O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 14 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

Nunca esqueci o que vi nos seus olhos quando disse aquilo. Talvez tenha sido por isso que não lhe falei no homem de giz e no cão. Nem no facto de nunca mais ter visto Metal Mickey, depois de ele ter saído a correr da igreja.

2016

Não me considero um alcoólico. Da mesma maneira que não me considero um açambarcador. Sou um homem que gosta de uma bebida e que colecciona coisas.

Não bebo todos os dias, e em geral não chego à escola a cheirar a álcool. Embora já tenha acontecido. Não chegou ao conhecimento do director, mas valeu-me um aviso amistoso de um colega professor:

– Ed, vai para casa, toma um duche e compra um elixir. E, de futuro, bebe só ao fim-de-semana.

Na verdade, bebo mais do que devia, e com mais frequência. Hoje, sinto a necessidade. Um aperto na garganta. Uma secura nos lábios, que não desaparece por muito que os humedeça com a língua. E não preciso apenas de uma bebida. Preciso de beber. Uma subtileza gramatical.

Uma enorme diferença na intenção.

Entro no supermercado e escolho duas garrafas de tintos robustos na prateleira dos vinhos.

Depois, pego numa garrafa de bourbon de qualidade e empurro o carrinho das compras até à caixa. Troco algumas palavras de ocasião com a mulher que superintende nas caixas e deposito as garrafas no automóvel. Regresso a casa pouco depois das seis, selecciono alguns velhos discos de vinil que não oiço há muito tempo e sirvo-me do primeiro copo de vinho.

É quando oiço a porta da frente a bater com tanta força que faz estremecer os castiçais sobre a prateleira do fogão de sala e o meu copo cheio oscilar periclitante em cima da mesa.

– Chloe?

Tem de ser ela. Forçosamente. Tranquei a porta e mais ninguém tem a chave. Mas Chloe não costuma atirar com as portas. Chloe desliza com a subtileza de um gato ou de uma neblina sobrenatural.

Olho com desejo para o copo de vinho e depois, com um suspiro de resignação, levanto-me e dirijo-me à cozinha, onde agora a posso ouvir a abrir e a fechar o frigorífico e a fazer tilintar os vidros. Depois, um outro som. Um som com o qual não estou familiarizado.

Preciso de algum tempo antes de o assimilar. Chloe está a chorar.

Não sou bom com choros. Eu não choro muito. Nem no funeral do meu pai. Não gosto da porcaria, do ranho, do som. Ninguém é atraente quando chora. Pior ainda, quando uma mulher chora, com certeza precisa de alguém que a conforte. E também não sou bom a confortar pessoas.

Hesito à entrada da cozinha. Até que oiço Chloe dizer:

– Porra, Eddie. Sim, estou a chorar. Ou entras e enfrentas isto ou então pões-te a andar.

Empurro a porta. Chloe está sentada à mesa da cozinha. À sua frente, uma garrafa de gim e um grande copo. Não há água tónica. O seu cabelo está mais desgrenhado do que o costume, e na cara tem riscos de rimmel preto.

– Não te vou perguntar se estás bem…

– Ainda bem. Era capaz de te enfiar a garrafa de gim pelo cu acima.

– Queres falar sobre isso?

– Não.

– Muito bem. – Inclino-me sobre a mesa. – Posso fazer alguma coisa?

– Senta-te e bebe um copo.

Embora esta noite tenha sido essa a minha intenção, o gim não é a minha bebida preferida, mas percebo que não é negociável. Tiro um copo do armário e deixo que Chloe me sirva uma porção generosa.

Com mão pouco firme, empurra desajeitadamente o copo por cima da mesa. Percebo que esta bebida não é a sua primeira, nem a segunda ou a terceira. O que é invulgar. Chloe gosta de sair. Chloe gosta de beber um copo. Mas creio que nunca a vi bêbeda.

– Então – pergunta em voz entaramelada –, que tal foi o teu dia?

– Bem, tentei participar à polícia o desaparecimento do meu amigo.

– E?

– Apesar de não ter voltado ao hotel na noite passada, de não ter a carteira nem os cartões do banco e de não atender o telefone, parece que não pode ser oficialmente dado como desaparecido antes de se passarem vinte e quatro horas depois de ter sido visto pela última vez.

– Que merda!

– Sim, que merda.

– Pensas que lhe aconteceu alguma coisa?

Parece preocupada.

Bebo um gole de gim.

– Não sei…

– Pode ser que tenha ido para casa.

– Pode ser.

– Então, o que vais fazer agora?

– Amanhã tenho de voltar à esquadra.

Chloe fita o copo.

– Amigos, não é? Dão mais chatices do que merecem. Embora não sejam tão maus como a família.

– Suponho que sim – respondo na defensiva.

– Oh, podes acreditar. Com os amigos podemos cortar. Com a família, não. Estão sempre lá, em fundo, para nos dar cabo do juízo.

Emborca o que resta de gim no copo e serve-se de outro.

Chloe nunca tinha falado na sua vida pessoal e eu nunca lhe fizera perguntas. É como com os miúdos. Se nos querem contar alguma coisa, fazem-no! Mas se lhes perguntamos, refugiam-se de imediato na sua concha.

É evidente que teci as minhas conjecturas. Durante algum tempo, considerei a sua presença na minha casa a consequência de uma ruptura desagradável com um namorado. Bem vistas as coisas, há inúmeras casas que alugam quartos e que ficam mais próximas do emprego dela, e com pessoas de idade e aspecto mais consentâneos com o seu. Não é por acaso que se escolhe uma velha casa assombrada, habitada por um homem solteiro e excêntrico, a menos que se procure solidão e privacidade.

Mas Chloe nunca me contou nada e eu nunca insisti, talvez com receio de a afugentar.

Encontrar um inquilino para o quarto de hóspedes é uma coisa. Encontrar uma companhia para a minha solidão é outra, muito diferente.

Bebo mais um gole de gim, mas a vontade de beber está rapidamente a dissipar-se. Não há nada como falar com um tipo embriagado para repelir a ideia de ficar no mesmo estado.

– Bem… tanto a família como os amigos podem ser difíceis – digo.

– Sou tua amiga, Ed?

A pergunta desconcerta-me. Chloe fita-me com uma expressão sincera, os músculos do rosto descontraídos, os lábios entreabertos.

Engulo em seco.

– Espero que sim.

Sorri.

– Ainda bem. Porque nunca faria nada para te magoar. Quero que saibas isso.

– Eu sei – respondo, embora não saiba.

Na verdade não sei. As pessoas podem magoar-nos sem que se apercebam disso.

Chloe magoa-me um pouco todos os dias, só pelo simples facto de existir. Mas não faz mal.

– Ainda bem.

Aperta-me os dedos e fico alarmado ao ver os seus olhos outra vez marejados. Limpa a cara com a mão.

– Por Cristo, sou mesmo uma idiota.

Bebe outra golada e diz:

– Devia contar-te uma coisa…

Não gosto daquelas palavras. Não se pode esperar nada de bom de uma frase que começa assim. Como «Devíamos conversar…».

– Chloe…

Sou salvo pela campainha. Está alguém à porta. Não recebo muitas visitas, sobretudo das que chegam sem aviso prévio.

– Quem será agora, porra? – interroga-se Chloe no seu habitual tom caloroso e bem-

– Quem será agora, porra? – interroga-se Chloe no seu habitual tom caloroso e bem-disposto.

– Não sei.

Arrasto-me devagar até à porta e abro-a. Lá fora estão dois homens de fato cinzento. Ainda antes de abrirem a boca percebo que são polícias. Há neles qualquer coisa de peculiar. O rosto fatigado. O cabelo mal cortado. Os sapatos baratos.

– Senhor Adams? – pergunta o mais alto, de cabelos escuros.

– Sim?

– Sou o inspector Furniss. Este é o sargento Danks. Foi esta tarde à esquadra participar o desaparecimento de um amigo seu, Mick Cooper?

– Tentei. Disseram-me que oficialmente não estava desaparecido.

– É verdade. Lamentamos que assim seja – interveio o mais baixo e careca. – Podemos entrar?

Tenho vontade de lhes perguntar para quê, mas como de qualquer maneira vão entrar, não me dou a esse trabalho.

– Com certeza.

Passam por mim para o corredor e fecho a porta.

– Por aqui.

Por força do hábito, levo-os para a cozinha. Assim que vejo Chloe percebo que pode ser um erro. Continua com a «roupa de sair». Um casaco preto muito justo decorado com caveiras, uma minissaia de licra, meias de rede e botas.

Levanta os olhos à entrada dos polícias.

– Oh, que bom, temos companhia.

– É Chloe, a minha inquilina. E amiga.

Os polícias são demasiado profissionais para erguerem uma sobrancelha, mas tenho a certeza do que estão a pensar. Um velho e uma rapariga bonita a viverem na mesma casa. Ou ando a dormir com ela ou não passo de um velho parvo. Infelizmente, é o segundo caso.

– Querem beber alguma coisa? – pergunto. – Chá, café?

– Gim? – pergunta Chloe, a erguer a garrafa.

– Lamento, mas estamos de serviço, menina – replica o inspector Furniss.

– Como queiram. Ehhh… sentem-se por favor.

Olham um para o outro.

– Na verdade, senhor Adams, seria melhor se conversássemos consigo a sós.

Olho para Chloe.

– Não te importas?

– Peço desculpa. – Agarra na garrafa e no copo. – Se precisares de mim estou aqui ao lado.

Brinda os dois agentes com um olhar carrancudo e sai furtiva da cozinha.

Sentam-se os dois, a arrastar as cadeiras pelo chão, e eu encavalito-me todo desajeitado na

Sentam-se os dois, a arrastar as cadeiras pelo chão, e eu encavalito-me todo desajeitado na extremidade da mesa.

– Posso saber qual é o motivo da vossa visita? Já disse tudo o que sabia ao sargento de serviço.

– Posso pedir-lhe que repita tudo, com todos os pormenores?

Danks tira a caneta do bolso.

– Bem, Mickey saiu daqui ontem à noite.

– Desculpe, pode ir um pouco mais atrás? Ele veio cá porquê? Tanto quanto sei, ele vive em Oxford, não é?

– Bem, é um velho amigo, voltou a Anderbury e quis encontrar-se comigo.

– Velho amigo de há quanto tempo?

– Desde a infância.

– E mantiveram-se em contacto?

– Não. Mas às vezes é bom recordar.

Ambos assentiram.

– Seja como for, ele veio cá jantar.

– E a que horas foi isso?

– Chegou por volta das sete e meia.

– Veio a conduzir?

– Não, veio a pé. O hotel onde ficou não é longe e deve ter calculado que íamos beber uma pinga.

– Quanto pensa que ele bebeu?

– Bem – vêm-me à memória as garrafas de cerveja vazias para reciclar –, sabe como é. Come-se, conversa-se… não sei, umas seis ou sete cervejas.

– Uma quantidade razoável, portanto.

– Suponho que sim.

– Então, em que estado estava ele quando saiu?

– Não estava a cair, mas estava bastante embriagado.

– E deixou-o voltar a pé para o hotel?

– Ofereci-me para lhe chamar um táxi, mas ele disse que o passeio o ajudaria a aclarar as ideias.

– Muito bem. E a que horas diria que isso aconteceu?

– Por volta das dez, dez e meia. Não muito tarde.

– E foi essa a última vez que o viu nessa noite?

– Sim.

– Entregou a carteira dele à sargento de serviço?

Com alguma dificuldade. A agente tinha insistido comigo para que a guardasse.

– Sim.

– E como entrou na posse da carteira?

– Mickey deve ter-se esquecido dela quando saiu da minha casa.

– E não tentou devolver-lha nessa mesma noite?

– Só me apercebi disso no dia seguinte. Foi a Chloe que a encontrou e me telefonou.

– E a que horas foi isso?

– À hora de almoço. Tentei ligar ao Mickey para lhe dizer que tinha cá deixado a carteira, mas ele não atendeu.

Mais garatujas no bloco.

– Foi então que se dirigiu ao hotel para saber se o seu amigo se encontrava bem?

– Foi. E eles disseram-me que ele não tinha regressado na noite anterior. Foi quando resolvi ir à polícia.

Mais gestos de assentimento. Depois, Furniss perguntou:

– Que tal lhe pareceu o seu amigo nessa noite?

– Bem… pareceu-me bem.

– Estava bem-disposto?

– Sim, acho que sim.

– Qual foi o objectivo da visita?

– Qual é a importância disso, posso saber?

– Bem, ao fim de tantos anos sem contacto, de repente ele faz-lhe uma visita. É um pouco estranho.

– As pessoas são estranhas, como diria Jim Morrison.

Olharam para mim sem expressão. Não eram apreciadores de rock clássico.

– Oiça, foi um encontro social. Falámos numa imensidade de coisas, naquilo que andávamos a fazer. De trabalho. Nada especialmente importante. Agora, posso saber qual o motivo de todas estas perguntas? Aconteceu alguma coisa ao Mickey?

Ponderaram a pergunta e Danks fechou o bloco.

– Foi hoje encontrado um corpo que corresponde à descrição do seu amigo Mickey Cooper.

Um corpo. Mickey. Procuro digerir a informação. Agarra-se-me à garganta. Não consigo falar. Respirar é difícil.

– O senhor sente-se bem?

– N… não sei. É um choque. O que aconteceu?

– Retirámos o corpo do rio.

Aposto que está verde e inchado e que os peixes lhe comeram os olhos.

– Mickey… afogado?

– Ainda estamos a tentar estabelecer as circunstâncias exactas da morte do seu amigo.

– Se ele caiu ao rio, o que há para estabelecer?

Pareceu-me que qualquer coisa perpassou entre os dois.

– Old Meadows Park é na direcção oposta ao hotel do seu amigo, não é?

– É, sim.

– Então, por que razão estava ele lá?

– Talvez tenha resolvido dar uma volta maior para arejar a bebedeira. Ou será que se enganou no caminho?

– Talvez.

Em tom céptico.

– Não acreditam que a morte de Mickey tenha sido um acidente?

– Pelo contrário, parece-nos a explicação mais plausível. No entanto, temos de explorar todas as opções.

– Tais como?

– Conhece alguém que desejasse fazer mal a Mickey?

Sinto uma veia a palpitar na têmpora. Alguém que desejasse mal a Mickey? Lembro-me pelo menos de uma pessoa, mas essa pessoa não está em condições de correr à noite pelos parques para empurrar Mickey para o rio.

– Não, não me recordo de ninguém. – E depois, numa voz mais firme, acrescento: –

Anderbury é uma cidade pacata. Não consigo imaginar alguém a atacar Mickey.

Ambos concordam com um gesto da cabeça.

– Creio que tem razão. Deve ter sido um acidente triste e infeliz.