O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 17 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 16

 

O padre Roche.

Os dedos de Kivrin afrouxaram as rédeas.

— O padre Roche?

— Eu fui ao campanário, mas não o achei lá. Ele estava na igreja — disse Agnes. — Por que o homem mau estava se escondendo no túmulo do meu avô, Lady Kivrin?

O padre Roche. Mas não podia ser. O padre Roche tinha lhe dado a extrema-unção. Tinha untado sua testa e as palmas das suas mãos.

— O homem mau vai machucar o padre Roche? — perguntou Agnes.

Não podia ser o padre Roche. O padre Roche tinha segurado sua mão e dito para não ter medo. Tentou evocar o rosto do padre. Ele tinha se inclinado sobre ela e perguntado o seu nome, mas Kivrin não conseguiu ver o rosto por causa daquela fumaça toda.

Enquanto ele estava concedendo a extrema-unção, ela tinha visto o degolador, tinha ficado com medo porque permitiram a entrada dele no quarto, e tentara escapulir. Mas não era degolador nenhum. Era o padre Roche.

— O homem mau vai vir? — questionou Agnes, olhando ansiosa a porta da igreja.

Tudo se encaixava. O degolador que se inclinara sobre ela na clareira, pondo-a em cima do cavalo. Kivrin tinha pensado que era uma visão do seu delírio, mas não era. Era o padre Roche, que aparecera para ajudar Gawyn a levá-la para a casa grande.

— O homem mau não vem — respondeu Kivrin. — Não existe homem mau nenhum.

— Ele está escondido na igreja?

— Não, eu me enganei. Não tem nenhum homem mau por aqui.

Agnes não parecia convencida.

— Mas você gritou — disse ela.

Kivrin podia ouvir a menina muito bem dizendo à avó: “Lady Katherine e o padre Roche estavam sozinhos na igreja e ela saiu gritando”. Lady Imeyne se deleitaria em poder acrescentar esse fato à litania dos pecados do padre. E à lista das atitudes suspeitas de Kivrin.

— Eu sei que gritei. Estava escuro lá dentro da igreja. O padre Roche apareceu de repente perto de mim e eu me assustei — explicou Kivrin.

— Mas era o padre Roche! — disse Agnes, em um tom como se não conseguisse imaginar alguém com medo dele.

— Quando você e Rosemund brincam de esconde-esconde e ela de repente pula atrás de você, você não grita? — disse Kivrin, em desespero.

— Uma vez Rosemund se escondeu no sótão quando eu estava procurando meu cão, e ela pulou lá de cima. Eu tive tanto medo que soltei um grito. Assim, olhe. — E a menina desferiu um grito agudo de gelar o sangue de qualquer um. — E outra vez estava escuro no salão e Gawyn pulou de trás dos biombos e fez “Huuu!” e eu gritei e…

— Isso mesmo — interrompeu Kivrin. — Estava escuro na igreja.

— O padre Roche pulou em cima de você e fez “Huuu!”?

Sim, pensou Kivrin. Ele se inclinou sobre mim, e eu pensei que era um degolador.

— Não — respondeu ela. — Ele não fez nada.

— Nós ainda vamos colher o azevinho com o padre Roche?

Se eu não o afugentei daqui, pensou Kivrin. Se ele já não saiu durante essa nossa conversa.

Ela ergueu os braços, pegou Agnes e a colocou no chão.

— Vamos. Temos que encontrá-lo.

Não sabia o que faria se ele tivesse ido embora. Não podia levar Agnes de volta para a casa, porque a menina contaria a Lady Imeyne sobre os gritos. E não podia retornar sem dar uma explicação ao padre Roche. Que explicação? Que ela o confundiu com um ladrão, um estuprador? Que ela pensou que ele não passava de fruto do seu delírio?

— Vamos ter que entrar na igreja de novo? — quis saber Agnes, relutante.

— Está tudo bem. Não tem ninguém lá a não ser o padre Roche.

Apesar de Kivrin tentar tranquilizá-la, Agnes se recusava a entrar na igreja. Quando Kivrin abriu a porta, a menina escondeu a cabeça nas suas saias e agarrou-se a suas pernas.

— Está tudo bem — disse Kivrin, olhando o interior da nave. Ele não estava mais perto do túmulo. A porta se fechou por trás das duas. Ela ficou parada, Agnes agarrada às suas pernas, e esperou que os olhos se acostumassem com a escuridão. — Não precisa ter medo de nada.

Ele não é degolador, pensou mais uma vez, tentando se convencer. Não precisa ter medo de nada. Ele lhe deu a extrema-unção e segurou sua mão. Apesar disso, o coração dela martelava.

— O homem mau está aí? — sussurrou Agnes, apertando a cabeça contra os joelhos de Kivrin.

— Não existe nenhum homem mau — respondeu ela, e então o avistou.

Estava parado diante da estátua de santa Catarina, segurando a vela que Kivrin derrubara. Ele se curvou, colocou de novo a vela diante da estátua e se levantou.

Ela chegara a pensar que podia ser tudo uma ilusão provocada pelo escuro e pela chama da vela, iluminando aquele rosto de baixo para cima, e que no fim o padre não fosse o degolador, mas era. Naquela noite, ele tinha a cabeça coberta por um capuz, e por isso Kivrin não fora capaz de ver sua tonsura, mas ele estava inclinado diante da estátua do jeito que se inclinara diante dela. O coração voltou a martelar.

— Onde está o padre Roche? — perguntou Agnes, erguendo a cabeça. — Ah, lá está — disse, e correu para ele.

— Não! — exclamou Kivrin, indo atrás dela. — Você não…

— Padre Roche! — gritou Agnes. — Padre Roche! Estávamos procurando você. — Era evidente que já tinha esquecido o homem mau por completo. — Olhamos na igreja e na casa, mas não tinha ninguém lá.

Ela disparou até ele, que se virou, se abaixou e pegou Agnes no colo, tudo num movimento único.

— Procurei no campanário e nada — continuou Agnes, sem o menor traço de medo. — Rosemund disse que você já tinha saído.

Kivrin se deteve rente à última pilastra, esperando que o ritmo do coração baixasse um pouco.

— Estava se escondendo? — perguntou Agnes, pondo o braço em volta do pescoço dele, num gesto confiante. — Uma vez Rosemund se escondeu no celeiro e pulou lá de cima sobre mim. Eu chorei bem alto.

— Por que estava me procurando, Agnes? — perguntou ele. — Tem alguém doente?

Pronunciou Agnes como Agnus, e falava com um sotaque muito parecido com o do garoto com escorbuto. O intérprete fez uma curta pausa antes de traduzir aquelas palavras, e Kivrin teve a surpresa passageira de não estar entendendo. Havia entendido tudo que ele falara no quarto, durante a doença.

Ele deve ter falado comigo em latim, pensou ela, porque a voz era inconfundível. Era a mesma voz que pronunciara os rituais da extrema-unção, a mesma voz que dissera para não ter medo. E ela não teve medo. Ao som daquela voz, o seu coração logo se acalmou.

— Não, não tem ninguém doente — respondeu Agnes. — Queremos ir com você para colher a hera e o azevinho para enfeitar o salão. Lady Kivrin e Rosemund e Sarraceno e eu.

Ao ouvir as palavras “Lady Kivrin”, Roche se virou e a avistou ali parada, junto à pilastra. Ele pôs Agnes no chão.

Kivrin apoiou a mão na pilastra para se equilibrar.

— Peço perdão, santo padre — disse. — Lamento ter gritado e fugido do senhor. Como estava escuro, não o reconheci…

O intérprete, com meio-tempo de atraso, traduziu assim: “Eu não o conheci”.

— Ela não conhece nada — interrompeu Agnes. — Depois que o homem mau bateu na cabeça dela, não se lembra de nada, somente do nome.

— Sim, me contaram — disse ele, ainda olhando para Kivrin. — É verdade que não tem nenhuma lembrança de por que veio parar entre nós?

Ela sentiu o mesmo impulso de revelar toda a verdade que experimentara quando ele perguntou como era seu nome. Sou uma historiadora, era o que ela queria dizer. Vim para cá para observar vocês, só que adoeci e não sei onde está o lugar para saltar de volta.

— Ela não lembra nada, não sabe quem é — disse Agnes. — Não lembrava nem mesmo como falar. Eu que tive que ensinar.

— Não lembra quem é? — perguntou ele.

— Não — respondeu Kivrin.

— Nem nada sobre como veio parar aqui?

Pelo menos nessa pergunta não precisava mentir.

— Não — respondeu. — Só que o senhor e Gawyn me trouxeram para a casa grande.

Agnes estava visivelmente entediada com aquela conversa.

— Podemos ir agora com o senhor colher o azevinho?

Ele fez que não ouviu. Estendeu a mão como se fosse abençoar Kivrin, mas em vez disso tocou na testa, e ela percebeu qual era o gesto que tentara esboçar antes, perto do túmulo.

— Você não tem mais a ferida — observou ele.

— Ela sarou — respondeu ela.

— A gente precisa ir agora — disse Agnes, puxando o braço de Roche.

Ele ergueu a mão, como se fosse tocar de novo a testa dela, mas recolheu.

— Não tenha medo — disse ele. — Deus a enviou para perto de nós com algum bom propósito.

Não. Não enviou mesmo, pensou Kivrin. Não foi Ele quem me mandou para cá, e sim Medieval. Apesar disso, ela se sentiu reconfortada.

— Obrigada — disse.

— Eu quero ir já! — insistiu Agnes, puxando o braço de Kivrin. — Vá pegar o seu burrinho — pediu ela ao padre Roche —, e vamos buscar Rosemund.

Agnes saiu apressada pela nave, e Kivrin não teve escolha senão ir atrás dela para evitar que corresse. A porta se escancarou pouco antes de elas chegarem lá, e surgiu a figura de Rosemund, piscando os olhos.

— Está chovendo. Acharam o padre Roche?

— Levou Blackie para o estábulo? — perguntou Agnes.

— Levei. Então, como estava tarde, o padre já tinha saído, não é?

— Não. Ele está aqui, e vamos todos juntos. Ele estava na igreja, e Lady Kivrin…

— Ele foi buscar o burrinho — cortou Kivrin, impedindo que Agnes desfiasse a história completa do que acontecera.

— Eu tive muito medo naquela vez que você pulou em cima de mim no sótão, Rosemund — começou Agnes, mas Rosemund já estava de volta ao cavalo.

Não estava chovendo, mas havia uma neblina bem fina no ar. Kivrin ajudou Agnes a subir na sela e montou no alazão, usando uma grade do portão como degrau. O padre Roche trouxe o burro lá de trás, e eles pegaram a estradinha que se afastava da igreja e passava por um aglomerado de árvores, cruzava um pasto meio coberto de neve e chegava por fim ao bosque.

— Têm lobos naquele bosque — comentou Agnes. — Gawyn já matou um.

Kivrin mal lhe dava ouvidos. Estava observando o padre Roche, que caminhava ao lado do burro, tentando lembrar a noite em que ele a trouxe para a casa grande. Rosemund dissera que Gawyn encontrara o padre na estrada e recebera a ajuda dele para levá-la pelo resto do trajeto até a casa, mas isso não estava confirmado.

Ele tinha se inclinado sobre ela quando estava encostada na roda da carroça. Ela viu seu rosto à luz bruxuleante do fogo. Ele disse alguma coisa que ela não chegou a entender. E então ela disse: “Diga ao sr. Dunworthy que venha me buscar”.

— Rosemund não sabe cavalgar direito como uma moça — alfinetou Agnes, muito empinada.

Rosemund havia ultrapassado o burrinho e já estava quase fora da vista na curva da estrada, esperando com impaciência que os três a alcançassem.

— Rosemund! — chamou Kivrin, e Rosemund galopou de volta, puxando as rédeas da égua quando estava quase colidindo com o burro.

— Será que não podemos ir mais rápido? — cobrou ela, fazendo um rodopio no chão e depois seguindo em frente com o grupo. — Nunca vamos terminar isso antes que chova.

Estavam agora cavalgando por um mato espesso, a estrada virando uma mera trilha de cavalo. Kivrin olhou as árvores, tentando lembrar se já vira aquela paisagem. Passaram por um renque de salgueiros, mas que estava situado longe demais da estrada. Por perto, corria um fio d’água com uma fina camada de gelo.

Havia um grande sicômoro do outro lado da trilha, numa pequena clareira, todo carregado de visco. Além, havia uma aleia de sorveiras, erguendo-se a espaços tão regulares que só poderiam ter sido plantadas por alguém. Ela não se lembrava de ter visto nada daquilo antes.

Fora trazida por aquela estrada e esperava que isso ajudasse a avivar alguma recordação, mas nada ali parecia familiar. Tudo era muito escuro, e ela estava muito doente.

Só se lembrava mesmo do salto, embora tivesse a mesma qualidade brumosa, irreal, do trajeto para a casa grande. Existia ali uma clareira, um carvalho e um renque de salgueiros. E o rosto do padre Roche descendo sobre o dela, quando ela estava sentada, encostada à roda da carroça.

Ele já devia estar acompanhando Gawyn quando o privé a encontrou, ou então Gawyn a trouxera de volta para a clareira. Ela conseguiu ver o rosto do padre com clareza na luz do fogo. E, depois caiu do cavalo, na bifurcação.

Ainda não tinham chegado a nenhuma bifurcação. Ela não vira nenhuma trilha em volta, embora soubesse que havia sendas por ali, ligando os vilarejos e conduzindo aos campos e à cabana do aldeão doente que Eliwys fora visitar.

Subiram uma colina suave e, uma vez no topo, o padre Roche olhou para trás para ver se as três o seguiam. Ele sabe onde é o local do salto, pensou Kivrin. Esperava que ele soubesse onde era, que Gawyn tivesse explicado a ele ou pelo menos mencionado uma estrada próxima, mas nem era preciso. O padre Roche já sabia onde era o local. Ele estava lá.

Agnes e Kivrin chegaram ao topo da colina, mas tudo o que se via eram árvores e, abaixo, mais árvores. Deviam estar na floresta de Wychwood, mas nesse caso haveria cerca de cem quilômetros quadrados onde o salto podia estar localizado. Ela nunca acharia o local sozinha. Mal podia enxergar a dez metros, no meio de todo aquele matagal.

Ficou espantada de ver como a vegetação era fechada, quando desceram do lado oposto da colina. Com certeza não havia trilhas por entre o mato ali. Mal haveria espaço, e as pequenas brechas estavam atulhadas de galhos caídos e folhagem misturada e neve.

Ela estava equivocada sobre não reconhecer nada. Conhecia muito bem aquele lugar. Era a floresta onde a Branca de Neve se perdia, e Joãozinho e Maria, e todos aqueles príncipes. A mata abrigava lobos, e ursos, quem sabe até casinhas de bruxas, e era dali que vinham todas aquelas histórias da Idade Média, não era? Não duvidava. Qualquer um podia se perder ali.

Roche se deteve e ficou parado ao lado do burro, até que Rosemund se aproximasse e os dois ficassem emparelhados. Kivrin imaginou com escárnio se ele tinha se perdido do caminho certo. Porém, assim que ficaram todos juntos, ele se embrenhou numa passagem no mato, pegando uma nova trilha que não era visível da estrada principal.

Rosemund não poderia ultrapassar o padre Roche e seu burro sem empurrá-los para o lado, mas seguia os dois bem de perto, pisando nas pegadas do burro, e Kivrin voltou a pensar no que estaria deixando a menina tão inquieta. “Sir Bloet tem muitos amigos poderosos”, dissera Lady Imeyne. A velha o considerava um aliado, mas Kivrin tinha dúvidas se ele realmente era, ou se Sir Guillaume segredara a Rosemund algo sobre aquele homem a ponto de deixar a filha tão sobressaltada com a possibilidade de sua chegada a Ashencote.

Seguiram um pouco por aquela trilha, passaram por um renque de salgueiros semelhante ao do local do salto, depois abandonaram a trilha, cruzando um aglomerado de abetos e chegando por fim a um azevinho.

Kivrin pensara em arbustos de azevinho, como os que havia no pátio do Brasenose, mas aquela era uma árvore. Despontava sobre eles, estendendo seus galhos por cima dos abetos, com bagas de um vermelho vivo brotando por entre a folhagem luzidia.

Padre Roche começou a retirar os sacos presos ao lombo do burro, e Agnes tentava ajudá-lo. Rosemund tirou do cinto uma faquinha de lâmina achatada e começou a cortar os galhos mais baixos, cobertos de folhas pontudas.

Kivrin abriu caminho pela neve até o lado oposto da árvore. Tinha visto de relance alguma coisa branca e pensou que fosse o aglomerado de bétulas de que se lembrava, mas não passava de um galho longo, caído, preso entre duas árvores e coberto de neve.

Agnes apareceu, com Roche atrás dela, com um punhal de aspecto ameaçador. Kivrin tinha pensado que o fato de saber agora quem ele era produziria alguma transformação, mas ele continuava com o semblante de um degolador, ali, parado junto da pequenina Agnes.

Ele estendeu para ela um dos sacos rústicos.

— Deve manter o saco aberto, assim — disse ele, inclinando-se para mostrar como a boca do saco devia ser mantida aberta. — Eu coloco os galhos.

Ele começou a desbastar os ramos, ignorando as folhas espinhosas. Kivrin foi recebendo os ramos das mãos dele e pondo com cuidado no saco, evitando que as folhas endurecidas se partissem.

— Padre Roche — começou ela —, queria agradecer por me ajudar quando estive doente, e também por me trazer para a casa quando…

— Quando você caiu — completou ele, golpeando um ramo mais resistente.

Ela pretendia dizer “quando fui atacada por ladrões”, e ficou surpresa com a resposta dele. Lembrou que caíra do cavalo e pensou se teria sido neste momento que o padre topou com eles. Mas, se fosse, já teriam se afastado bastante do local do salto, e ele não poderia saber onde era. Além disso, ela se lembrava dele lá, no próprio local.

Não havia razão para ficar especulando.

— Por acaso sabe onde fica o local onde Gawyn me encontrou? — perguntou ela, e prendeu a respiração.

— Sei — respondeu ele, serrando um galho mais grosso.

Ela sentiu uma tontura de alívio. Ele sabia onde ficava o local.

— É longe daqui?

— Não — disse ele, agarrando o galho com força e arrancando.

— Poderia me levar até lá? — pediu Kivrin.

— Por que quer ir lá? — quis saber Agnes, afastando bem os braços para abrir mais a boca do saco. — E se os homens maus continuarem rondando por perto?

Roche estava olhando para ela como se pensasse a mesma coisa.

— Eu acho que, se vir de novo o lugar, posso lembrar quem sou e de onde vim — explicou ela.

Ele lhe entregou o galho, estendendo-o de uma maneira que ela não se ferisse ao pegar.

— Vou levar você lá — falou ele.

— Obrigada — disse Kivrin.

Obrigada. Ela colocou o galho junto dos outros. Depois Roche amarrou a boca do saco e o colocou no ombro.

Rosemund apareceu, arrastando o outro saco sobre a neve.

— Não acabaram ainda? — perguntou.

Roche também pegou o saco que ela trazia e amarrou os dois no lombo do burro. Kivrin ergueu Agnes até a sela do pônei e ajudou Rosemund a montar, e o padre Roche se ajoelhou e cruzou as mãos para que ela pudesse alcançar o estribo.

Ele tinha ajudado a colocá-la de volta no cavalo branco depois da queda. “Quando você caiu.” Kivrin se lembrava daquelas mãos enormes, importantes para que ela se mantivesse firme. No entanto, como naquele momento eles já tinham se afastado muito do local do salto, por que Gawyn levaria o padre de volta até lá? Ela não se lembrava de ter voltado, mas tudo era tão borrado, tão confuso. Em seu delírio, podia ter parecido que era muito mais distante.

Roche reconduziu o burro através dos abetos até a trilha, e voltaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Rosemund esperou que ele se distanciasse um pouco e depois disse, num tom de voz igual ao de Imeyne:

— Para onde ele está indo? A hera não fica nessa direção.

— Estamos indo ver o lugar onde Lady Katherine foi atacada — disse Agnes.

Rosemund olhou com suspeita para Kivrin.

— Por que quer ir lá? — perguntou ela. — As coisas dela já estão na nossa casa.

— Ela acha que se vir o lugar pode se lembrar de alguma coisa — comentou Agnes. — Lady Kivrin, se por acaso se lembrar de alguma coisa, vai ter que voltar para sua casa?

— É claro — disse Rosemund. — Ela precisa voltar para a família dela. Não pode ficar conosco para sempre. — Estava falando aquilo apenas para provocar Agnes, e conseguiu.

— Ela pode! — gritou Agnes. — Ela vai ser nossa ama!

— E por que ela ia preferir ficar ao lado de um bebê chorão como você? — alfinetou Rosemund, fazendo o cavalo se adiantar num trote.

— Eu não sou bebê! — berrou Agnes para as costas dela. — Você que é um bebê! — Ela trouxe o pônei para perto de Kivrin. — Não quero que você vá para longe de mim.

— Eu não vou para longe de você — disse ela. — Precisamos seguir, o padre Roche está esperando.

Ele esperava as duas na estrada e, assim que elas emparelharam com ele, voltou a caminhar. Rosemund já ia lá na frente, avançando pelo caminho coberto de neve, salpicando flocos brancos ao redor.

Cruzaram um pequeno córrego e chegaram a uma bifurcação. O caminho por onde seguiam fazia uma curva para a direita, e a outra direção avançava em linha reta por cerca de cem metros, e depois dava uma guinada brusca para a esquerda. Rosemund estava parada na encruzilhada, sacudindo a cabeça com impaciência, o cavalo revolvia o chão com os cascos.

Numa bifurcação assim caí do cavalo branco, pensou Kivrin, tentando lembrar as árvores, a estrada, o pequeno córrego, qualquer coisa. Havia dezenas de bifurcações nas trilhas que cortavam por todos os lados a floresta de Wychwood, e não havia nenhuma razão para imaginar que fosse logo aquela, mas aparentemente era. O padre Roche virou à direita, avançou alguns metros e então se embrenhou entre as árvores do bosque, puxando o burrinho atrás de si.

Não havia salgueiros no lugar onde ele abandonou a estrada, nem uma colina. Ele devia estar seguindo pelo caminho por onde Gawyn a trouxe. Kivrin se lembrava de terem percorrido um bom trecho de bosque antes de chegarem à bifurcação.

Seguiram o padre por entre as árvores, Rosemund na retaguarda, mas logo foram forçadas a apear e seguir puxando os cavalos. Roche não estava percorrendo nenhuma trilha que Kivrin conseguisse enxergar. Ele avançava pela neve, curvando-se diante dos galhos baixos que derramavam neve sobre sua cabeça, ou rodeava uma moita eriçada de espinheiro.

Kivrin tentou memorizar o ambiente ao redor para poder voltar sozinha depois, mas tudo parecia igual. Enquanto houvesse neve no chão, seria possível acompanhar as pegadas deles e dos cavalos. Ela teria que voltar ali mais tarde e deixar marcas nos troncos, ou amarrar pedaços de pano ou de qualquer coisa. Ou espalhar pedaços de pão, como Joãozinho e Maria.

Agora entendia como os dois irmãos, ou a Branca de Neve, ou tantos príncipes, se perdiam nos bosques com tanta facilidade. Tinham avançado apenas uns cem metros e Kivrin, olhando para trás, já não fazia mais ideia do lado que ficava a estrada, mesmo vendo os rastros na neve. Joãozinho e Maria podiam ter andado meses a fio sem achar o caminho de casa, ou mesmo o caminho da casa da bruxa.

O burro do padre parou.

— O que foi? — indagou Kivrin.

O padre Roche trouxe o burro para um lado e amarrou o animal a um tronco de amieiro.

— O lugar é aqui.

Não era o mesmo lugar. Mal chegava a ser uma clareira, apenas um trecho onde um grande carvalho espalhara seus ramos, impedindo o crescimento de outras árvores. Formava quase uma tenda e, por baixo dele, o chão mal estava salpicado de neve.

— Podemos acender um fogo? — perguntou Agnes, andando por baixo dos galhos até os vestígios da fogueira de um acampamento. Um tronco caído fora arrastado até perto da fogueira, e Agnes sentou sobre ele. — Estou com frio — disse ela, remexendo nos carvões com a ponta da bota.

A fogueira não tinha queimado durante muito tempo. Os galhos mal estavam chamuscados. Alguém jogara terra com os pés para apagar o fogo. O padre Roche tinha se agachado diante dela, a luz das chamas bruxuleando em seu rosto.

— E então? — perguntou Rosemund, impaciente. — Já está lembrando?

Ela estivera ali. Lembrava-se da fogueira. Tinha pensado que estavam preparando o fogo para queimá-la viva. Mas não podia ser. Roche estivera no local do salto. Recordava-se do vulto inclinando-se, enquanto estava encostada à roda da carroça.

— Tem certeza de que foi aqui que Gawyn me encontrou?

— Tenho — respondeu ele, franzindo a testa.

— Se o homem mau vier, vou lutar contra ele com a minha adaga — alardeou Agnes, puxando e esgrimindo no ar um dos galhos chamuscados da fogueira apagada. A ponta carbonizada se partiu. Agnes se agachou, puxou outro galho queimado e sentou no chão, encostada no tronco, batendo com os galhos um no outro. Lascas de carvão saltaram para todos os lados.

Kivrin olhou para Agnes. Ela própria havia ficado encostada ao tronco, enquanto eles preparavam o fogo, e Gawyn se inclinara sobre ela, o cabelo rubro à luz das chamas, falando algo que ela não entendeu. Depois ele apagou o fogo, chutando terra com as botas, e a fumaça subiu e entrou nos olhos dela.

— Já se lembrou de quem era? — quis saber Agnes, jogando os galhos de volta para o monte de cinzas.

Roche a encarava com o cenho franzido.

— Está se sentindo mal, Lady Katherine? — perguntou.

— Não — respondeu ela, tentando sorrir. — Eu só… eu só achava que, se visse o lugar onde fui atacada, acabaria me lembrando.

Ele a encarou com ar solene por um momento, como fizera na igreja, em seguida se virou e foi em direção ao burro.

— Venha — disse ele.

— Está lembrando? — insistiu Agnes, batendo palmas com as mãos enluvadas de pele, sujas de fuligem.

— Agnes! — exclamou Rosemund. — Veja como você sujou suas luvas. — Ela deu um puxão forte em Agnes, pondo a irmã de pé. — E estragou sua capa, sentando na neve. Sua menina má!

Kivrin separou as duas.

— Rosemund, desamarre o pônei de Agnes — ordenou ela. — Está na hora de ir colher a hera. — Ela tirou a neve acumulada na capa de Agnes e tentou sem sucesso limpar as luvas de pele branca.

Padre Roche estava parado junto ao burro, esperando por elas, ainda com aquela expressão estranha e severa no rosto.

— Limparemos suas luvas quando chegarmos em casa — disse ela, bem depressa. — Vamos, precisamos seguir o padre Roche.

Kivrin pegou as rédeas da égua e acompanhou as garotas e o padre no retorno pelo caminho seguido até ali. Depois de alguns metros, pegaram outro rumo que quase imediatamente desembocou numa estrada. Ela não avistou a bifurcação, e imaginou se estariam agora num ponto mais à frente da mesma estrada ou se aquela seria uma vereda diferente. Tudo parecia igual, salgueiros, pequenas clareiras, carvalhos.

Agora estava claro o que tinha ocorrido. Gawyn tentara levá-la para a casa grande, mas ela estava muito doente e acabou caindo do cavalo. Então ele a levou para dentro do bosque, acendeu uma fogueira e a deixou encostada ao tronco caído, enquanto buscava ajuda.

Ou então ele tinha preparado a fogueira com a intenção de ficar ali até o amanhecer, quando o padre Roche viu as chamas e ofereceu ajuda, e os dois conseguiram levá-la para a casa. O padre Roche não tinha ideia de onde ficava o local do salto. Presumira que Gawyn a encontrara ali, embaixo do carvalho.

A imagem dele inclinando-se enquanto ela estava sentada contra a roda da carroça fazia parte do seu delírio. Ela havia inventado tudo aquilo, assim como inventara os sinos, e a fogueira de sacrifício, e o cavalo branco.

— Aonde vai ele agora? — perguntou Rosemund, rabugenta, e Kivrin teve vontade de dar-lhe um tapa. — Existe hera bem perto da nossa casa, e agora está começando a chover.

Ela tinha razão. A neblina estava se transformando em chuvisco.

— Já podíamos ter feito tudo e voltado, se Agnes não fosse um bebê chorão e não tivesse trazido seu cachorro! — Ela partiu a galope e tomou a dianteira de novo, e Kivrin nem sequer tentou detê-la.

— Rosemund é uma caipira — disse Agnes.

— É mesmo — concordou Kivrin. — Por que será que está agindo desse jeito?

— É por causa de Sir Bloet — respondeu Agnes. — Ela vai se casar com ele.

— O quê?! — exclamou Kivrin. Imeyne comentara alguma coisa a respeito de um casamento, mas ela imaginava que se tratava de uma cerimônia entre uma das filhas de Sir Bloet e um dos filhos de Lord Guillaume. — Como Sir Bloet pode se casar com Rosemund? Ele já não é casado com Lady Yvolde?

— Não — objetou Agnes, parecendo surpresa. — Lady Yvolde é a irmã de Sir Bloet.

— Mas Rosemund não tem idade ainda — comentou Kivrin.

Porém, sabia que não era verdade. As garotas nos anos 1300 costumavam ser prometidas antes da idade adequada, às vezes desde o nascimento. O casamento na Idade Média era um negócio, um modo de reunir terras e de aumentar a posição social, e Rosemund sem dúvida fora preparada desde a idade de Agnes para se casar com alguém como Sir Bloet. Ainda assim, vieram à mente de Kivrin, em enxurrada, todas as histórias medievais que conhecia sobre garotinhas virgens casando com velhotes lúbricos e desdentados.

— Será que Rosemund gosta de Sir Bloet? — indagou Kivrin.

Era óbvio que não gostava. Tinha se tornado uma garota insuportável, mal-humorada e quase histérica desde que soubera da chegada dele.

— Eu gosto — respondeu Agnes. — Ele vai me dar um cabresto de prata quando eles se casarem.

Kivrin olhou para Rosemund lá adiante, esperando por eles na estrada. Sir Bloet talvez não fosse velho e lúbrico. Ela estava presumindo, assim como presumira que Lady Yvolde era a esposa dele. Talvez fosse jovem, e o mau humor de Rosemund se devesse apenas ao nervosismo. Ou talvez ela mudasse de atitude em relação a ele antes do casamento. As garotas normalmente não se casavam antes dos catorze ou quinze anos, não antes de começarem a apresentar sinais de maturação.

— Para quando está marcado o casamento? — perguntou Kivrin.

— Para a Páscoa — respondeu Agnes.

Tinham chegado a outra bifurcação. Esta era bem mais estreita, e os dois caminhos seguiam quase paralelos ao longo de uns cem metros, antes do que Rosemund tinha escolhido começar a subir uma elevação.

Doze anos e se casaria em três meses. Não admira que Lady Eliwys não quisesse deixar Sir Bloet ficar sabendo que elas estavam ali. Talvez não aprovasse casar Rosemund tão nova, talvez aquele noivado tivesse sido acertado apenas para ajudar a tirar o pai da garota de alguma enrascada.

Rosemund cavalgou até o topo da colina e de lá de volta até o padre Roche.

— Para onde está nos levando? — questionou. — Saímos do bosque muito cedo.

— Estamos quase lá — respondeu o padre, tranquilo.

Ela fez a égua dar meia-volta e galopou colina acima até desaparecer, mas logo surgiu de novo, chegando até bem perto de onde vinham Kivrin e Agnes e, em seguida, fazendo a égua dar uma volta brusca e galopando de novo para diante. Como o rato na gaiola, pensou Kivrin, agitando-se febrilmente em busca de uma saída.

O chuvisco estava virando chuva de verdade. O padre Roche estendeu o capuz por cima da cabeça tonsurada, puxando o burro colina acima. O animal patinhou com segurança até o topo da inclinação, e ali se deteve. O padre puxou pelas rédeas, mas o burro resistiu.

Kivrin e Agnes se aproximaram.

— O que houve? — perguntou Kivrin.

— Vamos, Balaam — disse o padre Roche, agarrando outra vez as rédeas com aquelas mãos enormes, mas o animal não se mexeu, debatendo-se, fincando na lama as patas traseiras e recuando o corpo até parecer que estava quase sentado.

— Talvez ele não goste de chuva — disse Agnes.

— Podemos ajudar? — perguntou Kivrin.

— Não — respondeu o padre, fazendo um sinal para que continuassem avançando. — Sigam em frente. Ele fica melhor quando os cavalos não estão próximos.

Roche enrolou as rédeas em volta do pulso e foi para trás do burro, como se pretendesse empurrá-lo. Kivrin ultrapassou o topo da colina com Agnes, olhando por cima do ombro para ter certeza de que o padre não estava sendo derrubado com um coice na cabeça. Começaram a descer o lado oposto.

A floresta abaixo estava meio oculta pela chuva, que já derretia a neve da estrada, transformando o sopé da colina num verdadeiro lamaçal. Havia moitas cerradas de ambos os lados, cobertas de neve. Rosemund estava parada na crista de outra colina mais adiante. Havia árvore somente até metade da subida, e mais acima um terreno coberto pela neve. E do outro lado, pensou Kivrin, um campo aberto e uma vista da estrada e de Oxford.

— Aonde está indo, Kivrin? Espere! — gritou Agnes.

Só que Kivrin já descera a colina a galope e se apeava do alazão, sacudindo com força as moitas cobertas de neve para ver se eram salgueiros. Eram, e por trás deles ela avistou a copa de um grande carvalho. Jogou as rédeas do alazão por cima dos galhos avermelhados dos salgueiros e entrou no matagal. Os galhos dos salgueiros estavam colados pela neve. Bateu neles com força, provocando uma chuva de neve sobre si. Um bando de pássaros levantou voo, grasnando. Ela abriu caminho com dificuldade por entre os ramos cobertos de neve e foi avançando até a colina que tinha que estar ali. E estava.

Assim como o carvalho, e depois, longe da estrada, o aglomerado de bétulas, com seus troncos brancos, que pareciam um clarão entre as árvores. Tinha que ser ali o local.

Mas não parecia. A clareira antes era menor, não? E o carvalho tinha mais folhas, mais ninhos. Havia agora uma moita de abrunheiro de um lado da clareira, com seus brotos negro-arroxeados surgindo por entre espinhos ameaçadores. Ela não se lembrava de ter visto aquilo ali. Sem dúvida se lembraria se visse, certo?

É a neve, pensou, está fazendo a clareira parecer maior. Havia cerca de meio metro de neve, lisa, intocada. Era como se ninguém jamais tivesse posto os pés ali.

— É aqui o lugar que o padre Roche escolheu para colher a hera? — perguntou Rosemund, avançando com dificuldade. Ela parou e olhou em torno, com as mãos nos quadris. — Não tem hera nenhuma aqui.

Havia hera, não? Enrolada em volta da base do carvalho, e com cogumelos? É a neve, pensou Kivrin. A neve cobrira todos os detalhes possíveis de reconhecer. Assim como os sulcos nos pontos onde Gawyn arrastara a carroça e as caixas.

O baú reforçado com latão! Gawyn não o trouxera para a casa grande. Ele não tinha visto o cofre, porque ela o escondera na relva, junto da estrada.

Ela passou por Rosemund e se embrenhou de novo entre os salgueiros, sem nem sequer tentar evitar a chuva de neve que desabou sobre sua cabeça. O cofre também devia estar soterrado, mas a neve não era tão profunda perto da estrada, e o cofre tinha cerca de quarenta centímetros de altura.

— Lady Katherine! — gritou Rosemund, às suas costas. — Para onde está indo agora?

— Kivrin! — berrou Agnes, num eco patético. Havia tentado descer sozinha do pônei no meio da estrada, mas seu pé ficara preso no estribo. — Lady Kivrin, venha aqui!

Kivrin olhou aturdida para ela por um momento, e depois para a colina.

Padre Roche continuava no topo, lutando com o burro. Ela precisava encontrar o cofre antes que ele chegasse ali.

— Fique aí no seu pônei, Agnes — disse ela, e começou a escavar a neve nas imediações dos salgueiros.

— O que está procurando? — perguntou Rosemund. — Aqui não tem hera.

— Lady Kivrin, venha agora mesmo! — insistiu Agnes.

Talvez a neve tivesse envergado os salgueiros, e o cofre estivesse enfiado mais embaixo das árvores. Kivrin se inclinou, agarrando os galhos finos, quebradiços, e tentando afastar a neve para o lado. Mas o cofre não estava lá, como percebeu assim que começou. Os salgueiros tinham protegido a relva e o solo por baixo dela. Havia apenas alguns centímetros de neve. No entanto, se o local era aquele, tinha que estar ali, pensou Kivrin, a cabeça embotada. Se o local era mesmo aquele.

— Lady Kivrin! — berrou Agnes, e Kivrin virou-se para olhar para ela. A menina tinha conseguido descer do pônei e vinha correndo em sua direção.

— Não corra… — começou Kivrin.

Porém, mal teve tempo de terminar essas palavras: Agnes tropeçou numa raiz e desabou.

A queda a deixou sem fôlego, mas Kivrin e Rosemund já estavam junto dela antes que começasse a chorar. Kivrin a envolveu nos braços e pressionou suas costas com a mão, para empertigar a menina e ajudar a respiração.

Agnes arquejou, então encheu os pulmões e começou a gritar com estridência.

— Vá e traga o padre Roche — disse Kivrin para Rosemund. — Ele está no topo da colina. O burro dele está empacado.

— Ele já está vindo — respondeu Rosemund.

Kivrin virou a cabeça. O padre estava correndo desajeitadamente colina abaixo, sem o burro, e ela quase gritou “Não corra!” também para ele, mas Roche não poderia ouvi-la com a gritaria de Agnes.

— Pssst — fez Kivrin. — Você está bem. Ficou sem fôlego, só isso.

O padre Roche chegou até onde elas estavam, e Agnes imediatamente se jogou em seus braços. Ele pegou a menina no colo.

— Psiu, Agnus — disse com aquela voz profunda e reconfortante. — Não chore. — Os gritos dela foram baixando e deram lugar a soluços.

— Onde se machucou? — perguntou Kivrin, limpando a neve da capa de Agnes. — Arranhou as mãos?

O padre Roche mudou a posição da menina nos braços para que Kivrin pudesse tirar-lhe as luvas de pele. As mãos de Agnes estavam avermelhadas, mas não tinham arranhões.

— Onde se machucou?

— Ela não se machucou — disse Rosemund. — Está chorando porque é um bebê.

— Eu não sou um bebê! — rebateu Agnes, com tal força que quase caiu do colo do padre Roche. — Eu bati com meu joelho no chão!

— Qual deles? — indagou Kivrin. — O que já estava machucado?

— Sim! Não olhe! — gritou ela, quando Kivrin tentou segurar sua perna.

— Tudo bem, não vou olhar — disse Kivrin. Como o joelho ainda tinha uma ferida, talvez a casca tivesse sido arrancada com a queda. A menos que estivesse sangrando bastante, a ponto de vazar através da calça de couro, não havia por que fazer a garota sentir mais frio ainda tirando-a ali na neve. — Mas vou olhar quando chegarmos em casa.

— Podemos voltar agora? — perguntou Agnes.

Kivrin olhou desesperançada para o matagal. O lugar tinha que ser aquele. Os salgueiros, a clareira, aquela colina sem árvores. Tinha que ser. Talvez ela tivesse empurrado o cofre mais para dentro do mato do que imaginava, e com a neve…

— Eu quero ir para casa agora! — insistiu Agnes, e começou a soluçar. — Estou com frio!

— Tudo bem — concordou Kivrin.

As luvas da menina estavam molhadas demais para que as calçasse de novo. Kivrin tirou as luvas emprestadas que estava usando e colocou na menina. As luvas subiam até o braço de Agnes, que se divertia muito com aquilo, e Kivrin chegou a achar que ela tinha se esquecido do joelho mas, quando o padre Roche tentou colocá-la de novo no pônei, ela chorou:

— Quero ir com Kivrin!

Kivrin concordou de novo e subiu no alazão. O padre Roche lhe entregou a menina e foi puxando o pônei de volta à colina. O burro estava parado lá no topo, na beira da estrada, mastigando o capim que brotava por entre a camada fina de neve.

Kivrin olhou de volta para o mato, sob a chuva, tentando avistar a clareira. Sim, o lugar é esse, disse ela para si mesma, mas sem ter certeza. Mesmo a colina, vista dali, tinha uma aparência ligeiramente diferente.

O padre Roche recolheu as rédeas do burro, que no mesmo instante se retesou todo e enterrou os cascos no chão. No entanto, assim que o padre virou a cabeça e começou a descer a colina puxando o pônei de Agnes, ele seguiu sem protestar.

A chuva estava derretendo a neve, e a égua de Rosemund patinou um pouco quando ela partiu a galope de volta ao ponto onde a estrada se bifurcava, o que a levou a reduzir o trote.

Na encruzilhada seguinte, Roche tomou o lado esquerdo. Havia salgueiros ao longo da estrada, e carvalhos, e lamaçais ao pé de cada colina.

— Vamos para casa agora, Kivrin? — perguntou Agnes, tremendo de frio contra o corpo dela.

— Vamos — respondeu Kivrin, puxado a barra da capa para cobrir a menina. — Seu joelho ainda dói?

— Não. Nós não colhemos a hera. — Ela se empertigou e girou o corpo para olhar para Kivrin. — Você lembrou quem é quando viu o lugar?

— Não — respondeu Kivrin.

— Que bom — disse Agnes, voltando a se aconchegar contra ela. — Agora você pode ficar conosco para sempre.