O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 13 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 12

 

Lady Imeyne não acreditou na história de que Kivrin estava com amnésia. Quando Agnes trouxe o cão, um cãozinho preto e pequeno, com patas enormes, disse a Kivrin:

— Este é o meu cão, Lady Kivrin. — Estendeu o animal para Kivrin, segurando-o pela barriga. — Pode alisar o pelo dele. Lembra como é?

— Lembro — disse Kivrin, tirando o cão dos dedos muito apertados da menina e acariciando os pelos macios. — Você não devia estar costurando agora?

Agnes pegou o cão de volta.

— Minha avó foi discutir com o caseiro, e Maisry foi para o estábulo. — Ela girou o corpo do cãozinho e deu-lhe um beijo. — Então eu vim falar com você. Minha avó está muito zangada. O caseiro e toda a família dele estavam morando no salão quando chegamos. — Ela beijou de novo o cãozinho. — Minha avó diz que a esposa do caseiro é que faz ele pecar.

Avó. Agnes não tinha dito nada igual a “avó”. A palavra nem existia até o século XVIII, mas o intérprete agora estava dando saltos enormes, desconcertantes, embora mantivesse intacta a confusão de Agnes ao pronunciar “Katherine” e às vezes deixasse lacunas em lugares onde o sentido ficaria óbvio pelo contexto. Kivrin teve esperança de que seu subconsciente soubesse o que estava fazendo.

— Você é uma dutra, Lady Kivrin? — quis saber Agnes.

Seu subconsciente visivelmente não sabia o que estava fazendo.

— Uma o quê? — perguntou.

— Uma dutra — repetiu Agnes. O cão estava tentando desesperadamente escapar de suas mãos. — Minha avó disse que você é uma. Ela diz que uma esposa fugindo para se encontrar com o amante teria boas razões para dizer que não se lembra de nada.

Uma adúltera. Bem, pelo menos era melhor do que ser espiã francesa. Ou talvez Lady Imeyne pensasse que ela era as duas coisas.

Agnes beijou de novo o cãozinho.

— Minha avó disse que uma mulher não tem nenhuma razão para viajar pelo bosque no inverno.

Lady Imeyne tinha razão, pensou Kivrin, e o sr. Dunworthy também. Ela ainda não tinha conseguido descobrir o local do salto, embora tivesse pedido para falar com Gawyn quando Lady Eliwys apareceu pela manhã para lavar seu rosto.

“Ele está cavalgando para tentar encontrar os malfeitores que atacaram você”, dissera Eliwys, passando algum tipo de remédio nas têmporas de Kivrin, algo que cheirava a alho e queimava horrivelmente. “Lembra alguma coisa deles?”

Kivrin balançara a cabeça, rezando para que sua falsa amnésia não resultasse no enforcamento de algum pobre aldeão. Ela não poderia dizer “Não, não foi ele”, já que dizia não se lembrar de nada.

Talvez não devesse ter dito que não lembrava coisa alguma. A probabilidade de que elas conhecessem os Beauvrier era muito pequena, e a ausência de uma explicação sua tinha evidentemente deixado Imeyne com ainda mais suspeitas em relação a ela.

Agnes estava tentando colocar seu gorro no cachorrinho.

— Há lobos na floresta — disse ela. — Gawyn matou um com o machado.

— Agnes, Gawyn contou a você como foi que me encontrou? — indagou Kivrin.

— Olha, Blackie gosta de usar meu gorro — disse a menina, amarrando as tiras com um nó sufocante.

— Ele não parece estar gostando — comentou Kivrin. — Onde foi que Gawyn me encontrou?

— No bosque — respondeu Agnes. O cachorro se desvencilhou do gorro e quase caiu da cama. Agnes colocou o bichinho no centro da cama e o ergueu, segurando as patas dianteiras. — Blackie sabe dançar.

— Deixe eu pegar ele um pouco — pediu Kivrin para salvar o pobre animal, que agasalhou nos braços. — Em que parte do bosque Gawyn me encontrou?

Agnes ficou na ponta dos pés, tentando ver o cão.

— Blackie está dormindo — sussurrou ela.

O cão estava adormecido, exausto dos carinhos de Agnes. Kivrin o colocou de lado, com cuidado, sobre as cobertas.

— O lugar onde ele me achou era longe daqui?

— Era — respondeu Agnes, e Kivrin percebeu que ela não fazia ideia.

Era inútil. Agnes obviamente não sabia de nada. Ela teria mesmo que conversar com Gawyn.

— Gawyn já voltou?

— Voltou — respondeu Agnes, acariciando o cãozinho adormecido. — Quer falar com ele?

— Quero — respondeu Kivrin.

— Mas você é uma dutra?

Era difícil acompanhar os saltos da conversa de Agnes.

— Não — disse ela, atinando de repente que deveria ser incapaz de se lembrar de algo. — Eu não lembro de nada do que eu sou.

Agnes brincou com Blackie.

— Minha avó disse que só uma dutra insistiria tanto para conversar com Gawyn.

A porta se abriu e Rosemund entrou.

— Estão procurando você por toda parte, sua bobona — começou, com as mãos nos quadris.

— Eu estava falando com Lady Kivrin — disse Agnes, lançando um olhar ansioso para a coberta onde Blackie jazia, quase invisível de encontro à pele negra do cobertor. Aparentemente, não era permitido trazer o cão para dentro da casa. Kivrin puxou e deixou o cobertor mais alto, para que Rosemund não visse o animal.

— A mãe disse que a dama precisa descansar para ficar boa dos ferimentos — rebateu Rosemund, com severidade. — Venha, tenho que avisar à avó que encontrei você — avisou, conduzindo a menina para fora do quarto.

Kivrin olhou as duas saírem, esperando ansiosamente que Agnes não comentasse com Lady Imeyne que tinha pedido mais uma vez para falar com Gawyn. Imaginava que tinha uma boa desculpa para querer conversar com ele, e que todos entenderiam que estava ansiosa para descobrir algo sobre seus pertences e sobre os salteadores. No entanto, era “inadequado” para mulheres nobres solteiras, em 1320, “a ousadia” de pedir para conversar com homens jovens.

Eliwys podia falar com ele porque era a chefe de casa na ausência do marido, patrão dele, e Lady Imeyne era a mãe do patrão, mas Kivrin deveria ter esperado até que Gawyn lhe dirigisse a palavra e só então respondido, “com toda a discrição que cabe a uma donzela”. Mas eu preciso falar com ele, pensou. Gawyn é o único que sabe o local do salto.

Agnes voltou a toda velocidade e agarrou o cão adormecido.

— Minha avó está muito zangada. Ela pensou que eu tivesse caído no poço — disse, e sumiu novamente.

E sem dúvida a avó tinha dado um tapa-ouvidos em Maisry por causa disso, pensou Kivrin. Maisry já tinha se metido numa encrenca naquele dia por ter perdido Agnes de vista quando esta veio mostrar a Kivrin a corrente de prata de Lady Imeyne, que a pequena disse ser um “requilário”, palavra que frustrou o intérprete. Dentro daquela caixinha pendurada, disse ela a Kivrin, havia um pedaço do sudário de santo Estêvão. Maisry tinha levado um tapa na cara de Imeyne por ter deixado Agnes pegar no relicário e por não a vigiar de perto, mas não por ter deixado a menina entrar no quarto da doente.

Nenhuma delas parecia preocupada com o fato de as meninas se aproximarem de Kivrin nem parecia perceber que podiam contrair aquela doença. Nem Eliwys nem Imeyne tinham tomado a menor precaução ao cuidar da doente.

Os contemps não compreendiam a mecânica da transmissão das doenças, é claro — acreditavam que era uma consequência do pecado e que as epidemias eram um castigo divino —, mas sabiam da existência do contágio. O lema da época da Peste Negra era “Fuja depressa, fique longe, demore muito”, e antes daquilo já se punham em prática algumas quarentenas.

Mas não aqui, pensou Kivrin. E se as crianças contraíssem a doença? Ou o padre Roche?

Ele mantivera um contato muito próximo durante a febre, segurando a mão de Kivrin, perguntando seu nome. Ela franziu a testa, tentando recordar aquela noite. Tinha caído do cavalo, e depois havia um fogo aceso. Não, isso ela imaginara em seu delírio. Assim como o cavalo branco. O cavalo de Gawyn era preto.

Tinham cavalgado pelo bosque e descido uma encosta, passando por uma igreja, e o degolador tinha… Não, não adiantava. Aquela noite era um pesadelo disforme cheio de rostos ameaçadores e sinos e labaredas. Mesmo a hora do salto era uma lembrança difusa, pouco clara. Havia um carvalho e alguns salgueiros, e ela estava sentada contra a roda da carroça porque se sentia tão tonta, e o degolador… Não, ela tinha imaginado o degolador. E o cavalo branco. Talvez tivesse imaginado a igreja também.

Tinha que perguntar a Gawyn onde era o local do salto, mas não diante de Lady Imeyne, que a considerava uma adúltera. Tinha que ficar boa, recuperar força suficiente para levantar da cama, descer a escada, ir até o estábulo, encontrar Gawyn e conversar com ele a sós. Tinha que melhorar.

Estava agora um pouco melhor, embora ainda fraca demais para ir sozinha ao penico. A tontura tinha passado, assim como a febre, mas o fôlego continuava curto. Aparentemente, todos também achavam que estava melhor. Tinham deixado Kivrin sozinha durante a maior parte da manhã, e Eliwys se demorou apenas o necessário para esfregar na sua testa aquele unguento malcheiroso. Para que eu não faça avanços indecentes na direção de Gawyn, pensou Kivrin.

Tentou não se preocupar com o que Agnes contara, nem com os antivirais e os motivos para não terem funcionado, nem com a distância que estava do local do salto, e se concentrar apenas em recuperar as forças. Ninguém apareceu durante toda a tarde, e ela começou a se exercitar sentando na cama e passando as pernas para fora. Quando Maisry apareceu com uma lamparina para ajudá-la a ir ao penico, ela conseguiu retornar sozinha à cama.

Esfriou bastante à noite, e quando Agnes entrou no quarto pela manhã estava trajando uma capa vermelha com capuz, de um tecido de lã bem encorpado, e luvas de pele branca, cobrindo a palma da mão.

— Quer ver minha fivela de prata? Ganhei do Sir Bloet. Vou trazê-la amanhã. Não posso voltar hoje, porque vamos cortar o madeiro de Yule.

— O madeiro de Yule? — perguntou Kivrin, alarmada. O corte cerimonial desse tronco de árvore não deveria ocorrer senão no dia 24, e ela tinha calculado estar no dia 17. Teria entendido mal a fala de Lady Imeyne?

— Isso — confirmou Agnes. — Aqui em casa, só fazemos isso na véspera do Natal, mas parece que vem uma tempestade, e minha avó quer que seja feito agora, enquanto o tempo está bom.

Vem uma tempestade, pensou Kivrin. Se caísse neve, como ela poderia achar o local do salto? A carroça e as caixas continuavam lá mas, com o acúmulo de alguns centímetros de neve, ela jamais encontraria aquela estrada de novo.

— Vai todo mundo para cortar o madeiro? — quis saber Kivrin.

— Não. O padre Roche chamou minha mãe para ir ver um aldeão doente.

Isso explicava por que Imeyne estava agindo como tirana, maltratando Maisry e o caseiro e acusando Kivrin de adultério.

— Sua avó vai com você?

— Vai. E vou no meu pônei.

— Rosemund também vai?

— Vai, sim.

— E o caseiro?

— Também! — exclamou ela, impaciente. — Vai toda a aldeia.

— Gawyn vai?

— Não! — respondeu ela, como se fosse óbvio. — Tenho que passar no estábulo para me despedir de Blackie — avisou, já correndo.

Lady Imeyne iria, assim como o caseiro. Já Lady Eliwys estava em outro lugar, cuidando de um aldeão que ficara doente. E Gawyn, por alguma razão que era óbvia para Agnes mas não para ela, não iria. Talvez tivesse acompanhado Eliwys. No entanto, se tivesse ficado ali para vigiar a casa, ela poderia falar com ele a sós.

Maisry iria, era óbvio. Quando trouxe o café da manhã para Kivrin, estava com um poncho marrom e áspero, e tinha peças de couro amarradas em volta das pernas. Ela ajudou Kivrin a ir ao penico, levou-o para fora, voltou trazendo um braseiro cheio de brasas vermelhas, movendo-se com mais segurança e iniciativa do que Kivrin vira até então.

Kivrin esperou uma hora depois que Maisry saiu, até ter certeza de que todos já tinham partido, então levantou da cama, foi até o banco junto à janela e afastou a cortina de linho. Não dava para ver nada a não ser galhos de árvores e um céu cinzento e escuro, mas o ar de fora estava mais frio do que o de dentro do quarto. Ela subiu no banco.

A janela dava para o pátio, que estava vazio. O largo portão de madeira estava aberto. As lajes do pátio e dos tetos baixos em volta estavam molhadas. Kivrin estendeu o braço para fora, temendo que já houvesse neve caindo, mas não sentiu nenhuma umidade. Desceu, segurando-se nas pedras geladas, e foi se aconchegar junto ao braseiro.

Ele quase não produzia calor. Kivrin apertou os braços com força em torno do peito, tremendo dentro daquele camisolão tão fino. Começou a pensar no que teriam feito com suas roupas. Na Idade Média, as roupas ficavam geralmente penduradas em varas, perto da cama, mas naquele quarto não havia varas nem ganchos.

As roupas estavam no baú aos pés da cama, dobradas com cuidado. Kivrin trouxe todas as peças para fora, cheia de gratidão por ver até as botas ali, e sentou-se sobre a tampa fechada do baú um longo tempo, esperando a respiração voltar ao normal.

Eu tenho que falar com Gawyn esta manhã, pensou ela, concentrando as poucas forças do corpo. É a única hora em que todo mundo vai estar longe. E depois vai nevar.

Ela se vestiu, ficando sentada o máximo possível, apoiando-se numa das colunas do dossel da cama para enfiar os calções e as botas, e depois se virou e foi para o colchão. Vou descansar alguns minutos, só para me esquentar um pouco, pensou ela, adormecendo no mesmo instante.

Foi acordada pelo sino lá do sudoeste, o mesmo que escutara quando chegou. Tinha tocado durante todo o dia anterior, antes de parar de repente, e Eliwys fora até a janela, ficando parada ali por algum tempo, como se tentando ver o que acontecera. A luz da janela estava agora mais atenuada, mas talvez fossem apenas as nuvens que estavam mais pesadas, mais baixas. Kivrin jogou a capa sobre os ombros e abriu a porta. A escada era íngreme, presa à parede de pedra e sem corrimão. Agnes tivera sorte de ter apenas cortado o joelho. Podia muito bem ter caído de ponta-cabeça no piso lá embaixo. Kivrin manteve uma mão roçando a parede, e a meio caminho parou para descansar, olhando o salão.

Estou mesmo aqui, pensou ela. É mesmo 1320. O meio do aposento tinha um brilho vermelho carregado pelas brasas, e havia um pouco de luz saindo pela abertura destinada à fumaça e através das janelas altas e estreitas, mas o resto do salão estava mergulhado na sombra.

Ela parou onde estava, olhando para dentro daquela penumbra enfumaçada, tentando ver se havia alguém ali. A cadeira mais alta, com encosto e braços cheios de entalhaduras, estava encostada na parede do fundo, e a cadeira de Lady Eliwys, um pouco menor e menos ornada, ficava bem ao lado. Havia tapeçarias penduradas nas paredes por trás delas, e uma escada de madeira na extremidade, subindo até o que parecia ser um sótão. Pesadas mesas de madeira se enfileiravam ao longo da parede, junto aos largos bancos, e havia um banco mais estreito perto da parede ali abaixo da escada. Era um banco de dois lugares, separado por um biombo.

Kivrin terminou de descer os degraus e andou na ponta dos pés ao longo desse biombo, as botas rangendo alto sobre os juncos secos espalhados no chão. O biombo era na verdade uma divisória, uma parede interna para bloquear a corrente de ar que vinha da porta.

Às vezes aqueles biombos formavam uma sala separada, com uma cama embutida em armário em cada extremidade, mas por trás daquele via-se apenas uma passagem estreita, onde Kivrin achou os ganchos de pendurar roupa que não vira antes. Não havia nenhum casaco ali agora. Muito bom, pensou, saíram mesmo todos.

A porta estava aberta. No chão, perto dela, Kivrin viu um par de botas velhas, um balde de madeira e o carrinho de brinquedo de Agnes. Kivrin se deteve na pequena antessala para recuperar o fôlego que já faltava, desejando ser capaz de sentar só por um momento, então olhou para fora da porta, cheia de precaução, e depois saiu.

Não havia ninguém no pátio cercado de muros. O chão era forrado com lajes achatadas e amarelas, mas bem no centro havia um cocho de água feito de um largo tronco escavado, cercado de lama. Havia um misto de marcas de cascos de animais e de pegadas humanas, e muitas poças de água barrenta. Uma esquálida galinha estava bebendo sem medo numa das poças. Criavam galinhas só por conta dos ovos. As principais aves para alimentação nos anos 1300 eram pombos e andorinhas.

Também havia um pombal perto do portão, e a construção com telhado de sapê bem ao lado devia ser a cozinha, ao passo que as demais construções menores seriam despensas. O estábulo, com suas portas muito largas, despontava do outro lado, próximo a uma passagem estreita, e depois se descortinava o grande celeiro de pedra.

Tentou o estábulo primeiro. O cãozinho de Agnes veio pulando ao seu encontro, as patas desajeitadas, latindo feliz, e ela precisou levá-lo para dentro do estábulo às pressas e fechar a pesada porta de madeira. Gawyn claramente não estava ali. Também não estava no celeiro, nem na cozinha, nem nas demais construções, e a maior se revelou o local de fabricação de cerveja. Agnes dissera que ele não acompanharia a procissão do corte do madeiro como se isso fosse algo óbvio, e Kivrin presumira que ele tinha que ficar ali para proteger a casa, mas agora cogitava se ele não teria ido com Eliwys para visitar o aldeão doente.

Nesse caso, pensou ela, vou ter que descobrir sozinha onde foi que saltei. Começou a caminhar de volta na direção do estábulo, mas no meio do caminho se deteve. Fraca como estava, nunca seria capaz de montar sozinha num daqueles cavalos e, mesmo que conseguisse subir, ficaria tonta demais para manter-se lá em cima. E tonta demais para sair por aí, procurando o local. Mas não tenho escolha, pensou. Todos saíram e daqui a pouco vai nevar.

Ela olhou o portão e depois a passagem estreita entre o celeiro e o estábulo, tentando decidir para onde seguiria. Eles tinham descido uma encosta e passado por uma igreja. Lembrava-se de ter ouvido o sino. Embora não recordasse ter visto o portão ou o pátio, aquele teria sido o caminho de chegada mais provável.

Ela caminhou pelas lajes, afugentando as galinhas que foram se refugiar com alarido nas proximidades do poço, e olhou pelo portão aberto até onde ia a estrada. Ela cruzava um riacho por uma ponte de troncos e traçava uma sinuosa linha até se perder entre as árvores, ao sul. Mas não havia nenhuma colina, nenhuma igreja, nenhum vilarejo, nenhum indício de que o local do salto ficasse naquela direção.

Tinha que haver uma igreja. Ela ouvira o sino quando estava deitada. Voltou para o pátio e começou a seguir ao longo da trilha enlameada. Passou por uma pocilga feita com varas, com dois porcos imundos dentro, e chegou até a privada, de cheiro inconfundível. Por um momento, receou que aquela trilha conduzisse apenas à privada, mas ela continuava depois e se abria para um relvado.

E lá estava o vilarejo. E a igreja, do lado oposto do relvado, do jeito que Kivrin recordava, e atrás se descortinava a colina por onde tinham descido.

A relva não parecia bem uma relva. Era apenas um espaço de terra maltratada, com cabanas de um lado, e do outro um córrego ladeado por um renque de salgueiros, mas havia uma vaca pastando no que restava do capim e uma cabra amarrada a um carvalho de galhos nus. As cabanas se amontoavam por entre pilhas de feno e montes de esterco e, quanto mais distantes da casa principal, menores e mais toscas eram. Apesar disso, mesmo a cabana mais próxima da casa, que devia ser a moradia do caseiro, não passava de uma choça. Tudo ali era menor e mais sujo e mais malfeito do que as ilustrações dos vids de História. Somente a igreja tinha a aparência que se imaginava ter.

O campanário ficava separado, entre a igreja e a relva. Fora visivelmente construído depois da igreja, que tinha janelas normandas em arco arredondado e pedras cinzentas. A torre era redonda e alta, e as pedras eram mais amareladas, quase cor de ouro.

Uma trilha, não mais larga do que a estrada perto do local do salto, fazia a ligação entre a igreja e o campanário com a colina, perdendo-se entre as árvores.

Foi por este caminho que viemos, pensou Kivrin, começando a atravessar a vegetação. Porém, assim que saiu da proximidade protetora do celeiro, foi atingida pelo vento, que passou através de sua capa como se nada houvesse ali, dando-lhe uma punhalada no peito. Kivrin repuxou a capa até o pescoço, prendeu-a contra o peito com a mão espalmada e seguiu em frente.

O sino lá a sudoeste começou a tocar. Ela pensou o que significaria aquilo. Eliwys e Imeyne tiveram uma conversa a respeito, mas isso foi antes de conseguir compreender o que as duas falavam e, quando o sino começou a tocar na véspera, Eliwys agiu como se nem tivesse escutado. Talvez tivesse algo a ver com o Advento. Os sinos deviam tocar ao anoitecer na véspera do Natal e depois de novo, durante uma hora, após a meia-noite, isso ela lembrava. Talvez também tocassem em outros horários durante o Advento.

A trilha estava lamacenta e revolta. O peito de Kivrin tinha começado a doer. Ela apertou a mão com mais força e continuou, tentando acelerar o passo. Pôde ver algum movimento ao longe, no campo. Deviam ser os aldeões voltando da derrubada do madeiro ou recolhendo os animais. Ela não conseguia avistá-los com clareza. Tinha a impressão de que naquele canto já estava nevando. Precisava se apressar.

O vento chicoteava sua capa e fazia folhas secas dançarem à sua volta. A vaca foi se afastando do relvado, de cabeça baixa, buscando o abrigo das cabanas, que não representavam abrigo algum. Pareciam pouco mais altas do que Kivrin, como se construídas com estacas e amontoadas ali, e não barravam o vento nem um pouco.

O sino continuava tocando, um dobre lento, constante, e Kivrin percebeu que tinha diminuído o passo para se ajustar àquela cadência. Não devia fazer isso. Precisava se apressar, já que podia nevar a qualquer momento. No entanto, quando apertou o passo, a dor no peito ficou tão aguda que começou a tossir. Parou, curvando-se sobre si mesma, tossindo sem parar.

Não conseguiria. Não seja tola, você tem que achar aquele local, pensou ela. Você está doente. Precisa voltar para casa. Vá até a igreja e descanse lá dentro por um minuto.

Ela voltou a andar, esforçando-se para não tossir, mas não adiantou. Não conseguia respirar. Não alcançaria nem a igreja, quanto mais o local do salto. Você tem que chegar lá, gritou para si, por cima da dor. Você precisa ter forças para chegar.

Parou de novo, curvando-se por conta da intensidade da dor. Se antes receava que algum aldeão surgisse em meio às cabanas, agora desejava que aparecesse alguém para ajudá-la a voltar para a casa grande. Mas não apareceria ninguém. Estavam todos longe durante aquela ventania gelada, derrubando o madeiro de Yule e recolhendo os animais. Ela olhou para os campos. Os vultos distantes que avistara há pouco tinham desaparecido.

Estava agora à altura da última cabana. Depois, viam-se apenas alguns alpendres desarrumados, onde imaginou que não devia viver ninguém, e sem dúvida estava certa. Deviam ser apenas depósitos de grãos, ou currais, e mais adiante, a uma distância não tão grande assim, a igreja. Talvez se eu for mais devagar, cogitou ela, partindo de novo na direção da igreja. Seu peito estremecia a cada passo. Parou, oscilando um pouco. Não posso desmaiar aqui, pensou. Ninguém sabe onde eu estou.

Virou-se e olhou para a casa grande. Não conseguiria sequer chegar ao salão. Vou ter que sentar aqui, refletiu, mas não havia onde sentar naquela trilha lamacenta. Lady Eliwys estava cuidando de um aldeão, já Lady Imeyne e as garotas e o vilarejo inteiro estavam cortando o madeiro de Yule. Ninguém sabe onde eu estou.

O vento ficou mais forte, soprando não mais em rajadas, mas numa pressão direta e constante através dos campos. Preciso tentar voltar para a casa, pensou Kivrin, mas também não ia conseguir. Mesmo se manter de pé ali exigia um grande esforço. Se houvesse um lugar, ela sentaria no chão, mas o espaço entre as cabanas até as cercas era lama pura. Teria que entrar numa das cabanas.

Uma cerca cambaia feita com galhos de árvores enrolados em volta de estacas protegia a cabana. A cerca mal chegava ao joelho de Kivrin e não conseguiria barrar a passagem sequer de um gato, quanto mais das ovelhas ou das vacas, a que a proteção se destinava. Somente o portão tinha estacas que chegavam até a altura do peito, e Kivrin apoiou-se numa delas, cheia de gratidão.

— Olá — gritou por entre a ventania. — Tem alguém aí?

A porta da frente estava a apenas alguns passos do portão, e uma cabana como aquela não podia ser à prova de som. Nem sequer era à prova de vento. Kivrin podia ver um buraco na parede, num ponto onde o barro e a palha tinham se rachado e se desprendido das varas entrecruzadas por baixo. Com certeza podiam ouvi-la. Ela ergueu o laço de couro que mantinha o portão fechado, entrou e foi bater à porta baixa, feita de tábuas.

Não houve resposta, como Kivrin esperava. Gritou de novo: “Tem alguém aí?”, sem nem ao menos se dar o trabalho de esperar a tradução do intérprete, e tentou erguer a tranca de madeira atravessada diante da porta. Era pesada demais. Tentou empurrá-la para o lado, para que a extremidade saísse de uma das aberturas nas laterais, mas não conseguiu. Embora a cabana desse a impressão de que o vento poderia arrastá-la a qualquer momento, Kivrin não conseguia nem abrir a porta. Teria que dizer ao sr. Dunworthy que as cabanas medievais não eram tão frágeis quanto aparentavam. Apoiou o corpo na porta, apertando o peito.

Ouviu um ruído às suas costas e se virou, já dizendo: “Desculpe ter invadido seu jardim”. Era a vaca, espichando a cabeça distraidamente por cima da cerca e mexendo com o focinho numas folhas ressequidas que mal alcançava.

Kivrin precisava voltar para a casa. Apoiou-se no portão e conseguiu sair, certificando-se de prendê-lo de novo com o laço de couro. Depois se apoiou nas costas ossudas da vaca, que acompanhou Kivrin por alguns passos, como se achasse que estava sendo conduzida para ser ordenhada, antes de voltar em direção ao jardim.

De repente, a porta de uma daquelas choças onde era impossível que morasse alguém foi aberta, e um menino descalço saiu. Ele parou, parecendo amedrontado.

Kivrin tentou endireitar o corpo.

— Por favor — disse, respirando com força entre a pronúncia das palavras — posso descansar um pouco na sua casa?

O garoto ficou olhando para ela sem ação, o queixo caído. Era horrivelmente magro, e os braços e as pernas não eram mais grossos do que as estacas da cerca.

— Por favor, corra e chame alguém. Diga que eu estou doente.

Ele não consegue correr mais do que eu, pensou ela, assim que acabou de falar. Os pés do menino estavam azulados de frio. A boca parecia cheia de feridas, e as bochechas e o lábio superior estavam manchados de sangue seco que tinha escorrido do nariz. Ele tem escorbuto. Está ainda pior do que eu, refletiu Kivrin, mas pediu outra vez:

— Corra para a casa e peça para alguém vir aqui.

O garoto fez o sinal da cruz com uma mão rachada, esquelética.

— Bighaull emeurdroud ooghattund enblastbardey — disse, recuando para dentro da choça.

Oh, não, pensou Kivrin, desesperançada. Ele não me entende, e não tenho forças para tentar com mais afinco.

— Por favor, me ajude — pediu ela, e o garoto a olhou quase como se tivesse compreendido. Deu um passo na direção dela mas, em seguida, disparou a correr para a igreja. — Espere! — gritou Kivrin.

O garoto passou pela vaca, contornou a cerca e sumiu por trás da cabana. Kivrin olhou para dentro da choça, que mal merecia este nome. Parecia mais um lugar de guardar feno, e havia capim e pedaços de sapê enfiados nos espaços entre as estacas. A porta era um trançado de varas amarradas com uma corda escura, o tipo de porta que uma pessoa com um bom pulmão podia botar abaixo com um sopro, e o menino a deixara aberta. Kivrin pisou na soleira, que era um pouco elevada, e entrou.

Dentro estava escuro e tão enfumaçado que ela não conseguia enxergar direito. O cheiro era terrível. Como um estábulo. Pior do que um estábulo. Ao odor de cocheira misturavam-se a fumaça e o mofo e o fedor repulsivo dos ratos. Kivrin precisou abaixar a testa para cruzar a porta e, quando se endireitou, bateu com a cabeça nas varas que serviam de caibros.

Não havia nenhum lugar para sentar, se é que morava alguém dentro daquela cabana. O chão estava coberto de sacos e de instrumentos, como se ali fosse um local de trabalho, e não se via nenhuma mobília, a não ser uma mesa desigual cujas pernas rústicas se espalhavam de maneira irregular a partir do centro. Mas sobre a mesa havia uma tigela de madeira e a ponta de um pão, e no centro da choça, no único espaço vazio, despontava um pequeno fogo ardendo num buraco raso escavado no chão.

Era aquele o lugar de origem de toda a fumaceira, ainda que no teto, mesmo por cima, havia um buraco aberto para que a fumaça escapasse. Era um fogo miúdo, alguns gravetos apenas, mas os outros buracos nas paredes de barro mal assentado e no teto também puxavam a fumaça, e a ventania, que vinha de toda parte, fazia a fumaceira dançar de um lado para outro dentro da choça acanhada. Kivrin começou a tossir, o que foi um erro terrível. Seu peito parecia que se partiria em dois a cada espasmo.

Apertando os dentes para reprimir a tosse, ela desabou em cima de um saco de cebolas, segurando-se a uma pá encostada ao lado e àquela parede precária. Sentiu-se melhor assim que sentou, mesmo estando tão frio lá dentro que ela podia ver o próprio hálito. Imagina como deve ser o cheiro disto aqui no verão, pensou ela. Enrolou a capa em volta do corpo, repuxando a barra inferior, como um lençol, em volta dos joelhos.

Uma corrente de ar gelado soprava ao longo do chão. Kivrin envolveu os pés num pedaço da capa, pegou um atiçador que estava próximo e mexeu naquela débil fogueira. As chamas se elevaram um pouco mais animadas, iluminando e fazendo aquele espaço parecer cada vez mais um barracão de trabalho. Um telheiro rebaixado fora construído num dos lados, provavelmente para estábulo, porque estava separado do resto do ambiente por uma cerca ainda menor do que a do lado de fora. As chamas não clareavam o suficiente para que fosse possível enxergar esse recanto, mas Kivrin percebeu sons de movimento por lá.

Um porco, talvez, embora os porcos daqueles campônios já devessem ter sido todos mortos àquela altura do ano. De repente era uma cabra de leite. Kivrin atiçou o fogo de novo, tentando jogar mais luz para aquele lado.

O barulho vinha de perto daquela patética cerca, onde ela viu uma gaiola em forma de cúpula. Era algo completamente deslocado naquele recanto imundo, com suas faixas curvas de metal, sua intrincada porta, sua alça cheia de adornos. Dentro da gaiola, com os olhos cintilando à luz do fogo atiçado por Kivrin, estava um rato.

Meio sentado, as patinhas dianteiras segurando o pedaço de queijo que o levara à prisão, o roedor estava olhando para Kivrin. Havia vários outros fragmentos de queijo, esfarelados e provavelmente cobertos de bolor, espalhados pelo piso da gaiola. Mais comida do que na cabana inteira, pensou Kivrin, sentada muito quieta na saca de cebolas cheia de saliências. Ninguém diria que eles tinham alguma coisa que valesse a pena proteger dos ratos.

Ela já tinha visto um rato antes, é claro, em História da Psic, e também quando foi testada para fobias durante o primeiro ano, mas não eram iguais a este. Ninguém vira um rato igual àquele, na Inglaterra pelo menos, em cinquenta anos. Era um rato bem bonito, na verdade, com pelo negro e sedoso, não muito maior do que o rato branco do laboratório de História da Psic, nem tão grande quanto o rato marrom usado em seu teste.

Parecia também mais limpo do que o rato marrom, que dava a impressão de ter sido arrancado dos esgotos, dos ralos e dos túneis de onde certamente fora recolhido, com seu pelo duro, de cor marrom fosca e com a cauda obscenamente nua e comprida. Quando ela começou a estudar a Idade Média, fora incapaz de entender como os contemps tinham tolerado aquelas coisas repugnantes em seus celeiros, quanto mais nas suas casas. A ideia de um daqueles roedores andando na parede perto da sua cama a enchia de nojo. Mas aquele rato era na verdade de aparência bastante limpa, com olhinhos negros e pelo lustroso. Sem dúvida era mais limpo do que Maisry, e talvez mais inteligente. Sua aparência era inofensiva.

Como se concordando com ela, o rato mordiscou o queijo que segurava.

— Mas você não é inofensivo. Você vai ser o flagelo da Idade Média — sentenciou ela.

O rato largou o pedaço de queijo e deu um passo à frente, os bigodes fremindo. Suas patinhas cor-de-rosa agarraram duas das barras de metal e pareciam fazer um apelo.

— Não posso deixar você sair, sabe? — disse Kivrin, e as orelhas do roedor se ergueram, como se ele a entendesse. — Você devora grãos que são preciosos, contamina a comida e leva pulgas, e daqui a vinte e oito anos você e seus amigos vão liquidar metade da população da Europa. É com você que Lady Imeyne devia estar se preocupando, e não com espiãs francesas ou padres pouco letrados. — O rato ficou olhando para ela. — Eu gostaria de soltar você, mas não posso. A Peste Negra foi muito cruel do jeito que ocorreu. Matou metade da Europa. Se eu soltar você, seus descendentes podem deixar as coisas ainda piores.

O rato largou as barras e começou a correr no interior da gaiola, esbarrando na grade, correndo freneticamente em círculos, num movimento desordenado.

— Se eu pudesse, soltava — disse Kivrin. Como o fogo estava quase extinto, ela o avivou de novo, mas quase que só restavam cinzas. A porta, que ela deixara aberta na esperança de que o menino trouxesse alguém, bateu com força e se fechou, mergulhando a choupana na escuridão.

Eles nunca vão saber onde me procurar, pensou Kivrin, ciente de que nem tinham começado a fazer isso ainda. Todos achavam que ela continuava no quarto lá de cima, dormindo. Lady Imeyne só daria uma olhada nela quando fosse a hora de levar sua ceia. Não começariam a procurá-la senão depois das vésperas, e àquela altura já teria escurecido.

Tudo estava quieto dentro da choupana. O vento parecia ter amainado. Kivrin não ouvia nenhum barulho do rato. Um graveto estalou no fogo, e algumas fagulhas saltaram e caíram no chão.

Ninguém sabe onde eu estou, pensou ela, levando a mão ao peito como se tivesse sido apunhalada. Ninguém sabe onde eu estou. Nem mesmo o sr. Dunworthy.

Mas com certeza isso não era verdade. Lady Eliwys podia ter voltado cedo e subido para aplicar o unguento, ou talvez Imeyne tivesse mandado Maisry de volta para casa, ou quem sabe aquele menino tivesse corrido para trazer alguns homens que trabalhavam no campo, e eles estariam ali a qualquer minuto, mesmo a porta estando fechada. E mesmo que ninguém percebesse seu sumiço antes das vésperas, eles tinham archotes e lampiões, e os pais do menino com escorbuto voltariam para casa para preparar a ceia e acabariam a encontrando, e logo mandariam buscar alguém da casa. Não importa o que aconteça, você não está completamente só, disse ela a si mesma, e esse pensamento a reconfortou.

Porque ela estava completamente só. Tentara se convencer do contrário, de que alguma leitura dos números relativos à rede mostraria a Gilchrist e Montoya que alguma coisa saíra errada, que o sr. Dunworthy faria Badri checar tudo repetidas vezes, que de algum modo eles perceberiam que houvera um erro e deixariam o salto em aberto para ela. Mas isso não aconteceria. Não tinham ideia de onde ela estava, sabiam tão pouco quanto Agnes e Lady Eliwys. Pensavam que ela estava em toda segurança em Skendgate, estudando a Idade Média, com o local do salto sob controle e o recorde cheio até a metade de observações sobre costumes exóticos e a rotatividade das colheitas. Não perceberiam que ela desaparecera senão quando ativassem a rede dali a duas semanas.

— E quando acontecer vai ser no escuro — murmurou Kivrin.

Ficou sentada, observando o fogo, que estava quase apagado. Em volta, ela não conseguia avistar mais nenhum graveto. Imaginou se aquele garoto teria sido deixado em casa com a incumbência de ir buscar mais lenha, e como pretendiam acender a fogueira ali quando anoitecesse.

Estava sozinha, o fogo se extinguia e ninguém sabia onde ela estava, a não ser o rato destinado a matar metade da Europa. Kivrin ficou de pé, voltou a bater com a cabeça nas varas que sustentavam o teto, empurrou a porta e saiu.

Ainda não se via ninguém pelos campos ao redor. O vento amainara, e ela podia ouvir com clareza um sino badalando a sudoeste. Alguns flocos de neve desciam esvoaçando do céu cinzento. O pequeno promontório onde se situava a igreja estava totalmente coberto de neve. Kivrin começou a andar na direção da igreja.

Outro sino começou a tocar, mais ao sul e mais próximo. O som agudo e metálico indicava tratar-se de um sino menor. Batia com regularidade, também, mas um pouquinho depois do primeiro sino, de modo a soar como um eco.

— Kivrin! Lady Kivrin! — gritou Agnes. — Onde estava?! — Ela correu até pertinho de Kivrin, o rostinho redondo vermelho da corrida ou do frio. Ou da excitação. — Procuramos você por toda parte. — Ela correu de volta na direção de onde viera, gritando. — Achei ela! Achei ela!

— Não, você não achou — disse Rosemund. — Nós todas vimos ela.

Rosemund se apressou, adiantando-se a Lady Imeyne e a Maisry, que estava com o poncho puído jogado sobre os ombros e tinha as orelhas bem avermelhadas. Parecia emburrada, o que provavelmente significava que tinha levado a culpa pelo sumiço de Kivrin, ou então achava que ia levar, ou quem sabe estivesse apenas com frio. Já Lady Imeyne parecia furiosa.

— Você não sabia que era Kivrin — berrou Agnes, correndo para ficar com Kivrin ao seu lado. — Você disse que não tinha certeza se era Kivrin. Eu descobri ela.

Rosemund ignorou a irmã e agarrou o braço de Kivrin.

— O que aconteceu? Por que saiu da cama? — perguntou ela, ansiosa. — Gawyn foi falar com você e descobriu que você tinha desaparecido.

Gawyn foi me procurar, pensou Kivrin, sentindo-se fraca. Gawyn, que sabe o lugar exato do salto, apareceu para falar comigo e eu não estava lá.

— Sim, ele foi procurar você para contar que não encontrou sinal nenhum dos homens que a atacaram…

Lady Imeyne juntou-se a elas nesse ponto.

— Para onde estava indo? — perguntou ela, e suas palavras soavam como uma acusação.

— Não achei o caminho de volta — respondeu Kivrin, tentando imaginar o que dizer para justificar a perambulação pelo vilarejo.

— Foi se encontrar com alguém? — indagou Lady Imeyne, e agora sim era mesmo uma acusação.

— Como é que ela poderia encontrar alguém? — quis saber Rosemund. — Ela não conhece ninguém aqui e não se lembra de ninguém que conhecia antes.

— Fui procurar o lugar onde fui encontrada — disse Kivrin, tentando se apoiar em Rosemund. — Pensei que se visse os meus pertences eu poderia…

— … lembrar melhor — completou Rosemund. — Mas…

— Não devia ter arriscado sua saúde por isso — cortou Lady Imeyne. — Gawyn trouxe tudo para cá, hoje.

— Tudo? — perguntou Kivrin.

— Tudinho — respondeu Rosemund. — A carroça e todas as suas caixas.

O segundo sino parou de tocar, e o primeiro prosseguiu sozinho, cadenciado, vagaroso, e aquilo com certeza era um funeral. Parecia a morte da esperança propriamente dita. Gawyn trouxera tudo para a casa grande.

— Não é certo deixar Lady Katherine aqui falando, num clima como este — disse Rosemund, soando como sua mãe. — Ela esteve doente e deve ser levada para dentro antes que pegue um resfriado.

Já peguei, pensou Kivrin. Gawyn trouxera tudo para a casa, todos os indícios de onde acontecera o salto. Até mesmo a carroça.

— A culpa disso é sua, Maisry — sentenciou Lady Imeyne, empurrando Maisry para que ela segurasse o outro braço de Kivrin. — Não devia ter deixado a dama sozinha.

Kivrin encolheu-se para se afastar da sujeira de Maisry.

— Consegue andar? — perguntou Rosemund, já se vergando um pouco sob o peso de Kivrin. — Quer que tragam a égua?

— Não — respondeu Kivrin. Por algum motivo aquele pensamento era insuportável: ser levada de volta como uma prisioneira em cima de um cavalo tilintante. — Não — repetiu. — Posso andar.

Teve que se apoiar com todo o peso no braço de Rosemund e também no sujíssimo braço de Maisry, e aquilo tudo levou um tempo enorme, mas ela conseguiu. Passou pelas cabanas e depois pela casa do caseiro, e pelos porcos cheios de curiosidade, e finalmente chegou ao pátio. O tronco de um freixo enorme estava estendido nas pedras, diante do celeiro, com as raízes retorcidas agarrando os flocos de neve.

— Ela vai acabar morrendo se continuar fazendo essas coisas — disse Lady Imeyne, fazendo um gesto para que Maisry abrisse a porta. — Não há dúvida de que vai ter uma recaída.

Começou a nevar com força. Maisry abriu a porta, que tinha uma tramela parecida com a da gaiola do rato. Devia ter deixado o roedor fugir, pensou Kivrin, seja ou não uma praga. Devia ter deixado que sumisse.

Lady Imeyne fez um gesto chamando Maisry, que veio de novo segurar no braço de Kivrin.

— Não — disse ela, afastando a mão da outra e depois a de Rosemund, antes de conseguir caminhar sozinha sem ajuda, cruzando a porta e mergulhando na escuridão lá dentro.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

 

(005982-013198)

18 de dezembro de 1320 (Calendário Antigo). Acho que estou com pneumonia. Tentei encontrar o local do salto, mas não consegui, e acabei tendo uma espécie de recaída ou coisa assim. Sinto uma pontada de dor muito forte nas costelas toda vez que encho os pulmões, e ao tossir, o que acontece o tempo todo, é como se tudo dentro de mim estivesse se fazendo em pedaços. Tentei me sentar há alguns minutos e fiquei banhada de suor no mesmo instante. Acho também que minha temperatura voltou a subir. Todos esses sintomas, de acordo com a dra. Ahrens, indicam pneumonia.

Lady Eliwys ainda não retornou. Lady Imeyne colocou no meu peito uma cataplasma horrivelmente fedida e mandou chamar a mulher do caseiro. Achei que pretendia brigar com ela por ter meio que invadido a casa grande mas, quando a mulher apareceu, carregando um bebê de seis meses, Imeyne disse: “O ferimento provocou febre nos pulmões”, e a mulher examinou minhas têmporas. Saiu em seguida e voltou depois, sem o bebê e com uma tigela cheia de um chá amargo. Talvez fosse casca de salgueiro ou algo assim, porque minha febre começou a baixar e as costelas agora já não doem tanto.

A esposa do caseiro é pequena e magra, com um rosto anguloso e cabelo grisalho. Acho que Lady Imeyne provavelmente tem razão quando diz que ela induz o caseiro “ao pecado”. Ela veio trajando uma túnica com bordas de pele e mangas tão longas que quase arrastavam no chão, e com o bebê envolto num lençol de linho muito bem tecido. Ela fala com uma espécie de sotaque arrastado que parece uma tentativa de imitar o modo de falar de Lady Imeyne.

“A classe média embrionária”, como diria o sr. Latimer, nouveau riche e esperando sua oportunidade, que chegará daqui a trinta anos, quando a Peste Negra vingar e um terço da aristocracia for varrido da Terra.

— Foi esta a dama achada no bosque? — perguntou a Lady Imeyne assim que chegou, e não havia nenhuma humildade aparente nos seus modos. Ela sorriu para Imeyne como se fossem velhas amigas e se aproximou da cama.

— Foi — respondeu Imeyne, dando um jeito de encaixar impaciência, desdém e desagrado numa única sílaba.

A esposa do caseiro não deu muita atenção. Chegou até pertinho da cama e depois recuou. Era a primeira pessoa a reagir como se aquilo pudesse ser contagioso.

— Será que ela está com a febre (alguma coisa)?

O intérprete não registrou a palavra, e eu também não ouvi direito por causa do sotaque peculiar da mulher. Flourinen? Florentina?

— Ela tem um ferimento na cabeça, que provocou a febre nos pulmões — respondeu Imeyne com aspereza.

A mulher do caseiro assentiu.

— O padre Roche nos contou como encontrou a dama no bosque, com Gawyn.

Imeyne se empertigou ao vê-la usar o nome de Gawyn com tal familiaridade, a mulher do caseiro percebeu e se apressou a ir ferver mais casca de salgueiro. Chegou a fazer uma ligeira reverência diante de Lady Imeyne quando saiu pela segunda vez.

Rosemund veio me fazer companhia após a saída de Imeyne (acho que a designaram para evitar que eu escapasse pela segunda vez) e perguntei a ela se era verdade que o padre Roche estava com Gawyn no momento em que fui encontrada.

— Não — respondeu ela. — Gawyn encontrou o padre Roche no caminho quando trazia você. Ele pediu para o padre Roche cuidar de você enquanto procurava os malfeitores, mas não encontrou ninguém. Então, ele e o padre Roche trouxeram você para cá. Não se preocupe. Gawyn trouxe seus pertences para a casa.

Não me lembro de o padre Roche estar lá, exceto no quarto, quando cuidou de mim. De qualquer maneira, se for verdade e se Gawyn não o encontrou longe demais do local do salto, talvez ele também saiba onde é.

(Pausa)

Tenho pensado nas palavras de Lady Imeyne. “O ferimento na cabeça provocou febre nos pulmões”, disse ela. Acho que nenhuma pessoa aqui imagina que eu estou enferma. Deixam as crianças entrar no quarto de uma doente a qualquer instante, sem parecer sentir o menor receio, com exceção da mulher do caseiro. Assim que Lady Imeyne comentou que eu estava com “febre nos pulmões”, ela se aproximou da cama sem hesitar. Mas estava visivelmente preocupada com a possibilidade de minha doença ser contagiosa.

Quando perguntei a Rosemund por que não tinha acompanhado sua mãe na visita ao aldeão, ela respondeu, como se fosse uma coisa óbvia: “Ela me proibiu de ir. O aldeão está doente”.

Acho que eles não sabem que estou doente. Não apresentei nenhum sinal ou sintoma externo de doença, como pústulas ou brotoejas, e acho que eles atribuem minha febre e meu delírio aos meus ferimentos. Feridas muitas vezes infeccionam, e havia casos frequentes de envenenamento do sangue. Não havia motivo para manter as meninas longe de uma pessoa machucada.

Além disso, nenhuma delas contraiu algo. Já se passaram cinco dias e, se isso for um vírus, o período de incubação deveria ser de apenas doze a quarenta e oito horas. A dra. Ahrens disse que o período de maior risco de contágio é o anterior ao aparecimento dos sintomas, de modo que talvez eu não estivesse mais contagiosa quando as meninas começaram a vir. Ou talvez seja alguma coisa que elas já tiveram e são imunes. A mulher do caseiro perguntou se eu já tivera a Febre Florentina? Febre Flahntin?, e o sr. Gilchrist está convencido de que houve uma epidemia de influenza em 1320. Talvez tenha sido isso o que eu peguei.

Agora é de tarde. Rosemund está sentada no banco junto à janela, costurando um pedaço de linho com uma linha vermelho-escura, e Blackie está dormindo aqui ao meu lado. Andei pensando no quanto o senhor tinha razão, sr. Dunworthy. Eu não estava mesmo preparada, e tudo está sendo completamente diferente do que eu havia imaginado. Mas o senhor estava equivocado quando dizia que não pareceria um conto de fadas.

Para todo lado que olho, enxergo coisas que são de contos de fadas: o casaco e o chapeuzinho vermelho de Agnes, e a gaiola do rato, e as tigelas de mingau, e as cabanas do vilarejo feitas de palha e de varas, cabanas que um lobo poderia derrubar apenas com meio sopro.

O campanário se parece com a tal torre onde Rapunzel ficou presa, e Rosemund, curvada sobre o seu bordado, com o cabelo escuro e o gorro branco e as maçãs vermelhas do rosto, parece mais do que tudo a Branca de Neve.

(Pausa)

Acho que a febre voltou. Sinto cheiro de fumaça no quarto. Lady Imeyne está rezando, ajoelhada ao pé da cama, segurando seu Livro das Horas. Rosemund me contou que voltaram a pedir ajuda à mulher do caseiro. Lady Imeyne despreza essa mulher. Eu devo estar muito doente para que ela mande chamá-la.

Será que vão mandar buscar o padre? Se fizerem isso, preciso perguntar se ele sabe onde foi que Gawyn me encontrou. Está tão quente aqui. Essa parte não se parece nem um pouco com um conto de fadas. Eles aqui só mandam chamar um padre quando a pessoa está morrendo, mas Probabilidade diz que havia 72 por cento de chance de morrer de pneumonia nos anos 1300. Espero que ele venha logo, para me dizer onde é o local do salto e pegar na minha mão.