O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 22 de 30

Páginas do PDF

O Homem de Giz

Capítulo 2016

– Mas ele é meu amigo.

– Já não é, Eddie. Neste momento, não sabemos ao certo o que ele é. Nunca mais te deves encontrar com ele.

– Porquê?

– Porque é isso que te dizemos, Eddie – replicou a minha mãe em tom áspero.

A minha mãe nunca dizia aquilo. Costumava dizer que não se pode mandar uma criança fazer qualquer coisa e esperar que ela o faça sem uma razão. Mas detectei-lhe no rosto uma expressão que nunca lhe tinha visto. Nem quando o pacote chegou. Nem quando o tijolo nos entrou pela janela. Nem mesmo quando aquelas coisas más aconteceram ao reverendo Martin.

Parecia assustada.

– Então, prometes?

Baixei os olhos e disse entredentes:

– Prometo.

O meu pai pousou-me no ombro uma grande mão pesada.

– Lindo menino.

– Posso ir um bocadinho para o meu quarto?

– Com certeza.

Deixei-me escorregar da cadeira e subi a escada. Pelo caminho, descruzei os dedos.

2016

Respostas. Para uma pergunta que nem formulei. Que nunca pensei formular. Seria Chloe o que aparentava ser? Teria andado a mentir-me?

Tive de a despedir. Teve uma discussão com uma cliente. Nicky.

Procuro nas gavetas da cozinha, a vasculhar freneticamente entre listas de restaurantes de take away, cartões de vendedores e folhetos de supermercado, na tentativa de pôr em ordem os meus pensamentos tumultuosos, em busca de uma explicação racional.

Talvez Chloe tenha encontrado outro emprego e não se tenha dado ao trabalho de me contar.

Talvez se sentisse envergonhada por ter sido despedida, embora isso não seja muito próprio de Chloe. Talvez a discussão com Nicky fosse acidental. Talvez nem fosse a Nicky que eu conheço (ou conhecia). Podia ser outra mulher de meia-idade, magra e atraente, com cabelos ruivos e chamada Nicky. Sim, pode ser. Estou a imaginar coisas, mas é possível.

Por diversas vezes me sinto tentado a ligar-lhe, mas não o faço. Ainda não. Antes disso, tenho de fazer outra chamada.

Fecho a gaveta com força e dirijo-me para o andar de cima. Não para o meu quarto, mas para o quarto onde guardo as minhas colecções. Olho para as caixas empilhadas e de cabeça excluo logo algumas.

Depois de partir, Nicky enviou um postal a cada um de nós com o seu novo endereço.

Escrevi-lhe várias vezes, mas nunca tive resposta.

Tiro três caixas de uma das prateleiras mais altas e começo a trabalhar nelas. A primeira não oferece resultados, nem a segunda. Desencorajado, abro a terceira.

Quando o meu pai morreu, recebi outro postal. Apenas com uma palavra. Lamento. N. E

desta vez, acompanhada por um número de telefone. Nunca lhe liguei.

O meu olhar aterra sobre um postal amarrotado com uma imagem do cais de Bournemouth.

Pego nele e viro-o. Bingo! Agarro no telefone.

Farta-se de tocar. Pode ser que o número já não seja este. Pode ter mudado de telefone. É…

– Estou?

– Nicky, é o Ed.

– Ed?

– Eddie Adams…

– Não, não, sei muito bem quem és. Apenas fiquei surpreendida. Já se passou bastante tempo.

É verdade. Mas ainda consigo perceber quando ela está a mentir. Não está surpreendida. Está

 

É verdade. Mas ainda consigo perceber quando ela está a mentir. Não está surpreendida. Está preocupada.

– Eu sei.

– Como tens passado?

Uma boa pergunta. Com muitas respostas. Opto pela mais fácil.

– Já estive melhor. Escuta, sei que isto é inesperado, mas podemos conversar?

– Julguei que era o que estávamos a fazer.

– Pessoalmente.

– A respeito de quê?

– Chloe.

Silêncio. Tão prolongado que pensei que desligara o telefone.

Até que diz:

– Largo o trabalho às três.

O comboio para Bournemouth chega às três e trinta. Passo o resto do dia a fingir que leio, a virar as páginas do livro mais recente de Harlan Coben. Quando o comboio pára, saio da estação e junto-me à multidão que se dirige para a beira-mar. Atravesso nos semáforos e enveredo pelos carreiros sinuosos de Bournemouth Gardens.

Apesar de não ficar a mais de trinta quilómetros, raramente vou a Bournemouth. Não sou um apreciador da beira-mar. Já em criança tinha medo das ondas e detestava a areia esponjosa e áspera que se metia entre os dedos dos pés; uma sensação que se agravou quando uma vez vi alguém a enterrar uma sanduíche meio comida. Desde então, recuso-me a andar descalço pela areia e uso sempre chinelos ou ténis.

No dia de hoje, não um dos mais quentes deste fim de Verão, ainda há um número razoável de pessoas a vaguear pelos jardins e a jogar minigolfe (de que gostava muito quando era criança).

Chego à marginal, rodeio o espaço agora vazio, onde o monstruoso cinema IMAX vai caindo em ruínas após anos de abandono, sigo ao longo da arcada das diversões e viro à direita, na direcção dos cafés da beira-mar.

Sento-me na esplanada de um deles e vou fumando enquanto bebo devagar um cappuccino morno. Só há outra mesa ocupada por um casal jovem. Uma mulher de cabelos louros curtos, pintados, e o seu companheiro, de tranças e uma infinidade de piercings. Sinto-me – e decerto pareço – muito velho e formal.

Tiro o livro do bolso, mas mais uma vez não me consigo concentrar. Olho de relance para o relógio. São quase quatro menos um quarto. Tiro outro cigarro do maço – é o terceiro no espaço de meia hora – e inclino-me para a frente para o acender. Quando levanto a cabeça, Nicky está de pé à minha frente.

– Um hábito repugnante. – Puxa uma cadeira e senta-se. – Tens um a mais?

Empurro o maço e o isqueiro por cima da mesa, grato pelo facto de não me tremer a mão.

Nicky tira um cigarro e acende-o, o que me dá a oportunidade para a ver melhor. Parece mais velha. Como é óbvio. O tempo cavou-lhe linhas na testa e nos cantos dos olhos. O cabelo ruivo está mais liso e com madeixas louras. Continua magra, veste calças de ganga e uma camisa de xadrez. Por baixo da maquilhagem meticulosa, distingo um ligeiro vestígio de sardas. A rapariga sob a pele da mulher.

Levanta a cabeça.

– Pois é. Envelheci. Mas tu também.

Tomo de súbito consciência do aspecto que lhe devo apresentar. Um tipo esguio, malpronto, vestido com um casaco de corte antiquado, camisa amarrotada e gravata de nó mal feito. De cabelo desgrenhado, e óculos para ler. Até me espanto que me tenha reconhecido.

– Obrigado – digo. – Ainda bem que deixámos de parte as amabilidades.

Fita-me com os olhos verdes muito vivos.

– Sabes o que é mais estranho?

Aquilo pode ter muitas respostas.

– O que é?

– Não fiquei surpreendida quando telefonaste. Na verdade, creio que estava à espera.

– Nem sabia se tinha o número correcto.

Um empregado de farda preta, com uma barba comprida que não combina com a idade dele e um tufo de cabelo que parece desafiar a gravidade, acerca-se em passos ligeiros.

– Um expresso duplo – encomenda Nicky.

O empregado afasta-se depois de um quase imperceptível gesto de compreensão.

– Sendo assim… – pergunta ela, a dirigir-se a mim – quem começa primeiro?

Percebo que não faço ideia por onde principiar. Olho para o café, em busca de inspiração.

Como não aparece, resolvo começar pelo óbvio:

– Portanto, ficaste a viver em Bournemouth?

– Trabalhei longe daqui durante algum tempo. Agora estou de volta.

– Certo. E o que fazes?

– Nada de excitante. Trabalho de escritório.

– Bestial.

– Nem por isso. Para dizer a verdade, é muito monótono.

– Oh!

– E tu?

– Ensino. Sou professor.

– Em Anderbury?

– Sim.

– Melhor para ti.

O empregado regressa com o café dela. Nicky agradece. Bebo um gole do meu cappuccino. Os

O empregado regressa com o café dela. Nicky agradece. Bebo um gole do meu cappuccino. Os gestos são deliberados e exagerados. Ambos protelamos.

– Como está a tua mãe? – pergunto.

– Morreu. Cancro da mama. Há cinco anos.

– Lamento.

– Não precisas. Não nos dávamos muito bem. Saí de casa aos dezoito anos. Depois disso, pouco a vi.

Olho para ela. Sempre tinha pensado que Nicky tivera sorte. Sair da casa do pai. O regresso da mãe. Mas na vida real não há fins felizes, são sempre confusos e desordenados.

Nicky expele o fumo do cigarro.

– Continuas a dar-te com os outros?

Confirmo com um movimento da cabeça.

– Sim. Hoppo agora é canalizador. Gav tomou conta do The Bull. – Hesito. – Soubeste do acidente?

– Ouvi falar.

– Como?

– Ruth costumava escrever-me. Foi por ela que soube do teu pai.

Ruth? Desperta-me uma recordação longínqua. Tento localizá-la. A amiga do reverendo Martin, aquela de cabelos encaracolados. Que ficou com Nicky depois da agressão.

– Mas ela continuou a visitar o meu pai – prossegue. – Ao fim de algum tempo deixei de ler as cartas dela. Depois mudei-me e não lhe dei a nova morada. – Bebe um gole de café. – Ele ainda é vivo, não sei se sabes.

– Sei.

– Ah, sim – diz ela, com um aceno de cabeça. – A tua mãe. A Boa Samaritana. Irónico, não é?

Esboço um sorriso breve.

– Nunca o foste visitar?

– Não. Irei vê-lo quando estiver morto.

– Nunca pensaste em regressar a Anderbury?

– São muitas recordações penosas. E nem lá estava quando o pior aconteceu.

Pois não, penso. Não estava lá. Mas continuava a fazer parte daquilo.

Inclina-se para esmagar o que resta do cigarro.

– Bem, já fizemos a conversa de circunstância. Vamos ao que interessa? Por que razão me fazes perguntas a respeito de Chloe?

– Como a conheces?

Observa-me durante alguns segundos antes de dizer:

– Diz-me tu primeiro.

– É minha hóspede.

Esbugalha os olhos.

 

– Merda!

– Muito reconfortante.

– Desculpa, mas… bem, é uma merda. – Abana a cabeça. – Nem quero acreditar que fez uma coisa dessas.

Olho para ela, intrigado.

– Que fez o quê?

Estende o braço e tira outro cigarro do maço, sem me pedir. A manga da camisa subiu, a revelar uma pequena tatuagem no pulso. Asas de anjo. Percebe que eu vi.

– Em memória do meu pai. Um tributo.

– Mas ele não está ainda vivo?

– Não chamo àquilo viver.

E eu não chamo à tatuagem um tributo. É qualquer outra coisa. Qualquer coisa com a qual não me sinto muito à vontade.

– Seja como for – prossegue ela, a acender o cigarro e a inalar profundamente o fumo –, só a conheci há pouco mais de um ano. Quando ela me encontrou.

– Quando te encontrou? Quem é ela?

– A minha irmã.

– Lembras-te da Hannah Thomas?

Preciso de alguns segundos, até haver um clique. A amiga da Rapariga do Carrossel, a loura que fazia parte dos manifestantes. A filha do polícia. E, é claro…

– Foi a rapariga que o Sean Cooper violou – digo. – E que engravidou.

– Não foi ele – afirma Nicky. – Isso foi uma calúnia. Sean Cooper não violou Hannah Thomas. E não era o pai do bebé dela.

– Então quem era? – pergunto em tom perplexo.

Olha para mim como se eu fosse um idiota.

– Vá lá, Eddie. Pensa um bocadinho.

Depois de reflectir um pouco julgo compreender.

– O teu pai? Foi o teu pai que a engravidou?

– Não faças esse ar tão escandalizado. Aquelas manifestantes eram o pequeno harém do meu pai. As suas fãs. Adoravam-no como a uma estrela de rock. E o meu pai? Bem, digamos que a carne é fraca.

Procuro digerir tudo aquilo.

– Então, por que motivo a Hannah mentiu e disse que tinha sido o Sean Cooper?

– Porque o meu pai a mandou. Porque o pai dela não podia matar um rapaz que já estava morto.

– Como descobriste?

– Ouvi-os a discutir, uma noite. Pensavam que eu estava a dormir. Tal como pensavam que

– Ouvi-os a discutir, uma noite. Pensavam que eu estava a dormir. Tal como pensavam que dormia enquanto fornicavam.

Acudiu-me à memória o dia em que vi Hannah Thomas na sala de estar, com a minha mãe.

– Ela foi ver a minha mãe – disse. – Estava muito transtornada. A minha mãe estava a confortá-la. – Esboço um sorriso. – É curioso como os princípios vão pela janela fora quando se trata da nossa criança que não queremos e da nossa vida.

– Ela queria ter o bebé. O meu pai é que queria que ela se livrasse dele.

Olho para ela, incrédulo.

– Ele queria que ela fizesse um aborto? Depois de tudo o que fez?

Nicky ergue uma sobrancelha.

– É curioso como as nossas crenças vão pela janela fora quando é o nosso filho e a nossa reputação que estão em causa.

Abano a cabeça.

– Foda-se!

– Isso. É mesmo isso.

O meu cérebro dá voltas e mais voltas, a tentar absorver tudo.

– Então ela teve a criança? Não me recordo.

– A família mudou-se dali. O pai conseguiu uma transferência, ou coisa parecida.

E depois o reverendo Martin foi agredido, e não ficou em condições de manter o contacto.

Nicky sacode o morrão do cigarro para dentro do cinzeiro, que começa a assemelhar-se a um cartaz do governo sobre saúde pública.

– Avançando quase trinta anos – diz ela –, Chloe aparece-me à porta. Continuo a não saber como me encontrou o rasto.

– Apresentou-se como filha de Hannah, e minha meia-irmã. A princípio, não acreditei nela.

Mandei-a embora. Mas deu-me o número do telefone. Não tencionava telefonar-lhe, mas não sei, acho que fiquei curiosa…

«Encontrámo-nos para almoçar. Trouxe fotografias e contou-me coisas que me convenceram de que era quem dizia ser. Dei por mim a gostar dela. Talvez me fizesse lembrar um pouco de mim, quando era mais nova.

Talvez tenha sido por isso que também gostei dela, penso.

– Disse-me que a mãe tinha morrido, de cancro – continua. – Não tinha uma relação afectuosa com o padrasto. Tive pena dela.

«Encontrámo-nos mais algumas vezes. Um dia disse que tinha de sair do apartamento onde vivia e que tinha dificuldade em encontrar outro. Disse-lhe que, se fosse preciso, podia ficar no meu durante algum tempo.

– O que aconteceu?

– Nada. Durante três meses foi uma hóspede perfeita, quase demasiado perfeita.

– E depois?

– Uma noite voltei para casa e Chloe devia ter saído. Deixara a porta do quarto escancarada… e o computador portátil aberto em cima da mesa.

– Andaste a bisbilhotar no quarto dela.

– No meu quarto… e, não sei, ia só…

– Invadir-lhe a privacidade?

– E ainda bem que o fiz. Descobri que andava a escrever a meu respeito. Sobre os homens de giz. Sobre todos nós. Como se andasse a fazer pesquisas.

– Para quê?

– Quem sabe?

– Deu-te alguma explicação?

– Não lhe dei oportunidade. Certifiquei-me de que fazia as malas nessa mesma noite.

Esmaga a ponta do segundo cigarro e bebe um grande gole de café. Reparo que as mãos lhe tremem um pouco.

– Há quanto tempo foi isso?

– Vai para nove ou dez meses.

Mais ou menos quando me apareceu à porta, a agradecer-me por lhe ceder o quarto tão depressa.

Uma rajada de vento varre a marginal. Arrepiado, levanto a gola do casaco. É apenas o vento.

Nada mais.

– Se já não a vias há meses, o que te levou a discutir com ela na loja?

– Soubeste disso?

– Foi assim que descobri que ela te conhecia.

– Recebi uma carta…

O coração cai-me aos pés.

– O enforcado e o giz?

Olha-me fixamente.

– Como sabes?

– Porque também recebi uma, e o Gav, o Hoppo… e o Mickey.

Nicky franze a testa.

– Quer dizer que ela escreveu a todos nós?

– Ela? Achas que foi Chloe quem escreveu essas cartas?

– Claro que sim – retorquiu com secura.

– Ela reconheceu que as tinha escrito?

– Não. Mas quem mais poderia ser?

Silêncio. Penso na Chloe que conheço. A pessoa irreverente, divertida e inteligente, a cuja presença quotidiana mais do que me acostumei. Nada disto faz sentido.

– Não sei. Mas talvez seja melhor não chegar a conclusões precipitadas.

Encolhe os ombros.

– Tudo bem. O funeral é teu.

Aproveito a deixa e espero que ela beba o café antes de dizer, agora em tom mais afável:

– Já ouviste sobre o Mickey?

– Ouvi o quê?

Ed Adams, o mensageiro da alegria e das boas notícias.

– Morreu.

– Cristo! O que aconteceu?

– Caiu ao rio e afogou-se.

Olha-me com atenção.

– Ao rio de Anderbury?

– Sim.

– O que estava ele a fazer em Anderbury?

– Foi lá para me ver. Estava a pensar escrever um livro sobre os homens de giz. Queria que o ajudasse. Bebemos bastante, insistiu em voltar a pé para o hotel… mas nunca lá chegou.

– Foda-se!

– É isso.

– Foi um acidente?

Hesito.

– Ed?

– É provável.

– É provável?

– Ouve, isto parece uma coisa de doidos, mas nessa noite, antes de sair, o Mickey disse-me que sabia quem de facto assassinara Elisa.

Funga depreciativamente.

– E acreditaste nele?

– E se ele estivesse a dizer a verdade?

– Bem, seria a primeira vez.

– Mas se estava, talvez a morte dele não tenha sido um acidente.

– E então? Quem quer saber disso?

Por um instante, sou apanhado desprevenido. Pergunto-me se ela seria sempre assim, tão insensível. Um pedaço de rocha com um convite «MORDE-ME» estampado por todos os lados.

– Não estás a falar a sério.

– Estou, sim. Mickey passou a vida a fazer inimigos. Não era amigo de ninguém. Tu foste. Foi por isso que aceitei encontrar-me contigo. Mas agora acabou.

Empurra a cadeira para trás.

– Segue o meu conselho, vai para casa, dá um pontapé no cu da Chloe… e continua com a tua vida.

Devia dar-lhe ouvidos. Deixá-la ir embora. Devia acabar o meu cappuccino e apanhar o

 

Devia dar-lhe ouvidos. Deixá-la ir embora. Devia acabar o meu cappuccino e apanhar o comboio. Mas a minha vida é uma longa sequência de coisas que devia ter feito, uma teia emaranhada de arrependimentos.

– Nicky. Espera.

– O que é?

– E quanto ao teu pai? Não sabes quem foi o responsável?

– Ed, deixa-te disso.

– Porquê?

– Porque eu sei quem fez aquilo.

É a segunda vez que me apanha desprevenido.

– Sabes? Como sabes?

Olha-me com uma expressão dura.

– Porque ela me disse.

O comboio para Anderbury está atrasado. Tento atribuir o facto a uma infeliz coincidência, mas não consigo. Vagueio entre a multidão, a amaldiçoar a minha decisão de vir de comboio e não de automóvel (e também de ter ficado a beber uma garrafa de vinho e de não ter apanhado outro comboio, mais cedo). De vez em quando olho para o quadro das PARTIDAS. Atrasado. Bem podia dizer: «Só para te lixar a vida, Ed.»

Chego pouco depois das nove, suado, amarrotado e dormente de um lado por ter sido esmagado contra a janela por um tipo que devia jogar râguebi nos Titans (falo dos deuses, não da equipa).

Quando por fim apanho o autocarro que sai da estação e depois me dirijo para casa, sinto-me cansado, com os nervos em franja e lamentavelmente sóbrio. Empurro a cancela e subo pelo carreiro. A casa está às escuras. Chloe deve ter resolvido sair. Talvez seja melhor assim. Não sei se já estou preparado para a conversa que precisamos de ter.

O primeiro arrepio de estranheza eriça-me os pêlos do pescoço quando chego à porta e verifico que não está fechada. Chloe pode ser de uma futilidade irritante, mas em geral não é irresponsável nem esquecida.

Estaco por um momento, hesitante como um vendedor diante da minha porta, até que me decido a empurrá-la.

– Está alguém em casa?

A única resposta é o silêncio, apenas quebrado por um zumbido proveniente da cozinha.

Ligo a luz do corredor e deixo-me ficar, agarrado às chaves inúteis.

– Chloe?

Dirijo-me à cozinha, acendo a luz e olho em redor.

A porta das traseiras está escancarada e sou recebido por uma rajada de vento frio. Sobre o balcão abundam os restos dos preparativos para o jantar: de um lado, uma piza; uma tigela com

salada. Sobre a mesa, um copo de vinho meio bebido. O zumbido que ouço provém do forno.

Inclino-me para o desligar. O silêncio parece pesar mais. O único som que agora se ouve é o tumulto do sangue nos meus ouvidos.

– Chloe?

Avanço um passo. Escorrega-me o pé em qualquer coisa que está no chão. Olho para baixo.

O coração pára-me no peito. O rugido do sangue nos ouvidos aumenta. Vermelho. Vermelho-escuro. Sangue. Um rasto esbatido dirige-se para a porta aberta das traseiras. Dirijo-me para lá, com o coração aos saltos no peito. Chegado à porta, hesito. Já está bastante escuro. Volto atrás, tiro a lanterna da gaveta da tralha e transponho a porta.

– Chloe? Estás aí?

Rodeio a casa com precaução pelo lado de trás, a apontar a lanterna para o matagal espesso que se estende até um pequeno conjunto de árvores. Em certos sítios, a erva alta foi espezinhada. Alguém andou há pouco por ali.

Sigo o trilho rudimentar. As ervas e as urtigas agarram-se-me às calças. À luz da lanterna distingo qualquer coisa entre as ervas. Qualquer coisa vermelha, cor-de-rosa e castanha.

Inclino-me para ver melhor e o meu estômago faz uma pirueta como uma ginasta russa.

– Merda!

Uma ratazana. Uma ratazana estripada. Abriram-lhe a barriga e os intestinos derramam-se como uma massa de minúsculas salsichas cruas.

Oiço um restolhar à minha direita. Viro-me de um salto. Um par de discos verdes brilha por entre as ervas altas. Mittens salta em frente, a bufar selvaticamente.

Recuo atabalhoado, com um grito abafado na garganta.

– Foda-se!