O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 29 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

Não era assim que isto devia terminar, arqueja o meu cérebro privado de oxigénio. Não é este o meu grand finale. Isto é um logro, um embuste. Isto é… e de repente oiço uma pancada surda e o aperto diminui. Consigo respirar. Afasto as mãos dele do meu pescoço. Recupero a visão. O

reverendo fita-me de olhos esbugalhados de espanto. Abre a boca.

– Confessa…

A última palavra é babujada, à mistura com um fio de sangue escuro. Os olhos continuam a fitar-me, mas a luz que neles fulgurava extinguiu-se. Agora não passam de globos de cartilagem e fluido; o quer que seja que antes estava por detrás acaba por desaparecer.

Estrebucho para sair debaixo dele. O machado continua enterrado nas suas costas. Levanto os olhos. Nicky está de pé, ao lado do corpo do pai, o rosto e as roupas salpicados de sangue, nas mãos parece calçar luvas vermelhas. Olha para mim como se só naquele momento se desse conta da minha presença.

– Peço perdão, não sabia.

Deixa-se cair ao lado do corpo do pai e as lágrimas correm-lhe pela cara, à mistura com sangue.

– Devia ter chegado mais cedo. Devia ter chegado mais cedo.

6 Ezequiel, 18:20. (N. do T.)

7 Provérbios, 6: 26-27. (N. do T.)

8 Mateus, 5:30. (N. do T.)

9 Mateus, 18:7. (N. do T.)

2016

Subsistem perguntas. Imensas perguntas. Percebo os «comos» e os «quês», mas não tenho respostas para os «porquês». Não tenho todas as respostas. Nem de longe.

Ao que parece, Nicky meteu-se no automóvel depois de ouvir a minha mensagem. Quando não me encontrou em casa, procurou no pub. Cheryl disse-lhe onde tínhamos ido, e as enfermeiras contaram-lhe o resto. Sendo como é, Nicky veio atrás de nós. Fico contente por isso, mais do que contente.

Chloe resolveu fazer uma última visita ao pai. Foi um erro. Tal como foi um erro dizer-lhe que ia acampar no bosque. E o cabelo pintado de louro. Creio que foi o que desencadeou tudo.

A súbita semelhança com Hannah. Um despertar no seu espírito.

Por falar no espírito do bom reverendo, os médicos ainda debatem o assunto. A tomada de consciência, andar (e matar) seria uma aberração temporária do seu estado quase catatónico, ou o contrário? Teria a invalidez sido sempre uma representação? Que desde sempre entendia o que se passava à sua volta?

Agora que está morto nunca viremos a saber. Todavia, tenho a certeza de que alguém há-de fazer nome e ganhar uns cobres a escrever um artigo sobre o caso, talvez mesmo um livro.

Mickey deve estar a dar voltas na campa.

A teoria – sobretudo minha – é que o reverendo matou Elisa a pensar que era Hannah, a meretriz que carregava no ventre um filho seu e, na sua mente perturbada, a ruína da sua reputação Mas por que despedaçou o corpo? Bem, a única explicação é a que me citou no bosque:

– «Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de queda, corta-os e lança-os para longe de ti: é melhor para ti entrares na Vida mutilado ou coxo, do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, seres lançado no fogo eterno.»

Decepar-lhe os membros era uma maneira de garantir que ela entraria no reino dos céus.

Possivelmente depois de ter percebido o erro que cometera. Ou talvez por causa disso mesmo.

Quem poderá saber ao certo? Deus pode ser o juiz do reverendo, mas seria bom vê-lo numa sala de audiências, a encarar a acusação e os rostos severos dos jurados.

A polícia fala em reabrir o caso de Elisa Rendell. Hoje em dia, os processos de análise forense são mais evoluídos, existe o ADN e todas aquelas coisas fantásticas que se vêem na televisão e que podem provar sem margem para dúvidas que o reverendo foi o responsável pelo assassínio.

Quanto a mim, não sustenho a respiração enquanto espero. Depois daquela noite no bosque e da recordação das mãos do reverendo no meu pescoço, duvido que alguma vez volte a fazê-lo.

Hoppo está a recuperar muito bem. Os médicos voltaram a colocar-lhe a orelha, embora não como estava, mas usa o cabelo bastante comprido. Quanto ao braço, estão a fazer o melhor que podem, mas os nervos são uma coisa complicada. Disseram-lhe que poderá, ou não, recuperar parcialmente os movimentos. Ainda é demasiado cedo para dizer. O Gav Gordo tenta consolá-lo dizendo-lhe que agora pode estacionar onde bem lhe apetecer (e que ainda ficou com uma mão boa para se masturbar).

Durante algumas semanas, os jornais fizeram-se notar pela sua presença irritante e indesejada na cidade, e em frente da minha porta. Não quero falar com eles, mas o Gav Gordo dá-lhes uma entrevista na qual refere por diversas vezes o seu pub. Quando lá vou, vejo que o negócio vai de vento em popa. Pelo menos houve uma coisa boa no meio de tudo isto.

A minha vida começa a regressar à rotina, com algumas excepções. Informo a escola de que não voltarei a trabalhar lá depois das férias de Outono e chamo um agente imobiliário.

Um tipo janota, com um corte de cabelo caro e um fato barato aparece lá em casa para ver tudo. Mordo a língua e tento refrear o que sinto quanto à intrusão enquanto ele mete o nariz nos louceiros, bate com os pés nas pranchas do soalho e vai murmurando hmmms e ahhhs enquanto diz que os preços subiram em flecha nos últimos anos e que, apesar de a casa precisar de alguma «remodelação», menciona um valor que me faz erguer as sobrancelhas.

A tabuleta PARA VENDA é colocada alguns dias mais tarde.

No dia seguinte, visto o meu melhor fato escuro, aliso o cabelo e faço o nó de uma sóbria gravata cinzenta com todo o cuidado. Estou quase a sair quando alguém bate à porta.

Resmungo impaciente tinha de ser agora, percorro rapidamente o corredor e escancaro a porta num movimento brusco.

Nicky está na soleira. Olha-me da cabeça aos pés.

– Mas que elegância!

– Muito obrigado. – Olho para o casaco verde-claro que traz vestido. – Calculo que não tenciones lá ir.

– Não. Só cá vim hoje para falar com o advogado.

Apesar de ter salvado três vidas, Nicky pode ser indiciada pela morte do pai.

– Não podes ficar um pouco mais?

– Tenho uma reserva no comboio. Diz aos outros que lamento, mas…

– Tenho a certeza de que vão compreender.

– Obrigada. – Estende-me a mão. – Só me queria despedir de ti, Ed. Olho para a mão dela. Depois, tal como ela fizera há muitos anos, dou um passo em frente e envolvo-a num abraço apertado. O seu corpo inteiriça-se por um instante, mas depois corresponde ao abraço. Inalo o seu perfume. Não é baunilha e pastilha elástica, mas cigarros e almíscar. E não é um gesto de posse, mas de libertação.

 

Por fim, separamo-nos. Vejo-lhe uma coisa brilhante em volta do pescoço.

Franzo a testa.

– Estás a usar o teu colar antigo?

Baixa os olhos para ele.

– Sim. Guardei-o sempre – diz, a segurar entre os dedos o pequeno crucifixo de prata. – É

estranho, não é, guardar uma coisa tão associada a más recordações?

Abano a cabeça.

– Nem por isso. Há coisas de que não nos podemos separar.

Sorri.

– Cuida de ti.

– E tu também.

Fico a vê-la afastar-se e desaparecer na esquina. Posse e libertação. Por vezes são a mesma coisa.

Agarro no sobretudo, verifico se o cantil de bolso lá continua e saio porta fora.

O ar fresco de Outubro fustiga-me e mordisca-me as maçãs do rosto. Entro no automóvel, grato pelo abrigo, e ligo o aquecimento no máximo. Quando chego ao crematório já está morno.

Odeio funerais. Quem não odeia, excepto os cangalheiros? Mas alguns são piores do que outros. Os dos jovens, arrancados súbita e violentamente à vida. Os dos bebés. Ninguém devia ser obrigado a ver um caixão que parece feito para bonecas a descer para o abismo negro.

Outros parecem apenas inevitáveis. No entanto, a morte de Gwen foi um choque. Contudo, tal como com o meu pai, quando já se disse adeus ao espírito, é apenas uma inevitável questão de tempo até o corpo se seguir.

Não há muita gente a assistir. Muitas pessoas conheciam Gwen, mas os seus amigos eram poucos. Estão cá a minha mãe, o Gav Gordo e Cheryl. E alguns daqueles para quem fez limpezas. Lee, o irmão mais velho de Hoppo, não pôde – ou não quis – pedir uma licença.

Hoppo está sentado na primeira fila, envolto num casaco acolchoado demasiado grande para ele, o braço suspenso num apoio de fabrico industrial. Perdeu peso e parece mais velho. O

hospital só lhe deu alta há alguns dias. Continua a lá ir para fazer fisioterapia.

Gav está sentado ao seu lado na sua cadeira de rodas e Cheryl no banco corrido, do outro lado da coxia. Sento-me atrás deles, ao lado da minha mãe. Quando me sento, ela estende a mão para agarrar a minha. Como fazia quando eu era pequeno. Agarro-a e aperto-a com força.

O serviço fúnebre é breve. O que é ao mesmo tempo uma bênção e uma oportuna chamada de atenção para a precariedade da vida neste planeta, onde setenta anos de vida se podem resumir em dez minutos e algumas alusões a Deus, evasivas e desnecessárias. Quando eu morrer, se alguém mencionar Deus espero que arda para sempre no Inferno.

Pelo menos na cremação tudo acaba quando as cortinas se fecham. Não há procissão

Pelo menos na cremação tudo acaba quando as cortinas se fecham. Não há procissão vagarosa até ao cemitério. Não se vê o caixão a descer para a cova hiante. Recordo-me muito bem disso tudo, no funeral de Sean.

Em vez disso, saímos em fila para o exterior e vagueamos sem destino pelo jardim das recordações, a admirar as flores. Gav e Cheryl prepararam um pequeno velório no The Bull, mas não creio que alguém esteja disposto a participar nele.

Converso um pouco com Gav, deixo a minha mãe a trocar algumas palavras com Cheryl e escapo-me furtivamente para fumar um cigarro rápido e beber um trago do cantil que trago no bolso, mas também para me furtar à companhia das pessoas.

Mais alguém teve a mesma ideia.

Hoppo está de pé junto a uma fiada de pequenas pedras tumulares que assinalam o lugar onde foram enterradas ou dispersas as cinzas de alguém. Sempre achei que as pedras tumulares no jardim do crematório se assemelhavam a versões mirradas das verdadeiras: um cemitério-modelo em miniatura.

Quando me aproximo, Hoppo ergue a cabeça.

– Ei?

– Como te sentes, ou é uma pergunta estúpida?

– Estou bem, creio. Embora estivesse à espera disto, nunca se está preparado.

Não. Ninguém está preparado para a morte. Para algo tão definitivo. Como seres humanos, estamos habituados a ter o controlo das nossas vidas. A prolongá-la, até aos limites. Mas a morte não tolera argumentações. Não existe um apelo final. A morte é a morte e tem todas as cartas na mão. Mesmo que a enganemos uma vez, não nos permite um segundo bluff.

– Sabes o que é o pior? – diz Hoppo. – Em parte sinto-me aliviado por ela ter partido. Para não ter de cuidar mais dela.

– Foi o que senti quando o meu pai morreu. Não te sintas mal por isso. Não estás contente por ela ter morrido. Estás contente porque o seu sofrimento acabou.

Tiro o cantil do bolso e estendo-lho. Hesita antes de aceitar e beber um gole.

– E o resto, como vai? O braço? – pergunto.

– Ainda tenho pouca sensibilidade, mas os médicos dizem que vai levar algum tempo.

Pois claro. Estamos sempre a dar-nos tempo. Até que um dia se esgota.

Estende-me o cantil. Ainda que me esteja também a apetecer, faço-lhe sinal para que beba mais um trago. Hoppo bebe outro gole enquanto acendo um cigarro.

– Então e tu? – pergunta. – Estás preparado para te mudares para Manchester?

Tenciono trabalhar algum tempo como professor substituto. E Manchester situa-se a uma distância razoável para me dar uma perspectiva das coisas. De muitas coisas.

– Quase. Embora tenha o pressentimento de que os miúdos me vão comer vivo.

– E a Chloe?

– Não vai comigo.

– Pensei que vocês…

Abano a cabeça.

– Achei que o melhor seria ficarmos amigos.

– É mesmo?

– É mesmo.

Porque, por muito lindo que fosse imaginar que eu e Chloe pudéssemos ter uma relação, a verdade é que ela não me vê assim. Nunca há-de ver. Não sou o seu género, e ela não é a pessoa adequada para mim. Além disso, agora que sei que é a irmã mais nova de Nicky, parece-me impróprio. As duas têm de construir pontes entre si. Não quero ser eu a derrubá-las.

– Seja como for, pode ser que encontre uma nortenha gira.

– Já vi coisas mais estranhas.

– Não é verdade?

Silêncio. Desta vez, quando Hoppo estende o braço para me devolver o cantil, pego nele.

– Espero que tudo tenha terminado – diz ele, e sei que não se refere apenas aos homens de giz.

– Creio que sim.

Embora ainda subsistam lacunas. Pontas soltas.

– Não me pareces convencido.

Encolho os ombros.

– Há coisas que ainda não compreendo.

– Como, por exemplo?

– Nunca te perguntaste quem terá envenenado Murphy? Nunca fez qualquer sentido. Quero dizer, de certeza que foi Mickey quem o soltou da trela. Talvez para te fazer sofrer, como ele estava a sofrer. E o desenho que encontrei, também pode ter sido o Mickey. Mas continuo a não imaginar o Mickey a matar Murphy. E tu? Consegues?

Reflecte um bom bocado antes de falar. Por um momento, pensei que não responderia. Até que ele diz:

– Não foi ele. Não foi ninguém. Intencionalmente.

Olho para ele.

– Não estou a perceber.

O olhar de Hoppo dirige-se para o cantil de bolso. Ofereço-lho outra vez. Emborca o resto do conteúdo.

– Já nesse tempo a minha mãe se baralhava com certas coisas. Colocava-as fora do sítio, nos lugares mais disparatados. Uma vez dei por ela a despejar cereais numa caneca de café e a acrescentar água quente.

Nada a que eu não tivesse assistido.

– Certo dia, talvez um ano ou dois depois da morte de Murphy, cheguei a casa e ela estava a preparar a comida do Buddy. Tinha posto comida numa tigela e estava a acrescentar-lhe

qualquer coisa de uma caixa que tirou do louceiro. Pensei que fosse comida seca. Até que percebi que era veneno para as lesmas. Tinha trocado as caixas.

– Merda!

– Pois é. Cheguei mesmo a tempo de evitar que ela lhe desse a tigela, e creio que até dissemos uma piada acerca disso. Mas fiquei a pensar se ela não teria feito o mesmo com Murphy.

Um caso a considerar. Não foi uma acção deliberada. Apenas um engano terrível.

Nunca presumas, Eddie. Questiona tudo. Procura sempre além do óbvio.

Não consigo evitar uma gargalhada.

– Durante todo este tempo interpretámos tudo mal. Outra vez.

– Desculpa não te ter contado antes.

– Por que razão havias de contar?

– Bem, penso que já tens a tua resposta.

– Uma delas.

– Há mais?

Inalo o fumo do cigarro com mais força.

– A festa. Na noite do acidente. O Mickey sempre afirmou que alguém lhe drogara a bebida.

– O Mickey estava sempre a mentir.

– Mas não acerca disso. Nunca bebia quando ia conduzir. Adorava aquele carro, não se arriscaria a estampar-se com ele.

– E então?

– Estou convencido de que alguém lhe deitou qualquer coisa na bebida. Alguém que desejava que ele sofresse um acidente. Alguém que o odiava mesmo. Mas que não contou com a presença de Gav.

– Tinha de ser um amigo muito mau.

– Não creio que se tratasse de um amigo de Mickey. Nem na altura nem agora.

– O que queres dizer?

– Viste o Mickey quando ele regressou a Anderbury. No primeiro dia. Disseste ao Gav que ele te falou.

– E então?

– Toda a gente presumiu que o Mickey vagueava pelo parque naquela noite porque estava bêbedo e a pensar no irmão morto, mas não me parece. Creio que foi lá de propósito. Para se encontrar com alguém.

– E foi. Um par de rufiões adolescentes.

Sacudo a cabeça.

– Nunca foram formalmente acusados. Não há provas suficientes. Além disso, sempre negaram ter estado perto do parque naquela noite.

Cala-se, a ponderar a questão.

– Talvez tenha acontecido como eu sempre disse, o Mickey estava bêbedo e caiu ao rio?

Confirmo com um movimento da cabeça.

– Não há candeeiros naquele troço do caminho. Foi o que disseste quando te contei que o Mickey tinha caído ao rio e morrido afogado. Certo?