O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 19 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 1986

Percebo como Gav se deve sentir. Se não tivesse roubado a bicicleta de Sean Cooper, este ainda poderia estar vivo. Um estúpido acto infantil que resultou numa tragédia terrível. Mas Gav não poderia ter previsto semelhante desenlace. Como eu também não podia. Mesmo assim, sou avassalado por uma sensação estranha, de desconforto. Não de culpa. Uma sensação gémea. De responsabilidade. Por tudo.

Tenho a certeza de que Chloe diria que é por eu ser um homem isolado e obcecado consigo mesmo, que assume a responsabilidade de tudo e acredita que o mundo gira à sua volta. Em certa medida, é verdade. A solidão pode levar à introspecção. Por outro lado, talvez eu não tenha concedido tempo suficiente à introspecção, nem à análise do passado. Volto a embrulhar cuidadosamente o brinco e recoloco-o na caixa.

Talvez seja o momento para uma longa deambulação pelas velhas alamedas da memória. Mas não se trata de um glorioso passeio ao sol, a evocar ternas recordações. É uma vereda escura, ensombrada por nós entrelaçados de mentiras e segredos e semeada de buracos ocultos.

E ao longo do caminho há homens de giz.

1986

– Não se escolhe quem se ama.

Foi o que me disse o senhor Halloran.

Creio que tinha razão. O amor não é uma escolha. É uma compulsão. Agora sei isso. No entanto, por vezes devíamos escolher. Ou pelo menos escolher não nos deixarmos apaixonar. Combatê-lo, afastarmo-nos dele. Se o senhor Halloran escolhesse não se apaixonar pela Rapariga do Carrossel, tudo poderia ter sido diferente.

Isto foi só depois de ele ter abandonado a escola, quando me esgueirei de casa e atravessei a cidade de bicicleta para o visitar na sua pequena vivenda. Um dia frio. O céu de um cinzento-férreo, duro e inflexível como um bloco de betão. Por vezes, despejava aqui e ali uns chuviscos esparsos. Demasiado desesperado para uma chuvada a sério.

O senhor Halloran tinha sido obrigado a pedir a demissão. O caso não foi publicitado. Penso que esperavam que ele se afastasse discretamente. Mas, como é evidente, todos sabíamos que ele se ia embora, e por que razão.

Durante a convalescença da Rapariga do Carrossel, o senhor Halloran fora visitá-la ao hospital. E continuara a visitá-la depois de ela sair. Encontravam-se no parque, ou para beber um café. Imagino que devem ter agido com muita discrição, porque nunca ninguém os viu, ou se alguém viu não se apercebeu. A Rapariga do Carrossel tinha pintado o cabelo de uma tonalidade mais clara, quase loura. Nunca percebi porquê, pois o cabelo dela era muito bonito.

Mas talvez sentisse a necessidade de o mudar, já que também ela tinha mudado. Por vezes usava uma bengala para andar. Outras vezes, coxeava. Presumo que se alguém os tivesse visto pensaria que o senhor Halloran estava apenas a ser simpático. Por essa altura, ainda era considerado um herói.

Mas isso mudou quando as pessoas descobriram que a Rapariga do Carrossel o visitava à noite na vivenda, e que ele se introduzia em segredo em casa dela, na ausência da mãe. Fora por isso que naquela noite, ao regressar a casa, passara pelo adro da igreja.

Foi aí que a merda chegou à ventoinha, pois a Rapariga do Carrossel tinha apenas dezassete anos e o senhor Halloran mais de trinta, e era professor. As pessoas deixaram de o ver como um herói, mas antes como um pervertido e um pedófilo. Os pais indignados foram à escola falar com a directora. E embora ele não tivesse oficialmente, ou legalmente, feito nada de errado, ela não teve remédio senão pedir-lhe que se fosse embora. Estava em causa a reputação da escola e a «segurança» das crianças.

Começaram a circular histórias sobre como o senhor Halloran deixava cair as borrachas durante a aula para poder espreitar para as saias das raparigas ou como se deixava ficar por ali durante o recreio, a olhar para as pernas delas, e como uma vez na cantina tinha tocado no peito de uma das empregadas, quando ela lhe fora limpar a mesa.

Nada daquilo era verdade, mas os boatos são como os germes. Espalham-se e multiplicam-se num abrir e fechar de olhos, e antes que se dê por isso já toda gente está contaminada.

Gostaria de poder dizer que tomei o partido do senhor Halloran e que defendi o seu nome perante os outros miúdos. Mas não é verdade. Tinha doze anos e aquilo era a escola. Ri-me das piadas que contavam sobre ele e não disse uma palavra quando as pessoas lhe chamavam nomes ou espalhavam rumores insidiosos.

Nunca lhes disse que não acreditava em nada do que diziam. Que o senhor Halloran era uma pessoa boa. Porque tinha salvado a vida da Rapariga do Carrossel e também tinha salvado o meu pai. Não lhes pude falar nos belos quadros que ele pintava nem do dia em que me salvou das garras de Sean Cooper, nem como me tinha ensinado a manter-me firme no que era importante. A mostrar verdadeira firmeza.

Creio que foi por isso que naquele dia o fui visitar. Além de ser obrigado a pedir a demissão, fora forçado a abandonar a vivenda. Era alugada pela escola e seria ocupada pelo professor que o viesse substituir.

Quando estacionei a bicicleta cá fora e bati à porta, continuava a sentir-me pouco à vontade e um tanto assustado. O senhor Halloran levou algum tempo a abrir. Hesitava quanto a ir-me embora, pensando que ele não estava em casa, embora o automóvel estivesse estacionado na rua em frente, quando a porta se abriu e o senhor Halloran assomou à entrada.

Não sei como, mas pareceu-me diferente. Sempre fora magro, mas agora tinha um ar esquelético. Se isso fosse possível, diria mesmo que a sua pele estava mais branca. Tinha os cabelos soltos, vestia jeans e uma T-shirt escura que deixava à vista os braços musculosos, onde a única cor era o azul das veias, surpreendentemente vivo sob a pele translúcida. Naquele dia, o seu aspecto era mesmo de uma criatura estranha e não humana, como o Homem de Giz.

– Olá, Eddie.

– Olá, senhor Halloran.

– O que estás aqui a fazer?

Uma boa pergunta, pois agora que ali estava não fazia ideia.

– O teu pai e a tua mãe sabem que estás aqui?

– Bem… não.

Franziu a testa, veio à rua e olhou em redor. Na ocasião, não percebi porquê. Mais tarde acabaria por compreender – com todas as acusações que lhe eram dirigidas, a última coisa que desejava era ser visto a convidar um rapazinho para entrar em sua casa. Julgo que esteve quase a mandar-me embora, mas depois olhou para mim e a sua voz adoçou-se:

– Entra, Eddie. Queres beber alguma coisa? Um sumo, leite?

Na verdade não me apetecia, mas seria mal-educado recusar, de maneira que disse:

– Eh… pode ser leite.

– Está bem.

Segui o senhor Halloran até à cozinha acanhada.

– Senta-te.

Sentei-me numa das cadeiras de pinho desengonçadas. O balcão da cozinha estava atafulhado de caixas e o mesmo acontecia com a sala de estar.

– Vai-se embora? – perguntei.

Uma pergunta estúpida, pois já sabia que sim.

– Vou – respondeu o senhor Halloran, a tirar o leite do frigorífico e a verificar a data de validade antes de procurar um copo dentro das caixas.

– Vou morar com a minha irmã, na Cornualha.

– Oh, pensei que a sua irmã tinha morrido.

– Tenho outra irmã, mais velha. Chama-se Kirsty.

– Oh!

O senhor Halloran estendeu-me o copo de leite.

– Está tudo bem, Eddie?

– Eu… eh… queria agradecer-lhe, pelo que fez pelo meu pai.

– Não fiz nada. Limitei-me a dizer a verdade.

– Pois sim, mas não tinha de o fazer, e se não tivesse…

Deixei no ar o resto da frase. Aquilo era horrível. Mais horrível do que tinha imaginado. Não queria ali estar. Queria ir-me embora e, no entanto, senti que não podia.

O senhor Halloran soltou um suspiro.

– Eddie, nada disto tem a ver com o teu pai ou contigo. De qualquer maneira, tencionava ir-me embora dentro de pouco tempo.

– Por causa da Rapariga do Carrossel?

– Estás a falar da Elisa?

– Sim – assenti.

Bebi um gole de leite. Pareceu-me um pouco passado.

– Pensamos que um novo começo pode ser o melhor para os dois.

– Então ela vai consigo para a Cornualha?

– Espero que sim.

– As pessoas andam a dizer coisas más a seu respeito.

– Eu sei. Não são verdadeiras.

– Eu sei.

Mas deve ter percebido que eu precisava de uma explicação convincente, de maneira que continuou:

– Elisa é uma rapariga muito especial, Eddie. Não quis que nada disto acontecesse. Só queria

 

– Elisa é uma rapariga muito especial, Eddie. Não quis que nada disto acontecesse. Só queria ajudá-la, ser amigo dela.

– Então por que não ficou só amigo dela?

– Quando fores mais velho vais perceber. Não escolhemos as pessoas que amamos, que nos podem fazer felizes.

Mas ele não parecia feliz. Como se espera das pessoas apaixonadas. O seu ar era triste e desorientado.

Pedalei de regresso a casa, um tanto confuso e também desorientado. O Inverno estava a chegar, e às três horas da tarde o dia perdia consistência e dissolvia-se numa poalha crepuscular.

Tudo parecia frio e lúgubre e irremediavelmente diferente. O nosso grupo estava desfeito.

Nicky vivia com a mãe em Bournemouth. Mickey tinha novos amigos, pouco simpáticos.

Continuava a encontrar-me com Hoppo e o Gav Gordo, mas já não era a mesma coisa. Um grupo de três apresentava os seus problemas próprios. Sempre tinha visto Hoppo como o meu melhor amigo e agora, quando ia à procura dele, descobria que ele tinha saído com o Gav Gordo. O que dava origem a um sentimento diferente: despeito.

O meu pai e a minha mãe também estavam diferentes. Depois da agressão ao reverendo Martin, os protestos à porta da clínica da minha mãe tinham cessado.

– Foi como cortar a cabeça do monstro – disse o meu pai.

Mas enquanto a minha mãe andava mais descontraída, o meu pai parecia mais nervoso e irritadiço. Talvez aquela coisa com a polícia o tivesse abalado ou houvesse outra razão.

Esquecia-se das coisas e irritava-se por tudo e por nada. Por vezes ia encontrá-lo sentado numa cadeira, a olhar para o vazio, como se esperasse alguma coisa mas não soubesse o que era.