O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 29 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 28

 

O menino que fugira de Kivrin quando ela saiu pela primeira vez para procurar o local do salto adoeceu naquela noite. Sua mãe estava parada à espera do padre Roche quando ele foi tocar as matinas. Havia um bulbo nas costas, e Kivrin o lancetou enquanto Roche e a mãe seguravam o garoto.

Kivrin não queria fazer aquilo. O escorbuto já enfraquecera bastante o pequeno, e ela não fazia ideia se havia artérias por baixo da escápula. Rosemund não parecia ter melhorado nem um pouco depois desse procedimento, embora Roche dissesse que o seu pulso estava mais forte. Ela estava imóvel e tão pálida como se seu sangue tivesse sido drenado por inteiro. E aquele garoto não parecia capaz de resistir à perda de sangue.

Mas sangrou muito pouco, e a cor já voltava ao seu rosto antes mesmo de Kivrin terminar de lavar a faca.

— Deem chá de roseira para ele — mandou Kivrin, achando que pelo menos aquilo ajudaria contra o escorbuto. — E de casca de salgueiro.

Ela ergueu a lâmina da faca contra o fogo. As chamas não estavam maiores do que no dia em que ela havia entrado e sentado na cabana, fraca demais para caminhar pelos bosques. Nunca seria o suficiente para aquecer o menino mas, se pedisse à mulher para buscar mais lenha, ela podia ter contato com outra pessoa.

— Vamos trazer mais lenha para vocês — disse, e depois ficou pensando como.

Ainda havia a comida que sobrara da festa de Natal, mas tudo o mais estava acabando depressa. Tinham usado a maior parte da lenha já cortada tentando manter aquecidos Rosemund e o secretário, e não havia ninguém a quem pudessem pedir para cortar os troncos acumulados na cozinha. O bailio estava doente, o caseiro estava cuidando da mulher e do filho.

Kivrin juntou sozinha uma braçada de galhos e pedaços grandes de casca bons para o fogo e tomou o caminho da cabana. Gostaria de levar o garoto para o abrigo da casa grande, mas Eliwys já estava cuidando do secretário e de Rosemund, e a própria Kivrin sentia-se a ponto de desabar.

Eliwys ficara ao lado de Rosemund a noite inteira, ministrando para a filha o chá de salgueiro e trocando as ataduras da ferida. Como ficaram sem pano, Eliwys acabara rasgando sua coifa em tiras. Sentava-se sempre onde pudesse ver os biombos e, de vez em quando, levantava-se e ia até a porta, como se tivesse escutado a chegada de alguém. Com os cabelos escuros, soltos, caindo sobre os ombros, não parecia muito mais velha do que Rosemund.

Kivrin levou a lenha para a mulher, largando-a no chão sujo da cabana, junto da gaiola do rato, que tinha sumido. Fora morto, com certeza, mesmo inocente.

— Que o Senhor nos abençoe — disse a mulher, ajoelhando-se junto ao fogo e começando a colocar ali os gravetos.

Kivrin foi olhar o menino outra vez. Do bulbo ainda estava escorrendo um fluido aquoso e claro, o que era bom. O de Rosemund sangrara durante metade da noite, antes de voltar a inchar e endurecer. E não posso lancetar de novo, pensou. Ela não pode perder mais sangue.

Kivrin foi para o salão, pensando se deveria substituir Eliwys ou cortar um pouco mais de lenha. Roche, que vinha da casa do caseiro, trouxe a notícia de que mais dois filhos do homem estavam doentes.

Eram os dois meninos mais novos e com certeza apresentavam a forma pneumônica da doença. Ambos tossiam, e a mãe golfava de vez em quando um escarro aquoso. Que o Senhor nos abençoe.

Kivrin voltou para o salão. Continuava meio enevoado devido ao enxofre, e os braços do secretário pareciam quase negros àquela luz amarelada. O fogo não estava muito melhor do que o da cabana da mulher. Kivrin carregou para lá o resto de madeira cortada, depois disse a Eliwys para descansar um pouco, pois ficaria cuidando de Rosemund.

— Não — respondeu Eliwys, relanceando os olhos para a porta. Depois completou, quase para si mesma: — Ele está na estrada há três dias.

Eram setenta quilômetros até Bath, pelo menos um dia e meio a cavalo, e o mesmo tempo de volta, se ele tivesse conseguido um cavalo descansado em Bath. Talvez volte hoje, caso não tenha demorado a encontrar Lord Guillaume. Se é que um dia vai voltar, pensou Kivrin.

Eliwys olhou para a porta de novo, como se tivesse ouvido algo, mas o único som que se escutava era o de Agnes, cantarolando baixo com seu carrinho. A menina havia posto um lenço para fazer as vezes de babador e, com uma colher, dava comida imaginária ao carrinho.

— Ele está com a doença azul — avisou ela a Kivrin.

Kivrin passou o resto do dia executando tarefas domésticas: buscando água, preparando caldo quente com o que restara do assado, esvaziando os penicos. A vaca do caseiro, com os úberes inchados apesar das recomendações dadas por Kivrin para que a família usasse seu leite, apareceu no pátio e começou a seguir Kivrin, cutucando-a com os chifres até que ela desistiu e ordenhou o animal. Roche cortou mais lenha entre uma visita e outra ao menino doente e ao caseiro, e Kivrin, lamentando nunca ter aprendido a cortar lenha, atacou sem jeito os troncos maiores.

O caseiro voltou a procurar Kivrin e Roche antes de escurecer: queria que vissem sua filha mais nova. São oito casos até agora, pensou Kivrin. O vilarejo tinha apenas quarenta habitantes. De acordo com os registros, entre um terço e metade da Europa teriam contraído a peste e morrido. O sr. Gilchrist achava que era um número exagerado. Um terço aqui corresponderia a treze casos. Faltavam apenas mais cinco. Na hipótese dos cinquenta por cento como base, faltavam apenas mais doze, e isso que os filhos do caseiro já tinham sido todos expostos ao vírus.

Kivrin olhou para eles, em particular para a filha mais velha, atarracada e morena como o pai, para o menino com o rosto fino da mãe e para o bebê macilento… Vocês também vão adoecer, pensou ela, e ficarão faltando oito.

Kivrin parecia incapaz de experimentar qualquer sentimento, mesmo quando o bebê começou a chorar e a menina o segurou no colo e levou seu dedo sujo à boca dele. Treze, rezou ela. Vinte, no máximo.

Também não conseguia esboçar sentimento em relação ao secretário, embora fosse claro que o homem não sobreviveria àquela noite. Os lábios e a língua dele estavam cobertos por uma espécie de lodo marrom, e o religioso escarrava um catarro líquido com filetes de sangue. Kivrin cuidava dele automaticamente, sem demonstrar sentimento algum.

É a falta de sono, pensou ela. Está deixando todos nós entorpecidos. Ela deitou perto do fogo e tentou dormir, mas parecia estar num estado além do sono, além do cansaço. Faltam mais oito pessoas, refletiu, fazendo os cálculos de cabeça. Como aquela mãe vai adoecer, assim como a esposa e os filhos do bailio, sobram quatro. Por favor, não permita que sejam Agnes ou Eliwys. Nem o padre Roche.

Pela manhã, Roche encontrou a cozinheira estirada na neve, em frente à sua cabana, congelando e tossindo sangue. Nove, pensou Kivrin.

Como a cozinheira era viúva e não havia ninguém para tomar conta dela, eles a trouxeram para o salão e a deitaram perto do secretário, que espantosa e horrivelmente continuava vivo. As hemorragias tinham a esta altura se espalhado pelo corpo inteiro, seu peito estava carregado de manchas roxo-negras, e os braços e as pernas eram quase negros. Suas maçãs do rosto estavam cobertas por uma barba negra que parecia também um sintoma, e a pele por baixo dos pelos estava mais escura.

Rosemund continuava pálida e silenciosa, entre a vida e a morte, e Eliwys cuidava da filha com mansidão, com carinho, como se o menor movimento e o menor som pudessem empurrar a garota para o abismo. Kivrin caminhava na ponta dos pés por entre os catres, e Agnes sentia que era preciso fazer silêncio, mas mantinha-se aérea.

Ela choramingava, subia na barricada, pedia o tempo todo para que Kivrin a levasse para ver o seu cão ou o seu pônei, para que lhe trouxesse comida ou terminasse de contar a história da menina má perdida na floresta.

— Como é que acaba? — choramingou ela num tom que dava arrepios em Kivrin. — Os lobos comeram a menina?

— Não sei — respondeu Kivrin secamente, depois de a pequena insistir pela quarta vez. — Vá sentar com a sua avó.

Agnes olhou zangada para Lady Imeyne, ainda ajoelhada num canto, de costas para todos. Tinha passado a noite inteira assim.

— Minha avó não quer brincar comigo.

— Bem, então brinque com Maisry.

Foi o que a menina fez por cinco minutos, infernizando tanto que a criada reagiu e Agnes voltou gritando, queixando-se de que levara um beliscão.

— Não culpo ela — disse Kivrin, mandando as duas para o sótão.

Em seguida, foi visitar o menino doente, que tinha melhorado a ponto de já poder sentar. Quando voltou, Maisry estava encolhida na cadeira mais alta, dormindo como pedra.

— Onde está Agnes? — perguntou Kivrin.

Eliwys olhou em volta, com olhos vazios.

— Não sei. Estava no sótão.

— Maisry — chamou Kivrin, aproximando-se dela. — Acorde! Onde está Agnes?

Maisry piscou os olhos para ela, estupidamente.

— Não devia ter deixado a menina sozinha — disse Kivrin.

Subiu até o sótão e Agnes não estava lá. Correu para olhar no pavilhão: também não estava ali.

Maisry tinha pulado da cadeira alta e estava agachada junto à parede, parecendo aterrorizada.

— Onde está ela? — insistiu Kivrin.

Maisry levou a mão à orelha, defensivamente, e ficou olhando para ela, embasbacada.

— Muito bem — disse Kivrin. — Eu vou bater nos seus ouvidos, sim, se não me disser onde está Agnes.

Maisry escondeu o rosto entre as saias.

— Onde está ela? — perguntou Kivrin, sacudindo a outra pelo braço. — Você ficou tomando conta dela. Agnes estava sob a sua responsabilidade!

Maisry começou a uivar, um som agudo como o de um animal.

— Pare com isso! Me mostre para onde ela foi! — exclamou Kivrin, começando a arrastar Maisry na direção dos biombos.

— O que está acontecendo? — perguntou o padre Roche, que acabava de chegar.

— É Agnes — respondeu Kivrin. — Precisamos achá-la. Ela pode ter saído para o vilarejo.

Roche abanou a cabeça:

— Não esbarrei com ela pelo caminho. Talvez só esteja brincando aí fora.

— O estábulo! — disse Kivrin, com alívio. — Ela tinha me pedido para ir ver o pônei.

A menina não estava no estábulo.

— Agnes! — gritou Kivrin para dentro da escuridão cheirando a estrume. — Agnes!

O pônei de Agnes relinchou baixinho e tentou forçar a passagem para fora da baia. Kivrin se perguntou quando o animal teria sido alimentado pela última vez e onde estariam os cães.

— Agnes! — continuou chamando.

Ela olhou em cada compartimento, atrás da manjedoura e em todos os cantos onde uma garotinha poderia ter se escondido ou adormecido.

Talvez esteja no celeiro, pensou Kivrin, e saiu do estábulo, protegendo os olhos da luminosidade de fora. Roche acabava de sair pela porta da cozinha.

— Encontrou ela? — perguntou Kivrin, mas ele não ouviu. Estava com a atenção voltada para o portão fechado, a cabeça meio inclinada como se estivesse escutando alguma coisa.

Kivrin também aguçou o ouvido, mas não escutou nada.

— O que foi? — perguntou. — Está ouvindo ela chorar?

— É o senhor — respondeu ele, correndo para o portão.

Oh, não! Não o padre Roche, pensou Kivrin, e correu atrás dele. Roche tinha parado e estava mexendo no portão.

— Padre Roche! — chamou Kivrin, e só então ouviu o cavalo.

Estava galopando em direção a eles, os cascos ressoando com força no chão congelado. Roche estava se referindo ao senhor da casa. Ele acha que o marido de Eliwys enfim está de volta, ponderou Kivrin, para depois pensar, com um raio de esperança, é o sr. Dunworthy.

Roche ergueu e deslizou a pesada tranca para o lado.

Precisamos de estreptomicina e desinfetante, e ele precisa levar Rosemund consigo, para interná-la. A garota precisa de uma transfusão.

Roche terminou de liberar a tranca. Puxou para dentro o pesado portão.

E de vacina, pensou Kivrin, a cabeça a mil. O melhor seria administrar a medicação por via oral. Onde estaria Agnes? Precisava levar Agnes para um local seguro.

O cavalo estava quase chegando ao portão quando ela recuperou a lucidez.

— Não! — gritou, mas já era tarde. Roche já tinha aberto o portão.

— Ele não pode entrar aqui! — berrou, olhando em torno aflita, à procura de algo que pudesse servir de alerta. — Ele vai pegar a peste.

Ela havia deixado a pá junto à pocilga vazia quando enterrou Blackie. Correu para buscá-la.

— Não deixe ele passar pelo portão! — bradou ela, e o padre Roche ergueu os braços para dar o sinal de alerta, mas o cavaleiro já havia entrado no pátio.

Roche abaixou os braços e chegou a exclamar o nome de Gawyn. O garanhão negro se parecia com Gringolet, mas estava montado por um menino. Não devia ser mais velho do que Rosemund e tinha o rosto e a roupa manchados de lama. O cavalo estava coberto de lama também, respirando com força e bufando espuma, e o garoto parecia igualmente sem fôlego. Seu nariz e suas orelhas estavam vermelhos de frio. Ele fez menção de desmontar, olhando para Kivrin e o padre.

— Você não deve vir para cá — avisou Kivrin, falando com todo cuidado para não resvalar para o inglês moderno. — A peste chegou a este vilarejo. — Ela ergueu a pá, apontando-a para ele como se fosse uma arma.

O garoto se deteve, a meio da descida, e voltou a sentar na sela.

— A doença azul — prosseguiu ela, para o caso de o garoto não entender, mas ele já assentia balançando a cabeça.

— Ela está por toda parte — observou ele, virando o corpo para pegar alguma coisa num dos sacos que pendiam da sela. — Trago uma mensagem. — Ele estendeu uma sacola de couro para Roche, e o padre se adiantou para recebê-la.

— Não! — exclamou Kivrin e deu um passo à frente, agitando a pá no ar diante dele. — Solte no chão! — pediu. — Não deve ter contato com a gente!

O garoto tirou um rolo de pergaminho da sacola e atirou aos pés de Roche.

Roche abaixou-se, apanhou o pergaminho na laje do piso e o desenrolou.

— O que diz a mensagem? — perguntou ele ao menino, e Kivrin pensou, Claro, Roche não sabe ler.

— Não sei — respondeu o menino. — É do bispo de Bath, que me incumbiu de circular a mensagem para todas as paróquias.

— Quer que eu leia? — indagou Kivrin.

— Talvez seja sobre o nosso senhor — disse Roche. — Talvez ele esteja avisando que vai se atrasar.

— Sim — concordou Kivrin, tomando a mensagem das mãos de Roche, mas sabia que não era.

Estava escrita em latim, numa caligrafia tão rebuscada que ficava difícil de ler, mas isso não tinha importância. Ela já lera aquela mensagem antes, na biblioteca Bodleian.

Kivrin apoiou a pá sobre um ombro e leu a mensagem, traduzindo do latim:

— “A contagiosa pestilência do tempo presente, que está se espalhando depressa por toda parte, deixou as igrejas de muitas paróquias e outras habitações nesta diocese sem pessoas ou padres para cuidar dos seus paroquianos.”

Ela olhou para Roche. Não, pensou. Aqui não. Não vou permitir que isso aconteça aqui.

— “Como não se encontrou nenhum padre disposto…” — Os padres estavam mortos ou tinham fugido, ninguém podia ser persuadido a ocupar suas vagas e as pessoas estavam morrendo “sem o sacramento da Penitência”.

Ela continuou lendo, visualizando não aquelas letras tão negras, mas as letras marrons e desbotadas que um dia decifrara na Bodleian. Havia achado aquela carta pomposa e ridícula. “Pessoas morrendo por todos os lados, e o bispo preocupado apenas com os protocolos da Igreja!”, dissera ela ao sr. Dunworthy, indignada. Só que agora, lendo para o menino exausto e para o padre Roche, a carta também soava exausta. E desesperadora.

— “Se estiverem à beira da morte e não puderem contar com os serviços de um padre” — prosseguiu ela — “então devem fazer suas confissões entre si. Nós conclamamos todos, pela presente carta, em nome de Jesus Cristo, a proceder assim.”

Nem o menino nem Roche disseram qualquer coisa quando Kivrin terminou a leitura. Ela imaginou se o menino tinha noção da magnitude do recado que estava carregando. Enrolou e devolveu o pergaminho a ele.

— Estou cavalgando há três dias — disse o menino, inclinando-se, o corpo cedendo ao cansaço. — Não posso descansar um pouco aqui?

— Não é seguro — argumentou Kivrin, lamentando-se por ele. — Mas poderá levar comida para você e seu cavalo.

Roche se virou para ir à cozinha, e de repente Kivrin lembrou-se de Agnes.

— Você por acaso não viu uma menininha na estrada? — indagou. — Uma garota de cinco anos, usando capinha vermelha e capuz?

— Não vi essa — disse o menino —, mas há muitas pela estrada. Estão fugindo da pestilência.

Roche trouxe um saco de lã rústica, e Kivrin afastou-se para ir buscar aveia para o garanhão. Nisso, Eliwys passou correndo pelos dois, as saias se enroscando entre as pernas, o cabelo longo se agitando na corrida.

— Não… — gritou Kivrin, mas Eliwys já havia agarrado a rédea do garanhão.

— De onde está vindo? — perguntou, agarrando a manga da roupa do menino. — Tem notícias do privé do meu marido, Gawyn?

O menino pareceu amedrontado.

— Eu vim de Bath com uma mensagem do bispo — respondeu ele, puxando as rédeas. O cavalo soltou um relincho e sacudiu a cabeça com força.

— Que mensagem? — inquiriu Eliwys, histericamente. — É de Gawyn?

— Não conheço ninguém com esse nome — disse o menino.

— Lady Eliwys… — começou Kivrin, adiantando-se um passo.

— Gawyn monta um cavalo negro com uma sela trabalhada em prata — insistiu Eliwys, ainda puxando a rédea do cavalo. — Ele foi a Bath para buscar meu marido, que está servindo de testemunha nos tribunais.

— Ninguém está indo para Bath. Quem pode está fugindo de lá — informou o menino.

Eliwys cambaleou, como se o cavalo tivesse recuado, e pareceu cair contra o flanco do animal.

— Não existe mais tribunal, nem lei — continuou o menino. — As ruas estão cheias de gente morta e um olhar para os cadáveres basta para que a pessoa morra também. Tem gente dizendo que é o fim do mundo.

Eliwys largou a rédea e recuou. Depois se virou e olhou com esperança para Kivrin e Roche.

— Então eles vão voltar logo para cá. Tem certeza de que não viu Gawyn na estrada? Ele monta um cavalo negro.

— Vi muitos cavalos.

O menino fez o garanhão avançar um passo na direção de Roche, mas Eliwys não arredou pé.

Roche se adiantou com o saco de mantimentos. O menino inclinou-se, recebeu as provisões e fez o cavalo dar meia-volta, quase derrubando Eliwys, que não se afastara.

Kivrin avançou e agarrou uma das rédeas.

— Não volte para junto do bispo — pediu ela.

O menino puxou as rédeas, parecendo mais amedrontado com ela do que com Eliwys.

Ela não soltou a rédea.

— Vá para o norte — disse. — A peste não chegou lá ainda.

O menino arrebatou as rédeas, meteu os calcanhares no garanhão e saiu galopando portão afora.

— Fique longe da estrada principal — gritou Kivrin, às suas costas. — Não pare para falar com ninguém.

Eliwys continuava imóvel no mesmo lugar.

— Venha — disse Kivrin a ela. — Temos que procurar Agnes.

— Meu marido e Gawyn devem ter passado primeiro em Courcy para avisar Sir Bloet — comentou ela, sendo conduzida por Kivrin para dentro da casa sem impor resistência.

Deixou Eliwys sentada junto ao fogo e foi olhar no celeiro. Agnes não estava lá, mas Kivrin acabou encontrando sua própria capa, esquecida ali desde a véspera de Natal. Envolveu-se nela e subiu para olhar o sótão. Depois procurou no lugar de fabricação de cerveja, enquanto Roche esquadrinhava outros lugares, mas nada da menina. Um vento frio passara a soprar desde quando estavam conversando com o mensageiro, e agora carregava um cheiro de neve.

— Talvez ela esteja na própria casa — sugeriu Roche. — Você olhou atrás da cadeira grande?

Revistaram a casa inteira mais uma vez, olhando atrás da cadeira alta e embaixo da cama do pavilhão. Maisry continuava deitada e choramingando no mesmo lugar de antes, e Kivrin teve que reprimir o impulso de lhe dar um pontapé. Perguntou a Lady Imeyne, ajoelhada junto à parede, se tinha visto Agnes ou não.

A mulher ignorou a pergunta e continuou dedilhando a correntinha do relicário e movendo os lábios em silêncio.

Kivrin sacudiu o ombro dela.

— Viu se Agnes foi lá para fora?

Lady Imeyne virou-se e a encarou, com os olhos faiscando.

— Ela é culpada — disse.

— Agnes?! — disse Kivrin, indignada. — Como ela pode ter culpa?

Imeyne abanou a cabeça e afastou o olhar na direção de Maisry.

— Deus está nos castigando pelas maldades de Maisry — sentenciou.

— Agnes desapareceu, e já está anoitecendo — falou Kivrin. — Temos que achar ela. Não viu para onde ela foi?

— É culpada — murmurou a mulher, e virou o rosto para a parede.

Estava ficando tarde e o vento assobiava, passando por entre os biombos. Kivrin correu para fora e disparou até o relvado.

Era como uma repetição do dia em que tentara descobrir sozinha o local do salto. Não havia ninguém na relva, agora já coberta de neve, e o vento fustigava e agitava suas roupas enquanto Kivrin corria. Um sino estava tocando em algum lugar a nordeste, um dobre de finados.

Agnes adorava o campanário. Kivrin foi até lá e gritou o nome da garota, mesmo podendo enxergar tudo, até o alto da corda do sino. Saiu da torre e ficou olhando as cabanas, tentando imaginar para onde a menina poderia ter ido.

Não para dentro das cabanas, a menos que estivesse com muito frio. O cãozinho! Ela havia pedido para ver o lugar onde o filhote fora enterrado. Kivrin não chegara a mencionar que ficava no meio do bosque. Agnes tinha dito que o local certo seria no pátio da igreja. Kivrin podia ver de longe que a menina não estava lá, mas mesmo assim se dirigiu para o portão coberto.

Agnes tinha passado por ali. As pegadas de suas botinhas eram visíveis de túmulo em túmulo até o lado norte da igreja. Kivrin observou a colina inteira, até o início do bosque. E se ela tivesse entrado no bosque? Nunca a encontrariam.

Kivrin correu ao longo da lateral da igreja, acompanhando as pegadas que contornavam o edifício e paravam na entrada. Abriu a porta. Estava quase escuro lá dentro e ainda mais frio do que o pátio açoitado pelo vento.

— Agnes? — chamou ela.

Não houve resposta, mas ela ouviu um leve barulho vindo do altar, como um rato fugindo para se esconder.

— Agnes? — chamou de novo, espiando a parte escura por trás do túmulo, os corredores laterais. — Você está aí?

— Kivrin? — soou um fiapo de voz trêmulo.

— Agnes?! — repetiu ela, correndo naquela direção. — Onde você está?

A menina estava diante da estátua de santa Catarina, encolhida junto às velas acesas, com sua capinha vermelha de capuz. Estava com o corpinho colado à saia de pedra da estátua, e tinha os olhos arregalados e cheios de medo. O rosto estava vermelho e riscado de lágrimas.

— Kivrin?! — disse, já correndo para se jogar nos braços dela.

— O que está fazendo aqui, Agnes? — perguntou Kivrin, zangada e cheia de alívio. Abraçou a menina com força. — Procuramos você por toda parte.

Agnes enterrou o rosto molhado de lágrimas no pescoço de Kivrin.

— Eu me escondi — respondeu ela. — Eu trouxe o carrinho para ver Blackie, mas acabei caindo. — Ela limpou o nariz com a mão. — Eu chamei você. Chamei, chamei, mas você não veio.

— Eu não sabia onde você estava, querida — explicou Kivrin, acariciando-lhe os cabelos. — Por que veio aqui para a igreja?

— Eu estava me escondendo do homem mau.

— Que homem mau? — quis saber Agnes, franzindo a testa.

A pesada porta da igreja se abriu, e Agnes cerrou os bracinhos com força em volta do pescoço de Kivrin.

— É o homem mau! — sussurrou ela, alarmada.

— Padre Roche! — chamou Kivrin. — Encontrei ela! Agnes está aqui.

A porta se fechou, e ela pôde ouvir os passos dele se aproximando.

— É o padre Roche — tranquilizou ela. — Ele também estava procurando você. Ninguém sabia para onde você tinha ido.

Agnes afrouxou um pouco o abraço.

— Maisry disse que o homem mau estava vindo para me pegar.

Roche se aproximou delas, ofegante, e Agnes escondeu de novo o rosto contra o corpo de Kivrin.

— Ela está doente? — perguntou ele, preocupado.

— Acho que não — respondeu Kivrin. — Está um pouco gelada. Ponha minha capa por cima dela.

Roche tirou desajeitadamente a capa dos ombros de Kivrin e envolveu a menina com ela.

— Eu estava me escondendo do homem mau — disse Agnes a ele, girando o corpo nos braços de Kivrin.

— Que homem mau? — indagou Roche.

— O homem mau que perseguiu Kivrin dentro da igreja — detalhou Agnes. — Maisry falou que ele viria me pegar e me passar a doença azul.

— Não existe nenhum homem mau — explicou Kivrin, pensando, quando eu voltar, vou chacoalhar Maisry até os dentes dela caírem todos.

Kivrin ficou de pé e Agnes agarrou-se com mais força a ela.

Roche tateou ao longo da parede até a porta traseira, que abriu. Uma luz azulada entrou.

— Maisry disse que o homem mau levou meu cão — prosseguiu Agnes, tremendo. — Mas ele não me pegou, porque eu me escondi.

Kivrin se lembrou do cãozinho Blackie, o corpo sem vida em suas mãos, a boca manchada de sangue. Não, pensou ela, e começou a caminhar mais depressa pela neve. A menina estava tremendo, mas apenas porque estivera aquele tempo todo dentro da igreja fria. O rosto dela estava quente contra o pescoço de Kivrin. É porque está chorando, pensou, e perguntou se Agnes estava sentindo dor de cabeça.

Agnes agitou o rosto de maneira confusa contra o corpo de Kivrin e não disse nada. Não, pensou Kivrin, e caminhou mais depressa, seguida de perto por Roche, passando em frente à cabana do caseiro e entrando no pátio.

— Eu não entrei na floresta — disse Agnes, quando chegaram em casa. — Quem entrou foi a menina má, não foi?

— Isso mesmo — respondeu Kivrin, levando a pequena para junto do fogo. — Mas está tudo bem agora. Ela foi encontrada pelo pai e voltou para casa. E todos viveram felizes para sempre. — Ela sentou Agnes no banco e desamarrou a capa.

— E nunca mais ela foi para a floresta de novo — acrescentou a menina.

— Nunca mais — repetiu Kivrin, tirando as botinhas e as meias encharcadas. — Você precisa deitar agora — disse, esticando a capa perto do fogo. — Vou buscar uma sopa quente para você. — Agnes deitou-se, obediente, e Kivrin puxou as bordas da capa para cobri-la.

Trouxe a sopa, mas Agnes não quis, e adormeceu quase em seguida.

— Ela apanhou muito frio — Kivrin enfatizou a Eliwys e Roche. — Passou a tarde inteira lá fora. Está resfriada.

No entanto, depois que Roche saiu para dizer as vésperas, Kivrin descobriu o corpo da menina e apalpou embaixo dos braços e na virilha. Chegou a virar Agnes de bruços para procurar algum caroço entre as escápulas, como vira no menino.

Roche não tocou o sino. Voltou trazendo uma colcha rasgada que era visivelmente a da sua própria cama, dobrou-a formando uma espécie de colchão e colocou Agnes em cima.

Os demais sinos da redondeza estavam tocando as vésperas. Oxford e Godstow e o outro sino lá do sudoeste. Kivrin não conseguia ouvir o sino duplo de Courcy. Olhou com ansiedade para Eliwys, que parecia não estar prestando atenção. Estava parada junto aos biombos, olhando para Rosemund.

Os sinos pararam, e então os de Courcy começaram a tocar. Pareciam diferentes: meio abafados e vagarosos. Kivrin olhou para Roche.

— Isso é um toque funeral?

— Não — respondeu ele, olhando para Agnes. — É um dia santo.

Ela tinha perdido a noção do tempo. O emissário do bispo saíra do vilarejo na manhã do dia de Natal. Na mesma tarde, Kivrin descobrira a presença da peste, e, dali em diante, era como se fosse um único e interminável dia. Quatro dias, pensou ela, já se passaram quatro dias.

Ela escolhera saltar na época do Natal porque havia tantos dias santos que os camponeses não se confundiriam nas datas e ela não teria como perder o reencontro. Gawyn foi a Bath em busca de ajuda, sr. Dunworthy, pensou ela, e o bispo tomou todos os cavalos, e eu não sabia onde era o local.

Eliwys tinha ficado de pé e escutava o toque dos sinos:

— Esses são os sinos de Courcy? — perguntou a Roche.

— São — respondeu o padre. — Não tenha medo. Hoje é o dia do Massacre dos Inocentes.

O Massacre dos Inocentes, pensou Kivrin, olhando para Agnes. A menina estava dormindo e tinha parado de tremer, embora continuasse com o rosto afogueado.

A cozinheira chamou da outra ponta, e Kivrin contornou a barricada para atendê-la. Estava meio agachada sobre seu catre, fazendo força para se levantar.

— Tenho que ir para casa — disse ela.

Kivrin conseguiu convencê-la a deitar de novo e lhe trouxe um copo d’água. Como o balde estava quase vazio, apanhou a alça e começou a se encaminhar para a saída.

— Diga a Kivrin que eu quero que ela venha ficar aqui comigo! — ordenou Agnes, que estava sentada.

Kivrin pôs o balde de volta no chão.

— Estou aqui — disse Kivrin, indo se ajoelhar ao lado da pequena. — Estou bem aqui.

Agnes olhou para ela, o rosto vermelho e deformado pela raiva.

— O homem mau vai me pegar se Kivrin não vier — sentenciou ela. — Traga Kivrin aqui agora!

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

 

(073453-074912)

Perdi o reencontro. Perdi a noção dos dias cuidando de Rosemund, e depois ninguém conseguia achar Agnes, e eu não sabia onde era o local do salto.

Deve estar preocupado, sr. Dunworthy. O senhor provavelmente deve achar que fui parar no meio de degoladores e de criminosos. Bem, fui mesmo. E agora eles estão com Agnes em suas garras.

A menina tem febre, mas não apresenta bulbos, nem está tossindo ou vomitando. Apenas febre, só que muito alta: Agnes não me reconhece e fica me chamando o tempo todo. Roche e eu tentamos baixar com compressas de água fria a temperatura, mas ela acaba subindo de novo.

(Pausa)

Lady Imeyne está com a peste. Hoje de manhã, o padre Roche a encontrou caída no chão, junto ao canto da parede. Ela deve ter passado a noite inteira ali. Nas duas últimas noites, ela se recusou a ir para a cama e ficou ajoelhada, rezando a Deus para que protegesse todos os cristãos da doença, inclusive ela.

Ele não atendeu à prece. Imeyne tem a peste pneumônica. Está tossindo e vomitando um muco raiado de sangue.

Ela não aceita os cuidados de Roche nem os meus.

— Ela é a culpada — disse a Roche, apontando para mim. — Olhe o cabelo. Ela não é donzela. Olhe como ela se veste.

Visto um casaco de rapaz e calções de couro que encontrei num dos baús do sótão. Minha túnica foi arruinada quando Lady Imeyne vomitou sobre mim, e precisei rasgar minha blusa para preparar tiras e ataduras.

Roche tentou dar a Imeyne um pouco do chá de casca de salgueiro, mas ela cuspiu tudo.

— Ela mentiu quando contou que tinha se perdido no bosque — afirmou. — Ela veio aqui para nos matar.

Pelo canto de sua boca, escorreu uma saliva manchada de sangue, que Roche limpou.

— É a doença que leva a senhora a acreditar nessas coisas — disse ele, com bondade.

— Ela foi mandada para nos envenenar — prosseguiu Imeyne. — Veja como envenenou as filhas do meu filho. E agora chegou minha vez, mas não vou permitir que ela me dê nada para comer ou beber.

— Pssst — fez Roche. — Não deve falar mal de quem está tentando ajudar.

Ela abanou a cabeça, violentamente, de um lado para o outro.

— Ela quer matar todos nós. Deve ser queimada. Ela é uma serva do demônio.

Eu nunca tinha visto Roche zangado antes. Ele chegou quase a parecer de novo um degolador.

— A senhora não sabe o que está falando — rebateu. — Deus mandou ela para nos ajudar.

Quem me dera que fosse verdade, que eu pudesse ser de alguma serventia, mas não sou. Agnes grita a toda hora me chamando, Rosemund continua deitada ali como enfeitiçada, o secretário está todo enegrecido, mas não há nada que eu possa fazer para ajudar os três. Nada.

(Pausa)

Toda a família do caseiro está infectada. O menino mais novo, Lefric, é o único que apresenta bulbo e, depois de trazê-lo para cá, lancetei o caroço. Não posso fazer nada pelos outros. Todos têm a forma pneumônica.

(Pausa)

O bebê do caseiro morreu.

(Pausa)

Os sinos de Courcy estão dobrando. Nove toques. Quem terá sido? O emissário do bispo? O monge gordo que ajudou a roubar nossos cavalos? Ou Sir Bloet? Espero que um deles.

(Pausa)

Dia terrível. Morreram hoje à tarde a mulher do caseiro e o menino que fugiu de mim quando fui procurar o local do salto sozinha. O caseiro está cavando covas para os dois, embora o chão esteja tão congelado que não sei como ele consegue sequer enfiar a pá ali. Rosemund e Lefric estão piores. Rosemund mal consegue engolir, e seu pulso está fraco e irregular. Agnes não está tão mal, mas não consigo fazer a febre baixar. Roche disse as vésperas aqui esta noite.

Depois das orações de praxe, ele disse:

— Bom Jesus, sei que nos mandastes todo o auxílio possível, mas temo que não possamos superar esta peste mortal. Vossa serva Katherine diz que este terror é uma doença, mas como pode ser assim? Porque parece que a peste não passa de um para outro, mas ataca em todos os lugares ao mesmo tempo.

E ataca.

(Pausa)

Ulf, o bailio, está morto.

E também Sibbe, filha do caseiro.

Joan, filha do caseiro.

A cozinheira (não sei o nome dela).

Walthef, filho mais velho do caseiro.

(Pausa)

Mais de cinquenta por cento do vilarejo já tem a peste. Por favor, não permita que Eliwys adoeça também. Nem Roche.