O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 23 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 22

 

Kivrin não conseguiu levar Agnes para a cama senão quase ao amanhecer. A chegada dos “três reis”, como ela continuava chamando, a despertara por completo, e a menina se recusava até mesmo a ficar deitada, com medo de perder alguma coisa, apesar de estar visivelmente exausta.

Colada a Kivrin, que tentava ajudar Eliwys a servir a comida do banquete, ficou choramingando o tempo todo que estava com fome e depois, quando as mesas finalmente foram postas e a ceia começou, recusou-se a comer.

Kivrin não tinha tempo para convencer a menina. Havia um pátio a atravessar e pratos e mais pratos a serem levados da cozinha para o salão: bandejas com carne de veado e porco assado e uma torta tão grande que, quando a crosta foi partida, Kivrin esperou a qualquer momento ver uma revoada de melros irromper lá de dentro. De acordo com o padre da Sagrada Igreja Re-Formada, era observado o jejum entre a missa da meia-noite e a missa principal da manhã de Natal, mas todos, inclusive o emissário do bispo, fartaram-se de faisão assado e pato e guisado de coelho ao molho de açafrão. E beberam. Os “três reis” pediam mais vinho o tempo todo.

Já tinham bebido mais do que o bastante. O monge estava lançando olhares lúbricos para Maisry, e o secretário, que já chegara bêbado, estava quase sob a mesa. O emissário do bispo bebia mais do que os outros dois, gesticulando o tempo inteiro para que Rosemund trouxesse a jarra de cerveja com especiarias, e seus gestos ficavam mais enérgicos e menos claros a cada caneca que bebia.

Muito bem, pensou Kivrin. Talvez ele fique tão bêbado que se esqueça de ter prometido a Lady Imeyne que me levaria para o convento de Godstow. Kivrin levou a tigela para Gawyn, esperando uma oportunidade para perguntar onde ficava o local do salto, mas ele estava dando gargalhadas com alguns dos homens de Sir Bloet, que pediram a ela que trouxesse cerveja e mais carne. Quando conseguiu voltar para junto de Agnes, a garotinha estava ferrada no sono, com a cabeça quase caída sobre as fatias de pão branco. Kivrin ergueu a pequena com cuidado e começou a levá-la para cima, para o pavilhão de Rosemund.

No alto da escada, a porta se abriu.

— Lady Katherine — disse Eliwys, os braços cheios de lençóis. — Ainda bem que está aqui. Preciso de sua ajuda.

Agnes se mexeu.

— Traga os lençóis de linho que estão no sótão — pediu Eliwys. — Os clérigos vão dormir nesta cama, e a irmã de Sir Bloet e as outras damas no sótão.

— Onde vou dormir? — quis saber Agnes, desvencilhando-se dos braços de Kivrin.

— Vamos todas dormir no celeiro — respondeu Eliwys. — Mas você vai ter que esperar até que todas as camas fiquem prontas, Agnes. Vá brincar.

Agnes não precisava de muito incentivo. Desceu correndo a escada, agitando o pulso para fazer soar o sininho.

Eliwys estendeu as cobertas para Kivrin.

— Leve estes lençóis aqui para o sótão e traga as colchas brancas de pele, que estão no baú entalhado do meu marido.

— Quantos dias acha que o emissário do bispo e os demais vão ficar aqui? — perguntou Kivrin.

— Ainda não sei — respondeu Eliwys, parecendo preocupada. — Espero que não seja mais do que duas semanas, ou não vamos ter comida suficiente. Não se esqueça de trazer os melhores travesseiros.

Duas semanas era mais do que suficiente, ia além do prazo para o reencontro, e os homens com certeza não pareciam estar com pressa para sair dali. Quando Kivrin desceu do sótão com os lençóis, o emissário do bispo dormia sentado na cadeira principal, roncando alto, e o secretário estava com os pés em cima da mesa. O monge havia encurralado uma das criadas de Sir Bloet num recanto e tentava tirar o lenço que cobria a cabeça dela. Gawyn não estava em parte alguma.

Kivrin levou os lençóis e os cobertores para Eliwys, depois se ofereceu para levar outras cobertas para o celeiro.

— Agnes está muito cansada — disse. — Posso botá-la para dormir logo.

Eliwys concordou distraidamente, enquanto desamarrotava um dos pesados travesseiros, e Kivrin desceu depressa a escada, indo para o pátio. Gawyn não estava no local de fabricação de cerveja. Ela demorou-se nas proximidades da privada até que dois dos rapazes ruivos emergiram lá de dentro, olharam para ela com curiosidade e foram para o celeiro. Talvez Gawyn tivesse se afastado com Maisry outra vez, ou estivesse no relvado tomando parte nas celebrações do pessoal do vilarejo. Ela podia ouvir o som das risadas enquanto espalhava a palha nas tábuas nuas da parte alta do celeiro.

Estendeu sobre a palha todas as peles e as colchas de retalhos, desceu, saiu e foi até a passagem para ver se via Gawyn. Os contemps tinham acendido uma grande fogueira diante da igreja e estavam em volta, aquecendo as mãos e bebendo em enormes chifres ocos. Ela avistou o rosto avermelhado do pai de Maisry e o do bailio à luz das chamas, mas não achou Gawyn.

Ele também não estava no pátio da igreja. Rosemund estava de pé junto ao portão, embrulhada na capa.

— O que está fazendo aqui fora, neste frio? — perguntou Kivrin.

— Esperando meu pai — respondeu Rosemund. — Gawyn disse que espera a chegada dele para antes do amanhecer.

— Você viu Gawyn?

— Sim. Está no estábulo.

Kivrin voltou os olhos ansiosos para o estábulo.

— Aqui está muito frio. Vá para dentro de casa, e eu peço a Gawyn que avise assim que seu pai chegar.

— Não, vou esperar aqui. Ele prometeu que viria para o Natal — disse Rosemund, e sua voz tremeu um pouquinho.

Kivrin ergueu um pouco mais o lampião. Rosemund não estava chorando, mas suas bochechas estavam bem vermelhas. Kivrin imaginou o que Sir Bloet teria aprontado dessa vez para fazer Rosemund se esconder daquele modo. Ou talvez ela tivesse se assustado com o monge ou com o secretário bêbado.

Kivrin pegou no braço dela.

— Tanto pode esperar aqui quanto na cozinha, e lá está mais quente — sugeriu.

Rosemund aquiesceu.

— Meu pai prometeu que viria sem falta.

Para fazer o quê?, pensou Kivrin. Expulsar os clérigos? Romper o noivado da filha com Sir Bloet? “Meu pai nunca deixaria que alguma coisa ruim me acontecesse”, dissera ela a Kivrin, mas Lord Guillaume não estava numa posição que lhe permitisse cancelar um noivado com o acordo matrimonial já assinado, o que atrairia a inimizade de Sir Bloet, que tinha “muitos amigos poderosos”.

Kivrin levou Rosemund para a cozinha e pediu a Maisry que esquentasse uma caneca de vinho para ela.

— Vou dizer a Gawyn para buscar você assim que seu pai chegar — disse ela, e foi ao estábulo, mas Gawyn não estava lá.

Ela entrou na casa grande, imaginando se Imeyne teria mandado o privé cumprir alguma tarefa. Porém, Imeyne estava sentada ao lado do emissário do bispo, visivelmente acordado a contragosto, e falava enfaticamente com ele. Já Gawyn estava sentado perto do fogo, cercado pelos homens de Sir Bloet, inclusive os dois que saíram da privada. Sir Bloet também estava sentado perto das chamas, com sua cunhada e Eliwys.

Kivrin se afundou no banco ao lado dos biombos. Não teria chance sequer de chegar perto do privé, quanto mais de fazer perguntas sobre o local do salto.

— Devolve ele! — lamuriou-se Agnes.

Ela e as outras crianças estavam no alto da escada do pavilhão, e os meninos passavam Blackie de mãos em mãos, alisando o filhote e apalpando suas orelhas. Agnes devia ter ido ao estábulo buscar o cãozinho enquanto Kivrin estava no celeiro.

— Esse cão é meu! — exclamou ela, tentando agarrar Blackie. O menino afastou o filhote das mãos dela. — Devolve ele agora!

Kivrin ficou de pé.

— Quando eu passava pelo bosque, encontrei uma donzela — Gawyn estava falando em voz bem alta. — Tinha sido atacada por ladrões e estava muito ferida, com a cabeça aberta ao meio e sangrando muito.

Kivrin hesitou, olhou em direção a Agnes, que estava esmurrando o braço do menino, e sentou-se de novo.

— Bela dama, disse eu, quem fez isso? — prosseguiu Gawyn. — Mas ela não podia responder, porque estava muito ferida.

Agnes já havia recebido o cãozinho de volta e estava agarrada a ele. Kivrin poderia ir ajudar a pobrezinha, mas preferiu ficar onde estava, movendo-se um pouco para o lado para ser capaz de enxergar além da coifa da cunhada de Sir Bloet. Conte a eles onde me achou, pediu ela, fazendo pensamento positivo na direção de Gawyn. Conte a eles em que ponto do bosque.

— Sou seu vassalo e vou achar esses malfeitores, eu disse, mas não posso deixá-la aqui numa situação tão difícil — continuou ele, olhando para Eliwys. — Então ela se recuperou e me pediu para ir atrás dos ladrões que a atacaram.

Eliwys ficou de pé e caminhou para a porta. Ficou ali por alguns instantes, parecendo ansiosa, depois voltou e sentou-se outra vez.

— Não! — gritou Agnes.

Um dos sobrinhos ruivos de Sir Bloet tinha retomado Blackie e levantava o filhote acima da cabeça com uma mão. Se Kivrin não intercedesse logo, acabariam matando o cãozinho de tantos apertos. Além disso, não fazia muito sentido ficar sentada ali escutando mais uma vez o Resgate da Donzela no Bosque, cuja finalidade não era a de relatar os fatos, e sim impressionar Eliwys. Kivrin foi em direção às crianças.

— Quando encontrei os rastros, os ladrões não estavam muito longe — seguia Gawyn. — Então comecei a seguir o bando, esporeando meu cavalo.

O sobrinho de Sir Bloet estava pendurando Blackie pelas patas dianteiras, e o cãozinho gania de maneira patética.

— Kivrin! — gritou Agnes, quando a avistou.

A menina agarrou-se às pernas dela. O sobrinho de Sir Bloet estendeu imediatamente o cãozinho para ela e recuou, enquanto o resto da criançada se dispersava.

— Você pegou Blackie de volta! — exclamou Agnes, tentando segurar o cão.

Kivrin abanou a cabeça.

— Hora de ir para a cama — falou.

— Eu não estou cansada! — rebateu Agnes, num choramingo pouco convincente, esfregando os olhos.

— Mas Blackie está — disse Kivrin, ficando de cócoras diante de Agnes. — E ele não vai conseguir descansar se você não for deitar com ele.

Este argumento pareceu interessar a menina e, antes que pudesse inventar uma resposta, Kivrin lhe devolveu Blackie, colocando o filhote nos seus braços como se fosse um bebê. Depois pegou Agnes no colo.

— Blackie espera que você conte uma história para ele — comentou, ao chegar à porta.

— Sem demora eu me vi num lugar que não conhecia — prosseguia Gawyn. — Uma floresta escura!

Kivrin carregou a garota com o cão através do pátio.

— Blackie gosta de histórias sobre gatos — mencionou Agnes, embalando o cãozinho nos braços.

— Então deve contar uma história de gatos para ele — disse Kivrin.

Ela segurou o cão enquanto Agnes subia a escada de madeira que dava acesso à parte alta do celeiro. Blackie já estava dormindo, exausto depois de ser trocado tanto de mãos. Kivrin deitou o filhote na palha, ao lado da esteira da menina.

— Uma gata malvada — disse Agnes, agarrando Blackie de novo. — Eu não vou dormir. Vou deitar um pouquinho com Blackie, então não preciso tirar esta roupa.

— Não, não precisa — concordou Kivrin, cobrindo Agnes e Blackie com uma pele bem pesada. Ali no celeiro era frio demais para alguém se despir.

— Blackie podia usar meu sininho — sugeriu Agnes, tentando fazer a fita passar pela cabeça do cão.

— Não, não pode — respondeu Kivrin.

Ela confiscou o sino e estendeu outra pele sobre a garota. Depois, deitou-se ao lado de Agnes, que aninhou seu pequeno corpo junto ao de Kivrin.

— Era uma vez uma gata muito malvada — começou Agnes, bocejando. — O pai dela a proibiu de entrar na floresta, mas ela não ligou e desobedeceu.

A menina lutou bravamente contra o sono, esfregando os olhos e inventando aventuras para a gatinha malvada, mas a escuridão e a quentura das peles acabaram vencendo.

Kivrin continuou deitada, esperou até que a respiração de Agnes se tornasse leve e regular, e em seguida retirou com cuidado Blackie dos braços da menina e deitou o filhote na palha.

Agnes, mesmo adormecida, franziu a testa e estendeu os braços, e Kivrin a abraçou. Tinha que levantar logo e procurar Gawyn. O reencontro seria em menos de uma semana.

Agnes se agitou e encolheu-se mais para perto, com o cabelo roçando o rosto de Kivrin.

E como vou poder deixar você para trás?, pensou Kivrin. E Rosemund? E o padre Roche? E adormeceu.

Quando acordou, era quase dia claro e Rosemund estava adormecida ao lado de Agnes. Kivrin deixou as duas irmãs dormindo, desceu a escada e cruzou o pátio, com receio de ter perdido o sino da missa, mas Gawyn continuava a postos junto ao fogo, e o emissário do bispo ainda estava sentado na cadeira, escutando Lady Imeyne.

O monge estava sentado num recanto, com o braço em volta de Maisry, mas o secretário não podia ser visto em parte alguma. Devia ter perdido os sentidos e sido levado para a cama.

As crianças também deviam estar todas dormindo, e aparentemente algumas das mulheres tinham subido para descansar no sótão. Kivrin não conseguiu ver nem a irmã nem a cunhada de Sir Bloet.

— Pare, escudeiro!, eu gritei — dizia Gawyn. — Quero enfrentá-lo em um duelo leal!

Kivrin pensou se ainda era a história do Resgate ou se ele já tinha enveredado pelas aventuras de Lancelote. Impossível dizer e, se o propósito daquilo era impressionar Eliwys, não estava adiantando muito. Ela não se encontrava presente no salão. A plateia de Gawyn, ou o que restava dela, também não parecia muito animada. Dois dos homens estavam jogando dados sem muito entusiasmo no banco onde sentavam, e Sir Bloet dormia, com o queixo tombado sobre a pança avantajada.

Tudo indicava que Kivrin não tinha perdido nenhuma oportunidade de falar com Gawyn por ter cochilado, e aparentemente não teria outra chance tão cedo. Bem que podia ter ficado no celeiro, dormindo ao lado de Agnes. Teria que criar uma oportunidade: surpreender Gawyn no trajeto para a privada ou emparelhar com ele no caminho para a missa e murmurar: “Me encontre depois no estábulo”.

Os clérigos não davam indícios de que bateriam em retirada enquanto ainda houvesse vinho, mas era arriscado não ter uma margem de segurança. Talvez os homens quisessem sair para caçar no dia seguinte, ou o tempo mudasse. Além disso, mesmo que o grupo de clérigos fosse embora ou permanecesse ali, faltavam apenas cinco dias para o reencontro. Não, quatro. Já estavam no dia de Natal.

— Ele me deu um golpe violento — prosseguia Gawyn, ficando de pé para ilustrar. — Se tivesse acertado, teria rachado minha cabeça ao meio.

— Lady Katherine — disse Imeyne.

A velha tinha se levantado e fazia um gesto chamando Kivrin. O emissário do bispo olhava com expressão de interesse para ela, e seu coração começou a bater com força, imaginando que tipo de maldade aqueles dois estariam tramando. No entanto, antes que tivesse cruzado o salão, Imeyne se ergueu e trouxe até ela alguma coisa embrulhada num tecido de linho.

— Preciso que leve isto para o padre Roche, para a missa — pediu ela, afastando a borda do pano para que Kivrin visse as velas de cera. — Diga a ele para colocar estas velas sobre o altar e para não apagar a chama puxando os pavios, porque se quebram. Diga a ele para decorar a igreja à altura, para que o emissário do bispo possa assistir à missa do Natal. Quero que a igreja esteja parecendo um local do Senhor, e não uma pocilga. E diga a ele que vista uma batina limpa.

Quer dizer então que vai ter a missa do modo que deseja, pensou Kivrin, apressando-se a cruzar o pátio rumo à igreja. E que já deu um jeito de se ver livre de mim. Só o que falta agora é se livrar do padre Roche, persuadindo o emissário do bispo a dispensá-lo ou a levá-lo para a abadia de Bicester.

Não havia ninguém na relva. A fogueira estava a ponto de se extinguir, brilhando palidamente à luz acinzentada do amanhecer, e a neve que se derretera em volta do fogo começava a se congelar em pequenas poças. Os aldeões já deviam estar na cama há muito tempo, e ela imaginou se o padre Roche também já teria se recolhido, mas não se via fumaça em sua casa, e ninguém respondeu quando ela bateu à porta. Seguiu ao longo do caminho que conduzia à porta lateral da igreja. Dentro continuava escuro, e mais frio do que estivera à meia-noite.

— Padre Roche! — chamou Kivrin, baixinho, e avançou tateando na direção da estátua de santa Catarina.

Ele não respondeu, mas ela podia ouvir o murmúrio de sua voz. Ele estava por trás do biombo de treliças, ajoelhado diante do altar.

— Senhor, guiai com segurança na volta para o seu lar estes que viajaram de tão longe em plena noite — pedia ele, e ao ouvir aquela voz Kivrin se lembrou de quando estava doente e aquela mesma voz soara tão firme e reconfortante por entre as chamas. E se lembrou também do sr. Dunworthy. Ela não voltou a chamar, ficou onde estava, encostada à estátua gélida da santa, escutando na escuridão.

— Sir Bloet e família vieram de Courcy para a missa, assim como todos os seus criados — disse ele — e Theodulf Freeman, de Henefelde. Parou de nevar ontem à noite, e o céu ficou limpo e claro para a noite do nascimento sagrado do Cristo — continuou ele, num tom coloquial, que soava parecido com o dela quando, com as mãos postas, falava para o recorde. Número de pessoas presentes à missa, boletim meteorológico.

A luz estava começando a surgir nas janelas, e ela via Roche através da filigrana trançada do biombo, a batina esfiapada e a barra manchada de lama, o rosto rude e de aparência cruel se comparado ao semblante aristocrático do emissário do bispo ou ao rosto fino do secretário.

— Nesta noite abençoada, ao final da missa, chegou aqui um emissário do bispo, com dois clérigos, todos três homens de muito saber e de muita bondade — prosseguiu Roche.

Não se deixe enganar pelo ouro e pelas roupas pomposas, pensou Kivrin. O senhor vale dez deles. “O emissário do bispo ficou encarregado de rezar a missa do Natal”, dissera Imeyne, que não pareceu nem um pouco preocupada com o fato de que o religioso não havia jejuado, nem se dado ao trabalho de ir até a igreja fazer seus preparativos. O senhor vale cinquenta deles, pensou Kivrin. Cem.

— De Oxenford chegaram notícias de doença. O aldeão Tobord está melhorando, embora eu o tenha proibido de comparecer à missa. Uctreda estava fraca demais para vir. Levei sopa, mas ela não tomou. Walthef vomitou depois da dança, por ter bebido muita cerveja. Gytha queimou a mão na fogueira quando tentou puxar um tição. Eu nada temerei, mesmo que os últimos dias estejam próximos, os dias de ira e do juízo final, porque Vós nos mandastes muito auxílio.

Muito auxílio. Ele não receberia muito auxílio se Kivrin permanecesse ali escutando por muito tempo mais. O sol já nascera e, diante da luz rósea e dourada que brotava das janelas, ela podia ver as gotas duras de cera penduradas nos castiçais, a tisna acumulada na base das velas, uma grande gota de cera sobre a toalha do altar. O dia da ira e do juízo final seriam as palavras mais apropriadas para descrever o que aconteceria se a igreja estivesse naquelas condições quando Lady Imeyne adentrasse o recinto para acompanhar a missa.

— Padre Roche — chamou ela.

Roche virou-se na mesma hora e tentou ficar de pé, com as pernas visivelmente entorpecidas pelo frio. Pareceu surpreso, até mesmo assustado, e Kivrin disse, depressa:

— É Katherine.

E deu um passo para dentro da luz de uma das janelas, para que pudesse ser vista.

Ele fez o sinal da cruz, ainda parecendo assustado, e ela se perguntou se ele não estaria cochilando enquanto rezava, ainda sem ter acordado por completo.

— Lady Imeyne me mandou trazer estas velas — disse ela, contornando o biombo para vê-lo de perto. — Ela me pediu para dizer ao senhor que as velas devem ficar nos castiçais de prata que estão nos lados do altar. Também me pediu para dizer…

Ela se deteve, constrangida de transmitir os decretos de Imeyne, e prosseguiu:

— Vim ajudar o senhor a preparar a igreja para a missa. Como posso dar minha contribuição? Devo lustrar os castiçais? — perguntou ela, estendendo as velas envoltas no pano.

Ele não recebeu as velas nem respondeu nada, e ela franziu a testa, imaginando se em sua ansiedade para protegê-lo da ira de Imeyne não teria infringido alguma regra. As mulheres não tinham permissão para manusear os utensílios ou os recipientes usados na missa. Talvez não pudessem pegar nos castiçais, também.

— Será que tenho permissão para ajudar? — indagou ela. — Não deveria ter vindo aqui no santuário?

Roche pareceu voltar a si de repente.

— Não há nenhum lugar onde uma serva de Deus não possa ir — respondeu ele, recebendo e colocando as velas oferecidas em cima do altar. — Mas alguém como você não deveria estar fazendo uma tarefa tão humilde.

— É uma tarefa para Deus — apressou-se a dizer ela, retirando as velas queimadas pela metade que estavam enfiadas nos braços dos castiçais. Havia filetes sólidos de cera de cada lado. — Vamos precisar de um pouco de areia e uma faca para raspar esta cera.

Ele saiu imediatamente e, enquanto esteve fora, ela tirou às pressas as velas no biombo, substituindo-as por velas de sebo.

Ele voltou trazendo a areia, um punhado de trapos sujos e um substituto muito precário para uma faca, mas que cortava a cera. Kivrin começou trabalhando na toalha do altar, raspando o pingo de cera, ansiosa, por não saber se dispunham de muito tempo. O emissário do bispo não manifestara nenhuma pressa em se erguer da cadeira e se preparar para a missa, mas ninguém seria capaz de saber quanto tempo ele resistiria a uma pressão de Imeyne.

Também não me resta muito tempo, pensou ela, lustrando os castiçais. Dissera a si mesma que tinha tempo de sobra, mas acabara passando a noite inteira tentando abordar Gawyn e nem sequer tinha conseguido uma aproximação. Quem sabe no dia seguinte o privé cismasse de ir à caça ou a um Resgate das Donzelas, ou talvez o emissário do bispo e seus aduladores bebessem todo o vinho e decidissem partir à procura de mais, levando-a com eles.

“Não há nenhum lugar onde uma serva de Deus não possa ir”, dissera Roche. Com exceção do local do salto, pensou ela. Com exceção da minha casa.

Ela esfregou vigorosamente a areia úmida sobre a cera incrustada na borda do castiçal, e de repente um pedacinho voou e foi bater na vela que Roche estava desbastando.

— Desculpe — disse ela. — Lady Imeyne…

E se deteve.

De nada adiantava revelar que seria mandada para longe. Se ele tentasse interceder junto a Lady Imeyne, isso acabaria apenas piorando as coisas, e ela não queria ser a culpada por uma deportação do padre para Osney.

Roche estava esperando que ela terminasse a frase.

— Lady Imeyne me pediu para avisar o senhor que o emissário do bispo vai rezar a missa — disse ela.

— Será uma ocasião abençoada a de ouvir uma palavra sagrada como essa, no dia do nascimento de Cristo Jesus — falou ele, pousando no altar o cálice bem polido.

O dia do nascimento do Cristo Jesus. Ela tentou visualizar como estaria a igreja de St. Mary the Virgin naquela manhã, a música e o calor, as velas a laser cintilando nos castiçais de aço inoxidável, mas foi como algo apenas imaginado, difuso, irreal.

Ela colocou os castiçais de pé em extremidades opostas do altar. Tinham um brilho fosco à luminosidade multicor das janelas. Enfiou ali três velas de Imeyne e trouxe o castiçal da esquerda mais para perto, para equilibrar a luz.

Não havia nada que ela pudesse fazer quanto àquela batina, e Imeyne sabia muito bem que era a única que Roche tinha. Ele havia manchado a manga esquerda na areia molhada, e ela a limpou com a mão.

— Preciso ir acordar Agnes e Rosemund para assistirem à missa — comentou ela, limpando a poeira da parte da frente da túnica, e depois continuou, quase como se não percebesse: — Lady Imeyne pediu ao emissário do bispo que me levasse para o convento em Godstow.

— Deus mandou você para junto de nós para nos ajudar — disse Roche. — Ele não permitirá que seja levada.

Quem me dera poder acreditar, pensou Kivrin, enquanto cruzava o relvado. Ainda não se via nenhum sinal de vida, embora houvesse fumaça saindo de um ou dois tetos. A vaca tinha sido trazida para fora e estava mordiscando o capim perto da fogueira, onde a neve havia derretido. Talvez todo mundo esteja dormindo e eu possa acordar Gawyn e perguntar onde é o local do salto, cogitou, e nisso viu Rosemund e Agnes vindo na sua direção. Estavam as duas com uma aparência exausta. A túnica de veludo verde de Rosemund estava coberta de fiapos de palha e poeira de feno, e o cabelo de Agnes estava na mesma situação. A pequena se soltou de Rosemund assim que avistou Kivrin, e correu para ela.

— Você devia estar dormindo — disse Kivrin, limpando a palha aderida à roupa vermelha da menina.

— Vieram uns homens — comentou Agnes. — Eles acordaram a gente.

Kivrin lançou um olhar interrogativo para Rosemund.

— Seu pai chegou?

— Não — respondeu ela. — Eu não conheço eles. Acho que devem ser criados do emissário do bispo.

Eram mesmo. Havia quatro deles, todos monges (embora não pertencentes à mesma ordem do monge cisterciense), e dois burros sobrecarregados. Era óbvio que somente agora estavam conseguindo alcançar o seu senhor. Descarregaram dois grandes baús enquanto Kivrin e as meninas olhavam a cena, e depois várias bolsas de lã rústica, e um enorme barril de vinho.

— Devem estar planejando ficar por muito tempo — observou Agnes.

— Sim — concordou Kivrin. “Deus mandou você para junto de nós. Ele não permitirá que seja levada.” — Vamos — disse ela, com alegria. — Vou pentear seu cabelo.

Ela levou Agnes para dentro e aprontou a menina. Aquele sono tão curto não havia melhorado muito a disposição da pequena, que se recusou a ficar de pé e parada enquanto Kivrin penteava seu cabelo. Kivrin precisou se esforçar até a hora da missa para conseguir desembaraçá-lo por inteiro, e Agnes continuou choramingando durante todo o trajeto até a igreja.

Aparentemente, havia tanta vestimenta quanto vinho na bagagem dos religiosos. O emissário do bispo estava trajando uma casula de veludo negro sobre suas roupas brancas resplandecentes, e o monge também reluzia em metros e metros de samito e de bordados áureos. O secretário não estava à vista, assim como o padre Roche, provavelmente exilado do local devido à batina suja. Kivrin olhou para a parte de trás da igreja, na esperança de que ele estivesse ali para testemunhar o momento sagrado, mas não o avistou entre os aldeões.

Estes também pareciam fatigados, e alguns estavam visivelmente de ressaca. Tal como o emissário do bispo, que matraqueou as palavras da missa numa voz sem entonação e com um sotaque que Kivrin mal conseguiu entender. Nada daquilo se assemelhava ao latim do padre Roche. Nem ao que Latimer e o padre da Sagrada Igreja Re-Formada haviam ensinado. As vogais estavam todas erradas e o “c” em “excelsis” soava quase como um “z”. Ela pensou em Latimer, martelando em aula o som das vogais longas, e no padre da Sagrada Igreja Re-Formada insistindo em “c como em carne”, ou no “verdadeiro latim”.

E era o verdadeiro latim, pensou ela. “Não vou abandonar você”, dissera ele, assim como: “Não tenha medo”. E eu compreendi.

À medida que a missa avançava, o emissário entoava as partes cantadas cada vez mais depressa, como se estivesse louco para que aquilo acabasse logo. Lady Imeyne dava a impressão de não perceber. Parecia presunçosa e serena, convicta de estar fazendo o bem, e anuindo com aprovação durante o sermão inteiro, que parecia tratar do desapego às coisas do mundo.

Quando se amontoaram à saída, no entanto, ela parou na porta da igreja e olhou para o campanário, os lábios contraídos com desaprovação. E agora, o quê?, pensou Kivrin. Uma mancha de poeira no sino?

— Viu a aparência daquela igreja, Lady Yvolde? — perguntou Imeyne, irritada, à irmã de Sir Bloet, por cima do toque do sino. — Ele não colocou velas nas janelas do santuário, apenas fogareiros a óleo, como os camponeses usam. — Ela parou. — Preciso voltar e falar com ele a respeito disso. Ele fez nossa Casa cair em desgraça diante do bispo.

Marchou na direção do campanário, o rosto contraído com a fúria dos justos. E se ele tivesse colocado velas nas janelas, pensou Kivrin, teriam sido velas do tipo errado ou colocadas na posição errada. Ou ele teria apagado os pavios da maneira errada. Ela gostaria de poder avisar Roche de algum modo, mas Imeyne a esta altura já estava na metade do caminho para o campanário e Agnes puxava o braço de Kivrin com insistência.

— Estou cansada — disse ela. — Quero ir para a cama.

Kivrin levou Agnes para o celeiro, desviando dos aldeões que davam início a mais uma rodada de folguedos. Jogaram lenha nova na fogueira, e muitas jovens se deram as mãos e passaram a dançar em volta do fogo. Agnes deitou-se de boa vontade sobre a palha, mas se levantou logo em seguida e, antes mesmo que Kivrin alcançasse a casa, apareceu trotando no seu encalço.

— Agnes — disse Kivrin com severidade, as mãos nos quadris. — O que está fazendo de pé? Você não disse que estava cansada?

— Blackie está doente.

— Doente? — perguntou Kivrin. — O que tem de errado com ele?

— Ele está doente — repetiu Agnes, agarrando a mão de Kivrin e conduzindo-a de volta até o celeiro. As duas subiram para a parte alta. Blackie estava sobre a palha, já sem vida. — Pode fazer uma cataplasma para ele?

Kivrin ergueu o cãozinho nas mãos e voltou a pousá-lo depressa. Já apresentava alguma rigidez.

— Oh, Agnes, receio que ele esteja morto.

Agnes agachou-se e olhou bem de perto o filhote, muito interessada.

— O capelão da minha avó também morreu — disse ela. — Blackie teve uma febre?

Blackie tinha sido muito manipulado, pensou Kivrin. Tinha sido passado de mão em mão, apertado, atropelado, quase sufocado. Morrera de excesso de carinho. E logo no Natal, embora Agnes não parecesse muito incomodada.

— Vai haver um funeral? — perguntou a menina, tocando com cautela na orelha de Blackie com a ponta do dedo.

Não, pensou Kivrin. Na Idade Média não havia enterros de cães numa caixa de sapatos. Os contemps se livravam dos animais mortos simplesmente atirando os corpos no meio do mato cerrado ou em um rio, para a correnteza levar.

— Vamos enterrá-lo no bosque — respondeu Kivrin, mesmo sem saber como fariam isso, com o chão todo gelado. — Embaixo de uma árvore.

Pela primeira vez Agnes pareceu triste.

— O padre Roche precisa enterrar Blackie na igreja — disse ela.

O padre Roche faria praticamente qualquer coisa por Agnes, mas Kivrin não conseguia imaginá-lo cumprindo um rito funerário cristão em honra de um animal. A ideia de que animais de estimação fossem criaturas dotadas de alma não se tornaria popular senão no século XIX, e mesmo os vitorianos não chegaram a exigir sepultamento cristão para seus cães e gatos.

— Eu direi a oração dos mortos — falou Kivrin.

— O padre Roche tem que enterrar na igreja — insistiu Agnes, fazendo biquinho com os lábios. — E depois tocar o sino.

— Só podemos enterrá-lo depois do Natal — Kivrin apressou-se a dizer. — Depois do Natal perguntarei ao padre Roche o que ele pode fazer.

Pensou no que faria com o corpo por enquanto. Não podia deixá-lo no mesmo lugar onde as garotas dormiam.

— Venha, vamos levar Blackie para baixo — falou ela.

Recolheu o cãozinho, tentando não fazer uma careta, e desceu a escada com ele.

Olhou em torno à procura de uma caixa ou de um saco onde pudesse guardar o filhote, mas não encontrou nada. Por fim, colocou Blackie num recanto, por trás de uma segadeira, e pediu a Agnes que trouxesse alguns punhados de palha para cobri-lo.

Agnes jogou a palha sobre o corpo.

— Se o padre Roche não tocar o sino, Blackie não vai poder entrar no céu — explicou ela, e começou a chorar.

Kivrin precisou de meia hora para acalmá-la. Embalou a menina nos braços, limpando os vestígios das lágrimas em seu rosto e dizendo: “Pssst, pssst”.

Ouviu barulho vindo do pátio. Imaginou se as comemorações natalinas tinham se transferido para lá. Ou se os homens estavam se preparando para ir à caça. Podia ouvir os relinchos dos cavalos.

— Vamos ver o que está acontecendo no pátio — disse ela. — Talvez seu pai tenha chegado.

Agnes sentou-se, limpando o nariz.

— Vou contar a ele sobre Blackie — comentou ela, saltando do colo de Kivrin.

As duas saíram para o pátio, que estava tomado de pessoas e de cavalos.

— O que estão fazendo? — quis saber Agnes.

— Eu não sei — respondeu Kivrin, mas para ela era muito claro o que estavam fazendo.

Cob retirava do estábulo o garanhão branco do emissário do bispo, e os servos buscavam os sacos e as caixas que tinham guardado pela manhã. Lady Eliwys estava parada à porta, olhando ansiosa para a agitação.

— Eles estão indo embora? — perguntou Agnes.

— Não — respondeu Kivrin. Não. Não podem estar indo embora. Eu ainda não sei onde é o local do salto.

O monge apareceu, trajando seu hábito branco e sua capa. Cob entrou de novo no estábulo e voltou a sair, desta vez trazendo uma sela e a égua que Kivrin montara quando foram buscar o azevinho.

— Sim, estão indo embora — afirmou Agnes.

— Eu sei — disse Kivrin. — Estou vendo.