O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 26 de 30

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O Homem de Giz

1986-1990

Tenho estado a ver mal. Todos têm estado a ver mal. Talvez por não possuírem a última peça do puzzle. Talvez porque todas as fotos de Elisa que apareceram nos jornais e nos noticiários a mostravam antes do acidente. Essa imagem, essa representação, tornou-se Elisa, a rapariga encontrada no bosque.

Mas não era a imagem verdadeira. Não era a rapariga cuja beleza tinha sido arrancada com tanta crueldade. Não era a rapariga que eu e o senhor Halloran tínhamos tentado salvar.

Mais importante ainda, não era a Elisa que tinha há pouco resolvido operar uma mudança.

Que pintara o cabelo. Que, à distância, já nem se parecia com Elisa.

«Ninguém queria mal a Elisa – importante. CABELO.»

1986-1990

Quando tinha os meus nove ou dez anos era um grande admirador de Doctor Who. Quando cheguei aos doze, a série tinha-se tornado uma porcaria pouco convincente. Com efeito, e na sincera opinião dos meus doze anos, tinha começado a perder quando Peter Davison se tinha regenerado em Colin Baker, que nunca foi tão interessante, com o seu estúpido casaco de muitas cores e a gravata às bolas.

Seja como for, antes disso tinha adorado todos os episódios, em especial aqueles em que entravam os Daleks e os que deixavam o fim em suspenso. Um «fim em aberto», como lhe chamavam.

A verdade é que o «fim em aberto» era sempre melhor do que a solução pela qual esperávamos ansiosamente todas as semanas. O primeiro episódio deixava em geral o Doutor exposto a um grande perigo, cercado por uma horda de Daleks dispostos a exterminá-lo, ou numa nave espacial prestes a explodir, ou a enfrentar um monstro enorme e horrendo ao qual não havia maneira de escapar.

Mas ele escapava sempre, e isso implicava aquilo a que o Gav Gordo chamava «uma fuga do caraças». Um alçapão secreto, um salvamento à última hora pela UNIT, ou qualquer outra coisa incrível que o Doutor conseguia fazer com o auxílio da sua chave de parafusos sónica.

Embora continuasse a gostar de ver a segunda parte, sentia-me sempre um tanto desiludido.

Como se tivesse sido intrujado.

Na vida real não há dessas intrujices. Ninguém escapa a um destino terrível porque possui uma chave de parafusos sónica que funciona na mesma frequência do botão de autodestruição do Cybermen. A vida não é assim.

E, no entanto, durante algum tempo, depois de ouvir dizer que o senhor Halloran tinha morrido, ansiava por ser intrujado. Queria que o senhor Halloran estivesse vivo. Que aparecesse e dissesse a toda a gente: Como podem ver, continuo vivo. Não fiz nada de mal, e o que de facto aconteceu…

Embora tivéssemos um fim, não me parecia adequado. Não era um bom fim. E havia coisas que me intrigavam. Era um anticlímax. Quanto a mim, tinha de haver mais qualquer coisa.

«Lacunas na intriga», como lhes poderiam chamar, se estivessem a falar do Doctor Who.

Coisas que o escritor esperava que passassem despercebidas, mas que não passavam. Mesmo quando se tem doze anos. Especialmente quando se tem doze anos. Quando se tem doze anos procura-se ser astuto para não se ser ludibriado.

O que quero dizer é que, depois, todos afirmavam que o senhor Halloran era louco, como se isso explicasse tudo. Mas mesmo um louco, ou um lagarto com dois metros de altura no Doctor Who, precisava de um motivo para fazer as coisas.

Quando disse isto aos outros, ao Gav Gordo e ao Hoppo (porque o facto de termos encontrado o corpo juntos não nos tinha aproximado de Mickey e continuámos a dar-nos pouco com ele depois disso), o Gav Gordo limitou-se a lançar-me um olhar de irritação, rodou o dedo encostado à têmpora e disse:

– Ele fez isso por ser marado, meu. Passado dos carretos. Lunático. Com pancada. Um membro efectivo da Brigada dos Tarados.

Hoppo pouco disse, excepto uma vez, quando o Gav Gordo se irritou e estava prestes a dar início a uma discussão. Nesse momento, Hoppo apenas comentou, sem levantar a voz:

– Talvez ele tivesse as suas razões. Nós é que não as compreendemos, porque não somos ele.

Estou em crer que, por debaixo disto tudo, eu continuava a alimentar um sentimento de culpa; pela minha participação nas coisas, em especial pelo estúpido incidente do anel.

Se não o tivesse lá deixado naquele dia, será que toda a gente estaria convencida da culpabilidade do senhor Halloran? Talvez sim, pelo facto de se ter suicidado. Mas sem o anel é possível que não se precipitassem a atribuir-lhe o homicídio de Elisa. O processo não teria sido fechado tão cedo e a polícia talvez procurasse mais provas. A arma do crime. A cabeça dela.

Nunca fui capaz de me dar respostas satisfatórias para estas perguntas, para estas dúvidas. E

assim, acabei por pô-las de parte. Com infantilidades. Que talvez nunca tenhamos deixado.

O tempo foi passando e os acontecimentos desse Verão começaram a esbater-se na nossa memória. Fizemos catorze, quinze, dezasseis anos. Os exames, as hormonas e as miúdas passaram a ocupar os nossos pensamentos.

Por essa altura, eu tinha outras coisas com que me preocupar. A saúde do meu pai tinha começado a piorar. A vida impusera uma rotina que me tornaria a existência miserável por mais sete anos. Primeiro a estudar, depois a trabalhar. Durante o dia, a conviver com a mente cada vez mais perturbada do meu pai, à noite, com a frustração impotente da minha mãe.

Passou a ser a minha normalidade.

O Gav Gordo começou a encontrar-se com uma rapariga bonita e um tanto gorducha, chamada Cheryl. Além de também perder peso. De maneira gradual a princípio. Começou a comer menos e andar mais de bicicleta. Entrou para um clube de corrida e, embora tratasse tudo como uma brincadeira, em breve estava a correr mais depressa e a cobrir distâncias maiores, e o peso continuou a desaparecer. Como se estivesse a largar a sua antiga personalidade. E penso que foi que o que aconteceu. Além do peso, abandonou os comportamentos bizarros, a constante correnteza de piadas. Tornou-se mais sério. Adquiriu um perfil mais duro. Dizia menos graçolas, estudava mais, e quando não estava a estudar estava

na companhia de Cheryl. Tal como antes tinha acontecido com Mickey, começou a afastar-se.

O que deixava apenas dois: Hoppo e eu.

Tive algumas namoradas, mas nada sério. E algumas paixões assolapadas e impossíveis, uma delas por uma professora de Inglês de aspecto severo, cabelos escuros, óculos pequeninos e uns olhos verdes incríveis. A menina Barford.

Quanto ao Hoppo – bem, Hoppo nunca pareceu interessar-se muito pelas raparigas até termos conhecido uma chamada Lucy (que acabaria por traí-lo com Mickey e seria a causa da briga na tal festa a que não fui).

Hoppo apaixonou-se, uma paixão a sério. Que eu nunca compreendi quando era rapaz. A rapariga era engraçada, mas nada de especial. Bastante apagada, por sinal. Cabelos castanhos escorridos, óculos. Também se vestia de maneira estranha. Saias plissadas compridas, botas, Tshirts tingidas e todas essas porcarias hippies. Não era uma tipa porreira.

Só mais tarde percebi quem ela me fazia lembrar: a mãe de Hoppo. Seja como for, pareciam dar-se bem e faziam um par interessante. Apreciavam as mesmas coisas, embora numa relação todos cedamos um pouco e finjamos gostar de algumas coisas para satisfazer a outra pessoa.

Com os amigos passa-se o mesmo. Não gostava muito de Lucy, mas fingia gostar para agradar a Hoppo. Por essa altura, eu andava com uma miúda que frequentava o ano anterior, chamada Angie. Tinha uma enorme cabeleira, arranjada em permanente, e um corpo jeitoso.

Não estava apaixonado, mas gostava dela, que não era nada complicada (não é nesse aspecto, embora também não se fizesse muito difícil). Era fácil estar na companhia dela: descontraída e nada exigente. Com tudo o que se passava com o meu pai, era o que eu precisava.

Saímos por diversas vezes na companhia de Hoppo e de Lucy. Angie e Lucy pouco tinham em comum, mas Angie era uma garota afável que se esforçava por agradar às pessoas. O que era bom, pois assim não tinha de ser eu a fazê-lo.

Íamos ao cinema, também íamos ao pub e, um fim-de-semana, Hoppo sugeriu algo diferente.

– Vamos à feira.

Nesse momento encontrávamo-nos no pub. Não era o The Bull. Nem pensar que o pai do Gav Gordo nos permitisse beber cervejas e comer uns petiscos. Era no Wheatsheaf, do outro lado da cidade, onde o dono não nos conhecia e não queria saber se tínhamos apenas dezasseis anos.

Estávamos em Junho, de modo que nos sentávamos cá fora, na esplanada, a qual não era mais do que um pequeno quintal nas traseiras mobilado com algumas mesas de madeira desengonçadas e bancos corridos.

Lucy e Angie reagiram com entusiasmo. Eu fiquei em silêncio. Não tinha voltado à feira desde o dia do terrível acidente. Não vou dizer que evitava todas as feiras e parques de diversões, apenas não sentia vontade de ir a nenhum.

Mas era mentira. Tinha medo. No Verão anterior esquivara-me a uma ida ao Thorpe Park alegando uma indisposição de estômago, o que era mais ou menos verdadeiro. O estômago

 

dava-me voltas sempre que pensava em andar no carrossel ou noutra coisa qualquer. Só me acudia à memória a imagem da Rapariga do Carrossel, estendida no chão com a perna pendurada e o rosto adorável reduzido a uma massa de ossos e cartilagens.

– Ed? – perguntou Angie, a dar-me um apertão na perna. – O que dizes? Não queres ir amanhã à feira? – Sussurrou-me ao ouvido, numa voz um pouco entaramelada. – No Comboio Fantasma, deixo que me metas o dedo.

Por muito aliciante que a ideia fosse (até então só lhe tinha metido o dedo no ambiente pouco estimulante do meu quarto), apenas esbocei um sorriso forçado.

– Sim. Parece-me bestial.

Não parecia, mas não quis mostrar-me cobarde em frente de Angie e, por qualquer razão, em frente de Lucy, que me lançava um olhar estranho. Um olhar que me desagradou, como se ela tivesse percebido a minha mentira.

No dia da feira estava muito calor. Tal como da outra vez. E Angie cumpriu a promessa. Mas nem isso me deu o prazer que esperava, embora à saída do Comboio Fantasma sentisse dificuldade em andar. O que em breve desapareceu quando vi onde tínhamos vindo parar.

Mesmo em frente do carrossel.

Não sei como, mas ainda não o tinha visto. Talvez oculto pela multidão, ou porque a minha atenção se concentrava noutras coisas, como a minúscula minissaia de licra de Angie e o que me esperava tentadoramente alguns centímetros mais acima.

Estaquei, imóvel, a olhar para os compartimentos que rodopiavam. Vinda não sei de onde, a voz de Bon Jovi berrava nos altifalantes. As raparigas gritavam, deliciadas, quando os empregados do carrossel faziam rodopiar mais depressa as cadeirinhas.

Grita se quiseres ir mais depressa.

– Ei. – Hoppo surgiu ao meu lado e percebeu para onde eu estava a olhar. – Sentes-te bem?

Assenti, pois não queria dar parte de fraco na presença das raparigas.

– Estou bem, estou.

– A seguir vamos ao carrossel? – perguntou Lucy, a dar o braço a Hoppo.

A pergunta foi feita em tom inocente, mas ainda hoje estou convencido de que havia ali qualquer coisa. Falsidade. Astúcia. Ela sabia. E dava-lhe gozo provocar-me.

– Pensei que íamos para o Meteorito – repliquei.

– Podemos ir depois. Anda lá, Eddie. Vai ser giro.

Detestava quando ela me chamava Eddie. Eddie era um nome de garoto. Aos dezasseis anos, gostava que me tratassem por Ed.

– Acho que o carrossel é uma treta – disse, a encolher os ombros. – Mas se querem fazer uma corrida de merda, por mim está bem.

Ela sorriu.

– E tu, o que dizes, Angie?

Eu sabia o que Angie ia dizer. E Lucy também.

– Se é isso que toda a gente quer, eu não me importo.

Por um instante, gostaria que se importasse. Que tivesse opinião própria, espinha dorsal.

Porque outra palavra para «afável» é ser «mole».

– Bestial – disse Lucy, com um sorriso. – Vamos lá.

Dirigimo-nos ao carrossel e juntámo-nos à pequena fila para entrar. O coração saltava-me no peito. Sentia as mãos húmidas. Julguei que ia vomitar, ainda não tinha começado a corrida e já as contracções do estômago se tornavam insuportáveis.

Os participantes na corrida anterior saíram. Ajudei Angie a subir, a tentar mostrar-me cavalheiro e a deixá-la ir à frente. Coloquei um pé sobre a plataforma de madeira instável e detive-me. Qualquer coisa me chamou a atenção, ou melhor, qualquer coisa me perpassou pelo canto do olho. O bastante para me obrigar a virar.

Uma figura alta e esguia ao lado do Comboio Fantasma. Vestida de preto. Calças de ganga pretas e lustrosas, camisa larga e um chapéu preto de abas largas, à cowboy. Estava de costas para mim, a observar o Comboio Fantasma, mas consegui distinguir os longos cabelos louro-esbranquiçados que lhe desciam pelas costas.

Continuas comigo, Eddie?

Uma loucura. Impossível. Não podia ser o senhor Halloran. Não podia. O senhor Halloran estava morto. Desaparecido. Enterrado. Mas Sean Cooper também estava.

– Ed?

Angie olhava-me, intrigada.

– Sentes-te bem?

– Eu…

Olhei para trás, na direcção do Comboio Fantasma. A figura movera-se. Apenas vi uma sombra negra desaparecer na esquina.

– Desculpa, tenho de ir ver uma coisa.

E saltei do carrossel.

– Ed! Não te podes ir embora assim!

Angie lançou-me um olhar irado. Nunca a vira tão chateada. Não tive dúvida de que a nossa aventura no Comboio Fantasma podia ser a última durante muito tempo, mas naquele momento não tinha importância. Tinha de ir. Tinha de saber.

– Desculpa – tartamudeei outra vez.

Atravessei a correr o recinto da feira. Dobrava a esquina do Comboio Fantasma no momento em que a figura desaparecia por detrás das bancas do algodão-doce e dos balões. Acelerei o passo, fui de encontro a algumas pessoas que me insultaram. Não me importei.

Não sei se acreditava ou não que a aparição que perseguia era real, mas estava habituado a fantasmas. Mesmo já adolescente, continuava a espreitar à noite pela janela do quarto, para o

caso de Sean estar lá em baixo. De cada vez que sentia um cheiro desagradável perguntava-me se não seria uma mão em decomposição a tocar-me no rosto.

Passei rapidamente pelos carrinhos de choque e pela nave espacial, que antes era uma grande atracção, mas que com o aparecimento das montanhas-russas e das rodas gigantes cada vez maiores agora não passava de uma sensaboria. Ganhava-lhe terreno. Até que a figura parou.

Abrandei o passo e escondi-me atrás de uma barraca de venda de cachorros. Fiquei a vê-la levar a mão ao bolso para tirar um maço de cigarros.

Foi então que me apercebi do meu erro. As mãos. Não eram mãos brancas e de dedos finos, mas mãos rudes, escuras, de unhas compridas e irregulares. A figura virou-se. Fitei-lhe o rosto macilento, de linhas cavadas tão fundo que pareciam entalhadas com uma goiva; os olhos eram pedras azuis enterradas nas órbitas. Uma barba amarela descia-lhe do queixo, quase até ao peito. Não era o senhor Halloran, nem um jovem. Era um velho, um cigano.

A sua voz soou como gravilha agitada dentro de um balde.

– Estás a olhar para quê, miúdo?

– Nada… ehhh… peço desculpa.

Virei-me e fugi tão depressa quanto me permitia a dignidade – ou o que restava dela. Quando me considerei longe da vista dele abrandei o passo, ofegante, a tentar dominar as ondas de náusea que ameaçavam submergir-me. Até que abanei a cabeça, e em vez de um vómito soltei uma gargalhada. Não era o senhor Halloran, não era o Homem de Giz, apenas um velho trabalhador da feira, provavelmente careca sob o chapéu de cowboy.

Doido, doido, doido. Como o maldito anão de Aquele Inverno em Veneza (um filme que uns dois anos antes tínhamos visto em segredo em casa do Gav Gordo, apenas porque ouvimos dizer que Donald Sutherland e Julie Christie «o faziam» diante da câmara. Foi um desapontamento porque quase nada se viu de Julie Christie, apenas o traseiro branco e esquelético de Sutherland).

– Ed. O que se passa?

Levantei a cabeça e vi Hoppo, que corria para mim, seguido pelas raparigas. Deviam ter abandonado o carrossel. Lucy parecia bastante irritada com isso.

Procurei sufocar o riso, para não parecer doido.

– Julguei ter visto o senhor Halloran. O Homem de Giz.

– O quê? Estás a brincar?

Abanei a cabeça.

– Mas não era ele.

– É claro que não podia ser – declarou Hoppo, de testa franzida. – Está morto.

– Eu sei. Só que…

Olhei para os seus rostos, inquietos e intrigados, e assenti.

– Eu sei. Estava enganado. Foi uma estupidez.

– Anda daí – disse Hoppo, sem abandonar a sua expressão preocupada. – Vamos beber

– Anda daí – disse Hoppo, sem abandonar a sua expressão preocupada. – Vamos beber qualquer coisa.

 

Olhei para Angie. Esboçou um sorriso tímido e estendeu-me a mão. Estava perdoado. Com demasiada facilidade. Como sempre.

Mesmo assim, agarrei-a. Agradecido. Até que ela perguntou:

– Quem é o Homem de Giz?

Acabámos o namoro pouco tempo depois. Penso que não tínhamos muito em comum.

Afinal, nem nos conhecíamos bem. Ou talvez eu já fosse um jovem com um historial de experiências desagradáveis que requeria alguém especial para partilhar esse fardo. Talvez tenha sido por isso que permaneci solteiro por tanto tempo. Ainda não encontrei essa pessoa. Ainda não. Talvez nunca encontre.

Depois da feira, despedi-me de Angie com um beijo e regressei a casa cansado, sob o calor ainda escaldante do fim da tarde. As ruas estavam estranhamente desertas, os moradores procuravam o fresco nas esplanadas das cervejarias e nos relvados das traseiras; até o trânsito era esporádico, ninguém estava interessado em derreter dentro de uma grande caixa metálica.

Dobrei a esquina da nossa rua, ainda assaltado por uma sensação de estranheza por causa do incidente na feira. E também a sentir-me um pouco estúpido. Tinha-me assustado com facilidade, convencido de que poderia ser ele. Idiota. Obviamente, não era. Não podia ser. Mais uma intrujice.

Suspirei, percorri o caminho de acesso em passos pesados e abri a porta da frente. O meu pai estava sentado na sua cadeira de braços predilecta, na sala de estar, de olhar perdido na televisão. Na cozinha, a minha mãe preparava o jantar. Tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado. A minha mãe não chorava com facilidade. Creio que nesse aspecto saio a ela.