O Livro do Juízo Final
Capítulo 27
Levaram Rosemund para o pavilhão e, no espaço estreito junto da cama, prepararam para ela um catre no chão. Roche cobriu a menina com um lençol de linho e foi buscar cobertores e mantas no estábulo.
Kivrin receava que Rosemund se assustasse à visão do secretário, com aquela língua grotesca e a pele escurecida, mas a menina mal olhou para ele. Rosemund tirou o casaco e os sapatos, e deitou-se, agradecida, no catre estreito. Kivrin pegou o cobertor forrado com pele de coelho, em cima da cama, e colocou por cima dela.
— Eu vou gritar e correr pra cima das pessoas, como o secretário? — perguntou Rosemund.
— Não — respondeu Kivrin, e tentou sorrir. — Procure descansar. Sente alguma dor?
— Sinto. No estômago — respondeu ela, pondo a mão na barriga. — E na cabeça. Sir Bloet me contou que a febre faz os homens dançarem. Eu pensei que não passava de uma história para me assustar. Ele disse que os homens dançavam até que o sangue começava a sair de suas bocas e eles morriam. Onde está Agnes?
— No sótão, com sua mãe — disse Kivrin.
Ela pedira a Eliwys para levar Agnes e Imeyne lá para cima e se trancar. Eliwys tinha obedecido sem nem sequer lançar uma olhadela para Rosemund.
— Meu pai vai chegar em breve — avisou Rosemund.
— Você deve ficar bem quieta agora, para descansar.
— Minha avó disse que é pecado mortal ter medo do marido, mas eu não posso evitar. Ele toca em mim de maneira indecorosa. E conta histórias de coisas que não podem ser verdade.
Tomara que ele morra agonizando, pensou Kivrin. Espero que já esteja infectado.
— Meu pai já está a caminho, vindo para cá — insistiu Rosemund.
— Você precisa dormir.
— Se Sir Bloet estivesse aqui agora, ele não teria coragem de tocar em mim — comentou ela, e fechou os olhos. — Seria a vez dele de ficar com medo.
Roche entrou, trazendo uma braçada de roupas de cama, e voltou a sair. Kivrin amontoou todas sobre o corpo de Rosemund, prendendo-as em volta, e levou outra vez para a cama do secretário o cobertor com pele de coelho.
O doente estava bem quieto, mas já se ouvia de novo aquele estertor em sua respiração, e ele tossia de vez em quando. A boca estava aberta, e a língua, coberta por uma camada esbranquiçada.
Não posso permitir que isso aconteça com Rosemund, pensou Kivrin, ela só tem doze anos. Tinha que haver alguma coisa que pudesse fazer. Qualquer coisa. O bacilo da peste era uma bactéria. Estreptomicina e sulfa eram eficazes, mas Kivrin não podia fabricar nada ali, e não sabia onde era o local do salto.
Além disso, Gawyn fora mandado para Bath. Claro. Eliwys correra até ele, jogara os braços em volta do privé, e com isso ele teria ido para qualquer lugar, feito qualquer coisa por sua dama, até mesmo trazer de volta o marido dela.
Kivrin tentou pensar quanto tempo Gawyn levaria para ir a Bath e voltar. Eram setenta quilômetros. Forçando o cavalo, ele chegaria lá em um dia e meio. Três dias, ida e volta. Se nada mais o atrasasse, se conseguisse encontrar-se com Lord Guillaume, se também não adoecesse. A dra. Ahrens dissera que as vítimas da peste, quando não eram tratadas, morriam dentro de quatro ou cinco dias, mas Kivrin achava que o secretário não resistiria tanto. Sua temperatura tinha voltado a subir.
Kivrin tinha guardado o cofre de Imeyne embaixo da cama quando trouxe Rosemund para cima. Puxou-o para fora e examinou aquele sortimento de ervas secas e de pós. Os contemps usavam remédios domésticos como erva-de-são-joão e dulcamara durante a peste, mas eram alternativas tão inúteis quanto pó de esmeraldas.
A pulicária poderia ser útil, mas Kivrin não achou nenhuma amostra das florezinhas roxas ou cor-de-rosa nas pequenas bolsinhas de tecido.
Quando Roche voltou, ela lhe pediu que fosse buscar ramos de salgueiro perto do córrego, e os mergulhou num chá amargo.
— Que infusão é esta? — indagou o padre, provando e fazendo uma careta.
— Aspirina — disse Kivrin. — Pelo menos, espero.
Roche deu uma caneca ao secretário, que estava a léguas de sentir o gosto, e a infusão pareceu baixar um pouco sua temperatura. Porém, a de Rosemund continuou aumentando ininterruptamente ao longo da tarde, até que ela passou a chocalhar os dentes com calafrios. Quando Roche saiu para dizer as vésperas, a pele da menina queimava ao toque.
Kivrin retirou as cobertas todas e tentou banhar os braços e as pernas de Rosemund com água fria para baixar a febre, mas a menina se debateu, zangada.
— Não deve me tocar assim, senhor — dizia ela, com os dentes batendo de frio. — Pode ter certeza de que vou contar ao meu pai quando ele voltar.
O padre Roche não retornou. Kivrin acendeu as velas de sebo e prendeu as bordas do lençol em volta de Rosemund, pensando onde ele poderia estar.
A menina parecia pior àquela luz fumacenta, o rosto pálido e contraído. Murmurava algo o tempo todo, repetindo o nome de Agnes. Até que a certa altura disse, inquieta: “Onde está ele? Já devia estar aqui”.
Devia estar mesmo, pensou Kivrin. O sino tocara as vésperas havia mais de meia hora. Roche está na cozinha, preparando sopa para nós, disse ela para si mesma. Ou então foi falar com Eliwys sobre o estado de saúde de Rosemund. Ele não está doente. Ainda assim, Kivrin ficou de pé e subiu no banco junto da janela e olhou para o pátio lá fora. O tempo estava esfriando, e o céu escuro surgia carregado de nuvens. Não havia ninguém no pátio, nenhuma luz, nenhum som.
Roche abriu a porta e ela pulou no chão, sorrindo.
— Onde esteve? Eu fiquei aqui… — disse ela, e se deteve.
Roche estava trajando as vestimentas e carregando os santos óleos e o viático. Não, pensou ela, relanceando o olhar para Rosemund. Não.
— Estive na casa de Ulf, o bailio. Ouvi sua confissão — comentou ele.
Graças a Deus que não é Rosemund, pensou ela, e só então percebeu a gravidade do que Roche estava contando. A peste tinha chegado ao vilarejo.
— Tem certeza? — perguntou ela. — Ele tem os caroços da peste?
— Tem.
— Quantas pessoas moram com ele?
— A mulher e dois filhos — respondeu ele, com voz cansada. — Pedi para ela usar uma máscara, e mandei que os filhos fossem cortar salgueiros.
— Bom — falou ela.
Não havia nada de bom naquilo. Não, não era verdade. Pelo menos era a peste bubônica, não a pneumônica, de modo que havia uma chance de que a mulher e os filhos não adoecessem também. No entanto, quantas outras pessoas ele não teria infectado? E o próprio Ulf teria sido infectado por quem? Ulf não devia ter tido qualquer contato com o secretário. Devia ter contraído a doença com algum dos servos.
— Há outras pessoas doentes?
— Não.
Isso não significava nada. Os contemps só chamavam o padre quando estavam muito doentes mesmo, quando estavam mortos de medo. Talvez já houvesse mais três ou quatro casos da doença no vilarejo. Talvez uma dúzia.
Ela sentou no banco junto à janela, tentando pensar no que podia fazer. Nada, pensou. Você não pode fazer nada. A peste varreu os vilarejos, um depois do outro, devastou famílias inteiras, cidades inteiras. De um terço a metade da Europa.
— Não! — gritou Rosemund, e tentou se levantar.
Kivrin e Roche correram até ela, mas Rosemund já desabara de novo no catre. Eles cobriram a garota, que tentou chutar as cobertas para longe.
— Vou contar à minha mãe, Agnes, sua menina má! — murmurou ela. — Me deixe sair.
À medida que a noite avançava o frio foi aumentando. Roche buscou mais carvão para o braseiro, e Kivrin subiu de novo para pregar o pano encerado que vedava a janela, mas mesmo assim o ambiente continuava gelado. Kivrin e Roche se revezavam junto ao braseiro, tentando dormir um pouco, e acordavam tremendo tanto quanto Rosemund.
O secretário já não tremia, mas se queixava do frio, e suas palavras soavam pastosas como na voz de um bêbado. Seus pés e suas mãos estavam gélidos e com pouca sensibilidade.
— Eles precisam se aquecer perto do fogo — disse Roche. — Devemos levar os dois para o salão.
O senhor ainda não entendeu, pensou Kivrin. Nossa única esperança consiste em manter os doentes isolados, em não deixar que a infecção se propague. Mas ela já se propagou, refletiu, imaginando em seguida se as extremidades de Ulf também estariam tão geladas e como o bailio faria para se aquecer. Kivrin já havia entrado numa daquelas cabanas e sentado junto ao fogo. Não dava para aquecer um gato.
Os gatos morriam também, pensou ela, e olhou para Rosemund. Os tremores agitavam o pobre corpo da menina, e ela já parecia mais magra, mais consumida.
— A vida deles está se esvaindo — observou Roche.
— Eu sei — concordou Kivrin, e começou a recolher as roupas de cama. — Diga a Maisry para espalhar palha no chão do salão.
O secretário conseguiu descer a escada apoiado em Kivrin e Roche, mas Rosemund teve que ser carregada nos braços do padre. Eliwys e Maisry estavam espalhando palha sobre as pedras do lado mais afastado do salão. Agnes ainda dormia, e Imeyne estava outra vez ajoelhada no mesmo lugar da noite anterior, as mãos postas rigidamente diante do rosto.
Roche deitou Rosemund, e Eliwys começou a cobri-la.
— Onde está meu pai? — indagou Rosemund, com voz rouca. — Por que não está aqui?
Agnes se mexeu. Daí a pouco poderia estar acordada, arrastando-se para o catre de Rosemund ou indo espiar o secretário de perto. Precisava encontrar uma maneira de manter Agnes longe dali. Olhou para os caibros do teto, mas mesmo os que ficavam por baixo do sótão estavam altos demais para que fosse possível pendurar cortinas ali, sem contar que todas as cobertas e peles já estavam sendo utilizadas. Kivrin começou a deitar todos os bancos ao comprido, uns por cima dos outros, improvisando uma barricada. Roche e Eliwys vieram ajudar, e juntos conseguiram erguer a mesa de cima dos cavaletes e encostá-la aos bancos.
Eliwys voltou a sentar junto de Rosemund. A menina já dormia, o rosto, afogueado à luz vermelha das chamas.
— Precisa usar uma máscara — pediu Kivrin.
Eliwys assentiu, mas não se mexeu. Alisou o cabelo de Rosemund colado ao rosto.
— Ela era a favorita do meu marido — disse.
Rosemund dormiu durante metade da manhã. Kivrin afastou o madeiro de Yule para o lado do fogo e empilhou lenha cortada para alimentar as chamas. Descobriu os pés do secretário, para que o calor chegasse a eles.
Durante a Peste Negra, o médico do Papa fizera o pontífice sentar numa sala entre dois grandes fogos acesos, e ele não contraiu a doença. Alguns historiadores achavam que o calor tinha matado o bacilo da peste. Era mais provável que o papa tivesse sido salvo porque se manteve afastado do seu rebanho altamente contagioso, mas valia a pena tentar. Tudo valia a pena tentar, pensou Kivrin, olhando para Rosemund. Pôs mais lenha nas chamas.
O padre Roche saiu para dizer as matinas, embora já passasse do meio da manhã. O sino acordou Agnes.
— Quem derrubou os bancos? — perguntou ela, ao ver a barricada.
— Você não deve passar para o lado de cá — avisou Kivrin, mantendo-se afastada. — Deve ficar junto da sua avó.
Agnes escalou um dos bancos e olhou por cima da tábua da mesa.
— Estou vendo Rosemund — comentou a menina. — Ela morreu?
— Ela está muito doente — respondeu Kivrin, muito séria. — Você não pode vir para perto de nós. Vá brincar com seu carrinho.
— Quero ver Rosemund — falou ela, passando uma perna por cima da mesa.
— Não! — gritou Kivrin. — Vá sentar junto da sua avó!
Agnes lançou para ela um olhar atônito e começou a chorar.
— Eu quero ver Rosemund! — gemeu alto, mas voltou a descer e sentou-se carrancuda ao lado de Imeyne.
O padre Roche entrou.
— O filho mais velho de Ulf adoeceu — disse. — Está com os caroços.
Apareceram mais dois casos ao longo da manhã e mais um durante a tarde, incluindo a mulher do caseiro. Todos apresentavam bulbos ou pequenos inchaços muito duros na região das glândulas linfáticas, menos a mulher do caseiro.
Kivrin foi com Roche para examiná-la. Ela estava cuidando do bebê, e seu rosto magro e fino parecia ainda mais afilado. Não estava tossindo nem vomitando, e Kivrin teve a esperança de que ela não tivesse desenvolvido bulbos.
— Usem máscaras — pediu ela ao caseiro. — Só alimentem o bebê com leite de vaca. Mantenham as crianças afastadas da doente — recomendou, desesperançada.
Seis crianças em dois aposentos. Por favor, que não seja a peste pneumônica, rezou. Por favor, não permita que ela chegue a todos.
Pelo menos Agnes estava em segurança. Não voltara a se aproximar da barricada depois de Kivrin gritar com ela. A menina ficou sentada algum tempo, fuzilando Kivrin com um olhar tão feroz que seria cômico em outras circunstâncias, e depois foi buscar o carrinho, que estava no sótão. Encontrou um lugar para ele na mesa e ficou brincando.
Rosemund estava acordada. Pediu a Kivrin um pouco de água, com voz rouca, e, assim que Kivrin a ajudou a beber, adormeceu sem demora. Até o secretário estava cochilando, o murmúrio de sua respiração já não tão alto, e Kivrin resolveu sentar um pouco ao lado de Rosemund, cheia de gratidão.
Devia ir lá fora, devia ir ajudar Roche com os filhos do caseiro, pelo menos para se certificar de que ele estava usando a máscara e lavando as mãos, mas de repente se sentiu cansada demais para se mover. Ah, se eu pudesse ficar encostada aqui mais um minuto, eu podia até conseguir pensar em alguma coisa.
— Eu queria ver Blackie — disse Agnes.
Kivrin sacudiu a cabeça com força e olhou ao redor, arrancando-se do que era quase um cochilo.
Agnes pusera sua capa vermelha e o capuzinho, e estava avançando o mais que podia no limite da barricada.
— Você prometeu que ia me mostrar a sepultura do meu cãozinho.
— Psst — pediu Kivrin —, assim vai acordar sua irmã.
Agnes começou a chorar, não aquele pranto bem alto que usava para fazer chantagem, mas uns soluços contidos. Ela também está no limite, pensou Kivrin. Passou o dia sozinha, com Rosemund isolada, Roche e eu atarefados, todo mundo ocupado, distraído, assustado. Pobrezinha.
— Você prometeu — repetiu Agnes, o lábio tremelicando.
— Não posso levar você para ver seu cãozinho agora — disse Kivrin, num tom carinhoso. — Mas vou contar uma história. Só não podemos fazer barulho, certo? — Ela pôs o dedo nos lábios. — Não podemos acordar nem Rosemund nem o secretário.
Agnes enxugou com a mão o nariz escorrendo.
— Vai me contar a história da donzela no bosque? — perguntou ela, num sussurro teatral.
— Vou.
— O carrinho pode ouvir também?
— Pode — respondeu Kivrin num sussurro, e Agnes foi no outro lado do salão buscar a pequena carroça, correu de volta com ela, subiu no banco e se preparou para pular outra vez a barricada.
— Você deve sentar encostada na mesa, aí onde está — pediu Kivrin —, e eu sento aqui do outro lado.
— Assim não vou conseguir escutar você — protestou a menina, voltando a fechar o rosto.
— Claro que vai, se ficar quietinha.
Agnes pulou do banco e correu para sentar-se bem encostada à mesa. Colocou o carrinho no chão ao seu lado.
— É para ficar quietinho — disse para ele.
Kivrin foi dar uma olhada rápida nos doentes e então se aproximou, sentou-se apoiada à mesa e aí se sentiu outra vez exausta dos pés à cabeça.
— Era uma vez, numa terra remota — começou Agnes.
— Era uma vez, numa terra remota, uma donzela que morava perto de uma grande floresta…
— E o pai dela disse: “Não entre na mata”. Só que ela era uma menina má e não obedeceu — disse Agnes.
— Ela era uma menina má e não obedeceu — repetiu Kivrin. — Ela pôs a sua capa…
— Sua capa vermelha com capuz — acrescentou Agnes. — E entrou na floresta, mesmo depois que o pai disse para ela não fazer isso.
Mesmo depois que o pai disse para ela não fazer isso. “Eu vou ficar bem”, Kivrin falara ao sr. Dunworthy. “Sei me cuidar.”
— A donzela não devia ter entrado na floresta, não é mesmo? — perguntou Agnes.
— Ela queria saber o que tinha lá dentro. Ela achou que podia entrar lá só um pouquinho — respondeu Kivrin.
— Pois não podia! — sentenciou Agnes. — Eu não iria. A floresta é escura.
— A floresta é muito escura e cheia de barulhos que dão medo…
— Lobos — interrompeu Agnes, e dava para ouvi-la agitando-se do lado oposto da mesa, tentando ficar o mais perto possível de Kivrin, que imaginava a menina toda encolhida, os joelhos para cima, agarrada ao carrinho.
— A donzela disse “Eu não gosto daqui” e tentou voltar, mas não conseguia mais avistar a trilha por onde tinha vindo, e estava escurecendo, e de repente alguma coisa pulou em cima dela!
— Um lobo — sussurrou Agnes.
— Não — falou Kivrin. — Era um urso. E o urso disse: “O que você está fazendo na minha floresta?”.
— A donzela ficou com medo — comentou Agnes, medrosa, num fiapo de voz.
— Ficou. “Oh, sr. urso, por favor não me devore!”, implorou a donzela. “Eu me perdi e não estou conseguindo achar o caminho de volta para casa.” Por sorte, mesmo com uma cara cruel, o urso era bonzinho e disse: “Eu posso ajudar você a sair da floresta”. A donzela então perguntou: “Mas como? Está tão escuro!”. O urso respondeu: “Não tem problema, só precisamos falar com a coruja. Ela pode ver no escuro”.
Kivrin prosseguiu falando, construindo a história e sentindo um estranho conforto naquilo. Agnes parou de interromper, e depois de algum tempo Kivrin se levantou, ainda falando, e olhou por cima da barricada.
— “Você sabe o caminho para sair da floresta?”, o urso perguntou ao corvo, que respondeu: “Sim, eu sei”.
Agnes tinha adormecido contra a mesa, a capa toda espalhada em volta, o carrinho agarrado ao peito.
Eu devia cobrir ela, pensou Kivrin, mas não se atreveu. Todas as roupas de cama estavam cheias de micróbios da peste. Ela olhou de longe para Lady Imeyne, rezando lá no canto, o rosto para a parede.
— Lady Imeyne — chamou baixinho, mas a mulher não deu sinais de ter escutado.
Kivrin pôs mais lenha no fogo e voltou a sentar encostada na mesa, reclinando a cabeça para trás.
— “Eu sei o caminho para sair da floresta”, disse o corvo, “e vou mostrar” — continuou Kivrin, baixinho. — Só que ele saiu voando por cima das árvores, tão depressa que o urso e a donzela nem puderam acompanhar.
Ela devia ter cochilado porque, quando voltou a abrir os olhos, o fogo tinha se extinguido e seu pescoço doía. Rosemund e Agnes continuavam dormindo, mas o secretário estava acordado. Ele chamou Kivrin, mas as palavras soavam inteligíveis. Aquela camada branca cobria sua língua por inteiro, e seu hálito era tão apodrecido que Kivrin precisou virar o rosto para aspirar. Seu bulbo estava supurando de novo, um líquido grosso, escuro, que cheirava como carne podre. Kivrin pôs sobre ele uma nova atadura, cerrando os dentes para dominar a náusea, e levou a atadura usada para o extremo oposto do salão, antes de sair e lavar as mãos junto do poço, derramando a água gelada do balde primeiro sobre uma mão, depois sobre a outra, inalando haustos enormes de ar puro.
O padre Roche apareceu no pátio.
— Ulric, o filho de Hal — começou ele, caminhando ao lado dela para dentro da casa grande. — E um dos filhos do caseiro, Walthef. — Ele cambaleou e afundou num banco perto da porta.
— O senhor está exausto — observou Kivrin. — Devia deitar e descansar um pouco.
No outro lado do salão, Imeyne levantou-se, ficando desajeitadamente de pé, como se estivesse com as pernas dormentes, e começou a caminhar na direção deles.
— Não posso ficar. Vim apenas buscar uma faca para cortar ramos de salgueiro — explicou Roche, mas permaneceu sentado, olhando inerte para o fogo.
— Descanse um minuto, pelo menos — sugeriu Kivrin. — Vou buscar um pouco de cerveja clara para o senhor — disse, empurrando o banco para um lado e se levantando.
— Você trouxe esta doença — acusou Imeyne.
Kivrin se virou. A velha estava parada no meio do salão, olhando para Roche com expressão de fúria contida. Segurava o Livro das Horas com ambas as mãos contra o peito. O relicário pendia entre elas, balançando na correntinha.
— Foram os seus pecados que trouxeram a doença para cá. — Ela se virou para Kivrin. — Ele disse a litania de são Martinho no dia de santo Eusébio. Sua batina estava suja. — Imeyne falava no mesmo tom de quando estava se queixando à irmã de Sir Bloet, e suas mãos mexiam sem parar no relicário, contando os pecados do padre pelos elos da corrente. — Ele apaga as velas do jeito errado, quebra os pavios.
Kivrin a mediu. Ela está tentando amenizar a própria culpa. Ela escreveu ao bispo pedindo um novo capelão e entregou a localização da família. Não suporta pensar que contribuiu para trazer a peste para cá, pensou Kivrin, mas não consegue sentir nenhuma piedade. Você não tem o direito de botar a culpa em Roche, refletiu ela. Ele tem feito tudo que pode. Já você se ajoelhou num canto para rezar.
— Deus não mandou essa peste como castigo — disse ela a Imeyne, com frieza. — É uma doença.
— Ele esqueceu o Confiteor Deo — falou Imeyne, mas caminhou de volta para seu recanto e ajoelhou-se com dificuldade. — Ele pôs as velas do altar em cima do biombo.
Kivrin aproximou-se de Roche.
— Não é culpa de ninguém — consolou.
Ele estava olhando para o fogo.
— Se Deus está nos castigando, deve ser por algum pecado terrível — comentou ele.
— Não há pecado — disse ela. — E não é um castigo.
— Dominus! — exclamou o secretário, tentando sentar-se.
Voltou a tossir, uma tosse rascante, terrível, que parecia capaz de lhe rasgar o peito em dois, embora ele não expelisse nada. O barulho acordou Rosemund e ela começou a gemer. Se isso não é um castigo, pensou Kivrin, decerto se parece muito com um.
O sono não ajudara Rosemund a melhorar nem um pouco. Sua temperatura voltou a subir, e os olhos pareciam encovados. Ao menor movimento, a garota se encolhia, como se tivesse sido espancada.
Isso está matando ela, pensou Kivrin. Preciso fazer alguma coisa.
Quando Roche saiu e voltou, Kivrin subiu ao pavilhão e trouxe para baixo o cofre medicinal de Imeyne, que observou a cena com os lábios se movendo em silêncio. No entanto, quando Kivrin pôs o cofre diante dela e perguntou o que havia nos saquinhos de tecido, Imeyne simplesmente cobriu o rosto com as mãos e fechou os olhos.
Kivrin reconheceu algumas ervas. A pedido da dra. Ahrens, estudara ervas medicinais. Identificou a consolda, a pulmonária e as folhas esmagadas da tanásia. Havia uma bolsinha com sulfato de mercúrio em pó, algo que ninguém em pleno juízo daria de beber a outra pessoa, e um maço de dedaleira, que era quase igualmente perigosa.
Ela ferveu água, jogou dentro todas as ervas que reconheceu e deixou apurar. O aroma era maravilhoso, como um sopro de verão, e o resultado não tinha um sabor pior do que o do chá de casca de salgueiro, embora também não tenha ajudado. Ao anoitecer, o secretário estava tossindo sem parar, e bolhas rubras tinham começado a aparecer na barriga e nos braços de Rosemund, cujo bulbo estava do tamanho de um ovo e da mesma forma duro. Quando Kivrin tocou nele, ela gritou de dor.
Durante a Peste Negra, os médicos costumavam colocar cataplasmas sobre os bulbos ou lancetá-los. Também aplicavam sangrias e doses de arsênico às pessoas, lembrou Kivrin. É verdade que o secretário continuava vivo e tivera uma aparente melhora depois que seu bulbo se rompeu, mas lancetar um bulbo poderia espalhar a infecção ou, pior, fazê-la penetrar na corrente sanguínea.
Kivrin esquentou água e molhou o pano para cobrir com tiras o bulbo de Rosemund, mas mesmo que a água estivesse apenas morna a garota gritou ao primeiro toque. Kivrin precisou recorrer à água fria, que não teve resultado melhor. Nada disso está adiantando, pensou ela, enquanto segurava o pano frio contra a axila de Rosemund. Nada mesmo.
Preciso encontrar o local do salto, pensou. No entanto, aquele bosque se estendia por quilômetros, tinha centenas de carvalhos, dúzias de clareiras. Ela nunca encontraria. Sem falar que não podia abandonar Rosemund.
Talvez Gawyn retornasse. Como em algumas cidades os portões foram fechados, talvez ele não conseguisse sequer entrar. Quem sabe esbarrasse na estrada com um mensageiro com a notícia de que Lord Guillaume havia morrido. Volte, pensou Kivrin com força. Depressa. Volte, volte.
Ela mexeu mais uma vez no cofre de Imeyne, experimentando os conteúdos dos saquinhos. Aquele pó amarelo era enxofre. Médicos chegaram a usá-lo também em epidemias, queimando-o para fumigar o ar. Ela recordou que aprendera em História da Medicina que o enxofre matava algumas bactérias, mas não lembrava se isso acontecia apenas com os compostos da sulfa. De qualquer modo, era mais seguro do que lancetar o bulbo.
Usou as pontas dos dedos para testar um pouco do pó no fogo, e aquilo produziu uma fumaça amarelada que queimou a garganta de Kivrin mesmo através da máscara. O secretário arquejou, com falta de ar, e Imeyne, lá no seu recanto, deu início a uma série de tossezinhas secas.
Kivrin tinha esperado que o cheiro de ovos podres se dispersasse em alguns minutos, mas a fumaça amarela continuou pairando no ar como uma nuvem, provocando ardência nos olhos. Maisry correu para fora, tossindo dentro do avental, e Eliwys tentou escapar, levando Imeyne e Agnes para o sótão.
Kivrin escancarou a porta de entrada e ficou abanando o ar com uma das toalhas da cozinha, e depois de algum tempo o cheiro melhorou um pouco, embora ela continuasse com a garganta ressecada. O secretário continuou tossindo, mas Rosemund parou, e o pulso da menina ficou tão fraco que Kivrin quase não o sentia.
— Não sei o que fazer — confessou Kivrin, segurando o pulso dela, tão quente, tão seco. — Já tentei tudo.
Roche entrou, tossindo.
— Foi o enxofre — disse Kivrin. — Rosemund piorou.
O padre foi examinar a doente, tomou-lhe o pulso e depois saiu de novo, e Kivrin interpretou isso como um bom sinal. Ele não teria saído se Rosemund estivesse mal de verdade.
Voltou dentro de alguns minutos, trajando as vestimentas e conduzindo os óleos e o viático para o último sacramento.
— O que é isso? — questionou Kivrin. — Quer dizer que a mulher do caseiro morreu?
— Não — respondeu ele, e seu olhar foi além dela, na direção de Rosemund.
— Não! — exclamou Kivrin, ficando de pé às pressas e se interpondo entre ele e Rosemund. — Não vou permitir.
— Ela não deve morrer em pecado — falou ele, ainda olhando para a menina.
— Rosemund não está morrendo — rebateu Kivrin, e acompanhou o olhar dele.
Ela já parecia morta, com os lábios crestados entreabertos e os olhos inertes, sem piscar. Sua pele tinha adquirido um tom amarelado e estava muito esticada sobre os ossos do rosto. Não, pensou Kivrin desesperadamente. Preciso fazer alguma coisa para deter isso. Ela tem doze anos.
O padre Roche avançou com o cálice, e Rosemund ergueu o braço, como numa súplica, e o deixou cair.
— Temos que abrir o caroço — disse Kivrin. — Temos que deixar o veneno sair.
Ela achou que Roche se recusaria, que insistiria em ouvir a confissão de Rosemund primeiro, mas não. Ele colocou os objetos e o cálice sobre as lajes do piso e foi buscar uma faca.
— Uma bem afiada — gritou Kivrin às costas dele. — E traga vinho.
Ela colocou a panela com água de novo no fogo. Quando ele voltou, ela lavou a faca com água do balde, usando as unhas para raspar a sujeira incrustada perto do cabo. Levou a faca ao fogo, a empunhadura envolta na barra do casaco, e depois derramou água fervente sobre ela, e depois vinho, e depois água outra vez.
Levaram Rosemund mais para perto do fogo, com o lado do bulbo virado para as chamas, a fim de obterem o máximo possível de luminosidade, e Roche se ajoelhou junto à cabeça da menina. Com todo cuidado, Kivrin puxou o braço de Rosemund para fora da manga e amontoou panos dobrados sob a cabeça, como travesseiro. Roche segurou e virou o braço dela para expor a axila.
Estava quase do tamanho de uma maçã, e toda a articulação do ombro estava vermelha e inchada. As bordas do bulbo eram moles e quase gelatinosas, mas o centro era um caroço duro.
Kivrin abriu a garrafa trazida por Roche, embebeu com vinho um pedaço de pano e esfregou com ele o bulbo, bem de leve. Parecia uma pedra incrustada embaixo da pele. Kivrin não estava certa de que a faca conseguiria cortar aquilo.
Ficou com a faca estendida sobre o inchaço, receosa de cortar uma artéria, de espalhar ou piorar uma infecção.
— Ela não sente mais dor — comentou Roche.
Kivrin olhou para Rosemund. A menina não se movera, nem mesmo quando Kivrin pressionou o inchaço. Olhava por cima deles dois, olhava para algo terrível. Não pode ficar pior do que está, pensou Kivrin. Mesmo que eu venha a matá-la. Pior do que isso não pode ficar.
— Segure o braço dela — ordenou Kivrin, e Roche prendeu e imobilizou o pulso e o antebraço da garota contra o chão. Rosemund não reagiu.
Dois cortes rápidos e firmes, pensou Kivrin. Respirou fundo e encostou a faca no inchaço.
Rosemund contraiu o ombro em defensiva, afastou o braço para longe da lâmina, com a mão magra se contraindo em garra.
— O que estão fazendo? — perguntou, com voz rouca. — Vou contar pro meu pai.
Kivrin apanhou a faca outra vez. Roche voltou a agarrar e a prender contra o chão o braço de Rosemund, que o esmurrou fracamente com a outra mão.
— Sou a filha de Lord Guillaume D’Iverie — disse ela. — Vocês não podem me tratar assim.
Kivrin afastou-se do alcance dela e ficou de pé, tentando não tocar em nada com a faca. Roche agarrou e reteve sem dificuldade os pulsos da menina com uma única mão. Rosemund desferiu chutes fracos na direção de Kivrin. O cálice foi derrubado e o vinho se espalhou, formando poça turva.
— Precisamos amarrá-la — disse Kivrin.
Percebeu então que estava empunhando a faca erguida, como uma assassina. Envolveu a lâmina num dos panos que Eliwys havia rasgado, e começou a rasgar outro em tiras menores.
Roche amarrou os pulsos de Rosemund acima da cabeça, enquanto Kivrin atava os tornozelos da menina à perna de um dos bancos que estavam virados para cima. Rosemund parou de se debater mas, quando Roche puxou a camisa dela para cima, expondo o peito, disse:
— Eu conheço você. Você é o degolador que atacou Lady Katherine.
Roche inclinou-se para a frente, pondo todo o peso do corpo sobre o antebraço da menina, e Kivrin fez um corte no caroço.
O sangue escorreu e logo depois começou a esguichar, e Kivrin pensou, Cortei uma artéria. Ela disparou ao lado de Roche até a pilha de panos rasgados, encheu uma mão e apertou as tiras contra o corte. As faixas se ensoparam imediatamente e, quando Kivrin afastou a mão para receber novos panos estendidos por Roche, o sangue golfava da pequena incisão. Ela apertou a barra do casaco contra o ferimento, e Rosemund soltou um ganido parecido com o do cãozinho de Agnes, e pareceu desfalecer, embora não tivesse onde cair.
Matei ela, pensou Kivrin.
— Não consigo estancar a hemorragia — disse Kivrin, mas o sangramento já tinha parado.
Ela segurou a barra do casaco de encontro à ferida, contou até cem, depois até duzentos, e com muito cuidado ergueu uma pontinha para olhar para a ferida.
O sangue ainda minava do corte, mas agora misturado com um pus cinza-amarelo. Roche se inclinou para limpá-lo, mas Kivrin o deteve.
— Não, está cheio de germes da peste — avisou ela, tomando o pano da mão dele. — Não toque.
Ela limpou aquele repulsivo pus, que depois voltou a minar, acompanhado por um soro aquoso.
— Acho que já saiu tudo — disse a Roche. — Me passe o vinho. — Ela olhou em volta, buscando um pano limpo para embeber no vinho.
Não havia. Já tinham usado todos para estancar o sangue. Ela inclinou com cuidado a garrafa e fez o líquido escuro escorrer para dentro do corte. Rosemund não se moveu. Seu rosto estava sem cor, como se todo o sangue tivesse sido sugado dele. E foi, pensou Kivrin. E eu não tenho como fazer uma transfusão. Não tenho nem sequer um pano limpo.
Roche estava desamarrando Rosemund. Segurou aquela mãozinha dentro de sua mão enorme.
— O coração dela está batendo melhor agora — observou ele.
— Precisamos de mais panos — disse Kivrin, e desatou no choro.
— Meu pai vai enforcar vocês por causa disso — preveniu Rosemund.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(071145-071862)
Rosemund está inconsciente. Tentei lancetar seu bulbo ontem à noite para diminuir a infecção, mas receio que tenha apenas piorado as coisas. Ela perdeu muito sangue. Está pálida demais e o pulso está tão fraco que mal consigo senti-lo com o dedo.
O secretário também piorou. Continua com hemorragias subcutâneas e é visível que está se aproximando do fim. Lembro que a dra. Ahrens disse que a peste bubônica não tratada mata os infectados em quatro ou cinco dias, mas é possível que ele acabe não resistindo a tanto.
Lady Eliwys, Lady Imeyne e Agnes ainda estão bem, embora Imeyne pareça a um passo da insanidade com seu esforço para colocar a culpa em alguém. Ela socou com as duas mãos os ouvidos de Maisry hoje de manhã e disse que Deus estava castigando todos nós por causa da preguiça e da estupidez dela.
Maisry é preguiçosa e estúpida. Não dá para confiar Agnes aos cuidados dela nem por cinco minutos sequer. Hoje de manhã, quando eu pedi que fosse lá fora buscar água para lavar o ferimento de Rosemund, ela saiu, demorou mais de meia hora e acabou não trazendo a água.
Não me queixei. Não queria que Lady Imeyne batesse nela de novo, e acho que é só uma questão de tempo até ela começar a pôr a culpa em mim. Vi que me espreitava por cima do seu Livro das Horas quando fui buscar a água que Maisry tinha esquecido. Posso imaginar muito bem o que ela está pensando: que eu sei demais sobre a peste para não ser alguém que está fugindo da doença, que não é verdade que perdi a memória, que não fui ferida, apenas adoeci.
Se fizer essas acusações, receio que acabe convencendo Lady Eliwys de que eu sou a causa da peste, de que ninguém deve me dar ouvidos e de que o que devem fazer é desmanchar todas as barricadas e rezar juntas para que o Senhor venha libertá-las.
E eu, como irei me defender? Argumentando que sou do futuro, onde sabemos tudo, menos como curar a Peste Negra sem estreptomicina, menos como voltar.
Gawyn ainda não regressou. Eliwys está quase em pânico de tão preocupada. Quando Roche saiu para dizer as vésperas, esbarrou com ela junto do portão, sem capa, sem touca, olhando para a estrada. Fico pensando se ela chegou a cogitar que Gawyn podia já estar infectado antes de pegar a estrada para Bath. Ele viajou até Courcy acompanhando o emissário do bispo e, quando voltou, já sabia a respeito da peste.
(Pausa)
Ulf, o bailio, está à beira da morte, e sua esposa e um dos filhos já adoeceram. Não apresentam bulbos, mas a mulher tem vários caroços pequenos, como caroços de fruta, dentro da coxa. Preciso a toda hora pedir a Roche que ponha a máscara e que não toque nos doentes mais do que o necessário.
Os vids de História dizem que os contemps foram tomados pelo pânico e se acovardaram durante a Peste Negra, que fugiam e não cuidavam dos doentes, e que os padres eram os piores de todos, mas não é assim, longe disso.
Todos estão com medo, mas cada um faz o melhor que pode, e Roche é maravilhoso. Ele sentou e segurou a mão da mulher do bailio enquanto eu a examinava, e não se furta às tarefas mais repugnantes: lavar o ferimento de Rosemund, esvaziar os penicos, limpar o secretário. Nunca parece ter medo. Não sei de onde ele extrai sua coragem.
Ele continua a dizer as matinas e as vésperas, e a rezar, contando a Deus sobre Rosemund e sobre quem adoeceu, descrevendo os sintomas e explicando o que estamos fazendo por cada um dos doentes, como se Deus pudesse ouvi-lo de verdade. Do mesmo modo como eu falo com vocês.
Será que Deus está mesmo por aí, acabo me perguntando, mas isolado de nós por alguma coisa maior que o tempo, incapaz de se aproximar, incapaz de saber onde estamos?
(Pausa)
Podemos ouvir a peste. Os vilarejos badalam o toque de finados após cada sepultamento: nove toques para um homem, três para uma mulher, um por um bebê, e depois uma hora seguida de toque ininterrupto. Esthcote teve dois hoje pela manhã, e Osney não para de tocar desde ontem. O sino a sudoeste, aquele que eu mencionei ter ouvido quando cheguei, está parado. Não sei se é porque o surto da peste por lá já acabou ou se é porque não sobrou ninguém para soar as badaladas.
(Pausa)
Por favor, não permita que Rosemund morra. Não permita que Agnes adoeça. Traga Gawyn de volta.