O Homem de Giz
Capítulo 1986
Descobri que é muito melhor pegar nos medos, fechá-los numa caixa muito bonita e atirá-la para o recanto mais escuro e fundo da memória. Mas cada um pensa à sua maneira.
– Então e nós, os outros? Já te perguntaste se estamos dispostos a enfrentar os nossos medos, a reviver tudo o que aconteceu?
– Percebo o que queres dizer. A sério que percebo. É por isso que te quero envolvido, e não apenas por causa da escrita.
– O que queres dizer com isso?
– Há mais de vinte anos que não venho aqui. Sou um desconhecido. Mas tu continuas a viver cá. Conheces as pessoas, elas confiam em ti…
– Queres que lime as arestas com Gav e Hoppo?
– Não o farias de graça. Ganharias uma parte do adiantamento. Direitos de autor.
Hesito. Mickey interpreta a minha hesitação como relutância.
– E ainda há outra coisa.
– O que é?
Esboça um sorriso cínico e num instante percebo que tudo quanto disse sobre voltar e enfrentar os medos é só treta, um monte de merda malcheirosa.
– Sei quem realmente a matou.
1986
As férias de Verão aproximavam-se do fim.
– Só mais seis dias – disse o Gav Gordo em tom desalentado. – E já incluindo o fim-de-semana, que não conta, portanto só faltam quatro.
Partilhava o seu desalento, mas tentava expulsar da minha cabeça a ideia da escola. Seis dias continuavam a ser seis dias, e agarrava-me a essa ideia por mais de uma razão. Por enquanto, Sean Cooper ainda não tinha dado cumprimento à ameaça.
Já o vira pela cidade, mas conseguira sempre escapar antes que ele desse por mim. O olho direito dele ostentava uma grande mancha negra e um corte de aspecto repugnante. O género de corte que iria ficar com ele durante toda a sua vida adulta – se Sean chegasse a atingir a idade adulta.
Metal Mickey dizia que ele já se tinha esquecido de mim, mas não me parecia. Evitá-lo durante as férias era uma coisa. Como dizem os cowboys, a cidade era grande o suficiente para os dois. Mas assim que voltássemos para a escola seria muito mais difícil evitá-lo todos os dias… à hora de almoço, no recreio, no caminho para a escola e no regresso a casa.
Também estava preocupado com outra coisa. As pessoas julgam que a vida dos miúdos é isenta de preocupações. Mas não é verdade. As preocupações dos garotos são maiores porque somos mais pequenos. Estava preocupado com a minha mãe. Ultimamente andava arisca e desabrida e ainda mais irritável do que o costume. O meu pai dizia que era nervosismo, por causa da abertura da nova clínica.
A minha mãe costumava trabalhar em Southampton. Mas agora ia abrir uma nova clínica em Anderbury, perto da escola técnica. Num edifício que tivera outro uso. Já não me lembro qual, mas era um prédio mais do que banal. Creio que o problema era esse. Nem uma tabuleta havia.
Era possível passar por ele sem se dar pela sua existência, se não fossem as pessoas que se juntavam cá fora.
Vinha de bicicleta da minha ida às compras quando as vi. Um grupo talvez de cinco pessoas.
Marchavam em círculo, a segurar cartazes e a cantar slogans. Nos cartazes liam-se coisas como
«ESCOLHE A VIDA», «NÃO MATEM OS BEBÉS» e «DEIXEM VIVER AS CRIANCINHAS».
Reconheci algumas delas. Uma mulher que trabalhava no supermercado e a amiga loura da Rapariga do Carrossel, que vira na feira. Por incrível que pareça, a Amiga Loura escapara incólume naquele dia. Uma pequena parte de mim – uma parte não muito agradável –
entendia que não era justo. Não era tão bonita como a Rapariga do Carrossel, nem tão
simpática. Empunhava um dos cartazes e marchava atrás de outra pessoa que eu conhecia. O
reverendo Martin. A voz dele sobrepunha-se às restantes e marchava com uma Bíblia aberta na mão, a recitar versículos.
Parei a bicicleta e fiquei a ver. Depois da contenda na festa do Gav Gordo, o meu pai tinha tido uma conversa comigo e eu ficara a saber um pouco mais sobre o que se passava na clínica da minha mãe. Mas aos doze anos não se consegue abarcar todas as implicações de um tema como o aborto. Só sabia que a minha mãe ajudava as mulheres que não podiam tomar conta dos filhos. Nem tinha vontade de saber mais.
Todavia, e apesar da minha idade, apercebia-me da indignação – da virulência – dos manifestantes. Qualquer coisa nos seus olhos, na saliva que expeliam pelos cantos da boca, no modo como brandiam os cartazes, como se fossem armas. Entoavam cânticos de amor, mas pareciam destilar ódio. Pedalei rapidamente até casa. Estava tudo em silêncio, apenas quebrado pelo ruído do meu pai a serrar qualquer coisa não sei onde. A minha mãe estava lá em cima, a trabalhar. Larguei os sacos das compras e deixei o troco ao lado. Queria falar com eles sobre a cena a que tinha assistido, mas estavam ambos ocupados. Saí sem destino, pela porta das traseiras. Foi quando reparei no desenho a giz no caminho de acesso.
Por essa altura, havia algum tempo que andávamos a desenhar figuras a giz e outros símbolos. Quando se é garoto, as ideias são um pouco como sementes espalhadas pelo vento.
Algumas nunca chegam a germinar, levadas pela brisa, esquecidas e nunca mais mencionadas.
Outras ganham raízes. Instalam-se, crescem e alastram.
Os desenhos a giz foram uma dessas ideias bizarras que todos acolheram quase de imediato.
Como é evidente, os nossos primeiros desenhos no terreiro dos jogos foram uma multidão de homens de sexos avantajados e as palavras «Vai-te foder». Mas assim que sugeri a ideia de os usarmos para transmitir mensagens secretas entre nós, parece que os homens de giz adquiriram vida própria.
Cada um de nós usava uma cor diferente de giz, de maneira que sabíamos quem tinha deixado a mensagem, e os diversos desenhos comportavam significados diferentes. Uma figura erecta dentro de um círculo queria dizer «encontrem-se comigo no parque de jogos». Uma pluralidade de linhas verticais e triângulos significava «o bosque». Havia símbolos para encontros nas lojas e no recreio. Havia sinais de alerta para Sean Cooper e o seu bando.
Reconheço que também usávamos sinais para representar palavrões, de maneira que podíamos escrever «Vai-te foder» e outras coisas piores defronte das casas das pessoas de quem não gostávamos.
Deixámo-nos obcecar um pouco por aquilo? Penso que sim. Mas é o que acontece aos miúdos. Tornam-se obcecados pelas coisas durante algumas semanas ou meses até se cansarem da ideia e a descartarem por completo.
Lembro-me de um dia ir ao Woolies comprar mais giz e a Dama da Permanente estar à caixa.
Lançou-me um olhar estranho e perguntei-me se ela desconfiaria de que tinha outro pacote de
giz enfiado na mochila. Mas o que ela disse foi:
– Vocês gostam muito de giz, não gostam? Hoje já és o terceiro que cá vem. E eu a pensar que agora era só Donkey Kong e Pac-Man.
A mensagem no caminho de acesso estava escrita a azul, o que significava que era de Metal Mickey. Um homem ao lado de um círculo e um ponto de exclamação (que queria dizer
«depressa»). Estranhei, pois era pouco habitual o Metal Mickey deixar-me mensagens. Em geral preferia comunicar com o Gav Gordo ou com o Hoppo.
Mas naquele dia não me apetecia andar pela casa, de modo que arredei mentalmente as dúvidas, gritei pela porta que me ia encontrar com Mickey, montei a bicicleta e meti-me ao caminho.
O parque estava vazio. Outra vez. Nada de invulgar. Estava quase sempre vazio. Havia muitas famílias em Anderbury e uma imensidade de garotos pequenos, que seria de esperar encontrar a brincar nos baloiços. Mas a maioria dos pais e das mães levava os filhos para outro parque, mais distante.
Segundo Metal Mickey, a razão pela qual as pessoas evitavam o parque era por este estar assombrado. Ao que parecia, três anos antes tinha lá sido encontrada uma rapariga morta.
– Encontraram-na no carrossel. Tinha a garganta cortada, tão fundo que a cabeça estava quase separada do corpo. E também lhe tinham aberto a barriga e as tripas saíam-lhe como se fossem salsichas.
Há que reconhecer que Metal Mickey sabia contar uma história; em geral, quanto mais sanguinolenta melhor. Mas não passavam disso. Histórias. Estava sempre a inventar coisas, embora por vezes incluísse nelas uma pequena parte de verdade.
Contudo, o parque de jogos tinha sem dúvida qualquer coisa de sinistro. Sempre escuro, mesmo nos dias de sol. É claro que se devia mais à ramaria densa das árvores do que a qualquer coisa sobrenatural, mas a verdade é que muitas vezes sentia um ligeiro arrepio quando me sentava no carrossel, ou uma vontade premente de olhar para trás, para ver se alguém me observava, e por norma nunca lá ia sozinho.
A cancela ferrugenta rangeu quando a empurrei, irritado com o facto de Metal Mickey ainda lá não se encontrar. Encostei a bicicleta à vedação. Foi quando senti os primeiros sinais de inquietação. Em geral, o Metal Mickey não se atrasava. Havia ali algo de errado. Atrás de mim, a cancela voltou a ranger e ouvi uma voz:
– Olá, Cara de Merda.
Quando me virei, um punho embateu-me na cabeça, de lado.
Abri os olhos. Sean Cooper olhava-me lá do alto. O rosto oculto pelas sombras. Só lhe conseguia distinguir a silhueta, mas tive a certeza de que estava a sorrir, o que não augurava
nada de bom. Nada daquilo era bom.
– Tens andado a ver se nos escapas?
Nos? Da minha posição, deitado de costas no chão, tentei rodar a cabeça para a esquerda e para a direita. Consegui entrever mais dois pares de ténis Converse emporcalhados. Não precisava de ver as caras para saber que pertenciam a Duncan e a Keith.
Sentia a cabeça a latejar. O pânico apertava-me a garganta. O rosto de Sean aproximou-se.
Percebi que me agarrava a T-shirt e que a puxava para o meu pescoço.
– Atiraste-me um tijolo para a porra do olho, Cara de Merda. – Sacudiu-me e a minha cabeça embateu no alcatrão. – Ainda não te ouvi pedir desculpa, pois não?
– Peeço… esculp…
As palavras saíram-me distorcidas e entarameladas. Começava a ser difícil respirar.
Sean puxou-me para cima e a minha cabeça deixou de assentar no chão. A T-shirt continuava a estrangular-me.
– Esculp…? – perguntou numa voz chorosa e esganiçada.
Olhou para Duncan e Keith, que eu agora conseguia ver, encostados à armação de trepar.
– Vocês ouviram isto? O Cara de Merda pediu esculp…
Ambos riram, a mostrar os dentes.
– Não é muita esculp…? – disse Keith.
– Ná. Parece-me mais Cara de Merda – concordou Duncan.
Sean chegou-se mais perto. Senti-lhe no hálito o cheiro a tabaco.
– Não me parece que estejas a ser sincero, Cara de Merda.
– Est… estou.
– Ná. Mas não faz mal. Porque nós fazemos-te pedir esculp…
Senti que esvaziava a bexiga. Felizmente o dia estava quente e suara bastante, pois se tivesse mais uma gota de líquido no corpo tinha-a derramado nas calças.
Sean deu um puxão à T-shirt para me levantar. Agitei frenético os pés para me apoiar no alcatrão e não sufocar. Empurrou-me para trás, contra a armação de trepar. Tinha a cabeça a andar à roda, e só não me estatelei no chão porque ele me mantinha de pé.
Em desespero, relanceei os olhos pelo parque, mas estava vazio, com excepção de Sean e do seu bando, com as suas reluzentes bicicletas de corrida BMX abandonadas sem cuidado junto aos baloiços. A de Sean era fácil de reconhecer. De um vermelho-vivo, com uma caveira negra pintada de lado. Do outro lado da estrada, apenas um carro azul isolado, estacionado no parque do Spar. Do condutor, nem sinal.
Só então me apercebi de uma coisa: um vulto no parque. Não o distingui bem, mas parecia…
– Estás a ouvir-me, Cara de Merda?
Sean atirou-me com violência contra as barras da estrutura metálica. A minha cabeça embateu no metal e a visão toldou-se. O vulto desapareceu; por um instante, tudo desapareceu.
Como se alguém me corresse uma pesada cortina cinzenta diante dos olhos. As pernas
cederam. Um abismo escuro escancarou-se. Senti uma violenta bofetada. Mais outra. A minha cabeça rodava de um lado para o outro. A pele parecia arder. A cortina voltou a abrir-se.
À minha frente, a cara de Sean rasgava-se num sorriso. Já o conseguia ver bem. O espesso cabelo louro, a pequena cicatriz por cima do olho. Os olhos azuis cintilantes, como os do irmão. Mas com uma luminosidade diferente. Um brilho de morte, pensei. Frio, duro, tresloucado.
– Ora bem. Agora já temos toda a tua atenção.
O punho dele atingiu-me no estômago, a arrancar-me todo o ar. Dobrei-me para a frente.
Nem conseguia gritar. Nunca antes ninguém me tinha batido assim, e a dor era imensa, colossal. Como se as minhas entranhas estivessem em brasa.
Sean agarrou-me pelos cabelos e levantou-me a cabeça. Dos olhos e do nariz escorriam-me lágrimas e ranho.
– Auu, magoei-te, Cara de Merda? Vamos fazer um acordo: não te bato mais se mostrares como queres pedir esculp.
Procurei assentir com a cabeça, mas era impossível porque Sean me prendia com tanta força pelos cabelos que até as raízes gritavam.
– Achas que consegues?
Mais um doloroso gesto afirmativo.
– Muito bem. Ajoelha-te.
Não tinha escolha possível, pois ele empurrava-me a cabeça para baixo. Duncan e Keith avançaram para me agarrar os braços.
Esfolei os joelhos no alcatrão áspero do recinto. Fez-me doer, mas não me atrevi a chorar.
Demasiado apavorado para isso. De olhos baixos, fixados nos ténis Nike brancos de Sean. Ouvi o som de uma fivela e de um fecho de correr e de repente percebi o que se avizinhava. O
pânico, o medo e a repulsa avassalaram-se em simultâneo.
– Não!
Debati-me, mas Duncan e Keith imobilizavam-me.
– Mostra-me lá como estás arrependido, Cara de Merda. Chupa-me a picha.
Levantou-me a cabeça com um puxão e dei por mim a olhar para o membro dele. Pareceu-me enorme. Muito vermelho e inchado. E malcheiroso também. A suor e a qualquer outra coisa azeda e esquisita. Na base, avultavam os pêlos louros encaracolados.
Cerrei os dentes com força e tentei abanar a cabeça.
Sean comprimiu a extremidade do membro contra os meus lábios. O fedor repugnante subiu-me pelas narinas. Cerrei os maxilares ainda com mais força.
– Chupa.
Duncan torceu-me o braço nas costas. Gritei. Sean enfiou-me o membro na boca.
– Chupa, cabrão de merda.
Não conseguia respirar. Engasguei-me. Uma mistura de lágrimas e ranho escorria-me pelo
Não conseguia respirar. Engasguei-me. Uma mistura de lágrimas e ranho escorria-me pelo queixo. Julguei que ia vomitar. Nesse momento ouvi distintamente a voz de um homem gritar:
– Ei! Que raio pensam vocês que estão a fazer?
A mão que me prendia a cabeça afrouxou o aperto. Sean deu um passo atrás, a retirar o membro da minha boca e a guardá-lo depressa nos calções. Largaram-me os braços.
– Perguntei que raio estão a fazer!
Pestanejei. Através de um véu de lágrimas entrevi um homem alto e muito branco, de pé à entrada do recinto. O senhor Halloran.
Passou a perna por cima da vedação e dirigiu-se para nós em passos largos. Trajava o seu uniforme habitual: a camisa larga, os jeans justos e botas. Desta vez o chapéu era cinzento, e por baixo dele saíam-lhe os cabelos brancos da nuca. O seu rosto era de pedra, de mármore para ser mais exacto. Os olhos minúsculos pareciam cintilar com um fogo interior. Furioso e assustador, como um anjo vingador de banda desenhada.
– Nada. Não estávamos a fazer nada – ouvi Sean dizer, agora menos arrogante. – Só andávamos a brincar por aí.
– Só a brincar por aí?
– Sim, senhor.
O olhar do senhor Halloran recaiu sobre mim e suavizou-se.
– Estás bem?
Pus-me de pé e assenti.
– Estou sim, senhor.
– É verdade que só andavam por aí a brincar?
Olhei de relance para Sean que me lançou um olhar. Percebi-lhe o significado. Se revelasse alguma coisa, a minha vida estava acabada. Nunca mais poderia sair de casa. Se ficasse calado, talvez, apenas talvez, a coisa ficasse por ali. Acabavam-se a provação e o castigo.
Voltei a anuir com a cabeça.
– Sim, senhor, só andávamos por aí a brincar.
O senhor Halloran olhou-me. Baixei os olhos para os ténis, a sentir-me cobarde, estúpido e insignificante.
Por fim, ele virou a cara.
– Muito bem – disse, a dirigir-se aos outros rapazes. – Não sei o que vi aqui, e só por isso não vos levo já para a esquadra. Agora desapareçam, antes que mude de ideias.
– Sim, senhor – murmuraram em uníssono, de súbito humildes e dóceis como garotinhos.
Fiquei a vê-los saltar para as bicicletas e pedalarem a toda a velocidade. O senhor Halloran continuou a olhar para eles. Por um instante julguei que se tinha esquecido da minha presença.
Depois, virou-se para mim.
– Então, estás mesmo bem?
Qualquer coisa no seu rosto, nos seus olhos e até na sua voz impossibilitaram-me de
Qualquer coisa no seu rosto, nos seus olhos e até na sua voz impossibilitaram-me de continuar a mentir. Abanei a cabeça, a sentir as lágrimas que me assomavam aos olhos.
– Também pensei que não. – Os seus lábios tornaram-se mais finos. – Não há coisa que mais deteste que rufiões abusadores. Sabes qual é o problema dos rufiões?
Abanei a cabeça. Naquele momento não sabia nada de nada. Sentia-me fraco e a tremer.
Doíam-me o estômago e a cabeça, e a vergonha avassalava-me. Apetecia-me lavar a boca com detergente e esfregar-me até a pele ficar em sangue.
– São cobardes – continuou o senhor Halloran. – E os cobardes recebem sempre o castigo devido. É o karma. Sabes o que é?
Abanei outra vez a cabeça, a desejar que o senhor Halloran se fosse embora.
– Quer dizer que se colhe o que se semeia. Fazem-se coisas más e elas acabam por nos vir morder o traseiro. O dia daquele rapaz há-de chegar. Podes estar certo disso.
Pousou a mão no meu ombro e apertou-o um pouco. Esbocei um sorriso forçado.
– Aquela bicicleta é tua?
– É, sim senhor.
– Sentes-te em condições de voltar para casa?
Quis responder que sim, mas sentia-me exausto só de estar de pé. O senhor Halloran dirigiu-me um sorriso de compreensão.
– O meu automóvel está ali adiante. Pega na bicicleta, que eu dou-te uma boleia.
Atravessámos a estrada em direcção ao carro dele. Um Princess azul. No parque de estacionamento do Spar não havia sombra; quando ele abriu a porta saiu uma baforada de calor. Felizmente os assentos eram de tecido, e não de plástico como no automóvel do meu pai, e não queimei as pernas ao sentar-me. Mesmo assim, sentia a T-shirt colada à pele.
O senhor Halloran instalou-se ao volante.
– Puff! Está um bocadinho quente, não te parece?
Baixou o vidro da janela. Fiz o mesmo do meu lado. Quando arrancámos, fez-se sentir uma brisa suave.
Mesmo assim, confinado no espaço quente, apercebia-me do penetrante cheiro a suor que exalava, junto com a sujidade, o sangue e tudo o mais.
A mamã vai matar-me, pensei. Já imaginava a cara dela:
– Que raio andaste a fazer, Eddie? Andaste à bulha? Estás um nojo, olha para a tua cara.
Quem te fez isto?
Ia querer saber quem tinha sido e depois havia de lá ir e arranjar sarilho. Senti que o estômago me caía lentamente até aos dedos dos pés.
O senhor Halloran olhou-me de soslaio.
– Sentes-te bem?
– A minha mãe – murmurei. – Vai ficar furiosa.
– Mas não tiveste culpa do que aconteceu.
– Isso não interessa.
– Se lhe contares…
– Não, não posso.
– Está bem.
– Ela anda numa pilha de nervos por causa de outras coisas.
– Ah! – disse ele, como se soubesse do que se tratava. – Vou sugerir uma coisa. Por que não vamos até minha casa e te limpas um pouco?
Abrandou no cruzamento e fez sinal, mas em vez de virar à esquerda para a minha rua virou à direita. Demos mais algumas voltas e estacionou defronte de uma pequena vivenda branca.
Sorriu.
– Vem daí, Eddie.
O interior da vivenda era escuro e fresco. Todas as cortinas estavam corridas. A porta da frente abria para uma pequena sala de estar. A mobília era escassa. Apenas um par de cadeiras de braços, uma mesa de café e uma pequena televisão sobre uma banqueta. Cheirava a qualquer coisa estranha, a ervas. Em cima da mesa de café, um cinzeiro com duas beatas brancas. O
senhor Halloran pegou-lhe.
– Vou deitar isto fora. A casa de banho é lá em cima, ao cimo da escada.
– Está bem.
Subi a escada estreita. Ao chegar ao patamar, deparei-me com uma casa de banho minúscula.
O chão e as louças eram verdes. Ao lado da banheira e em redor do pé da sanita, havia tapetes claros cor de laranja, convenientemente dispostos. Um pequeno armário de porta espelhada preso à parede, por cima do lavatório.
Fechei a porta da casa de banho e mirei-me ao espelho. O ranho seco no nariz e os sulcos abertos pelas lágrimas na poeira que me cobria a cara. Ainda bem que a minha mãe não me ia ver naquele estado, ou passaria o resto dos dias de férias confinado ao quarto e ao quintal das traseiras. Comecei a limpar a cara com a toalha que estava no lavatório, a molhá-la na água quente que ia ficando turva à medida que a sujidade ia saindo.
Voltei a olhar-me no espelho. Melhor. Quase normal. Enxuguei a cara com uma grande toalha turca e saí da casa de banho.
Devia ter descido de imediato. Se o tivesse feito, tudo se passaria pelo melhor. Podia ir para casa e esquecer-me daquela visita. Em vez disso, dei por mim a olhar para as duas outras portas do patamar. Ambas fechadas. Imaginei o que estaria por detrás delas. Só uma espreitadela.
Rodei a maçaneta e empurrei a que me ficava mais próxima.
Não era um quarto. Não havia mobília nenhuma. No centro da sala erguia-se um cavalete com um quadro coberto por um lençol sujo. Em volta do compartimento, encostados à parede, uma imensidade de quadros. Alguns feitos a giz, ou lá como o senhor Halloran lhe tinha chamado. Mas os outros eram em tinta espessa, a sério.
A maioria parecia representar apenas duas raparigas. Uma muito branca e loura, como o senhor Halloran. Linda, mas com um ar contristado, como se alguém lhe tivesse dito qualquer coisa desagradável e procurasse disfarçar.
A outra rapariga, reconheci-a logo. Era a Rapariga do Carrossel. No primeiro quadro estava sentada de lado a uma janela, com um vestido branco. Só se lhe via o perfil, mas não tive dúvida de que era ela, e continuava linda. O seguinte era um pouco diferente. Estava sentada num jardim, com um lindo vestido de Verão, e olhava para o pintor. O cabelo castanho sedoso caía-lhe em ondas sobre os ombros. Distinguia-se-lhe o contorno suave do maxilar e um olho grande em forma de amêndoa.
O terceiro quadro mostrava-lhe ainda melhor o rosto, ou melhor, o lado do rosto que o pedaço de metal despedaçara. O aspecto já não era tão terrível porque o senhor Halloran tinha disfarçado as cicatrizes de modo a parecerem uma colagem de diferentes cores, e o cabelo ocultava-lhe em parte o olho defeituoso. Quase outra vez bela, só que de uma maneira diferente.
Olhei para a tela que estava no cavalete e os meus passos levaram-me até ela. Levantei uma ponta da cobertura. Foi então que ouvi estalar uma prancha do soalho.
– Eddie? Que estás a fazer?
Rodei sobre os calcanhares, tolhido pela vergonha pela segunda vez nesse dia.
– Peço desculpa… estava só… só queria ver.
Por um instante julguei que o senhor Halloran me expulsasse dali, mas ele sorriu.
– Não faz mal, Eddie. Devia ter fechado a porta.
Estive tentado a abrir a boca para lhe dizer que a porta estava fechada. Mas depois percebi.
Ele facultava-me uma saída airosa.
– São mesmo muito bons – comentei.
– Obrigado.
– Quem é? – perguntei, a apontar para o quadro da rapariga loura.
– A minha irmã, Jenny.
Aquilo explicava a parecença.
– É muito bonita.
– Era, sim. Já morreu. Há alguns anos. Com leucemia.
– Peço desculpa.
Não sabia por que razão pedia desculpa, mas era o que as pessoas diziam sempre quando alguém morria.
– Não faz mal. Em certa medida, os quadros ajudam-me a mantê-la viva… penso que reconheces a Elisa?
A Rapariga do Carrossel. Assenti.
– Visitei-a muito, no hospital.
– Ela está bem?
– Não muito bem, Eddie. Mas há-de ficar boa. É forte. Mais forte do que ela pensa.
Fiquei calado, com a sensação de que o senhor Halloran queria dizer mais alguma coisa.
– Espero que os quadros a ajudem na convalescença. Uma rapariga como Elisa, a quem toda a vida disseram que era bonita. E quando se lhe tira isso fica-se com a impressão de que nada mais resta. Mas há, lá por dentro. É essa beleza que quero mostrar para que saiba que ainda há qualquer coisa a que se agarrar.
Atentei de novo no quadro de Elisa. E percebi. Não se parecia com o que era antes, mas ostentava um tipo de beleza diferente, especial. E percebi também o que era agarrarmo-nos às coisas. Para que não se perdessem para sempre. Estive quase a dizer-lho. Mas quando me virei para trás o senhor Halloran contemplava o quadro, como que esquecido da minha presença.
E aí compreendi outra coisa. Ele estava apaixonado por ela.
Gosto do senhor Halloran, mas mesmo assim experimentei uma sensação de desconforto, como se ali houvesse algo de errado. O senhor Halloran era um adulto. Não era um adulto velho (mais tarde viemos a saber que tinha trinta e um anos), mas não deixava de ser um adulto, e a Rapariga do Carrossel, bem, já não era uma rapariguinha de escola, mas continuava a ser muito mais nova do que ele. Não podia apaixonar-se por ela sem que isso fosse causa de sarilhos. Muitos sarilhos.
O senhor Halloran regressou de repente à realidade e apercebeu-se da minha presença na sala.
– Seja como for, cá estou eu a divagar. É por isso que não ensino artes. Ninguém acabaria por aprender nada. – Sorriu-me com o seu sorriso amarelo. – Estás pronto para ires para casa?
– Estou sim, senhor.
Mais do que tudo.
O senhor Halloran estacionou à esquina da minha rua.
– Creio que não desejas que a tua mãe faça perguntas.
– Obrigado.
– Queres que te ajude a tirar a bicicleta do porta-bagagem?
– Não, não é preciso, eu cá me arranjo. Muito obrigado.
– Não tens de quê, Eddie. Só uma coisa.
– Sim, senhor.
– Vamos fazer uma combinação. Não falo a ninguém no que aconteceu hoje se tu também não disseres nada. Especialmente sobre os quadros. São… como hei-de dizer?, um assunto privado.
Não precisei de pensar duas vezes. Não queria que ninguém soubesse o que se tinha passado naquele dia.
– Sim, senhor. Está combinado.
– Boa. Adeus, Eddie.
– Adeus.
Montei na bicicleta e pedalei até ao carreiro de acesso. Encostei-a à parede, ao lado da porta de entrada. Havia um pacote no degrau. Com uma etiqueta colada. Senhora M. Adams.
Perguntei-me por que razão o carteiro não teria batido à porta, mas talvez o papá e a mamã não tivessem ouvido.
Peguei no pacote e entrei com ele em casa.
– Ei, Eddie! – chamou o meu o pai da cozinha.
Olhei-me de relance no espelho do vestíbulo. Ainda tinha uma nódoa negra na testa e a Tshirt estava bastante suja, mas tinha de servir. Inspirei fundo e entrei na cozinha.
O meu pai estava sentado à mesa, a beber limonada de um grande copo. Olhou para mim e franziu a testa.
– O que te aconteceu à cabeça?
– Eu… ehh… caí do baloiço.
– Estás bem? Não te sentes agoniado, pois não? Tonto?
– Não, estou bem.
Pousei o pacote em cima da mesa.
– Isto estava no degrau.
– Ah, está bem. Não ouvi a campainha. – Levantou-se e gritou lá para cima. – Marianne…
uma encomenda para ti.
– Está bem, já lá vou – gritou a minha mãe em resposta.
– Queres limonada, Eddie? – perguntou o meu pai.
– Obrigado – aceitei com um gesto da cabeça.
Dirigiu-se para o frigorífico e tirou uma garrafa da porta. Funguei. Dentro de casa pairava um cheiro estranho.
A minha mãe entrou na cozinha. Trazia os óculos puxados para o cabelo e aparentava um ar de cansaço.
– Ei, Eddie. – Olhou para o pacote e perguntou: – O que é isto?
– Perguntas bem, mas não faço a menor ideia.
A minha mãe farejou o ar.
– Não te cheira a qualquer coisa?
O meu pai abanou a cabeça para dizer que não, mas reconsiderou.
– Sim, talvez um bocadinho.
A minha mãe voltou a olhar para o pacote e pediu, numa voz um pouco tensa:
– Geoff, és capaz de me dar uma tesoura?
O papá estendeu-lhe uma, que tirou da gaveta. A mamã cortou a fita castanha que fechava o pacote e abriu-o.
A minha mãe não era pessoa para se impressionar facilmente, mas deu um passo atrás e exclamou:
– Jesus!