O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 12 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 11

 

Eles não conseguiam entendê-la. Kivrin tentou se comunicar com Eliwys, tentou obrigá-la a entender, mas ela se limitava a sorrir com bondade e, sem compreender, dizia para Kivrin descansar.

— Por favor — pediu Kivrin, quando Eliwys se dirigiu para a porta. — Não saia. Isso é importante. Gawyn é o único que sabe onde fica o local do salto.

— Durma — disse Eliwys. — Voltarei em breve.

— Precisa deixar que eu o veja — insistiu Kivrin em desespero, mas Eliwys já estava na soleira. — Não sei onde foi que saltei.

Houve uma série de ruídos vindos da escada. Eliwys abriu a porta e disse:

— Agnes, já pedi que fosse dizer…

Ela parou no meio da frase e recuou um passo. Não pareceu amedrontada ou mesmo inquieta, mas a mão na porta tremeu um pouco, como se tivesse preferido bater a porta com força, e o coração de Kivrin disparou. É agora, pensou ela, apavorada. Vieram me levar para a fogueira.

— Bom dia, minha dama — disse uma voz de homem. — Sua filha Rosemund comentou que eu encontraria a senhora no salão, mas não a vi lá.

Ele entrou no quarto. Kivrin não podia ver seu rosto. Ele estava parado ao pé da cama, escondido de sua vista pelas tapeçarias penduradas. Kivrin tentou virar o pescoço a fim de enxergar aquele homem, mas o movimento fez sua cabeça rodopiar. Ela se deitou e relaxou.

— Achei que a encontraria na companhia da dama ferida — prosseguiu o homem. Estava usando um gibão acolchoado e calções de couro. E uma espada, que Kivrin ouviu tilintar quando ele deu um passo à frente. — Como está ela?

— Está melhor hoje — respondeu Eliwys. — A mãe do meu marido foi preparar uma infusão para pôr nos ferimentos.

Ela tinha afastado a mão da porta. O comentário dele sobre “sua filha Rosemund” indicava sem dúvida que aquele era Gawyn, o homem que ela havia enviado à caça dos agressores de Kivrin, mas Eliwys deu mais dois passos para trás, o rosto assumindo uma expressão resguardada, alerta. A sensação de perigo passou rapidamente pela mente de Kivrin, que de repente pensou se não teria afinal de contas sonhado com um dos degoladores alardeados pelo sr. Dunworthy, se aquele homem de rosto cruel poderia ser Gawyn.

— Encontrou algo que revele a identidade da dama? — perguntou Eliwys, com cuidado.

— Não — respondeu ele. — Seus bens devem ter sido roubados, e os cavalos também. Espero que ela possa contar algo sobre os ladrões, quantos eram, de onde surgiram.

— Receio que ela não possa dizer nada — comentou Eliwys.

— Ela é muda? — perguntou ele, dando um passo.

Agora Kivrin podia vê-lo direito. Não era tão alto quanto ela lembrava, e seu cabelo parecia menos ruivo do que louro à luz do dia, mas seu rosto ainda estampava uma expressão de bondade, a mesma de quando ele a ajudou a subir no cavalo. No garanhão negro, Gringolet, depois que ele a encontrou na clareira.

Aquele homem não era o degolador: ela tinha imaginado aquilo, criado uma imagem a partir do delírio e dos receios do sr. Dunworthy com o cavalo branco e as canções de Natal. Também devia estar confundindo as reações de Eliwys, assim como confundira as intenções das duas mulheres quando a levantaram para usar o penico.

— Ela não é muda, mas fala numa língua estranha, que eu não conheço — disse Eliwys. — Receio que os ferimentos tenham perturbado seu espírito. — Ela aproximou-se da cama, acompanhada por Gawyn. — Boa dama, eu trouxe o privé do meu marido, Gawyn.

— Bom dia, senhora — cumprimentou Gawyn, falando devagar e de maneira bem distinta, como se achasse que Kivrin era surda.

— Foi Gawyn que a encontrou no bosque — disse Eliwys.

Onde no bosque?, pensou Kivrin desesperadamente.

— Fico feliz em ver que seus ferimentos estão sarando — começou Gawyn, dando ênfase a cada palavra. — Poderia me dizer algo sobre os agressores?

Não sei se vou poder dizer coisa alguma, pensou ela, com medo de falar e de também não ser compreendida por ele. Gawyn precisava entendê-la. Ele sabia o local do salto.

— Quantos homens eram? — quis saber Gawyn. — Estavam a cavalo?

Onde você me encontrou?, pensou ela, enfatizando as palavras como Gawyn fizera. Esperou que o intérprete trabalhasse a frase inteira, ouviu com atenção as entoações de voz, examinando-as de acordo com as lições de linguagem que o sr. Dunworthy lhe dera.

Gawyn e Eliwys estavam à espera, olhando para ela com atenção. Kivrin respirou fundo.

— Onde você me encontrou?

Os dois trocaram um olhar rápido, ele surpreso, ela como quem dizia “Viu?”.

— Ela falava assim naquela noite — comentou ele. — Pensei que era por causa do ferimento.

— Eu também — disse Eliwys. — A mãe do meu marido acha que ela é da França.

Ele abanou a cabeça.

— Não, não é francês o que ela fala. — Virou-se para Kivrin. — Minha boa dama — disse, quase gritando — está vindo de outras terras?

Sim, pensou Kivrin, de outra terra, e o único caminho de volta é aquele, naquele lugar que somente você sabe onde fica.

— Onde você me encontrou? — repetiu ela.

— Tudo que ela tinha foi roubado — disse Gawyn —, mas a carroça era de boa feitura, e ela trazia muitas caixas.

Eliwys assentiu.

— Receio que ela seja de berço nobre e que seu povo a esteja procurando.

— Em que parte da floresta você me encontrou? — indagou Kivrin, elevando a voz.

— Estamos deixando ela nervosa — comentou Eliwys, inclinando-se sobre Kivrin e dando tapinhas suaves na sua cabeça. — Shhh. Descanse. — Ela afastou-se da cama, acompanhada por Gawyn.

— Gostaria que eu cavalgasse até Bath, onde está Lord Guillaume? — perguntou Gawyn, agora encoberto pelas tapeçarias.

Eliwys deu alguns passos para trás, como fizera quando Gawyn entrou, como se tivesse receio. No entanto, os dois ficaram lado a lado junto à cama, as mãos quase se tocando, e falaram como se fossem velhos amigos. Esse receio devia vir de alguma outra coisa.

— Gostaria que eu trouxesse seu marido? — quis saber Gawyn.

— Não — respondeu Eliwys, de cabeça baixa, olhando para as mãos. — Ele já tem muitas preocupações e não pode sair de lá enquanto não concluir o julgamento. E incumbiu o senhor de ficar e nos proteger.

— Com sua permissão, então, retornarei para o lugar onde a dama foi atacada e procurarei mais um pouco.

— Faça isso — concordou Eliwys, ainda sem olhar para ele. — Com a pressa, talvez alguma coisa tenha caído, alguma coisa que nos diga algo sobre ela.

O lugar onde a dama foi atacada, recitou Kivrin bem baixinho, tentando distinguir e memorizar as palavras de Gawyn por trás da tradução do intérprete. O lugar onde eu fui atacada.

— Vou me retirar e cavalgar de novo — disse Gawyn.

Eliwys ergueu os olhos para ele.

— Agora? — questionou. — Está escurecendo.

— Mostre para mim o lugar onde eu fui atacada — disse Kivrin.

— Eu não tenho medo do escuro, Lady Eliwys — respondeu ele, afastando-se, a espada tilintando.

— Preciso ir com você — disse Kivrin.

Mas não adiantou de nada. Os dois já tinham saído, e o intérprete estava com defeito. Ela tinha se iludido ao achar que ele estava funcionando. Kivrin estava entendendo o que diziam por causa das aulas do sr. Dunworthy, não por causa do intérprete, e talvez estivesse apenas se enganando e achando que entendia alguma coisa.

Talvez a conversa não tivesse sido absolutamente a respeito de quem era ela, mas sobre algo bem diferente: encontrar uma ovelha desgarrada, ou quem sabe submeter Kivrin a um tribunal.

Lady Eliwys tinha fechado a porta ao sair, e agora Kivrin não escutava nada. Mesmo o sino que dobrava ali perto tinha silenciado, e a luz através do linho encerado era de um pálido azul. Estava escurecendo.

Gawyn dissera que cavalgaria de volta até o local do salto. Se aquela janela desse para o pátio, Kivrin talvez conseguisse pelo menos ver em que direção ele partia. Não fica muito longe, ele mencionara. Se ela visse pelo menos a direção, poderia achar o lugar sozinha.

Ergueu o corpo na cama, mas só esse esforço já bastou para que a dor no peito a apunhalasse de novo. Tentou sentar, as pernas estavam bambas, e teve tontura. Recostou-se de novo no travesseiro e fechou os olhos.

Tontura, febre e dor no peito. Seriam sintomas do quê? Varíola começava com febre e calafrios, e as pústulas não surgiam senão no segundo ou terceiro dia. Ela ergueu o braço para ver se tinha algum indício. Não fazia ideia de há quanto tempo estava doente, mas não poderia ser varíola, cujo período de incubação é de dez a vinte e um dias. Dez dias atrás ela estava num hospital de Oxford, e o vírus da varíola fora extinto há cerca de cem anos.

Ela não esteve no hospital sendo vacinada contra tudo: varíola, febre tifoide, cólera, peste? Então como podia ser uma dessas doenças? E, se não fosse uma dessas, seria o quê? A dança de são Vito? Kivrin já pensara nisso, uma das enfermidades contra a qual não fora vacinada. No entanto, ela tivera o sistema imunológico reforçado, também, para enfrentar qualquer infecção.

Houve um barulho de pés correndo escada acima.

— Mãe! — gritou uma voz que ela já reconhecia como de Agnes. — Rosemund não esperou!

Ela não invadiu o quarto com a mesma violência de antes, porque desta vez a porta estava fechada e teve que empurrá-la mas, assim que se esgueirou pela abertura, correu para o banco junto à janela, chorando.

— Mãe! Era eu quem ia contar a Gawyn! — soluçou, detendo-se quando viu que a mãe não estava ali. Kivrin reparou que as lágrimas pararam no mesmo instante.

Agnes ficou cerca de um minuto perto da janela, como se estivesse deliberando sobre a possibilidade de fazer esta cena da próxima vez, e depois voltou a correr para a porta. No meio do caminho, ela viu Kivrin e parou.

— Eu sei quem é você — disse ela, aproximando-se do lado da cama. Ela mal tinha altura suficiente para olhar por cima do colchão. As tiras do gorro já tinham se desatado de novo. — É a dama que Gawyn encontrou no bosque.

Kivrin receou que sua resposta, com certeza toda distorcida pelo intérprete, pudesse assustar a menina. Ergueu o corpo um pouco sobre o travesseiro e fez um sinal afirmativo.

— O que houve com seu cabelo? — quis saber Agnes. — Os ladrões levaram também?

Kivrin sacudiu a cabeça que não, sorrindo àquela ideia peculiar.

— Maisry disse que os ladrões roubaram a sua língua — disse Agnes. Apontou a testa de Kivrin: — Machucou a cabeça?

Kivrin anuiu.

— Eu machuquei meu joelho — disse ela, e tentou segurá-lo com as duas mãos para que Kivrin pudesse ver as ataduras manchadas.

A mulher mais velha estava certa, afinal. As bandagens estavam escorregando. Kivrin podia ver o ferimento por baixo. Tinha imaginado uma pele esfolada apenas, mas o corte parecia profundo.

Agnes pulou num pé só, largou o joelho ferido e voltou a se encostar na cama.

— Você vai morrer?

Não sei, pensou Kivrin, lembrando a dor no peito. A taxa de mortalidade da varíola fora de setenta e cinco por cento em 1320, e o sistema imunológico reforçado não estava dando conta.

— Irmão Hubard morreu — comentou Agnes, muito séria. — E Gilbert. Ele caiu do cavalo. Eu vi. A cabeça dele estava toda vermelha. Rosemund disse que o irmão Hubard morreu da doença azul.

Kivrin ficou imaginando o que seria a doença azul (asfixia, talvez, ou apoplexia) e se perguntou se Hubard seria o capelão que a sogra de Eliwys estava tão ansiosa para repor. Era comum que as pessoas das classes nobres viajassem levando seus próprios sacerdotes. O padre Roche, aparentemente, era apenas o vigário local, talvez não tivesse um alto grau de educação, poderia até ser analfabeto, embora ela tivesse entendido perfeitamente o latim falado por ele. Além disso, ele fora tão bondoso, segurando a mão dela e dizendo que não tivesse medo. Há pessoas boas na Idade Média, sr. Dunworthy, pensou ela. O padre Roche e Eliwys e Agnes.

— Meu pai disse que vai trazer uma pega para mim quando voltar de Bath — disse Agnes. — É um bom pássaro. Adeliza tem um falcão. Ela me deixa segurar ele às vezes. — Ela dobrou e ergueu o braço, o pequeno punho cerrado como se houvesse ali um falcão pousado sobre a luva de couro. — Eu tenho um cão.

— Como é o nome do seu cão? — perguntou Kivrin.

— Blackie — respondeu Agnes, embora Kivrin tivesse certeza de que aquilo era apenas a versão do intérprete. Era mais provável que a menina tivesse dito Blackamon ou Blakkin. — Ele é preto. Você tem um cão?

Kivrin estava surpresa demais para responder. Ela falara e alguém tinha entendido. Agnes nem sequer reagira como se aquela pronúncia fosse diferente. Kivrin tinha falado sem pensar no intérprete nem esperar que ele traduzisse, e talvez fosse esse o segredo.

— Não, eu não tenho um cão — respondeu ela enfim, tentando repetir o que fizera antes.

— Eu vou ensinar minha pega a falar. Vou começar ensinando “bom dia, Agnes”.

— Onde está o seu cão? — indagou Kivrin, tentando de novo. Tinha impressão de que as palavras soavam diferentes, mais leves, e com aquela murmurante inflexão francesa que ouvira na voz da mulher jovem.

— Você quer ver Blackie? Ele está no estábulo — respondeu ela. Parecia uma resposta direta, mas o modo como Agnes falava tornava difícil saber. Ela podia estar apenas informando algo. Para ter certeza, Kivrin teria que perguntar algo totalmente fora do assunto e que pudesse ter apenas uma resposta.

Agnes estava alisando as peles macias em cima da cama e cantarolando baixinho.

— Como você se chama? — perguntou Kivrin, tentando deixar que o intérprete controlasse suas palavras. Ele traduziu sua frase moderna em algo semelhante a “Qual é sua graça?”, que Kivrin não sabia se era correto ou não, mas Agnes não hesitou.

— Agnes — respondeu prontamente. — Meu pai disse que eu posso ganhar um falcão quando for grande o bastante para cavalgar a égua. Eu tenho um pônei. — Ela parou de alisar as peles, apoiou os cotovelos na borda da cama e pousou o queixo nas mãozinhas. — Eu sei o seu nome — revelou ela, com expressão confiada e cheia de triunfo. — É Katherine.

— O quê? — hesitou Kivrin, sem entender. Onde eles tinham ido buscar aquele “Katherine”? O seu nome era para ser Isabel. Será que eles estariam pensando que sabiam quem ela era?

— Rosemund disse que ninguém sabia seu nome — continuou a menina, arrogante —, mas eu ouvi o padre Roche dizer a Gawyn que você se chamava Katherine. Rosemund disse que você não conseguia falar, mas você consegue.

Kivrin teve uma súbita lembrança do padre se inclinando, o rosto obscurecido pelas chamas que pareciam estar diante dela o tempo todo, perguntando em latim: “Como é o seu nome, para que possa confessar?”.

Lembrou-se também dela própria tentando formar a palavra com a boca tão seca, mal conseguindo falar, com medo de morrer e ninguém nunca chegar a saber o que tinha acontecido.

— Você se chama mesmo Katherine? — perguntou Agnes, e Kivrin podia ouvir com clareza a voz da menina por baixo da tradução do intérprete. Parecia a sua própria voz.

— Sim — respondeu Kivrin, quase chorando.

— Blackie tem um… — disse Agnes. O intérprete não captou a palavra. Karette? Chavette? — É vermelho. Você quer ver? — e, antes que Kivrin pudesse detê-la, a menina saiu correndo e passou pela porta entreaberta.

Kivrin aguardou, com esperança de que ela voltasse e que uma karette não fosse algo vivo. Desejaria ter perguntado onde estava e há quanto tempo, ainda que Agnes provavelmente fosse pequena demais para saber. A menina não parecia ter mais do que três anos, embora decerto fosse bem menor do que uma garota moderna da mesma idade. Cinco, então, ou quem sabe seis. Eu devia ter perguntado quantos anos ela tinha, pensou Kivrin, e depois se lembrou que talvez a menina nem soubesse. Quando Joana d’Arc foi interrogada pelos inquisidores, também não sabia a própria idade.

Pelo menos, posso fazer perguntas, pensou Kivrin. O intérprete não estava com defeito, afinal. Talvez tivesse ficado temporariamente retardado por diferenças de pronúncia, ou talvez afetado pela febre dela, mas estava tudo bem agora, e Gawyn sabia onde era o lugar e poderia mostrar.

Kivrin sentou-se bem ereta, encostada aos travesseiros de modo a avistar a porta. Com o esforço, o peito e a cabeça doeram, e ela ficou tonta. Ansiosa, tocou na própria testa e depois nas bochechas. Pareciam quentes, mas podia ser porque suas mãos estavam frias. O quarto estava bastante frio, e durante a breve caminhada até o penico ela não tinha visto nenhum braseiro ou mesmo uma panela com brasas.

Será que naquela época já se usavam panelas fechadas, com brasas, para aquecer as camas? Era possível. De outra maneira, como as pessoas poderiam ter sobrevivido à Pequena Era Glacial? Estava tão frio.

Ela começou a tremer. A febre devia estar voltando. Será que isso era possível? Em História da Medicina, ela estudara sobre febres que se interrompiam, deixando o paciente alquebrado, mas as febres não voltavam, não é? Claro que voltavam. E a malária? Tremores, dor de cabeça, suor, febre recorrente. Claro que voltavam.

Bem, aquilo evidentemente não era malária. Malária nunca fora endêmica na Inglaterra, não existiam mosquitos em Oxford no meio do inverno, jamais tinham existido, e os sintomas eram outros. Ela não tinha suado nem um pouco, e os calafrios que sentia eram por causa da febre.

O tifo provoca dor de cabeça e uma febre muito alta, e era transmitido por piolhos e também por pulgas de rato. Esses dois fatores eram endêmicos na Inglaterra na Idade Média e provavelmente endêmicos na cama onde ela deitava agora, mas tinham um período de incubação longo, de quase duas semanas.

Já o tempo de incubação da febre tifoide era de poucos dias, e causava dor de cabeça, dores nas juntas e também febre alta. Kivrin não achava que fosse uma febre recorrente, mas lembrava que em geral era mais alta durante a noite, então talvez diminuísse ao longo do dia e depois do anoitecer voltasse.

Kivrin pensou que horas seriam. Eliwys dissera: “Está escurecendo”, e da janela coberta com o pano vinha uma luz azulada, mas os dias eram curtos no mês de dezembro. Talvez estivessem no meio da tarde. Ela sentia sono, mas isso não era suficiente para determinar a doença. Tinha passado o tempo todo dormindo e acordando.

Sonolência era um dos sintomas da febre tifoide. Ela tentou lembrar os outros que ouvira no curso intensivo da dra. Ahrens sobre medicina medieval. Sangramento do nariz, língua saburrosa, brotoejas cor-de-rosa. As brotoejas não deviam aparecer antes do sétimo ou oitavo dia, mas Kivrin puxou a bata para cima e olhou para a barriga e para o peito. Nada de brotoejas, então não era febre tifoide. Nem varíola. Com a varíola, as pústulas começavam a aparecer no segundo ou terceiro dia.

Pensou no que teria acontecido com Agnes. Talvez alguém, mesmo com atraso, tivesse tido o bom senso de proibir a entrada da menina no quarto da doente, ou talvez Maisry, pouco confiável, estivesse mesmo de olho nela. O mais provável era que Agnes tivesse parado para ver seu cãozinho no estábulo e esquecido que ia mostrar seu chavette a Kivrin.

A peste começava com dor de cabeça e febre. Não pode ser a peste, pensou Kivrin. Não estou com nenhum dos sintomas. Bulbos que crescem até o tamanho de laranjas, língua que incha até preencher todo o espaço da boca, hemorragias subcutâneas que deixam o corpo inteiro enegrecido. Não estou com a peste.

Deveria ser alguma espécie de gripe. Era a única doença que vinha assim de repente, e a dra. Ahrens ficara chateada com aquela mudança de data feita pelo sr. Gilchrist porque, como os antivirais não estariam fazendo pleno efeito senão pelo dia quinze, ela estaria com uma imunidade apenas parcial. Tinha que ser a gripe. Qual era o tratamento para gripe? Antivirais, repouso, líquido.

Muito bem, então repouse, pensou ela, e fechou os olhos.

Não se lembrava de ter pegado no sono, mas devia ter dormido um pouco, porque de repente as mulheres estavam de volta ao quarto, conversando, e Kivrin não recordava o momento em que entraram.

— O que disse Gawyn? — perguntou a mulher mais velha, que estava fazendo algo com uma colher e uma tigela, amassando alguma coisa na face interna do recipiente com a colher. O baú reforçado de ferro estava aberto junto dela, e a idosa enfiou a mão ali e tirou uma pequena bolsa de pano, salpicou o conteúdo na tigela e ficou mexendo de novo.

— Ele não achou nada que indicasse a origem da dama. Os pertences foram roubados, os baús foram quebrados e esvaziados de tudo que possibilitasse uma identificação. Mas ele disse que a carroça dela é de boa feitura. Com certeza, ela é de boa família.

— E com certeza a família está à procura dela — acrescentou a mulher idosa, que colocara a tigela de lado e agora rasgava tiras de tecido, com um som áspero. — Temos que mandar alguém para Oxenford e dizer que ela está em segurança conosco.

— Não — disse Eliwys, e Kivrin podia ouvir a resistência em sua voz. — Não para Oxenford.

— O que foi que você ouviu?

— Eu não ouvi nada — respondeu Eliwys. — Sei apenas que o meu senhor disse que não devíamos sair daqui. Ele chegará dentro de uma semana, se tudo correr bem.

— Se tudo tivesse corrido bem, ele estaria aqui conosco agora.

— O julgamento mal começou. Talvez neste exato momento ele já esteja a caminho de casa.

— Ou talvez… — Outro daqueles nomes intraduzíveis. Seria Torquil? — …esteja prestes a ser enforcado, e meu filho junto. Ele não devia ter se envolvido com aquele assunto.

— É amigo dele, e inocente das acusações.

— É um tolo, e meu filho mais tolo ainda por testemunhar a seu favor. Um verdadeiro amigo teria sugerido que fugisse de Bath. — Ela voltou a mexer com a colher dentro da tigela. — Preciso de mostarda para isto — disse, e foi na direção da porta. — Maisry! — chamou, e logo voltou a sentar e a rasgar tiras de pano. — Gawyn não encontrou nenhuma das pessoas que acompanhavam a dama?

Eliwys sentou no banco junto à janela.

— Não. Nem os cavalos. Nem o cavalo dela.

Entrou no quarto uma garota com o rosto cheio de marcas e cabelo oleoso balançando à frente. Sem dúvida não era Maisry, a que ficava de conversinhas com os rapazes do estábulo em vez de vigiar as crianças de quem tomava conta. Ela dobrou o joelho, numa reverência com algo de tropeção, e disse:

— Wotwardstu, Lawttymayeen?

Oh, não, pensou Kivrin. O que foi que houve agora com o intérprete?

— Traga aquele pote de mostarda que tem na cozinha e não demore — ordenou a mulher idosa, e a garota voltou para a porta. — Cadê Agnes e Rosemund? Por que não estão com você?

— Shiyrouthamay — respondeu ela, carrancuda.

Eliwys ficou de pé.

— Fale direito — disse, com voz cortante.

— Elas estão escondendo (algo) de mim.

Não era problema com o intérprete, então. Era apenas a diferença entre o inglês normando que os nobres falavam e o dialeto dos camponeses, ainda soando a saxão, sendo que nenhum dos dois se parecia com o inglês médio que o sr. Latimer jubilosamente ensinara a ela.

— Estava indo procurar as duas quando Lady Imeyne chamou, minha boa senhora — disse Maisry, e o intérprete captou tudo, embora isso custasse alguns segundos, dando uma lentidão à fala de Maisry, o que podia ou não corresponder à realidade.

— Onde estava procurando por elas? No estábulo? — questionou Eliwys, batendo com as mãos abertas, com força, dos dois lados da cabeça de Maisry, como um par de címbalos. Maisry gritou e levou a mão esquerda, bem suja, ao ouvido. Kivrin se encolheu entre os travesseiros.

— Vá, traga a mostarda para Lady Imeyne e encontre Agnes.

Maisry aquiesceu, sem parecer tão amedrontada assim, mas ainda com a mão junto à orelha. Fez aos tropeções nova mesura e saiu bem mais depressa do que tinha entrado. Parecia menos incomodada diante daquela violência repentina do que Kivrin, que ficou pensando que Lady Imeyne demoraria muito a receber sua mostarda.

A rapidez e a calma daquele gesto de violência deixaram Kivrin surpresa. Eliwys nem sequer parecera estar zangada e, assim que Maisry saiu, voltou para o banco junto à janela, sentou, e disse com calma:

— A dama não poderia ser levada mesmo que a família aparecesse. Ela pode ficar conosco até a volta do meu marido. Ele estará aqui no Natal, com certeza.

Houve um barulho na escada. Kivrin pensou que tinha errado e que a pancada na orelha acabara surtindo efeito. Agnes entrou correndo, apertando algo de encontro ao peito.

— Agnes! — disse Eliwys. — O que veio fazer aqui?

— Eu trouxe meu… — O intérprete ainda não tinha resolvido aquela palavra. Charette? — para mostrar à dama.

— Você é uma criança muito má por estar se escondendo de Maisry e por ter vindo perturbar a dama — disse Imeyne. — Ela está sofrendo muito com os ferimentos.

— Mas ela me disse que queria ver! — Ela ergueu o objeto bem alto. Era um carrinho de brinquedo. Uma carroça com duas rodas, pintada de vermelho e dourado.

— Deus condena as pessoas que prestam falso testemunho aos tormentos eternos — sentenciou Imeyne, agarrando de modo brusco a menina. — A dama não pode falar. Você sabe muito bem.

— Ela falou comigo — insistiu Agnes, teimosa.

Era só o que faltava, pensou Kivrin. Tormentos eternos. Que coisa horrível com que ameaçar uma criança. Mas aquilo era a Idade Média, um tempo em que os padres falavam o dia inteiro no fim dos tempos, no juízo final e nos sofrimentos do inferno.

— Ela me disse que queria ver minha carroça — prosseguiu Agnes. — Ela disse que não tinha um cão.

— Você está inventando histórias — disse Eliwys. — A dama não pode falar.

Kivrin pensou que precisava dar um basta naquilo, ou ela ia bater nos ouvidos da filha também. Ela se arrastou para a frente com os cotovelos. Ficou sem fôlego pelo esforço.

— Eu falei com Agnes — começou ela, rezando para que o intérprete fizesse o que devia fazer. Se ele apresentasse nova falha e acabasse rendendo a Agnes um bofetão, seria a gota d’água. — Eu pedi a ela que trouxesse o carrinho para me mostrar.

As mulheres se viraram para encarar Kivrin. Os olhos de Eliwys se arregalaram. A mulher idosa pareceu atônita e depois zangada, como se achasse que Kivrin estava enganando as duas.

— Viu? Eu disse — falou Agnes, indo até a cama com o carrinho.

Kivrin voltou a se recostar no travesseiro, exausta.

— Que lugar é este? — perguntou.

Eliwys precisou de alguns instantes para se recompor.

— Você repousa em segurança na casa do meu senhor e marido… — O intérprete teve algum problema com o nome, embora soasse como Guillaume D’Iverie ou Devereaux.

Eliwys a fitava com ansiedade.

— O privé do meu marido a encontrou no bosque e a trouxe para cá. Você foi atacada por ladrões e ficou ferida. Quem a atacou?

— Eu não sei — respondeu Kivrin.

— Eu me chamo Eliwys, e esta é a mãe do meu marido, Lady Imeyne. Como é o seu nome?

E agora chegava o momento de contar a história longamente preparada. Ela dissera ao padre que seu nome era Katherine, mas Lady Imeyne já tinha deixado bem claro que não colocava fé em nada que o clérigo dissesse. Nem sequer acreditara que Kivrin pudesse falar latim. Kivrin poderia dizer que ele entendera mal, que seu nome era Isabel de Beauvrier. Podia dizer que no delírio falara sem querer o nome de sua mãe ou de sua irmã. Podia dizer que estava rezando para santa Catarina.

— De que família você é? — quis saber Lady Imeyne.

Era uma boa história. Poderia firmar uma identidade, além de uma posição na sociedade, e garantiria que ninguém tentaria entrar em contato. O Yorkshire ficava muito longe, e a estrada norte estava quase intransitável.

— Para onde se dirigia? — indagou Eliwys.

Medieval tinha pesquisado minuciosamente a meteorologia e as condições das estradas. Chovera todos os dias ao longo de duas semanas de dezembro, e uma geada forte congelou a água parada nas estradas até o final de janeiro. Só que ela tinha visto a estrada para Oxford. Estava seca e limpa. Sem contar que Medieval também pesquisara com cuidado a cor da túnica e a predominância de janelas de vidro entre as classes mais altas. Assim como a língua, nos menores detalhes.

— Não lembro, não — disse Kivrin.

— Não? — repetiu Eliwys, virando-se para Lady Imeyne. — Ela diz que não lembra nada.

Elas pensam que eu disse “nada” em vez de “não”, refletiu Kivrin. Em inglês médio, a pronúncia das duas palavras não se diferenciava. Elas pensam que eu não me lembro de coisa alguma.

— É o ferimento — sugeriu Eliwys. — Abalou a memória.

— Não… não… — disse Kivrin.

Ela não estava ali para fingir amnésia, e sim para ser Isabel de Beauvrier, de East Riding. Só porque as estradas estavam secas não significava que não estivessem intransponíveis mais ao norte, e Eliwys não queria deixar Gawyn se afastar dali nem para ir a Oxford procurar informações sobre ela ou a Bath para trazer seu marido. Com certeza não mandaria o privé para East Riding.

— Não consegue se lembrar nem do seu nome? — perguntou Lady Imeyne, com impaciência, inclinando-se tanto que Kivrin sentiu seu hálito. A idosa também devia ter dentes estragados.

— Como se chama?

O sr. Latimer dissera que Isabel era o nome mais comum de mulher nos anos 1300. Até que ponto Katherine era recorrente? Medieval não sabia os nomes das filhas. E se Yorkshire afinal não fosse tão distante assim, e Lady Imeyne conhecesse a família? Consideraria isso uma prova a mais de que ela era espiã. No entanto, o melhor era ficar com o nome mais comum e dizer que era Isabel de Beauvrier. A velha ficaria mais do que contente em acreditar que o padre ouvira o nome errado. Serviria como uma prova a mais da ignorância e da incompetência dele, outra razão para mandar trazer um novo capelão de Bath. Mas ele tinha segurado na mão de Kivrin e dito a ela para não ter medo.

— Meu nome é Katherine — respondeu ela.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

(001300-002018)

Eu não sou a única pessoa que está metida em problemas, sr. Dunworthy. Acho que os contemps que me acolheram aqui também estão.

O senhor desta casa, Lord Guillaume, não está presente. Está em Bath, testemunhando no julgamento de um amigo, o que aparentemente é algo que acarreta algum perigo. Sua mãe, Lady Imeyne, chamou o filho de tolo por se envolver nisso, e Lady Eliwys, a esposa, parece preocupada e nervosa.

A família veio para cá às pressas e sem servos. As mulheres nobres deste século tinham pelo menos uma criada pessoal, mas nem Imeyne nem Eliwys têm uma. Além disso, elas deixaram para trás a ama das crianças: as duas filhinhas de Guillaume estão aqui. Lady Imeyne queria mandar buscar outra, mas Lady Eliwys não permitiu.

Acho que Lord Guillaume espera enfrentar problemas e mandou as mulheres para cá por questão de segurança. Ou talvez o problema já tenha acontecido: Agnes, a mais nova das duas garotas, me falou sobre a morte de um capelão e de alguém chamado Gilbert, cuja cabeça “estava toda vermelha”. Talvez já tenha acontecido derramamento de sangue, e as mulheres fugiram para cá para se proteger. Um dos privés de Lord Guillaume veio com elas e anda armado.

Não houve nenhum levante significativo contra Eduardo II em Oxfordshire em 1320, embora ninguém estivesse muito satisfeito com o rei ou com o seu favorito, Hugo Despenser, e houvesse tramas e pequenas escaramuças por toda parte. Dois dos barões, Lancaster e Mortimer, tomaram trinta e seis propriedades rurais das mãos dos Despenser naquele ano… quer dizer, neste ano. Lord Guillaume, ou o amigo dele, pode ter se envolvido numa dessas disputas.

Pode ser algo completamente diferente, é claro, uma disputa por terras ou qualquer coisa assim. As pessoas nos anos 1300 passavam tanto tempo nos tribunais quanto os contemps do final do século XX . Mas eu não acho que seja só isso. Lady Eliwys dá um pulo quando escuta qualquer barulho e proibiu Lady Imeyne de avisar os vizinhos que estão aqui.

Suponho que de certa maneira isso seja uma boa coisa. Se não estão dizendo a ninguém que estão aqui, também não falarão a ninguém sobre mim, nem mandarão mensageiros para descobrir quem sou eu. Porém, existe uma chance de homens armados aparecerem a qualquer momento metendo o pé na porta. Ou de Gawyn, a única pessoa que sabe com exatidão o local onde saltei, morrer ao defender a propriedade.

(Pausa)

15 de dezembro de 1320 (Calendário Antigo). O intérprete já está funcionando, mais ou menos, e os contemps parecem entender o que eu digo. Compreendo eles, embora o inglês médio que falem não tenha semelhança com o que o sr. Latimer me ensinou. É cheio de inflexões e tem uma sonoridade muito suave e francesa. O sr. Latimer não reconheceria nem sequer seu “‘Whan that Aprille with his shoures sote”.

O intérprete traduz o que os contemps dizem com a sintaxe e algumas das palavras intactas, e a princípio eu tentei usar o mesmo vocabulário, dizendo formas antigas para “sim” e “não”, e coisas como “nada recordo do que aconteceu alhures”, mas pensar dessa maneira faz com que nada funcione. O intérprete passa uma eternidade para propor uma tradução, e fico gaguejando e esbarrando na pronúncia. Então, apenas falo em meu inglês moderno e espero que o que sai da minha boca esteja mais ou menos certo, e que o intérprete não esteja esquartejando as expressões idiomáticas e as inflexões. Deus sabe como estou falando. Como uma espiã francesa, provavelmente.

A linguagem não é a única coisa longe da perfeição. Minha roupa está toda errada, o tecido tem uma trama fina demais, e o azul é muito brilhante, seja tingido com anil ou não. Não vi nenhuma cor vívida por aqui. Sou muito alta, meus dentes são sadios demais e minhas mãos estão erradas, apesar dos dias de trabalho na escavação. Deviam não apenas estar mais sujas, como também cobertas de frieiras. As mãos de todos, mesmo das crianças, estão rachadas e sangrando. Afinal de contas, é dezembro.

15 de dezembro. Ouvi parte de uma discussão entre Lady Imeyne e Lady Eliwys a respeito de buscarem um substituto para o capelão que morreu, e Imeyne disse: “Há tempo mais do que suficiente para que ele venha. Faltam dez dias inteiros para a missa do Natal”. Portanto, diga ao sr. Gilchrist que já estabeleci minha localização temporal, pelo menos. Mas não sei a que distância estou do local do salto. Tentei lembrar como Gawyn me trouxe até aqui, mas toda aquela noite está embaralhada e parte das recordações nem sequer aconteceu. Eu me lembro de um cavalo branco com sininhos que tocavam canções de Natal, como o carrilhão da Carfax Tower.

15 de dezembro aqui significa véspera de Natal aí, e vocês estarão tomando xerez nas festas e depois caminhando até a St. Mary the Virgin para o serviço religioso ecumênico. É duro compreender que vocês todos estão a setecentos anos de distância. Continuo pensando que, se eu conseguisse sair da cama (o que não consigo porque fico tonta, e acho que minha temperatura voltou a subir) e abrisse a porta, não encontraria um salão medieval, e sim o laboratório do Brasenose e vocês todos me esperando: Badri, a dra. Ahrens e o senhor, sr. Dunworthy, limpando os óculos e dizendo: “Eu não falei?”. Quem me dera.