O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 8 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

– Queres ir primeiro a minha casa para te lavares? – sugeri.

Gav interveio sem lhe dar tempo a responder.

– Nada disso, a minha casa é mais perto.

– Acho que sim – disse Nicky.

– E agora, o que vamos fazer? – lamentou-se Metal Mickey. – O dia ficou estragado.

Olhámos uns para os outros, cabisbaixos. Mickey tinha razão, embora me apetecesse deixar claro que era por culpa do irmão dele, não o fiz. Ocorreu-me uma ideia e ouvi-me de súbito dizer:

– Tenho uma ideia bestial de uma coisa que podemos fazer.

2016

Não sei cozinhar. Nesse aspecto, saio à minha mãe. Contudo, viver sozinho requer alguns conhecimentos básicos de cozinha. Consigo fazer um assado decente de frango com batatas, bife, massa e peixes variados. Ainda estou a aperfeiçoar o caril.

Calculei que Mickey estivesse habituado a comer em bons restaurantes. De facto, a primeira sugestão dele foi que nos encontrássemos num restaurante da cidade. No entanto, eu queria encontrar-me com ele no meu território. Para o manter à defesa. Um convite para jantar é difícil de recusar sem parecer mal-educado, mas percebi que aceitou com relutância.

Optei por fazer esparguete à bolonhesa. É fácil e é caseiro. E, de um modo geral, toda a gente gosta. Para acompanhar, tenho uma garrafa de bom vinho e um cacete de pão com alho no frigorífico. Estou a cortá-lo em fatias finas e a preparar o molho quando Chloe regressa, pouco antes das seis. Mickey deve chegar às sete.

Chloe inspira fundo.

– Mmmmm, um dia ainda vais fazer uma mulher feliz.

– Ao contrário de ti.

Leva a mão ao peito, a fingir-se ofendida.

– E eu, que acima de tudo ambiciono ser dona de casa.

Sorrio. Chloe consegue fazer-me sorrir. Está muito… bem, bonita não é a palavra adequada.

Esta noite está muito Chloe. O cabelo escuro apanhado em dois rabichos. Traz uma sweatshirt preta com um retrato de Jack Skellington, uma minissaia cor-de-rosa por cima das leggings pretas e botas de pára-quedista com atacadores multicoloridos. Em muitas mulheres, o conjunto seria ridículo. Mas Chloe aguenta-se bem.

Dirige-se ao frigorífico e tira uma garrafa de cerveja.

– Vais sair esta noite? – pergunto.

– Não, mas não te preocupes. Não apareço enquanto o teu amigo cá estiver.

– Não tens necessidade disso.

– Não me importo. Além disso, acho que me ia sentir a mais enquanto vocês conversam sobre os velhos tempos.

– Está bem.

Concordo. Quanto mais penso nisso mais me convenço de que o melhor é Chloe não estar presente. Não sei a que ponto ela estará ao corrente de Mickey e da nossa história em Anderbury, mas os factos foram copiosamente relatados pelos jornais ao longo dos anos. É um

daqueles crimes que despertam sempre o interesse das pessoas. Com todos os ingredientes. O

protagonista bizarro, os arrepiantes desenhos a giz, o horrível assassínio. Deixámos a nossa marca na história. Um pequeno homem desenhado a giz, penso com amargura. É claro que ao longo dos tempos os factos foram sendo embelezados e a verdade aos poucos limada nas suas arestas. A História não passa de uma história contada pelos sobreviventes.

Chloe emborca uma golada de cerveja.

– Se precisares de mim, estou lá em cima, no quarto.

– Queres que faça um pouco de esparguete a mais para ti?

– Não, deixa estar, almocei tarde.

– Está bem.

E fico à espera.

– Pronto, faz lá. Mais tarde sou capaz de sentir fome.

Chloe come mais do que eu julgara ser humanamente possível para alguém que se pode esconder atrás de um candeeiro. E come às horas mais desencontradas. Já a encontrei muitas vezes na cozinha a comer massa ou sanduíches, e certa vez um pequeno-almoço completo, às primeiras horas da manhã. Mas sofro de insónias e por vezes de sonambulismo, o que não faz de mim a pessoa ideal para criticar os hábitos nocturnos dos outros.

Chloe detém-se ao chegar à porta. A expressão do seu rosto denota preocupação.

– Agora a sério, se precisares de uma desculpa, posso ligar-te para o telemóvel, do género uma chamada de emergência.

Olho para ela.

– Quem vem jantar é um velho amigo, não se trata de um encontro-surpresa.

– Sim, mas «velho» é a palavra-chave. Já não vês esse tipo há dezenas de anos.

– Obrigado por não me deixares esquecer.

– A verdade é que vocês deixaram de ter contacto. Como sabes se arranjam assunto para conversar?

– Bem, ao fim de tanto tempo há muitas conversas para pôr em dia.

– Mas se tivessem alguma coisa importante para dizer já tinham dito, não é? Deve haver um motivo para ele te querer visitar ao fim de tanto tempo.

Percebo o que ela quer dizer, o que me deixa pouco à vontade.

– Não tem de haver uma razão para tudo.

Estendo a mão para o copo de vinho de que me servi para ir saboreando enquanto cozinho, e bebo metade. Sinto que ela me observa.

– Sei o que aconteceu há trinta anos – diz ela. – O homicídio.

Concentro-me a mexer a bolonhesa.

– Tens razão.

– Os quatro garotos que encontraram o corpo dela. Tu foste um deles.

Continuo sem levantar os olhos.

 

– Quer dizer que andaste a fazer pesquisas.

– Ed, vinha viver com um desconhecido, um homem solteiro que vive numa casa assustadoramente grande. É claro que fiz algumas perguntas a teu respeito.

Como é evidente. Descontraio-me um pouco.

– Nunca tinhas falado no assunto.

– Nunca tive razão para isso. E pensei que não fosse do teu agrado.

Viro-me para ela e esboço um sorriso.

– Muito obrigado.

– Não tens de quê.

Levanta de novo a garrafa da cerveja e bebe o resto.

– Seja como for – diz, a atirar a garrafa vazia para a caixa da reciclagem que está perto da porta das traseiras –, vê se te divertes. Não faças nada que eu não fizesse.

– Já te disse que não é um encontro de namorados.

– Sim, porque se fosse valia a pena escrever sobre o assunto. Até era capaz de alugar uma avioneta com uma tarja a dizer: EDDIE TEM UM ENCONTRO.

– Sinto-me feliz como estou, obrigado.

– Falo por falar, a vida é curta.

– Se me estás a dizer para aproveitar o dia, confisco toda a cerveja.

– Não é o dia, é apenas o saque.

Pisca-me o olho e pavoneia-se para fora da cozinha, em direcção à escada.

Num gesto impensado, sirvo-me de outro copo de vinho. Sinto-me nervoso, o que me parece natural. Não sei o que esperar do serão. Olho para o relógio. 6 h 30 m. O melhor é tornar-me apresentável.

Subo os degraus, tomo um duche rápido, visto uma calças cinzentas de bombazina e uma camisa decente. Passo um pente para alisar o cabelo, que se revolta, ainda mais espigado. No que respeito a cabelo, o meu apresenta uma resistência tenaz a todas as tentativas de o domar, desde o simples pente até ao gel e ao fixador. Uso-o cortado quase até ao couro cabeludo, mas durante a noite miraculosamente parece ter crescido e criado mais alguns remoinhos. Mas pelo menos tenho cabelo. Pelas fotografias que vi de Mickey, não parece ser tão afortunado.

Largo o espelho e volto a descer a escada. Mesmo a tempo. A campainha da porta retine, seguida por algumas pancadas no batente. Eriçam-se-me os pêlos imaginários do pescoço.

Detesto quando as pessoas usam a campainha e também o batente, a sugerir que não oiço bem ou que têm tanta pressa de entrar que empreendem um assalto frontal ao exterior da minha propriedade.

Recomponho-me e começo a andar pelo corredor. Após uma curta hesitação, abro a porta…

Nos livros, estes momentos são sempre carregados de dramatismo. Na sua banalidade, a realidade causa um desapontamento.

Depara-se-me um homem baixo e magro, de meia-idade. A cabeça calva e o cabelo rapado dos lados. Veste uma camisa cara, um casaco desportivo, calças de ganga azul-escuras, a condizer com os sapatos luva brilhantes, e sem meias. Sempre achei que os homens ficavam ridículos quando usavam sapatos sem meias. Como se os tivessem calçado à pressa, no escuro, durante uma ressaca.

Sei o que ele tem diante dos olhos. Um homem magro, mais alto do que a média, vestido com uma camisa banal e calças de bombazina largas, cabelo espigado e mais rugas do que seria de esperar num tipo com quarenta e dois anos. Mas cada um tem o que merece.

– Ed! Que bom ver-te.

Para ser sincero não posso dizer o mesmo, portanto limito-me a um aceno de cabeça. Antes que ele estenda a mão e me veja obrigado a apertá-la, desloco-me para o lado e convido-o a entrar com um gesto largo.

– Entra, se fazes favor.

– Obrigado.

– Por aqui.

Pego-lhe no casaco, penduro-o no cabide do vestíbulo e indico-lhe o caminho para a saleta, embora tenha a certeza de que Mickey se recorda bem.

Talvez por comparação com o esplendor ostentado por Mickey, choca-me a imagem da divisão acanhada e escura. Uma saleta poeirenta e gasta, ocupada por um homem que não atribuiu grande importância à decoração.

– Posso arranjar-te uma bebida? Tenho uma boa garrafa de Barolo aberta, há cerveja, ou…

– Pode ser cerveja.

– Tudo bem. Tenho Heineken…

– Qualquer coisa. Não sou grande bebedor.

– Certo.

Mais uma coisa que não temos em comum.

– Vou buscar uma garrafa ao frigorífico.

Regresso à cozinha, agarro uma Heineken e abro-a. Estendo a mão para o meu copo de vinho e emborco um grande trago antes de o voltar a encher com a garrafa já meio vazia.

– Vejo que fizeste um bom trabalho com esta casa velha.

Sobressalto-me. Mickey está à porta, a olhar em redor. Não sei se me terá visto beber e voltar a encher o copo. Nem sei por que razão isso me importa.

– Obrigado – digo, embora ambos saibamos que fiz pouca coisa com «a casa velha».

Estendo-lhe a cerveja.

– Uma casa antiga como esta deve ser um sorvedouro de dinheiro, não? – pergunta.

– Nem por isso.

– Admira-me que não a tenhas vendido.

– Razões sentimentais, presumo.

Bebo um pequeno gole de vinho. Mickey vai bebericando a cerveja. O momento prolonga-se demasiado, a converter a pausa natural num silêncio embaraçoso.

– Então – pergunta Mickey –, ouvi dizer que és professor?

– Sim, para mal dos meus pecados – confirmo com um aceno de cabeça.

– Gostas?

– A maior parte das vezes.

Na maior parte dos casos adoro o tema a leccionar e quero partilhar esse amor com os meus alunos. Quero que apreciem as aulas e que saiam com a consciência de terem aprendido alguma coisa.

Mas há dias em que me sinto cansado, exausto, capaz de dar um A+ a quem quer que seja só para me deixarem em paz.

– É curioso – diz Mickey, a abanar a cabeça –, sempre pensei que viesses a ser escritor, como o teu pai. Sempre foste bom a inglês.

– E tu sempre foste bom a inventar coisas. Deve ser por isso que estás na publicidade.

Ele ri, pouco à vontade. Outro silêncio. Finjo que vigio o esparguete.

– Fiz um bocado de esparguete. Espero que não te importes.

– Sim, bestial. – Oiço uma cadeira a arrastar quando ele se senta. – Obrigado por te dares a tanto trabalho. Quero dizer, não me importava se comêssemos no pub.

– Mas não no The Bull, pois não?

A expressão endurece.

– Imagino que lhes tenhas falado na minha visita.

Quando fala no plural percebo que se refere a Hoppo e a Gav.

– De facto, não. Mas Hoppo disse que te viu no outro dia na cidade, portanto…

Encolhe os ombros.

– Também não estava a fazer segredo.

– Então por que razão me disseste para não lhes contar?

– Porque sou um cobarde. Depois do acidente, de tudo o que aconteceu… pensei que nenhum deles quisesse ouvir falar de mim.

– Nunca se sabe – respondo. – As pessoas mudam. Já se passou muito tempo.

Também é mentira, mas soa melhor do que dizer: Tens razão. Têm-te um ódio visceral.

Especialmente Gav.

– Imagino.

Ergue a garrafa da cerveja e bebe os últimos goles. Para quem não bebe muito, está a dar um bom espectáculo.

Tiro-lhe outra do frigorífico e sento-me à mesa, diante dele.

– O que quero dizer é que nesse tempo todos fizemos coisas das quais não nos orgulhamos.

– Excepto tu.

Antes de conseguir responder, oiço atrás de mim o som de qualquer coisa a derramar. O

Antes de conseguir responder, oiço atrás de mim o som de qualquer coisa a derramar. O

esparguete está a ferver. Apresso-me a reduzir a intensidade do gás.

– Queres que te ajude em alguma coisa? – pergunta Mickey.

– Não, não. Está tudo bem.

– Obrigado – diz, a erguer a cerveja. – Gostava de te falar sobre uma proposta.

Ora cá vamos nós.

– Sim?

– Deves estar a pensar qual a razão que me fez voltar.

– A minha famosa arte culinária?

– Este ano completam-se trinta anos, Ed.

– Eu sei.

– O interesse dos media já se manifestou.

– Não presto grande atenção aos media.

– Uma atitude sensata. A maior parte do que dizem é treta. É por isso que acho tão importante que alguém lhes conte a verdadeira história. Alguém que lá tenha de facto estado.

– Alguém como tu?

Concorda com um movimento da cabeça.

– E gostaria de contar com a tua ajuda.

– Para quê, exactamente?

– Um livro. Se calhar televisão. Tenho contactos. E já fiz imensas pesquisas.

Olho para ele e abano a cabeça.

– Não.

– Ao menos ouve o que tenho a dizer.

– Não estou interessado. Não quero voltar a desenterrar tudo isso.

– Mas eu quero. – Inclina a garrafa bem alto. – Escuta, durante anos tentei não pensar no que aconteceu. A esquivar-me. A calar-me. Pois bem, concluí que é chegado o momento de enfrentar e lidar com toda essa culpa e todo esse medo.