O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 12 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

O homem de giz continuava lá.

– Ei, Cara de Merda. Vai um mergulho? Anda, a água está de morte.

Podia tê-lo deixado ficar. Talvez tivesse sido mais sensato. Mas agarrei no balde das limpezas da minha mãe, que estava debaixo do tanque, e enchi-o de água. Despejei-lho em cima, a afogar de novo o homem de giz em água fria com restos de sabão.

Procurei convencer-me de que tinha sido um dos outros a desenhá-lo. Talvez o Gav Gordo ou Hoppo. Uma espécie de piada doentia. Foi só quando já ia a caminho da escola que a verdade se impôs. Cada um de nós usava a sua cor de giz. A do Gav Gordo era encarnada, de Metal Mickey, azul, de Hoppo, verde, de Nicky, amarelo, e a minha, laranja. Nenhum de nós usava giz branco.

2016

A minha mãe telefona pouco antes do almoço. Tem o hábito de ligar nos momentos mais inconvenientes, e hoje não é excepção. Podia ter deixado ir para o correio de voz, mas a minha mãe odeia o correio de voz e da próxima vez que falar com ela vou encontrá-la irritada, por isso primo relutantemente o botão para aceitar a chamada.

– Estou.

– Olá, Eddie.

Saio atabalhoado da sala de aula para o corredor.

– Está tudo bem? – pergunto.

– Claro que sim. Por que não havia de estar?

A minha mãe nunca foi pessoa para fazer telefonemas só para conversar. Se telefona, tem de haver uma razão para isso.

– Não sei. Sente-se bem? Como está o Gerry?

– Muito bem. Temos andado a fazer uma dieta desintoxicante de sumos, portanto transbordamos vitalidade.

Há alguns anos, a minha mãe nunca teria pensado em fazer uma dieta de sumos nem em usar a palavra «vitalidade». Quando o meu pai era vivo. A culpa é do Gerry.

– Formidável. Olhe, mãe, apanhou-me a meio de uma coisa, portanto…

– Não estás a trabalhar, pois não, Eddie?

– Bem…

– Mas estamos nas férias escolares.

– Eu sei, mas nos tempos que correm isso não tem grande significado.

– Não deixes que te obriguem a trabalhar de mais, Eddie. – Suspira. – Há outras coisas na vida.

Mais uma coisa que a minha mãe não diria aqui há uns anos. O trabalho era a vida dela. Mas depois o meu pai adoeceu e a vida dela passou a ser ocupar-se dele.

Percebo que tudo quanto agora faz – incluindo Gerry – é a sua maneira de compensar esses anos perdidos. Não a censuro. Censuro-me a mim.

Se fosse casado e tivesse uma família, talvez ela tivesse outras coisas para lhe preencherem a vida, em vez das dietas desintoxicantes de sumos. E até talvez eu também tivesse outras coisas para me ocupar, além do trabalho.

Mas não é isto que ela quer ouvir.

– Eu sei. Tem razão – digo.

– Sabes, devias experimentar fazer Pilates. Faz muito bem a tudo.

– Vou pensar nisso.

É claro que não vou.

– Bem, não te quero prender, visto que estás ocupado. Estava a pensar se me poderias fazer um favor.

– Es… está bem.

– Eu e o Gerry estamos a pensar em passar uma semana fora, na caravana.

– Fazem muito bem.

– Mas a pessoa que nos costuma ficar com o gato deixou-nos pendurados.

– Oh, que pena!

– Ed! Tu gostas de animais.

– Pois gosto. Mas os gatos não gostam de mim.

– Que disparate! É um gato. Não odeia ninguém.

– Não é um gato. É um sociopata com pêlos.

– Podes ficar com ele durante alguns dias ou não?

Deixo escapar um suspiro.

– Posso, sim. Claro que posso.

– Ainda bem. Levo-o aí amanhã de manhã.

– Pode ser.

Desligo a chamada e regresso à sala de aula. Um adolescente esquelético de cabelos pendurados para a cara numa franja mal-amanhada está reclinado numa cadeira, os ténis estendidos sobre a carteira, a premir as teclas do telefone e a mascar pastilha elástica.

Danny Myers é meu aluno de Inglês. É um rapaz muito inteligente, pelo menos é o que toda a gente me diz: o director, os pais de Danny que, curiosamente, são amigos do director, e vários membros do Conselho Administrativo. Não duvido, mas ainda estou para ver no seu trabalho qualquer manifestação dessa inteligência.

Como é evidente, não é o que os pais dele nem o director gostariam de ouvir. Entendem que Danny merece uma atenção especial. Danny está a ser deixado para trás pela «bitola única» do sistema oficial de ensino. Demasiado inteligente, distrai-se com facilidade, é muitíssimo sensível. Blá, blá, blá.

Danny está agora naquilo a que chamamos intervenção pedagógica. Quer dizer que o levam de automóvel para aulas extra durante as férias escolares e que se espera de mim que o estimule, o espevite e o lisonjeie para conseguir alcançar as notas de que os pais o julgam merecedor.

Por vezes, estas intervenções produzem resultados, com garotos que têm capacidades, mas que não se dão bem nas aulas. Outras vezes, é uma total perda de tempo, tanto para mim como para os alunos. Não gosto de me ver como um derrotista. Mas sou realista. Não sou nenhum

Mr. Chips2. Quando se trata de trabalhar, gosto de ensinar alunos que querem aprender.

Interessados e empenhados. Ou que pelo menos querem tentar. Antes um D conseguido com esforço do que um C de quero-lá-saber.

– Põe os pés para baixo e guarda o telefone – digo quando me sento à secretária.

Tira as pernas de cima da carteira, mas continua a premir as teclas do telefone. Volto a pôr os óculos e localizo a passagem do texto que estávamos a trabalhar.

– Quando acabares talvez possas prestar atenção a O Deus das Moscas, não?

Continua a digitar as teclas.

– Danny, não gostaria de sugerir aos teus pais que uma proibição de todas as redes sociais talvez te ajudasse a obter as classificações que pretendes…

Danny olha-me por um momento. Sorrio-lhe educadamente. Vejo que tem vontade de discutir, de me provocar, mas desliga o telefone e mete-o no bolso. Não considero isto uma vitória, apenas que ele me deixou ganhar desta vez.

Não faz mal. Seja o que for que facilite o decorrer destas duas horas está bem para mim. Por vezes aprecio estes jogos mentais com Danny. E sinto-me sem dúvida satisfeito quando lhe consigo arrancar um trabalho mais ou menos decente. Mas hoje não. Sinto-me cansado e enervado por causa da noite mal dormida. Como se esperasse que alguma coisa acontecesse.

Alguma coisa ruim. Irreversível.

Tento concentrar-me no texto.

– Muito bem. Estávamos a falar sobre o que representam as personagens principais, Ralph, Jack, Simon…

Encolhe os ombros.

– Desde o princípio que Simon era um desperdício de espaço.

– Porquê?

– Um peso morto. Um palerma. Merecia morrer.

– Merecia? Como assim?

– Pronto. Não se perdeu nada, pois não? Jack tinha razão. Se queriam sobreviver na ilha tinham de esquecer todas as parvoíces da civilização.

– Mas o sentido profundo do romance é que se recorrermos à selvajaria a sociedade se desagrega.

– Talvez devesse. De qualquer maneira, é tudo falso. É o que o livro diz. Fingimos ser civilizados, mas lá no fundo não somos.

Sorrio, mas sinto um mal-estar interior. Pode ser que seja de novo o estômago.

– Bem, é um ponto de vista interessante.

O meu relógio apita. Ligo sempre o alarme para assinalar o fim da sessão.

– Pronto, por hoje é tudo. – Pego nos livros. – Espero que desenvolvas essa teoria no próximo teste, Danny.

O rapaz levanta-se e pega no saco de flanela.

 

– Até à próxima, senhor professor.

– Na semana que vem, à mesma hora.

Enquanto ele saltita para fora da sala, dou por mim a dizer:

– E nessa tua nova versão de sociedade, serias um dos sobreviventes, Danny?

– Com certeza. – Olha-me com uma expressão estranha e acrescenta: – Mas não se preocupe.

O senhor também seria.

O parque é o caminho mais longo para regressar da escola; o dia nem está especialmente quente, mas resolvo fazer um desvio. Um pequeno passeio pelas alamedas da memória.

O percurso ao longo do rio é bonito, com os campos ondulados de um lado, e para lá deles uma perspectiva da catedral, embora hoje esteja meio escondida pelos andaimes, como, aliás, acontece há vários anos. Foram precisos quatrocentos anos para edificar o famoso pináculo, sem ferramentas nem máquinas adequadas. Para o restaurar parece-me que vão ser precisos mais, mesmo com recurso às maravilhas da tecnologia moderna.

Apesar do enquadramento pitoresco, sempre que caminho pela margem do rio o meu olhar é atraído para as águas castanhas e tumultuosas. A imaginar como devem ser frias e traiçoeiras.

Mas penso sobretudo em Sean Cooper, a ser arrastado quando tentava agarrar a bicicleta. A bicicleta que ninguém assumiu ter roubado.

Do meu lado esquerdo fica o novo parque de recreio. Dois rapazes usam com enorme estardalhaço o espaço reservado aos skates; uma mãe empurra no carrossel um garotinho que se desfaz em gargalhadas; sentada no baloiço, está uma adolescente solitária. Mantém a cabeça baixa e os cabelos cobrem-lhe o rosto como uma cortina lustrosa. Cabelos castanhos, não ruivos. Mas pela maneira como está sentada, fechada na sua concha calma e contida, por momentos faz-me recordar Nicky.

Acode-me à memória outro dia desse Verão. Um momento fugaz, perdido no labirinto confuso de outras recordações. A minha mãe tinha-me mandado à cidade fazer umas compras.

Atravessava o jardim para regressar a casa quando vi Nicky no parque de jogos. Sentada no baloiço, sozinha e de cabeça baixa. Estive quase a gritar-lhe: Ei, Nicky.

Não sei o que me impediu de o fazer. Talvez a maneira como ela se balançava em silêncio, para a frente e para trás. Aproximei-me sem ruído. Nicky segurava qualquer coisa na mão.

Qualquer coisa que cintilava como prata sob a luz do Sol – e reconheci o pequeno crucifixo que costumava usar ao pescoço. Fiquei a ver quando ela o ergueu e o espetou com força na carne macia da coxa. Uma vez, duas vezes, três vezes.

Recuei e corri para casa. Nunca falei a Nicky, nem a mais ninguém, na cena a que assisti nesse dia. Mas nunca mais a esqueci. A maneira como ela espetava repetidamente o crucifixo na perna. Se calhar a verter sangue. Mas nunca lhe ouvi um som, nem um gemido.

A rapariga do parque ergue a cabeça e puxa o cabelo para trás de uma orelha. Várias argolas cintilam, presas no lóbulo da orelha, e do nariz pende-lhe um grande anel metálico. É mais

velha do que eu pensava, decerto já frequenta a escola secundária. Mesmo assim, apercebo-me de súbito de que sou um homem de meia-idade, de aparência um tanto excêntrica, a olhar para uma adolescente num parque de jogos.

Baixo a cabeça e recomeço a andar em passo mais estugado. O telemóvel retine no bolso.

Tiro-o, na expectativa de ser a minha mãe. Mas não. É Chloe.

– Sim?

– Que cumprimento tão simpático. Devias treinar o modo como atendes o telefone.

– Desculpa. Estou um pouco… o que se passa?

– O teu amigo deixou cá a carteira.

– Mickey?

– Sim, encontrei-a debaixo da consola do corredor, pouco depois de saíres. Deve ter-lhe caído do casaco.

Franzo o sobrolho. Estamos na hora de almoço. Mickey já se deve ter apercebido da falta da carteira. Mas ontem à noite estava perdido de bêbedo. Talvez ainda esteja a dormir no hotel.

– Está bem. Vou telefonar-lhe. Obrigado.

– Pronto.

De súbito, ocorre-me uma ideia.

– Podes dar uma espreitadela na carteira do Mickey?

– Espera aí.

Oiço os passos dela, e depois volta a pegar no telefone.

– Já está. Dinheiro… umas vinte mocas…, cartões de crédito, cartões de débito, recibos, carta de condução.

– E o cartão-chave do hotel?

– Ah, sim, também cá está.

O cartão-chave. Do qual teria precisado para entrar no quarto. É claro que um membro do pessoal não hesitaria em emitir outro, se tivesse com ele algum documento de identificação…

Como um eco dos meus pensamentos, Chloe diz:

– Isto quer dizer que ontem à noite não voltou para o hotel?

– Não sei. Pode ter dormido no automóvel, sei lá.

Mas por que razão não me telefonou? E mesmo que não me quisesse incomodar a noite passada, por que não ligou esta manhã?

– Só espero que ele não esteja para aí caído nalguma valeta – diz Chloe.

– Por que raio estás a dizer isso?

Arrependo-me de imediato da minha brusquidão. Quase consigo ouvi-la a eriçar-se do outro lado da linha.

– O que se passa contigo esta manhã? Acordaste com os pés de fora?

– Peço desculpa. Estou só muito cansado.

– Tudo bem – diz ela num tom que me dá a entender que não está nada bem. – O que vais

 

– Tudo bem – diz ela num tom que me dá a entender que não está nada bem. – O que vais fazer em relação ao teu amigo?

– Vou telefonar-lhe. Se não conseguir encontrá-lo, deixo a carteira no hotel e certifico-me de que está bem.

– Vou deixá-la em cima da consola do corredor.

– Vais sair?

– Bingo, Sherlock. Tenho uma vida social incrível, lembras-te?

– Pronto, está bem. Até logo.

– Espero sinceramente que não.

Desliga a chamada e fico a dar voltas à cabeça se seria uma piada sobre ficar a pé até tarde ou a genuína expressão do desejo de nunca mais voltar a ver um lunático mal-humorado como eu.

Suspiro e marco o número do Mickey. Vai para o correio de voz.

– Fala o Mickey. Neste momento não me é possível atender o telefone. Por favor deixe mensagem depois de ouvir o sinal.

Não me dou ao incómodo de deixar uma mensagem. Volto para trás, atravesso o parque no sentido inverso e tomo o caminho mais curto para casa. Faço por ignorar os roncos de inquietação na boca do estômago. Não deve ser nada. Mickey deve ter cambaleado até ao hotel e convencido o pessoal a dar-lhe outro cartão-chave. Ainda deve estar a curtir a bebedeira.

Quando eu lá chegar deve estar a vestir-se para o almoço. Tudo numa boa, perfeito.

Repito isto para mim mesmo várias vezes, cada vez com mais convicção.

E de cada vez acredito menos.

O The Travelodge é um edifício atarracado e feio, paredes meias com um Little Chef bastante degradado. Julguei que Mickey tivesse dinheiro para ficar num hotel melhor, mas este deve servir-lhe.

No caminho para cá tentei mais duas vezes o número de Mickey. Das duas vezes fui parar ao correio de voz. O mau pressentimento começa a consolidar-se.

Estaciono o automóvel e dirijo-me à recepção. Atrás do balcão está um jovem de cabelos cor de gengibre, rabo-de-cavalo hirsuto e grandes buracos nas orelhas, pouco à vontade na camisa demasiado justa e na gravata de nó mal feito. Um crachá na lapela informa-me que se chama

«Duds», o que me parece mais uma alcunha bem posta do que um nome de gente.

– Boa tarde. Quer um quarto?

– Na verdade, não. Venho à procura de um amigo.

– Muito bem.

– Mickey Cooper. Creio que chegou ontem.

– Muito bem.

E continua a fitar-me com um olhar vago.

– Portanto – insisto –, importa-se de verificar se ele está?

– Não lhe pode telefonar?

– Não atende o telefone, e depois há isto – tiro a carteira do bolso. – Deixou-a ontem à noite em minha casa. Tem o cartão-chave do quarto e todos os cartões de crédito.

Espero que o significado das minhas palavras lhe chegue ao cérebro. Cresce-me relva à volta dos pés. Formam-se e fundem-se glaciares.

– Peço desculpa – diz por fim. – Não percebo.

– Estou a pedir-lhe que veja se ele regressou a noite passada. Estou preocupado com ele.

– Ah, isso. Ontem à noite não estive cá. Quem esteve foi a Georgia.

– Está bem. Não tem nada no computador? – pergunto, a acenar com a cabeça na direcção de um velho computador que estava a um canto, em cima de uma secretária poeirenta. – Deve ter tido que pedir outro cartão-chave. Não há registo disso?

– Bem, posso ver.

– Já calculava que sim.

O sarcasmo passou-lhe a milhas. Deixa-se cair diante do computador e prime várias teclas.