O Homem de Giz
Capítulo 2016
Creio que o senhor Halloran a visitou. Muitas vezes. Devia ter tempo para isso. Não começava a leccionar na nossa escola antes de Setembro. Ao que parecia, resolvera mudar-se com alguns meses de antecedência para a vivenda que tinha alugado, para se acostumar à cidade.
Achei boa ideia. Todos tinham oportunidade de se habituarem a vê-lo a deambular por ali.
Para dissipar todas as dúvidas antes de entrar na sala de aula.
Qual era o problema da pele dele? Era um albino, explicaram pacientemente os adultos.
Faltava-lhe uma coisa chamada «pigmentação», que confere à pele das pessoas normais um tom rosado ou acastanhado. E os olhos? A mesma coisa. Faltavam-lhes os pigmentos. Portanto não era um fenómeno, um monstro ou um fantasma? Não. Apenas uma pessoa normal como as outras, mas com um problema clínico.
Estavam enganados. O senhor Halloran podia ser muitas coisas, mas «normal» não constava dessa lista.
2016
A carta chega sem floreados nem fanfarra, nem mesmo uma sensação premonitória.
Escorrega para dentro da caixa do correio, ensanduichada entre um
peditório da Macmillan1 e o prospecto de uma nova pizaria takeaway.
Nos dias que correm, quem ainda envia cartas? Até a minha mãe, aos setenta e oito anos, se rendeu ao correio electrónico, ao Twitter e ao Facebook. Para dizer a verdade, é muito mais entusiasta das tecnologias do que eu, que sou um tanto ludita. O que é motivo de constante chacota para os meus alunos, cujas conversas sobre Snapchat, favoritos, hashtags e Instagram bem podiam desenrolar-se numa língua estrangeira. Julgava que ensinava Inglês, digo-lhes muitas vezes, pesaroso. Não faço a mínima ideia do que estão a dizer.
Não reconheço a caligrafia do sobrescrito, mas hoje em dia mal reconheço a minha. São só teclados e ecrãs tácteis.
Sentado à mesa da cozinha, abro o sobrescrito e examino o conteúdo enquanto vou bebericando uma chávena de café. Quero dizer, não é bem assim. Estou sentado à mesa, a olhar para o conteúdo enquanto o café vai arrefecendo ao meu lado.
– O que é isso?
Sobressaltado, olho em redor. Chloe entra descalça na cozinha, a bocejar e com o rosto marcado pela almofada. O cabelo preto pintado está solto e desgrenhado. Veste uma velha camisola de malha e conserva no rosto os restos da maquilhagem da véspera.
– Isto – respondo, a dobrá-la cuidadosamente – é o que se costuma chamar uma carta. No passado, as pessoas costumavam usá-las como meio de comunicação.
Lança-me um olhar assassino e acena-me com o dedo médio espetado.
– Sei que estás a falar, mas só oiço blá, blá, blá.
– É o problema dos jovens de hoje. Não prestam atenção.
– Ed, mal tens idade para seres meu pai. Por que razão falas como se fosses o meu avô?
Tem razão. Estou com quarenta e dois e Chloe deve andar pelos vinte e muitos. (Penso eu.
Ela nunca disse, e sou demasiado cavalheiro para perguntar.) Não são muitos os anos que nos separam, mas por vezes parecem décadas.
Chloe é jovem e azougada, parece uma adolescente. Eu não, mais depressa me confundiriam com um reformado. Com simpatia, pode dizer-se do meu aspecto que é «desgastado pela vida».
Ainda que tenha descoberto que não são as responsabilidades da vida que nos esgotam, mas sim os desgostos e as preocupações.
O meu cabelo continua espesso e predominantemente escuro, mas as minhas marcas do riso perderam o humor há algum tempo. À semelhança de muitas pessoas altas, ando curvado, e as minhas roupas são o que Chloe designa por «loja de caridade chique». Fatos, coletes e sapatos a condizer. Possuo alguns pares de calças de ganga, mas nunca os uso para trabalhar – a menos que esteja encafuado no escritório – e estou sempre a trabalhar, e nas férias dou explicações para ganhar algum dinheiro.
Podia dizer que o faço por gostar de ensinar, mas ninguém ama assim tanto o seu trabalho. É
porque preciso do dinheiro. É pela mesma razão que Chloe vive cá. É minha hóspede, e gosto de pensar que também é minha amiga.
Tenho de reconhecer que formamos um par estranho. Chloe não é o tipo de hóspede que por norma aceito, mas tinha acabado de receber uma recusa de outro potencial inquilino e a filha de uma amiga conhecia «esta rapariga» que precisava com urgência de um quarto. Parece resultar e a renda dá-me jeito. Tal como a companhia.
Pode parecer estranho que precise de um inquilino. Sou relativamente bem pago, a casa onde vivo foi-me dada pela minha mãe e tenho a certeza de que a maioria das pessoas imagina que levo uma vida desafogada, isenta de hipotecas.
A triste verdade é que a casa foi comprada quando os juros estavam na casa dos dois dígitos, foi objecto de uma segunda hipoteca para pagar as obras, e de novo mais tarde para pagar os cuidados de saúde com o meu pai, quando o seu declínio tornou impossível tratar dele em casa.
Eu e a minha mãe vivemos aqui até há cinco anos, quando ela conheceu Gerry, um antigo banqueiro jovial que decidiu mandar tudo à fava em troca de um estilo de vida auto-suficiente numa casa ecológica que ele construiu em Wiltshire.
Não tenho nada contra Gerry. Na verdade também não tenho nada a favor dele, mas parece fazer a minha mãe feliz, e isso, como gostamos de mentir, é o mais importante. Apesar de já ter quarenta e dois anos, há uma parte de mim que não gosta que a minha mãe seja feliz com qualquer homem que não seja o meu pai. É uma infantilidade, imatura e egoísta. E nisso sou bom.
Além do mais, com os seus setenta e oito anos, a minha mãe está-se marimbando. Não foram bem as palavras que usou quando me disse que tinha resolvido ir viver com Gerry, mas retive o subtexto:
– Tenho de sair desta casa, Ed. Há aqui demasiadas recordações.
– Quer vender a casa?
– Não, Ed, quero que fiques com ela. Com um pouco de amor, pode ser uma maravilhosa casa de família.
– Mãe, eu nem tenho uma companheira, quanto mais uma família.
– Nunca é tarde.
Não respondi.
– Se não quiseres a casa podes vendê-la.
– Não, eu só… só quero que sejas feliz.
– Então de quem é a carta? – pergunta Chloe, a dirigir-se para a máquina do café e a encher uma caneca.
Enfio a carta no bolso do roupão.
– Ninguém importante.
– Oooh… Tanto mistério.
– Realmente não… É só uma pessoa que conheço há muito tempo.
Ergue uma sobrancelha.
– Mais uma? Uau! Parece que brotam do chão. Não fazia ideia de que fosses tão popular.
Franzo a testa. E nesse momento recordo-me de que lhe falei no meu convidado de hoje para o jantar.
– Não te devia surpreender.
– Mas surpreende. Para alguém tão pouco sociável, é espantoso que tenhas amigos.
– Tenho amigos aqui, em Anderbury. Já os conheces. Gav e Hoppo.
– Esses não contam.
– Porquê?
– Porque não são mesmo amigos. São só pessoas que conheces desde sempre.
– Não é assim que se definem os amigos?
– Não, isso é uma definição muito redutora. Pessoas com quem te sentes obrigado a conviver por hábito e tradição, não por um desejo real da sua companhia.
Tem alguma razão. Mais ou menos.
– Bem – digo, a mudar de assunto. – É melhor vestir-me. Hoje tenho de ir à escola.
– Não estão de férias?
– Contrariamente ao que em geral se pensa, o trabalho de um professor não termina quando a escola fecha para as férias de Verão.
– Nunca te julguei admirador de Alice Cooper.
– Gosto da música dela – respondo sem expressão.
Chloe sorri, um sorriso peculiar e enviesado que lhe altera o rosto sem graça em algo digno de nota. Algumas mulheres são assim. Invulgares e mesmo um pouco estranhas à primeira vista, até que de súbito um sorriso ou um arquear da sobrancelha as transforma.
Penso que tenho um fraquinho por Chloe, embora nunca o tenha admitido. Sei que me vê mais como um tio protector do que como um potencial namorado. Não quero que se sinta desconfortável ao permitir-lhe que perceba que tenho por ela algo mais do que um afecto paternal. Como também tenho consciência da minha posição; numa cidade pequena, uma relação com uma mulher muito mais nova pode ser facilmente mal interpretada.
– Quando chega a tua outra «velha amizade»? – pergunta Chloe, a trazer o café para a mesa.
Empurro a cadeira para trás e levanto-me.
– Por volta das sete.
E depois de uma pausa:
– Se te quiseres juntar a nós, és bem-vinda.
– Passo. Não quero estragar o vosso encontro.
– Está bem.
– Fica para outra vez. Pelo que li, ele parece ser uma pessoa interessante.
– Sim – concordo, com um sorriso forçado. – Interessante é um adjectivo possível.
A escola fica a quinze minutos de minha casa, a passo estugado. Num dia como o de hoje –
um cálido e agradável dia de Verão, com o céu azul a espreitar por entre uma fina camada de nuvens – é um passeio revigorante. Uma maneira de pôr os pensamentos em ordem antes de começar a trabalhar.
O que, no período das aulas, pode ser muito útil. A maioria dos garotos que ensino na Anderbury Academy é aquilo a que chamamos «um desafio». No meu tempo seriam um
«bando de criaturas merdosas». Há dias em que preciso de me preparar mentalmente para os enfrentar. Noutros dias, a única preparação que resulta é uma pinga de vodca no café da manhã.
À semelhança de muitas pequenas cidades com um mercado rural, Anderbury parece, para quem não estiver atento, um lugar pitoresco para viver. Inúmeras ruas calcetadas à maneira antiga, casas de chá e uma catedral quase famosa. O mercado realiza-se duas vezes por semana, abundam os belos jardins e é possível passear ao longo das margens do rio. A curta distância de automóvel das praias arenosas de Bournemouth e da vasta charneca de New Forest.
No entanto, basta raspar a superfície para perceber que o brilho turístico acaba aí. A maior parte dos trabalhos é sazonal e o desemprego é elevado. Grupos de jovens inactivos concentram-se indiferentes em volta das lojas e nos jardins. Mães adolescentes empurram carrinhos de bebés chorões pela rua principal. Não é nada de novo, mas agora é o que parece prevalecer. Ou talvez seja apenas a minha percepção. Muitas vezes, o que se adquire com a idade não é sabedoria, mas intolerância.
Chego às portas do Old Meadows Park. O meu território de brincadeiras da infância. Mudou muito desde o meu tempo, como é óbvio. Há uma pista de skate nova e o terreiro de brincadeiras da nossa quadrilha foi substituído por um «espaço recreativo» moderno, do outro lado do parque, com baloiços, um «escorrega» em forma de túnel, cabos para deslizar e toda uma série de aparelhos interessantes com os quais nem sonhávamos quando éramos crianças.
No entanto, a nossa antiga área de recreio permanece, abandonada e em ruínas. O escorrega enferrujou, os baloiços estão enrolados no alto das barras de suporte e a tinta outrora brilhante da cerca de madeira está empolada e a descascar, garatujada com velhos graffiti por pessoas que há muito esqueceram por que razão Helen é uma cabra ou por que motivo alguém desenhou um coração em redor de Andy W.
Estaco por um momento, imerso em recordações.
O leve ranger do baloiço dos bebés, o frio cortante do ar matinal, o giz estaladiço sobre a negrura do alcatrão. Outra mensagem. Mas esta é diferente. Não é um homem de giz… é outra coisa.
Viro-me abruptamente. Agora não. Não me vou deixar outra vez arrastar para o passado.
O trabalho que tenho a fazer na escola não me ocupa muito tempo. Acabo por volta da hora de almoço. Reúno os meus livros e enceto o caminho de regresso ao centro da cidade.
O The Bull continua à esquina da rua principal, é o único que subsiste. Em Anderbury havia dois outros pubs, The Dragon e The Wheatsheaf, entretanto demolidos. Os estabelecimentos do passado fecharam e, para sobreviverem, os pais de Gav foram obrigados a reduzir os preços, a fazer noites especiais para senhoras e para famílias e happy hours.
Até que se fartaram. Mudaram-se para Maiorca, onde dirigem um bar chamado Britz. Gav, que tinha trabalhado em part time no pub desde os dezasseis anos, assumiu a função de tirar cervejas e desde então tem estado à frente do estabelecimento.
Empurro a porta velha e pesada e entro. Hoppo e Gav estão sentados à mesa do costume, no canto da janela. Da cintura para cima, Gav continua a ser corpulento, o bastante para me recordar por que lhe chamávamos o Gav Gordo. Só que agora é mais músculo do que gordura.
Os braços parecem troncos de árvore e as veias azuis salientes fazem lembrar arames esticados.
O rosto parece talhado a escopro e o cabelo cortado curto é escasso e grisalho.
Hoppo quase não mudou. Com o seu fato-macaco de canalizador, basta semicerrar os olhos para o tomar por um garoto de doze anos mascarado.
Estão empenhados numa conversa. Sobre a mesa, as bebidas permanecem quase intactas.
Guinness para Hoppo e Diet Coke para Gav, que é raro beber álcool.
Peço uma Taylor’s Mild à rapariga taciturna que serve ao balcão e que olha com ar carrancudo, primeiro para mim, depois para a bomba da cerveja, como se a tivesse ofendido de morte.