O Livro do Juízo Final
Capítulo 5
Quarentena. Claro, pensou Dunworthy. O paramédico enviado para buscar Montoya, as perguntas de Mary sobre o Paquistão, todos levados ali para aquela saleta isolada, com uma freira guardando a porta. Claro.
— Acha que Salvin vai servir? Para as americanas?
— A polícia chegou a informar por que a quar… — Ele parou. Gilchrist o observava, mas Dunworthy acreditou que ele não poderia ver a telinha de onde estava. Latimer estava ocupado junto à mesinha de chá, tentando abrir um sachê de açúcar. A paramédica estava cochilando outra vez. — A polícia informou o motivo dessas precauções?
— Não, senhor. Falaram apenas que era Oxford e os arredores mais próximos, e que precisaríamos entrar em contato com o Serviço Nacional de Saúde para instruções.
— Você entrou em contato?
— Não, senhor. Tentei, mas sem sucesso. Todas as linhas estão congestionadas. As americanas estão tentando ligar para Ely para cancelar o concerto, mas as linhas estão ocupadas.
Oxford e arredores, o que significava que tinham isolado também o metrô e o trem-bala para Londres, e bloqueado todas as estradas. Não admira que as linhas estivessem congestionadas.
— Quanto tempo faz isso? Quando vocês tentaram ir para Iffley?
— Foi um pouco depois das três. Estou telefonando para todos os lugares desde então, tentando falar com o senhor. Então pensei: talvez ele já esteja sabendo. Liguei para o Hospital Municipal, e depois fui ligando para os outros, um a um.
Eu ainda não sabia, pensou Dunworthy. Tentou lembrar quais as condições necessárias para se decretar uma quarentena. As regulamentações originais exigiam essa medida em cada caso de “doença não identificada ou suspeita de contágio”. Porém, essas regulamentações tinham sido aprovadas nos primeiros momentos histéricos após a Pandemia, sendo depois emendadas e diluídas com o passar dos anos, de modo que Dunworthy não tinha ideia de como estariam agora.
Sabia que poucos anos atrás o critério era “identificação positiva de uma doença infecciosa perigosa”, porque tinha havido muita discussão nos jornais quando a Febre de Lassa proliferara durante três semanas numa cidade da Espanha sem ser reconhecida. Os médicos locais não tinham feito tipologia viral, e o desastre deu origem a um movimento para tornar as regulamentações mais exigentes, mas ele não tinha ideia se isso tinha ocorrido.
— Devo reservar quartos para elas em Salvin, então? — voltou a perguntar Finch.
— Isso. Não. Por enquanto, elas podem ficar no salão principal do primeiro ano. Lá têm como praticar suas melodias de carrilhão ou sei lá o que é que fazem. Consiga a ficha de Badri e telefone para mim. Se as linhas estiverem ocupadas, melhor ligar para este número aqui. Vou continuar aqui mesmo que a dra. Ahrens não esteja. Também descubra a respeito de Basingame. Encontrá-lo agora é mais importante do que nunca. Depois pode encontrar alojamento para as americanas.
— Elas estão bem contrariadas, senhor.
Eu também, pensou Dunworthy.
— Diga que vou descobrir o que posso fazer nesta situação e ligo depois. — Ele viu a telinha do aparelho ficar cinza.
— O senhor mal pode esperar para informar a Basingame o que acha que foi uma falha de Medieval, não é mesmo? — perguntou Gilchrist. — Embora tenha sido o seu técnico quem colocou o salto em risco ao usar drogas, fato que vou relatar ao sr. Basingame quando ele estiver de volta, pode ter certeza.
Dunworthy olhou o relógio. Eram quatro e meia. Finch dissera que tinham sido barrados na estrada um pouco depois das três. Uma hora e meia. Oxford tivera apenas duas quarentenas temporárias nos últimos anos. A primeira devido ao que se descobriu ser uma reação alérgica a uma injeção. Já a segunda não passara de uma peça pregada por uma estudante. Nos dois casos, houve a liberação assim que foram obtidos os resultados dos exames de sangue, o que tinha levado menos de quinze minutos. Mary recolhera sangue na ambulância. Dunworthy vira o paramédico entregando os frasquinhos a um funcionário da Emergência quando entraram. Tinha havido tempo suficiente para terem os resultados.
— Tenho certeza de que o sr. Basingame vai ter interesse em saber que a ausência de exames em seu técnico pôs em risco este salto — alfinetou Gilchrist.
Dunworthy devia ter reconhecido os sintomas como sinais de infecção: a pressão baixa de Badri, a respiração difícil, a temperatura alta. Mary chegara a dizer na ambulância que tinha de ser uma infecção de algum tipo com uma temperatura tão alta, mas ele presumira que ela estivesse se referindo a uma infecção localizada, estafilococos ou uma inflamação do apêndice. E que doença poderia ser? Varíola e febre tifoide tinham sido erradicadas no século XX, e a pólio, naquele. Bactérias não tinham chance contra os anticorpos, e os antivirais funcionavam tão bem que ninguém mais tinha resfriado.
— Parece ainda mais estranho que, depois de se preocupar tanto com as precauções que Medieval deveria tomar, vocês não tenham adotado a precaução básica de checar seu técnico para drogas — continuou Gilchrist.
Devia ser uma doença do terceiro mundo. Mary fez todas aquelas perguntas sobre se Badri havia viajado para fora do país, sobre seus parentes no Paquistão. Mas o Paquistão não era do terceiro mundo, e Badri não poderia ter saído do país sem antes receber uma série de vacinas. E ele não saíra da Europa. Exceto pelo salto que dirigira em pessoa na Hungria, estivera na Inglaterra o tempo todo.
— Eu gostaria de usar o telefone — Gilchrist estava dizendo. — Concordo plenamente que precisamos de Basingame para cuidar desta situação.
Dunworthy continuava segurando o telefone. Ele piscou os olhos, surpreso.
— Vai querer me impedir de falar com Basingame? — perguntou Gilchrist.
Latimer ficou de pé.
— O que é isso? — questionou, os braços abertos, como se esperasse que Dunworthy se jogasse dentro deles. — O que há de errado?
— Badri não usa drogas — disse Dunworthy a Gilchrist. — Ele está doente.
— Não consigo saber como pode afirmar isso sem ter feito um check-up nele — rebateu Gilchrist, com os olhos pregados no telefone.
— Estamos de quarentena — disse Dunworthy. — É algum tipo de doença infecciosa.
— É um vírus — informou Mary, na porta. — Não pudemos ainda fazer um sequenciamento, mas os resultados preliminares indicam uma infecção viral.
Ela tinha desabotoado o casaco, que tremulava para trás como a capa de Kivrin, quando entrou com pressa na sala. Trazia nas mãos uma bandeja de laboratório, coberta de equipamento e de pacotes de papel.
— Os testes indicam que provavelmente é um mixovírus — disse ela, pondo a bandeja em cima de uma das mesas. — Os sintomas de Badri são compatíveis com isso: febre alta, desorientação, dor de cabeça. Com certeza não é um retrovírus ou um picornavírus, o que é uma boa notícia, mas ainda vai demorar um pouco até obtermos uma identificação completa.
Ela puxou duas cadeiras para perto da mesa e sentou numa.
— Já avisamos o Centro Mundial de Influenza, em Londres, e mandamos amostras para identificar e sequenciar. Até chegar uma resposta clara, foi decretada uma quarentena temporária, como estabelecido pelas regulamentações do Serviço Nacional de Saúde em casos de possível condição epidêmica. — Ela enfiou um par de luvas impermeáveis.
— Epidemia! — exclamou Gilchrist, desferindo um olhar furioso na direção de Dunworthy, como se o acusasse de planejar a quarentena com o intuito de desmoralizar a Medieval.
— Possível condição epidêmica — corrigiu Mary, rasgando alguns pacotinhos de papel. — Não existe epidemia ainda. Badri é o único caso até agora. Fizemos uma checagem nos computadores dos países vizinhos, e não existem outras ocorrências com o mesmo perfil da de Badri, o que também é uma boa notícia.
— Como ele pode ter uma infecção viral? — indagou Gilchrist, ainda olhando carrancudo para Dunworthy. — Imagino que o sr. Dunworthy também não se deu o trabalho de procurar por isso.
— Badri é funcionário da universidade — respondeu Mary. — Ele deve ter passado no começo do período pelo exame físico padrão e tomado os antivirais.
— Vocês não sabem? — perguntou Gilchrist.
— O escritório de registros está em recesso de Natal — disse ela. — Não pude falar ainda com o chefe de registros, e não posso acessar os arquivos de Badri sem seu número do Serviço Nacional de Saúde.
— Mandei meu secretário verificar se temos cópias impressas nos arquivos da universidade — avisou Dunworthy. — Devemos ter pelo menos esse número.
— Ótimo — disse Mary. — Vamos saber bem mais sobre que tipo de vírus estamos enfrentando assim que descobrirmos os antivirais que Badri tomou, e há quanto tempo. Talvez seja um caso de reação anômala, e há uma chance de que ele tenha escapado ao exame. Sabe qual é a religião dele, sr. Dunworthy? Será que segue o Novo Hinduísmo?
Dunworthy balançou a cabeça.
— Ele é anglicano — respondeu, percebendo aonde Mary queria chegar. Os praticantes do Novo Hinduísmo acreditavam que toda vida é sagrada, incluindo os vírus assassinados, se é que assassinados era a palavra correta. Eles se recusavam a qualquer tipo de inoculação ou vacina. A universidade lhes dava isenção, por motivos religiosos, mas não permitia que vivessem dentro dos campi. — Badri teve seu exame de começo de período. Ele nunca teria sido admitido perto da rede sem isso.
Mary assentiu, como se também já tivesse chegado a essa conclusão.
— Como eu disse, é muito provável que seja uma anomalia.
Gilchrist começou a dizer alguma coisa, mas parou quando a porta se abriu. A enfermeira que estava de guarda entrou, usando máscara e jaleco, trazendo lápis e folhas nas mãos cobertas com luvas impermeáveis.
— Por precaução, temos que testar todas as pessoas que estiveram em contato com o paciente, para ver os anticorpos. Vamos precisar de amostras de sangue e da temperatura. Além disso, todos devem anotar os seus contatos, assim como os do sr. Chaudhuri.
A enfermeira estendeu várias folhas de papel e um lápis para Dunworthy. A folha de cima era um formulário de internação. A de baixo tinha o título PRIMáRIOS e era dividida em colunas marcadas NOME, LUGAR, HORA . A folha seguinte era igual, só que tinha o título SECUNDáRIOS.
— Como Badri é nosso único caso — disse Mary —, vamos considerá-lo o paciente zero. Ainda não temos certeza sobre a forma de transmissão da doença, então precisamos anotar todas as pessoas que tiveram contato com Badri, mesmo que momentaneamente. Cada pessoa com quem ele falou, conviveu, teve algum contato.
Dunworthy teve uma súbita visão de Badri inclinando-se sobre Kivrin, ajeitando a manga da sua roupa, movendo seu braço.
— Qualquer um que possa ter ficado exposto ao contágio — concluiu Mary.
— Incluindo todos nós — acrescentou a paramédica.
— Exatamente — concordou Mary.
— E Kivrin — disse Dunworthy.
Por um momento, ela pareceu não ter a menor ideia de quem era Kivrin.
— A srta. Engle recebeu todo o espectro dos antivirais e reforço de células-T — rebateu Gilchrist. — Não corre perigo, corre?
A dra. Ahrens hesitou apenas um segundo.
— Não. Ela não teve qualquer contato com Badri antes da manhã de hoje, teve?
— O sr. Dunworthy só me ofereceu os préstimos do seu técnico há dois dias — disse Gilchrist, praticamente arrancando das mãos da enfermeira os papéis e o lápis que ela estendia. — Como não poderia deixar de ser, eu presumi que o sr. Dunworthy estaria tomando com seus técnicos as mesmas precauções adotadas pela Medieval. Parece, contudo, que isso não aconteceu, de modo que serei obrigado a informar a Basingame sobre essa negligência, sr. Dunworthy.
— Se o primeiro contato de Kivrin com Badri aconteceu hoje de manhã, ela estava totalmente protegida — disse Mary. — Sr. Gilchrist… por favor. — Ela indicou a cadeira, e ele foi se sentar.
Mary pegou um dos conjuntos de folhas de papel e ergueu a folha marcada PRIMáRIOS.
— Qualquer pessoa com quem Badri teve contato é um primário. Qualquer pessoa com quem algum de vocês teve contato é um secundário. Nesta folha eu gostaria que listassem todos os contatos que vocês tiveram com Badri Chaudhuri nos últimos três dias, e quaisquer outros contatos que vocês saibam que ele teve com outras pessoas. Nesta outra folha… — e ela ergueu a página marcada SECUNDáRIOS — … relacionem todas as pessoas com quem vocês tiveram contato, e o horário. Comecem pelos mais recentes e vão recuando.
Ela colocou o temp na boca de Gilchrist, descolou um monitor portátil do seu invólucro e colou no pulso dele. A enfermeira distribuiu os papéis para Latimer e para o paramédico. Dunworthy sentou-se e começou a preencher suas folhas.
A ficha do hospital pedia nome, número do Serviço Nacional de Saúde e um histórico médico completo, que um telefonema ao SNS sem dúvida poderia esclarecer melhor do que a memória. Doenças. Cirurgias. Vacinas. Se Mary ainda não tinha o número do SNS de Badri significava que ele continuava inconsciente.
Dunworthy não fazia ideia da data em que realizara seu exame de início do período. Colocou pontos de interrogação no local apropriado e virou a folha. Preencheu o próprio nome no cabeçalho da folha PRIMáRIOS e no topo da coluna. Latimer, Gilchrist, o paramédico e a paramédica. Não sabia o nome deles, e a paramédica estava dormindo de novo. Segurava os papéis amarrotados com uma mão, os braços cruzados sobre o peito. Dunworthy pensou se precisaria incluir os paramédicos e as enfermeiras que atenderam Badri assim que ele chegou. Escreveu: “Equipe médica da Emergência”, e pôs uma interrogação junto. Montoya.
E Kivrin que, de acordo com Mary, estava completamente protegida. “Tem alguma coisa errada”, dissera Badri. Será que se referia àquela infecção? Teria ele percebido que estava doente, enquanto trabalhava no fix, e viera correndo até o pub para avisar que podia ter contaminado Kivrin?
O pub. Não havia mais ninguém no pub a não ser o barman. E Finch, mas ele tinha ido embora antes da chegada de Badri. Dunworthy pegou a folha e escreveu o nome de Finch embaixo da rubrica SECUNDáRIOS , antes de voltar à folha anterior e escrever: “Barman, o Cordeiro e a Cruz”. O pub estava vazio, mas as ruas, não. Ele podia visualizar Badri abrindo caminho entre a multidão, esbarrando na mulher com a sombrinha de flores de lavanda, metendo o cotovelo num velho e no garoto com o terrier branco. “Qualquer pessoa com quem Badri teve contato”, dissera Mary.
Ele olhou para Mary, que estava segurando o pulso de Gilchrist e fazendo anotações meticulosas num formulário. Ela tiraria a temperatura e amostras de sangue de todas as pessoas da lista? Seria impossível. Badri tinha esbarrado, roçado e respirado perto de dezenas de pessoas durante o trajeto de volta a Brasenose, nem Dunworthy nem o próprio Badri seriam capazes de reconhecer nenhuma delas. Sem dúvida, tinha entrado em contato com muitas outras na ida para o pub, e cada uma teria entrado em contato com tantas outras nas lojas apinhadas de gente.
Ele escreveu: “Um grande número de pedestres e de clientes das lojas da High Street (?)”, traçou uma linha de separação e tentou lembrar as outras ocasiões em que vira o técnico. Só chamara Badri para operar a rede dois dias atrás, quando descobriu por Kivrin que Gilchrist pretendia usar um estagiário do primeiro ano.
Quando Dunworthy telefonou, Badri tinha acabado de chegar de Londres. Naquele dia, Kivrin estava no hospital para os últimos exames, o que era bom. Ela não podia ter tido qualquer contato com ele então, e antes disto o técnico estivera em Londres.
Na terça, Badri fora conversar com Dunworthy para dizer que tinha verificado os cálculos do estagiário e checado o sistema inteiro. Como Dunworthy não estava presente, Badri deixou um bilhete. Kivrin também aparecera no Balliol na terça, para mostrar a roupa que usaria, mas isso tinha sido pela manhã. Badri chegou a mencionar no bilhete que passou a manhã inteira na rede, e Kivrin disse que se encontraria com Latimer na Bodleian naquela tarde. Porém, ela podia ter voltado para a rede depois disso, ou podia ter passado por lá antes de ir mostrar as roupas.
A porta se abriu e uma enfermeira levou Montoya para dentro da sala. O casaco e os jeans dela estavam molhados. Ainda devia estar chovendo.
— O que está acontecendo? — perguntou ela a Mary, que estava preenchendo o rótulo de um frasco com amostra do sangue de Gilchrist.
— Ao que tudo indica — se antecipou Gilchrist, apertando um chumaço de algodão junto à parte interna do braço e se levantando —, o sr. Dunworthy se esqueceu de verificar a vacinação do seu técnico antes de trazê-lo para operar a rede, e agora o coitado está no hospital com uma temperatura de trinta e nove e meio. Aparentemente tem algum tipo exótico de febre.
— Febre? — repetiu Montoya, parecendo espantada. — Trinta e nove e meio não é baixo?
— São cento e três graus em Fahrenheit — respondeu Mary, guardando o frasco no estojo. — É possível que a infecção de Badri seja contagiosa. Preciso fazer alguns testes e você precisa fazer uma lista de todos com quem entrou em contato, bem como Badri.
— Tudo bem — disse Montoya, sentando-se na cadeira desocupada por Gilchrist e tirando o casaco. Mary esfregou um algodão na parte interna do seu braço e prendeu ali um novo frasco, com uma fina agulha descartável. — Vamos logo com isso — pediu Montoya. — Tenho que voltar para a minha escavação.
— Não vai voltar — disse Gilchrist. — Não disseram nada para a senhorita? Estamos de quarentena, graças ao descuido do sr. Dunworthy.
— Quarentena? — repetiu ela, com um sobressalto que fez a agulha errar por completo o alvo. A hipótese de ter sido contaminada por uma doença não a afetara nem um pouco, mas não seria possível dizer o mesmo da ameaça de quarentena. — Eu preciso voltar — disse ela, apelando para Mary. — Quer dizer que vou ter que ficar aqui?
— Até os resultados do exame de sangue — respondeu Mary, tentando encontrar uma veia para a agulha.
— Quanto tempo isso vai levar? — quis saber Montoya, tentando olhar o relógio digital no mesmo braço que Mary estava segurando. — O sujeito que me trouxe não me deixou sequer cobrir a escavação ou desligar os aquecedores, e aí fora está chovendo como o diabo. Minha escavação vai alagar se eu permanecer aqui.
— Vai ficar até saírem os resultados de todos e até a contagem de anticorpos — disse Mary, e Montoya entendeu o recado, porque estendeu e manteve o braço firme. Mary encheu um frasco, deu a ela um temp e prendeu um bracelete ao seu pulso. Dunworthy observava a cena, pensando se Mary tinha falado a verdade ou não. Ela não dissera que Montoya podia ir embora depois dos resultados dos exames, apenas que ela tinha de ficar ali até os resultados chegarem. E depois? Seriam levados para uma ala de isolamento juntos ou separados? Ou já receberiam alguma medicação? Ou fariam mais exames?
Mary tirou o bracelete de Montoya e estendeu as últimas folhas de papel.
— Sr. Latimer? O senhor é o próximo.
Latimer ficou de pé, segurando seus papéis. Olhou para eles meio confuso, depois colocou os formulários na cadeira onde estivera sentado e foi na direção de Mary. Na metade do caminho, fez meia-volta para apanhar a sacola.
— A senhora deixou lá no Brasenose — disse, estendendo a sacola para Mary.
— Ah, obrigada — agradeceu ela. — Ponha aí junto da mesa, por favor. Minhas luvas são esterilizadas.
Latimer pousou a sacola, que se inclinou um pouco, e uma ponta do cachecol escorregou, ficando à mostra. Ele a colocou de volta.
— Esqueci completamente — disse Mary, olhando a sacola. — Com todo aquele nervosismo, eu… — Ela bateu com a mão enluvada na boca. — Oh, meu Deus! Colin! Esqueci completamente dele. Que horas são?
— Quatro e oito — respondeu Montoya, sem olhar o relógio.
— Ele chegaria às três — disse Mary, ficando de pé, com os frascos de sangue chocalhando dentro do estojo.
— Talvez ele tenha ido direto para sua sala na faculdade, quando não encontrou você na estação — sugeriu Dunworthy.
Ela abanou a cabeça.
— É a primeira vez que ele vem a Oxford. Foi por isso que combinei que iria buscar o garoto. Nem me lembrei disso até agora — comentou ela, meio que para si mesma.
— Bem, nesse caso talvez ele ainda esteja lá na estação do metrô — disse Dunworthy. — Posso ir lá pegá-lo?
— Não — respondeu ela. — Você foi exposto.
— Nesse caso, vou telefonar para a estação. Você pode dizer a ele para tomar um táxi até aqui. Onde ele iria descer? Cornmarket?
— Sim, Cornmarket.
Dunworthy ligou para a central de informações, conseguiu na terceira tentativa, pôs o número na tela e ligou para a estação. A linha estava ocupada. Ele desligou e pressionou o número de novo.
— Colin é seu neto? — perguntou Montoya. Ela tinha posto os papéis de lado, e ninguém parecia estar dando muita atenção à conversa. Gilchrist estava preenchendo suas fichas, carrancudo, como se aquilo fosse um exemplo a mais de negligência e incompetência. Latimer estava sentado pacientemente junto à mesinha do chá, com a manga enrolada no braço. A paramédica continuava dormindo.
— Colin é meu sobrinho-neto — respondeu Mary. — Ele veio para passar o Natal comigo.
— A que horas foi decretada a quarentena?
— Às três e dez — disse Mary.
Dunworthy ergueu a mão para avisar que conseguira a ligação.
— Alô? É da estação de metrô de Cornmarket? — perguntou. Obviamente era. Ele podia ver as grades e uma porção de gente por trás de um chefe de estação bem irritado. — Estou ligando para saber de um rapazinho que chegou aí por volta das três horas. Ele tem doze anos. Deve ter vindo de Londres. — Dunworthy tapou o fone com a mão e perguntou a Mary: — Como ele é?
— Louro com olhos azuis. Alto para a idade.
— Alto — disse Dunworthy com força, por sobre o barulho da multidão. — O nome dele é Colin…
— Templer — soprou Mary. — Deirdre disse que ele pegaria o metrô à uma da tarde em Marble Arch.
— Colin Templer. Será que o senhor viu ele por aí?
— Mas que diabo, quem acha que eu sou para ver alguém? — gritou o chefe da estação. — Estou com mais de quinhentas pessoas aqui e alguém quer saber se eu vi um menino. Olhe essa confusão.
O visual mudou abruptamente, mostrando uma multidão sem fim. Dunworthy olhou em torno, procurando um garoto alto de cabelo louro e olhos azuis. A imagem voltou para o chefe da estação.
— Uma quarentena temporária foi decretada — berrou ele sobre um clamor que parecia aumentar a cada minuto —, e estou com uma estação cheia de gente querendo saber por que os trens pararam e por que não fazemos algo a respeito. Tudo que posso fazer é impedir que essas pessoas depredem todo o lugar. Não posso tomar conta de um menino.
— O nome dele é Colin Templer — gritou Dunworthy. — A tia-avó tinha combinado de pegá-lo aí.
— Muito bem, e por que não pegou? Seria um problema a menos para mim, não? Estou com uma multidão furiosa perguntando quanto tempo a quarentena vai durar e por que eu não faço alguma coisa a respeito… — Ele parou de repente. Dunworthy ficou pensando se ele teria desligado ou se o fone havia sido arrancado de sua mão por um passageiro irritado.
— O chefe de estação viu ele? — quis saber Mary.
— Não — respondeu Dunworthy. — Vai ter que mandar alguém procurá-lo.
— Sim, está bem. Vou mandar alguém da equipe — disse ela e saiu da sala.
— O horário previsto para ele chegar era as três da tarde, e a quarentena foi decretada às três e dez — comentou Montoya. — Talvez o trem tenha atrasado.
Isso não tinha ocorrido a Dunworthy. Se a quarentena tivesse sido decretada antes da chegada daquele trem a Oxford, o garoto seria obrigado a saltar na estação seguinte, e os passageiros seriam redirecionados ou mandados de volta para Londres.
— Ligue de novo para a estação — pediu ele, estendendo o fone a ela. Disse em voz alta o número. — Diga a eles que o trem dele saiu de Marble Arch à uma da tarde. Vou dizer a Mary para ligar para a sobrinha. Talvez Colin já tenha voltado para casa.
Ele saiu para o corredor, com a intenção de pedir à enfermeira que chamasse Mary, mas ela não estava ali. Talvez Mary a tivesse mandado para a estação.
Não havia ninguém no corredor. Ele avistou lá na extremidade o telefone que tinha usado algum tempo atrás, caminhou depressa até ele e discou os números do Balliol. Havia, afinal, uma pequena chance de que Colin tivesse ido para a sala de Mary. Mandaria Finch dar uma olhada e, se Colin não estivesse lá, que fosse procurá-lo na estação. Com certeza, ele precisaria de mais de uma pessoa para encontrar o garoto no meio daquele tumulto.
— Oi — disse uma mulher.
Dunworthy franziu a testa e olhou o número na telinha, mas não tinha discado errado.
— Estou tentando entrar em contato com o sr. Finch, do Balliol College.
— Ele não está no momento — disse a mulher, com sotaque visivelmente norte-americano. — Sou a sra. Taylor. Gostaria de deixar algum recado?
Devia ser uma das sineiras. Era mais jovem do que ele esperava, não muito mais do que trinta anos, e parecia bem delicada para ser sineira.
— Por gentileza, poderia pedir, assim que ele voltar, para ligar para o sr. Dunworthy no hospital?
— Sr. Dunworthy. — Ela anotou o nome e então seus olhos se ergueram, afiados. — Sr. Dunworthy — repetiu, num tom de voz absolutamente diferente —, será que o senhor é o responsável por nos manter presas aqui?
Não havia uma boa resposta para essa pergunta. Ele nunca deveria ter ligado para o salão principal. Tinha mandado Finch para o setor de pessoal.
— O nosso Serviço Nacional de Saúde decreta quarentenas em casos de doenças não identificadas. É uma medida de precaução. Peço mil desculpas por qualquer incômodo. Dei instruções ao meu secretário para que providenciasse acomodações com todo o conforto. Se houver mais alguma coisa que eu possa fazer…
— Fazer? Fazer? Pode nos levar para Ely, é isso que o senhor pode fazer. Minhas sineiras têm um concerto marcado lá, às oito da noite de hoje, e amanhã temos que estar em Norwich. Vamos tocar um dobre na véspera de Natal.
Não seria ele quem daria a notícia de que elas não estariam em Norwich no dia seguinte.
— Tenho certeza de que Ely já tem pleno conhecimento da situação atual, mas será um prazer ligar para a catedral e explicar…
— Explicar?! Talvez o senhor possa começar explicando para mim. Não estou acostumada a ter meus direitos civis cerceados dessa maneira. Nos Estados Unidos, ninguém nem sonha em dizer a você aonde pode ou não pode ir.
E mais de trinta milhões de americanos morreram durante a Pandemia em virtude dessa mentalidade, pensou ele.
— Posso garantir para a senhora que a quarentena é para sua própria proteção, e que todos os produtores dos seus concertos estarão dispostos a remarcar algumas datas. Enquanto isso, Balliol terá o maior prazer em recebê-las como hóspedes. Estou ansioso para conhecer pessoalmente convidadas tão ilustres, precedidas pela própria reputação.
E se isso fosse verdade, pensou ele, eu teria dito, quando recebi seu pedido para nos visitar, que Oxford estava de quarentena.
— Não há como remarcar um concerto de véspera de Natal. Trouxemos inclusive um novo dobre para executar aqui o “Chicago Surprise Minor”. O Norwich Chapter conta com a nossa presença lá, e nossa intenção…
Ele apertou o botão de desligar. Finch estava provavelmente no escritório do setor de pessoal, procurando a ficha médica de Badri, mas Dunworthy não queria se arriscar a encontrar outra sineira. Por isso, procurou o número da Regional de Transportes, e apertou os botões.
A porta no fim do corredor se abriu e Mary apareceu.
— Estou tentando ligar para a Regional de Transportes — disse Dunworthy, digitando o resto do número e passando o aparelho para ela.
Ela afastou o telefone, sorrindo.
— Está tudo bem. Acabei de falar com Deirdre. O trem de Colin foi parado em Barton. Os passageiros foram postos noutro trem e voltaram para Londres. Ela está indo para Marble Arch para encontrá-lo. — Ela deu um suspiro. — Deirdre não parecia muito alegre com a volta do garoto. O plano dela era passar o Natal em casa com a família do novo namorado, e acho que preferia que Colin não estivesse por perto. Enfim, já que não pode ser evitado, pelo menos estou tranquila por saber que ele está longe disso.
Dunworthy pôde perceber o alívio na voz dela. Guardou o receptor no aparelho.
— É muito sério?
— Acabamos de receber a identificação preliminar. É um mixovírus tipo A. Gripe. Possivelmente influenza.
Ele estava esperando algo pior, alguma febre tropical ou um retrovírus. Tivera uma gripe tempos atrás, na época anterior aos antivirais. Sentiu-se terrível, congestionado, febril e cheio de dores por alguns dias e depois conseguiu superar tudo sem nada mais do que repouso e líquidos.
— Vão suspender a quarentena, então?
— Não enquanto não olharmos a ficha médica de Badri — respondeu ela. — Ainda tenho esperança de que ele tenha deixado de tomar sua última dose do antiviral. Caso contrário, vamos ter que esperar até localizar a fonte.
— Mas é apenas uma gripe.
— Se houver uma variação antígena bem pequena, de um ou dois pontos, é apenas uma gripe comum — corrigiu ela. — Se a variação for muito grande, é influenza, o que é algo totalmente diferente. A pandemia de influenza de 1918, que ficou conhecida como Gripe Espanhola, foi um mixovírus. Matou vinte milhões de pessoas. Os vírus passam por mutações a intervalos de meses. Os antígenos na sua superfície mudam, de modo que não podem ser reconhecidos pelo sistema imunológico. É por isso que as vacinas periódicas são necessárias. Mas elas não podem nos proteger de um desvio muito grande.
— E é este o caso agora?
— Duvido. Grandes mutações só acontecem a cada dez anos, mais ou menos. Acho mais provável que Badri tenha deixado de tomar a vacina periódica. Sabe se ele estava dirigindo um salto presencial no começo deste período?
— Não sei. Pode ser que sim.
— Nessa hipótese, ele pode apenas ter esquecido a vacina, e tudo que ele tem é uma gripe comum de inverno.
— E quanto a Kivrin? Ela tomou as vacinas periódicas?
— Tomou, e também antivirais de espectro total e reforço de células-T. Está totalmente protegida.
— Mesmo que seja influenza?
Ela hesitou uma fração de segundo.
— Caso ela tenha sido exposta ao vírus através de Badri, hoje de manhã, ela está totalmente protegida.
— E se ela teve contato anterior com ele?
— Se eu responder, você só vai ficar mais preocupado, e não vejo necessidade alguma disso. — Ela parou para respirar. — O reforço e os antivirais foram programados para atingir o pico da imunidade no início do salto.
— E Gilchrist adiou o salto por dois dias — disse Dunworthy, com amargura.
— Eu não deixaria ela ir se não achasse que estava tudo em ordem.
— Mas você não esperava que ela fosse exposta a um vírus de influenza antes mesmo de saltar.
— Não, mas isso não muda nada. Ela tem imunidade parcial e sequer temos certeza se ela foi exposta ou não. Badri mal se aproximava dela.
— E se ela tiver sido exposta antes?
— Eu sabia que não devia ter respondido — disse Mary, suspirando. — A maior parte dos mixovírus tem um período de incubação que vai de doze a quarenta e oito horas. Mesmo que Kivrin tivesse sido exposta dois dias atrás, ela teria imunidade suficiente para não experimentar nada além de leves sintomas. Mas não é influenza. — Ela deu umas batidinhas no braço dele. — E você está esquecendo os paradoxos. Se ela tivesse sido contaminada, estaria num momento altamente contagioso. A rede jamais permitiria que ela passasse assim.
Mary estava certa. Doenças não podiam ser transmitidas pela rede se houvesse possibilidade de contaminar os contemps. Os paradoxos não permitiriam. A rede não seria aberta.
— Quais são as chances de imunidade entre a população dos 1320? — perguntou ele.
— A um vírus moderno? Nenhuma. Há uns mil e oitocentos pontos de mutação possíveis. Seria preciso que os contemps tivessem sido expostos a exatamente aquele vírus. Se não, estariam vulneráveis.
Vulneráveis.
— Preciso ver Badri — pediu ele. — Quando foi ao pub, ele disse que tinha alguma coisa errada. Ficou repetindo isso na ambulância, a caminho do hospital.
— Tem alguma coisa errada — disse Mary. — Ele está com uma infecção viral muito séria.
— Ou então ele sabe que expôs Kivrin. Ou então que não conseguiu o fix.
— Ele disse que conseguiu, sim. — Ela olhou para ele com simpatia. — Acho que é inútil tentar dizer a você que não se preocupe com Kivrin. Você viu como acabei de agir com Colin. Seja como for, eu estava falando sério quando disse que é melhor que ambos estejam bem longe. Kivrin está muito melhor no lugar para onde foi do que estaria aqui, mesmo rodeada por degoladores e ladrões que não param de atormentar seus pensamentos, James. Pelo menos ela não vai ficar sujeita às regulamentações de quarentena do SNS.
Ele sorriu.
— Ou sujeita a um grupo de sineiras americanas. Os Estados Unidos não foram descobertos ainda. — Ele estendeu a mão para a maçaneta da porta.
A porta no fim do corredor abriu-se com estrondo e uma mulher enorme carregando uma mala irrompeu por ela.
— Ah, está aí, sr. Dunworthy — gritou ela pelo corredor inteiro. — Procurei o senhor por toda parte.
— É uma das suas sineiras? — perguntou Mary, virando-se para olhar para o corredor.
— Pior — disse Dunworthy. — É a sra. Gaddson.