O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 16 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

3 Mateus: 8, 26.

4 Respectivamente: João 8:44; Lucas 8:17, Bíblia dos Capuchinhos.

2016

Sento-me num banco, à entrada da igreja. Como era de calcular, estava vazia. Hoje em dia, as pessoas procuram outros locais de culto. Bares, centros comerciais, a televisão e o mundo virtual on line. Quem precisa da palavra de Deus quando a palavra de uma qualquer estrela de televisão faz o mesmo efeito?

Não tinha voltado a entrar em St. Thomas desde o funeral de Sean Cooper, embora tenha passado muitas vezes à porta. É um edifício velho e de traça antiquada. Não tão grande nem grandioso como a Catedral de Anderbury, mas mesmo assim bonito. Gosto de igrejas antigas, mais para as ver por fora do que para orar lá dentro. Hoje é uma excepção, ainda que não esteja cá para rezar. Nem sei bem o que vim fazer.

Do alto do grande vitral, São Tomás fita-me com olhar benevolente. Santo patrono sabe-se lá de quê. Por qualquer razão, imagino-o um santo simpático. Não um chato, como Maria ou Mateus. Um santo modernaço. Até a barba dele está de novo na moda.

Pergunto-me se os santos terão de viver uma existência impoluta ou se é possível viver como um pecador e basta fazer depois uns milagres para se ser santo. Parece que com a religião é assim. Homicídio, violação, massacre e mutilação, tudo pode ser perdoado desde que a pessoa se arrependa. Nunca me pareceu justo. Mas, tal como a vida, Deus também não é justo.

Além disso, como disse Cristo, quem entre de nós está isento de pecado? A maioria das pessoas fez coisas más a dado momento da sua vida, coisas que gostaria que nunca tivessem acontecido e das quais se arrepende. Todos cometemos erros. Em todos nós coexistem o bem e o mal. Só porque alguém cometeu um acto terrível é justo que isso se sobreponha a todas as coisas boas que fez? Ou haverá coisas tão más que nenhuma boa acção as pode redimir?

Penso no senhor Halloran. Nos seus quadros belíssimos, na maneira como salvou a vida da Rapariga do Carrossel e, de certo modo, como também me salvou a mim e ao meu pai.

Seja o que for que ele tenha feito depois, não acredito que fosse um homem mau. Como Mickey também não era um rapaz mau. Não era mesmo. É verdade que às vezes podia ser um bandalho, e não tenho a certeza de gostar do adulto em que se tornou. Mas seria possível que alguém o odiasse ao ponto de o matar?

Ergo o olhar para São Tomás. Não tem sido um grande auxílio. Não sinto nenhuma inspiração divina. Deixo escapar um suspiro. Talvez esteja a exagerar em tudo isto. A morte de Mickey foi com certeza um acidente trágico e a carta apenas uma coincidência desagradável. Se calhar escrita por um parvalhão mal-intencionado que descobriu as nossas moradas e nos quis

 

fazer uma velhacaria. Pelo menos é disso que me tenho tentado convencer, depois da visita da polícia.

O problema é que conseguiu o que queria. Partiu-se a tampa da caixa. A mesma caixa que tenho conservado hermeticamente fechada a cadeado no mais recôndito da minha mente. E

uma vez aberta a caixa de Eddie, tal como a de Pandora, é um sarilho dos diabos voltar a fechá-la. Pior ainda, o que jaz lá no fundo não é esperança. É culpa.

Há uma canção que Chloe põe muitas vezes a tocar e à qual já me habituei, da autoria de um cantor popular punk: Frank Turner.

O refrão é assim: «Ninguém é lembrado por aquilo que não fez.»

Mas não é verdade. A minha vida tem-se pautado por aquilo que não fiz. Pelas coisas que não disse. Creio que o mesmo acontece a muita gente. Em muitos casos, aquilo que nos define não é o que fazemos, mas sim as nossas omissões. Não estou a falar de mentiras, mas de verdades que não se dizem.

Quando a polícia me mostrou a carta, devia ter-lhes dito alguma coisa. Devia ter-lhes mostrado a carta igual que recebi. Mas não o fiz. Continuo a não saber porquê, da mesma maneira que não posso explicar com sinceridade por que razão durante todos estes anos nunca contei as coisas que sabia ou que fiz.

Nem sei como me sinto em relação à morte de Mickey. De cada vez que o tento imaginar no presente tudo o que vejo é o jovem Mickey de doze anos, com a boca cheia de metal e a maldade no olhar. E, no entanto, continuava a ser um amigo. Só que agora desapareceu.

Deixou de partilhar as minhas recordações, agora está reduzido a uma recordação.

Levanto-me e aceno um adeus a São Tomás. Quando me viro para sair, detecto um movimento. A vigária. Uma mulher loura e gorda que gosta de usar botas de pele de carneiro com a batina. Já a tinha visto na cidade. Para vigária, parece bastante simpática.

Sorri.

– Encontrou o que precisava?

Ao que parece, agora a igreja assemelha-se a um centro comercial. Infelizmente, o meu cesto continua vazio.

– Ainda não – respondo.

Quando volto para casa, o automóvel da minha mãe está estacionado à entrada. Merda. Só agora me lembro da nossa conversa a respeito de Mittens, o Hannibal Lecter do universo felino. Empurro a porta, poiso o sobretudo no corrimão da escada e dirijo-me à cozinha.

A minha mãe está sentada à mesa. Mittens está aos seus pés, numa transportadora. Encostada ao balcão, Chloe prepara um café. Está vestida de uma forma algo discreta para Chloe, com uma camisola larga, leggings e meias às riscas.

Apesar disso, sinto a reprovação da minha mãe a fluir como uma aura. Não gosta da Chloe.

Nunca esperei que gostasse. Também nunca gostou de Nicky. Há raparigas de quem as mães

nunca gostam e, claro está, são aquelas que nos dão a volta ao miolo.

– Ed… finalmente – diz a minha mãe. – Onde tens andado?

– Eu… ehh, saí para dar um passeio.

Chloe vira-se.

– E não pensaste em dizer-me que a tua mãe vinha cá a casa?

Olham-me as duas com ar irritado. Como se o facto de não se suportarem fosse culpa minha.

– Peço desculpa. Perdi a noção do tempo.

Chloe bate com uma caneca na mesa em frente da minha mãe e diz, virada para mim:

– Prepara um café para ti. Eu vou tomar um duche.

Abandona a cozinha e a minha mãe olha para mim.

– Uma rapariga encantadora. Nem sei como ainda não arranjou namorado.

Dirijo-me para a máquina do café.

– É só um pouco irritadiça.

– Ora aí está uma palavra que lhe fica bem.

Sem me dar tempo a responder, acrescenta:

– Estás com muito mau aspecto.

Sento-me.

– Obrigado. Ontem à noite recebi uma má notícia.

– Sim?

Relato-lhe em termos concisos os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas, enquanto ela vai sorvendo pequenos goles de café.

– Que coisa mais triste. E pensar que foi assim que o irmão morreu.

Uma coisa em que já pensei. Imenso.

– Por vezes o destino pode ser cruel – diz ela. – Mas, não sei porquê, não me surpreende.

– Não?

– Mickey sempre foi um rapaz com pouca sorte na vida. Primeiro, o irmão. Depois, aquele horrível acidente com Gavin.

– Por culpa dele – digo em tom indignado. – Era ele que ia a conduzir. E por causa dele o Gav está agora numa cadeira de rodas.

– É uma culpa muito pesada para se viver com ela, um peso que esmaga.

Olho para ela, exasperado. A minha mãe gosta sempre de exprimir um ponto de vista contrário, o que não tem importância quando não me diz respeito nem aos meus amigos.

– Não me pareceu esmagado por nada além da camisa cara e dos dentes postiços novos.

Ignora-me, tal como costumava fazer quando eu era garoto e dizia qualquer coisa que ela achava nem merecer um comentário.

– Ele ia escrever um livro – digo.

A minha mãe pousa a caneca e assume uma expressão séria.

– Sobre aquilo que aconteceu quando vocês eram miúdos?

 

Confirmo com um aceno de cabeça.

– Queria que o ajudasse.

– E o que lhe disseste?

– Disse que ia pensar.

– Estou a ver.

– Ainda há outra coisa, ele disse que sabia quem a matou.

Fitou-me com os seus grandes olhos escuros. Mesmo aos setenta e oito anos, continuam a ser penetrantes e límpidos.

– Acreditaste nele?

– Não tenho a certeza. Talvez.

– Ele disse mais alguma coisa sobre o que aconteceu então?

– Não. Porquê?

– Só por curiosidade.

Mas a minha mãe nunca faz uma pergunta só por curiosidade. A minha mãe nunca faz nada só porque.

– O que é, mãe?

Hesita.

– Mãeee…?

Poisa a mão fria e engelhada sobre a minha.

– Não é nada. Tenho pena do Mickey. Sei que não o vias há muito tempo. Mas vocês foram amigos. Deves estar transtornado.

Estou prestes a insistir com ela quando a porta da cozinha se abre e Chloe volta a entrar.

– Preciso de uma recarga – diz, a erguer a caneca. – Não vim interromper, pois não?

Olho de relance para a minha mãe.

– Não, de maneira nenhuma. Já estava de saída.

Antes de sair, a minha mãe deixa alguns sacos grandes que parecem ser vitais para a continuidade da harmonia e do bem-estar de Mittens.

Baseado em experiências anteriores, julgava que tudo quanto Mittens precisava para dar continuidade à sua harmonia e bem-estar era um fornecimento interminável de passarinhos e de ratos para estripar, em geral na minha cama quando eu acordava de uma ressaca, ou sobre a mesa da cozinha, quando estava a tomar o pequeno-almoço.

Liberto-o da transportadora e fitamo-nos, desconfiados, antes de ele saltar para o colo de Chloe e se espreguiçar com notória satisfação felina.

Odeio a crueldade para com os animais, mas para Mittens era capaz de abrir uma excepção.

Deixo-os sentados no sofá a ronronar de contentamento (não sei se Mittens se Chloe). Subo a escada até ao escritório, abro uma gaveta da secretária e tiro de lá o inofensivo sobrescrito castanho. Enfio-o no bolso e volto a descer a escada.

 

– Vou dar um salto às lojas – grito, e saio apressado de casa antes que Chloe me dê uma lista de compras comparável à Guerra e Paz e suficiente para forrar a papel uma pequena sala.

É dia de mercado. As ruas estão pejadas de automóveis estacionados que não encontraram lugar nos parques da cidade. Em breve chegarão os autocarros e os passeios estreitos ficarão apinhados de turistas a olhar para os mapas do Google e a apontar iPhones a tudo que tenha uma trave ou um telhado de colmo.

Dirijo-me para a pequena loja da esquina, onde compro um maço de cigarros e um isqueiro.

Depois, atravesso o centro da cidade em direcção ao The Bull. Cheryl está a servir, mas, contra o costume, Gav não se encontra no seu poiso habitual, na mesa mais próxima.

Sem me dar tempo a aproximar do balcão, Cheryl levanta os olhos.

– Ele não está, Ed… e já sabe.

Vou encontrá-lo no nosso velho terreiro de brincadeiras, onde passávamos os dias ensolarados e quentes de Verão a chupar caramelos e a comer barras Wham. O mesmo sítio onde tínhamos encontrado os desenhos que nos guiaram até ao corpo dela.

Está sentado na cadeira de rodas, ao lado do velho banco. Daqui consegue entrever-se o reflexo das águas do rio e os restos da fita colocada pela polícia em redor das árvores, no local onde retiraram da água o corpo de Mickey.

A cancela range quando a empurro. Os baloiços retomaram a sua posição habitual, enrolados no alto, em volta da barra. O chão está juncado de lixo, de beatas, algumas mais suspeitas que outras. Já apanhei Danny Meyers e o seu bando a flanarem por aqui ao fim da tarde. Durante o dia, não. Durante o dia não vem aqui ninguém.

Gav não se vira à minha aproximação, embora deva ter ouvido a cancela a ranger. Sento-me no banco, perto dele. No colo tem um saco de papel, que me estende. Lá dentro há um sortido de rebuçados à moda antiga. Embora não me apeteça, agarro num disco voador.

– Custou-me três libras, isto – diz ele. – Numa daquelas lojas elegantes. Lembras-te de quando comprávamos um saco grande por vinte pence?

– Lembro. É por isso que tenho tantos dentes chumbados.

Deixa escapar uma gargalhada forçada.

– A Cheryl disse-me que já sabias do Mickey – começo.

– Pois sei. – Tira do saco um rato branco, que começa a chupar. – E nem vou fingir que tenho pena.

Acredito nele, mas tem os olhos vermelhos e a voz um pouco embargada. Quando éramos miúdos, o Gav Gordo e Mickey eram grandes amigos, até que tudo se começou a desmoronar.

Muito antes do acidente, embora isso tenha sido o último prego ferrugento no caixão podre e rachado.

– A polícia foi falar comigo – continuo. – Fui a última pessoa a ver Mickey naquela noite.

– Não o empurraste, pois não?

Se era uma piada, não me arranca nem um sorriso. Gav olha para mim e franze o sobrolho.

– Foi mesmo um acidente?

– Provavelmente.

– Provavelmente?

– Quando o tiraram do rio encontraram-lhe uma coisa no bolso.

Olho em volta. Não há quase movimento no parque. Apenas um tipo que passeia o cão no caminho que bordeja o rio.

Tiro do bolso a minha carta e estendo-lha.

– Uma coisa destas.

Gav inclina-se para a frente. Espero. Gav sempre teve uma expressão impenetrável, mesmo quando era garoto. Era capaz de dizer uma mentira com uma desfaçatez que se aproximava da de Mickey. Percebo que hesita entre dizer ou não dizer outra.

– Parece-te familiar? – pergunto.

Confirma com a cabeça e acaba por dizer num tom cansado:

– Sim. Recebi uma. E o Hoppo também.

– Hoppo?

Fico a digerir a informação, e de repente sou assaltado por um ressentimento infantil, por não me terem dito nada. Por me terem deixado de fora.

– Por que razão não me disseram nada? – pergunto.

– Pensámos que se tratava de uma piada de mau gosto. E tu?

– O mesmo, creio. – Faço uma curta pausa. – Só que agora o Mickey está morto.

– Um resultado perfeito.

Gav mete a mão no saco dos rebuçados, tira uma garrafa de cola e enfia-a na boca.

Olho para ele durante um momento.

– Qual é a razão para odiares tanto o Mickey?

Deixa escapar uma gargalhada seca.

– Precisas mesmo de perguntar?

– Então é por isso? Por causa do acidente?

– É um motivo de peso, não te parece?

Tem razão. Só que, de repente, tenho a sensação de que guarda qualquer coisa para si. Levo a mão ao bolso e retiro o maço de Marlboro Lights, ainda por abrir. Gav olha para mim.

– Quando voltaste a fumar?

– Não voltei. Ainda.

– Tens um a mais?

– Não podes estar a falar a sério!

Ambos sorrimos. Ou quase.

Abro o maço e tiro dois cigarros.

– Pensei que também tinhas deixado.

– Pois sim. Mas hoje parece-me um dia bom para quebrar promessas.

Estendo-lhe o cigarro. Acendo o meu e passo-lhe o isqueiro. Quando inalo pela primeira vez sinto-me um pouco tonto, agoniado e eufórico.

Gav expele o fumo e diz:

– Porra, estas coisas sabem a merda. – Olha-me de viés. – Mas merda da boa, meu.

Outro sorriso.

– Portanto – digo –, já que estamos em maré de quebrar votos, não me queres contar nada a respeito do Mickey?

Baixa os olhos e o sorriso desaparece.

– Sabes do acidente? – Faz um gesto largo, com o cigarro na mão. – Uma pergunta estúpida.

É claro que sabes.

– Sei o que me contaram. Não estava lá.

Franze a testa, a tentar recordar-se.

– Não, de facto não estavas, pois não?

– Devia estar a estudar.

– Bem, quem ia a conduzir nessa noite era o Mickey. Como sempre, aliás. Lembras-te de como adorava aquele Peugeot pequenino que tinha?

– Andava sempre nele como um louco.

– É isso. Era por isso que nunca bebia. Preferia conduzir. No meu caso, gostava mais de me meter nos copos.

– Éramos adolescentes. É o que se faz nessa idade.

Mas eu, não. Nesse tempo, não. Só que depois, tenho compensado sobremaneira.

– Foi o que fiz nessa festa. Apanhei uma bebedeira de caixão à cova. Perdido de bêbedo.

Quando comecei a vomitar por todos os lados, Tina e Rich quiseram ver-se livres de mim e convenceram o Mickey a levar-me a casa.

– E o Mickey, também tinha bebido?

– Parece que sim. Não me recordo de o ver beber, mas a verdade é que não me lembro de muitas coisas dessa noite.

– Quando lhe mediram o grau alcoólico, ele estava acima do limite?

Gav acena.

– Estava. Mas disse-me que alguém lhe tinha misturado qualquer coisa na bebida.

– Quando te disse isso?

– Depois de sair do coma, foi visitar-me ao hospital. Nem pediu desculpa, começou logo a justificar-se, a dizer que a culpa não fora dele. Alguém lhe tinha misturado álcool na bebida e que se eu não estivesse naquele estado lastimável não se veria obrigado a levar-me a casa.

Muito típico do Mickey. Sempre a atirar as culpas para cima dos outros.

– Agora percebo por que razão continuas a odiá-lo.