O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 6 de 30

Páginas do PDF

O Homem de Giz

Capítulo 2016

– Mais tarde, Eddie.

Quis protestar, gritar-lhe. Afinal, o que ele estragara era a festa do meu amigo. Mas não o fiz.

Porque, quando se tratava do que era importante, adorava o meu pai e a minha mãe, e pela cara deles percebi que não era o momento certo.

Portanto, deixei que o meu pai me enlaçasse, a minha mãe pegou-me no outro braço e seguimos juntos pela rua abaixo. E quando a mamã perguntou: «Apetece-vos umas batatas fritas para o lanche?», esbocei um sorriso forçado e respondi:

– Sim. Bestial.

O meu pai nunca me contou. Mas acabei por vir a saber. Depois de a polícia ter aparecido lá em casa, para o prender por tentativa de homicídio.

2016

– Há duas semanas – digo. – Ele mandou-me um e-mail. Peço desculpa.

Hoppo estende-me a mão. Aceito-a e deixo-me cair pesadamente no assento.

– Obrigado.

Podia ter dito a Gav e a Hoppo que Mickey estava de regresso a Anderbury. Devia ter sido a primeira coisa a fazer. Não sei ao certo por que motivo o não fiz. Talvez por curiosidade. Ou por Mickey me ter pedido que não dissesse a ninguém. Ou talvez quisesse descobrir por mim qual era o intuito dele.

Já sabia um pouco do historial do nosso velho amigo. Tinha-o lido alguns anos antes. Tédio, à mistura com muito vinho. O nome dele não tinha sido o único que procurara no Google, mas fora o único a apresentar resultados.

Tinha-se safado bastante bem. Trabalhava para uma agência de publicidade – daquelas que têm uma mutação vocálica no nome e aversão a letras maiúsculas. Havia fotos dele com clientes, no lançamento de produtos, a erguer taças de champanhe e a exibir um daqueles sorrisos que são a garantia da choruda reforma de qualquer dentista.

Nada disto foi surpresa. Mickey era o género de miúdo capaz de triunfar pelos seus méritos.

Era muito criativo. Em geral em relação à verdade. O que lhe dava imenso jeito naquela profissão.

No e-mail, Mickey tinha mencionado um projecto em que andava a trabalhar. Qualquer coisa que seria «mutuamente benéfica». Tenho a certeza de que não tenciona preparar uma reunião com os antigos colegas de escola. Só consigo imaginar uma razão para Mickey querer contactar-me ao fim de todo este tempo. E essa razão é ele estar decidido a enterrar uma faca sem gume numa lata ferrugenta e fechada, repleta de vermes apodrecidos.

Não digo nada disto a Gav nem a Hoppo. Fricciono a cara, que lateja, e relanceio os olhos pelo pub. Não tem mais do que um quarto da capacidade. Os poucos clientes desviam rápidos o olhar, de volta às cervejas ou aos jornais. Bem, a quem se iam queixar? Não é provável que Gav se expulse a si mesmo do seu pub por ter feito uma cena.

– Como descobriste? – pergunto.

– Foi o Hoppo quem o viu – responde Gav. – Na rua principal, era ele inteirinho, sem tirar nem pôr.

– Estou a ver.

– Até teve a desfaçatez de me cumprimentar. Disse que te tinha vindo fazer uma visita. Fiquei

– Até teve a desfaçatez de me cumprimentar. Disse que te tinha vindo fazer uma visita. Fiquei admirado por não teres dito nada.

Senti a irritação a crescer. O velho Mickey de sempre, a espalhar a confusão como de costume.

A empregada do bar traz-me a cerveja e poisa-a descuidadamente no tampo da mesa, a esparrinhar uma parte.

– Uma rapariga simpática – digo para Gav. – De temperamento afável.

Gav esboça um sorriso relutante.

– Peço desculpa – repito para ele. – Devia ter-te contado.

– Podes crer, porra – resmunga. – Pensava que éramos amigos.

– Por que não disseste nada? – pergunta Hoppo.

– Porque ele me pediu. Até termos conversado.

– E tu concordaste?

– Creio que lhe quis dar o benefício da dúvida.

– Não te devia ter batido – diz Gav, que bebe um gole de Diet Cola. – Perdi a cabeça. Voltar a vê-lo trouxe de novo tudo a lume.

Olho-o. Nenhum de nós é um fã de Mickey Cooper. Mas Gav odeia-o mais do que qualquer de nós.

Tínhamos dezassete anos. Houve uma festa. Não pude ir, ou não me convidaram. Já não me recordo bem. Mickey meteu-se com uma rapariga que Hoppo andava a catrapiscar. Gerou-se uma discussão. Gav meteu-se nos copos e alguém convenceu Mickey a levá-lo a casa… mas nunca lá chegaram porque Mickey virou o volante numa estrada em linha recta e chocaram contra uma árvore.

Mickey esteve uma semana em coma mas recuperou miraculosamente. Quanto ao Gav Gordo, bem o Gav Gordo fracturou várias vértebras. Sem remédio possível. Desde então, anda numa cadeira de rodas.

Descobriu-se que Mickey bebera muito além dos limites, apesar das suas afirmações de que não tinha bebido nada toda a noite além de Diet Cola. O Gav Gordo e o Mickey nunca mais se falaram. E tanto Hoppo como eu nunca falámos no assunto.

Há coisas na vida que conseguimos alterar – o peso, a aparência, até o nome –, mas há outras que, por muito que se deseje e tente, nunca conseguimos modificar. São essas as coisas que nos moldam. Não as que conseguimos alterar, mas aquelas que não conseguimos.

– Portanto, por que razão voltou? – pergunta Gav.

– Não explicou lá muito bem.

– Que disse ele?

– Falou num projecto em que estava a trabalhar.

– Só isso? – quis saber Hoppo.

– Sim.

 

– Mas a questão não é essa, pois não? – diz Gav. Olha para nós dois com os olhos azuis em brasa. – A verdadeira questão é saber o que vamos fazer.

Quando regresso, encontro a casa vazia. Chloe saiu para se encontrar com os amigos, ou talvez esteja a trabalhar. Sinto-me um bocado perdido. Chloe trabalha numa loja de roupa alternativa na cidade, e as suas folgas são incertas. Pode ser que me tenha dito, mas a minha memória já não é tão boa como dantes. Isto preocupa-me mais do que devia.

A memória do meu pai começou a falhar aos quarenta e muitos. Pequenas coisas a que em geral não damos atenção. Esquecer-se onde tinha posto as chaves, deixar coisas em lugares indevidos, como o comando da televisão dentro do frigorífico e uma banana no aparador, no sítio dos telecomandos. Perder-se a meio de uma frase ou misturar as palavras. Por vezes via-o debater-se à procura da palavra adequada, apenas para a substituir por outra semelhante.

À medida que a Alzheimer foi piorando, baralhava os dias da semana e por fim, o que realmente o assustou, foi não se recordar de qual o dia que vinha a seguir à quinta-feira. O

último dia útil da semana escapou-lhe por completo. Ainda me recordo do pânico nos seus olhos. Perder uma coisa tão básica, uma coisa que sabemos desde a infância, foi o que o levou por fim a admitir que não se tratava apenas de distracção. Era muito mais sério.

Decerto sou um tanto hipocondríaco em relação a isto. Leio muito para manter a mente desperta e resolvo problemas de sudoku, embora não os aprecie muito. A verdade é que a doença de Alzheimer é por norma hereditária. Já vi o que o futuro me reserva e estou disposto a fazer tudo para o evitar, mesmo que isso signifique tornar a minha vida mais curta do que poderia ser.

Atiro as chaves para cima da velha mesa desengonçada do vestíbulo e olho-me no pequeno espelho empoeirado suspenso por cima dela. Uma marca escura começa a notar-se do lado esquerdo da minha cara, embora quase absorvida pela concavidade da face. Ainda bem. Não tenho de explicar que levei um soco de um homem numa cadeira de rodas.

Dirijo-me à cozinha, hesitante quanto a fazer um café, e resolvo que estou demasiado cheio dos fluidos do almoço. Opto por subir a escada.

O antigo quarto dos meus pais é agora o de Chloe e eu durmo no meu quarto de sempre, nas traseiras; o antigo escritório do meu pai e o quarto das visitas servem-me de arrecadação. Para um monte de coisas.

Não gosto de me imaginar como um acumulador compulsivo. Os meus artigos de «colecção»

estão cuidadosamente etiquetados e arrumados em prateleiras. Mas ocupam grande parte dos compartimentos do primeiro andar, e se não fossem as etiquetas já me teria esquecido de muito do que tenho vindo a acumular.

Corro o dedo sobre alguns rótulos: Brincos. Porcelana. Brinquedos. Há várias caixas destes últimos. Coisas antigas, dos anos de 1980, algumas da minha infância, outras compradas no eBay – em geral a preços exorbitantes. Numa outra prateleira há um par de caixas com a

etiqueta «Fotografias». Nem todas são da minha família. Outra caixa contém sapatos. Sapatos de mulher, brilhantes, extravagantes. Meia dúzia de caixas com quadros. Aguarelas e pastéis adquiridos em vendas de ocasião. Muitas caixas apresentam etiquetas preguiçosas com o dizer

«Miscelâneas». Mesmo submetido a um interrogatório seria incapaz de dizer o que contêm. Só há uma caixa cujo conteúdo conheço de cor – folhas de papel dactilografadas, um par de sandálias velhas, uma T-shirt suja e uma máquina eléctrica de barbear nunca utilizada. A etiqueta desta caixa reza apenas «Pai».

Sento-me à secretária. Tenho a certeza de que Chloe não está em casa nem regressará tão depressa, mas mesmo assim fecho a porta. Abro o sobrescrito que recebi esta manhã e volto a examinar o conteúdo. Não tem nada escrito. Contudo, a mensagem é muito clara. Uma figura apenas esboçada, com um nó em volta do pescoço.