O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 28 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

Quando volto a entrar no automóvel, tremo da cabeça aos pés. Baixo o vidro da janela e tiro o maço de cigarros. Acendo um avidamente. Antes de entrar na vivenda tinha posto o telemóvel no silêncio. Pego nele e vejo que tenho uma chamada não atendida. Uma não, duas. Nunca fui tão popular.

Ligo para o correio de voz e escuto as duas mensagens entrecortadas, uma de Hoppo, outra de Gav. O teor é o mesmo:

– Ed, é sobre o Mickey. Já sabem quem o matou.

2016

Estão sentados à mesa do costume, mas em vez da Diet Cola Gav tem uma cerveja à sua frente.

Mal acabo de me sentar com a minha cerveja quando ele escarrapacha o jornal em cima da mesa, virado para mim. Olho para o título.

JOVENS DETIDOS POR ASSALTO NA MARGEM DO RIO.

Dois jovens de quinze anos estão a ser interrogados sobre o assalto fatal ao antigo residente local, Mickey Cooper (42). O par foi detido há duas noites, após nova tentativa de assalto no mesmo troço do caminho, junto ao rio. A Polícia «mantém em aberto» a possibilidade de os dois incidentes estarem relacionados.

Leio o resto do artigo. Não tinha ouvido falar no assalto, mas a verdade é que tinha mais em que pensar. Franzo a testa.

– Há qualquer coisa errada? – pergunta Gav.

– Não afirmam aqui que estes miúdos atacaram o Mickey – sublinho. – Não passa de uma conjectura.

Gav encolhe os ombros.

– E então? Faz sentido. Um assalto que correu mal. Não tem nada a ver com o livro dele, nem com os homens de giz. Apenas um par de bandidozecos a ver se sacavam umas lecas.

– Pode ser. Sabes quem são os miúdos?

– Ouvi dizer que um deles andava na tua escola. Danny Myers, conheces?

Danny Myers. Devia ficar surpreendido, mas não fico. Parece que já nada me surpreende na natureza humana. Mesmo assim…

– Não pareces convencido – diz Hoppo.

– De que Danny assaltou alguém? Imagino-o a fazer coisas estúpidas para impressionar os colegas. Mas matar Mickey…

Não estou convencido. É demasiado conveniente. Demasiado fácil. É presumir muito. E há mais qualquer coisa, não sei o quê, que não me deixa sossegar.

No mesmo troço do caminho, junto ao rio.

Abano a cabeça.

– Gav deve ter razão. É a explicação mais plausível.

– Os miúdos de hoje, hem? – comenta Hoppo.

– Sim. Quem sabe do que são capazes – concordo devagar.

 

Estabelece-se um silêncio prolongado, enquanto vamos bebericando as cervejas.

Por fim, digo:

– O Mickey havia de ficar chateado por lhe chamarem um «antigo residente local». Havia de esperar qualquer coisa como «distinto executivo», pelo menos.

– Pois é. Mas olha que «local» não deve ser a coisa pior que já lhe chamaram – diz Gav. E a sua expressão endurece. – Ainda nem acredito que pagou a Chloe para te espiar. E que nos mandou aquelas cartas.

– Penso que só queria apimentar o livro – digo. – As cartas eram uma maneira de arranjar um enredo.

– O Mickey sempre foi bom a inventar coisas – diz Hoppo.

– E a agitar a merda – acrescenta Gav. – Esperemos que tenha sido a última vez.

Hoppo ergue o copo de cerveja.

– Brindo a isso.

Estendo a mão para o meu copo, mas o movimento é desastrado, derrubo o copo e entorno a cerveja. Consigo agarrá-lo antes de se estilhaçar no chão, mas a cerveja derrama-se sobre o tampo da mesa e o colo de Gav.

Gav faz um gesto com a mão.

– Não te rales.

Sacode as calças de ganga para limpar a cerveja entornada. Mais uma vez me sinto chocado pelo contraste entre as mãos poderosas e os músculos atrofiados das pernas.

Pernas fortes.

As palavras acodem-me à memória sem que as procure.

Enganou-os a todos.

Levanto-me tão precipitadamente que por pouco não entorno o que resta das bebidas.

Gav deita a mão ao copo.

– Que raio foi isso?

– Eu tinha razão – digo.

– A respeito de quê?

Olho para eles.

– Estava enganado, e estava certo. É uma loucura, eu sei. Difícil de acreditar, mas… faz sentido. Porra. Tudo faz sentido.

O demónio disfarçado. Confessa.

– Ed, estás a falar de quê? – pergunta Hoppo.

– Sei quem matou a Rapariga do Carrossel. Elisa. Sei o que lhe aconteceu.

– O que foi?

– Um acto de Deus.

– Eu disse-lhe ao telefone, senhor Adams. A hora da visita já passou.

– E eu respondi-lhe que precisava de o ver. É importante.

A enfermeira, a mesma mulher soturna e alentada que já me recebera antes, olha para nós os três. (Hoppo e Gav insistiram em vir comigo. A velha quadrilha. Uma última aventura.)

– É uma questão de vida ou morte, calculo?

– Isso mesmo.

– E não pode esperar até amanhã de manhã?

– Não.

– O reverendo tão depressa não vai a lado nenhum.

– Eu não teria tanta certeza disso.

Lança-me um olhar estranho. Só então percebo. Ela sabe. Todos sabem, mas nunca ninguém disse nada.

– Não dá uma boa imagem, pois não? Quando os residentes saem? Quando os encontram a vaguear. São coisas que é preferível não revelar. Especialmente quando se espera que a Igreja continue a subsidiar?

Os olhos dela estreitam-se numa fenda.

– Você vem comigo. Vocês os dois – estala os dedos na direcção de Hoppo e Gav – esperam aqui. – Dirige-me outro olhar irado. – Cinco minutos, senhor Adams.

Sigo atrás dela pelo corredor. As lâmpadas fluorescentes compridas irradiam uma luz crua.

Durante o dia, a casa ainda consegue fingir que é algo mais do que um hospital. À noite, não.

Porque nos hospitais a noite não existe. Há sempre luz. Há sempre ruído. Gemidos e queixumes. Portas a ranger, a chiadeira das solas macias sobre o chão de linóleo.

Alcançamos a porta do quarto do reverendo. A Enfermeira Simpatia lança-me um derradeiro olhar de aviso e mostra-me cinco dedos antes de bater à porta.

– Reverendo Martin? Trago uma visita para si.

Por um instante louco espero que a porta se abra e que ele apareça, a sorrir-me com frieza.

Confessa.

No entanto, a única resposta é o silêncio. A enfermeira lança-me um olhar complacente e abre a porta com suavidade.

– Reverendo?

Apercebo-me da dúvida na sua voz, em simultâneo com uma lufada de ar frio.

Não espero. Passo por ela. O quarto está vazio, a janela está aberta, e as cortinas drapejam, sacudidas pela brisa da noite. Volto-me para a enfermeira.

– Não têm fechaduras de segurança nas janelas?

– Nunca nos pareceu necessário… – gagueja.

– Apesar de ele ter o hábito de andar por aí?

Olha-me.

– Só faz isso quando está perturbado.

– Se assim é, hoje deve estar perturbado.

 

– De facto está. Recebeu uma visita que o deixou muito agitado. Mas nunca se afasta para longe.

Corro até à janela e espreito lá para fora. O crepúsculo desce rapidamente, mas distingo a massa informe e escura do bosque. A curta distância. E para lá dele, através dos campos, quem daria pela sua presença?

– Nunca lhe acontece nenhum mal – continua ela. – Em geral, encontra sozinho o caminho de regresso.

Rodo nos calcanhares.

– Disse que recebeu uma visita. Quem foi?

– A filha.

Chloe. Veio despedir-se. Sou avassalado por uma onda de pavor.

Uma ou duas noites a acampar no bosque não faz mal a ninguém.

– Tenho de dar o alarme – diz a enfermeira.

– Não. O que tem a fazer é chamar a polícia. Já!

Passo a perna sobre o peitoril da janela.

– Onde julga que vai?

– Ao bosque.

É mais pequeno do que quando éramos crianças. E não se trata de percepção de adulto. O

bosque tem vindo a ceder terreno perante o avanço dos empreendimentos residenciais, que crescem mais depressa do que os velhos carvalhos e sicómoros. No entanto, esta noite parece-me de novo grande e denso. O bosque é um lugar escuro e proibido, onde abundam os perigos e se agitam vultos tenebrosos.

Desta vez sou eu que vou à frente, a fazer estalar sob os pés os ramos secos, e a iluminar o caminho com uma lanterna emprestada (com alguma relutância) pela Enfermeira Simpatia.

Uma vez por outra, o foco luminoso intercepta os discos brilhantes dos olhos de algum animal que depressa se some na escuridão. Há criaturas do dia e criaturas da noite. Apesar das minhas insónias e do sonambulismo, não sou uma criatura da noite. Definitivamente, não sou.

– Estás bem? – pergunta Hoppo atrás de mim, e sobressalto-me.

Insistiu em acompanhar-me. Gav ficou à espera no lar, para garantir que chamam a polícia.

– Estou – respondo num murmúrio. – Só me estava a recordar de quando éramos garotos e vínhamos para o bosque.

– Eu também – confirma Hoppo, também num sussurro.

Não sei por que razão falamos em segredo. Não há ninguém para nos ouvir. Ninguém, além das criaturas da noite. Talvez eu esteja enganado. Talvez ele não tenha vindo para aqui. Talvez Chloe me tenha dado ouvidos e alugado um quarto numa pensão qualquer. Talvez…

O grito eleva-se do bosque, como um espírito maligno a pressagiar a morte. As árvores parecem arrepiar-se e uma nuvem de asas negras adeja no céu nocturno.

Olho para Hoppo e ambos começamos a correr. À nossa frente, o foco da lanterna enceta uma dança irregular. Evitamos os ramos, saltamos sobre os tufos de ervas e emergimos numa pequena clareira, tal como antes. Tal como no meu sonho.

Estaco, e Hoppo esbarra nas minhas costas. Percorro o espaço com a luz da lanterna. No chão está uma tenda pequena, para uma pessoa, parcialmente caída. Em frente dela, uma mochila e uma pilha de roupas. Ela não está à vista. Experimento um alívio momentâneo… e volto a iluminar a cena. A pilha de roupas. Demasiado grande. Demasiado volumosa. Não são roupas. É um corpo.

Não! Corro e deixo-me cair de joelhos.

– Chloe!

Puxo para trás o capuz. O rosto está pálido, e em volta do pescoço apresenta marcas avermelhadas, mas respira. Uma respiração fraca, quase indistinta, mas respira. Não está morta. Ainda não.

Devemos ter chegado mesmo a tempo, e por muito que deseje vê-lo, confrontá-lo, isso terá de esperar. Para já, garantir que Chloe está bem é o essencial. Olho para Hoppo, de pé, hesitante, na orla da clareira.

– Temos de chamar uma ambulância.

Concorda com um movimento da cabeça, pega no telefone e franze a testa.

– Quase não tenho sinal.

Mesmo assim, leva-o à orelha… e de súbito desaparece. Não apenas o telefone, a orelha também. No seu lugar abre-se agora um buraco sanguinolento. Apercebo-me de um lampejo prateado, um jorro de sangue vermelho, e o braço dele cai ao nível da cintura, apenas preso por alguns pedaços de músculo.

Oiço um grito. Não foi Hoppo. Ele olha-me em silêncio antes de se abater no chão com um gemido gutural. O grito foi meu.

O reverendo passa por cima do corpo prostrado de Hoppo. Na mão, brande um machado, brilhante e sujo de sangue. Por cima do pijama, traz vestido um fato-macaco de jardineiro.

Vestia um fato-macaco, como um operário, e coxeava.

Arrasta uma perna ao caminhar todo desajeitado na minha direcção. A respiração é ofegante, o rosto ceroso e alucinado. Se não fossem os olhos, pareceria um morto a andar. Os olhos, muito vivos, cintilam com uma luz que antes só vira uma vez. Em Sean Cooper. Um brilho de loucura.

Levanto-me com dificuldade. Todos os meus sentidos me gritam para fugir. Mas como posso abandonar Chloe e Hoppo? Mais concretamente, quanto tempo restará de vida a Hoppo antes de se esvair em sangue? Ao longe, julgo ouvir o uivo das sirenes. Talvez seja só a minha imaginação. Por outro lado, se conseguir mantê-lo a falar…

– Então, vai matar-nos a todos? Matar não é pecado, reverendo?

– «Aquele que pecou é que morrerá; ao justo será imputada a justiça e ao pecador a sua

– «Aquele que pecou é que morrerá; ao justo será imputada a

justiça e ao pecador a sua maldade. »6

Olho para a lâmina do machado, de onde pinga o sangue de Hoppo, mas não recuo, embora sinta as pernas a tremer.

– Foi por isso que quis matar Hannah? Por ela ser uma pecadora?

– «Porque à meretriz basta um pedaço de pão, mas a mulher adúltera quer uma vida preciosa.

Porventura pode um homem esconder fogo no seu seio, sem que as

suas vestes se inflamem? »7

Acerca-se mais, a perna tolhida a arrastar consigo as folhas secas, o machado a balançar na mão. É como tentar manter uma conversa com um Exterminador bíblico. Mesmo assim, prossigo em desespero, a voz trémula:

– Ela trazia no ventre o seu filho. E amava-o. Isso não significava nada para si?

– «E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros

do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.»8 «Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de queda, corta-os e lança-os para longe de ti: é melhor para ti entrares na Vida mutilado ou coxo, do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, seres lançado no fogo eterno.

»9

– Mas você não cortou a sua mão. E não matou Hannah. Matou Elisa.

O reverendo hesita. Percebo a incerteza em que se debate e procuro tirar partido dela.

– Enganou-se, reverendo. Assassinou a rapariga errada. Uma jovem inocente. Mas isso já sabe, não sabe? E vamos ser sinceros, lá no fundo, bem no fundo, sabia que Hannah também era inocente. O pecador é você, reverendo. Um mentiroso, um hipócrita, um assassino.

Solta um rugido e lança-se sobre mim. Desvio-me no último instante, mergulho e acerto-lhe com o ombro no estômago. Oiço com agrado um som huumf quando o ar lhe foge dos pulmões e ele recua aos tropeções e depois uma dor atroz, quando o cabo do machado me atinge com violência na têmpora. O reverendo estatela-se no chão. Levado pelo ímpeto, caio em cima dele.

Procuro levantar-me e agarrar o machado, mas sinto a cabeça a latejar e a andar à roda. Está a pouca distância da ponta dos meus dedos. Estico-me e rodo para um lado. O reverendo vira-se, a esmagar-me com o seu peso. Envolve-me o pescoço com as mãos. Atinjo-o na cara, na tentativa de o afastar, mas os meus membros estão fracos e os golpes não surtem efeito.

Engalfinhados, rodamos para um lado e para o outro. Um homem dolorosamente contuso a lutar com um morto-vivo. Os dedos dele apertam com mais força. Em desespero, procuro obrigá-los a abrir. O meu peito ameaça explodir, os meus olhos são carvões incandescentes a saírem das órbitas. Tolda-se-me a visão, como se alguém corresse devagarinho as cortinas.