O Homem de Giz
Capítulo 2016
– Mas ele é meu amigo.
– Já não é, Eddie. Neste momento, não sabemos ao certo o que ele é. Nunca mais te deves encontrar com ele.
– Porquê?
– Porque é isso que te dizemos, Eddie – replicou a minha mãe em tom áspero.
A minha mãe nunca dizia aquilo. Costumava dizer que não se pode mandar uma criança fazer qualquer coisa e esperar que ela o faça sem uma razão. Mas detectei-lhe no rosto uma expressão que nunca lhe tinha visto. Nem quando o pacote chegou. Nem quando o tijolo nos entrou pela janela. Nem mesmo quando aquelas coisas más aconteceram ao reverendo Martin.
Parecia assustada.
– Então, prometes?
Baixei os olhos e disse entredentes:
– Prometo.
O meu pai pousou-me no ombro uma grande mão pesada.
– Lindo menino.
– Posso ir um bocadinho para o meu quarto?
– Com certeza.
Deixei-me escorregar da cadeira e subi a escada. Pelo caminho, descruzei os dedos.
2016
Respostas. Para uma pergunta que nem formulei. Que nunca pensei formular. Seria Chloe o que aparentava ser? Teria andado a mentir-me?
Tive de a despedir. Teve uma discussão com uma cliente. Nicky.
Procuro nas gavetas da cozinha, a vasculhar freneticamente entre listas de restaurantes de take away, cartões de vendedores e folhetos de supermercado, na tentativa de pôr em ordem os meus pensamentos tumultuosos, em busca de uma explicação racional.
Talvez Chloe tenha encontrado outro emprego e não se tenha dado ao trabalho de me contar.
Talvez se sentisse envergonhada por ter sido despedida, embora isso não seja muito próprio de Chloe. Talvez a discussão com Nicky fosse acidental. Talvez nem fosse a Nicky que eu conheço (ou conhecia). Podia ser outra mulher de meia-idade, magra e atraente, com cabelos ruivos e chamada Nicky. Sim, pode ser. Estou a imaginar coisas, mas é possível.
Por diversas vezes me sinto tentado a ligar-lhe, mas não o faço. Ainda não. Antes disso, tenho de fazer outra chamada.
Fecho a gaveta com força e dirijo-me para o andar de cima. Não para o meu quarto, mas para o quarto onde guardo as minhas colecções. Olho para as caixas empilhadas e de cabeça excluo logo algumas.
Depois de partir, Nicky enviou um postal a cada um de nós com o seu novo endereço.
Escrevi-lhe várias vezes, mas nunca tive resposta.
Tiro três caixas de uma das prateleiras mais altas e começo a trabalhar nelas. A primeira não oferece resultados, nem a segunda. Desencorajado, abro a terceira.
Quando o meu pai morreu, recebi outro postal. Apenas com uma palavra. Lamento. N. E
desta vez, acompanhada por um número de telefone. Nunca lhe liguei.
O meu olhar aterra sobre um postal amarrotado com uma imagem do cais de Bournemouth.
Pego nele e viro-o. Bingo! Agarro no telefone.
Farta-se de tocar. Pode ser que o número já não seja este. Pode ter mudado de telefone. É…
– Estou?
– Nicky, é o Ed.
– Ed?
– Eddie Adams…
– Não, não, sei muito bem quem és. Apenas fiquei surpreendida. Já se passou bastante tempo.
É verdade. Mas ainda consigo perceber quando ela está a mentir. Não está surpreendida. Está
É verdade. Mas ainda consigo perceber quando ela está a mentir. Não está surpreendida. Está preocupada.
– Eu sei.
– Como tens passado?
Uma boa pergunta. Com muitas respostas. Opto pela mais fácil.
– Já estive melhor. Escuta, sei que isto é inesperado, mas podemos conversar?
– Julguei que era o que estávamos a fazer.
– Pessoalmente.
– A respeito de quê?
– Chloe.
Silêncio. Tão prolongado que pensei que desligara o telefone.
Até que diz:
– Largo o trabalho às três.
O comboio para Bournemouth chega às três e trinta. Passo o resto do dia a fingir que leio, a virar as páginas do livro mais recente de Harlan Coben. Quando o comboio pára, saio da estação e junto-me à multidão que se dirige para a beira-mar. Atravesso nos semáforos e enveredo pelos carreiros sinuosos de Bournemouth Gardens.
Apesar de não ficar a mais de trinta quilómetros, raramente vou a Bournemouth. Não sou um apreciador da beira-mar. Já em criança tinha medo das ondas e detestava a areia esponjosa e áspera que se metia entre os dedos dos pés; uma sensação que se agravou quando uma vez vi alguém a enterrar uma sanduíche meio comida. Desde então, recuso-me a andar descalço pela areia e uso sempre chinelos ou ténis.
No dia de hoje, não um dos mais quentes deste fim de Verão, ainda há um número razoável de pessoas a vaguear pelos jardins e a jogar minigolfe (de que gostava muito quando era criança).
Chego à marginal, rodeio o espaço agora vazio, onde o monstruoso cinema IMAX vai caindo em ruínas após anos de abandono, sigo ao longo da arcada das diversões e viro à direita, na direcção dos cafés da beira-mar.
Sento-me na esplanada de um deles e vou fumando enquanto bebo devagar um cappuccino morno. Só há outra mesa ocupada por um casal jovem. Uma mulher de cabelos louros curtos, pintados, e o seu companheiro, de tranças e uma infinidade de piercings. Sinto-me – e decerto pareço – muito velho e formal.
Tiro o livro do bolso, mas mais uma vez não me consigo concentrar. Olho de relance para o relógio. São quase quatro menos um quarto. Tiro outro cigarro do maço – é o terceiro no espaço de meia hora – e inclino-me para a frente para o acender. Quando levanto a cabeça, Nicky está de pé à minha frente.
– Um hábito repugnante. – Puxa uma cadeira e senta-se. – Tens um a mais?
Empurro o maço e o isqueiro por cima da mesa, grato pelo facto de não me tremer a mão.
Nicky tira um cigarro e acende-o, o que me dá a oportunidade para a ver melhor. Parece mais velha. Como é óbvio. O tempo cavou-lhe linhas na testa e nos cantos dos olhos. O cabelo ruivo está mais liso e com madeixas louras. Continua magra, veste calças de ganga e uma camisa de xadrez. Por baixo da maquilhagem meticulosa, distingo um ligeiro vestígio de sardas. A rapariga sob a pele da mulher.
Levanta a cabeça.
– Pois é. Envelheci. Mas tu também.
Tomo de súbito consciência do aspecto que lhe devo apresentar. Um tipo esguio, malpronto, vestido com um casaco de corte antiquado, camisa amarrotada e gravata de nó mal feito. De cabelo desgrenhado, e óculos para ler. Até me espanto que me tenha reconhecido.
– Obrigado – digo. – Ainda bem que deixámos de parte as amabilidades.
Fita-me com os olhos verdes muito vivos.
– Sabes o que é mais estranho?
Aquilo pode ter muitas respostas.
– O que é?
– Não fiquei surpreendida quando telefonaste. Na verdade, creio que estava à espera.
– Nem sabia se tinha o número correcto.
Um empregado de farda preta, com uma barba comprida que não combina com a idade dele e um tufo de cabelo que parece desafiar a gravidade, acerca-se em passos ligeiros.
– Um expresso duplo – encomenda Nicky.
O empregado afasta-se depois de um quase imperceptível gesto de compreensão.
– Sendo assim… – pergunta ela, a dirigir-se a mim – quem começa primeiro?
Percebo que não faço ideia por onde principiar. Olho para o café, em busca de inspiração.
Como não aparece, resolvo começar pelo óbvio:
– Portanto, ficaste a viver em Bournemouth?
– Trabalhei longe daqui durante algum tempo. Agora estou de volta.
– Certo. E o que fazes?
– Nada de excitante. Trabalho de escritório.
– Bestial.
– Nem por isso. Para dizer a verdade, é muito monótono.
– Oh!
– E tu?
– Ensino. Sou professor.
– Em Anderbury?
– Sim.
– Melhor para ti.
O empregado regressa com o café dela. Nicky agradece. Bebo um gole do meu cappuccino. Os
O empregado regressa com o café dela. Nicky agradece. Bebo um gole do meu cappuccino. Os gestos são deliberados e exagerados. Ambos protelamos.
– Como está a tua mãe? – pergunto.
– Morreu. Cancro da mama. Há cinco anos.
– Lamento.
– Não precisas. Não nos dávamos muito bem. Saí de casa aos dezoito anos. Depois disso, pouco a vi.
Olho para ela. Sempre tinha pensado que Nicky tivera sorte. Sair da casa do pai. O regresso da mãe. Mas na vida real não há fins felizes, são sempre confusos e desordenados.
Nicky expele o fumo do cigarro.
– Continuas a dar-te com os outros?
Confirmo com um movimento da cabeça.
– Sim. Hoppo agora é canalizador. Gav tomou conta do The Bull. – Hesito. – Soubeste do acidente?
– Ouvi falar.
– Como?
– Ruth costumava escrever-me. Foi por ela que soube do teu pai.
Ruth? Desperta-me uma recordação longínqua. Tento localizá-la. A amiga do reverendo Martin, aquela de cabelos encaracolados. Que ficou com Nicky depois da agressão.
– Mas ela continuou a visitar o meu pai – prossegue. – Ao fim de algum tempo deixei de ler as cartas dela. Depois mudei-me e não lhe dei a nova morada. – Bebe um gole de café. – Ele ainda é vivo, não sei se sabes.
– Sei.
– Ah, sim – diz ela, com um aceno de cabeça. – A tua mãe. A Boa Samaritana. Irónico, não é?
Esboço um sorriso breve.
– Nunca o foste visitar?
– Não. Irei vê-lo quando estiver morto.
– Nunca pensaste em regressar a Anderbury?
– São muitas recordações penosas. E nem lá estava quando o pior aconteceu.
Pois não, penso. Não estava lá. Mas continuava a fazer parte daquilo.
Inclina-se para esmagar o que resta do cigarro.
– Bem, já fizemos a conversa de circunstância. Vamos ao que interessa? Por que razão me fazes perguntas a respeito de Chloe?
– Como a conheces?
Observa-me durante alguns segundos antes de dizer:
– Diz-me tu primeiro.
– É minha hóspede.
Esbugalha os olhos.
– Merda!
– Muito reconfortante.
– Desculpa, mas… bem, é uma merda. – Abana a cabeça. – Nem quero acreditar que fez uma coisa dessas.
Olho para ela, intrigado.
– Que fez o quê?
Estende o braço e tira outro cigarro do maço, sem me pedir. A manga da camisa subiu, a revelar uma pequena tatuagem no pulso. Asas de anjo. Percebe que eu vi.
– Em memória do meu pai. Um tributo.
– Mas ele não está ainda vivo?
– Não chamo àquilo viver.
E eu não chamo à tatuagem um tributo. É qualquer outra coisa. Qualquer coisa com a qual não me sinto muito à vontade.
– Seja como for – prossegue ela, a acender o cigarro e a inalar profundamente o fumo –, só a conheci há pouco mais de um ano. Quando ela me encontrou.
– Quando te encontrou? Quem é ela?
– A minha irmã.
– Lembras-te da Hannah Thomas?
Preciso de alguns segundos, até haver um clique. A amiga da Rapariga do Carrossel, a loura que fazia parte dos manifestantes. A filha do polícia. E, é claro…
– Foi a rapariga que o Sean Cooper violou – digo. – E que engravidou.
– Não foi ele – afirma Nicky. – Isso foi uma calúnia. Sean Cooper não violou Hannah Thomas. E não era o pai do bebé dela.
– Então quem era? – pergunto em tom perplexo.
Olha para mim como se eu fosse um idiota.
– Vá lá, Eddie. Pensa um bocadinho.
Depois de reflectir um pouco julgo compreender.
– O teu pai? Foi o teu pai que a engravidou?
– Não faças esse ar tão escandalizado. Aquelas manifestantes eram o pequeno harém do meu pai. As suas fãs. Adoravam-no como a uma estrela de rock. E o meu pai? Bem, digamos que a carne é fraca.
Procuro digerir tudo aquilo.
– Então, por que motivo a Hannah mentiu e disse que tinha sido o Sean Cooper?
– Porque o meu pai a mandou. Porque o pai dela não podia matar um rapaz que já estava morto.
– Como descobriste?
– Ouvi-os a discutir, uma noite. Pensavam que eu estava a dormir. Tal como pensavam que
– Ouvi-os a discutir, uma noite. Pensavam que eu estava a dormir. Tal como pensavam que dormia enquanto fornicavam.
Acudiu-me à memória o dia em que vi Hannah Thomas na sala de estar, com a minha mãe.
– Ela foi ver a minha mãe – disse. – Estava muito transtornada. A minha mãe estava a confortá-la. – Esboço um sorriso. – É curioso como os princípios vão pela janela fora quando se trata da nossa criança que não queremos e da nossa vida.
– Ela queria ter o bebé. O meu pai é que queria que ela se livrasse dele.
Olho para ela, incrédulo.
– Ele queria que ela fizesse um aborto? Depois de tudo o que fez?
Nicky ergue uma sobrancelha.
– É curioso como as nossas crenças vão pela janela fora quando é o nosso filho e a nossa reputação que estão em causa.
Abano a cabeça.
– Foda-se!
– Isso. É mesmo isso.
O meu cérebro dá voltas e mais voltas, a tentar absorver tudo.
– Então ela teve a criança? Não me recordo.
– A família mudou-se dali. O pai conseguiu uma transferência, ou coisa parecida.
E depois o reverendo Martin foi agredido, e não ficou em condições de manter o contacto.
Nicky sacode o morrão do cigarro para dentro do cinzeiro, que começa a assemelhar-se a um cartaz do governo sobre saúde pública.
– Avançando quase trinta anos – diz ela –, Chloe aparece-me à porta. Continuo a não saber como me encontrou o rasto.
– Apresentou-se como filha de Hannah, e minha meia-irmã. A princípio, não acreditei nela.
Mandei-a embora. Mas deu-me o número do telefone. Não tencionava telefonar-lhe, mas não sei, acho que fiquei curiosa…
«Encontrámo-nos para almoçar. Trouxe fotografias e contou-me coisas que me convenceram de que era quem dizia ser. Dei por mim a gostar dela. Talvez me fizesse lembrar um pouco de mim, quando era mais nova.
Talvez tenha sido por isso que também gostei dela, penso.
– Disse-me que a mãe tinha morrido, de cancro – continua. – Não tinha uma relação afectuosa com o padrasto. Tive pena dela.
«Encontrámo-nos mais algumas vezes. Um dia disse que tinha de sair do apartamento onde vivia e que tinha dificuldade em encontrar outro. Disse-lhe que, se fosse preciso, podia ficar no meu durante algum tempo.
– O que aconteceu?
– Nada. Durante três meses foi uma hóspede perfeita, quase demasiado perfeita.
– E depois?
– Uma noite voltei para casa e Chloe devia ter saído. Deixara a porta do quarto escancarada… e o computador portátil aberto em cima da mesa.
– Andaste a bisbilhotar no quarto dela.
– No meu quarto… e, não sei, ia só…
– Invadir-lhe a privacidade?
– E ainda bem que o fiz. Descobri que andava a escrever a meu respeito. Sobre os homens de giz. Sobre todos nós. Como se andasse a fazer pesquisas.
– Para quê?
– Quem sabe?
– Deu-te alguma explicação?
– Não lhe dei oportunidade. Certifiquei-me de que fazia as malas nessa mesma noite.
Esmaga a ponta do segundo cigarro e bebe um grande gole de café. Reparo que as mãos lhe tremem um pouco.
– Há quanto tempo foi isso?
– Vai para nove ou dez meses.
Mais ou menos quando me apareceu à porta, a agradecer-me por lhe ceder o quarto tão depressa.
Uma rajada de vento varre a marginal. Arrepiado, levanto a gola do casaco. É apenas o vento.
Nada mais.
– Se já não a vias há meses, o que te levou a discutir com ela na loja?
– Soubeste disso?
– Foi assim que descobri que ela te conhecia.
– Recebi uma carta…
O coração cai-me aos pés.
– O enforcado e o giz?
Olha-me fixamente.
– Como sabes?
– Porque também recebi uma, e o Gav, o Hoppo… e o Mickey.
Nicky franze a testa.
– Quer dizer que ela escreveu a todos nós?
– Ela? Achas que foi Chloe quem escreveu essas cartas?
– Claro que sim – retorquiu com secura.
– Ela reconheceu que as tinha escrito?
– Não. Mas quem mais poderia ser?
Silêncio. Penso na Chloe que conheço. A pessoa irreverente, divertida e inteligente, a cuja presença quotidiana mais do que me acostumei. Nada disto faz sentido.
– Não sei. Mas talvez seja melhor não chegar a conclusões precipitadas.
Encolhe os ombros.
– Tudo bem. O funeral é teu.
Aproveito a deixa e espero que ela beba o café antes de dizer, agora em tom mais afável:
– Já ouviste sobre o Mickey?
– Ouvi o quê?
Ed Adams, o mensageiro da alegria e das boas notícias.
– Morreu.
– Cristo! O que aconteceu?
– Caiu ao rio e afogou-se.
Olha-me com atenção.
– Ao rio de Anderbury?
– Sim.
– O que estava ele a fazer em Anderbury?
– Foi lá para me ver. Estava a pensar escrever um livro sobre os homens de giz. Queria que o ajudasse. Bebemos bastante, insistiu em voltar a pé para o hotel… mas nunca lá chegou.
– Foda-se!
– É isso.
– Foi um acidente?
Hesito.
– Ed?
– É provável.
– É provável?
– Ouve, isto parece uma coisa de doidos, mas nessa noite, antes de sair, o Mickey disse-me que sabia quem de facto assassinara Elisa.
Funga depreciativamente.
– E acreditaste nele?
– E se ele estivesse a dizer a verdade?
– Bem, seria a primeira vez.
– Mas se estava, talvez a morte dele não tenha sido um acidente.
– E então? Quem quer saber disso?
Por um instante, sou apanhado desprevenido. Pergunto-me se ela seria sempre assim, tão insensível. Um pedaço de rocha com um convite «MORDE-ME» estampado por todos os lados.
– Não estás a falar a sério.
– Estou, sim. Mickey passou a vida a fazer inimigos. Não era amigo de ninguém. Tu foste. Foi por isso que aceitei encontrar-me contigo. Mas agora acabou.
Empurra a cadeira para trás.
– Segue o meu conselho, vai para casa, dá um pontapé no cu da Chloe… e continua com a tua vida.
Devia dar-lhe ouvidos. Deixá-la ir embora. Devia acabar o meu cappuccino e apanhar o
Devia dar-lhe ouvidos. Deixá-la ir embora. Devia acabar o meu cappuccino e apanhar o comboio. Mas a minha vida é uma longa sequência de coisas que devia ter feito, uma teia emaranhada de arrependimentos.
– Nicky. Espera.
– O que é?
– E quanto ao teu pai? Não sabes quem foi o responsável?
– Ed, deixa-te disso.
– Porquê?
– Porque eu sei quem fez aquilo.
É a segunda vez que me apanha desprevenido.
– Sabes? Como sabes?
Olha-me com uma expressão dura.
– Porque ela me disse.
O comboio para Anderbury está atrasado. Tento atribuir o facto a uma infeliz coincidência, mas não consigo. Vagueio entre a multidão, a amaldiçoar a minha decisão de vir de comboio e não de automóvel (e também de ter ficado a beber uma garrafa de vinho e de não ter apanhado outro comboio, mais cedo). De vez em quando olho para o quadro das PARTIDAS. Atrasado. Bem podia dizer: «Só para te lixar a vida, Ed.»
Chego pouco depois das nove, suado, amarrotado e dormente de um lado por ter sido esmagado contra a janela por um tipo que devia jogar râguebi nos Titans (falo dos deuses, não da equipa).
Quando por fim apanho o autocarro que sai da estação e depois me dirijo para casa, sinto-me cansado, com os nervos em franja e lamentavelmente sóbrio. Empurro a cancela e subo pelo carreiro. A casa está às escuras. Chloe deve ter resolvido sair. Talvez seja melhor assim. Não sei se já estou preparado para a conversa que precisamos de ter.
O primeiro arrepio de estranheza eriça-me os pêlos do pescoço quando chego à porta e verifico que não está fechada. Chloe pode ser de uma futilidade irritante, mas em geral não é irresponsável nem esquecida.
Estaco por um momento, hesitante como um vendedor diante da minha porta, até que me decido a empurrá-la.
– Está alguém em casa?
A única resposta é o silêncio, apenas quebrado por um zumbido proveniente da cozinha.
Ligo a luz do corredor e deixo-me ficar, agarrado às chaves inúteis.
– Chloe?
Dirijo-me à cozinha, acendo a luz e olho em redor.
A porta das traseiras está escancarada e sou recebido por uma rajada de vento frio. Sobre o balcão abundam os restos dos preparativos para o jantar: de um lado, uma piza; uma tigela com
salada. Sobre a mesa, um copo de vinho meio bebido. O zumbido que ouço provém do forno.
Inclino-me para o desligar. O silêncio parece pesar mais. O único som que agora se ouve é o tumulto do sangue nos meus ouvidos.
– Chloe?
Avanço um passo. Escorrega-me o pé em qualquer coisa que está no chão. Olho para baixo.
O coração pára-me no peito. O rugido do sangue nos ouvidos aumenta. Vermelho. Vermelho-escuro. Sangue. Um rasto esbatido dirige-se para a porta aberta das traseiras. Dirijo-me para lá, com o coração aos saltos no peito. Chegado à porta, hesito. Já está bastante escuro. Volto atrás, tiro a lanterna da gaveta da tralha e transponho a porta.
– Chloe? Estás aí?
Rodeio a casa com precaução pelo lado de trás, a apontar a lanterna para o matagal espesso que se estende até um pequeno conjunto de árvores. Em certos sítios, a erva alta foi espezinhada. Alguém andou há pouco por ali.
Sigo o trilho rudimentar. As ervas e as urtigas agarram-se-me às calças. À luz da lanterna distingo qualquer coisa entre as ervas. Qualquer coisa vermelha, cor-de-rosa e castanha.
Inclino-me para ver melhor e o meu estômago faz uma pirueta como uma ginasta russa.
– Merda!
Uma ratazana. Uma ratazana estripada. Abriram-lhe a barriga e os intestinos derramam-se como uma massa de minúsculas salsichas cruas.
Oiço um restolhar à minha direita. Viro-me de um salto. Um par de discos verdes brilha por entre as ervas altas. Mittens salta em frente, a bufar selvaticamente.
Recuo atabalhoado, com um grito abafado na garganta.
– Foda-se!