O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 3 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 1986

Foi também nesse dia que conheci o senhor Halloran. Para falar de princípios, é tão bom como outro qualquer.

1986

– Hoje vamos ter tempestade, Eddie.

O meu pai adorava prever o tempo numa voz grave e autoritária, como as pessoas da televisão. Fazia-o sempre em tom seguro e afirmativo, embora em geral se enganasse.

Olhei pela janela para o céu de um azul sem mácula, tão brilhante que era preciso semicerrar os olhos para o fitar.

– Não me parece que vá haver tempestade, papá – contrapus com a boca cheia da sanduíche de queijo.

– Porque não vai haver nenhuma – disse a minha mãe, que tinha entrado súbita e silenciosamente na cozinha, como um guerreiro ninja. – A BBC diz que vai ser um fim-de-semana de sol e calor… e não fales com a boca cheia, Eddie – acrescentou.

– Hmmm – fez o meu pai, como sempre fazia quando discordava da minha mãe mas não se atrevia a contrariá-la.

Ninguém se arriscava a discordar da minha mãe. A mamã era – e continua a ser – uma personagem intimidante. Alta, de cabelos pretos cortados curtos e olhos castanhos capazes de cintilar de alegria, mas que se tornavam quase negros quando estava irritada (e, um pouco à semelhança do Incrível Hulk, ninguém desejava vê-la irritada).

A minha mãe era médica, mas não era como os outros médicos, daqueles que cosem os golpes nas pernas e que dão injecções a troco de dinheiro. Uma vez, o meu pai disse-me que ela «ajudava as mulheres em dificuldade». Não explicou que espécie de dificuldade, mas pensei que devia ser muito mau, para precisarem de um médico.

O meu pai também trabalhava, mas em casa. Escrevia para jornais e revistas. Mas nem sempre. Às vezes resmungava que ninguém lhe dava trabalho ou soltava uma pequena gargalhada e dizia:

– Este mês não tenho audiência, Eddie.

Na minha opinião de miúdo, aquilo não era um «trabalho a sério». Não era um trabalho de pai. Um pai devia usar fato e gravata, sair todas as manhãs para o emprego e regressar ao fim da tarde, para o lanche. O meu pai trabalhava no quarto das visitas e sentava-se ao computador de pijama e T-shirt, às vezes sem se pentear.

O meu pai também não se parecia muito com os outros pais. Usava uma grande barba farfalhuda e cabelo comprido, apanhado em rabo-de-cavalo. Mesmo no Inverno, vestia umas calças de ganga esburacadas, cortadas para fazerem de calções, e T-shirts desbotadas com

nomes de grupos musicais antigos, como Led Zeppelin e The Who. Por vezes também calçava sandálias.

O Gav Gordo dizia que o meu pai era um «hippie do caraças». E era capaz de ter razão. Mas naquele tempo eu considerava aquilo um insulto, dava-lhe um empurrão e ele respondia com um par de murros, de modo que voltava para casa com meia dúzia de nódoas negras e o nariz a sangrar.

É claro que mais tarde compreendemos. O Gav Gordo era capaz de se armar em parvo – um daqueles miúdos gordos que têm sempre de ser os mais barulhentos e mais desagradáveis, para afastar os verdadeiros rufiões –, mas também era um dos meus melhores amigos e a pessoa mais leal e generosa que já conheci.

– Cuida dos teus amigos, Eddie Munster – disse-me uma vez, em tom solene. – Os amigos são tudo.

Eddie Munster era a minha alcunha. O meu apelido era Adams, como na Família Adams.

Bem sei que o miúdo da Família Adams se chamava Pugsley, e Eddie Munster era retirado de The Munsters, mas naquele tempo fazia sentido, como é próprio das alcunhas, e pegou.

Eddie Munster, Gav Gordo, Metal Mickey (por causa das grandes próteses metálicas nos dentes), Hoppo (David Hopkins) e Nicky. A nossa quadrilha. Nicky não tinha alcunha por ser rapariga, embora fizesse tudo o que podia para fingir que não era. Praguejava como um rapaz.

Subia às árvores como um rapaz e lutava quase tão bem como a maioria dos rapazes. Mas continuava a ter aspecto de rapariga. Uma rapariga bastante bonita, de longos cabelos ruivos e pele clara salpicada por uma infinidade de minúsculas sardas castanhas. Nada em que eu reparasse.

Tínhamos combinado encontrar-nos nesse sábado. Encontrávamo-nos a maior parte dos sábados e íamos para casa de um de nós, ou para o parque de jogos e às vezes para o bosque.

No entanto, aquele sábado era especial, por causa da feira. A feira aparecia todos os anos e instalava-se no parque, perto do rio. Era o primeiro ano em que tínhamos autorização para ir sozinhos, sem um adulto para nos vigiar.

Há semanas que aguardávamos aquele dia, desde que os cartazes tinham começado a aparecer pela cidade. Havia carrinhos de choque, um meteorito, um navio-pirata e uma nave espacial. Parecia bestial.

– Bem – disse, a acabar a sanduíche tão depressa quanto possível –, combinei com o pessoal que nos encontrávamos à entrada do parque às duas horas.

– Vai sempre pela estrada principal – recomendou a minha mãe. – Não te metas por atalhos nem fales com ninguém que não conheças.

– Está bem.

Deixei-me escorregar do assento e dirigi-me para a porta.

– E leva a bolsa de cintura.

– Oh, mãeeee.

 

– Vais andar nas corridas. A carteira pode cair-te do bolso. Levas a bolsa de cintura. E não discutas.

Abri a boca e voltei a fechá-la. Sentia a cara a arder. Detestava a estúpida bolsa de cintura.

Quem usava bolsas de cintura eram os turistas gordos. Como podia ter um ar cool diante dos outros, especialmente de Nicky? Mas quando a minha mãe falava assim não valia a pena discutir.

– Está bem.

Não estava, mas o ponteiro do relógio da cozinha aproximava-se das duas e precisava de me pôr a caminho. Subi a escada a correr, agarrei na estúpida bolsa de cintura e meti o dinheiro lá dentro. Cinco libras inteirinhas. Uma fortuna. Depois, voltei a descer a escada, sempre a correr.

– Até logo.

– Diverte-te.

Não tinha dúvidas quanto a isso. O Sol brilhava. Levava a minha T-shirt preferida e os ténis Converse. Já se ouvia ao longe a música da feira e no ar flutuava o odor dos hambúrgueres e do algodão-doce. O dia adivinhava-se perfeito.

Quando cheguei, o Gav Gordo, Hoppo e Metal Mickey já estavam à espera junto ao portão do parque.

– Ei, Eddie Munster. Que bolsa tão gira! – gritou o Gav Gordo à laia de cumprimento.

Corei até à raiz dos cabelos e fiz-lhe um gesto com o dedo médio. Hoppo e Metal Mickey riam-se como perdidos por causa da graçola do Gav Gordo. Depois, Hoppo, que era sempre o mais simpático e o apaziguador, disse para o Gordo:

– Pelo menos não parece tão panasca como os teus calções, ó cara de fuinha.

O Gav Gordo sorriu, agarrou os calções pela bainha e ensaiou uns passos de dança como uma bailarina, a levantar bem alto as pernas curtas e grossas. O Gav Gordo era assim. Não era possível insultá-lo porque ele não se ralava. Ou pelo menos era o que queria que os outros pensassem.

– De qualquer maneira – disse eu, que apesar de Hoppo ter desviado a conversa continuava a achar que a bolsa tinha um aspecto estúpido – não a vou usar.

Desapertei o cinto, enfiei a carteira no bolso dos calções e olhei em redor. Uma sebe espessa corria ao longo do perímetro exterior do parque. Escondi a bolsa na sebe de modo a não ser vista por quem passava, mas não tão longe que não a pudesse recuperar mais tarde.

– Tens a certeza de que a queres deixar aí? – perguntou Hoppo.

– É isso, e se a tua mamã descobre? – inquiriu o Metal Mickey, naquele tom monocórdico e escarninho que lhe era característico.

Embora fizesse parte da nossa quadrilha e fosse o melhor amigo do Gav Gordo, nunca gostei muito do Metal Mickey. Havia nele um não-sei-quê tão desagradável e frio como a prótese que

lhe enchia a boca de um lado ao outro. O que não era de estranhar, sabendo de quem era irmão.

– Quero lá saber – menti, a encolher os ombros.

– Quem quer saber? – interpôs o Gav Gordo em tom impaciente. – Podemos esquecer a porcaria da bolsa e ir andando? Quero começar pela nave espacial.

Metal Mickey e Hoppo começaram a andar – em geral fazíamos o que o Gav Gordo queria.

Talvez por ser o maior e o que falava mais alto.

– Mas a Nicky ainda não chegou – protestei.

– E então? – ripostou o Metal Mickey. – Chega sempre atrasada. Vamos embora. Ela há-de encontrar-nos.

Mickey tinha razão. Nicky chegava sempre atrasada. No entanto, não era isso que tínhamos combinado. Devíamos ir todos juntos. Não era seguro andarmos sozinhos pela feira.

Especialmente uma rapariga.

– Damos-lhe mais cinco minutos – disse eu.

– Não podes estar a falar a sério! – exclamou o Gav Gordo, a assumir a sua mais convincente expressão de desagrado, à John McEnroe.

O Gav Gordo assumia uma série de expressões. Sobretudo americanas. Tão terríveis que nos escangalhávamos a rir.

Metal Mickey não riu tanto como eu e Hoppo. Não gostava de sentir a quadrilha contra ele. O

que não teve importância, pois nesse momento uma voz conhecida perguntou:

– O que tem tanta piada?

Virámo-nos. Nicky subia a encosta, ao nosso encontro. Como sempre acontecia, senti um aperto no estômago quando a vi. Como se de repente me sentisse com fome e um pouco agoniado.

Os cabelos ruivos soltos caíam-lhe pelas costas numa massa emaranhada, quase até à cintura dos calções de ganga puídos. Trazia uma blusa amarela, sem mangas, com florinhas azuis na gola. Apercebi-me de um reflexo prateado no seu pescoço. Uma pequena cruz, presa a uma corrente. A tiracolo, carregava um grande saco de serapilheira.

– Vens atrasada – disse o Metal Mickey. – Estávamos à tua espera.

Como se a ideia tivesse sido dele.

– O que trazes no saco? – perguntou Hoppo.

– O meu pai quer que eu distribua esta merda pela feira.

Tirou um folheto do saco e estendeu-o.

Venha à Igreja de São Tomás adorar o Senhor. É a melhor de todas as atracções!

O pai de Nicky era o vigário da igreja local. Eu nunca fora à igreja – tanto a minha mãe como o meu pai não alinhavam nessas coisas –, mas já o tinha visto na cidade. Usava uns óculos redondos, pequeninos, e a careca dele era coberta de sardas, como o nariz de Nicky. Sorria sempre e cumprimentava-me, mas sempre o achei um tanto assustador.

– Ora cá está um monte de merda malcheirosa, meu – disse Gav.

Merda «malcheirosa» ou merda «voadora» era outra das frases favoritas do Gav Gordo, em geral seguida de «meu» com uma pronúncia requintada, sabe-se lá porquê.

– Não vais fazer isso, pois não? – perguntei, a imaginar um dia estragado, a andar de um lado para o outro para a acompanhar enquanto ela distribuía os folhetos.

Atirou-me um olhar que me fez lembrar a minha mãe.

– É claro que não vou, Joey – respondeu. – Vou só levar alguns e espalhá-los, como se fossem as pessoas que os tivessem deitado fora, e o resto vou enfiá-lo num caixote de lixo.

Todos esboçámos um sorriso. Não há nada melhor do que fazer uma coisa indevida e enrolar um adulto ao mesmo tempo.

Espalhámos os folhetos, deitámos fora o saco e fomos tratar do que era importante. A nave espacial (que era de facto um espanto) e os carrinhos de choque, onde o Gav Gordo me abalroou com tanta força que até senti a coluna a estalar. Os foguetões (muito excitantes no ano anterior, mas agora um tanto desinteressantes), a montanha-russa, o meteorito e o navio-pirata.

Comemos cachorros-quentes, e tanto o Gav Gordo como a Nicky tentaram enfiar as argolas no pescoço dos patos e ficaram a saber que nem sempre o prémio cobiçado é desejável, quando saíram de lá a atirar os patinhos empalhados um ao outro.

Por esta altura, a tarde já ia adiantada. A excitação e a adrenalina começavam a esmorecer, além da constatação crescente de que só me restava dinheiro para mais duas ou três corridas.

Meti a mão no bolso para tirar a carteira. O coração saltou-me no peito até à boca. Tinha desaparecido.

– Merda!

– O que foi? – quis saber Hoppo.

– A carteira. Perdi-a.

– Tens a certeza?

– Claro que tenho a certeza.

À cautela, procurei no outro bolso. Ambos vazios. Porra para isto.

– Onde a tiraste pela última vez? – perguntou Nicky.

Tentei recordar-me. Sabia que a tinha comigo depois da última corrida, pois tinha verificado.

Além do mais, depois disso tínhamos comprado os cachorros-quentes. Não tinha jogado às argolas nos patos, portanto…

– Foi na barraca dos cachorros.

A barraca dos cachorros ficava do outro lado da feira, na direcção oposta à nave espacial e ao meteorito.

– Merda! – repeti.

– Anda daí – disse Hoppo. – Vamos lá ver.

– Para quê? – interpôs Metal Mickey. – Por esta hora já alguém a apanhou.

– Podia emprestar-te algum dinheiro – disse o Gav Gordo –, mas já não me sobra muito.

Tinha a certeza de que era mentira. O Gav Gordo tinha sempre mais dinheiro que qualquer de nós. Tal como tinha os brinquedos melhores e a bicicleta novinha em folha. O pai era dono de um dos pubs locais, o The Bull, e a mãe vendia produtos da Avon. O Gav Gordo era generoso, mas percebi que estava interessado em fazer mais algumas corridas.

Abanei a cabeça.

– Obrigado. Não faz mal.

Mas fazia. Sentia as lágrimas a queimarem-me os olhos. Não era só por causa do dinheiro que perdera. Sentia-me estúpido, o dia estava estragado. A minha mãe ia ficar zangada e dizer:

– Eu bem te disse.

– Vocês vão andando – disse. – Eu volto para trás, para procurar a carteira. Não vale a pena todos perdermos tempo.

– Bestial – aproveitou logo o Metal Mickey. – Vamos embora. Vamos.

Afastaram-se, embaraçados. Mas percebi que tinham ficado aliviados. O dinheiro perdido não era deles e o dia estragado também não. Comecei a atravessar a feira em passo acelerado, em direcção à barraca dos cachorros. Ficava mesmo em frente do carrossel, que usei como um ponto de referência. Era impossível não dar com o velho carrossel carnavalesco. Mesmo no centro da feira.

A música berrava, distorcida pelos altifalantes roufenhos. As luzes multicolores piscavam e os foliões gritavam enquanto os assentos de madeira rodopiavam cada vez mais depressa sobre o estrado de madeira do carrossel.

Quando cheguei mais perto, comecei a olhar para o chão, a movimentar-me com mais cuidado. Lixo, papéis de embrulhar os cachorros, nada de carteira. Claro que não. O Metal Mickey tinha razão. Alguém a devia ter apanhado e surripiado o meu dinheiro.

Suspirei e levantei os olhos. A primeira coisa que vi foi o Homem Branco. Não era o nome dele, evidentemente. Mais tarde vim a saber que se chamava senhor Halloran e era o nosso novo professor.

Era difícil não reparar no Homem Branco. Para já, porque era muito alto e magro. Vestia umas calças de ganga desbotadas, uma camisa branca, muito larga, e um enorme chapéu de palha. Parecia aquele cantor dos anos de 1970 de quem a minha mãe tanto gostava. David Bowie.

O Homem Branco estava perto da barraca dos cachorros-quentes, a beber por uma palhinha um refresco de cor azulada enquanto observava o carrossel. Bem, fiquei com a impressão de que observava o carrossel.

Acompanhei o olhar dele, e foi então que vi a rapariga. Continuava chateado por causa da carteira, mas era um garoto de doze anos cujas hormonas começavam a fervilhar. No quarto, nem todas as noites eram gastas a ler histórias aos quadradinhos debaixo dos lençóis, à luz de uma lanterna.

A rapariga estava de pé diante de uma amiga loura que reconheci como alguém da cidade (o pai dela era polícia ou coisa parecida), mas releguei-a logo para segundo plano. É triste, mas a beleza, a verdadeira beleza, eclipsa tudo e todos em seu redor. A Amiga Loura era bonita, mas a Rapariga do Carrossel – como sempre pensaria nela, mesmo depois de saber o seu nome – era verdadeiramente bela. Alta e magra, de longos cabelos escuros e pernas ainda mais longas, tão lisas e tisnadas que cintilavam sob o sol. Vestia uma saia de folhos e um casaco largo com a palavra «Relax», sobre um top verde-fluorescente. Tinha o cabelo puxado para trás de uma orelha, onde uma argola de ouro refulgia ao sol. Sinto-me um pouco envergonhado ao dizer que a princípio não prestei atenção ao rosto, mas quando ela se virou para conversar com a Amiga Loura não fiquei desapontado. Era de uma beleza que fazia doer o coração, de lábios cheios e olhos amendoados.

E de súbito desapareceu.

Estava ali um minuto antes, vi o rosto dela, e no minuto seguinte aquele guincho terrível de rebentar os tímpanos, como se um animal gigantesco urrasse do centro da terra. Mais tarde vim a saber que fora a cinta do rolamento do velho eixo do carrossel a estoirar por causa do excesso de uso e da falta de manutenção. Entrevi um clarão prateado que lhe arrancou metade da cara, a deixar à mostra uma massa hiante de cartilagens, ossos e sangue. Muito sangue.

Uma fracção de segundo mais tarde, sem que tivesse tempo de abrir a boca para gritar, passou por mim uma coisa enorme, negra e púrpura. Ouviu-se um estrondo ensurdecedor, e a grande carruagem redonda do carrossel esmagou-se contra a barraca dos cachorros entre uma chuva de pedaços de metal e madeira e mais gritos desenfreados das pessoas que se atiravam para o chão para lhe escapar. Qualquer coisa me derrubou e me fez estatelar no chão.

Outras pessoas caíram por cima de mim. Um pé calcou-me o pulso. Um joelho atingiu-me a cabeça. Uma bota pontapeou-me as costelas. Gritei e não sei como consegui desembaraçar-me e rebolar. Voltei a gritar. A Rapariga do Carrossel jazia ao meu lado. Os cabelos cobriam-lhe o rosto, mas reconheci a T-shirt e o top fluorescente, ainda que estivessem ambos empapados em sangue. Mais sangue lhe escorria pela perna. Um segundo estilhaço metálico tinha-a rasgado até ao osso, logo abaixo do joelho. A parte inferior da perna pendia, apenas presa por alguns tendões.

Tentei abrir caminho para me afastar, era óbvio que a rapariga estava morta. Não podia fazer nada, e foi então que ela estendeu a mão e me agarrou o braço.

Virou para mim a cara desfeita e coberta de sangue. Algures, por entre a massa avermelhada, um olho castanho fitou-me. O outro pendia, inerte, sobre a face esfacelada.

– Ajuda-me – articulou num arranco. – Ajuda-me.

Quis fugir. Queria gritar, chorar e vomitar, tudo ao mesmo tempo. Podia ter feito tudo isso se outra mão maior e mais firme não me tivesse agarrado o ombro e uma voz suave não me tivesse dito:

– Pronto. Sei que estás apavorado, mas preciso que me oiças e faças tudo o que eu disser.

Virei-me. Lá do alto, o Homem Branco olhava para mim. Só então me dei conta de que o seu rosto, parcialmente oculto pelas abas do chapéu, era quase tão branco como a camisa. Até os olhos eram de um cinzento enevoado e translúcido. Tinha o aspecto de um fantasma, ou de um vampiro, e se as circunstâncias fossem outras teria tido medo dele. Mas naquele momento era apenas um adulto e eu precisava que um adulto me dissesse o que devia fazer.

– Como te chamas? – perguntou ele.

– Ed-Eddie.

– Muito bem, Eddie. Estás ferido?

Abanei a cabeça.

– Muito bem. Mas esta jovem está, e temos de a ajudar, está bem?

Assenti.

– O que quero que faças é isto… segura-lhe na perna com força, com bastante força.

Agarrou-me as mãos e colocou-as em volta da perna da rapariga. Da perna quente e viscosa por causa do sangue.

– Percebeste?

Voltei a assentir com um movimento da cabeça. Sentia na língua um gosto amargo e metálico. O sangue escorria-me por entre os dedos, embora estivesse a apertar com quanta força tinha.

De longe, de muito longe, chegaram-me aos ouvidos os sons de música e os berros das pessoas que se divertiam. Os gritos da rapariga tinham cessado. Jazia imóvel e calada e apenas se ouvia o estertor cada vez mais sumido da sua respiração.

– Eddie, tens de te concentrar, percebes?

– Percebo.

Olhei para o Homem Branco. Tirou o cinto que lhe prendia as calças de ganga. Um cinto comprido, demasiado comprido para a sua cintura tão estreita, com buracos feitos por ele para o encurtar. É curioso como nos momentos mais impróprios se repara nas pequenas coisas.

Como reparei que o sapato da Rapariga do Carrossel caíra. Um sapato de plástico, transparente.

Cor-de-rosa-brilhante. E pensei que ela não devia voltar a precisar dele, com a perna quase cortada em duas.

– Continuas comigo, Eddie?

– Sim.

– Bom. Estamos quase. Estás a portar-te muito bem, Eddie.

O Homem Branco pegou no cinto e enrolou-o à volta da coxa da rapariga. Apertou com força, muita força. Era mais forte do que parecia. O fluxo de sangue diminuiu quase de imediato. Olhou para mim e gesticulou com a cabeça.

– Já podes largar. Consegui.

Afastei as mãos. Desaparecida a tensão, começaram a tremer. Apertei-as contra o corpo, debaixo dos braços.

 

– Ela vai ficar bem?

– Não sei. Espero que lhe possam salvar a perna.

– E a cara? – murmurei.

Olhou para mim, e qualquer coisas nos olhos cinzento-claros me imobilizou.

– Antes de aquilo acontecer, estavas a olhar para a cara dela, Eddie?

Abri a boca, mas sem saber o que devia dizer, e não percebi por que razão a sua voz perdera a afabilidade.

O homem desviou o olhar e disse em voz baixa:

– Vai sobreviver. É isso que é importante.

Nesse momento um trovão estalou por cima das nossas cabeças e as primeiras gotas de chuva começaram a cair.

Creio que foi a primeira vez que fiquei a perceber como as coisas se podem alterar de um momento para o outro. Tudo o que damos por garantido pode desaparecer de súbito. Talvez tenha sido por isso que fixei o momento. Para me agarrar a qualquer coisa. Para me sentir seguro. Pelo menos foi o que disse para comigo.

No entanto, tal como acontece com tantas coisas que dizemos para nós mesmos, talvez não passasse de um monte de merda malcheirosa.

No jornal local aparecemos como heróis. Pegaram em mim e no senhor Halloran, levaram-nos de volta para o parque e fotografaram-nos.

Por incrível que pareça, as duas pessoas que estavam no banco do carrossel que se soltou safaram-se com alguns ossos partidos e algumas contusões e ferimentos superficiais. Alguns dos que assistiam sofreram golpes profundos e tiveram de levar pontos, e além disso houve mais algumas fracturas e costelas partidas devido ao pandemónio que se gerou.

A Rapariga do Carrossel (que afinal se chamava Elisa) sobreviveu. Os médicos conseguiram salvar-lhe a perna e o olho. Os jornais chamaram-lhe milagre. Não disseram grande coisa sobre o resto da cara dela.

A pouco e pouco, como acontece com todos os dramas e tragédias, o interesse no caso começou a esmorecer. O Gav Gordo deixou de largar piadas de mau gosto (quase todas sobre

«pernetas») e até o Metal Mickey se cansou de me chamar Super Rapaz e de perguntar onde tinha deixado a capa. Outras notícias e banalidades ocuparam o seu lugar. Houve um acidente de automóvel na A36 onde morreu um primo de um rapaz que andava na nossa escola; Marie Bishop, que frequentava o quinto ano, ficou grávida. E assim a vida foi continuando, como lhe é próprio.

Não me importei. Já estava um tanto farto daquela história. Não era o género de miúdo que gostasse de ser o centro das atenções. Além disso, quanto menos falasse no assunto menos tinha de me recordar da cara destroçada da Rapariga do Carrossel. Os pesadelos começaram a

ser menos frequentes. As minhas deslocações em segredo ao cesto da roupa suja com os lençóis conspurcados tornaram-se mais raras.

A minha mãe perguntou algumas vezes se não gostaria de ir ao hospital visitar a Rapariga do Carrossel. Respondi sempre que não. Não queria voltar a vê-la. Não queria olhar-lhe para a cara destroçada. Não queria que aqueles olhos castanhos me fitassem, acusadores: Sei que te preparavas para fugir, Eddie. Se o senhor Halloran não te tivesse agarrado tinhas-me deixado ali a morrer.