O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 13 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 1986

Vira-se para mim.

– Não, não há nada.

– Pode telefonar à Georgia?

Duds hesita. Tenho a impressão de que conseguir que ele faça alguma coisa que esteja ainda que ligeiramente fora das suas atribuições requer um esforço colossal. Para ser sincero, até respirar parece ser um esforço colossal para Duds.

– Por favor?

Suspira fundo.

– Está bem.

Pega no telefone.

– Alô. Georgia?

Espero.

– Ontem à noite apareceu um tipo qualquer chamado Mickey Cooper a dizer que tinha perdido o cartão-chave? Tiveste de o substituir? Está bem. Obrigado.

Poisa o telefone e volta para a secretária.

– Então?

– Não. O seu amigo não voltou na noite passada.

2 Personagem principal de um livro da autoria de James Hilton. (N. do T.)

 

1986

Sempre tinha imaginado os enterros em dias cinzentos e chuvosos, com pessoas vestidas de preto, abrigadas sob os chapéus-de-chuva.

O Sol brilhava na manhã em que Sean Cooper foi a enterrar – pelo menos ao princípio. E

ninguém vestia de preto. A família tinha pedido que as pessoas se vestissem de azul ou de encarnado. As cores preferidas de Sean. As cores da equipa de futebol da escola. Alguns miúdos compareceram com o equipamento.

A minha mãe escolheu-me uma camisa azul-clara, com uma gravata encarnada e calças escuras.

– Tens de ir bem vestido, Eddie. Para apresentares os teus pêsames.

Não me apetecia apresentar os pêsames por Sean Cooper. Nem me apetecia ir ao funeral.

Nunca tinha ido a nenhum. Pelo menos que me lembrasse. Ao que parece, a minha mãe e o meu pai tinham-me levado ao funeral do avô, mas nessa altura ainda era bebé e além disso o avô era velho. Dos velhos, espera-se que morram. Até cheiram como se já estivessem mais ou menos mortos. A mijo e a mofo.

A morte acontecia às outras pessoas, não a miúdos como nós, não às pessoas que conhecíamos. A morte era remota e abstracta. O enterro de Sean Cooper deve ter sido a primeira ocasião em que percebi que a morte não passa de um sopro frio e distante. O melhor truque dela é fazer-nos pensar que não está lá. E a morte guarda uma imensidade de truques dentro da sua manga escura e gélida.

A igreja ficava apenas a dez minutos da nossa casa. Bem gostaria que fosse mais longe.

Arrastei os pés, puxei pelo colarinho da camisa. A minha mãe vestia o mesmo vestido azul que tinha usado na festa do Gav Gordo, mas com um casaco encarnado por cima. O meu pai fez uma cedência e desta vez vestiu calças compridas, o que muito lhe agradeci, e uma camisa com flores vermelhas estampadas (que não agradeci).

Chegámos à entrada do adro da igreja ao mesmo tempo que Hoppo e a mãe. Não vemos muitas vezes a mãe de Hoppo, a menos que seja cá fora, de carro, nas suas deslocações para as limpezas. Hoje traz os cabelos, habitualmente desgrenhados, apanhados num carrapito, um vestido azul sem formas e nos pés umas sandálias velhas e gastas. Parece horrível dizer isto mas, com aquele aspecto, fiquei contente por ela não ser a minha mãe.

Hoppo trazia uma T-shirt encarnada, as calças azuis da escola, e calçava sapatos pretos. O

Hoppo trazia uma T-shirt encarnada, as calças azuis da escola, e calçava sapatos pretos. O

cabelo escuro e espesso tinha sido penteado para o lado. Nem parecia o mesmo Hoppo. E não era só por causa do cabelo e das roupas elegantes. Estava tenso, inquieto. Murphy vinha com ele, preso por uma trela.

– Bom dia, David. Bom dia, Gwen – cumprimentou a minha mãe.

Não fazia ideia de que a mãe de Hoppo se chamava Gwen. A minha mãe era boa com nomes.

O meu pai, nem tanto. Antes de ter piorado por causa da Alzheimer, costumava dizer em tom de troça que esquecer os nomes das pessoas não era nada de novo, isto mesmo antes de a sua memória apresentar grandes lacunas.

– Bom dia, senhor e senhora Adams – cumprimentou Hoppo.

– Olá – disse a mãe dele numa voz tímida.

Parecia sempre estar a pedir desculpa por qualquer coisa.

– Como está? – perguntou a minha mãe, naquele tom polido que usava quando não estava de facto interessada em saber.

A mãe de Hoppo não percebeu.

– Não muito bem. Quero dizer, isto é tudo tão horrível, e Murphy esteve toda a noite doente.

– Coitado – disse o meu pai em tom sincero.

Baixei-me para acariciar Murphy. Agitou a cauda e voltou a deitar-se. Parecia tão contrariado por ali estar como nós.

– Foi por isso que o trouxe? – perguntou o meu pai.

Hoppo assentiu.

– Não o quisemos deixar em casa. Desata a fazer disparates. E se o pusermos no quintal, salta por cima da vedação e vem para a rua. Portanto achámos melhor trazê-lo connosco e deixá-lo aqui preso.

O meu pai concordou.

– Bem, parece-me uma boa ideia. – Acariciou a cabeça de Murphy. – Pobre velhote. Estás a ficar velho, não estás?

– É melhor irmos andando – interrompeu a minha mãe.

Hoppo baixou-se para abraçar Murphy. O velho cão passou-lhe a enorme língua molhada pela cara.

– Lindo menino – murmurou Hoppo. – Adeus.

Cruzámos o portão da cerca, em direcção à entrada da igreja. Andavam por ali outras pessoas, algumas a fumar com gestos furtivos. Notei a presença do Gav Gordo e dos pais. Nicky estava à entrada da igreja, ao lado do reverendo Martin. Com um grosso maço de papéis. As letras dos hinos, calculei.

Para mim, foi um momento de tensão. Era a primeira vez que os meus pais e o reverendo Martin se encontravam cara a cara desde a festa e do pacote. Assim que nos viu, o reverendo sorriu.

– Senhor e senhora Adams, Eddie. Muito obrigado por terem vindo neste dia tão triste e terrível.

Estendeu a mão. O meu pai não a apertou. O sorriso não se apagou do rosto do reverendo, mas detectei nos seus olhos um lampejo fugaz muito pouco agradável.

– Por favor, peguem numa folha de hinos e ocupem os vossos lugares lá dentro.

Aceitámos as folhas dos hinos. Nicky saudou-me com um aceno de cabeça discreto e entrámos vagarosamente na igreja.

Lá dentro estava frio, o bastante para me provocar um arrepio. E escuro, também. Os meus olhos precisaram de algum tempo para se ajustarem. Algumas pessoas já estavam sentadas.

Reconheci vários garotos da escola. Alguns professores também, e o senhor Halloran.

Impossível não dar pela sua presença, com aquele tufo de cabelo branco. Para variar, trazia vestida uma camisa encarnada. O chapéu repousava no colo. Quando me viu entrar com a minha mãe e o meu pai, dirigiu-me um sorriso breve. Naquele dia, todos os sorrisos eram breves e constrangidos, como se as pessoas não soubessem o que fazer à cara.

Sentámo-nos e ficámos à espera, até que o reverendo Martin entrou, acompanhado por Nicky, e a música começou a tocar. Uma melodia que já tinha ouvido, mas não me recordava de onde. Não era um hino, nem nada que se parecesse. Era uma canção moderna, lenta. Não sei porquê, e embora fosse moderna, não me pareceu apropriada para Sean, que gostava de ouvir os Iron Maiden.

Todos inclinámos a cabeça quando trouxeram o caixão para dentro. Metal Mickey, a mãe e o pai vinham atrás. Era a primeira vez que via Mickey depois do acidente. A mãe e o pai não o tinham deixado ir à escola, e depois tinham ido todos para casa dos avós dele.

Metal Mickey não olhava para o caixão. O corpo erecto, a cabeça levantada, os olhos postos em frente. O esforço de andar, respirar e não chorar parecia requerer toda a sua concentração.

Estava já a meio da igreja quando estacou. O homem que vinha atrás por pouco não esbarrou nele. Seguiu-se um momento de confusão, quando Mickey deu meia volta e fugiu da igreja a correr.

Todos os presentes se entreolharam, excepto a mãe e o pai, que deram a impressão de mal se aperceberem da fuga. Continuaram a arrastar-se penosamente como zombies, encapsulados no seu desgosto. Ninguém foi atrás do Mickey. Olhei de relance para a minha mãe, que abanou a cabeça e apertou-me a mão.

Creio que foi aquilo que me tocou. Ver Mickey outra vez tão alterado por causa de um rapaz que quase todos detestávamos, mas que nem por isso deixava de ser seu irmão. Talvez Sean não fosse sempre um rufia quezilento. Talvez tivesse brincado com o Mickey quando era mais pequeno. Talvez tivessem ido juntos ao parque, partilhado o banho e as peças do Lego.

E agora estava estendido num caixão escuro e frio, coberto de flores que exalavam um odor demasiado forte, enquanto alguém tocava música que teria detestado, mas não protestava por que nunca mais poderia dizer nada a ninguém.

Engoli em seco o nó que sentia na garganta e pisquei rapidamente os olhos. A minha mãe tocou-me no braço, e todos nos sentámos. A música parou e o reverendo Martin levantou-se para falar de Sean Cooper e de Deus. A maior parte do que disse não fazia sentido. Coisas como o céu ter mais um anjo e como Deus amava mais Sean Cooper do que o tinham feito as pessoas na Terra. Olhei para a mãe e para o pai dele, encostados um ao outro e a chorar, despedaçados pela dor, e achei que ele estava enganado.

O reverendo Martin já tinha quase terminado quando se ouviu um estrondo e uma súbita corrente de ar fez voar para o chão algumas das folhas dos hinos. A maioria dos que estavam na igreja virou-se, incluindo eu.

As portas da igreja abriram-se de par em par. A princípio, julguei que Mickey tinha voltado.

Mas depois distingui duas figuras que se destacavam, envoltas num halo de luz. Quando se aproximaram, reconheci a amiga da Rapariga do Carrossel e o polícia que tinha ido a nossa casa, o agente Thomas (mais tarde vim a saber que ela se chamava Hannah e que o agente era pai dela).

Por um instante imaginei que a rapariga se tivesse metido em sarilhos. O agente Thomas segurava-a por um braço e quase a arrastava consigo pela nave da igreja. Um murmúrio perpassou pela assistência.

A mãe de Mickey segredou qualquer coisa ao marido, que se levantou. O seu rosto exprimia dureza e raiva. Do alto do púlpito, o reverendo Martin disse:

– Se vieram apresentar os vossos respeitos ao falecido, saibam que estamos prestes a dirigir-nos ao local da sepultura.

O agente Thomas e a rapariga loura estacaram. O homem relanceou os olhos pela igreja.

Nenhum olhar o afrontou. Sentámo-nos todos, calados e roídos de curiosidade, mas sem o mostrar. A rapariga loura não tirava os olhos do chão, como se esperasse que este a engolisse, tal como se aprestava a fazer com Sean Cooper.

– Respeitos? – repetiu lentamente o agente Thomas. – Não, não me parece que lhe deva algum respeito. – Escarrou no chão, mesmo diante do caixão. – Não ao rapaz que violou a minha filha.

Os murmúrios de surpresa ergueram-se dos bancos até ao travejamento do tecto. Julgo que deixei escapar um ruído abafado. Violou? Não sabia ao certo o significado de «violar» (sob muitos aspectos, aos doze anos era muito ingénuo), mas sabia que era obrigar uma rapariga a fazer o que não queria, e que era mau.

– Seu filho-da-puta mentiroso! – gritou o pai de Mickey.

– Filho-da-puta? – rosnou Thomas. – Já te mostro o que é um filho-da-puta! – Apontou para a filha. – É a criança que ela traz consigo.

Um novo arquejo colectivo. A cara do reverendo Martin parecia querer a todo o momento despegar-se da caveira. Abriu a boca, mas antes de ter tempo para dizer qualquer coisa ouviu-se um rugido tremendo e o pai de Mickey investiu contra o agente Thomas.

O pai de Mickey não era grande, mas era rápido e bem constituído, e apanhou o agente Thomas desprevenido. O polícia oscilou, mas não perdeu o equilíbrio. O par engalfinhado cambaleava para a frente e para trás, os braços agarrados, como num bailado horrível e bizarro.

Até que o agente Thomas se libertou. Desferiu um soco à cabeça do pai de Mickey. Este conseguiu esquivar-se, ripostou e acertou em cheio. O agente Thomas cambaleou para trás.

Apercebi-me do que ia acontecer um milésimo de segundo antes de ter acontecido. Creio que a maioria dos presentes também se deu conta. Ouviram-se gritos e alguém gritou Nãoooo! quando o agente Thomas embateu contra o caixão de Sean Cooper, instalado em frente do púlpito, e o atirou para o chão de pedra com um tremendo estardalhaço.

Não sei se imaginei o que se passou a seguir, pois a tampa do caixão devia estar aparafusada, não é? Não haviam de querer que escorregasse quando o metessem na cova. Mas quando o caixão bateu no pavimento com um horroroso som de rachar que me fez imaginar os ossos de Sean Cooper aos trambolhões lá dentro, a tampa deslizou para o lado e entrevi num relance uma mão muito branca.

Ou talvez não tenha visto. Talvez fosse outra vez a minha imaginação estúpida e tresloucada.

Aconteceu tudo tão depressa. Mal o caixão embateu no solo, a igreja encheu-se de uma gritaria ensurdecedora e vários homens acorreram para o levantar e voltar a colocar sobre o plinto.

O agente Thomas endireitou-se, inseguro nas pernas. O pai de Mickey também cambaleava.

Levantou o braço como que para voltar a agredir o agente Thomas, mas virou-se de repente e lançou-se sobre o caixão, a chorar. Em grandes soluços que lhe sacudiam o corpo.

O agente Thomas olhou em redor. Parecia atordoado, como se acabasse de acordar de um pesadelo. Abria e fechava os punhos. Passou a mão pelo cabelo escuro, suado e revolto. Junto do olho direito começava a despontar uma mancha escura.

– Papá, por favor? – implorou a rapariga loura num murmúrio abafado.

O agente Thomas olhou para ela, voltou a agarrar-lhe a mão e arrastou-a pela nave da igreja.

Perto da saída, voltou-se e rosnou:

– Isto não acaba aqui.

E desapareceram.

O incidente não se prolongou por mais do que dois ou três minutos, mas tive a sensação de que fora muito mais longo. O reverendo Martin tossiu alto para limpar a garganta, mas continuou a não se conseguir fazer ouvir acima do choro convulsivo do pai de Mickey.

– Peço imensa desculpa por esta interrupção. Agora vamos lá para fora, para dar continuidade ao serviço. Levantem-se, por favor.

Mais música. Alguns membros da família de Mickey conseguiram arrancar o pai ao caixão e levaram-no consigo, e todos voltámos a sair para o adro.

Mal tinha posto um pé fora da igreja quando senti na cabeça a primeira gota de chuva. Olhei para cima. O azul tinha sido expulso do céu por uma camada de nuvens cinzentas que se começavam a desfazer em chuva sobre o caixão e os participantes no funeral.

Ninguém trazia chapéu-de-chuva, de maneira que nos encapuchámos nas vistosas roupas vermelhas e azuis, os ombros arqueados contra o chuvisco que aumentava de intensidade. Senti um arrepio ligeiro quando o caixão foi lentamente descido para a cova. As flores já tinham sido tiradas. Como para afirmar que nada alegre e vivo devia descer para as entranhas do buraco negro.

Julgava que a contenda desenrolada lá dentro tinha sido a parte pior do funeral, mas estava enganado. Aquela é que foi a parte pior. O som cavo da terra a cair sobre a tampa de madeira do caixão. O cheiro da terra húmida a elevar-se sob o calor evanescente do sol de Setembro. O

olhar cravado no abismo hiante rasgado no chão, ciente de que de lá seria impossível sair. Sem desculpas, sem saídas de fim-de-semana, sem a possibilidade de a mãe escrever um bilhete ao professor. A morte era definitiva e absoluta e ninguém tinha o poder de a alterar.

Por fim, tudo acabou e começámos a abandonar o cemitério. O salão da igreja tinha sido reservado para as pessoas beberem e comerem sanduíches.

– Chama-se velório – explicou a minha mãe.

Já estávamos perto do portão quando alguém conhecido dos meus pais os deteve para falarem. O Gav Gordo e a família vinham logo atrás, a falar com a mãe de Hoppo. Também vi a família de Mickey, mas a ele não o vi. Calculei que andasse algures por ali.

Dei por mim sozinho na orla do cemitério, mais ou menos perdido.

– Olá, Eddie.

Virei-me. O senhor Halloran aproximou-se. Tinha posto o chapéu na cabeça para se proteger da chuva e segurava na mão um maço de cigarros. Nunca o tinha visto fumar, mas recordei-me do cinzeiro que tinha visto em casa dele.

– Olá, senhor Halloran.

– Como te sentes?

Encolhi os ombros.

– Não sei bem.

O senhor Halloran tinha o dom, que falta a muitos adultos, de nos fazer responder com sinceridade.

– Não faz mal. Não tens de te sentir triste.

Hesitei, sem saber o que responder.

– Não nos podemos sentir tristes por causa de todos os que morrem. – Baixou a voz. – Sean Cooper era um rufia. Não deixou de o ser pelo facto de estar morto. O que não quer dizer que o que lhe aconteceu não tenha sido trágico.

– Por ainda ser um garoto?

– Não. Por não ter tido a hipótese de ser uma pessoa diferente.

Assenti, e depois perguntei:

– Aquilo que o polícia disse é verdade?

– Sobre Sean Cooper e a filha dele?

Acenei com a cabeça.

O senhor Halloran olhou para os cigarros. Creio que lhe apetecia acender um, mas que não achava correcto fazê-lo no adro da igreja.

– Sean Cooper não era um jovem simpático. Aquilo que ele te fez… algumas pessoas também lhe chamariam violação.

Senti um calor na cara. Não queria pensar naquilo. Como se me percebesse, o senhor Halloran prosseguiu:

– Mas terá feito aquilo de que o polícia o acusou? Não, não creio que seja verdade.

– Porquê?

– Não me parece que aquela jovem fizesse o género de Sean Cooper.

– Oh! – exclamei, sem perceber muito bem o que ele queria dizer.

O senhor Halloran abanou a cabeça.

– Esquece. E não te preocupes mais com Sean Cooper. Já não te pode fazer mal.

Pensei nas pedrinhas a bater na vidraça e na pele azul-acinzentada à luz do luar.

– Ei, Cara de Merda.

Não estava assim tão certo. Mas disse:

– Pois não. Quero dizer, claro que sim, senhor.

– És um bom rapaz.

Sorriu e afastou-se.

Ainda tentava assimilar tudo aquilo quando alguém me agarrou o braço. Virei-me. Hoppo estava à minha frente. O cabelo já despenteado e a camisa meio desabotoada. Na mão, segurava a coleira e a trela de Murphy. Mas nada de Murphy.

– O que aconteceu?

Fitou-me, de olhos muito abertos.

– Murphy. Desapareceu.

– Libertou-se da coleira?

– Não sei. Nunca o tinha feito. Não está larga, nem nada…

– Achas que foi para casa? – perguntei.

Hoppo abanou a cabeça.

– Não sei. Já é velho, e tanto a visão como o faro não são grande coisa.

Percebi que tentava não entrar em pânico.

– Mas anda devagar. Não pode ter ido longe.

Olhei em volta. Os adultos continuavam a conversar. O Gav Gordo estava demasiado longe para lhe chamar a atenção. Continuava a não haver sinal de Mickey… mas vi outra coisa.

Desenhado numa pedra tumular lisa, perto do portão da igreja. Começava a desaparecer, esborratado pela chuva, mas chamou-me a atenção porque havia ali algo de errado. Deslocado e, no entanto, tão familiar. Aproximei-me. Senti que se me eriçavam os pêlos dos braços e das pernas e o couro cabeludo pareceu-me apertado no crânio.

Um homem desenhado a giz branco. Os braços levantados, a boca um pequeno «O», como se gritasse. E não estava só. Ao lado, alguém tinha esboçado um cão rudimentar. De súbito, tive um mau pressentimento. Muito mau, mesmo.

Procura o homem de giz.

– O que é isso? – perguntou Hoppo.

– Nada. – Endireitei-me depressa. – Devíamos ir à procura do Murphy. Já.

– David! Eddie! O que se passa?

A minha mãe e o meu pai aproximavam-se, acompanhados pela mãe de Hoppo.

– É o Murphy – respondi. – Parece que fugiu.

– Oh, não! – exclamou a mãe de Hoppo, a levar a mão à cara.

Hoppo limitou-se a apertar a trela com mais força.

– Mamã, temos de ir à procura dele – disse eu.

– Eddie… – começou ela a dizer.

– Por favor… – implorei.

Vi que reflectia. Não me pareceu contente. Estava pálida e tensa. Só depois me lembrei que estávamos num funeral. O meu pai pousou-lhe a mão no braço e anuiu discretamente.

– Está bem – disse a minha mãe. – Vão lá à procura do Murphy. Quando o encontrarem, venham ter connosco ao salão da igreja.

– Obrigado.

– Vão lá. Corram.

Corremos pela estrada, a gritar o nome de Murphy, o que era inútil, já que o bicho era surdo.

– Não devíamos ir primeiro a tua casa, à cautela? – perguntei.

Hoppo assentiu.

– Tens razão.

Hoppo vivia do outro lado da cidade, numa rua estreita com casas em banda. O género de rua em que os homens se sentavam na soleira da porta a beber cerveja de lata, os bebés de fraldas brincavam no passeio e havia sempre um cão a ladrar. Na altura nunca pensei nisso, mas devia ser a razão pela qual raramente íamos a casa de Hoppo. Nós, os outros membros do grupo, vivíamos em casas boas. A minha podia ser um pouco antiquada e estar em mau estado, mas mesmo assim era numa rua bonita, bordejada de árvores, e essas coisas.

Seria simpático dizer que a casa de Hoppo era uma das melhores da rua, mas não era. As cortinas de rede penduradas nas janelas eram amareladas, a tinta da porta da frente estava a descascar e o minúsculo pátio fronteiro estava atafulhado com vasos partidos, gnomos de jardim e uma velha cadeira de lona.

Lá dentro, o caos era semelhante. Lembro-me de pensar que, para quem fazia limpezas, a mãe de Hoppo não se incomodava muito a manter o asseio dentro da sua casa. Havia coisas empilhadas por todo lado e nos sítios mais estranhos: embalagens grandes de cereais na sala de estar, em cima da televisão, um monte de rolos de papel higiénico no corredor, embalagens

 

industriais de lixívia e caixas de veneno para as lesmas em cima da mesa da cozinha. Também tresandava a cão. Gostava muito de Murphy, mas o cheiro que deitava não era o seu ponto forte.

Hoppo atravessou a casa a correr até ao quintal das traseiras e voltou para trás, a abanar a cabeça.

– Pronto – disse eu. – Vamos ver no parque. Pode ser que tenha ido para lá.

Acenou com a cabeça, mas percebi que se esforçava por conter as lágrimas.

– Ele nunca fez isto.

– Vai correr tudo bem – disse eu, o que era uma parvoíce, porque nada ia correr bem.

Pelo contrário, tão longe disso quanto possível.

Fomos encontrá-lo enroscado debaixo de um arbusto, não longe do recinto de jogos. Penso que deve ter procurado um refúgio. A chuva caía agora com bastante intensidade. O cabelo de Hoppo escorria-lhe da cabeça como algas finas e a minha camisa estava colada ao corpo. Os sapatos também deixavam entrar água, que esparrinhava a cada passo que dava na direcção de Murphy.

Ao longe, parecia estar a dormir. Só quando se chegava perto se distinguia o movimento penoso do peito amplo e o raspar áspero da sua respiração. Quando se estava mesmo perto, percebia-se que tinha vomitado. Todo ele era vomitado. Mas não era um vómito normal.

Grosso, preto como alcatrão, devido ao sangue misturado. E ao veneno.

Ainda me lembro do cheiro e da expressão dos seus grandes olhos castanhos quando nos ajoelhámos a seu lado. Confusos, perplexos, e ao mesmo tempo gratos. Como se fôssemos pôr tudo em ordem. Mas não podíamos. Pela segunda vez no mesmo dia, percebi que há coisas que não se podem remediar.

Tentámos levantá-lo para o levarmos connosco. Hoppo sabia de um veterinário na cidade.

Mas Murphy era muito pesado e a massa fumegante de pêlo molhado tornava-o ainda mais pesado. Ainda não tínhamos saído do parque quando ele começou a tossir e voltou a vomitar.

Deitámo-lo com cuidado sobre a erva molhada.

– E se eu for a correr ao veterinário e trouxer alguém comigo? – sugeri.

Hoppo abanou a cabeça e contrapôs numa voz rouca:

– Não, não vale a pena.

Enterrou a cara no pêlo espesso e ensopado de Murphy, agarrado ao cão como se assim evitasse que ele fugisse, que se escapasse deste mundo para o outro.

Mas é algo que nem a pessoa que mais nos ama pode evitar. Tudo o que pudemos fazer foi acarinhá-lo, segredar-lhe junto às orelhas felpudas, desejar que não sofresse mais. Deve ter sido o bastante, pois Murphy foi sacudido por um tremor, inspirou uma derradeira lufada de ar e quedou-se imóvel.

Hoppo soluçava, agarrado ao corpo inerte. Tentei reter as lágrimas, mas não evitei que me corressem pela cara. Mais tarde, ocorreu-me que nesse dia tínhamos chorado mais pelo cão morto do que pelo irmão de Mickey. E que isso também nos viria a causar remorsos.

Por fim, lá conseguimos congregar as energias necessárias para o transportar até casa de Hoppo. Era a primeira vez que tocava em algo morto. Ainda parece mais pesado do que antes, pensei. Um peso morto. Levámos uma boa meia hora. Houve pessoas que pararam para ver, mas ninguém se ofereceu para ajudar.

Deitámo-lo na cama dele, na cozinha.

– O que vais fazer com ele? – perguntei.

– Vou enterrá-lo – respondeu Hoppo, como era óbvio.

– Sozinho?

– É o meu cão.

Não soube o que responder, por isso fiquei calado.

– Devias voltar – disse Hoppo. – Para aquilo do velório.

Qualquer coisa em mim me dizia que me oferecesse para o ajudar, mas algo mais poderoso instava-me a sair dali.

– Está bem.

Virei-me para sair.

– Eddie.

– Sim?

– Quando encontrar quem fez isto vou matá-lo.