O Homem de Giz
Capítulo 2016
Nunca esqueci o que vi nos seus olhos quando disse aquilo. Talvez tenha sido por isso que não lhe falei no homem de giz e no cão. Nem no facto de nunca mais ter visto Metal Mickey, depois de ele ter saído a correr da igreja.
2016
Não me considero um alcoólico. Da mesma maneira que não me considero um açambarcador. Sou um homem que gosta de uma bebida e que colecciona coisas.
Não bebo todos os dias, e em geral não chego à escola a cheirar a álcool. Embora já tenha acontecido. Não chegou ao conhecimento do director, mas valeu-me um aviso amistoso de um colega professor:
– Ed, vai para casa, toma um duche e compra um elixir. E, de futuro, bebe só ao fim-de-semana.
Na verdade, bebo mais do que devia, e com mais frequência. Hoje, sinto a necessidade. Um aperto na garganta. Uma secura nos lábios, que não desaparece por muito que os humedeça com a língua. E não preciso apenas de uma bebida. Preciso de beber. Uma subtileza gramatical.
Uma enorme diferença na intenção.
Entro no supermercado e escolho duas garrafas de tintos robustos na prateleira dos vinhos.
Depois, pego numa garrafa de bourbon de qualidade e empurro o carrinho das compras até à caixa. Troco algumas palavras de ocasião com a mulher que superintende nas caixas e deposito as garrafas no automóvel. Regresso a casa pouco depois das seis, selecciono alguns velhos discos de vinil que não oiço há muito tempo e sirvo-me do primeiro copo de vinho.
É quando oiço a porta da frente a bater com tanta força que faz estremecer os castiçais sobre a prateleira do fogão de sala e o meu copo cheio oscilar periclitante em cima da mesa.
– Chloe?
Tem de ser ela. Forçosamente. Tranquei a porta e mais ninguém tem a chave. Mas Chloe não costuma atirar com as portas. Chloe desliza com a subtileza de um gato ou de uma neblina sobrenatural.
Olho com desejo para o copo de vinho e depois, com um suspiro de resignação, levanto-me e dirijo-me à cozinha, onde agora a posso ouvir a abrir e a fechar o frigorífico e a fazer tilintar os vidros. Depois, um outro som. Um som com o qual não estou familiarizado.
Preciso de algum tempo antes de o assimilar. Chloe está a chorar.
Não sou bom com choros. Eu não choro muito. Nem no funeral do meu pai. Não gosto da porcaria, do ranho, do som. Ninguém é atraente quando chora. Pior ainda, quando uma mulher chora, com certeza precisa de alguém que a conforte. E também não sou bom a confortar pessoas.
Hesito à entrada da cozinha. Até que oiço Chloe dizer:
– Porra, Eddie. Sim, estou a chorar. Ou entras e enfrentas isto ou então pões-te a andar.
Empurro a porta. Chloe está sentada à mesa da cozinha. À sua frente, uma garrafa de gim e um grande copo. Não há água tónica. O seu cabelo está mais desgrenhado do que o costume, e na cara tem riscos de rimmel preto.
– Não te vou perguntar se estás bem…
– Ainda bem. Era capaz de te enfiar a garrafa de gim pelo cu acima.
– Queres falar sobre isso?
– Não.
– Muito bem. – Inclino-me sobre a mesa. – Posso fazer alguma coisa?
– Senta-te e bebe um copo.
Embora esta noite tenha sido essa a minha intenção, o gim não é a minha bebida preferida, mas percebo que não é negociável. Tiro um copo do armário e deixo que Chloe me sirva uma porção generosa.
Com mão pouco firme, empurra desajeitadamente o copo por cima da mesa. Percebo que esta bebida não é a sua primeira, nem a segunda ou a terceira. O que é invulgar. Chloe gosta de sair. Chloe gosta de beber um copo. Mas creio que nunca a vi bêbeda.
– Então – pergunta em voz entaramelada –, que tal foi o teu dia?
– Bem, tentei participar à polícia o desaparecimento do meu amigo.
– E?
– Apesar de não ter voltado ao hotel na noite passada, de não ter a carteira nem os cartões do banco e de não atender o telefone, parece que não pode ser oficialmente dado como desaparecido antes de se passarem vinte e quatro horas depois de ter sido visto pela última vez.
– Que merda!
– Sim, que merda.
– Pensas que lhe aconteceu alguma coisa?
Parece preocupada.
Bebo um gole de gim.
– Não sei…
– Pode ser que tenha ido para casa.
– Pode ser.
– Então, o que vais fazer agora?
– Amanhã tenho de voltar à esquadra.
Chloe fita o copo.
– Amigos, não é? Dão mais chatices do que merecem. Embora não sejam tão maus como a família.
– Suponho que sim – respondo na defensiva.
– Oh, podes acreditar. Com os amigos podemos cortar. Com a família, não. Estão sempre lá, em fundo, para nos dar cabo do juízo.
Emborca o que resta de gim no copo e serve-se de outro.
Chloe nunca tinha falado na sua vida pessoal e eu nunca lhe fizera perguntas. É como com os miúdos. Se nos querem contar alguma coisa, fazem-no! Mas se lhes perguntamos, refugiam-se de imediato na sua concha.
É evidente que teci as minhas conjecturas. Durante algum tempo, considerei a sua presença na minha casa a consequência de uma ruptura desagradável com um namorado. Bem vistas as coisas, há inúmeras casas que alugam quartos e que ficam mais próximas do emprego dela, e com pessoas de idade e aspecto mais consentâneos com o seu. Não é por acaso que se escolhe uma velha casa assombrada, habitada por um homem solteiro e excêntrico, a menos que se procure solidão e privacidade.
Mas Chloe nunca me contou nada e eu nunca insisti, talvez com receio de a afugentar.
Encontrar um inquilino para o quarto de hóspedes é uma coisa. Encontrar uma companhia para a minha solidão é outra, muito diferente.
Bebo mais um gole de gim, mas a vontade de beber está rapidamente a dissipar-se. Não há nada como falar com um tipo embriagado para repelir a ideia de ficar no mesmo estado.
– Bem… tanto a família como os amigos podem ser difíceis – digo.
– Sou tua amiga, Ed?
A pergunta desconcerta-me. Chloe fita-me com uma expressão sincera, os músculos do rosto descontraídos, os lábios entreabertos.
Engulo em seco.
– Espero que sim.
Sorri.
– Ainda bem. Porque nunca faria nada para te magoar. Quero que saibas isso.
– Eu sei – respondo, embora não saiba.
Na verdade não sei. As pessoas podem magoar-nos sem que se apercebam disso.
Chloe magoa-me um pouco todos os dias, só pelo simples facto de existir. Mas não faz mal.
– Ainda bem.
Aperta-me os dedos e fico alarmado ao ver os seus olhos outra vez marejados. Limpa a cara com a mão.
– Por Cristo, sou mesmo uma idiota.
Bebe outra golada e diz:
– Devia contar-te uma coisa…
Não gosto daquelas palavras. Não se pode esperar nada de bom de uma frase que começa assim. Como «Devíamos conversar…».
– Chloe…
Sou salvo pela campainha. Está alguém à porta. Não recebo muitas visitas, sobretudo das que chegam sem aviso prévio.
– Quem será agora, porra? – interroga-se Chloe no seu habitual tom caloroso e bem-
– Quem será agora, porra? – interroga-se Chloe no seu habitual tom caloroso e bem-disposto.
– Não sei.
Arrasto-me devagar até à porta e abro-a. Lá fora estão dois homens de fato cinzento. Ainda antes de abrirem a boca percebo que são polícias. Há neles qualquer coisa de peculiar. O rosto fatigado. O cabelo mal cortado. Os sapatos baratos.
– Senhor Adams? – pergunta o mais alto, de cabelos escuros.
– Sim?
– Sou o inspector Furniss. Este é o sargento Danks. Foi esta tarde à esquadra participar o desaparecimento de um amigo seu, Mick Cooper?
– Tentei. Disseram-me que oficialmente não estava desaparecido.
– É verdade. Lamentamos que assim seja – interveio o mais baixo e careca. – Podemos entrar?
Tenho vontade de lhes perguntar para quê, mas como de qualquer maneira vão entrar, não me dou a esse trabalho.
– Com certeza.
Passam por mim para o corredor e fecho a porta.
– Por aqui.
Por força do hábito, levo-os para a cozinha. Assim que vejo Chloe percebo que pode ser um erro. Continua com a «roupa de sair». Um casaco preto muito justo decorado com caveiras, uma minissaia de licra, meias de rede e botas.
Levanta os olhos à entrada dos polícias.
– Oh, que bom, temos companhia.
– É Chloe, a minha inquilina. E amiga.
Os polícias são demasiado profissionais para erguerem uma sobrancelha, mas tenho a certeza do que estão a pensar. Um velho e uma rapariga bonita a viverem na mesma casa. Ou ando a dormir com ela ou não passo de um velho parvo. Infelizmente, é o segundo caso.
– Querem beber alguma coisa? – pergunto. – Chá, café?
– Gim? – pergunta Chloe, a erguer a garrafa.
– Lamento, mas estamos de serviço, menina – replica o inspector Furniss.
– Como queiram. Ehhh… sentem-se por favor.
Olham um para o outro.
– Na verdade, senhor Adams, seria melhor se conversássemos consigo a sós.
Olho para Chloe.
– Não te importas?
– Peço desculpa. – Agarra na garrafa e no copo. – Se precisares de mim estou aqui ao lado.
Brinda os dois agentes com um olhar carrancudo e sai furtiva da cozinha.
Sentam-se os dois, a arrastar as cadeiras pelo chão, e eu encavalito-me todo desajeitado na
Sentam-se os dois, a arrastar as cadeiras pelo chão, e eu encavalito-me todo desajeitado na extremidade da mesa.
– Posso saber qual é o motivo da vossa visita? Já disse tudo o que sabia ao sargento de serviço.
– Posso pedir-lhe que repita tudo, com todos os pormenores?
Danks tira a caneta do bolso.
– Bem, Mickey saiu daqui ontem à noite.
– Desculpe, pode ir um pouco mais atrás? Ele veio cá porquê? Tanto quanto sei, ele vive em Oxford, não é?
– Bem, é um velho amigo, voltou a Anderbury e quis encontrar-se comigo.
– Velho amigo de há quanto tempo?
– Desde a infância.
– E mantiveram-se em contacto?
– Não. Mas às vezes é bom recordar.
Ambos assentiram.
– Seja como for, ele veio cá jantar.
– E a que horas foi isso?
– Chegou por volta das sete e meia.
– Veio a conduzir?
– Não, veio a pé. O hotel onde ficou não é longe e deve ter calculado que íamos beber uma pinga.
– Quanto pensa que ele bebeu?
– Bem – vêm-me à memória as garrafas de cerveja vazias para reciclar –, sabe como é. Come-se, conversa-se… não sei, umas seis ou sete cervejas.
– Uma quantidade razoável, portanto.
– Suponho que sim.
– Então, em que estado estava ele quando saiu?
– Não estava a cair, mas estava bastante embriagado.
– E deixou-o voltar a pé para o hotel?
– Ofereci-me para lhe chamar um táxi, mas ele disse que o passeio o ajudaria a aclarar as ideias.
– Muito bem. E a que horas diria que isso aconteceu?
– Por volta das dez, dez e meia. Não muito tarde.
– E foi essa a última vez que o viu nessa noite?
– Sim.
– Entregou a carteira dele à sargento de serviço?
Com alguma dificuldade. A agente tinha insistido comigo para que a guardasse.
– Sim.
– E como entrou na posse da carteira?
– Mickey deve ter-se esquecido dela quando saiu da minha casa.
– E não tentou devolver-lha nessa mesma noite?
– Só me apercebi disso no dia seguinte. Foi a Chloe que a encontrou e me telefonou.
– E a que horas foi isso?
– À hora de almoço. Tentei ligar ao Mickey para lhe dizer que tinha cá deixado a carteira, mas ele não atendeu.
Mais garatujas no bloco.
– Foi então que se dirigiu ao hotel para saber se o seu amigo se encontrava bem?
– Foi. E eles disseram-me que ele não tinha regressado na noite anterior. Foi quando resolvi ir à polícia.
Mais gestos de assentimento. Depois, Furniss perguntou:
– Que tal lhe pareceu o seu amigo nessa noite?
– Bem… pareceu-me bem.
– Estava bem-disposto?
– Sim, acho que sim.
– Qual foi o objectivo da visita?
– Qual é a importância disso, posso saber?
– Bem, ao fim de tantos anos sem contacto, de repente ele faz-lhe uma visita. É um pouco estranho.
– As pessoas são estranhas, como diria Jim Morrison.
Olharam para mim sem expressão. Não eram apreciadores de rock clássico.
– Oiça, foi um encontro social. Falámos numa imensidade de coisas, naquilo que andávamos a fazer. De trabalho. Nada especialmente importante. Agora, posso saber qual o motivo de todas estas perguntas? Aconteceu alguma coisa ao Mickey?
Ponderaram a pergunta e Danks fechou o bloco.
– Foi hoje encontrado um corpo que corresponde à descrição do seu amigo Mickey Cooper.
Um corpo. Mickey. Procuro digerir a informação. Agarra-se-me à garganta. Não consigo falar. Respirar é difícil.
– O senhor sente-se bem?
– N… não sei. É um choque. O que aconteceu?
– Retirámos o corpo do rio.
Aposto que está verde e inchado e que os peixes lhe comeram os olhos.
– Mickey… afogado?
– Ainda estamos a tentar estabelecer as circunstâncias exactas da morte do seu amigo.
– Se ele caiu ao rio, o que há para estabelecer?
Pareceu-me que qualquer coisa perpassou entre os dois.
– Old Meadows Park é na direcção oposta ao hotel do seu amigo, não é?
– É, sim.
– Então, por que razão estava ele lá?
– Talvez tenha resolvido dar uma volta maior para arejar a bebedeira. Ou será que se enganou no caminho?
– Talvez.
Em tom céptico.
– Não acreditam que a morte de Mickey tenha sido um acidente?
– Pelo contrário, parece-nos a explicação mais plausível. No entanto, temos de explorar todas as opções.
– Tais como?
– Conhece alguém que desejasse fazer mal a Mickey?
Sinto uma veia a palpitar na têmpora. Alguém que desejasse mal a Mickey? Lembro-me pelo menos de uma pessoa, mas essa pessoa não está em condições de correr à noite pelos parques para empurrar Mickey para o rio.
– Não, não me recordo de ninguém. – E depois, numa voz mais firme, acrescento: –
Anderbury é uma cidade pacata. Não consigo imaginar alguém a atacar Mickey.
Ambos concordam com um gesto da cabeça.
– Creio que tem razão. Deve ter sido um acidente triste e infeliz.