O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 18 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

E, disse ainda o senhor Halloran à polícia, que o meu pai não tinha quaisquer vestígios de sangue na roupa, não estava irado nem violento. Apenas embriagado e um tanto sentimental.

Este depoimento ilibou por completo o meu pai. Infelizmente, também suscitou perguntas sobre o motivo que levara o senhor Halloran a vaguear pelo adro da igreja a uma hora tão tardia e foi assim que todos ficaram a saber sobre a Rapariga do Carrossel.

5 Base militar americana no Reino Unido que encerrou em 1981 e onde depois se instalou um grupo de mulheres que protestavam contra o emprego de armas nucleares. (N. do T.)

2016

Pensamos que queremos respostas, mas o que realmente pretendemos são as respostas certas.

É a natureza humana. Fazemos perguntas que esperamos nos dêem as verdades que queremos ouvir. O problema é que não podemos escolher as nossas verdades. A verdade tem o hábito de ser a verdade. A única opção que nos resta é acreditar ou não nela.

– Roubaste a bicicleta do Sean Cooper? – pergunto a Gav.

– Sabia que à noite ele a costumava deixar no carreiro de acesso. Julgava-se tão importante que ninguém se atreveria a levá-la. Mas foi o que fiz. Só para o chatear. – Cala-se por instantes.

– Nunca pensei que ele se fosse meter no rio para a ir buscar. Nunca imaginei que acabasse por morrer afogado.

Pois não, digo para comigo. Mas toda a gente sabia a que ponto Sean adorava aquela bicicleta. Devia ter passado pela cabeça de Gav que roubá-la só poderia causar sarilho.

– Por que o fizeste? – pergunto.

Gav expele um anel de fumo.

– Vi o que ele te fez. Naquele dia, no campo de jogos.

A confissão atinge-me como um murro no estômago. Já se passaram trinta anos e ainda sinto a cara a arder com a vergonha da recordação. Os joelhos esfolados no alcatrão áspero. O sabor a urina e a suor na boca.

– Eu estava no parque – prossegue Gavin. – Vi como tudo aconteceu, e não fiz nada. Apenas fiquei a ver. Depois vi o senhor Halloran aparecer e disse para comigo que tudo ia ficar bem.

Mas não ficou.

– Não podias ter feito nada – assegurei. – Eles davam cabo de ti.

– Mesmo assim, devia ter tentado. Os amigos são tudo. Lembras-te? Era o que eu sempre dizia. Mas quando o momento chegou, abandonei-te. Deixei que Sean levasse a dele avante.

Como acontecia com toda a gente. Se fosse hoje, ia parar à prisão por aquilo que fez. Naquela altura, todos tínhamos medo dele. – Olha-me com uma expressão de dureza. – Não era apenas um rufia. Era um psicopata de merda.

Gav tem razão. Pelo menos em parte. Não estou certo de que Sean Cooper fosse um psicopata, mas era de certeza um sádico. Em certa medida, é o que acontece com a maioria dos miúdos. Mas talvez se tornasse diferente quando fosse mais velho. Penso nas palavras do senhor Halloran no cemitério:

– Nunca teve a hipótese de ser diferente.

– Ficaste calado – observa Gav.

Aspiro o cigarro com mais força. O choque da nicotina provoca-me um zumbido nos ouvidos.

– Na noite a seguir à morte de Sean, alguém desenhou um homem de giz no acesso à minha casa. Um homem de giz a afogar-se. Uma espécie de mensagem.

– Não fui eu.

– Então quem foi?

Gav esmaga o cigarro no banco.

– Sabe-se lá. E que interesse tem isso? A porra dos homens de giz. É só disso que todos se lembram desse Verão. São mais os que se borrifaram para esses desenhos estúpidos do que os que se melindraram.

É verdade. Mas os dois casos estão indissoluvelmente associados. Como o ovo e a galinha.

Qual deles surgiu primeiro? Os homens de giz ou a morte?

– És a única pessoa a saber, Ed – diz Gav.

– Não digo nada.

– Eu sei. – Suspira. – Alguma vez fizeste uma coisa tão má que nem aos amigos mais chegados possas contar?

Esmago o cigarro até ao filtro.

– Tenho a certeza de que toda a gente fez.

– Sabes o que uma vez me disseram? Os segredos são como o olho do cu. Todos os temos, só que uns são mais sujos do que outros.

– Uma excelente imagem mental.

– Pois é – e solta uma pequena gargalhada. – Um monte de merda.

Regresso a casa já ao cair da tarde. Entro, dirijo-me à cozinha, e logo franzo o nariz por causa do odor penetrante a dejectos de gato. Espreito para o tabuleiro de plástico. Não parece haver lá nada. O que tanto pode ser uma sorte como uma preocupação, dependendo do nível de perversidade de Mittens no dia de hoje. Tomo nota para inspeccionar os chinelos antes de lá enfiar os pés.

Tentadora, a garrafa de bourbon está sobre o balcão da cozinha, mas em alternativa (para manter a cabeça lúcida), tiro uma cerveja do frigorífico e subo para o piso de cima. Detenho-me um instante à porta do quarto de Chloe. Lá de dentro não vem nenhum som, mas sinto uma leve vibração nas pranchas do soalho, o que deve querer dizer que está a ouvir música com os auscultadores postos. Ainda bem.

Sigo em bicos de pés para o meu quarto e fecho a porta. Poiso a cerveja sobre a mesa-de-cabeceira, agacho-me e desloco a cómoda que está ao lado da janela. É pesada e arrasta pelo chão, mas não me incomodo com o ruído. Quanto Chloe ouve música, é de rebentar os tímpanos. Era capaz de não se aperceber de um pequeno tremor de terra.

Pego numa velha chave de parafusos que guardo na gaveta da roupa interior e uso-a para levantar as tábuas do soalho. Quatro. São mais do que quando era garoto. Agora tenho mais coisas para esconder.

Retiro uma das duas caixas entaladas na cavidade, levanto a tampa e observo o conteúdo.

Tiro o objecto mais pequeno e desenrolo com cuidado o papel de seda envolvente. Lá dentro está um brinco de ouro solitário, em forma de argola. Não é ouro verdadeiro, é uma peça barata, de fantasia, já um tanto manchada. Seguro-o na palma da mão por alguns momentos, a deixar o metal aquecer. A primeira coisa que tirei dela, julgo eu. Na feira, no dia em que tudo começou.