O Livro do Juízo Final
Capítulo 17
Andrews não telefonou para Dunworthy senão no fim da tarde do dia de Natal. Colin, é claro, tinha insistido em acordar num horário desumano para abrir os presentes.
— Vai ficar na cama o dia inteiro? — perguntou ele, enquanto Dunworthy tateava à procura dos óculos. — São quase oito horas.
Na verdade, não passava de seis e quinze, e lá fora tudo ainda estava escuro, não dava sequer para ver se continuava chovendo. Colin tinha dormido muito mais do que ele. Depois do serviço religioso ecumênico, Dunworthy mandou Colin de volta para o Balliol e seguiu para o hospital para ter notícias de Latimer.
— Ele tem febre, mas os pulmões não foram afetados até agora — disse Mary. — Chegou aqui às cinco, disse que tinha começado a sentir uma dor de cabeça e um pouco de confusão mental por volta da uma da tarde. Quarenta e oito horas cravadas. Óbvio que não é preciso perguntar quem o contaminou. E você, como está?
Ela o segurou para fazer o exame de sangue, e logo depois apareceu um novo caso, e ele esperou para ver se conhecia a pessoa. Era mais de uma da manhã quando finalmente foi dormir.
Colin estendeu para Dunworthy um Christmas cracker e insistiu que ele o rasgasse, pusesse na cabeça a coroa de papel amarela e lesse em voz alta a frase da tirinha de papel. Ela dizia: “Quando é mais provável que as renas de Papai Noel entrem na casa? Quando a porta estiver aberta”.
Colin já estava usando uma coroa de papel vermelha. Sentou no chão e abriu os presentes. As balas fizeram um grande sucesso.
— Olhe só — disse Colin, estirando a língua. — Cada uma deixa de uma cor diferente.
De fato era assim, e não só a língua como os dentes e os lábios também mudaram de cor.
Ele pareceu satisfeito com o livro, embora fosse óbvio que preferia holos. Virou as páginas, olhando as ilustrações.
— Olhe só isto — apontou ele, passando o volume para as mãos de Dunworthy, que ainda estava tentando acordar.
Era a tumba de um cavaleiro, com a efígie convencional da armadura entalhada em cima. O rosto e a postura eram a imagem viva da expressão de descanso eterno, mas do lado, num friso, como uma janela aberta para o interior da tumba, o cadáver do cavaleiro se esforçava para sair do ataúde, com as carnes desfeitas tombando como farrapos, as mãos de esqueleto contraindo-se em garras desvairadas, o rosto uma caveira de horror com órbitas vazias. Vermes se esgueiravam entre suas pernas, por cima e por baixo de sua espada. “Oxfordshire, c. 1350”, dizia a legenda. “Um exemplo das macabras decorações de tumbas predominantes na época da peste bubônica.”
— Não é apocalíptico? — perguntou Colin, com deleite.
Ele foi até bastante generoso com relação ao cachecol.
— Acho que o que vale é a intenção, não é mesmo? — perguntou, erguendo por uma ponta, e completando, depois de um instante: — Talvez eu possa usá-lo quando for visitar os doentes, que não vão ligar para a aparência dele.
— Visitar que doentes? — perguntou Dunworthy.
Colin ergueu-se do chão, foi até a mochila e começou a remexer dentro dela.
— O vigário me perguntou ontem à noite se eu poderia dar uma mãozinha para ele, checar as pessoas, levar remédio para elas, essas coisas. — Ele tirou uma sacola de papel lá de dentro. — Este é o seu presente — disse, estendendo-o para Dunworthy. — Não está embrulhado — acrescentou, desnecessariamente. — Finch disse que precisamos poupar papel por causa da epidemia.
Dunworthy abriu a sacola e tirou de dentro uma caderneta vermelha e fina.
— É uma agenda — avisou Colin. — Para que o senhor marque os dias até a sua garota voltar. — Ele abriu a primeira página. — Veja só, eu pedi uma que tivesse dezembro.
— Obrigado — disse Dunworthy, abrindo a agenda. Natal. O Massacre dos Inocentes. Ano-Novo. Epifania.
— Muito gentil da sua parte — disse.
— Eu queria presentear o senhor com um modelo em miniatura da Carfax Tower que toca “I Heard the Bells on Christmas Day” — disse Colin —, mas custava vinte libras!
O telefone tocou, e Colin e Dunworthy mergulharam para atender.
— Aposto que é minha mãe — disse Colin.
Era Mary, ligando da Emergência.
— Como está se sentindo?
— Sonolento — respondeu Dunworthy.
Colin sorriu para ele.
— Como está Latimer? — perguntou Dunworthy.
— Bem… — disse Mary, que ainda estava de jaleco, mas tinha penteado o cabelo e parecia de bom humor. — Parece que o caso dele não é muito grave. Conseguimos estabelecer uma ligação com o vírus da Carolina do Sul.
— Latimer esteve na Carolina do Sul?
— Não. Um dos estudantes que pedi para você interrogar ontem à noite… Meu Deus, não, duas noites atrás. Estou perdendo a noção do tempo. Um daqueles que estavam na festa em Headington. Ele mentiu de início porque matou aulas no colégio para se encontrar com uma garota e deixou um amigo em seu lugar.
— Ele foi para a Carolina do Sul?
— Não, para Londres, mas a moça era dos Estados Unidos. Ela veio do Texas e fez conexão num voo em Charleston, na Carolina do Sul. O CDC está trabalhando para descobrir que outros casos passaram por esse aeroporto. Poderia falar com Colin? Quero desejar um feliz Natal para ele.
Dunworthy passou o aparelho a Colin, que logo passou a recitar os presentes que recebera, sem esquecer da frase que havia no seu Christmas cracker.
— O sr. Dunworthy me deu um livro sobre a Idade Média. — Ele ergueu a obra para que aparecesse na tela. — Sabia que eles cortavam a cabeça das pessoas por roubo e depois espetavam ao longo da ponte de Londres?
— Agradeça a ela pelo cachecol, mas não diga que está ajudando o vigário — sussurrou Dunworthy.
No entanto, Colin já estava devolvendo o aparelho para ele, dizendo:
— Ela quer falar com o senhor.
— Parece que você está cuidando dele muito bem — começou Mary. — Fico muito grata. Ainda não tive tempo de ir em casa, e detestaria saber que ele passou o Natal sozinho. Imagino que os presentes prometidos pela mãe dele não tenham chegado ainda, não é?
— Não — respondeu Dunworthy com cautela, lançando um olhar para Colin, que observava as ilustrações do livro sobre a era medieval.
— Nem para telefonar — comentou Mary, com desgosto. — A criatura não tem uma gota de sangue materno nas veias. Colin poderia estar num hospital com uma febre de quarenta graus e ela nem estaria sabendo, não acha?
— Como está Badri? — perguntou Dunworthy.
— A febre baixou um pouco de manhã, mas ele continua com os pulmões comprometidos. Hoje está entrando na sintamicina. Os casos da Carolina do Sul responderam bem ao tratamento. — Ela prometeu tentar encontrá-los para a ceia de Natal e desligou.
Colin ergueu os olhos do livro.
— Sabia que na Idade Média eles queimavam pessoas na fogueira?
Mary não veio nem telefonou, assim como Andrews. Dunworthy mandou Colin tomar o café da manhã no salão e tentou ligar para o técnico, mas todas as linhas estavam ocupadas, “por conta da alta demanda do feriado”, informou a voz do computador, que obviamente não fora reprogramado desde o começo da quarentena. Depois a voz eletrônica o aconselhou a adiar todas as ligações não essenciais até o dia seguinte. Dunworthy tentou mais duas vezes, com o mesmo resultado.
Nisso, Finch apareceu, trazendo uma bandeja.
— Tudo bem, senhor? — perguntou ele, ansioso. — Não está doente?
— Não estou. Estou esperando um telefonema.
— Oh, graças aos céus, senhor. Quando não apareceu para o café, cheguei a temer o pior. — Ele retirou a tampa da bandeja, toda salpicada de chuva. — Receio que seja um café da manhã de Natal muito pobre, mas a verdade é que estamos quase sem ovos. Não sei como será a ceia de Natal. Não há mais um só ganso em todo este perímetro.
A verdade é que era um café da manhã dos mais respeitáveis, um ovo cozido, arenques, bolo inglês com geleia.
— Pensei num pudim de Natal, senhor, mas estamos quase sem conhaque — disse Finch, puxando um envelope de plástico debaixo da bandeja e entregando a Dunworthy, que o abriu.
No alto havia um aviso do SNS dizendo: PRIMEIROS SINTOMAS DE INFLUENZA. 1) DESORIENTAÇãO. 2) DOR DE CABEÇA. 3) DORES MUSCULARES. EVITE CONTRAIR A DOENÇA. USE ININTERRUPTAMENTE SUA MáSCARA REGULAMENTAR DO SNS.
— Máscara? — perguntou Dunworthy.
— O SNS entregou um bocado delas hoje pela manhã — disse Finch. — Não sei como vamos conseguir lavar tudo. O sabão está quase acabando.
Havia quatro outros avisos, todos no mesmo tom, e um bilhete de William Gaddson que trazia em anexo, grampeada, uma cópia do extrato do cartão de crédito de Badri de segunda-feira, dia 20 de dezembro. Badri tinha aparentemente passado aquele tempo entre o meio-dia e as duas e meia da tarde fazendo compras de Natal. Comprara quatro livros de bolso na Blackwell. Um cachecol vermelho, e um carrilhão digital em miniatura, na Debenham. Que maravilha. Isso significava dezenas de contatos a mais.
Colin chegou trazendo bolinhos embrulhados num lenço. Continuava usando a coroa de papel, cuja aparência estava bem pior depois de levar chuva.
— Deixaria todo mundo muito mais tranquilo, senhor, se fosse até o salão depois de receber seu telefonema — disse Finch. — Sobretudo a sra. Gaddson, que está comentando que o senhor tem o vírus, contraído por causa da péssima ventilação nos dormitórios.
— Depois passarei lá, para salvar as aparências — prometeu Dunworthy.
Finch foi até a porta e se virou.
— Sobre a sra. Gaddson, senhor. Ela está se comportando de maneira pavorosa, criticando nossa instituição e exigindo ser alojada perto do filho. Ela está minando o moral coletivo.
— Não diga — disse Colin, pondo o embrulho de bolinhos em cima da mesa. — A chata me disse que pãezinhos quentes prejudicavam meu sistema imunológico.
— Não haverá algum tipo de trabalho voluntário que ela possa assumir na Emergência ou em outro lugar? — perguntou Finch. — Para que fique longe da faculdade?
— Não sei se temos o direito de impor a presença dela aos doentes indefesos. Pode ser fatal. Que tal o vigário? Ele estava em busca de voluntários para pequenas tarefas.
— O vigário?! — exclamou Colin. — Tenha dó, sr. Dunworthy. Eu estou trabalhando para o vigário.
— O padre da Sagrada Igreja Re-Formada, então — sugeriu Dunworthy. — Ele gosta de recitar a “Missa em Tempo de Peste” para levantar o moral. Os dois devem se dar maravilhosamente bem.
— Vou ligar para ele agora mesmo — disse Finch, e saiu.
Dunworthy tomou todo o café, exceto pelos bolinhos, que Colin confiscou, e depois foi levar a bandeja vazia para o salão, deixando ordens a Colin para que o procurasse imediatamente no caso de um telefonema do técnico. Continuava chovendo lá fora, as árvores estavam escuras e gotejantes, e as luzes natalinas, salpicadas de gotas de chuva.
Todos continuavam à mesa, fora as sineiras, que estavam agrupadas de um lado com suas luvas brancas, as pequenas sinetas arrumadas em seus lugares da mesa. Finch estava fazendo uma demonstração de como usar as máscaras distribuídas pelo SNS, puxando as fitas adesivas de ambos os lados e aplicando-as sobre as maçãs do rosto.
— Não está com uma aparência muito boa, sr. Dunworthy — disse a sra. Gaddson. — Não admira. As condições aqui são chocantes. Fico espantada por não ter acontecido uma epidemia aqui muito antes. Péssima ventilação, funcionários pouco cooperativos. O sr. Finch foi muito rude comigo quando falei que queria ficar alojada perto do meu filho. Ele disse que, como eu escolhi vir para Oxford durante uma quarentena, tinha que aceitar qualquer acomodação que me fosse oferecida.
Colin chegou correndo e deslizando sobre o piso.
— Alguém quer falar com o senhor no telefone — anunciou ele.
Dunworthy tentou rodear a mulher, mas ela se interpôs solidamente diante dele.
— Eu deixei bem claro para o sr. Finch que ele poderia ficar tranquilamente em casa enquanto seu filho corria perigo, mas eu não!
— Receio que eu tenha um telefonema para atender — disse Dunworthy.
— Falei para ele que nenhuma mãe de verdade se ausentaria quando seu filho está sozinho e doente num lugar distante.
— Sr. Dunworthy! — insistiu Colin. — Venha!
— É claro que o senhor não faz a menor ideia do que eu estou falando. Veja essa criança! — Ela agarrou Colin pelo braço. — Correndo embaixo dessa chuva, sem sequer um casaco!
Dunworthy aproveitou aquele movimento para seguir adiante.
— O senhor visivelmente não se importa se este garotinho pegar a gripe indiana — disse ela. Colin sacudiu o braço e se desvencilhou. — Deixa o coitado se encher de bolinhos e andar por aí ensopado de chuva.
Dunworthy atravessou o pátio a toda pressa, com Colin nos calcanhares.
— Não vou ficar surpresa se depois vier uma confirmação de que esse vírus teve origem no Balliol — gritou a sra. Gaddson lá atrás. — Pura negligência, é isso o que é. Pura negligência!
Dunworthy invadiu o aposento e agarrou o telefone. Estava sem imagem.
— Andrews! — gritou ele. — Você está aí? Não consigo ver você.
— O sistema está congestionado — respondeu Montoya. — Cortaram os canais de imagem. Aqui é Lupe Montoya. O sr. Basingame prefere salmão ou truta?
— O quê?! — exclamou Dunworthy, franzindo a testa para a tela em branco.
— Passei a manhã ligando para agências da Escócia especializadas em turismo de pesca. Isso quando conseguia completar as ligações. Dizem que a direção tomada por ele depende do que estava pensando em pescar, salmão ou truta. Conhece os amigos do sr. Basingame? Talvez haja algum parceiro de pesca na universidade que possa saber.
— Não sei — disse Dunworthy. — Srta. Montoya, lamento muito mas estou esperando uma ligação importantíssima…
— Já tentei tudo, hotéis, pousadas, marinas, até o barbeiro dele. Localizei a esposa em Torquay, e ela disse que ele não contou para onde ia. Espero que isso não seja um sinal de que o sr. Basingame está por aí com outra mulher, e não na Escócia.
— Srta. Montoya, eu não posso conceber…
— Pois é, mas é isso mesmo: por que não há uma só pessoa que saiba para onde ele foi? E por que ele ainda não ligou para ninguém aqui, agora que a epidemia já saiu em todos os jornais e em todos os vids?
— Srta. Montoya, eu…
— Bem, imagino que eu vou ter que localizar agências de pesca especializadas em salmão e em trutas. Se eu achar ele, aviso.
Ela desligou. Dunworthy pousou o aparelho e ficou olhando para a tela, com a certeza absoluta de que Andrews tinha ligado para falar com ele enquanto estava com Montoya na linha.
— O senhor não comentou que havia muitas epidemias na Idade Média? — perguntou Colin, sentado junto à janela com o livro medieval nos joelhos, comendo bolinhos.
— Sim.
— Bem, eu não estou achando nada parecido neste livro. Como se soletra?
— Tente “Peste Negra” — disse Dunworthy.
Dunworthy esperou ansiosamente durante uns quinze minutos e tentou ligar para Andrews de novo. A rede continuava ocupada.
— Sabia que a Peste Negra foi em Oxford? — indagou Colin. Ele havia devorado todos os bolinhos, e agora atacava os tabletes de sabão. — No Natal! Igualzinho a nós!
— A influenza nem se compara com a peste — respondeu ele, de olho no telefone, como se pudesse obrigá-lo a tocar. — A Peste Negra matou entre um terço e metade da Europa.
— Eu sei — disse Colin. — Sem falar que a peste foi muito mais interessante. Ela era propagada através dos ratos, e as pessoas ficavam com aqueles enormes bobos…
— Bulbos.
— Aqueles enormes bulbos que apareciam embaixo dos braços e ficavam pretos e inchavam até ficarem enormes, e então você morria! Isso que temos não chega nem perto — comentou ele, soando meio desapontado.
— Não mesmo.
— E a nossa é só uma doença. Porque havia três tipos de peste: bubônica, é essa aí, que tem os bulbos, pneumônica — disse ele, pronunciando “pi” — que entra nos seus pulmões e você tosse sangue, e sepeteciss…
— Septicêmica.
— Septicêmica, que entra na sua corrente sanguínea e mata você em três horas, deixando seu corpo inteiramente negro! Não é apocalíptico?
— É — respondeu Dunworthy.
O telefone tocou um pouco depois das onze, e Dunworthy abriu de novo o aparelho, mas era Mary, dizendo que não poderia participar da ceia.
— Tivemos cinco novos casos agora pela manhã.
— Iremos para a Emergência assim que eu receber o telefonema que estou esperando — prometeu Dunworthy. — Um dos meus técnicos vai me ligar. Eu preciso dizer a ele que venha aqui, para verificar o fix.
Mary ficou atenta.
— Já conferiu isso com Gilchrist?
— Com Gilchrist?! A única coisa em que ele pensa é mandar Kivrin para a Peste Negra!
— Mesmo assim não acho que você deva fazer isso sem avisar a ele. Gilchrist é o diretor em exercício e não faz sentido comprar briga com ele. Se alguma coisa não saiu como devia e Andrews tiver que abortar o salto, você vai precisar da cooperação de Gilchrist. — Ela sorriu para Dunworthy. — Quando vier, conversaremos melhor. E quando estiver aqui quero que tome uma inoculação.
— Pensei que estava esperando pelo análogo da vacina.
— E estava, mas o modo como os primeiros casos estão respondendo ao tratamento utilizado em Atlanta não é nada animador. Alguns apresentam uma ligeira melhora, mas Badri piorou, no mínimo. Quero que todas as pessoas do grupo de alto risco recebam um reforço de células-T.
Quando deu meio-dia, Andrews ainda não havia ligado. Dunworthy mandou Colin para a Emergência, para ser inoculado. O garoto voltou fazendo cara feia.
— Foi tão ruim assim? — quis saber Dunworthy.
— Até pior — respondeu Colin, jogando-se na poltrona perto da janela. — A sra. Gaddson me viu voltar. Exigiu saber onde estive e depois me perguntou por que eu fui inoculado e William não. — Ele lançou um olhar de reprovação a Dunworthy. — Bem, isso magoa, viu? Ela disse que, se tinha alguém do grupo de alto risco, era o pobre William, e que estavam agindo com despotismo me vacinando no lugar dele.
— Nepotismo.
— Nepotismo. Espero que o padre arranje para ela um trabalho absolutamente cadavérico.
— Como está sua tia-avó Mary?
— Acabei não vendo ela. Estavam todos muito ocupados, os corredores cheios de macas e tudo o mais.
Colin e Dunworthy se revezaram para ir jantar no salão. Colin voltou em menos de quinze minutos.
— As sineiras começaram a tocar — disse ele. — O sr. Finch pediu para dizer ao senhor que estamos sem açúcar e sem manteiga, e quase sem creme. — Ele puxou um pastelzinho de geleia do bolso do casaco. — Como é possível que eles nunca fiquem sem couve?
Depois de pedir para Colin anotar todos os recados e ir buscá-lo correndo caso Andrews ligasse, Dunworthy foi para o salão. As sineiras estavam a todo vapor, retinindo um cânone de Mozart.
Finch estendeu-lhe um prato que parecia ser quase todo de couves.
— Receio que estamos quase sem peru, senhor — disse ele. — Ainda bem que chegou. Está quase na hora da mensagem de Natal de Sua Majestade.
As sineiras encerraram o Mozart sob aplausos entusiásticos e a sra. Taylor aproximou-se, ainda com as luvas brancas calçadas.
— Oh, aí está o senhor — disse ela. — Senti sua falta durante o café da manhã, sr. Dunworthy. O sr. Finch nos disse que o senhor é a pessoa adequada para ouvir nosso pedido. Precisamos de uma sala de ensaios.
Ele sentiu-se tentado a dizer: “Eu não sabia que vocês ensaiavam”. Porém, apenas mastigou a couve.
— Uma sala de ensaios? — repetiu.
— Isso. Para que possamos praticar o nosso “Chicago Surprise Minor”. Combinei com o decano da Christ Church que vamos tocar aqui na véspera de Ano-Novo, mas precisamos de um lugar para ensaiar. Eu disse ao sr. Finch que aquela sala grande em Beard seria perfei…
— O salão comum principal.
— Tudo bem, mas o sr. Finch disse que o salão estava sendo usado como depósito de suprimentos.
Que suprimentos?, pensou Dunworthy. De acordo com Finch, estavam praticamente sem nada mais além de couves.
— E ele disse que as salas de conferências estão sendo reservadas para a enfermaria. Precisamos de um lugar tranquilo onde possamos nos concentrar direito. O “Chicago Surprise Minor” é muito complexo. As mudanças de entrada e saída e as alterações do desfecho exigem concentração total. E além disso existem os toques especiais.
— Sem dúvida — anuiu Dunworthy.
— A sala não precisa ser muito grande, mas tem que ser num lugar isolado. Temos ensaiado aqui, no salão de jantar, mas é um entra e sai de gente o tempo inteiro, e a tenor acaba errando.
— Tenho certeza de que podemos achar alguma coisa.
— Claro que com sete sinetas deveríamos estar fazendo triplos. O North American Council tocou “Philadelphia Triples” aqui no ano passado, uma apresentação muito fraca, pelo que fiquei sabendo. O tenor estava um compasso atrasado e com uma execução terrível. Mais uma razão para uma boa sala de ensaio. O modo de percutir é da maior importância.
— É claro — disse Dunworthy.
A sra. Gaddson apareceu na porta do lado oposto, com ar determinado e maternal.
— Sinto muito, estou esperando um interurbano importantíssimo — avisou ele, erguendo-se de tal forma que a sra. Taylor ficasse entre ele e a sra. Gaddson.
— Ah, um telefonema — disse a sra. Taylor, abanando a cabeça. — Vocês, ingleses! Metade do tempo não entendo as palavras que usam.
Dunworthy escapou pela porta da despensa, depois de prometer à sra. Taylor que encontraria a sala ideal para que elas agitassem suas sinetas, e voltou para seus aposentos. Andrews não tinha ligado. Havia um recado apenas, de Montoya:
— Ela pediu para dizer: “Não se incomode” — falou Colin.
— Só isso? Mais nada?
— Mais nada. Ela disse: “Diga ao sr. Dunworthy que não se incomode”.
Dunworthy pensou se por algum milagre Montoya teria localizado Basingame e conseguido sua assinatura, ou se tinha apenas descoberto que ele preferia salmão ou truta. Pensou em retornar o telefonema, mas cogitou que talvez a rede desocupasse justamente naquele momento e que Andrews ligasse.
O que não aconteceu. Não recebeu nenhuma ligação antes das quatro da tarde.
— Peço mil desculpas por não ter ligado antes — disse Andrews.
A ligação estava sem imagem, mas Dunworthy podia ouvir música e conversas ao fundo.
— Estive fora até ontem à noite, e hoje tive muita dificuldade em responder seu recado — disse Andrews. — As linhas estão congestionadas, o corre-corre das festas, o senhor sabe. Estou tentando desde…
— Preciso que venha a Oxford — interrompeu Dunworthy. — Preciso que verifique um fix para mim.
— Claro, senhor — respondeu Andrews, prontamente. — Quando?
— O quanto antes. Que tal hoje à noite?
— Oh — fez Andrews, com um pouco menos de presteza. — Poderia ser amanhã? Como a pessoa com quem vivo só vai chegar tarde da noite, planejamos nosso Natal para amanhã. Mas eu poderia pegar o trem durante a tarde ou começo da noite. Pode ser assim, ou há um prazo limite para ver o fix?
— O fix já foi estabelecido, mas o técnico adoeceu com um vírus, e eu preciso de alguém para a leitura — disse Dunworthy. Houve uma explosão de gargalhadas do lado de Andrews. Dunworthy ergueu a voz. — A que horas acha que pode estar aqui?
— Não tenho certeza. Posso telefonar amanhã e avisar assim que pegar o metrô?
— Tudo bem, mas você só pode vir de metrô até Barton. Vai precisar pegar um táxi de lá até o perímetro. Darei um jeito para que o deixem passar. Tudo bem, Andrews?
Não houve resposta, embora Dunworthy continuasse ouvindo música do outro lado.
— Andrews? — chamou Dunworthy. — Ainda está aí?
Uma ligação sem imagem era algo de enlouquecer.
— Sim, senhor — respondeu Andrews, agora um pouco mais cauteloso. — O que foi mesmo que me pediu para fazer?
— Ler um fix. Já foi estabelecido, mas o técnico…
— Não, a outra parte. Sobre pegar o metrô até Barton.
— Pegue o metrô até Barton — repetiu Dunworthy, falando alto e com cuidado. — Ele só vai até esse ponto. De Barton, você vai precisar pegar um táxi até o perímetro da quarentena.
— Quarentena?
— Sim — respondeu Dunworthy, irritado. — Darei um jeito para que você possa entrar na área da quarentena.
— Que tipo de quarentena?
— Um vírus — disse ele. — Não ouviu nada a respeito?
— Não, senhor. Eu estava operando um salto presencial em Florença. Só voltei hoje à tarde. É grave? — Ele não parecia amedrontado, apenas interessado.
— Oitenta e um casos, até agora — informou Dunworthy.
— Oitenta e dois — corrigiu Colin, sentado junto à janela.
— Mas já identificaram o vírus, e as vacinas estão em andamento. Até agora não houve casos fatais.
— Mas aposto que tem uma porção de casos de pessoas sem sorte que queriam passar o Natal em casa — disse Andrews. — Ligo para o senhor pela manhã, então, assim que eu souber que horas devo chegar.
— Está bem — gritou Dunworthy, mas sem ter certeza de que Andrews o ouvia por conta de todo aquele barulho ao fundo. — Estarei esperando.
— Certo — disse Andrews.
Houve mais uma explosão de gargalhadas ao fundo, e depois silêncio, quando ele desligou.
— Ele vem? — perguntou Colin.
— Vem. Amanhã. — Ele digitou o número de Gilchrist.
Gilchrist apareceu na telinha, sentado à escrivaninha e com ar beligerante.
— Sr. Dunworthy, se sua intenção é trazer a srta. Engle de volta…
Bem que eu faria isso, se pudesse, pensou Dunworthy. Ficou imaginando se Gilchrist não percebia que àquela altura Kivrin já teria abandonado o local do salto, e não estaria mais lá se eles abrissem a rede.
— Não — começou ele. — Consegui localizar um técnico que pode vir verificar o fix.
— Sr. Dunworthy, talvez eu deva recordar…
— Eu tenho total consciência de que este salto é responsabilidade do senhor — interrompeu Dunworthy, tentando manter-se calmo. — Estou só tentando ajudar. Como sei da dificuldade de encontrar técnicos durante os feriados, telefonei para um em Reading. Ele pode vir amanhã.
Gilchrist apertou os lábios, num gesto de desaprovação.
— Nada disso seria necessário se o seu técnico não tivesse adoecido mas, já que adoeceu, suponho que não haja outro jeito. Peça ao novo técnico que se apresente a mim assim que chegar.
Dunworthy conseguiu se despedir com educação mas, assim que a tela se apagou, bateu a tampa do aparelho com toda força, voltou a abri-la e começou a digitar números com rápidas estocadas. Tinha que achar Basingame nem que isso custasse uma tarde inteira.
Só que o computador apareceu e informou que todas as linhas estavam sendo utilizadas naquele momento. Dunworthy pousou o fone e ficou olhando a tela apagada.
— Está esperando outro telefonema? — indagou Colin.
— Não.
— Então não podíamos dar um pulo no hospital? Tenho um presente para a tia-avó Mary.
E lá eu posso preparar o terreno para que Andrews seja admitido dentro da área da quarentena, pensou Dunworthy.
— Excelente ideia. E você pode usar seu cachecol novo.
Colin o enfiou no bolso do casaco.
— Ponho quando chegar lá — disse, sorrindo. — Não quero que ninguém me veja assim pelo caminho.
Não havia ninguém para vê-los. As ruas estavam completamente desertas, e eles não viram sequer bicicletas ou táxis. Dunworthy lembrou-se do comentário do vigário de que, quando a epidemia se instalasse, as pessoas ficariam trancadas em suas casas. Ou era isso ou tinham evitado sair pelo som do carrilhão da Carfax, que não apenas estava badalando “The Carol of the Bells” mas parecia muito alto, ecoando pelas ruas fantasmas. Ou quem sabe todos estivessem dormitando depois dos excessos da ceia de Natal. Ou eram espertos o bastante para não sair em plena chuva.
Não viram ninguém até chegar ao hospital. Em frente à Emergência, uma mulher vestindo agasalhos Burberry erguia uma placa com os dizeres: FORA, DOENÇAS ESTRANGEIRAS. Um homem com máscara protetora no rosto abriu a porta para os dois e estendeu para Dunworthy um formulário úmido.
Dunworthy foi até a mesa da recepção perguntar por Mary e depois começou a ler o formulário. Ele dizia, em letras garrafais: COMBATA A INFLUENZA, VOTE PELA SEPARAÇãO DA COMUNIDADE EUROPEIA. Abaixo, um texto que começava com o seguinte parágrafo:
Por que você tem que ficar distante das pessoas que mais ama em pleno Natal? Por que você foi forçado a ficar em Oxford? Por que você está correndo o perigo de contrair essa doença e morrer? Porque a Comunidade Europeia permite que estrangeiros contaminados entrem na Inglaterra, e a Inglaterra não pode sequer opinar sobre o tema. Um imigrante indiano, portador de um vírus mortal…
Dunworthy não prosseguiu na leitura. Virou o verso da folha. Lá estava escrito: Um voto pela separação é um voto pela saúde. Comitê por uma Grã-Bretanha independente.
Mary apareceu, e Colin agarrou o cachecol enfiado no bolso e enrolou rapidamente a peça em volta do pescoço.
— Feliz Natal — disse ele. — Obrigado pelo cachecol. Posso abrir o seu Christmas cracker?
— Claro, por favor — pediu Mary.
Parecia cansada. Estava vestindo o mesmo jaleco de dois dias atrás. Alguém pregara um ramo de azevinho na lapela.
Colin rasgou o Christmas cracker.
— Ponha o chapéu — disse ele, desdobrando uma coroa de papel azul.
— Você conseguiu descansar um pouco? — perguntou Dunworthy.
— Um pouco — respondeu ela, pondo a coroa de papel sobre o cabelo grisalho em desalinho. — Tivemos mais trinta casos de meio-dia para cá, e eu passei a maior parte do dia tentando conseguir a sequência com o CMI, mas a rede está sempre ocupada.
— Eu sei — disse Dunworthy. — Será que posso falar com Badri?
— Só por um ou dois minutos. — Ela franziu a testa. — Ele não está respondendo de modo algum à sintamicina, e o mesmo vale para os dois estudantes que estavam na festa de Headington. Beverly Breen melhorou um pouco. — Ela voltou a franzir a testa. — Isso me deixa preocupada. Você já recebeu o seu reforço?
— Ainda não. Colin já.
— E dói como o diabo — avisou Colin, desdobrando a tirinha de papel de dentro do cracker. — Posso ler sua frase?
Ela anuiu.
— Vou precisar trazer um técnico para dentro da área de quarentena amanhã, para verificar o fix de Kivrin. O que devo fazer? — quis saber Dunworthy.
— Nada, pelo que sei. Estão tentando impedir a saída das pessoas, não a entrada.
Uma funcionária puxou Mary de lado e começou a falar com ela em voz baixa e num tom de urgência.
— Tenho que ir — disse ela. — Não quero que saiam daqui até que você receba seu reforço. Volte para baixo depois que falar com Badri. Colin, você fica aqui e espera pelo sr. Dunworthy.
Dunworthy subiu até a Ala de Isolamento. Não havia ninguém à mesa de recepção, de modo que, antes de entrar, enfiou por conta própria um traje contra contaminação, lembrando-se de colocar as luvas por último.
A enfermeira simpática que manifestara tanto interesse por William estava tomando o pulso de Badri, com os olhos grudados nas telas. Dunworthy se deteve ao pé da cama.
Mary mencionara que Badri não estava respondendo bem ao tratamento, mas mesmo assim Dunworthy ficou chocado com seu aspecto. O rosto estava outra vez rubro de febre, os olhos pareciam machucados, como se atingidos com socos. O braço direito estava acoplado a um complicado shunt e cheio de manchas roxas na parte interna do cotovelo. O esquerdo estava pior ainda, todo enegrecido ao longo do antebraço.
— Badri? — chamou ele, e a enfermeira abanou a cabeça.
— Pode ficar só um instante — avisou ela.
Dunworthy concordou.
Ela pousou o braço flácido de Badri junto ao corpo, digitou alguma coisa no console e saiu.
Dunworthy sentou ao lado da cama e olhou para os monitores. Todos pareciam a mesma coisa, todos indecifráveis, gráficos e animações e números que não paravam de brotar, mas que não lhe diziam nada. Olhou para Badri, que jazia ali parecendo abatido, derrotado. Tocou de leve na mão dele e levantou-se para sair.
— Foram os ratos — murmurou Badri.
— Badri — disse ele, baixinho. — É o sr. Dunworthy.
— Sr. Dunworthy… — repetiu Badri, mas não abriu os olhos. — Estou morrendo, não é?
Dunworthy sentiu uma fisgada de medo.
— Não, não está — disse com vivacidade. — De onde tirou essa ideia?
— Sempre é fatal — respondeu Badri.
— O quê?
Badri não respondeu. Dunworthy sentou outra vez junto do técnico e ficou ali até que a enfermeira entrasse de novo no quarto, mas Badri não voltou a falar.
— Sr. Dunworthy? — disse ela. — Ele precisa de repouso.
— Eu sei.
Dunworthy caminhou até a porta e de lá voltou a olhar para Badri estirado na cama. Abriu a porta.
— Matou todo mundo — disse Badri. — Metade da Europa.
Quando desceu, Colin estava de pé junto à mesa da recepcionista, comentando seus presentes de Natal.
— Os presentes de mamãe não chegaram por causa da quarentena. O correio não se esqueceria de entregar.
Dunworthy avisou a recepcionista a respeito do reforço de células-T e ela assentiu e disse:
— Só um momento.
Os dois se sentaram para esperar. Matou todo mundo, pensou Dunworthy. Metade da Europa.
— Não pude ler a frase para a tia-avó Mary — comentou Colin. — Quer ouvir? — Não esperou pela resposta. — “Onde estava Papai Noel quando as luzes se apagaram?” — Esperou a resposta, cheio de expectativa.
Dunworthy abanou a cabeça.
— No escuro!
O garoto tirou do bolso, desembrulhou e enfiou na boca uma bola de chiclete.
— Está preocupado com aquela sua garota, não é?
— Estou.
Ele dobrou o papel da goma de mascar até produzir um bloquinho compacto.
— O que eu não entendo é: por que não pode ir buscar ela lá?
— Porque ela não está lá. Temos que esperar pelo reencontro.
— Não, quer dizer: por que não pode ir até a mesma época e pegar ela enquanto ainda está lá? Antes que alguma coisa aconteça? Quer dizer, vocês podem ir para lá a qualquer hora, basta querer, não é?
— Não — respondeu Dunworthy. — Você pode mandar um historiador para qualquer época mas, depois que ele está lá, a rede só pode funcionar em tempo real. Você chegou a estudar paradoxos na escola?
— Estudei — disse Colin, mas não parecia muito confiante. — São como aquelas regras de viajar no tempo?
— O continuum espaço-tempo não admite paradoxos — explicou Dunworthy. — Seria um paradoxo se Kivrin fizesse acontecer alguma coisa que não aconteceu, ou se ela causasse um anacronismo.
Colin continuava com cara de quem não estava entendendo.
— Um dos paradoxos é que ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — prosseguiu Dunworthy. — Ela já está no passado há quatro dias. Não há nada que possamos fazer para mudar isso. É fato consumado.
— Quando é que ela volta, então?
— Quando ela viajou, o técnico estabeleceu aquilo que chamamos de fix. O fix diz exatamente onde ela está e age como uma… como uma… — Ele procurou um termo que fosse compreensível. — Uma corda. Ele amarra os dois tempos, de modo que a rede possa ser aberta de novo num determinado momento, para que ela possa ser trazida de volta.
— Tipo, “Pego você na igreja depois das seis”?
— Exatamente. É o que chamamos de reencontro. O de Kivrin está marcado para daqui a duas semanas, 28 de dezembro. Nesse dia, o técnico vai abrir a rede, e Kivrin vai poder voltar.
— Pensei que o senhor tinha dito que o tempo lá era o mesmo daqui. Como pode o dia 28 ser daqui a duas semanas?
— Eles usavam um calendário diferente do nosso na Idade Média. Lá é 17 de dezembro. A nossa data para o reencontro é 6 de janeiro. — Se ela estiver lá, pensou. Se eu conseguir encontrar um técnico capaz de abrir a rede.
Colin tirou da boca a goma de mascar e olhou pensativo para ela. Estava de um azul cheio de manchas, e parecia um mapa da Lua. Voltou a colocá-la na boca.
— Quer dizer que, se eu fosse para a Idade Média no dia 26 de dezembro, eu poderia ter duas festas de Natal.
— Sim, suponho que sim.
— Apocalíptico — disse ele. Tinha desdobrado o papel da goma de mascar e agora estava dobrando de novo, num volume ainda menor. — Acho que se esqueceram do senhor, não acha?
— Está começando a parecer — respondeu Dunworthy, que deteve o primeiro funcionário que passou por ali e explicou que estava esperando pelo reforço de células-T.
— Ah, é? — perguntou o homem, surpreso. — Vou tentar me informar. — E desapareceu no interior da Emergência.
Esperaram mais tempo. “Foram os ratos”, dissera Badri. Já naquela primeira noite ele havia perguntado a Dunworthy: “Em que ano estamos?”. Mas ele afirmara que o desvio fora mínimo. E que os cálculos do estagiário estavam corretos.
Colin tirou da boca a goma de mascar e a examinou, várias vezes, notando as mudanças de cor.
— Se alguma coisa terrível acontecesse, vocês poderiam violar as regras? — indagou ele, contemplando a bola. — Se ela perdesse um braço ou morresse ou fosse despedaçada por uma bomba, coisas desse tipo.
— Não há regras, Colin. Há leis científicas. Não podemos violar uma lei científica, mesmo querendo. Se tentarmos reverter fatos que já aconteceram, a rede simplesmente não vai abrir.
Colin cuspiu o chiclete no papel e embrulhou com cuidado.
— Tenho certeza de que sua garota está bem — falou. Guardou a goma embrulhada no bolso do casaco e tirou de lá um pacote volumoso. — Esqueci de entregar o presente de Natal para a tia-avó Mary — disse ele.
Antes que Dunworthy tivesse tempo de mandá-lo esperar, Colin deu um pulo e correu para dentro da Emergência, cruzou a porta e voltou na mesma velocidade.
— Diabos! A chata da sra. Gaddson está aqui! — avisou. — E vindo para cá!
Dunworthy ficou de pé.
— Era só o que faltava.
— Por aqui! — disse Colin. — Eu entrei pela porta dos fundos na noite em que vim para cá. — Ele partiu correndo noutra direção. — Venha!
Dunworthy não conseguiria correr, mas caminhou a passos rápidos pelo labirinto de corredores, guiado por Colin, até uma entrada de serviço que dava para uma ruazinha lateral. Um homem-sanduíche, carregando duas placas enormes, estava parado do lado de fora da porta, em plena chuva. Suas placas diziam: O QUE MAIS TEMÍAMOS CHEGOU, algo que parecia estranhamente adequado.
— Vou me certificar de que ela não viu a gente — disse Colin, partindo como uma flecha para a entrada.
O homem estendeu um panfleto para Dunworthy. O FIM DOS TEMPOS ESTá CHEGANDO!, dizia, em temíveis letras garrafais. “É preciso temer a Deus, porque a hora do julgamento está vindo. Apocalipse, 14:7.”
Colin apareceu na esquina e acenou para Dunworthy.
— Tudo bem! — disse ele, ainda sem fôlego. — Ela está lá dentro, gritando com a recepcionista.
Dunworthy devolveu o panfleto ao homem e foi atrás de Colin, que o conduziu ao longo da rua lateral até a Woodstock Road. Dunworthy olhou com ansiedade para a porta da Emergência, mas não viu ninguém, nem mesmo o pessoal da manifestação contra a Comunidade Europeia.
Colin disparou a correr ao longo de mais um quarteirão, antes de reduzir o passo. Tirou do bolso o pacote de tabletes de sabão e ofereceu um a Dunworthy.
Ele recusou, agradecendo.
Colin pôs um tablete cor-de-rosa na boca e disse, sem muita clareza na voz:
— Esse é o melhor Natal que eu já tive.
Dunworthy meditou sobre este sentimento por algumas quadras. O carrilhão estava massacrando “In the Bleak Midwinter”, o que também parecia adequado, e as ruas continuavam desertas, mas quando se aproximaram da Broad uma figura familiar correu na direção deles, encolhendo-se sob a chuva.
— É o sr. Finch — disse Colin.
— Deus do céu! — exclamou Dunworthy. — O que estará faltando agora?
— Espero que seja a couve.
Finch ergueu o rosto ao ouvir o som das vozes deles.
— Aí está o senhor, sr. Dunworthy. Graças aos céus. Procurei o senhor por toda parte.
— Qual o problema? — perguntou Dunworthy. — Já falei para a sra. Taylor que providenciaria uma sala de ensaio.
— Não é isso. São as pessoas detidas. Duas delas estão com o vírus.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(032631-034122)
21 de dezembro de 1320 (Calendário Antigo). O padre Roche não sabe onde é o local do salto. Pedi que me levasse ao lugar onde topou com Gawyn, mas mesmo estar na clareira não clareou minhas lembranças. É óbvio que Gawyn não esbarrou com ele senão quando já se encontrava muito longe do local, e a essa altura eu já estava em pleno delírio.
E percebi hoje que nunca serei capaz de achar o local sozinha. O bosque é muito grande, está cheio de clareiras e de carvalhos e de salgueiros que parecem todos iguais, agora que está nevando. Eu deveria ter assinalado o lugar com algo mais além do cofre.
Gawyn vai ter que me mostrar onde foi, e ele ainda não voltou. Rosemund me disse que é apenas meio dia de cavalgada daqui até Courcy, mas que ele provavelmente vai passar a noite lá por causa da chuva.
Está chovendo forte desde que voltamos, e suponho que eu devia estar feliz porque o aguaceiro vai derreter a neve. Porém, ao mesmo tempo, a chuva me impede de sair e procurar o local, sem contar que faz um frio glacial aqui na casa grande. Todos estão vestindo seus agasalhos e se amontoando perto do fogo.
E as pessoas do vilarejo, o que fazem? Suas cabanas mal conseguem barrar o vento, e aquela onde entrei não tinha nem sinal de um mero lençol. Devem estar congelando, literalmente, e Rosemund disse que o caseiro comentou que vai chover até a véspera de Natal.
Rosemund me pediu desculpas por seu péssimo comportamento no bosque e disse: “Eu estava com raiva da minha irmã”.
Agnes não tinha nada a ver com aquilo. A irritação de Rosemund obviamente teve origem na notícia de que seu noivo fora convidado para o Natal, e assim que tive uma chance de estar a sós com ela perguntei se estava preocupada com o futuro casamento.
— Meu pai combinou tudo — disse ela, manejando a agulha. — Ficamos noivos na festa de são Martinho. Vamos casar na Páscoa.
— Com o seu consentimento? — perguntei.
— É um bom acordo — respondeu ela. — Sir Bloet tem uma posição elevada e é dono de terras vizinhas às do meu pai.
— Você gosta dele?
Ela cravou a agulha no tecido do cosedor.
— Meu pai nunca deixaria que alguma coisa ruim me acontecesse — disse, puxando o longo fio atrás da agulha.
Não quis falar mais nada, e tudo que pude extrair de Agnes foi que Sir Bloet era bom e tinha lhe dado uma moeda de prata, sem dúvida como parte dos presentes do noivado.
Agnes estava preocupada demais com o joelho para falar de outra coisa. Parou de se queixar no meio do caminho para casa, mas depois mancou com exagero quando a ajudei a descer do cavalo. Achei que estava apenas querendo chamar atenção, mas quando olhei de perto vi que a casca da ferida fora completamente arrancada. A região em volta estava inchada e vermelha.
Lavei a ferida, envolvi a área no pano mais limpo que consegui achar (receio que fosse uma das coifas de Imeyne: achei a peça no baú aos pés da cama) e fiz com que Agnes se sentasse quietinha junto ao fogo para brincar com seu boneco cavaleiro, mas estou preocupada. Se infeccionar, pode virar algo sério. Não havia antimicrobiais nos anos 1300.
Eliwys também está preocupada. É bem claro que acreditava que Gawyn estaria de volta hoje à noite, e passou o dia indo para os biombos e espreitando pela porta. Ainda não sei direito o que ela sente por ele. Às vezes, como hoje, tenho impressão de que ama Gawyn e tem medo de pensar nas consequências disso. Adultério era um pecado mortal aos olhos da Igreja, e muitas vezes era algo também perigoso. Ainda assim, na maior parte do tempo estou convencida de que o amour dele não é correspondido, absolutamente, e que ela vive tão preocupada com o marido que nem percebe a existência do rapaz.
A dama pura e inatingível era o ideal dos romances cortesãos, mas é claro que Gawyn não sabe se o seu amor é correspondido ou não. O fato de ter me resgatado no bosque e de sair em perseguição aos meus ladrões não passa de uma tentativa de impressioná-la (e seria muito mais impressionante se de fato existisse um bando de vinte malfeitores, todos com espadas e maças de guerra e machados). Ele evidentemente faria qualquer coisa para conquistar Eliwys, e Lady Imeyne sabe disso. Deve ser por isso, acho, que ela o mandou para Courcy.