O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 25 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

Mas antes disso quero tomar uma bebida. Melhor, preciso de tomar uma bebida. Ou mais do que uma. Entro no corredor e estaco. Pareceu-me ouvir um ruído, mas pode ser apenas o vento, ou um rangido da casa. Ainda assim… olho em redor… há qualquer coisa que está mal.

Há qualquer coisa na casa que faz que pareça diferente. Um vago aroma a baunilha. Feminino.

Deslocado. E a porta da cozinha. Está aberta de par em par. Não a fechei antes de sair?

Chamo em voz alta:

– Chloe!

Responde-me o silêncio. Pois claro. Que estúpido. São apenas os meus nervos, mais tensos do que as cordas de um Stradivarius. Atiro as chaves para cima da mesa. E nesse momento dou um pulo que quase me faz chegar ao tecto quando uma voz lacónica e arrastada me saúda da cozinha:

– Já não era sem tempo.

2016

Tem o cabelo solto, a chegar-lhe aos ombros. Pintado de louro. Não lhe fica bem. Usa calças de ganga, ténis Converse e uma velha camisola Foo Fighters. O rosto não apresenta a habitual carga de maquilhagem em volta dos olhos. Não parece Chloe. A minha Chloe. Que afinal nunca foi.

– Assumiste um new look? – pergunto.

– Apeteceu-me mudar.

– Creio que preferia a versão antiga.

– Eu sei. Desculpa.

– Não faz mal.

– Nunca tive intenção de te magoar.

– Não estou magoado. Apenas chateado.

– Ed…

– Poupa-me. Dá-me uma boa razão para não chamar imediatamente a polícia.

– Não fiz nada de mal.

– Perseguição. Cartas ameaçadoras. E que tal homicídio?

– Homicídio?

– Naquela noite, seguiste Mickey até ao rio e empurraste-o.

– Cristo, Ed. – Abana a cabeça. – Por que havia de matar o Mickey?

– Não me queres dizer?

– É aquela parte em que tenho de confessar tudo, como numa história policial de má qualidade?

– Pensei que fosse por isso que tinhas voltado.

Ergue uma sobrancelha.

– Voltei porque me esqueci de uma garrafa de gim no frigorífico.

– Serve-te à vontade.

Dirige-se ao frigorífico e tira de lá uma garrafa de Bombay Sapphire.

– Também queres?

– É uma pergunta desnecessária.

Serve duas porções generosas, senta-se à minha frente e ergue o copo.

– Cheers!

– Brindamos a quê?

– Às confissões?

Confessa.

Bebo um grande trago e só então me lembro de que não gosto de gim, mas neste momento qualquer bebida alcoólica me serve.

– Muito bem. Começas tu. Por que razão vieste viver para minha casa?

– Talvez por ter um fraquinho por homens mais velhos.

– Em tempos idos, isso seria a felicidade de um velho.

– E agora?

– Só quero saber a verdade.

– Muito bem. Há pouco mais de um ano, o teu amigo Mickey entrou em contacto comigo.

Não é a resposta que esperava.

– Como te encontrou ele?

– Não me encontrou. Encontrou a minha mãe.

– Julguei que a tua mãe tinha morrido.

– Não. Isso foi o que eu disse à Nicky.

– Mais uma mentira. Que surpresa.

– Bem podia estar morta. Não era uma mãe a sério. Passei metade da minha adolescência a entrar e a sair de lares.

– Pensei que ela tivesse encontrado Deus.

– Sim, mas depois dele encontrou a bebida, a erva e qualquer tipo que lhe pagasse uma vodca com cola.

– Lamento.

– Não lamentes. Seja como for, não precisou de muito para contar a Mickey quem era o meu verdadeiro pai. E quando digo muito estou a falar de meia garrafa de Smirnoff.

– Foi assim que Mickey te encontrou?

– Foi.

– Já sabias quem era o teu pai?

Faz um gesto de assentimento.

– A minha mãe contou-me há alguns anos, quando estava bêbeda. Não quis saber. Foi apenas um doador de esperma, um acidente biológico. Mas a visita de Mickey despertou-me a curiosidade. Além disso, ele fez-me uma proposta. Se o ajudasse nas pesquisas para um livro que estava a escrever, ele arranjava-me umas massas.

Experimento uma sensação deprimente de déjà vu.

– Conheço essa história.

– Eu sei. Só que eu exigi um pagamento adiantado.

Esboço um sorriso triste.

– É claro que exigiste.

– Ouve, não me sinto orgulhosa disso, mas disse para comigo que também devia fazer

– Ouve, não me sinto orgulhosa disso, mas disse para comigo que também devia fazer qualquer coisa por mim… descobrir a minha família, o meu passado.

– E o dinheiro não te fazia mal, pois não?

A sua expressão endurece.

– O que queres que eu diga, Ed?

Quero que não diga nada daquilo. Quero que não passe tudo de um pesadelo horrível. Mas a realidade é sempre mais dura e cruel.

– Portanto, e resumindo, Mickey pagou-te para me espiares a mim e à Nicky. Porquê?

– Disse que talvez te abrisses mais. O que daria um bom pano de fundo.

Pano de fundo. Creio que para Mickey nunca fomos mais do que isso. Não éramos amigos.

Só a porra de um pano de fundo.

– Foi então que a Nicky descobriu o que andavas a fazer e te pôs a andar?

– Mais ou menos.

– E eu até tinha um quarto vago. A ocasião não podia ser melhor.

Demasiado perfeita. Perguntara-me por que razão o jovem que estava para entrar (um aluno de medicina, muito nervoso) tinha mudado de repente de ideias e solicitado a devolução da caução. Mas agora posso arriscar uma conjectura.

– O que aconteceu ao outro potencial inquilino? – pergunto.

Passa o dedo pela borda do copo.

– Pode ser que tenha bebido uns copos com uma jovem que lhe disse que eras um velho libidinoso com um fraco por estudantes de medicina e que devia fechar o quarto à chave durante a noite.

– Muito Uncle Monty.

– Na verdade fiz-te um favor. O tipo era um idiota.

Abano a cabeça. Não há nada pior do que um velho parvo, talvez com excepção de um parvo de meia-idade. Estendo a mão para a garrafa e encho o copo. Emborco metade de um único trago.

– E as cartas?

– Não fui eu que as enviei.

– Então quem foi?

Sem lhe dar tempo de falar, respondo à minha pergunta:

– Foi o Mickey, não foi?

– Bingo! Ganhaste o jackpot.

Pois claro. A agitar as águas do passado. Para nos encher de cagaço. Mesmo coisa do Mickey.

Mas o tiro acabou por lhe sair pela culatra.

– Não lhe fizeste mal?

– Evidentemente que não. Jesus, Ed. Pensas mesmo que era capaz de matar alguém? – Cala-se por um momento. – Mas tens razão. Naquela noite fui atrás dele.

De repente, dá-se um clique.

– Levaste o meu sobretudo?

– Estava frio. Agarrei nele ao sair.

– Porquê?

– Porque me ficava bem…

– O que eu quero saber é por que razão o seguiste.

– Sei que não vais acreditar em mim, mas estava farta de mentir. Ouvi mais ou menos a história que ele te estava a impingir. Fiquei furiosa. De modo que fui atrás dele. Para lhe dizer que já chegava.

– O que aconteceu?

– Riu-se na minha cara. Acusou-me de ser um arranjinho teu e que mal podia esperar para incluir isso no livro, para lhe dar cor.

Mesmo uma coisa do velho Mickey.

– Preguei-lhe uma chapada – prossegue. – Na cara. Talvez com mais força do que queria.

Saltou-lhe o sangue do nariz. Insultou-me e foi-se embora aos tropeções…

– Em direcção ao rio?

– Não sei. Não fiquei a ver. Mas não o empurrei.

– E o meu sobretudo?

– Ficou sujo, com o sangue do Mickey. Não podia voltar a pendurá-lo no cabide, de maneira que o encafuei no fundo do teu guarda-fatos.

– Obrigado.

– Não pensei que precisasses dele e contava mandá-lo limpar, quando as coisas estivessem mais calmas.

– Até agora convenceste-me.

– Não estou aqui para te convencer, Ed. Acredita naquilo que quiseres.

Mas acredito nela. Como é evidente, fica por esclarecer o que depois aconteceu a Mickey.

– Por que te foste embora? – pergunto.

– Uma amiga da loja disse-me que tinhas lá ido procurar-me. Telefonaram-me. Percebi que se descobrisses sobre Nicky perceberias que te tinha mentido. Não era capaz de te encarar, pelo menos de momento.

Baixo os olhos para o copo.

– E então foste-te embora sem mais nem menos?

– Voltei.

– Por causa do gim.

– Não foi só por causa do gim. – Estende a mão para agarrar a minha. – Não foram só mentiras, Ed. Tu és meu amigo. Naquela noite em que me embebedei estive para te dizer a verdade, sobre tudo.

Gostaria de conseguir retirar a minha mão. Mas o meu orgulho não é assim tanto. Deixei que

Gostaria de conseguir retirar a minha mão. Mas o meu orgulho não é assim tanto. Deixei que os seus dedos brancos e frios repousassem por um momento sobre os meus antes de ela afastar a mão para procurar qualquer coisa no bolso.

– Olha. Sei que não posso emendar tudo, mas pode ser que isto ajude.

Deposita sobre a mesa um pequeno bloco de apontamentos, de capa preta.

– O que é isso?

– É o bloco do Mickey.

– Como está em teu poder?

– Roubei-lho do bolso do casaco, enquanto ele estava cá em casa.

– Não me estás a convencer muito quanto à tua honestidade.

– Nunca disse que era honesta. Apenas disse que não eram só mentiras.

– O que tem escrito?

Encolhe os ombros.

– Não li muito. Para mim não faz sentido, mas pode ser que faça para ti.

Folheio algumas páginas. Os rabiscos de Mickey são quase tão ilegíveis como os meus. As frases nem são coerentes. São apontamentos soltos, ideias, nomes (o meu é um deles). Volto a fechá-lo. Pode ser alguma coisa, mas também pode não ser nada. Prefiro olhar para ele mais tarde, quando estiver sozinho.

– Obrigado.

– Não tens de quê.

Há outra coisa que preciso de saber.

– Por que motivo foste visitar o teu pai? Foi também por causa do Mickey e do livro?

Olha-me com ar espantado.

– Tens andado a fazer as tuas pesquisas, não é?

– Um pouco.

– Bem, não teve nada a ver com o Mickey. Foi por mim. Inútil, é claro. Ele não faz a mínima ideia de quem eu sou. Talvez seja melhor assim, não?

Levanta-se e pega numa mochila que está no chão. Na parte de cima vejo uma tenda enrolada.

– O dinheiro do Mickey não chega para um hotel de cinco estrelas?

– Nem para um Travelodge. – Fita-me friamente. – Se queres saber, usei-o para pagar um curso na universidade, para o ano que vem.

Atira a mochila para as costas. Ajoujada sob o peso, parece ainda mais magra e frágil.

Apesar de tudo, pergunto:

– Vais ficar bem, espero?

– Uma noite ou duas a acampar no bosque não fazem a mal a ninguém.

– No bosque. Não estás a falar a sério, pois não? Não podes ir para uma pensão, ou coisa parecida?

Olha-me e diz:

– Não tem importância. Já fiz isto antes.

– Mas não é seguro.

– Estás a falar no Grande Lobo Mau ou na Bruxa Malvada e na Casinha de Chocolate?

– Isso. Troça de mim.

– É a minha função. – Dirige-se para a porta. – Até à vista, Ed.

Devia ter dito alguma coisa. Nos teus sonhos. Não se for eu a ver-te primeiro. Nunca se sabe.

Qualquer coisa. Qualquer coisa adequada ao fim do nosso relacionamento.

Mas não o faço. E o momento passa, a cair pelo grande abismo para se juntar a todos os outros momentos perdidos; a todos os devia ser, podia ser e se ao menos, que constituem o enorme buraco negro que é o cerne da minha vida.

Oiço bater a porta da frente. Levanto o copo e descubro que está vazio. E o mesmo acontece com a garrafa de gim. Levanto-me, agarro numa garrafa de bourbon e sirvo-me abundantemente. Sento-me e volto a folhear o bloco de apontamentos. A minha intenção é apenas dar-lhe uma vista de olhos. Mas depois de quatro grandes doses de uísque ainda o estou a ler. Devo ser sincero: Chloe tem razão, nada disto faz sentido. Pensamentos avulsos, corrente de consciência, muita bílis injustificada. E a ortografia de Mickey era ainda pior do que a letra.

Contudo, insisto em regressar a uma página, perto do fim: Quem queria matar Elisa?

O Homem de Giz? Ninguém.

Quem queria mal ao reverendo Martin?

Toda a gente! Suspeitos: o pai de Ed, a mãe de Ed. Nicky. Hannah Thomas? Grávida do filho de Martin. O pai de Hannah? Hannah? Hannah – revendo Martin. Elisa – senhor Halloran. Ligação?

Ninguém queria fazer mal a Elisa – importante.

CABELO.

Qualquer coisa me faz comichão num canto do cérebro, mas não consigo lá chegar para me coçar como deve ser. Por fim, fecho o bloco e ponho-o de parte. É tarde e estou embriagado.

Nunca ninguém encontrou respostas no fundo de uma garrafa. A ideia também não é essa.

Quando se chega ao fundo da garrafa é para esquecer as perguntas.

Apago a luz e começo a subir a escada em passos hesitantes. Até que reconsidero e volto aos tropeções para a cozinha. Agarro no bloco de Mickey e levo-o comigo. Sirvo-me da casa de banho, atiro o bloco para cima da mesa-de-cabeceira e deixo-me cair sobre a cama. Espero que o bourbon me faça perder a consciência antes de o sono se apoderar de mim. A distinção é importante. O torpor provocado pelo álcool é diferente. É um mergulho directo na inconsciência, on the rocks. Com o verdadeiro sono, vagueamos, sonhamos. E por vezes…

estamos despertos.

 

Abro de súbito os olhos. Não é um despertar gradual, por entre as camadas do sono. O

coração cavalga-me no peito, tenho o corpo coberto por uma fina capa de suor e sinto os olhos arregalados. Qualquer coisa me despertou. Não. Corrijo. Qualquer coisa me arrancou para um estado de vigília.

Relanceio os olhos pelo quarto. Vazio, só que nenhum compartimento está vazio, pelo menos na escuridão. As sombras pairam nos cantos e derramam-se pelo chão, em movimentos sonolentos. Mas não foi isso que me acordou. É a sensação de que, ainda há poucos segundos, alguém estava sentado na minha cama.

Sento-me. A porta do quarto está escancarada. Tenho a certeza de que a fechei antes de me deitar. A claridade pálida da Lua penetra pela janela do patamar, a iluminar o corredor. Deve ser noite de lua cheia, penso. Muito adequado. Rodo as pernas para fora da cama, apesar de a pequena parte racional do meu cérebro, a única que subsiste mesmo num estado de sono letárgico, me dizer que é má ideia, uma ideia mesmo má, o pior possível. Preciso de acordar. Já.

Mas não consigo. Não me liberto deste sonho. À semelhança de algumas coisas na vida, há sonhos que têm de seguir o seu rumo. Mesmo que conseguisse acordar, o sonho havia de voltar. É o que estes sonhos sempre fazem, até que os sigamos até ao seu núcleo putrefacto e lhes cortemos as raízes em supuração.

Enfio os pés nos chinelos e visto o roupão. Aperto-o na cintura e dirijo-me para o patamar.

Olho para baixo. No chão vejo terra e mais alguma coisa. Folhas.

Movo-me mais depressa, a descer a escada que range, atravesso o corredor e vou à cozinha. A porta das traseiras está aberta. Uma lufada de ar frio acaricia-me os tornozelos. Lá fora, a escuridão chama-me com um gesto dos seus dedos gélidos. Pela porta aberta, o cheiro que me chega não é o do ar fresco da noite, mas o odor fétido da podridão. Num gesto instintivo, tapo o nariz e a boca com a mão. Enquanto isso, olho para baixo. Nos mosaicos escuros da cozinha, um homem de giz de braço esticado aponta para a porta. Pois claro. Um homem de giz a indicar o caminho. Tal como dantes.

Espero ainda um momento e depois, com um derradeiro olhar triste sobre os contornos familiares da cozinha, atravesso a soleira da porta.

Não estou no caminho de acesso. Como é próprio dos sonhos, este saltou para outro lugar. O

bosque. As sombras rumorejam e murmuram à minha volta, as árvores gemem e estalam, as ramarias agitam-se de um lado para o outro, insones, atormentadas pelos terrores da noite.

Tenho uma lanterna na mão, mas não me lembro de ter pegado nela. Dirijo o foco em volta e detecto movimento mais à frente, entre as ervas. Avanço, a ignorar deliberadamente os batimentos acelerados do coração, apenas concentrado nos pés que esmagam e fazem estalar o solo irregular. Não sei durante quanto tempo ando. Parece uma eternidade, mas não devem ser mais do que segundos. Sinto que já devo estar perto. Mas perto de quê?

Estaco. De repente, o bosque perdeu espessura. Estou numa pequena clareira. Que

 

Estaco. De repente, o bosque perdeu espessura. Estou numa pequena clareira. Que reconheço. É a mesma onde estive, há muitos anos.

Ilumino o espaço à minha volta. Está vazio, com excepção de alguns pequenos montes de folhas. Mas não são enroladas, castanhas e alaranjadas como da outra vez. Já estão mortas, encarquilhadas, cinzentas, apodrecidas. E movem-se, apercebo-me com um terror crescente.

Cada um dos pequenos montes se agita sem descanso.

– Eddieee! Eddieee?

Não é a voz de Sean Cooper, nem mesmo a do senhor Halloran. Esta noite tenho uma companhia diferente. Uma companhia feminina.

O primeiro monte de folhas abre-se numa explosão e uma mão branca emerge como um animal nocturno que desperta da hibernação. Sufoco um grito. De outra pilha de folhas brota um pé, a flectir os dedos de unhas pintadas de cor-de-rosa. Uma perna avança sobre um coto sangrento, e por fim, a pilha maior explode e dela irrompe um torso esguio que se arrasta pelo chão como uma horrenda lagarta humana.

Mas continua a faltar uma peça. Olho em redor e vejo que a mão saltita, a caminhar sobre as pontas dos dedos, para o monte de folhas mais distante. Desaparece debaixo dele para logo em seguida ela emergir do monturo apodrecido, numa pose quase majestática, os cabelos a caírem sobre o rosto desfigurado, transportada ao alto pela mão decepada.

Deixo escapar um gemido. A bexiga, repleta de bourbon, trai-me vergonhosamente e a urina quente escorre-me pelas pernas das calças do pijama. Mal dou por isso. Tudo quanto vejo é a cabeça dela a correr apressada pelo solo da floresta na minha direcção, o rosto ainda encoberto por um véu de cabelos sedosos. Cambaleio para trás, prende-se-me o pé na raiz de uma árvore e caio com grande aparato sobre o traseiro.

Os dedos dela enclavinham-se em volta do meu tornozelo. Quero gritar, mas as minhas cordas vocais estão paralisadas. O híbrido cabeça/mão sobe-me com delicadeza pela perna, evita as virilhas molhadas e descansa por momentos sobre o meu estômago. Passei além do medo. Além da repulsa. Se calhar, vários pontos além da sanidade mental

– Eddieee – sussurra ela. – Eddieee.

A mão rasteja sobre o meu peito. Ela começa a levantar a cabeça. Sustenho a respiração, à espera que os olhos acusadores pousem sobre mim.

Confessa, penso. Confessa.

– Perdão. Peço perdão.

Os dedos acariciam-me o queixo e os lábios. Só então reparo num pormenor. As unhas dela.

Estão pintadas de preto. Não está certo. Não está…

Puxa o cabelo para trás, o cabelo recém-pintado de louro, manchado pelo sangue que escorre do pescoço cortado.

Só então percebo o meu erro.

Acordo no chão, ao lado da cama, enrolado nos cobertores. Sinto uma dor no cóccix. Deixo-me ficar deitado, a arquejar, até que a realidade me penetre os sentidos. Mas não resulta. A proximidade do sonho continua a subjugar-me. Ainda lhe consigo ver a cara. Sinto nos lábios o toque dos seus dedos. Levo a mão ao cabelo e desembaraço um caule de erva. Baixo os olhos para os pés. As dobras do pijama e as solas dos meus chinelos estão sujas de terra e de folhas esmagadas. Chega-me ao nariz o odor acre da urina. Engulo em seco.

Mas há mais alguma coisa, e tenho de lhe compreender depressa o significado, antes que se esgueire para longe como a horrenda cabeça aracnídea do meu sonho.

Levanto-me com esforço e apalpo a cama às cegas. Ligo o interruptor do candeeiro da mesa-de-cabeceira e agarro no bloco de apontamentos de Mickey. Folheio-o em movimentos frenéticos até chegar à última página. Olho para as notas garatujadas por Mickey e de repente qualquer coisa se abre no meu espírito com uma clareza absurda. Quase consigo ouvir o ping da lâmpada que se ilumina.

É como quando se olha para uma daquelas ilusões de óptica e, por muito que se tente, não se vê mais do que uma série de pontos e linhas retorcidas. E ao mover a cabeça apenas um milímetro depara-se-nos de repente a imagem oculta. Clara como água. E depois de tê-la visto, espanta-nos como não a vimos antes. Tão enganadora e loucamente óbvia.