O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 5 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 1986

– Tenho de mudar o barril – murmura entredentes.

– Está bem.

Fico à espera. A rapariga revira os olhos.

– Eu levo-a à mesa.

– Obrigado.

Viro-me e atravesso o pub. Quando olho para trás, ela ainda não se mexeu.

Sento-me num banco desengonçado, ao lado de Hoppo.

– B’ tarde.

Levantam os olhos e percebo de imediato que algo está mal. Alguma coisa aconteceu. Gav faz girar as rodas e afasta-se da mesa. Os músculos dos braços contrastam com as pernas tolhidas que descansam na cadeira de rodas.

Viro-me no assento.

– Gav? O que…

O punho dele voa de encontro à minha cara e o meu malar esquerdo explode de dor.

Estatelo-me de costas no chão.

Debruçado sobre mim, Gav olha-me.

– Há quanto tempo já sabias?

1 Organização que auxilia os doentes com cancro. (N. do T.)

1986

Apesar de ser o mais matulão e o chefe incontestado do nosso bando, o Gav Gordo era na verdade o mais novo.

O aniversário dele era no princípio de Agosto, no começo das férias escolares. Todos tínhamos inveja disso. Especialmente eu. Era o mais velho. O meu aniversário também calhava nas férias, três dias antes do Natal. O que significava que, em vez de receber presentes duas vezes, recebia quase sempre um «grande» presente, ou dois menos bons.

O Gav Gordo recebia sempre montes de presentes. Não só porque o pai e a mãe tinham bastante dinheiro, mas porque a família dele era enorme. Tios, tias, primos, avôs, avós, e até bisavós.

Também lhe invejava isso. Só tinha a minha mãe, o meu pai e a avó, que não víamos com frequência porque vivia longe e também porque estava a ficar um tanto «trolaró», como o meu pai dizia. Não gostava de a visitar. A saleta dela estava sempre demasiado aquecida e cheirava mal, e ela via sempre o mesmo filme estúpido na televisão.

– A Julie Andrews não era linda? – perguntava num suspiro, de olhos velados, e todos tínhamos de concordar e dizer «sim» enquanto comíamos biscoitos moles da velha lata de bolachas ferrugenta com figuras de renas a dançar a toda a volta.

A mãe e o pai do Gav Gordo faziam-lhe uma grande festa todos os anos. Naquele ano era um churrasco. Haviam contratado um mágico, e depois ia-se para a discoteca.

A minha mãe revirara os olhos ao ver o convite. Não gostava da mãe nem do pai do Gav Gordo. Uma vez, tinha-a ouvido dizer ao meu pai que eram «contagiosos». Quando cresci, percebi que o que ela de facto dissera era «ostentosos», mas durante anos julguei que ela queria dizer que sofriam de uma doença qualquer.

– Uma discoteca, Geoff? – disse para o meu pai num tom de voz estranho, que não percebi se era bom ou mau. – O que te parece?

O meu pai largou a loiça que estava a lavar e olhou para o convite.

– Parece-me divertido – foi o seu comentário.

– O papá não pode ir – disse eu. – É uma festa para miúdos. Não foi convidado.

– De facto, fomos – disse a minha mãe, e apontou para o convite. «As mães e os pais são bem-vindos. Tragam um enchido.»

Olhei para o convite e franzi a testa. Pais e mães numa festa de miúdos? Não me pareceu boa ideia. Não era com certeza uma boa ideia.

 

– Então o que vais dar ao Gav Gordo no aniversário? – perguntou Hoppo.

Estávamos no parque, sentados na armação de trepar, a balançar as pernas e a comer chupa-chupas de cola gelados. Murphy, o velho labrador preto de Hoppo, dormitava lá em baixo, à sombra.

Isto foi por fins de Julho, quase dois meses depois daquele terrível dia na feira, e uma semana antes do aniversário do Gav Gordo. A vida começava a retomar a normalidade, o que me agradava. Era um garoto que não apreciava a excitação nem o drama inesperado. Era – e continuo a ser – alguém que gosta da rotina. Mesmo aos doze anos, a minha gaveta das meias estava sempre cuidadosamente arrumada, e tanto os meus livros como as minhas cassetes estavam guardados por ordem alfabética.

Talvez por tudo o resto na nossa casa ser mais ou menos caótico. Para já, a construção nem estava acabada. Mais uma coisa que distinguia a minha mãe e o meu pai dos outros pais que conhecia. Com excepção de Hoppo, que vivia com a mãe numa velha casa em banda, a maioria dos miúdos lá da escola vivia em casas modernas com jardins quadrados que pareciam todos iguais.

Nós habitávamos aquela velha e feia casa vitoriana que parecia constantemente rodeada de andaimes. Lá atrás, havia um grande espaço onde as plantas cresciam livres ao ponto de nunca ter conseguido chegar ao extremo do terreno. No piso de cima, havia pelo menos dois quartos onde se conseguia ver o céu através do tecto.

A mamã e o papá tinham-na comprado para «restaurar» quando eu era muito pequeno. Já lá vão oito anos, e tanto quanto me era dado ver, precisava ainda de muitos restauros. As divisões principais estavam em condições aceitáveis. Mas no corredor e na cozinha as paredes tinham o reboco à mostra e não havia nem uma carpete.

Lá em cima, a casa de banho era a antiga. Uma banheira pré-histórica, de esmalte, com a sua aranha residente, um lavatório que vertia e uma sanita antiga com um autoclismo que se descarregava puxando uma corrente comprida. E nada de chuveiro.

Com os meus doze anos, achava aquilo horrivelmente embaraçoso. Nem tínhamos um irradiador eléctrico. O meu pai tinha de cortar troncos e trazê-los para casa, para acender a lareira. Como se vivêssemos na Idade Média.

– Quando acabam de construir a casa? – perguntava eu às vezes.

– Bem, as obras exigem tempo e dinheiro – respondia o meu pai.

– E nós não temos dinheiro? A mamã é médica. O Gav Gordo diz que os médicos ganham montes de dinheiro.

O papá suspirava.

– Já falámos sobre isso, Eddie. O Gor… o Gavin não sabe tudo sobre tudo. E tens de te lembrar de que o meu trabalho não é tão bem pago como o de alguns, nem com regularidade.

Por mais de uma vez estive tentado a perguntar «Então por que não arranja um trabalho Por mais de uma vez estive tentado a perguntar «Então por que não arranja um trabalho como deve ser?», mas isso só serviria para o deixar maldisposto, e eu não gostava de fazer isso.

Sabia que o meu pai se sentia muitas vezes culpado por não ganhar tanto como a mamã.

Entre os artigos que escrevia para as revistas, andava a tentar escrever um livro.

– Quando for um autor de êxito, tudo será diferente – dizia muitas vezes, com uma gargalhada e uma piscadela de olho.

Fingia brincar com o assunto, mas creio que, lá no fundo, esperava que de facto acontecesse.

Mas nunca aconteceu. Sei que enviou manuscritos para diversos agentes e que durante algum tempo despertou um certo interesse. No entanto, não sei porquê, não deu em nada. Se entretanto não começasse a ficar doente talvez tivesse conseguido. Mas a doença corroeu-lhe a mente, e a primeira coisa que lhe engoliu foi o que ele mais adorava. As palavras.

Suguei o chupa-chupa com mais força.

– Não pensei em nenhum presente – repliquei, em resposta à pergunta de Hoppo.

Mentira. Tinha pensado nisso, e muito. Era esse o problema com o Gav Gordo. Tinha quase tudo, pelo que comprar-lhe um presente de que gostasse era mesmo difícil.

– Então e tu? – perguntei.

Encolheu os ombros.

– Ainda não sei.

Fiz a agulha para outro lado.

– A tua mãe vai à festa?

Fez uma careta.

– Não sei. É capaz de estar a trabalhar.

A mãe de Hoppo fazia limpezas. Víamo-la muitas vezes pelas ruas da cidade, no seu velho e ferrugento Reliant Robin, com o porta-bagagens cheio de baldes e esfregonas.

Nas costas de Hoppo, o Metal Mickey chamava-lhe a Cigana. Era uma alcunha cruel, mas a verdade é que se parecia um pouco com uma cigana, com os cabelos grisalhos desgrenhados e os vestidos escorridos.

Não sei quem era o pai de Hoppo. Na verdade, Hoppo nunca falava nele, mas fiquei com a impressão de que o abandonara quando era pequeno. Hoppo tinha um irmão mais velho, que se alistara no Exército, ou qualquer coisa parecida. Em retrospectiva, creio que o motivo de o nosso bando se ter mantido coeso foi o facto de nenhuma das nossas famílias ser «normal».

– O teu pai e a tua mãe vão? – quis saber Hoppo.

– Penso que sim. Só espero que não seja uma chatice.

Encolheu os ombros.

– Vai correr bem. E vai haver um mágico.

– Pois é.

Sorrimos, e Hoppo disse:

– Se quisesses, podíamos dar uma volta pelas lojas, para ver se encontrávamos alguma coisa

– Se quisesses, podíamos dar uma volta pelas lojas, para ver se encontrávamos alguma coisa para o Gav Gordo.

Hesitei. Gostava da companhia de Hoppo. Não era preciso armar-me em esperto a toda a hora. Nem estar alerta. Era muito fácil.

Hoppo não era particularmente inteligente, mas era um miúdo que sabia estar. Não procurava ser estimado por todos, como o Gav Gordo, nem mudar de atitude de acordo com as conveniências, como o Metal Mickey, e eu respeitava-o por essa atitude.

Foi por isso que me senti um bocado mal ao dizer:

– Desculpa, não posso. Tenho de voltar para ajudar o meu pai a fazer umas coisas lá em casa.

Era a minha desculpa para me esquivar. Ninguém duvidava de que na nossa casa houvesse sempre muitas coisas para arranjar.

Hoppo concordou com um gesto da cabeça, acabou o chupa-chupa, amarrotou o papel e atirou-o para o chão.

– Está bem. Vou dar uma volta com o Murphy.

– Pronto. Até logo.

– Até logo.

Afastou-se devagar, a franja a dançar-lhe na testa, com Murphy a trotar a seu lado. Meti o papel do meu chupa-chupa na lata do lixo e segui na direcção contrária, a caminho de casa.

Assim que tive a certeza de estar longe da vista, dei uma volta em U e regressei à cidade.

Não gostava de mentir a Hoppo, mas há coisas que não se podem partilhar com ninguém, nem com os melhores amigos. Os garotos também têm segredos. Por vezes mais do que os adultos.

De todos os membros da quadrilha, sabia que era o único carola, estudioso e um tanto convencional. O género de miúdo que gosta de coleccionar coisas – selos, moedas, miniaturas de automóveis. E também outras coisas: conchas, esqueletos de pássaros apanhados no bosque, chaves. É espantoso o número de vezes que se encontra uma chave perdida. Gostava da ideia de me poder esgueirar para dentro da casa das pessoas, embora não soubesse quem eram os donos das chaves, nem onde viviam.

Era muito cioso das minhas colecções. Escondia-as bem, em segurança. Julgo que, de certo modo, isso me dava uma sensação de controlo. Os garotos não têm grande controlo sobre as suas vidas, mas só eu sabia o que se encontrava dentro das minhas caixas, só eu podia tirar ou pôr lá alguma coisa.

Desde a feira, coleccionava cada vez mais. Objectos que encontrava, coisas que as pessoas deixavam para trás (começava a notar como as pessoas eram desleixadas, como se não soubessem a importância de nos agarrarmos às coisas, para que não desapareçam para sempre).

Por vezes – quando via qualquer objecto que tinha absolutamente de possuir – apoderava-me de coisas pelas quais devia ter pago.

 

Anderbury não era uma grande cidade, mas no Verão era um local buliçoso, com autocarros repletos de turistas, na maioria americanos. Deambulavam pelas ruas, a entupir os passeios estreitos com as suas camisas floridas e calções largos, a ver mapas e a apontar edifícios.

Além da catedral, havia uma grande loja Debenhams na praça do mercado, uma imensidade de casas de chá e um hotel de luxo. Na rua principal, as lojas eram em geral pouco interessantes, como um supermercado, uma farmácia e uma livraria. Contudo, havia também um enorme Woolworths.

Quando éramos miúdos, o Woolworths – ou Woolies, como toda a gente lhe chamava – era a nossa loja preferida. Tinha tudo quanto se podia imaginar. Corredores atrás de corredores repletos de brinquedos, desde os mais caros até aos montes de porcarias de plástico, das quais se podia comprar uma tonelada e ainda ficar com uns trocos para os rebuçados.

O Woolworths tinha um segurança bastante maldoso chamado Jimbo, do qual todos tínhamos pavor. Jimbo era um skinhead e eu tinha ouvido dizer que sob o uniforme escondia um sem-número de tatuagens, incluindo uma enorme suástica nas costas.

Jimbo era um incompetente no serviço. Passava a maior parte do tempo a flanar cá fora, a fumar e a lançar olhares às raparigas. O que quer dizer que quem fosse esperto e rápido iludiria com facilidade a atenção de Jimbo, bastando esperar que ele estivesse distraído.

Era o meu dia de sorte. Um grupo de miúdas adolescentes pavoneava-se à volta da cabina telefónica que havia na rua, um pouco mais abaixo. Fazia calor, e as raparigas vestiam calções ou minissaia. Jimbo estava encostado à esquina da loja, a balançar um cigarro entre os dedos e com a língua a roçar o chão, embora as miúdas não fossem senão um ou dois anos mais velhas do que eu, enquanto ele devia andar pelos trinta, ou coisa parecida.

Atravessei a rua a correr e dirigi-me à entrada. A porta abriu-se à minha frente. Corredores cheios de doces e o balcão dos rebuçados à minha esquerda. Do lado direito, cassetes e discos.

Mesmo em frente, as prateleiras dos brinquedos. Sentia-me vibrar de excitação. Mas não me podia manifestar nem deixar-me ficar por ali, não fosse algum dos membros do pessoal reparar.

Encaminhei-me resoluto para os brinquedos, a examinar as prateleiras e a avaliar as opções.

Demasiado caro. Excessivamente grande. Demasiado barato. Pouco interessante. Foi então que a vi. A bola Magic 8. Steven Gemmel tinha uma. Um dia tinha-a levado para a escola, e recordo-me de pensar que era bestial. E tinha a certeza de que o Gav Gordo não tinha uma.

Bastava isso para a tornar especial. Além de ser a única que restava no escaparate.

Agarrei nela e relanceei o olhar em redor. Depois, num gesto rápido, meti-a dentro da mochila. Saltitei em direcção aos doces. O próximo passo exigia coragem. Sentia o peso do saque a bater-me contra as costas. Agarrei num saco e forcei-me a escolher os rebuçados sortidos com calma. Optei por uma selecção de garrafas de cola, ratos brancos e discos

 

voadores. Depois, dirigi-me à caixa. A empregada gorda de permanente encaracolada pesou os doces e sorriu-me.

– Quarenta e três pence, meu querido.

– Muito obrigado.

Contei os trocos que trazia no bolso e estendi-lhe o dinheiro. A mulher começou a meter o dinheiro na caixa, mas a dado momento franziu a testa.

– Falta um penny, meu querido.

– Oh!

Merda. Voltei a procurar nos bolsos. Não tinha mais dinheiro.

– Bem… é melhor não levar todos – disse, a sentir a cara em fogo.

O suor escorria-me pelas mãos e a mochila parecia cada vez mais pesada.

A Dama da Permanente fitou-me, inclinou-se para a frente e piscou-me o olho. As pálpebras dela eram engelhadas, como papel amarrotado.

– Não te preocupes, meu querido. Finjo que contei mal.

Agarrei no saco dos rebuçados.

– Muito obrigado.

– Vá, vá, desaparece daqui.

Não precisei que me dissesse duas vezes. Corri para a luz do Sol, passei por Jimbo, que estava a acabar o cigarro e mal me viu. Caminhei em passo rápido pela rua, depressa, cada vez mais depressa, tomado de alegria e excitação pelo feito cometido, até que comecei a correr quase até chegar a casa, com um sorriso imbecil estampado no rosto.

Tinha conseguido, e não era a primeira vez. Gosto de pensar que não era um garoto mau sob qualquer outro aspecto. Tentava ser amável, não denunciava os meus amigos nem falava mal deles nas suas costas. Até fazia o possível por dar ouvidos à minha mãe e ao meu pai. Para minha defesa, argumentava que nunca tinha tirado dinheiro. Se encontrasse uma carteira caída no chão, devolvê-la-ia com todo o dinheiro que lá estivesse (mas talvez sem uma foto de família).

Sabia que tinha procedido mal mas, como já disse, toda a gente tem os seus segredos, coisas que sabem que não devem fazer e mesmo assim fazem. O meu era tirar coisas… juntar coisas.

O pior é que foi da única vez que tentei devolver uma coisa que estraguei tudo.

No dia da festa fazia muito calor. Parecia que naquele Verão todos os dias eram muito quentes. Tenho a certeza de que não foram. Um bom meteorologista – um a sério, não como o meu pai – diria que também houve imensa chuva e dias tristes, de céu encoberto. Mas a memória é uma coisa estranha, e o tempo passa de maneira diferente quando se é garoto. Três dias quentes seguidos são como um mês de sol para um adulto.

O dia da festa do Gav Gordo foi mesmo quente. A roupa colada à pele, os assentos dos automóveis a queimar as pernas, o alcatrão a derreter na estrada.

– Com este calor nem é preciso um grelhador para a carne – gracejou o meu pai quando saímos de casa.

– Até me admiro que não nos aconselhes a levar as gabardinas – observou a minha mãe enquanto dava as voltas à chave e dava dois ou três empurrões na porta para se certificar de que estava bem fechada.

Estava muito bonita nesse dia. Trazia um vestido azul, de Verão, e calçava sandálias romanas.

O azul ficava-lhe bem e tinha prendido a franja com um gancho reluzente, para não lhe cair para a cara.

Quanto ao meu pai, bem, era o meu pai, com os seus calções de ganga, uma T-shirt com as palavras Grateful Dead e sandálias de couro. Pelo menos a mãe aparara-lhe a barba.

A casa do Gav Gordo era uma das mais recentes de Anderbury. Só se tinham mudado para lá no ano anterior. Antes disso, viviam por cima do pub. Embora a casa fosse nova, o pai de Gav alargara-a, de modo que apresentava inúmeros pormenores que não se coadunavam com a construção original, para não falar dos dois grandes pilares diante da porta da frente, como nas casas da Grécia Antiga.

Naquele dia tinham pendurado uma infinidade de balões com o número 12 agarrado e por cima da porta estava uma enorme faixa reluzente onde se lia «Feliz Aniversário, Gavin».

Antes de a minha mãe ter tempo para fazer um comentário depreciativo, fungar ou premir a campainha, a porta abriu-se e lá estava o Gav Gordo, resplandecente nos seus calções havaianos, na T-shirt verde-néon e num chapéu de pirata.

– Olá, senhor e senhora Adams. Olá, Eddie.

– Feliz aniversário, Gavin – gritámos em coro.

Tive de me reprimir para não dizer Gav Gordo.

– O churrasco é lá atrás – informou o Gav Gordo, a dirigir-se aos meus pais. E agarrou-me no braço. – Anda ver o mágico. É impressionante.

O Gav Gordo tinha razão. Era mesmo impressionante. O churrasco também estava bom.

Havia também inúmeros jogos e dois grandes baldes cheios de água e de pistolas de água.

Depois de o Gav Gordo ter aberto os presentes (e dizer que a bola Magic 8 era «bestial»), travámos uma intensa luta de água com os outros miúdos da escola. Estava tanto calor que mal nos molhávamos ficávamos logo secos.

A dado momento, tive vontade de ir à casa de banho. Ainda a pingar, atravessei o jardim, a esgueirar-me por entre os adultos, de pé em pequenos grupos, de prato na mão e a beber cerveja pela garrafa ou vinho por copos de plástico.

Para surpresa geral, o pai de Nicky viera. Não pensei que os vigários frequentassem festas nem que se divertissem. Trazia o colarinho branco. Era possível identificá-lo a uma milha de distância, com o cabeção a cintilar ao sol. Lembro-me de ter pensado que devia ter um calor horrendo. Talvez fosse por isso que bebia tanto vinho.

Conversava com o meu pai e com a minha mãe, o que também me surpreendeu, pois não

Conversava com o meu pai e com a minha mãe, o que também me surpreendeu, pois não frequentavam a igreja. A minha mãe viu-me e sorriu.

– Tudo bem, Eddie?

– Sim, mamã. Muito bem.

Assentiu com um movimento da cabeça, mas não me pareceu muito contente. Quando passei por eles, ouvi o meu pai dizer:

– Não sei se é assunto para discutir numa festa de crianças.

A resposta do reverendo Martin chegou-me aos ouvidos um tanto abafada:

– Mas é da vida das crianças que estamos a falar.

Para mim, aquilo não fazia qualquer sentido; coisas de adultos. Além disso, já outra coisa me despertava a atenção. Outra figura familiar. Alto e magro, vestido de preto apesar do calor sufocante e com um grande chapéu de abas moles. O senhor Halloran. Especado num dos extremos do jardim, perto da estátua de um rapazinho que urinava para um bebedouro de pássaros, a conversar com outras mamãs e papás.

Achei estranho que os pais do Gav Gordo tivessem convidado um professor para a festa, em especial um que ainda nem tinha começado a dar aulas, mas talvez fosse para que ele se sentisse bem-vindo. Eles eram assim. Além disso, o Gav Gordo tinha-me dito uma vez:

– A minha mãe trata de conhecer toda a gente. Assim, fica também a saber a vida de todos.

Num movimento esquisito de quem sente que está a ser observado, o senhor Halloran olhou em volta, viu-me e ergueu a mão. Respondi-lhe levantando um pouco a minha. Um tanto atrapalhado. Podíamos ter salvado juntos a vida da Rapariga do Carrossel, mas ele não deixava de ser um professor, e não era fixe ser visto a cumprimentar um professor.

Como se soubesse o que me ia na cabeça, o senhor Halloran saudou-me com um aceno rápido da cabeça e tornou a virar-se. Agradecido – e não só por causa da minha bexiga inchada –, corri através do pátio e das portas envidraçadas.

Na sala de estar estava frio e escuro. Deixei que os meus olhos se adaptassem. Os presentes estavam espalhados por todo o lado. Dezenas e dezenas de brinquedos. Brinquedos que constavam da minha lista de desejos para o meu aniversário, mas que sabia que nunca viria a possuir. Olhei em redor, roído pela inveja… e foi então que a vi. Uma caixa de tamanho médio, mesmo no centro da sala, embrulhada em papel com imagens de Transformers. Ainda por abrir. Alguém devia ter chegado tarde e deixara-a ali. De outro modo, nunca o Gav Gordo deixaria um presente por abrir.

Fiz o que tinha a fazer na casa de banho e voltei a olhar para o presente quando atravessei a saleta para sair. Após um momento de hesitação, peguei nele e levei-o comigo para fora.

Cá fora, havia vários grupos de miúdos espalhados. O Gav Gordo, Nicky, Metal Mickey e Hoppo estavam sentados em semicírculo sobre a relva, suados, vermelhos, felizes e a beber refrigerantes. O cabelo de Nicky ainda estava húmido e emaranhado. As gotas de água cintilavam nos seus braços. Naquele dia usava um vestido. Ficava-lhe bem. Era comprido, com

flores estampadas. Tapava-lhe algumas das nódoas negras nas pernas. Nicky tinha sempre nódoas negras. Não me recordo de alguma vez a ter visto sem marcas castanhas ou de cor púrpura em qualquer lado. Certo dia até apareceu com um olho negro.

– Ei, Munster! – disse o Gav Gordo.

– Ei, o que foi?

– Quando deixas de ser um mariquinhas?

– Ah, ah! Encontrei um presente que ainda não abriste.

– Nem penses. Abri todos.

Mostrei-lhe a caixa.

O Gav Gordo agarrou-a.

– Extraordinário!

– De quem é? – perguntou Nicky.

O Gav Gordo abanou a caixa e examinou o papel de embrulho. Nenhuma indicação.

– Que importância tem isso? – Começou a rasgar o papel e a sua expressão alterou-se. – Que raio é isto?

Olhámos todos para o presente. Um grande balde repleto de pedaços de giz das mais variadas cores.

– Giz? – riu Metal Mickey à socapa. – Quem te ofereceu paus de giz?

– Não sei. Não tem remetente, génio – replicou o Gav Gordo.

Levantou a tampa do balde e retirou dois pedaços de giz.

– Que raio vou eu fazer com esta merda?

– Não é assim tão mau… – começou Hoppo a dizer.

– Isto é um monte de merda, meu.

Achei que ele estava a ser demasiado severo. Afinal de contas, alguém se dera ao trabalho de comprar o presente e de o embrulhar. Mas o Gav Gordo estava hiperactivo, empanturrado em sol e açúcar. Estávamos todos.

Atirou os paus de giz para o chão, com um gesto enjoado.

– Esquece. Vamos brincar com as pistolas de água.

Começámos todos a levantar-nos. Deixei os outros seguir à frente, agachei-me, apanhei um pedaço de giz e meti-o no bolso.

Mal me acabava de levantar quando ouvi um baque e um grito. Rodei nos calcanhares. Não sei o que esperava ver. Talvez alguém tivesse caído ou deixado cair qualquer coisa.

Precisei de algum tempo para interiorizar o que vi. O reverendo Martin estava de costas no chão entre um montão de copos, pratos, boiões de molho partidos e condimentos espalhados.

Agarrado ao nariz, emitia estranhos murmúrios. Debruçado sobre ele e com um punho erguido, um vulto desgrenhado em calções e de T-shirt rasgada. O meu pai.

Grande merda! O meu pai tinha estendido o reverendo Martin com um soco.

Imobilizei-me, paralisado pelo choque, enquanto ele dizia numa voz rouca e gutural:

– Se volta a dirigir a palavra à minha mulher, juro que…

Mas o que ele jurou perdeu-se quando o pai do Gav Gordo o levou dali. Alguém ajudou o reverendo Martin a levantar-se. Estava muito vermelho e o sangue pingava-lhe do nariz. O

colarinho branco estava manchado de sangue.

Apontou para a minha mãe e para o meu pai.

– Deus será o vosso juiz.

O meu pai fez menção de avançar para ele, mas o pai do Gav Gordo agarrou-o com firmeza.

– Acaba com isso, Geoff.

Apercebi-me de uma fugaz mancha amarela e dei-me conta de que Nicky passara por mim a correr em direcção ao reverendo Martin, que agarrou por um braço.

– Anda, papá. Vamos para casa.

O reverendo afastou-a com um gesto brusco que quase a fez perder o equilíbrio. Tirou do bolso um lenço que levou ao nariz e disse para a mãe do Gav Gordo:

– Muito obrigado por me ter convidado – e dirigiu-se, muito direito, para o interior da casa.

Nicky olhou para trás, para o jardim. Gosto de pensar que os seus olhos verdes se cruzaram com os meus, que se estabeleceu entre nós uma corrente de compreensão, mas na verdade julgo que só estava a ver quem tinha assistido à cena – toda a gente, pois claro – antes de dar meia volta e seguir atrás dele.

Por um momento, tudo pareceu parar. Movimentos, conversas. Depois, o pai do Gav Gordo bateu as palmas e declarou numa voz tonitruante:

– Então, quem quer mais uma das minhas salsichas gigantes?

Julgo que mais ninguém queria, mas sorriram e acenaram que sim, e a mãe do Gav Gordo levantou o som da música, só um bocadinho.

Alguém me bateu nas costas. Dei um salto. Era o Metal Mickey.

– Uau! Nem acredito que o teu pai acabou de esmurrar um vigário. Nem eu queria acreditar. Senti que o sangue me subia à cara. Olhei para o Gav Gordo.

– Peço muita desculpa.

Ele arreganhou os dentes num sorriso.

– Não podes estar a falar a sério. Aquilo foi bestial. É a melhor festa de anos de sempre!

– Eddie – disse a minha mãe, a aproximar-se. Dirigiu-me um sorriso estranho e tenso. – Eu e o teu pai vamos agora para casa. Mas tu podes ficar, se quiseres.

Eu queria, mas não me agradava a ideia de os outros miúdos a olharem para mim, como se fosse um anormal, e o Metal Mickey a largar piadas, de maneira que disse, taciturno:

– Não, não faz mal. – Embora fizesse. – Eu também vou.

– Está bem – disse ela, com um aceno de cabeça.

Até esse dia, nunca tinha ouvido os meus pais pedirem desculpa. Quando se é miúdo, cabe-nos a nós pedir desculpa. Mas nessa tarde ambos pediram muitas vezes desculpa ao pai e à mãe do Gav Gordo. Os pais do Gav Gordo foram muito simpáticos, disseram-lhes para não se

ralarem, mas tenho a certeza de que ficaram muito chateados. Mesmo assim, a mãe do Gav Gordo deu-me um saco com bolo, algumas Hubba Bubba e outros doces.

Assim que a porta da frente se fechou sobre nós virei-me para o meu pai.

– O que aconteceu, papá? Por que razão lhe bateste? O que disse ele à mamã?

O meu pai passou-me o braço pelos ombros.