como se toda a cidade estivesse provisoriamente suspensa na sua cápsula temporal poeirenta.

Como se veio a verificar, estávamos mesmo à espera. E quando a mão branca da rapariga acenou por entre o montão de folhas mortas, foi como se toda a cidade despertasse de um longo torpor estagnado. Porque tinha acontecido. O pior tinha por fim acontecido.

2016

Na manhã seguinte acordo cedo. Ou melhor, acabo por desistir do sono ao fim de horas às voltas e reviravoltas, apenas interrompidas por sonhos dos quais só em parte me recordo.

Num deles, o senhor Halloran está montado no carrossel com a Rapariga do Carrossel. Tenho a certeza de que é ela por causa das roupas, pois falta-lhe a cabeça, poisada no colo do senhor Halloran, a gritar de cada vez que o empregado do carrossel, que identifico como Sean Cooper, lhes faz dar voltas atrás de voltas.

– Grita se quiseres andar mais depressa, Cara de Merda. Já disse, GRITA!

Arranco-me pesadamente da cama, a tremer e sem ter descansado. Visto qualquer coisa antes de descer a escada. Como penso que Chloe ainda deve estar a dormir, vou matando o tempo fazendo café, a ler e a fumar dois cigarros, do lado de fora da porta das traseiras. Quando o relógio marca mais de nove horas, o que é uma hora respeitável, pego no telefone e ligo para Hoppo.

Quem atende é a mãe.

– Olá, senhora Hopkins. O David está?

– Quem fala?

A voz dela é débil e trémula. Em acentuado contraste com os sons secos e precisos da minha mãe. A mãe de Hoppo sofre de demência. Como o meu pai, só que a Alzheimer dele surgiu mais cedo e progrediu mais depressa.

É por essa razão que Hoppo ainda vive na casa onde cresceu. Para tomar conta da mãe. Por vezes gracejamos sobre o facto de nenhum de nós, dois homens adultos, termos abandonado o lar de infância. Uma piada um tanto amarga.

– É Ed Adams, senhora Hopkins – digo.

– Quem?

– Eddie Adams. O amigo do David.

– Ele não está.

– Oh! Sabe quando volta?

Uma pausa prolongada. Depois, em tom mais áspero.

– Não precisamos de nada. Já temos vidros duplos.

Poisa bruscamente o telefone. Fico por um momento a olhar. Sei que não se deve dar grande importância ao que Gwen diz. O meu pai perdia-se com frequência a meio de uma conversa e dizia as coisas mais disparatadas que lhe vinham à cabeça.

Ligo para o telemóvel de Hoppo. Vou parar ao correio de voz. É sempre assim. Se não fosse por causa do negócio, tenho a certeza de que nunca havia de ligar o maldito telefone.

Bebo de um trago o que resta do meu quarto café e dirijo-me para o corredor. O dia está frio para meados de Agosto e o vento sopra com força. Olho em volta, à procura do sobretudo.

Costuma estar dependurado no cabide, ao lado da porta. Há já algum tempo que não o visto, pois o tempo tem estado agradável. No entanto, agora que preciso dele, não está no sítio.

Franzo o sobrolho. Detesto coisas fora do lugar. Foi o princípio do declínio do meu pai, e de cada vez que perco o norte às chaves sofro um ligeiro ataque de pânico. Começa-se por perder os objectos, depois perdem-se as palavras que os designam.

Lembro-me do meu pai uma manhã, o olhar vago fixado na porta da rua, a mexer em silêncio os lábios, as sobrancelhas cerradas de inquietação. Depois, bateu as palmas de repente como uma criança, sorriu e apontou para o puxador da porta.

– O cabide da porta. O cabide da porta. – Virou-se para mim. – Pensava que me tinha esquecido.

Estava tão feliz, tão contente, que não o pude contradizer. Limitei-me a sorrir.

– Boa, pai. Essa foi mesmo boa.

Verifico de novo o cabide. Pode ser que tenha deixado o sobretudo lá em cima. Mas não, por que razão haveria de levar o sobretudo lá para cima? Mesmo assim, subo penosamente a escada e procuro no meu quarto. Nas costas da cadeira? Não. Pendurado atrás da porta? Não. Dentro do roupeiro? Passo em revista as roupas penduradas nos cabides… até que vejo uma coisa enrolada a um canto, mesmo no fundo.

Dobro-me para a apanhar. O meu sobretudo. Olho para ele. Amarrotado, vincado e um pouco húmido. Tento recordar-me da última vez que o vi. Na noite em que Mickey cá esteve.

Recordo-me de pendurar o seu elegante e caro casaco desportivo no cabide ao lado dele. E

depois disso? Não me recordo de o ter voltado a vestir.

Mas talvez tenha. Talvez o tenha vestido mais tarde, nessa mesma noite, e vagueado pela noite fria e húmida e… e o quê? Empurrei o Mickey para o rio? Tenho a certeza de que me havia de lembrar se tivesse atirado ao rio o meu velho amigo.

É mesmo, Ed? Mas não te lembras de ter descido a escada e desenhado os homens de giz na lareira, pois não? Tinhas bebido imenso. Não fazes ideia do que poderás ter feito nessa noite.

Calo a vozinha irritante. Não tinha motivo para fazer mal ao Mickey. Estava a dar-me uma grande oportunidade. E se Mickey soubesse quem de facto matara a Rapariga do Carrossel – e assim ilibar o senhor Halloran – eu teria ficado satisfeito, não era?

Então, o que faz o sobretudo amarrotado no fundo do teu roupeiro, Ed?

Volto a olhar para ele e faço correr os dedos pelo tecido de lã áspera. Só então reparo noutra coisa. No punho de uma das mangas. Umas manchas baças, cor de ferrugem. Sinto um aperto na garganta.

Sangue.

 

Ser adulto não passa de uma ilusão. Quando penso nisso a sério, não estou seguro de que alguém chegue a adulto. Ficamos apenas mais altos e com mais pêlos na cara. Por vezes espanto-me por me deixarem conduzir um automóvel ou que ninguém me tenha denunciado por beber no pub.

Por baixo do verniz da idade adulta, sob as camadas de experiência que vamos acumulando à medida que os anos vão inexoravelmente avançando, continuamos a ser crianças com os joelhos esfolados e ranho no nariz que precisam dos pais… e dos amigos.

A furgoneta de Hoppo estava parada cá fora. Ao dar a volta à esquina deparo com Hoppo a descer da sua velha bicicleta, dois sacos cheios de paus secos e cascas sobre o guiador e uma grande mochila às costas. Acodem-me à memória os dias ensolarados de Verão, quando ele vinha do bosque carregado de lenha e gravetos para a mãe.

Apesar de tudo, não consigo evitar um sorriso quando o vejo passar a perna por cima do selim e encostar a bicicleta ao lancil.

– Ed, o que andas por aqui a fazer?

– Tentei ligar-te, mas tinhas o telemóvel desligado.

– Pois é. Fui ao bosque. O sinal lá é muito fraco.

– Os velhos hábitos levam tempo a morrer – respondo com um aceno de cabeça.

Hoppo sorri.

– A memória da minha mãe pode estar a desaparecer, mas nunca me havia de perdoar se eu tivesse de pagar pela lenha.

O sorriso desaparece-lhe do rosto, talvez ao atentar na minha cara.

– O que se passa?

– Já sabes do Mickey?

– Que fez ele agora?

Abro a boca, a língua agita-se lá dentro, até que o cérebro lhe ordena que articule as palavras óbvias:

– Está morto.

– Morto?

É curioso como as pessoas repetem sempre aquela palavra, ainda que saibam que a ouviram bem. Uma espécie de negação por adiamento.

Ao fim de alguns instantes, Hoppo pergunta:

– Como? O que aconteceu?

– Afogado. No rio.

– Jesus! Como o irmão.

– Não exactamente. Olha, posso entrar?

– Claro, com certeza.

Hoppo conduz a bicicleta à mão pelo carreiro curto. Sigo atrás dele. Hoppo abre a porta.

Hoppo conduz a bicicleta à mão pelo carreiro curto. Sigo atrás dele. Hoppo abre a porta.

Entramos por um corredor estreito e escuro. Não venho a casa de Hoppo desde que éramos garotos e mesmo então era raro entrar, por causa da barafunda. De vez em quando brincávamos no quintal dele, mas não durante muito tempo, pois o espaço era pequeno, pouco mais de um metro. Muitas vezes também lá havia cocó de cão por apanhar, algum recente, outro já esbranquiçado.

A casa cheira a suor, a comida azeda e a desinfectante. Do meu lado direito, através da porta aberta da sala de estar, vejo o mesmo sofá coçado de tecido às flores, e as cobertas de renda de um amarelo-sujo, cor de nicotina. A um canto, a televisão. No outro, uma cadeira com retrete e um andarilho.

A mãe de Hoppo está sentada ao lado do sofá, num cadeirão de costas altas, a olhar para um concurso qualquer na televisão. Gwen Hopkins sempre foi uma mulher pequena, mas com a idade e a doença parece ter encolhido ainda mais. Perdida dentro de um enorme vestido estampado e de um cardigan verde. Os seus punhos emergem das mangas como minúsculas excrescências de carne seca e mirrada.

– Mãe? – chama Hoppo em tom carinhoso. – Está aqui o Ed. Lembra-se do Eddie Adams?

– Olá, senhora Hopkins – cumprimento, naquele tom ligeiramente mais alto que as pessoas adoptam para falar com os velhos e os doentes.

Vira-se devagar e faz um esforço para perceber o que vê, ou talvez seja a sua mente a procurar um ténue entendimento. Sorri, a revelar os dentes postiços, regulares e de cor creme.

– Lembro-me de ti, Eddie. Tinhas um irmão. Sean, não era?

– Não, mãe, esse era o Mickey – corrige Hoppo. – Mickey é que tinha um irmão chamado Sean.

A senhora Hopkins franze a testa e sorri de novo.

– Ah, pois claro. Mickey. Como está ele?

– Está bem, mãe – responde Hoppo com rapidez. – Muito bem.

– Ainda bem. Podes arranjar-me um chá, David?

– Com certeza, mãe. – Olha-me de relance. – Vou pôr a cafeteira ao lume.

Deixo-me ficar à porta, a sorrir para Gwen, embaraçado. Paira na sala um cheiro desagradável. Pergunto-me há quanto tempo não será despejado o bacio.

– É um bom rapaz – diz Gwen.

– Pois é.

Franze a testa.

– Quem é você?

– Ed. Eddie. O amigo do David.

– Ah, sim, sim. Onde está o David?

– Foi à cozinha.

– Tem a certeza? Pensei que tinha ido passear o cão.

– Qual cão?

– Murphy.

– É isso. Não, não me parece que tenha ido passear o Murphy.

Aponta-me um dedo, que agita no ar.

– Tem razão. O Murphy morreu. Estava a falar do Buddy.

Buddy era o nome do cão que Hoppo tivera depois de Murphy e que também já tinha morrido.

– Oh, com certeza.

Faço um gesto de assentimento, ao qual ela corresponde. Acenamo-nos com a cabeça.

Teríamos feito um figurão no óculo traseiro de um automóvel. Inclina-se na minha direcção, sobre o braço da cadeira de rodas.

– Lembro-me de ti, Eddie. A tua mãe matava bebés.

A respiração prende-se-me na garganta. Gwen continua a sorrir e a acenar com a cabeça, mas agora há nisso qualquer coisa diferente, um esgar amargo no canto dos lábios, uma súbita lucidez nos olhos azul-baços.

– Não te preocupes. Eu não lhes digo nada. – Inclina-se para a frente, bate no nariz e pisca o olho num gesto vagaroso e trémulo. – Sei guardar um segredo.

– Ora cá está – diz Hoppo, a emergir da cozinha com uma chávena de chá. – Está tudo bem?

Olho para Gwen, mas a sua lucidez desvanece-se e o olhar volta a toldar-se, perdido na confusão.

– Tudo bem – respondo. – Estávamos só a conversar.

– Pronto, mãe, está aqui o chá. – Pousa a chávena sobre a mesa. – Cuidado, está quente. Tem de o soprar antes de beber.

– Muito obrigada, Gordy.

– Gordy? – pergunto, virado para Hoppo.

– O meu pai – responde num murmúrio.

– Oh!

Em geral, o meu pai não confundia as pessoas, mas por vezes chamava-me «filho» para que eu não percebesse que se tinha esquecido outra vez do meu nome.

Gwen reclina-se na cadeira, a olhar para a televisão, uma vez mais fechada no seu mundo, ou talvez num outro qualquer. Como é fino o tecido que separa as diversas realidades. Pode ser que os espíritos não se percam. Pode ser que apenas se passem para um outro lugar, onde podem vaguear.

Hoppo dirige-me um sorriso triste.

– Vamos até à cozinha?

– Claro.

Se tivesse sugerido nadar com tubarões também teria concordado, só para sair daquela sala abafada e malcheirosa.

A cozinha não é muito melhor. Os pratos sujos amontoam-se no lava-loiças. Sobre o balcão, pilhas de revistas antigas, envelopes, embalagens económicas de sumos e de cola. A mesa foi limpa à pressa, mas ainda se vêem os restos de um velho rádio, ou talvez sejam peças internas de um motor. Não sou habilidoso com as mãos – como sempre aconteceu com Hoppo –, não tenho jeito para montar e desmontar coisas.

Sento-me numa das velhas cadeiras de madeira. Range e desengonça-se um pouco.

– Chá? Café? – oferece Hoppo.

– Ehhh… pode ser café, obrigado.

Hoppo dirige-se para a cafeteira, que para variar é nova, e pega num par de canecas que estavam a escorrer.

Despeja algum pó de café na minha e vira-se para me encarar.

– Então? O que aconteceu?

Volto a relatar os acontecimentos dos dois últimos dias. Hoppo escuta-me em silêncio. A sua expressão não se altera até eu chegar ao último pormenor.

– O Gav diz que também recebeste uma carta – digo.

Faz um gesto de concordância e acrescenta água a ferver ao pó de café.

– Sim, já lá vão mais ou menos duas semanas. – Dirige-se ao frigorífico, tira um pacote de leite, cheira-o e despeja um pouco em cada caneca. – Achei que se tratava de uma piada de mau gosto.

Traz as bebidas para a mesa e senta-se à minha frente.

– Mas a polícia pensa que foi um acidente, a morte do Mickey?

Eu tinha sido intencionalmente vago quanto a isso, mas agora digo:

– Para já.

– Pensas que vão mudar de opinião?

– Encontraram a carta.

– Não quer dizer nada.

– Não?

– O quê? Pensas que alguém nos vai apanhar um por um, como uma coisa saída de um livro?

Não era o que eu pensava, mas agora que ele o dizia tornava-se demasiado plausível. E faz-me pensar noutra coisa. Será que Nicky também teria recebido uma carta?

– Estou a brincar – diz ele. – Tu disseste que o Mickey estava embriagado. Estava escuro e não há luzes ao longo daquele troço do caminho. O mais provável é ter caído. Os bêbedos estão sempre a cair aos rios.

Tem razão, mas. Há sempre um «mas». Uma coisa chata e irritante que nos causa um nó nas tripas.

– Há mais alguma coisa?

– Naquela noite, quando o Mickey foi lá a casa, estivemos a conversar, e ele disse… disse que sabia quem tinha morto a Elisa.

 

– Uma ova!

– Bem, foi o que eu pensei, mas e se ele estivesse a dizer a verdade?

Hoppo bebe um pequeno gole de café.

– Então pensas que foi o «verdadeiro» assassino que empurrou Mickey para o rio?

– Não sei – digo, e abano a cabeça.

– Olha, o Mickey sempre foi bom a armar confusões. E parece que o consegue fazer mesmo depois de morto. – Cala-se por um momento. – Além disso, foste a única pessoa a quem ele falou nessa teoria, não foste?

– Penso que sim.

– Se assim é, como podia o «verdadeiro» assassino saber que o Mickey desconfiava dele?

– Bem…

– A menos que tenhas sido tu.

Olho-o nos olhos.

As manchas baças, cor de ferrugem. Sangue.

– Estava a brincar – diz ele.

– É evidente.

Beberico um gole de café. É evidente.

No regresso da casa de Hoppo, pego no telemóvel e ligo para Chloe. Continuo a sentir que as coisas não estão bem entre nós. Como se houvesse algo pendente, à espera de resolução.

Incomoda-me. Além de Hoppo e de Gav, é a única amiga verdadeira que tenho.

Atende ao terceiro toque.

– Estou.

– Olá. Sou eu.

– Já percebi.

– Refreia o teu entusiasmo.

– Estou a tentar.

– Desculpa aquilo de ontem, da minha mãe.

– Não faz mal. É a tua mãe. É a tua casa.

– Sim, mas de qualquer maneira peço desculpa. O que estás a fazer para o almoço?

– Estou no trabalho.

– Oh! Pensei que hoje estivesses de folga.

– Adoeceu uma pessoa.

– Está bem. Bem…

– Olha, desculpas aceites, Ed. Tenho de desligar. Uma cliente.

– Tudo bem. Então, até logo.

– Talvez.

Desliga a chamada. Fico por um momento a olhar para o telefone. Com Chloe, as coisas

Desliga a chamada. Fico por um momento a olhar para o telefone. Com Chloe, as coisas nunca são fáceis. Paro, acendo um cigarro e penso em comprar uma sanduíche a caminho de casa. Depois, reconsidero. Chloe pode estar a trabalhar, mas há-de ter um intervalo para almoço. Não me deixo pôr de parte com tanta facilidade. Volto para casa, pego no automóvel e conduzo até Boscombe.

Nunca visitei Chloe quando ela está a trabalhar. Devo confessar que uma «loja alternativa rock/gótica» não é o meu habitat natural. Creio que tenho tido um certo receio de lhe causar embaraço, e a mim também.

Nem sei ao certo onde é. Abro caminho por entre o tráfego habitual de um feriado e lá encontro um estacionamento com parcómetro. Gear, a loja de Chloe (o símbolo da marijuana no anúncio sugere mais do que vestuário), fica a meio de uma rua lateral, entalada entre um bar para estudantes e uma loja de artigos em segunda mão e em frente de um clube de rock chamado The Pit.

Empurro a porta, que faz retinir uma sineta. Dentro da loja, a luz é escassa e o ruído intenso.

Qualquer coisa que tanto pode ser música como alguém a quem arrancam os membros do corpo – um coro de gritos por cima da minha cabeça que logo me agridem dolorosamente os tímpanos.

Algumas adolescentes esqueléticas deambulam por entre as roupas expostas, não sei se fazem parte do pessoal ou se são clientes. Do que tenho a certeza é que Chloe não está. Franzo a testa.

À caixa está uma jovem esguia, de cabelo encarniçado de um lado, o crânio rapado do outro, e uma abundância de piercings de prata disseminados pela cara. Quando se vira, noto que na Tshirt que lhe cobre o corpo escanzelado exibe as palavras «Furada. Penetrada. Mutilada.» Que maravilha.

Dirijo-me para a caixa. A Rapariga dos Piercings olha-me e sorri.

– Olá. Posso ajudá-lo?

– Bem… na verdade estava à procura de outra pessoa.

– Que pena.

Solto uma risada, um tanto nervoso.

– Uma pessoa que trabalha aqui. Uma amiga. Chloe Jackson.

A rapariga franze o sobrolho.

– Chloe Jackson?

– Sim. Magra. Cabelo escuro. Costuma vestir-se de preto.

Continua a olhar para mim e dou-me conta de que a descrição é aplicável a quase todas as pessoas que ali se encontram.

– Desculpe. Não me estou a lembrar de ninguém. Tem a certeza de que ela trabalha aqui?

Tinha, mas começo a duvidar de mim. Se calhar, enganei-me na loja.

– Há mais alguma loja deste género em Boscombe?

Pensa antes de responder.

– Na verdade, não.

– Está a ver.

Talvez por causa da expressão desolada do meu rosto e com pena do cavalheiro de meia-idade atrapalhado, diz:

– Oiça, só aqui estou há duas semanas. Deixe-me perguntar ao Mark. É o gerente.

– Muito obrigado – agradeço, embora aquilo não esclareça nada.

Chloe disse que estava hoje na loja, e tanto quanto sei tem vindo para cá trabalhar durante os últimos nove meses.

Enquanto espero observo uma fiada de relógios cujos mostradores são lúbricas caveiras vermelhas e uma pilha de postais de aniversário com os dizeres impressos «Aniversário Fodido» e «Feliz Aniversário, puta».

Ao cabo de alguns minutos surge em passo vagaroso um tipo alto e esgalgado, de cabeça rapada e com uma barba enorme.

– Olá. Chamo-me Mark e sou o gerente.

– Olá.

– Anda à procura da Chloe?

Experimento um certo alívio. Ele conhece-a.

– Sim. Julguei que trabalhava aqui.

– Trabalhou, mas já não trabalha.

– Sim? E quando saiu?

– Há mais ou menos um mês.

– Pronto. Estou a ver. – Embora de facto não esteja. – Estaremos a falar da mesma Chloe?

– Magra, cabelo preto, quase sempre apanhado em dois rabichos?

– Parece-me ela.

Fita-me com atenção.

– Disse que é sua amiga?

– Pensei que era.

– Para ser franco consigo, tive de a mandar embora.

– O que quer dizer com isso?

– Por causa das suas maneiras. Foi muito rude para com alguns clientes.

Mais uma vez, parece coisa de Chloe.

– Pensei que fosse natural, numa loja destas.

O homem sorri.

– Descontracção, sim. Insultos, não. Além disso, teve uma discussão aos berros com uma mulher que aqui entrou. Fui obrigado a intervir. Cheguei a pensar que se iam envolver à pancada. Por disso, despedi-a.

– Estou a ver.

Dou-me tempo para digerir tudo aquilo, como se fosse salmonela. Percebo que estão os dois a

Dou-me tempo para digerir tudo aquilo, como se fosse salmonela. Percebo que estão os dois a olhar para mim.

– Peço desculpa – digo. – Devem ter-me dado uma informação errada.

Uma forma elegante de dizer que fui enganado por alguém que pensava conhecer.

– Muito obrigado pela ajuda.

Dirijo-me para a porta e é então que tenho o meu momento Columbo. Viro-me.

– A mulher com quem Chloe discutiu, qual era o aspecto dela?

– Magra, bastante atraente para uma mulher daquela idade. Cabelos ruivos, compridos.

Imobilizo-me, com todos os nervos alerta.

– Cabelos ruivos?

– Sim. Vermelho-labareda. De facto, era uma brasa.

– Presumo que não tenha percebido o nome dela, não?

– Apontei-o, embora ela não quisesse, mas tinha de o fazer para o caso de haver alguma queixa.

– E ainda tem o papel onde o apontou? Sei que é pedir muito, mas… é mesmo importante.

– Bem, gosto sempre de ajudar os clientes. – Franze a testa, puxa pela barba e olha-me de alto a baixo. – É cliente, não é? Como não lhe vi nenhum saco…

Era de esperar. Não há almoços grátis. Suspiro, volto atrás e agarro na primeira camisola preta que encontro, decorada com caveiras lascivas. Passo-a à Rapariga dos Piercings.

– Levo esta.

A rapariga sorri, abre uma gaveta e tira de lá um pedaço de papel amarrotado, que me estende. Mal consigo decifrar o nome garatujado:

Nicola Martin.