O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 9 de 39

Páginas do PDF

O Livro do Juízo Final

Capítulo 8

 

Ela estava sendo queimada na fogueira. Podia sentir as chamas. Já devia ter sido amarrada a uma estaca, embora não se lembrasse de nada disso. Lembrava que tinham acendido o fogo. Ela caíra do cavalo branco, e o degolador a apanhara nos braços e colocara de novo sobre o animal.

— Temos que voltar para o local do salto — falou para ele.

Ele tinha se inclinado sobre ela, que podia ver aquele rosto cruel na bruxuleante luz das labaredas.

— O sr. Dunworthy vai abrir a rede assim que perceber que tem alguma coisa errada — disse ela. Não devia ter contado isso para ele. Aquele homem achava que ela era uma bruxa e a trouxera até ali para que ardesse numa fogueira.

— Não sou uma bruxa — avisou ela, e imediatamente uma mão surgiu do nada e pousou na sua testa.

— Shhhh — disse uma voz.

— Não sou uma bruxa — repetiu ela, tentando falar devagar para que eles entendessem. O degolador ainda não tinha entendido. Ela tentara dizer que não deviam se afastar do local do salto, mas ele não deu atenção. Colocou-a em cima do cavalo branco e partiu para fora da clareira, por entre as bétulas de tronco esbranquiçado, para dentro da parte mais espessa da floresta.

Ela tentou prestar atenção ao caminho, para ter como refazer o trajeto na volta, mas o lampião balouçante daquele homem iluminava apenas o chão ao redor dos pés, e a luz machucava a vista. Fechou os olhos, o que foi um erro, porque o passo irregular do cavalo provocou tonturas, e ela escorregou do animal e caiu no chão.

— Não sou bruxa — repetiu ela. — Sou historiadora.

— Hawey fond enyowuh thissla dey? — perguntou uma voz de mulher muito, muito distante. Ela devia ter se aproximado para pôr mais gravetos no fogo, e recuado para longe do calor.

— Enwodes fillenun gleydund sore destrayste — respondeu uma voz de homem, uma voz que lembrava a do sr. Dunworthy. — Ayeen mynarmehs hoor alle op hider ybar.

— Sweltes shay dumorte blauen? — indagou a mulher.

— Sr. Dunworthy — disse Kivrin, estirando os braços para ele —, eu vim parar entre os degoladores! — Só que ela não conseguia enxergá-lo por entre a fumaça sufocante.

— Shhh — fez a mulher, e Kivrin entendeu que já era mais tarde e que tinha dormido, ainda que parecesse impossível. Quanto tempo a gente leva para queimar?, pensou ela. O fogo era tão quente que ela já devia ter virado só cinza àquela altura. No entanto, quando ergueu a mão, ela parecia intacta, embora pequenas chamas vermelhas tremulassem junto às bordas dos dedos. A luz das chamas doía em sua vista. Ela fechou os olhos.

Tomara que eu não caia de novo do cavalo, pensou. Tinha se agarrado com muita força, os braços apertando o pescoço, mesmo que o passo irregular do animal aumentasse sua dor de cabeça. E não tinha largado, mas mesmo assim caíra, embora tenha sido obrigada a aprender a cavalgar por orientação do sr. Dunworthy, que tinha até conseguido aulas para ela numa coudelaria perto de Woodstock. O sr. Dunworthy dissera que aquilo aconteceria: que ela acabaria ardendo na fogueira.

A mulher pôs uma xícara em seus lábios. Deve ser a esponja com vinagre, pensou Kivrin, a que eles dão aos mártires. Mas não era. Era um líquido quente, amargo. A mulher teve que inclinar a cabeça de Kivrin um pouco para a frente, para que pudesse beber, e pela primeira vez ela percebeu que estava deitada.

Tenho que dizer isso ao sr. Dunworthy, pensou ela. Eles queimam as pessoas deitadas na fogueira. Ela tentou erguer as mãos até o rosto para ativar o chip-gravador, mas foi impedida pelo peso das chamas.

Estou doente, pensou Kivrin, e soube que o líquido quente era algum tipo de poção medicinal que tinha abaixado um pouco sua febre. Não estava deitada no chão, afinal, e sim na cama de um quarto escuro, e a mulher que lhe pedira para não falar e dera o líquido estava ali perto. Kivrin podia ouvir sua respiração. Tentou mexer a cabeça para vê-la, mas o esforço voltou a provocar dor. A mulher devia estar dormindo. Sua respiração era alta e regular, quase um ronco. O som fazia a cabeça de Kivrin doer.

Devo estar no vilarejo, pensou. O homem ruivo deve ter me trazido para cá.

Tinha caído do cavalo, e o degolador a ajudara a subir de novo. Só que, quando olhou para ele, viu que aquele não parecia o rosto de um degolador: era jovem, com cabelo ruivo e uma expressão simpática. Ele inclinou-se sobre ela quando estava encostada à roda da carroça, pôs um joelho no chão e disse:

— Quem é você?

Kivrin o entendeu perfeitamente.

— Canstawd ranken derwyn? — perguntou a mulher, inclinando a cabeça de Kivrin para que ela bebesse um pouco mais do líquido amargo. Kivrin mal conseguia engolir. O fogo estava agora na sua garganta. Podia sentir as pequenas chamas alaranjadas, embora o líquido devesse tê-las apagado. Pensou que talvez o homem a tivesse levado para alguma terra estrangeira, Espanha, Grécia, algum lugar cuja língua não estava prevista no intérprete.

Apesar de ter entendido perfeitamente o homem ruivo.

— Quem é você? — perguntou ele, e ela pensou que o outro homem talvez fosse um escravo trazido das Cruzadas, um escravo que falava turco ou árabe, e por isso ela não podia entendê-lo.

— Sou historiadora — disse ela mas, quando ergueu os olhos para o rosto simpático, não era ele, era o degolador.

Olhou em torno, ansiosa, procurando o homem ruivo, mas ele não estava ali. O degolador recolheu e amontoou alguns gravetos entre pedras para fazer uma fogueira.

— Sr. Dunworthy! — gritou Kivrin, desesperada, e o degolador aproximou-se, agachando-se, a luz do lampião bruxuleando em seu rosto.

— Não tenha medo — disse. — Ele volta logo.

— Sr. Dunworthy! — gritou ela, e o homem ruivo voltou a aparecer e outra vez se ajoelhou junto dela.

— Eu não devia ter me afastado do local do salto — disse ela, pregando os olhos naquele rosto para que ele não se transformasse no degolador. — Teve alguma coisa errada com o fix. Precisa me levar de volta para lá.

Ele desprendeu e girou com facilidade a própria capa por cima dos ombros antes de colocá-la sobre Kivrin, que soube então que ele a compreendia.

— Preciso ir para casa — disse ela, quando ele se inclinou. Ele trazia um lampião, que iluminava o rosto simpático e brilhava no cabelo ruivo como chamas.

— Godufadur — chamou ele, e ela pensou: Esse é o nome do escravo, Gauddefaudre. Ele vai pedir que o escravo conte onde me encontrou e vai me levar de volta para o local do salto. E o sr. Dunworthy… o sr. Dunworthy vai ficar maluco quando abrirem a rede e eu não estiver lá. Tudo bem, sr. Dunworthy, pensou ela em silêncio, já estou chegando.

— Dreede nawmaydde — dissera o homem ruivo, enquanto a erguia nos braços. — Fawrthah Galwinnath coam.

— Estou doente — explicou Kivrin para a mulher —, por isso não posso entendê-la.

Porém, desta vez, ninguém se inclinou sobre ela na escuridão. Talvez eles estivessem cansados de vê-la queimando e tivessem ido embora. Ela estava demorando muito a arder, mas o fogo agora parecia estar mais quente do que antes.

O homem ruivo a colocou em cima do cavalo, à frente do próprio corpo, e cavalgou para dentro do bosque, e ela pensou que estava sendo levada de volta para o local do salto. O cavalo agora tinha sela e sininhos, e os sininhos bimbalhavam enquanto avançavam, tocando “O Come, All Ye Faithful”, e os sinos estavam mais altos, mais altos em cada verso, até que pareciam os sinos da St. Mary the Virgin.

Cavalgaram por muito tempo, e ela pensou que decerto já estariam perto do local do salto.

— Fica longe o salto? — perguntou ao ruivo. — O sr. Dunworthy vai ficar muito preocupado…

No entanto, ele não respondeu. O cavalo saiu do bosque e começou a descer uma ladeira. A lua tinha subido no céu e brilhava, pálida, por entre os galhos de um renque de árvores sem folhas, e sobre uma igreja que havia lá embaixo no vale.

— O salto não foi aqui — disse ela, e tentou puxar as rédeas para voltar ao lugar de onde vinham, mas não ousou mexer os braços que se seguravam ao homem ruivo, por medo de cair. E então estavam diante de uma porta, que se abriu, e se abriu de novo, e havia fogo e luz e som de sinos, e ela soube que afinal fora trazida de volta ao local do salto.

— Shay boyen syke nighonn tdeeth — disse a mulher, que levou as mãos enrugadas e ásperas ao encontro da pele de Kivrin e puxou as cobertas da cama por cima do corpo. Peles: Kivrin pôde sentir o pelo macio contra o rosto, ou talvez fosse seu próprio cabelo.

— Para onde me trouxe? — perguntou.

A mulher inclinou-se um pouco para a frente, como se não ouvisse bem, e Kivrin percebeu que devia ter falado em inglês. O intérprete não estava funcionando. Supunha-se que ela seria capaz de pensar as palavras em inglês moderno e falar em inglês médio. Talvez fosse por isso que não conseguia entendê-los, porque o intérprete não estava funcionando.

Tentou pensar como se dizia aquilo em inglês médio. Where hast thou bringen me to? A construção estava errada. Ela tinha que perguntar: “Que lugar é este?”, mas não lembrava a palavra em inglês médio para “lugar”.

Não conseguia pensar direito. A mulher continuava amontoando lençóis e, quanto mais peles empilhava sobre ela, mais Kivrin sentia frio, como se a mulher estivesse apagando o fogo.

Eles não entenderiam se ela perguntasse “Que lugar é este?”. Estava num vilarejo. Tinham passado a cavalo diante de uma igreja e chegado a uma casa grande. Ela devia perguntar: “Qual é o nome deste vilarejo?”.

A palavra para lugar era “demain”, mas a construção continuava errada. Eles usariam uma construção de frase francesa, não?

— Quelle demeure avez-vous m’apporté? — perguntou ela bem alto, mas a mulher tinha saído de perto, e aquilo não estava correto. Eles já não falavam francês há duzentos anos. Tinha que perguntar em inglês. “Onde fica este vilarejo para onde me trouxeram?” Mas qual era a palavra para “vilarejo”?

O sr. Dunworthy dissera que ela não deveria depender do intérprete, que precisava ter aulas de inglês médio, francês normando e alemão para equilibrar discrepâncias na pronúncia. Fez ela memorizar páginas e mais páginas de Chaucer. Soun ye nought but eyr ybroken. And every speche that ye spoken. Não. Não. “Onde fica este vilarejo para onde me trouxeram?” Qual era a palavra para “vilarejo”?

Ele trouxe Kivrin para o vilarejo e bateu a uma porta. Um homem enorme apareceu, de machado em punho. Para cortar a lenha para o fogo, claro. Um homem enorme e depois uma mulher, e ambos disseram palavras que Kivrin não compreendia, e a porta se fechou, e eles ficaram de fora, na escuridão.

— Sr. Dunworthy! Dra. Ahrens! — gritou ela, e o peito doía muito a cada grito. — Não deixe eles fecharem o salto! — pediu ela ao homem ruivo, mas ele tinha se transformado de novo num degolador, num ladrão.

— Não — disse ele. — Ela está só ferida. — E então a porta se abriu de novo, e eles carregaram Kivrin para dentro, para ser queimada.

Estava tão quente ali.

— Thawmot goonawt plersoun roshundt prayenum comth ithre — disse a mulher, e Kivrin tentou erguer a cabeça para beber, mas a mulher não estava segurando uma xícara, e sim uma vela, bem junto ao rosto de Kivrin. Junto demais. O cabelo pegaria fogo.

— Der maydemot nedes dya — disse a mulher.

A vela tremeluziu, bem pertinho da bochecha dela. O cabelo estava em chamas. Chamas alaranjadas e vermelhas ardendo nas pontas do cabelo, atingindo e transformando madeixas soltas em cinza.

— Shh — fez a mulher, tentando segurar as mãos de Kivrin, que se debateu até se desvencilhar. Passou a mão no cabelo, tentando extinguir as chamas. Suas mãos pegaram fogo.

— Shh — disse a mulher, prendendo as mãos dela. Não era a mulher. Eram mãos muito fortes. Kivrin jogou a cabeça de um lado para o outro, tentando escapar das chamas, mas também estavam agarrando sua cabeça. Seu cabelo ardeu numa tocha de fogo.

O quarto estava todo enfumaçado quando Kivrin despertou. O fogo devia ter se apagado enquanto ela dormia. Algo assim tinha acontecido com um dos mártires quando foi levado à fogueira. Seus amigos empilharam ramos verdes no fogo, para que ele morresse inalando a fumaça antes do fogo chegar até seu corpo, mas isso só serviu para abrandar as chamas, e ele ardeu no braseiro durante horas.

A mulher voltou a se inclinar sobre sua cabeça. A fumaça era tanta que Kivrin não conseguia dizer se ela era velha ou jovem. O homem ruivo devia ter apagado o fogo. Ele tinha coberto Kivrin com a capa antes de ir até a fogueira para apagá-la, pisando com as botas, de modo que a fumaça subiu e a cegou.

A mulher gotejou água sobre Kivrin, e as gotas pareceram ferver na sua pele.

— Hauccaym anchi towoem denswile? — perguntou a mulher.

— Eu sou Isabel de Beauvrier — disse Kivrin. — Meu irmão está doente, em Evesham. — Ela não conseguia se lembrar de palavra nenhuma. Quelle demeure. Perced to the rote. — Onde estou? — perguntou, em inglês.

Um rosto se aproximou.

— Hau hightes towe? — disse a voz. Era o rosto do degolador da floresta encantada. Ela desviou o rosto, com medo.

— Vá embora! — pediu. — O que quer comigo?

— In nomine Patris, et Filii, et Spiritus sancti — disse ele.

Latim, pensou ela, agradecida. Deve haver um padre por aqui. Tentou erguer a cabeça para enxergar o padre por trás do degolador, mas não conseguiu. Havia muita fumaça no quarto. Eu sei falar latim, pensou ela. O sr. Dunworthy me obrigou a aprender.

— Não deviam tê-lo deixado entrar aqui! — disse ela, em latim. — Ele é um degolador! — A garganta doía, e Kivrin quase não tinha ar para pronunciar as palavras mas, pelo modo surpreso como o degolador recuou, ela percebeu que eles tinham escutado.

— Não deve ter medo — disse o padre, e ela entendeu perfeitamente. — Você vai voltar para casa.

— Para o local do salto? — perguntou Kivrin. — Vão me levar para o salto?

— Asperges me, Domine, hyssope et mundabor — disse o padre. Aspergei-me com o hissope, Senhor, e eu ficarei limpo. Ela entendeu perfeitamente.

— Ajude-me — pediu ela em latim. — Preciso voltar para o lugar de onde eu vim.

— … nominus… — disse o padre, tão baixinho que ela mal ouviu. Nome. Alguma coisa a respeito de um nome. Ela levantou a cabeça. Sentia-se estranhamente leve, como se todo seu cabelo tivesse queimado.

— Meu nome? — perguntou.

— Pode me dizer seu nome? — disse ele, em latim.

Ela deveria dizer que era Isabel de Beauvrier, filha de Gilbert de Beauvrier, de East Riding, mas sua garganta doía tanto que achou que não conseguiria.

— Preciso voltar — avisou. — Eles não vão saber onde estou.

— Confiteor deo omnipotenti — disse o padre de muito longe. Ela não podia mais vê-lo. Quando tentou olhar por trás do degolador, tudo que conseguiu avistar eram chamas. Deviam ter acendido o fogo outra vez. — Beatae Mariae semper Virgini…

Ele está rezando o Confiteor Deo, pensou ela, a prece da confissão. O degolador não devia estar ali. Não devia haver nenhuma outra pessoa num quarto durante uma confissão.

Era a vez dela. Tentou ficar de mãos postas para rezar, mas não conseguiu. O padre então ajudou e, quando ela não pôde lembrar as palavras, recitou com ela.

— Perdoai-me, Pai, porque pequei. Confesso a Deus Todo-Poderoso, e a vós, padre, que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa.

— Mea culpa — murmurou ela — mea culpa, mea maxima culpa. — Por minha culpa, minha máxima culpa, mas isso não estava correto, não era isso que ela deveria estar dizendo.

— Você pecou? — perguntou o padre.

— Pecou? — repetiu ela, sem entender.

— Sim — disse ele com delicadeza, inclinando-se a ponto de estar quase falando ao pé do ouvido dela. — Tem que confessar seus pecados e obter o perdão de Deus, para poder entrar no reino eterno.

Tudo que eu queria era ir para a Idade Média, pensou ela. Trabalhei tanto, aprendi as línguas, aprendi os costumes, fiz tudo que o sr. Dunworthy me mandou fazer. Tudo que eu queria era ser historiadora.

Ela engoliu, teve a sensação de engolir uma labareda.

— Eu não pequei.

O padre recuou, e Kivrin achou que estava zangado porque ela não queria confessar seus pecados.

— Eu devia ter dado ouvidos ao sr. Dunworthy — disse ela. — Não devia ter me afastado do local do salto.

— In nomine Patris, et Filii, et Spiritus sancti. Amen — disse o padre, cuja voz era gentil, reconfortante. Ela sentiu o frescor do toque dos dedos dele sobre sua testa.

— Quid quid deliquisti — murmurou o padre. — Por esta santa unção e Sua piíssima misericórdia… — Ele tocou nos olhos, nas orelhas, nas narinas de Kivrin, tão de leve que ela mal sentia aquela mão, apenas o toque frio do óleo.

Isso não é um ritual de penitência, pensou Kivrin. É uma extrema-unção. Ele está ministrando os últimos sacramentos.

— Não… — começou Kivrin.

— Não tenha medo — disse ele. — Que o Senhor perdoe as ofensas que possa ter cometido ao caminhar — continuou ele, apagando o fogo que estava ardendo nas solas dos pés de Kivrin.

— Por que está me dando a extrema-unção? — perguntou ela, e então lembrou que estava sendo queimada na fogueira. Vou morrer aqui, pensou, e o sr. Dunworthy nunca vai ficar sabendo o que aconteceu comigo. — Meu nome é Kivrin — continuou ela. — Por favor, digam ao sr. Dunworthy…

— Você verá o Redentor face a face — disse o padre, só que agora era o degolador quem estava falando. — E parada diante Dele poderá ver com olhos abençoados a verdade manifesta.

— Estou morrendo, não estou? — quis saber ela.

— Não tenha medo — disse ele, segurando-lhe a mão.

— Não me abandone — pediu ela, apertando com força os dedos dele.

— Não vou abandonar você — respondeu ele, mas ela não conseguia vê-lo devido à fumaça. — Que o Deus Todo-Poderoso tenha misericórdia, perdoe os seus pecados e a conduza à vida eterna — disse ele.

— Por favor, sr. Dunworthy, venha me buscar — pediu ela, e as chamas se ergueram, envolvendo os dois.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

(000806-000882)

Domine, mittere digneris sanctum Angelum tuum de caelis, qui custodiat, foveat, protegat, visitet, atque defendat omnes habitantes in hoc habitaculo.

(Pausa)

Exaudi orationim meam et clamor meus ad te veniat.

(Tradução: Ó Senhor, dignai-vos a enviar Vosso santo anjo do céu para guardar, abrigar, proteger, visitar e defender todos os que estão reunidos nesta casa.)

(Pausa)

(Ouvi minha prece e permiti que meu chamado chegue a Vós.)