O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 7 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 1986

Desenhada a lápis, o que está errado. Talvez por isso, ou para me avivar a memória, o remetente incluiu outra coisa. Volto o sobrescrito ao contrário e a coisa cai sobre a secretária, envolta numa pequena nuvem de pó. Um pedaço de giz branco.

1986

Desde aquele dia na feira, o «terrível dia na feira», como me habituei a pensar nele, nunca mais estivera com o senhor Halloran. Quero dizer, já o tinha visto – a deambular pela cidade, a passear junto ao rio, na festa de aniversário do Gav Gordo, mas nunca havíamos falado.

Pode parecer estranho, tendo em consideração o que acontecera. Mas lá por termos sido apanhados juntos naquela situação horrível isso não queria dizer que nos sentíssemos presos por um laço qualquer. Eu, pelo menos, não pensava assim. Ainda não.

Atravessava o parque de bicicleta, no caminho para me encontrar com os outros no bosque, quando o vi. Estava sentado num banco, com um bloco de desenho no colo e ao lado um pequeno tabuleiro com o que me pareceu serem lápis. Vestia jeans pretos, camisa branca folgada, com uma gravata estreitíssima, e calçava botas grossas. Como sempre, trazia na cabeça um grande chapéu para se proteger do sol. Mesmo assim, admirei-me que não estivesse derretido. Fazia calor, e eu só trazia uma T-shirt sem mangas, calções e uns ténis velhos.

Hesitei um momento, sem me decidir. Não sabia o que lhe havia de dizer, mas também não podia passar por ele sem lhe dar atenção. Enquanto me resolvia, ele ergueu os olhos e viu-me.

– Olá, Eddie.

– Olá, senhor Halloran.

– Como tens passado?

– Ehh… bem, muito obrigado.

– Ora ainda bem.

Fez-se silêncio. Senti que devia dizer mais alguma coisa, portanto perguntei:

– Está a desenhar o quê?

– As pessoas. – Sorriu. Os dentes pareciam sempre amarelados, por causa do contraste com a extrema alvura da pele. – Queres ver?

Na verdade não queria, mas seria indelicado recusar.

– Está bem.

Deitei a bicicleta, aproximei-me e encavalitei-me no banco, ao lado dele. Virou o bloco para que eu pudesse ver o que estava a desenhar. Deixei escapar um arquejo de surpresa.

– Uau! Isso é mesmo muito bom.

Não estava a armar (embora não tivesse deixado de o elogiar, mesmo que não fosse bom).

Como ele tinha dito, eram esboços de pessoas no jardim. Um casal de velhotes num banco próximo, um homem com um cão e duas raparigas sentadas na relva. Não parece muito, mas

havia no conjunto algo impressionante. Ainda que fosse um garoto, percebi que o senhor Halloran era mesmo dotado de talento. Há qualquer coisa nos desenhos feitos pelas pessoas talentosas. Qualquer pessoa pode copiar uma coisa de modo a que se pareça com o original, mas é preciso mais do que isso para construir um cenário, para imprimir vida às pessoas.

– Obrigado. Queres ver mais?

Disse que sim com a cabeça. O senhor Halloran folheou algumas páginas para trás. O retrato de um velho de gabardina com um cigarro (quase se conseguia cheirar as volutas do fumo acinzentado); um grupo de mulheres a tagarelar numa das ruas pavimentadas com seixos nas imediações da catedral; a catedral, da qual não gostei tanto como das pessoas, e…

– Não te quero maçar – disse o senhor Halloran, a afastar de repente o bloco, sem me dar tempo a ver o desenho seguinte. Apenas captei um relance de cabelos escuros compridos e de um olho castanho.

– Não maça nada – repliquei. – Gosto mesmo deles. Na escola, vai ensinar-nos desenho?

– Não. Vou ensinar inglês. A arte é apenas um entretenimento.

– Está bem.

De qualquer maneira, não me interessava muito pelo desenho. Por vezes garatujava bonecos das minhas personagens favoritas das histórias aos quadradinhos, mas não eram bons. No entanto, gostava de escrever. Inglês era a minha disciplina preferida.

– Está a desenhar com quê? – perguntei.

– Com isto – e mostrou-me a embalagem do que pareciam ser pedaços de giz. – Chamam-se pastéis.

– Parecem giz.

– São do mesmo género.

– O Gav Gordo recebeu uma prenda de paus de giz pelo aniversário, mas achou que não prestava.

Perpassou-lhe no rosto uma estranha expressão.

– Ah sim?

Por qualquer razão, senti que fizera asneira.

– O Gav Gordo às vezes é um tanto, percebe…

– Mimado?

Embora sentisse que estava a ser desleal, assenti.

– É isso. Mais ou menos.

Calou-se, pensativo.

– Lembro-me de me darem paus de giz quando era garoto. Desenhávamos no passeio, defronte da casa.

– É mesmo?

– Sim. Nunca fizeste isso?

Tentei recordar-me. Não me parecia que alguma vez o tivesse feito. Como já disse, não sou

 

Tentei recordar-me. Não me parecia que alguma vez o tivesse feito. Como já disse, não sou muito dado a desenhos.

– E queres saber outra coisa que fazíamos? Eu e os meus amigos inventámos símbolos secretos que usávamos para deixar uns aos outros por todo o lado mensagens que só nós entendíamos. Por exemplo, eu desenhava em frente da casa do meu melhor amigo um símbolo que significava «ir para o jardim» e ele percebia o significado.

– Não podia bater-lhe à porta?

– Pois podia, mas não tinha a mesma piada.

Fiquei a pensar naquilo. A ideia era tentadora. Como pistas para um tesouro escondido. Um código secreto.

– Seja como for… – disse o senhor Halloran quando (só percebi mais tarde) me tinha dado o tempo suficiente para digerir a ideia, mas não o bastante para a rejeitar. Fechou o bloco e colocou a tampa na caixa dos pastéis. – … tenho de ir andando. Preciso de falar com uma pessoa.

– Eu também tenho de ir. Vou encontrar-me com os meus amigos.

– Foi bom voltar a ver-te, Eddie. Continuas a ser corajoso.

Foi a primeira vez que aludiu ao que acontecera no dia da feira. Apreciei-o por isso. Com muitos adultos, seria a primeira coisa de que falariam. Como estás? Sentes-te bem? Coisas assim.

– E o senhor também.

Voltou a exibir o sorriso amarelo.

– Eu não sou corajoso, Eddie. Não passo de um louco.

Inclinou a cabeça para o lado perante a minha expressão intrigada.

– Os loucos arriscam-se onde os anjos receiam pisar. Nunca ouviste este ditado?

– Não, senhor. O que quer dizer?

– Bem, da maneira como eu vejo as coisas, é que é melhor ser louco do que anjo.

Fiquei a pensar. Não percebi muito bem como a coisa funcionava. O senhor Halloran despediu-se com uma chapelada.

– Até mais ver, Eddie.

– Adeus.

Saltei do banco e montei na bicicleta. Gostava do senhor Halloran, mas o homem era mesmo misterioso. É melhor ser louco do que ser anjo. Misterioso e um tanto assustador.

A orla do bosque acompanhava os limites de Anderbury, onde os subúrbios davam lugar aos baldios e aos terrenos agrícolas. Mas não por muito tempo. A cidade começava a estender-se.

Uma área significativa acabava de ser arrasada. Os tijolos, o cimento e os andaimes erguiam-se do solo.

«Salmon Homes», podia ler-se em letras grandes e alegres num enorme cartaz. «Há trinta anos a construir lares e a conquistar corações.» O estaleiro estava cercado por uma alta vedação

de arame. Do outro lado, eram visíveis os contornos gigantescos da maquinaria, enormes dinossáurios mecânicos, de momento inactivos. Rodeados por homens alentados, de calças de ganga e coletes amarelos, a fumar e a beber por canecas. Shakin’ Stevens berrava num rádio.

Alguns letreiros de aviso tinham sido montados na vedação. «PERIGO. NÃO ENTRAR».

Pedalei ao longo da rede e depois por um carreiro estreito que conduzia aos campos. Até alcançar uma pequena vedação de madeira que se podia transpor por uns degraus. Saltei da bicicleta, passei-a por cima do obstáculo e embrenhei-me na frescura do bosque.

O bosque não era grande, mas era escuro e denso. Formado numa concavidade natural, as árvores mergulhavam nas terras mais fundas e alastravam pela encosta, onde davam lugar à vegetação rasteira e às rochas brancas como giz. À medida que ia penetrando na mata, tão depressa montava a bicicleta como tinha de a conduzir à mão. Chegava-me aos ouvidos o sussurro alegre de um regato. A luz do Sol espreitava por entre o dossel das ramarias.

Um pouco mais à frente ouvi o murmúrio de vozes. Num relance, discerni uma mancha azul e verde. Um clarão de raios prateados. Gav Gordo, Metal Mickey e Hoppo estavam acocorados numa pequena clareira, a coberto dos arbustos e da folhagem. Tinham já construído cerca de metade de um refúgio impressionante, feito de ramos entrelaçados, em redor de uma cobertura natural providenciada por um grande tronco caído.

– Ei! – gritou o Gav Gordo. – Lá vem o Eddie Munster, que tem um pai pugilista.

Era a nova piada do Gav Gordo para nos divertir durante a semana.

Hoppo olhou para cima e acenou-me. Metal Mickey não se incomodou. Segui o trilho por entre o matagal e larguei a bicicleta junto das deles, consciente de que a minha era a mais velha e a mais ferrugenta.

– Onde está a Nicky? – perguntei.

Metal Mickey encolheu os ombros.

– O que interessa isso? Deve estar a brincar com as bonecas.

Soltou uma gargalhada cínica, divertido com a graçola.

– Não sei se ela vem – comentou Hoppo.

– Oh!

Não via Nicky desde o dia da festa, mas sabia que ela andara pelas lojas na companhia de Hoppo e Metal Mickey. Comecei a perceber que me evitava. Tinha esperado encontrá-la ali, na expectativa de que tudo pudesse voltar à normalidade.

– O pai é capaz de a ter mandado fazer qualquer coisa – disse Hoppo, como se me adivinhasse os pensamentos.

– Sim, ou então continua chateada contigo por o teu pai ter estendido o dela no chão. Zás!

De novo o Metal Mickey, que nunca resistia a uma oportunidade de acicatar os ânimos.

– Deve-o ter merecido – repliquei.

– Pois deve – corroborou Hoppo. – E além disso estava com os copos.

– Não sabia que os vigários bebiam – observei.

 

– Talvez beba às escondidas.

O Gav Gordo inclinou a cabeça para trás, emitiu um glu-glu, revirou os olhos e disse em voz entaramelada:

– Sou o reverrendo Martin. Dai graças ao Senhorrrr. Hic.

Antes que alguém tivesse tempo de reagir, ouviu-se um restolhar entre os arbustos e um bando de pássaros esvoaçou das árvores, espavorido. Demos um salto, como coelhos assustados.

Nicky surgiu na orla da clareira, a segurar o volante da bicicleta. Fiquei com a impressão de que já ali devia estar há algum tempo.

Relanceou os olhos por nós.

– O que estão aqui a fazer sentados? Pensei que estavam a construir um refúgio.

Com os cinco a trabalhar, não levámos muito tempo a terminar o refúgio. Era bestial.

Suficientemente grande para que todos coubéssemos lá dentro, ainda que um pouco apertados.

Até fizemos uma porta com ramos folhosos para fechar a entrada. Melhor do que tudo, mal se conseguia distingui-lo até se chegar muito perto.

Sentámo-nos cá fora, de pernas cruzadas. Suados e arranhados, mas felizes. E famintos também. Começámos a desembrulhar as sanduíches. Nicky nada tinha dito sobre a festa, de maneira que fiz o mesmo. Agíamos com toda a normalidade. Quando se é garoto, é assim.

Conseguimos que as coisas nos passem ao lado. Quando crescemos torna-se mais difícil.

– O teu pai não te preparou nenhuma sanduíche? – perguntou o Gav Gordo a Nicky.

– Ele não sabe que estou aqui. Tive de me pirar sem ele ver.

– Toma – disse Hoppo, a estender-lhe duas sanduíches de queijo que tirou da película aderente que as embalava.

Gosto do Hoppo, mas naquele momento odiei-o, por se me ter antecipado.

– Também podes ficar com a minha banana – ofereceu o Gav Gordo. – Não gosto muito delas.

– E podes partilhar o meu sumo – apressei-me a dizer, para não ficar de fora.

Metal Mickey enfiou na boca uma sanduíche de manteiga de amendoim. Não ofereceu nada a Nicky.

– Obrigada – agradeceu Nicky, a abanar a cabeça. – Tenho de voltar para casa. O meu pai dá pela minha falta se eu não for almoçar.

– Mas ainda agora acabámos de construir o refúgio – protestei.

– Desculpa. Não posso.

Levantou a manga da T-shirt para friccionar o ombro. Só então reparei na grande nódoa negra que lá tinha.

– O que fizeste ao ombro?

Puxou a manga para baixo.

– Nada. Fui de encontro a uma porta. – Levantou-se rapidamente. – Tenho de ir.

Levantei-me também.

– É por causa da festa? – perguntei.

Nicky encolheu os ombros.

– O meu pai continua muito chateado. Mas aquilo passa-lhe.

– Tenho muita pena – disse eu.

– Não tenhas. Ele mereceu.

Quis dizer mais alguma coisa, mas não sabia o quê. Abri a boca.

Qualquer coisa me atingiu na cabeça, de lado. Com força. O mundo rodopiou. As minhas pernas flectiram. Caí de joelhos. Agarrado à cabeça. Senti os dedos peganhentos.

Outra coisa passou no ar, sibilante, e por pouco não atingiu a cabeça de Nicky, que gritou e se agachou. Outra grande pedra caiu no chão em frente de Hoppo e Metal Mickey, a provocar uma explosão de manteiga de amendoim e pão. Agacharam-se e esgueiraram-se mais para trás, para a protecção da mata.

Mais projécteis continuaram a cair. Pedras e calhaus grandes, pedaços de tijolo. Ouvi o berreiro e a gritaria excitada provenientes do alto da elevação sobranceira ao bosque. Olhei para cima e distingui três rapazes mais velhos. Dois deles com cabelo escuro. Outro louro e mais alto. Reconheci-os de imediato.

Sean, o irmão de Metal Mickey, e os seus comparsas, Duncan e Keith.

O Gav Gordo agarrou-me o braço.

– Estás bem?

Sentia-me tonto e nauseado, mas acenei que sim. Gav empurrou-me para o arvoredo.

– Protege-te.

Metal Mickey gritou para os rapazes mais velhos.

– Deixa-nos em paz, Sean!

– Deixa-nos em paz, deixa-nos em paz – repetiu o irmão, o rapaz louro, numa voz esganiçada. – Porquê? Vais começar a chorar? Vais contar à mamã?

– Pode ser que sim.

– Isso mesmo. Experimenta fazê-lo com o nariz partido, cabeça de merda! – gritou Duncan.

– Vocês estão no nosso bosque! – gritou Sean.

– Este bosque não vos pertence! – respondeu o Gav Gordo, também a gritar.

– É nosso, sim, e vamos lutar por ele.

– Merda – resmungou entredentes o Gav Gordo.

– Vamos! Vamos a eles! – berrou Keith.

Começaram a descer a encosta, sem parar de nos bombardear com pedras.

Outro grande pedaço de pedra voou e foi aterrar sobre a bicicleta de Nicky com um ruído de metal retorcido.

Nicky soltou um grito.

– É a minha bicicleta, seus atrasados!

– Olha, é a cabeça de cobre.

– Cabeça de cobre, já tens pintelhos encarnados?

– Ponham-se a andar, maricas.

– Cabra.

Um pedaço de tijolo atravessou a cobertura de folhas e atingiu-a no ombro. Nicky gritou e cambaleou.

A ira cresceu-me no peito. Não se agride uma rapariga. Não se lhe atiram tijolos. Levantei-me com dificuldade e fiquei a descoberto. Agarrei na pedra mais pesada e atirei-a para a encosta com quanta força tinha.

Se a pedra não fosse tão grande e embalada pelo peso, se Sean ainda estivesse lá no alto e não já a meio da encosta, é natural que lhe tivesse passado muito longe.

Mas ouvi um grito. Não foi um grito de troça ou insulto, foi um grito de dor.

– Foda-se! O meu olho. Aquele cabrão acertou-me na porra do olho.

Estabeleceu-se o silêncio. Um daqueles momentos em que o tempo parece parar. Gav Gordo, Hoppo, Metal Mickey, Nicky e eu entreolhámo-nos.

– Sacanas de merda! – gritou uma das outras vozes. – Vão levar uma coça por isto!

– Temos de sair daqui – apressou-nos Hoppo.

Corremos para as bicicletas. Atrás de mim, ouvia o bando arfar e arquejar enquanto descia a encosta íngreme com a ajuda dos pés e das mãos.

Ainda precisavam de algum tempo para chegar até nós. Mas estávamos em desvantagem, pois tínhamos de conduzir as bicicletas à mão até sairmos do bosque e chegarmos ao carreiro.

Corremos como loucos, a empurrar as bicicletas contra o mato rasteiro. Lá de trás, chegavam-nos o restolhar e as imprecações. Não muito para trás. Tentei acelerar o passo. Hoppo e Metal Mickey iam mais à frente. Nicky também era rápida. O Gav Gordo revelou-se muitíssimo veloz para um miúdo tão grande e também tinha algum avanço em relação a mim. As minhas pernas eram as mais compridas, mas eu era uma desgraça, descoordenado nos movimentos e incapaz de correr depressa. Recordei-me de uma história que o meu pai contava sobre vencer um leão em corrida. Não se tratava de ser mais veloz do que o leão. Bastava ser mais veloz do que o mais lento dos fugitivos. Infelizmente, era eu.

Irrompemos das sombras da mata para a luz ofuscante do Sol e o carreiro estreito. Mais à frente, era visível a escada da vedação de madeira. Olhei de relance para trás. Sean estava a sair do bosque, com o olho esquerdo inchado e vermelho e o sangue a escorrer pela cara, o que não parecia afectar-lhe a velocidade. Pelo contrário, a raiva e a dor pareciam imprimir-lhe maior rapidez. O rosto dele contorceu-se num esgar.

– Vou dar cabo de ti, cara de merda.

Virei-me para trás. O meu coração batia tão depressa que ameaçava explodir. Sentia a cabeça Virei-me para trás. O meu coração batia tão depressa que ameaçava explodir. Sentia a cabeça a latejar. O suor escorria-me pela testa e o sal picava-me nos olhos.

Hoppo e Mickey chegaram à escada, atiraram as bicicletas e saltaram para o outro lado. Nicky seguiu atrás deles, também a atirar a bicicleta e a trepar com a agilidade de um macaco. Sem largar a bicicleta, o Gav Gordo subiu os degraus com dificuldade e passou a barreira. Era a minha vez. Levantei a bicicleta, mas esta era mais velha e pesada do que as dos outros. A roda prendeu-se nos degraus. Um pedaço de madeira entalou-se entre os raios.

– Merda.

Debati-me com a bicicleta, mas só consegui que ela ficasse ainda mais presa. Tentei erguê-la, mas era pequeno, e a bicicleta pesada, além de estar cansado de correr e do esforço de construir o refúgio.

– Deixa-a ficar! – gritou-me o Gav Gordo.

Para ele não fazia diferença, com a sua bicicleta de corrida novinha em folha. A minha devia parecer-lhe um monte de sucata.

– Não posso – arquejei. – Foi um presente de aniversário.

O Gav Gordo virou-se; Hoppo e Nicky voltaram atrás. Após um segundo de hesitação, Metal Mickey fez o mesmo. Puxaram do outro lado, enquanto eu empurrava do meu. Um dos raios dobrou e a bicicleta soltou-se. O Gav Gordo cambaleou para trás quando ela caiu no chão.

Galguei os degraus, e passava a perna por cima do topo quando alguém me puxou para trás, pela T-shirt.

Por pouco não caí, mas consegui deitar a mão ao poste da vedação. Virei-me. Atrás de mim, Sean parecia enorme. O punho cerrado sobre a minha T-shirt. Sorriu entre os fios de sangue e de suor, os dentes assustadoramente brancos em contraste com o vermelho do sangue. O olho em bom estado cintilava de fúria febril.

– Estás morto, cara de merda.

Impelido por um medo visceral, desferi um pontapé com quanta força tinha. Acertou-lhe na boca do estômago e ele dobrou-se, a grunhir de dor. A mão que me agarrava a T-shirt afrouxou o aperto. Passei a outra perna por cima da vedação e saltei. Ouviu-se o som da T-shirt a rasgar.

Mas não queria saber. Estava livre. Os outros já estavam montados nas bicicletas. Levantei a minha do chão e segui atrás deles, a correr ao lado até que saltei para o selim e pedalei tão depressa quanto pude. Desta vez não olhei para trás.

O parque de recreio estava vazio. Sentámo-nos no carrossel, as bicicletas deitadas no chão.

Agora que a adrenalina se dissipava, sentia a cabeça a latejar. O meu cabelo estava empastado de sangue.

– Tens um aspecto de merda – disse-me Nicky, sem rodeios.

– Obrigado.

O braço dela estava esfolado e tinha a blusa suja de terra. Agarradas aos caracóis ruivos viam-

O braço dela estava esfolado e tinha a blusa suja de terra. Agarradas aos caracóis ruivos viam-se partículas de ramos secos e de fetos.

– Olha que tu também.

Baixou os olhos para se ver.

– Merda – disse, a levantar-se. – Agora é que o meu pai vai mesmo dar cabo de mim.