O Livro do Juízo Final
Capítulo 35
O sino parou antes mesmo que os dois tivessem conseguido selar o cavalo.
— Vamos, se apresse! — ordenou Dunworthy, terminando de prender a cilha.
— Tudo bem — disse Colin, olhando o mapa. — O sino tocou três vezes. Consegui um fix. Está a sudoeste, certo? E isto aqui é Henefelde, não é? — O garoto abriu o mapa diante de Dunworthy, apontando cada um dos lugares. — Então, tem que ser este vilarejo aqui.
Dunworthy olhou o mapa e depois para sudoeste, tentando definir ao certo de onde vinha o som do sino. Já estava meio inseguro a respeito, embora ainda pudesse sentir as vibrações do dobre. Desejou que a aspirina fizesse logo efeito.
— Vamos lá, então! — exclamou Colin, trazendo o cavalo pela porta do barracão. — Monte, e vamos.
Dunworthy enfiou o pé no estribo e girou a perna por cima do cavalo. No mesmo instante, sentiu uma tontura. Colin lançou para ele um olhar interrogativo e disse:
— Acho melhor eu guiar.
E subiu, postando-se à frente de Dunworthy. O garoto batia muito de leve com os calcanhares na barriga do garanhão e dava puxões na rédea muito fortes, mas o cavalo, surpreendentemente, começou a se mover com docilidade pelo relvado, rumo à estrada.
— Sabemos onde o vilarejo fica — mencionou Colin, confiante. — Tudo o que precisamos é encontrar uma estrada que vá naquela direção.
Quase na hora declarou que tinha encontrado uma. Tratava-se de uma trilha bastante larga, que descia uma encosta e penetrava entre pinheiros. Porém, mal se embrenhava entre as árvores e já se dividia em duas. Colin se virou para olhar Dunworthy, com ar interrogativo.
O cavalo não hesitou. Começou a descer a trilha da direita.
— Veja, ele sabe para onde está indo — observou Colin, encantado.
Pelo menos um de nós sabe, pensou Dunworthy, fechando os olhos com força para evitar a visão da paisagem sacolejante e diminuir a dor de cabeça. O garanhão, seguindo o próprio instinto, estava visivelmente voltando para casa, e Dunworthy sabia que precisava contar isso a Colin, mas estava mais uma vez se sentindo mal e tinha medo de soltar a cintura do garoto mesmo que por um momento, medo de que a febre fugisse do controle. Estava com tanto frio. Era a febre, claro, a dor de cabeça, a tontura, tudo isso era a febre, e isso era um bom sinal, o corpo reunindo forças para combater o vírus, agrupando as tropas de defesa. O calafrio era apenas um efeito colateral da febre.
— Que diabos, está esfriando — constatou Colin, puxando a bata sobre si com uma das mãos. — Espero que não comece a nevar.
Colin largou completamente as rédeas e puxou o cachecol para cobrir o nariz e a boca. O garanhão parecia nem notar. Trotava com firmeza penetrando num bosque cada vez mais fechado. Chegaram a uma nova bifurcação, e depois a outra, e nas duas oportunidades Colin consultou o mapa e o localizador, mas Dunworthy não chegou a perceber qual foi a trilha escolhida, ou se o cavalo tinha simplesmente se mantido na mesma direção o tempo todo.
Começou a nevar ou eram eles que estavam cavalgando direto para a nevasca. De um instante para o outro, a neve estava caindo em pequenos e incessantes flocos que obscureciam a trilha e se derretiam nos óculos de Dunworthy.
O remédio estava começando a fazer efeito. Dunworthy sentou-se mais empertigado e apertou mais a capa contra o corpo. Limpou os óculos na barra da capa. Seus dedos estavam entorpecidos e vermelhos. Esfregou as mãos com força e soprou o hálito quente contra elas. Ainda estavam dentro do bosque, e a trilha agora era mais estreita do que antes.
— O mapa diz que Skendgate fica a cinco quilômetros de Henefelde — constatou Colin, limpando a neve que caía sobre o localizador. — Como já cavalgamos bem uns quatro, estamos perto.
Não estavam perto de lugar nenhum. Estavam no meio do bosque de Wychwood, seguindo um caminho de passagem para o gado ou para cervos. Aquela trilha desembocaria na cabana de algum aldeão, ou em algum ponto com sal à flor da terra ou alguma moita de frutos silvestres de que o cavalo guardava boas recordações.
— Veja só, eu não disse?! — exclamou Colin, e lá adiante, depois das árvores, avistaram o topo de um campanário. O cavalo começou a trotar mais depressa. — Pare! — mandou Colin ao garanhão, puxando as rédeas. — Mais devagar.
Dunworthy tomou as rédeas do garoto e obrigou o cavalo a reduzir o passo enquanto saíam do bosque. Eles cruzaram um pasto coberto de neve e chegaram ao topo da colina.
Depois de um aglomerado de freixos, o vilarejo descortinava-se diante deles. Como estava obscurecido pela nevasca, eles distinguiam apenas contornos cinzentos: a casa grande, as cabanas, a igreja, o campanário. Não era o vilarejo que procuravam — Skendgate não tinha campanário —, mas, se Colin percebeu isso, não fez qualquer comentário. O garoto bateu os calcanhares no cavalo algumas vezes, sem muito efeito, e eles desceram a colina devagar, com Dunworthy ainda segurando as rédeas.
Dunworthy não conseguia avistar nenhum cadáver ao redor, mas também não observou nenhuma pessoa viva, nem tampouco fumaça saindo de alguma cabana. O campanário parecia silencioso e deserto, e não havia pegadas visíveis.
Quando estavam na metade da descida da encosta, Colin falou:
— Vi alguma coisa.
Dunworthy também vira. O vislumbre de um movimento. Podia ter sido um pássaro ou um galho açoitado pelo vento.
— Bem ali — disse Colin, apontando a segunda cabana.
Uma vaca emergiu de entre as cabanas, desamarrada, os úberes inchados, e Dunworthy viu confirmado o que temia, que a peste também já passara por ali.
— Ah, é uma vaca! — exclamou Colin, desapontado. A vaca levantou a cabeça ao ouvir aquela voz e começou a trotar na direção deles, mugindo.
— Onde está todo mundo? — perguntou Colin. — Alguém deve ter tocado aquele sino.
Estão todos mortos, pensou Dunworthy, olhando para o pátio da igreja. Havia túmulos recentes ali, com terra amontoada por cima, e a neve ainda não cobrira tudo por completo. Tomara que estejam todos sepultados no pátio da igreja, desejou, e então avistou o primeiro corpo. Era um menino. Estava sentado, com as costas apoiadas numa lápide, como que descansando.
— Olhe, tem alguém ali! — observou Colin, dando um puxão nas rédeas e apontando o menino. — Ei, você aí!
Ele girou a cabeça para olhar para Dunworthy.
— Será que eles vão entender o que a gente fala? O que acha?
— Ele está… — começou a dizer Dunworthy.
O menino ficou de pé, erguendo-se com dificuldade, a mão apoiada à lápide, olhando em volta, como se procurasse uma arma.
— Não vamos fazer mal a você — gritou Dunworthy para o garoto, enquanto pensava em como dizer aquilo em inglês médio.
Desceu do cavalo, apoiando-se com a mão na sela para conter a súbita tontura. Depois empertigou-se e estendeu a mão na direção do garoto, com a palma aberta voltada para ele.
O rosto do menino era imundo, cheio de riscas e manchas de terra e sangue, e a frente do gibão e dos culotes arregaçados também estavam empapados de sangue seco. Ele se curvou, apertando a mão contra o flanco do corpo, como se um mero movimento causasse dor. Apanhou um pedaço de pau coberto de neve e adiantou-se alguns passos, barrando a passagem.
— Kepe from haire. Der fevreblau hast bifallen us.
— Kivrin! — exclamou Dunworthy, e começou a caminhar até ela.
— Não chegue mais perto — ordenou ela, erguendo o pedaço de pau como se fosse uma pistola. A extremidade estava lascada, pontiaguda.
— Sou eu, Kivrin! O sr. Dunworthy — disse ele, sem se deter.
— Não! — gritou ela, recuando e agitando o cabo partido da pá. — Vocês não entendem. É a peste.
— Está tudo bem, Kivrin. Fomos vacinados.
— Vacinados… — repetiu ela, como se não soubesse o significado da palavra. — Foi o emissário do bispo. Ele já estava doente quando chegou aqui.
Colin se aproximou correndo, e ela ergueu o cabo da pá mais uma vez.
— Está tudo bem — disse Dunworthy. — Este é Colin. Ele foi vacinado também. Viemos levar você para casa.
Ela o mediu com firmeza durante um longo minuto enquanto a neve caía sobre eles.
— Levar para casa — repetiu ela, numa voz inexpressiva.
Ela abaixou os olhos para o túmulo aos seus pés. Era menor que os outros, e mais estreito, como se pertencesse a uma criança.
Depois de um minuto, voltou a erguer os olhos para Dunworthy, e aquele rosto também era inexpressivo.
Cheguei tarde demais, pensou ele, desesperançado, ao contemplá-la parada ali, naquele gibão ensanguentado, cercada de sepulturas. Já crucificaram ela.
— Kivrin — começou ele.
Ela deixou o cabo da pá cair no chão.
— Precisa me ajudar — disse ela, e dando meia-volta começou a caminhar rumo à igreja.
— Tem certeza de que é ela? — perguntou Colin.
— Sim — respondeu ele.
— O que ela tem?
Cheguei tarde demais, pensou ele, e pôs a mão no ombro de Colin, em busca de apoio. Ela nunca vai me perdoar.
— Qual o problema? O senhor está se sentindo mal de novo? — indagou Colin.
— Não — disse ele, mas esperou um pouco mais antes de retirar a mão.
Kivrin havia parado na porta da igreja e continuava apertando a mão contra as costelas. Um calafrio passou pelo corpo de Dunworthy.
Ela está doente, pensou. Está com a peste.
— Você está doente? — perguntou a ela.
— Não — respondeu Kivrin, afastando e olhando a própria mão, como se esperasse vê-la manchada de sangue. — Ele me acertou um pontapé. — Ela tentou empurrar a porta da igreja, contraiu o rosto, e deixou isso para Colin, que já se adiantava. — Acho que ele quebrou algumas costelas.
Colin conseguiu empurrar para dentro a pesada porta, e entraram juntos. Dunworthy piscou, forçando os olhos a se acostumarem à escuridão. Não entrava luz alguma pelas janelas altas e estreitas, embora fosse possível ter uma ideia do espaço onde estavam. Dunworthy distinguiu uma forma baixa, maciça, do lado esquerdo (um corpo?), e os contornos mais escuros das primeiras pilastras, mas daquele ponto em diante tudo estava completamente às escuras. Ao seu lado, Colin remexia em seus bolsos enormes.
Lá adiante, foi acesa uma pequena chama, que parecia não iluminar nada além de si mesma. Em seguida se apagou. Dunworthy foi naquela direção.
— Espere um instante — pediu Colin, e acendeu uma lanterna de bolso.
A luz cegou Dunworthy, deixando tudo fora do difuso facho tão negro quanto no momento da entrada. Colin passeou o facho pela igreja, revelando as paredes pintadas, as pesadas pilastras, o piso desigual. A luz desvelou a forma escura que Dunworthy julgara ser um corpo. Era um túmulo de pedra.
— Ela está ali — disse Dunworthy, apontando para o altar, e Colin virou a lanterna naquela direção.
Kivrin estava ajoelhada junto de alguém deitado no chão, perto de um biombo de treliças. Dunworthy percebeu que era um homem quando se aproximou devagar com Colin. Ele tinha as pernas e a metade de baixo do corpo cobertas por um manto roxo, e as mãos enormes estavam cruzadas sobre o peito. Kivrin procurava acender uma vela usando uma brasa, mas a vela não passava de uma massa disforme de cera e não se sustentava acesa. Ela pareceu grata quando Colin se aproximou com sua lanterna, produzindo uma luz que envolveu todos eles.
— Vocês precisam me ajudar com Roche — falou ela, contraindo os olhos diante da luz. Ela se inclinou sobre o homem e tocou na mão dele.
Ela pensa que ele ainda está vivo, pensou Dunworthy, mas Kivrin acrescentou, no mesmo tom inexpressivo e indiferente:
— Ele morreu hoje de manhã.
Colin dirigiu o facho de luz para o cadáver. As mãos cruzadas estavam tão roxas quanto o manto que cobria o corpo, mas o rosto do homem era pálido e parecia em paz.
— Quem era ele, um cavaleiro? — perguntou Colin, espantado.
— Não — respondeu Kivrin. — Um santo.
Ela pôs a mão sobre a mão dele, já rígida. A mão de Kivrin estava calosa e suja de sangue, as unhas, negras de sujeira.
— Vocês precisam me ajudar — insistiu ela.
— Ajudar em quê? — perguntou Colin.
Ela precisa de nossa ajuda para sepultá-lo, pensou Dunworthy, mas não podemos. O homem que ela chamava de Roche era imenso. Devia ser um gigante ao lado de Kivrin quando estava vivo. Mesmo que conseguissem abrir uma cova, nem os três juntos poderiam carregar aquele corpo, e Kivrin jamais permitiria que amarrassem uma corda ao pescoço do defunto para arrastá-lo até o lado de fora.
— Ajudar em quê? — repetiu Colin. — Não temos muito tempo.
Não tinham tempo nenhum. Já vinha chegando o fim de tarde, e nunca conseguiriam achar o caminho na floresta depois do escurecer. Além disso, não era possível saber por quanto tempo Badri conseguiria manter aquele salto intermitente. Ele dissera vinte e quatro horas, mas pela sua debilidade não parecia capaz de aguentar sequer duas, e já haviam se passado pelo menos umas oito. Sem contar que o chão estava congelado, e Kivrin tinha costelas quebradas, e o efeito das aspirinas estava começando a passar. Dunworthy já estava tremendo de novo no interior frio daquela igreja.
Não podemos enterrá-lo, pensou ele, olhando para Kivrin ajoelhada ao lado daquele homem. Como posso dar essa notícia a ela, quando cheguei atrasado para tudo o mais?
— Kivrin… — começou ele.
Ela deu umas pancadinhas de leve na mão rígida do morto.
— Não vamos ter como enterrá-lo — interrompeu ela, ainda naquela voz calma e inexpressiva. — Tivemos que pôr Rosemund na cova dele, depois que o caseiro… — Ela ergueu os olhos para Dunworthy. — Tentei abrir outra cova hoje de manhã, mas o chão está duro demais. A pá se quebrou. Rezei a missa dos defuntos por ele e tentei tocar o sino.
— Nós ouvimos — observou Colin. — Foi assim que achamos você.
— Eu deveria ter soado nove repiques — disse ela —, mas tive que parar. — Pôs a mão no flanco do corpo, como que se lembrando da dor. — Vocês precisam me ajudar a tocar os restantes.
— Por quê? — quis saber Colin. — Acho que não tem mais ninguém vivo para escutar.
— Não importa — respondeu ela, olhando para Dunworthy.
— Não temos tempo — argumentou Colin. — Daqui a pouco vai escurecer, e o local do salto está…
— Pode deixar que eu toco — cortou Dunworthy, e ficou de pé. — Você fica aqui — acrescentou, embora ela não tivesse feito nenhuma menção de se levantar. — Eu toco o sino. — Ele caminhou até a porta.
— Está escurecendo — insistiu Colin, correndo até emparelhar com ele, o facho da lanterna ziguezagueando ensandecidamente entre as pilastras e o piso. — E o senhor disse que não sabia por quanto tempo Badri conseguiria manter a rede aberta. Espere aí!
Dunworthy abriu a porta com esforço, já apertando os olhos para se antecipar ao brilho da neve lá fora, mas enquanto estavam dentro da igreja o céu tinha escurecido, um céu pesado e cheirando a neve. Ele caminhou depressa, cruzando o pátio da igreja rumo ao campanário. A vaca que Colin tinha avistado quando chegaram ao vilarejo se enfiou pelo portão coberto e veio balançando-se atrás deles, as patas afundando no chão nevado.
— De que adianta tocar o sino se não tem ninguém escutando? — questionou Colin, parando para desligar a lanterna e depois correndo outra vez para alcançá-lo.
Dunworthy entrou no campanário. A torre estava tão escura e tão fria quanto a igreja, e cheirava a rato. A vaca enfiou a cabeça para dentro, e Colin se esgueirou rente a ela e se apoiou contra a parede curva.
— Nem parece que o senhor estava dizendo pouco tempo atrás que tínhamos que voltar para o local do salto, que a rede ia se fechar e que ficaríamos aqui para sempre — disse Colin. — Nem parece que estava dizendo que não teríamos tempo de achar Kivrin.
Dunworthy parou ali um instante, deixando os olhos se acostumarem às trevas e tentando recobrar o fôlego. Tinha andado depressa demais, e agora sentia outra vez aquele aperto no peito. Ergueu os olhos para a corda do sino, que pendia sobre suas cabeças, na escuridão, com um grande nó encardido a menos de meio metro da ponta desfiada.
— Posso tocar? — perguntou Colin, olhando para cima.
— Você é muito pequeno — disse Dunworthy.
— Não sou — protestou o garoto, pulando para alcançar a corda. Conseguiu agarrar a extremidade, abaixo do nó, e pendurou-se ali alguns instantes antes de se soltar, mas a corda mal se moveu, e o sino emitiu uma badalada débil e fora do tom, como se tivesse sido acertado por uma pedra. — É pesado! — confessou ele.
Dunworthy ergueu os braços e agarrou a corda grosseira. Estava fria e áspera. Ele deu um puxão violento para baixo, sem saber se conseguiria se sair melhor do que Colin. A corda arranhou suas mãos. Bong.
— Como o som é forte! — observou Colin, cobrindo os ouvidos com as mãos e olhando para cima, encantado.
— Uma — contou Dunworthy.
Uma. E sobe. Lembrando-se das americanas, ele dobrou os joelhos e puxou a corda para baixo. Duas. E sobe. Três.
Pensou como Kivrin teria sido capaz de dar um único repique com as costelas quebradas. O sino era muito mais pesado e muito mais ruidoso do que ele imaginara, e parecia reverberar dentro do seu crânio, dentro do seu peito apertado. Bong.
Pensou na sra. Piantini, dobrando seus joelhos rechonchudos e contando em voz baixa. Cinco. Ele não tinha se dado conta de como aquilo era difícil. Cada puxão parecia arrancar todo o ar dos seus pulmões. Seis.
Gostaria de parar e descansar, mas não queria que Kivrin, escutando tudo lá na igreja, pensasse que ele estava desistindo, que ele queria apenas completar os toques que ela tinha dado. Cerrou os dedos com mais força acima do nó e se encostou à parede de pedra por um momento, tentando diminuir a pressão no tórax.
— O senhor está bem, sr. Dunworthy? — quis saber Colin.
— Sim — respondeu ele, e deu um puxão tão forte que foi como se tivesse rasgado os pulmões ao meio. Sete.
Não devia ter se encostado na parede. As pedras estavam geladas. Agora, ele estava tremendo de novo. Pensou na sra. Taylor, tentando finalizar o seu “Chicago Surprise Minor”, contando quantas batidas faltavam, tentando não ceder àquela reverberação dentro do crânio.
— Eu posso terminar — propôs Colin, e Dunworthy mal pôde escutá-lo. — Posso ir buscar Kivrin, e nós dois podemos dar os dois últimos toques. Puxando juntos.
Dunworthy abanou a cabeça.
— Cada pessoa deve tocar o seu sino — explicou quase sem fôlego, e deu outro puxão. Oito. Não podia deixar a corda escapar dos dedos. A sra. Taylor tinha desmaiado e soltado a corda, e o sino deu uma volta completa sobre si, a corda zunindo como algo vivo, até se enroscar no pescoço de Finch, quase dando cabo dele. Tinha que segurar a corda, apesar de toda e qualquer dificuldade.
Puxou mais uma vez a corda, segurou-se a ela até ter certeza de que podia ficar de pé e deixou que ela subisse.
— Nove — disse.
Colin estava com a testa franzida na sua direção.
— O senhor não está tendo uma recaída, não é? — perguntou, com ar desconfiado.
— Não — falou Dunworthy, largando a corda.
A vaca estava com a cabeça enfiada na porta. Dunworthy a empurrou rudemente para trás, caminhou para a igreja e entrou.
Kivrin ainda estava ajoelhada junto de Roche, segurando sua mão rígida.
Ele parou diante dela.
— Toquei o sino.
Ela ergueu os olhos, sem aquiescer.
— Não seria melhor a gente ir andando? — sugeriu Colin. — Está ficando escuro.
— Sim — anuiu Dunworthy. — Acho que seria melhor…
A tontura o pegou totalmente desprevenido. Ele cambaleou e quase caiu por cima do corpo de Roche.
Kivrin ergueu a mão, e Colin pulou na direção de Dunworthy, a lanterna balançando de maneira errática pelo teto quando o garoto agarrou o braço dele. Dunworthy caiu sobre um joelho e a palma de uma mão, enquanto estendia a outra para Kivrin, mas ela já estava de pé e recuava.
— Está doente! — Era uma acusação, uma denúncia. — Contraiu a peste, não foi? — indagou ela, a voz demonstrando emoção pela primeira vez. — Não foi?
— Não — respondeu Dunworthy — é que…
— Ele está tendo uma recaída — cortou Colin, prendendo a lanterna no ângulo do braço da estátua e ajudando Dunworthy a se sentar. — Ele não deu muita atenção aos meus cartazes.
— É um vírus — explicou Dunworthy, apoiando as costas contra a estátua. — Não é a peste. Colin e eu tomamos estreptomicina e gamaglobulina. Não podemos contrair a peste. — Ele apoiou a cabeça na estátua. — Não passa de um vírus. Vou ficar bem. Só preciso descansar um instante.
— Eu avisei que ele não devia tocar o sino — disse Colin, derramando no piso o conteúdo do seu saco de estopa. Pegou e colocou o saco vazio em volta dos ombros de Dunworthy.
— Ainda resta alguma aspirina? — quis saber Dunworthy.
— Só pode tomar os comprimidos de três em três horas — advertiu Colin. — E não vai conseguir engolir sem água.
— Então vá buscar a água — ripostou ele.
Colin olhou para Kivrin em busca de apoio, mas ela continuava do outro lado do corpo de Roche, observando Dunworthy com certo alarme.
— Agora mesmo! — ordenou Dunworthy, e Colin disparou para fora, as botas ressoando no piso de pedra. Dunworthy ergueu os olhos para Kivrin, que recuou um passo.
— Não é a peste — garantiu ele. — É um vírus. Tínhamos medo de que você tivesse sido exposta a ele antes do salto e chegasse aqui doente. Isso aconteceu?
— Sim — respondeu ela, ajoelhando-se junto de Roche. — Ele salvou minha vida.
Ela alisou o manto púrpura, e Dunworthy percebeu que era uma capa de veludo. Tinha uma grande cruz de seda costurada bem no centro.
— Ele me disse para não ter medo — prosseguiu ela.
Puxou a capa para cima, cobrindo o peito de Roche, mas tomando o cuidado de passá-la por baixo de suas mãos postas. No entanto, esse gesto descobriu os pés calçados com sandálias grossas, incongruentes. Dunworthy tirou o saco que cobria seus ombros e o estendeu com delicadeza sobre aqueles pés, antes de se erguer, cheio de cautela, apoiando-se na estátua para não cair de novo.
Kivrin acariciou as mãos de Roche.
— Ele não tinha a intenção de me machucar — disse.
Colin voltou com um balde cheio até a metade. Devia ter colhido a água em alguma poça. Estava ofegante.
— A vaca me atacou! — protestou ele, mergulhando no balde uma concha imunda. Esvaziou o frasco de aspirina na mão de Dunworthy. Havia cinco comprimidos.
Dunworthy engoliu dois, bebendo o mínimo necessário daquela água, e passou os outros para Kivrin. Ela recebeu as aspirinas com solenidade, ainda ajoelhada no piso.
— Não achei cavalo nenhum — comentou Colin, estendendo a concha a Kivrin. — Só uma mula.
— Um burro — corrigiu ela. — Maisry roubou o pônei de Agnes. — Ela devolveu a concha a Colin e voltou a segurar a mão de Roche. — Ele tocou o sino para todas as pessoas, para que suas almas pudessem subir para o céu em segurança.
— Não seria melhor a gente ir andando? — sussurrou Colin. — Está quase escuro lá fora.
— Até para Rosemund — continuou Kivrin, como se não tivesse escutado. — E ele já estava doente. Eu falei que não tínhamos tempo, que precisávamos fugir para a Escócia.
— Temos que ir agora — observou Dunworthy —, antes que a luz desapareça.
Ela não se mexeu nem largou a mão de Roche.
— Ele segurou minha mão quando eu estava morrendo.
— Kivrin — disse ele, com delicadeza.
Ela pousou a mão no rosto de Roche, lançou um olhar bem demorado para ele e depois se pôs de joelhos. Dunworthy estendeu a mão, mas ela se levantou sozinha, ainda apertando o flanco do corpo, e saiu caminhando pela nave da igreja.
Chegando à porta, ela se virou e olhou para a escuridão.
— Quando já estava agonizando, ele me contou onde era o local do salto, para que eu pudesse voltar para o céu. Disse que ficaria ali e me pediu para ir embora, para que, quando ele chegasse lá, eu estivesse à sua espera — falou ela, e saiu para a neve.