O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 35 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 34

 

— Colin! — gritou Dunworthy, agarrando o braço do garoto quando ele mergulhou para dentro da rede, de cabeça abaixada. — O que pensa que está fazendo, em nome de Deus?

Colin se desvencilhou do agarrão dele.

— Acho que o senhor não deve ir sozinho!

— Você não pode entrar assim na rede! Isso aqui não é como um perímetro de quarentena. E se a rede tivesse aberto na hora? Você estaria morto! — Ele segurou o braço de Colin de novo e deu um passo rumo ao console. — Badri! Suspenda o salto!

Badri não estava lá. Dunworthy apertou os olhos na direção de onde o console deveria estar. Eles se encontravam num bosque, cercados de árvores. Havia neve no chão, e o ar cintilava, cheio de cristais suspensos.

— Se for para lá sozinho, quem vai cuidar do senhor? — perguntou Colin. — E se tiver uma recaída? — O garoto olhou além de Dunworthy e ficou de boca aberta. — Já chegamos?

Dunworthy largou o braço de Colin e mexeu no bolso, à procura dos óculos.

— Badri! — gritou ele. — Abra a rede!

Pôs os óculos. Estavam cobertos de geada. Voltou a tirá-los do rosto e começou a limpar as lentes.

— Badri!

— Onde estamos? — quis saber Colin.

Dunworthy enganchou os óculos atrás das orelhas e olhou as árvores em volta. Eram antigas, com hera enredada em seus troncos cobertos de geada. Não havia sinal de Kivrin.

Ele esperava encontrá-la ali, o que era ridículo. Já haviam aberto a rede e não a haviam encontrado, mas Dunworthy tinha a esperança de que, quando Kivrin percebesse em que época estava, voltaria para o local do salto e ficaria à espera. Só que ela não estava ali nem existia sinal de que alguma vez houvesse estado.

A neve que pisavam era fofa e não apresentava pegadas. Também era espessa o bastante para já ter ocultado qualquer marca deixada por Kivrin antes, mas não profunda o suficiente para ter escondido a carroça despedaçada ou as caixas todas. Para piorar, não se via nenhum sinal da estrada Oxford-Bath.

— Não sei onde estamos — respondeu ele.

— Bem, eu só sei que não é Oxford — observou Colin, pisando com força em cima da neve. — Porque não está chovendo.

Dunworthy olhou através dos galhos das árvores para o céu pálido e limpo. Se tivesse havido uma proporção de desvio idêntica à do salto de Kivrin, deviam estar no meio da manhã.

Colin disparou de repente, cruzando a neve até um grupo de salgueiros.

— Aonde pensa que vai? — indagou Dunworthy.

— Vou procurar a estrada. Este local fica perto de uma estrada, não é? — rebateu o garoto, e se enfiou entre as árvores e desapareceu.

— Colin! — gritou Dunworthy, e foi no seu encalço. — Volte aqui!

— Aqui está! — soou a voz de Colin, vinda de algum lugar além dos salgueiros. — Achei a estrada!

— Volte agora mesmo! — berrou Dunworthy.

Colin reapareceu, afastando com as mãos a ramagem dos salgueiros.

— Venha cá — pediu Dunworthy, um pouco mais calmo.

— A estrada sobe uma colina — comentou o garoto, espremendo-se entre os salgueiros para voltar à clareira. — Podemos subir por ela e ver onde vai dar.

Já estava molhado, com a roupa marrom coberta pela neve dos salgueiros, e parecia sério, preparado para más notícias.

— O senhor vai me mandar de volta, não vai?

— Não tenho outra escolha — respondeu, mas desanimou quando pensou na questão. Badri não voltaria a abrir a rede antes de umas duas horas, e Dunworthy não sabia ao certo por quanto tempo ela ficaria aberta. Não tinha duas horas para desperdiçar: não ficaria à espera apenas para mandar Colin de volta, mas não podia simplesmente deixar o garoto para trás. — Você está sob minha responsabilidade.

— E o senhor sob a minha — rebateu Colin, com obstinação. — Minha tia-avó Mary me encarregou de cuidar do senhor. E se tiver uma recaída?

— Você não entendeu. A Peste Negra…

— Está tudo bem. Mesmo. Tomei a estreptomicina e tudo o mais. Fiz com que William mandasse a enfermeira dele me vacinar. O senhor não pode mais me mandar de volta, a rede não está aberta e aqui faz frio demais para ficarmos parados, esperando de braços cruzados por mais de uma hora. Se começarmos a procurar, talvez até lá a gente já tenha encontrado Kivrin.

Colin tinha razão em pelo menos um aspecto: os dois não poderiam permanecer ali. O frio já penetrava através da anacrônica capa vitoriana de Dunworthy, e a roupa de Colin o protegia ainda menos do que o velho casaco, e também estava úmida.

— Vamos até o topo da colina — cedeu Dunworthy. — Mas primeiro temos que marcar esta clareira, para podermos achá-la depois. De qualquer maneira, você não pode sair correndo dessa forma. Preciso ter você sob meu campo de visão o tempo todo. Não tenho tempo para procurar duas pessoas.

— Eu não vou me perder — disse Colin, remexendo na mochila e erguendo um retângulo achatado. — Trouxe um localizador. Já marquei o ponto de partida na clareira.

Ele afastou os ramos dos salgueiros para que Dunworthy passasse, e os dois saíram para a estrada. Era mal e mal um caminho de passagem para o gado, coberto de neve e sem qualquer marca, a não ser alguns rastros de esquilos e de um cão, ou talvez de um lobo. Colin caminhou obedientemente ao lado de Dunworthy até alcançarem a metade da subida da colina, quando não resistiu mais e disparou a correr.

Dunworthy avançou atrás do garoto aos trancos e barrancos, lutando contra a pontada que começava a sentir no peito. Perto do alto da colina, as árvores rareavam, e o vento soprava mais forte. O frio era cortante.

— Posso ver o vilarejo — informou Colin.

Dunworthy chegou ao alto e parou ao lado de Colin. O vento era ainda pior, atravessando sem dificuldade o tecido da sua capa, apesar do forro, e arrastando longos fiapos de nuvens pelo céu descolorido. Bem longe, ao sul, um penacho de fumaça se erguia direto rumo ao céu, antes de ser açoitado e levado pelo vento em direção a oeste.

— Está vendo? — perguntou Colin, apontando.

Uma planície ondulada se descortinava diante deles, coberta por uma neve cujo brilho chegava a incomodar os olhos. As árvores desfolhadas e as estradas contrastavam com aquela imensidão branca, como as linhas de um mapa. A estrada Oxford-Bath era um traçado negro e reto, cortando ao meio a planície nevada, e ao longe Oxford parecia um desenho feito a lápis. Dunworthy podia avistar tetos cobertos de neve e a torre quadrada da St. Michael por cima dos muros escuros.

— Parece que a Peste Negra ainda não chegou por aqui, hein? — indagou Colin.

O garoto tinha razão. Tudo parecia sereno, intocado, a velha Oxford das lendas. Era inconcebível imaginar a cidade sendo varrida pela peste, as carroças repletas de cadáveres puxadas ao longo das ruas estreitas, os colégios deixados para trás com as janelas fechadas por tábuas, e moribundos e mortos por toda parte. Era inconcebível imaginar que Kivrin estivesse ali em alguma parte, num daqueles vilarejos que ele não conseguia avistar.

— Está vendo? — apontou Colin. — Por trás daquelas árvores.

Dunworthy apertou os olhos, tentando distinguir construções em meio às árvores. Podia ver uma forma mais escura por entre os galhos cinzentos, um campanário, talvez, ou o canto de uma casa grande.

— Aquela é a estrada que leva para lá — disse Colin, apontando uma estreita linha cinzenta que começava em alguma parte abaixo de onde os dois estavam.

Dunworthy examinou o mapa dado por Montoya. Sem saber a que distância estavam do local para onde o salto tinha sido programado, não havia como saber que vilarejo era aquele, mesmo com as anotações dela. Se estavam diretamente ao sul, o vilarejo estava muito a leste para ser Skendgate, mas então no ponto onde Skendgate deveria estar não se via nada, apenas uma planura lisa, coberta de neve.

— E então? Vamos até lá? — perguntou Colin.

Era o único vilarejo visível, se é que se tratava mesmo de um vilarejo, e não parecia estar a mais de um quilômetro de distância. Se não fosse Skendgate, pelo menos ficava na direção correta. Além disso, se tivesse alguma das “características peculiares” registradas por Montoya, serviria para que eles se orientassem.

— Você tem que ficar perto de mim o tempo todo, e não pode falar com ninguém, entendeu?

Colin assentiu, visivelmente sem dar muita atenção.

— Acho que a estrada fica para lá — disse ele, e partiu correndo colina abaixo.

Dunworthy seguiu o garoto, tentando não pensar na quantidade de vilarejos que poderia existir, nem na escassez do tempo, nem tampouco em como já estava cansado depois da primeira subida.

— Como convenceu William a pedir para a enfermeira aplicar a estreptomicina em você? — perguntou, assim que conseguiu emparelhar com Colin.

— Ele precisava do registro médico da tia-avó Mary para poder falsificar as autorizações. O número estava naquele kit na sacola de compras dela.

— E você disse que só entregaria o número se ele concordasse?

— Sim. Também ameacei que contaria à mãe dele sobre aquelas garotas todas — acrescentou ele, antes de voltar a correr.

A estrada que tinham visto lá de cima era uma sebe. Dunworthy recusou-se a atalhar pelo campo aberto.

— Temos que seguir sempre pela estrada — disse.

— Mas é mais rápido! — protestou Colin. — Não há risco da gente se perder. Eu tenho o localizador.

Dunworthy nem quis discussão. Continuou acompanhando a sebe, esperando vê-la mudar de direção. O campo aberto deu lugar a uma floresta e então a estrada seguiu rumo ao norte.

— E se não houver caminho direto ao vilarejo? — indagou Colin, depois de meio quilômetro, mas na próxima curva avistaram um.

Era mais estreito do que o tomado por eles ao saírem do local do salto, e não tinha sido cruzado por ninguém desde que a neve começara a cair. Os dois avançaram por ali com dificuldade, os pés rompendo a fina crosta de gelo a cada passo.

Dunworthy mantinha o olhar ansiosamente voltado para diante, esperando um vislumbre qualquer do vilarejo, mas a floresta era fechada demais.

A neve dificultava o avanço, e ele já estava quase sem fôlego e sentia um forte aperto no peito.

— O que nós vamos fazer quando chegarmos lá? — perguntou Colin, avançando sem dificuldade pelo chão nevado.

— Você vai ficar fora da vista de todos e esperar por mim — respondeu Dunworthy. — Fui claro?

— Sim — disse Colin. — Tem certeza de que este é o caminho certo?

Dunworthy não tinha certeza de nada. O caminho serpenteava para o oeste, longe da direção onde ele imaginava que ficava o vilarejo, e lá adiante voltava a dobrar para o norte. Olhou ansioso para as árvores, tentando avistar entre os galhos algum vestígio de muros de pedra ou de tetos de palha.

— O vilarejo não estava tão longe assim, tenho certeza — comentou Colin, esfregando os braços. — Estamos andando há horas.

Não tinha sido tanto, mas já caminhavam há pelo menos uma hora, sem avistar sequer uma choupana, quanto mais um vilarejo. Havia dezenas de vilarejos pela região, mas onde?

Colin consultou o localizador.

— Veja só — observou ele, mostrando a Dunworthy a leitura fornecida. — Fomos demais para o sul. Acho que deveríamos voltar para a outra estrada.

Dunworthy conferiu os dados da leitura e consultou o mapa. Estavam ao sul do local do salto e a uns três quilômetros de distância. Teriam que voltar, refazendo quase todo o trajeto, sem nenhuma esperança de encontrar Kivrin nesse meio-tempo, e quando chegassem ao final ele não sabia se teria forças para continuar. Já estava se sentindo esgotado, em cada passo experimentava um forte aperto no peito e uma pontada aguda nas costelas. Virou-se e observou a curva lá na frente, tentando decidir o que fazer.

— Meus pés estão congelando — comentou Colin, batendo com força com os pés na neve, fazendo um pássaro se assustar e levantar voo de súbito.

Dunworthy olhou para o alto, franzindo a testa. O céu estava começando a nublar.

— Deveríamos ter cortado pelo campo — disse Colin. — Teria sido muito mais…

— Pssst — cortou Dunworthy.

— O que foi? — sussurrou Colin. — Alguém vem vindo?

— Pssst — repetiu Dunworthy.

Puxou Colin para a beira do caminho e aguçou outra vez o ouvido. Pensou ter escutado um cavalo, mas agora não conseguia distinguir nada. Talvez pudesse ter sido aquele pássaro.

Fez um gesto para que Colin se escondesse atrás de uma árvore.

— Fique aqui — cochichou, avançando devagarinho até ser capaz de avistar o que havia além da curva.

O garanhão negro estava amarrado a uma moita de espinheiros. Dunworthy recuou depressa para trás de um aglomerado de abetos, e ficou imóvel, tentando localizar o cavaleiro. Não se via ninguém no caminho. Esperou, controlando a própria respiração para escutar melhor, mas não apareceu ninguém, e tudo que se ouvia eram os cascos impacientes do cavalo batendo no solo.

O garanhão estava selado e tinha rédeas ornamentadas em prata, mas parecia magro, com as costelas se destacando contra a cilha, que estava frouxa. A sela escorregou um pouco para o lado quando o animal recuou um ou dois passos e sacudiu a cabeça, puxando as rédeas com força, em uma tentativa de se libertar. Quando Dunworthy chegou mais perto, constatou que as rédeas não estavam amarradas à moita, tinham apenas se enredado nos espinhos.

Dunworthy aproximou-se. O garanhão virou a cabeça na sua direção e começou a produzir um relincho baixo e queixoso.

— Calma, calma, está tudo bem — disse ele, chegando de mansinho pelo lado esquerdo.

Pôs a mão sobre o pescoço do animal, que parou de relinchar e esfregou o focinho nele, pedindo comida.

Dunworthy olhou em volta à procura de algum capim sobre a neve, mas aquele trecho quase não tinha vegetação.

— Há quanto tempo está preso aqui, amiguinho?

Será que o cavaleiro tinha sido atacado pela peste enquanto cavalgava? Será que tinha morrido, e o cavalo em pânico saíra a galope por aí, até que as rédeas se engancharam na moita de espinhos?

Dunworthy se embrenhou um pouco na floresta, à procura de pegadas, mas não achou nenhuma. O cavalo começou a relinchar de novo, e ele fez meia-volta e foi soltá-lo, arrancando no caminho um e outro tufo de capim que despontava do chão.

— Um cavalo! Apocalíptico! — exclamou Colin, que chegou correndo. — Onde achou ele?

— Eu disse para ficar onde estava.

— Eu sei, mas ouvi o relincho e fiquei com medo de que o senhor tivesse se metido em confusão.

— Mais uma razão para ter me obedecido. — Ele estendeu os punhados de capim para Colin. — Vamos, dê isso para ele comer.

Dunworthy se inclinou sobre a moita e começou a puxar as rédeas. O garanhão, em seu esforço para se libertar, tinha enrolado as rédeas de vez nos ramos espinhosos. Dunworthy teve que prender os ramos com uma mão, enquanto desenroscava as rédeas com a outra. Logo estava com as mãos cobertas de espinhos.

— De quem é esse cavalo? — perguntou Colin, oferecendo ao animal um tufo de capim, a vários passos de distância. Quando o cavalo faminto tentou abocanhar o pasto, Colin pulou para trás, largando tudo no chão. — Tem certeza de que é domesticado?

Dunworthy por pouco não fizera um corte fatal no momento em que o cavalo deu um puxão com o pescoço para alcançar o capim. Ainda assim, conseguiu liberar uma rédea, que enrolou na mão que sangrava, e recolheu a outra.

— Sim — disse.

— De quem é esse cavalo? — repetiu Colin, esfregando sem muita convicção o focinho do animal.

— Nosso.

Dunworthy apertou a cilha e ajudou Colin, sob protestos, a montar, e depois subiu para a sela.

Ainda sem perceber que estava solto, o garanhão virou a cabeça com ar acusatório quando Dunworthy bateu de leve com os calcanhares no seu lombo. Porém, logo estava galopando pela estrada coberta de neve, deliciando-se com a liberdade.

Colin agarrou-se com força ao tronco de Dunworthy, bem no local que mais doía, mas assim que tinham cavalgado uma centena de metros já estava empertigado e perguntando: “Como faz para guiar?”, “E se quiser ir mais depressa?”.

Chegaram rapidamente de volta à estrada principal. Colin queria ir até a sebe e atravessar o campo aberto, mas Dunworthy girou o cavalo na direção oposta. A estrada tinha uma bifurcação poucos quilômetros adiante, e eles seguiram pela esquerda.

Era um trecho bem mais utilizado do que o outro, embora atravessasse um bosque muito mais fechado. O céu estava totalmente nublado agora, e o vento, mais forte.

— Estou vendo! — exclamou Colin, e soltou uma das mãos para apontar na direção de um aglomerado de freixos.

Ali, entre uma brecha e outra, despontava um teto cinza-escuro, de pedra, contra o céu cinza-claro. Uma igreja, talvez, ou um estábulo. Ficava a leste. Quase simultaneamente, eles viram uma trilha estreita que se separava da estrada, alcançava uma precária ponte de madeira por cima de um córrego e cruzava um prado estreito.

O cavalo não ergueu as orelhas nem procurou acelerar o passo, e Dunworthy concluiu que ele não devia ser daquele vilarejo. O que não era ruim, pensou, do contrário eles correriam o risco de serem enforcados como ladrões de cavalo antes mesmo que pudessem perguntar por Kivrin.

Então Dunworthy viu as ovelhas. Estavam caídas de lado, como montes de uma lã cinzenta e suja, embora algumas tivessem se abrigado junto às árvores, tentando se proteger do vento e da neve.

Colin não percebeu nada.

— O que vamos fazer quando chegarmos lá? — indagou ele, às costas de Dunworthy. — Vamos entrar escondidos ou chegar de vez e perguntar se alguém viu Kivrin?

Não vai haver ninguém para responder, pensou Dunworthy. Apressou o cavalo e eles contornaram os freixos e entraram no vilarejo.

Não parecia nem um pouco com as ilustrações do livro de Colin, de construções em volta de um espaço aberto central. As casas estavam espalhadas em meio às árvores, quase fora da visão umas das outras. Dunworthy avistou tetos de sapê e, mais adiante, num aglomerado de freixos, a igreja. Só que ali, numa clareira tão pequena quanto aquela onde tinham saltado, havia apenas uma cabana de madeira e um barraco de pouca altura.

A cabana era pequena demais para ser a casa grande local — talvez fosse a moradia do caseiro ou a do bailio. A porta de madeira do barraco estava aberta, e a neve se espalhava para dentro. Do teto não subia fumaça, e de dentro não vinha som nenhum.

— Talvez tenham fugido — sugeriu Colin. — Muita gente fugiu quando ouviu dizer que a peste estava chegando. Foi assim que a epidemia se espalhou.

Talvez tivessem fugido. A neve diante da casa estava dura e pisada, como se muitas pessoas e cavalos tivessem passado por ali.

— Fique aqui com o cavalo — ordenou Dunworthy, e foi até a cabana.

A porta também não estava trancada, mas fora puxada até sobrar apenas uma fresta. Ele enfiou a cabeça e olhou para dentro.

Estava gelado lá dentro e tão escuro, depois da neve ofuscante, que ele não conseguiu ver nada além da impressão avermelhada deixada pela luz na retina. Empurrou e escancarou a porta, mas ainda havia pouca luz, e tudo parecia tingido de vermelho.

Devia ser a residência do caseiro. Havia dois quartos, separados por um biombo de madeira, e o chão era forrado de esteiras. A mesa estava vazia, e o fogão, apagado há dias. O quarto menor estava impregnado do odor de cinza fria. O caseiro e sua família tinham ido embora, e talvez o resto dos habitantes também, sem dúvida levando a peste consigo. E Kivrin.

Ele se apoiou na moldura da porta, e o aperto no peito transformou-se de novo em dor aguda. De todas as suas preocupações com Kivrin, nunca lhe ocorrera aquela, a de que ela pudesse ter ido embora.

Olhou o outro aposento. Colin enfiou a cabeça pela porta.

— O cavalo está tentando beber de um balde que tem lá fora. Posso deixar?

— Sim — respondeu Dunworthy, postando-se de modo que o garoto não pudesse olhar para além do biombo. — Mas não deixe que beba demais. Ele não bebe água há dias.

— Não há muita água no balde — observou Colin, olhando ao redor com interesse. — Esta é uma das cabanas dos servos, não é? Como eram pobres, hein? Encontrou alguma coisa?

— Não — disse ele. — Vá vigiar o cavalo. Não deixe que ele vá embora.

Colin recuou, batendo com a cabeça no umbral da porta.

O bebê estava envolto num saco de lã num canto. Aparentemente ainda estava vivo quando a mãe morreu: ela estava deitada no chão de barro, as mãos estendidas na direção dele. Os dois tinham a pele escura, quase negra, e os panos do bebê estavam empapados de sangue seco.

— Sr. Dunworthy?! — chamou Colin, com uma voz alarmada, e Dunworthy virou-se com um sobressalto, temendo que o garoto tivesse entrado, mas ele continuava do lado do garanhão, que tinha o focinho enfiado no balde.

— O que foi? — perguntou.

— Tem alguma coisa lá no chão. — Colin apontou na direção das cabanas. — Acho que é um corpo. — Ele deu um puxão nas rédeas do cavalo com tanta força que o balde tombou, derramando uma pequena poça de água sobre a neve.

— Espere — disse Dunworthy, mas Colin já estava correndo na direção das árvores, seguido pelo cavalo.

— Sim, é um corp…

A voz de Colin se interrompeu abruptamente. Dunworthy correu até ele, a mão apertando as costelas.

Era um corpo, o cadáver de um homem jovem. Estava caído na neve, braços e pernas abertos, o rosto para cima, numa poça de líquido escuro. Havia um pouco de neve sobre a face. Seus bulbos deviam ter estourado, pensou Dunworthy, e olhou para Colin, mas o garoto não fitava o cadáver, e sim a clareira mais adiante.

Era maior do que a da frente da residência do caseiro. Nas bordas, havia meia dúzia de choupanas, e na extremidade, uma igreja normanda. No centro, sobre a neve revolvida, jaziam os corpos.

Ninguém sequer tentara sepultá-los, embora perto da igreja uma vala não muito profunda tivesse sido aberta, um monte de terra coberta de neve ao lado. Alguns corpos pareciam ter sido arrastados para o pátio da igreja — havia sulcos compridos na neve, como rastros de trenó —, e pelo menos um devia ter rastejado para dentro de sua cabana, onde estava caído, metade do lado de fora.

— “Temei a Deus” — murmurou Dunworthy —, “pois chegou a hora do seu julgamento.”

— Até parece que aconteceu uma batalha aqui — comentou Colin.

— E aconteceu — disse Dunworthy.

Colin avançou, olhando o cadáver mais de perto.

— Acha que morreu todo mundo?

— Não toque neles! — mandou Dunworthy. — Não chegue nem perto!

— Tomei a gamaglobulina — rebateu o garoto, mas recuou, prendendo a respiração.

— Respire fundo — pediu Dunworthy, pondo a mão no ombro de Colin. — E olhe para outro lugar.

— No livro, era assim mesmo — falou ele, pregando os olhos num carvalho. — Na verdade, eu estava esperando que fosse bem pior. Quer dizer, não tem cheiro, essas coisas.

— Sim.

Colin prendeu a respiração de novo:

— Estou bem agora. — Olhou ao redor da clareira. — Onde acha que Kivrin pode estar?

Não aqui, rezou Dunworthy.

— Ela pode estar na igreja — disse ele, tomando aquela direção e puxando o cavalo pelas rédeas. — De qualquer maneira, precisamos ver se o túmulo está lá. Talvez o vilarejo não seja este.

O garanhão deu dois passos para a frente e ergueu a cabeça, com as orelhas para trás. Soltou um relincho assustado.

— Leve o cavalo para aquele barracão — apontou Dunworthy, ainda segurando as rédeas. — Como ele está sentindo o cheiro de sangue, fica assustado. Amarre ele lá.

Dunworthy conduziu o cavalo para longe do cadáver estirado e entregou as rédeas a Colin, que pareceu preocupado ao recebê-las.

— Está tudo bem — falou Colin, levando o garanhão para a residência do caseiro. — Sei exatamente como você se sente.

Dunworthy atravessou a passadas largas a clareira até o pátio da igreja. Havia quatro corpos numa cova rasa, e mais duas sepulturas ao lado, cobertas de neve, talvez as das primeiras pessoas a morrer, quando ainda era possível realizar funerais. Ele deu a volta até a entrada da igreja.

Diante da porta havia mais dois corpos estirados, de rosto para baixo, um sobre o outro. O cadáver de cima era de um ancião, e o de baixo de uma mulher. Dunworthy observou as saias das vestes rústicas e uma das mãos dela. Os braços do homem estavam caídos sobre a cabeça e os ombros da mulher.

Ergueu com cuidado o braço do homem, e o corpo dele deslizou de lado, repuxando a capa. A túnica por baixo estava suja e manchada de sangue, mas Dunworthy percebeu que era de um azul vívido. Ele puxou o capuz. Havia uma corda em volta do pescoço da mulher. Seu cabelo longo e louro estava enroscado na corda.

Enforcaram ela, pensou, sem sentir surpresa.

Colin chegou correndo.

— Descobri o que são aquelas marcas no chão — avisou. — Eles arrastaram os corpos! E por trás do celeiro tem um menino com uma corda no pescoço.

Dunworthy estava olhando a corda, as mechas emaranhadas de cabelo. Estava tão sujo que mal podia ser considerado louro.

— Arrastaram os corpos para a igreja porque não conseguiam carregá-los, sou capaz de apostar — prosseguiu Colin.

— Pôs o cavalo no barracão?

— Sim. Amarrei ele numa espécie de poste — respondeu. — Ele queria vir comigo.

— Está faminto — disse Dunworthy. — Volte lá e dê um pouco de feno a ele.

— Aconteceu alguma coisa? — quis saber Colin. — O senhor não está tendo uma recaída, está?

Dunworthy achava que Colin não podia ver a túnica da mulher do lugar onde estava.

— Não. Deve haver um pouco de feno ou de aveia no barracão. Vá e alimente o cavalo — ordenou.

— Está bem — concordou Colin, na defensiva, e correu para o barracão. Parou a meio caminho do relvado. — Não preciso dar o feno direto para ele, não é? Posso apenas colocar no chão?

— Sim — falou Dunworthy.

Olhou para a mão da mulher. Também havia sangue nela, assim como na parte interior do pulso. O braço estava torcido, como se ela tivesse tentado amortecer a queda. Dunworthy poderia segurar o cotovelo dela e virar com facilidade o corpo para cima. Tudo o que precisava fazer era segurar o cotovelo.

Observou a mão. Estava rígida e fria. Por baixo da sujeira, a pele era avermelhada e cheia de rachaduras, aberta em uma dúzia de pontos. Não era possível que fosse a mão de Kivrin. Se fosse, o que teria passado durante as duas últimas semanas para ser reduzida àquele estado?

Tudo estaria registrado no recorde. Dunworthy virou a mão dela, com delicadeza, procurando a cicatriz do implante, mas o pulso estava demasiado coberto de sujeira para que ele conseguisse ver o chip, caso estivesse ali.

E se estivesse, o que faria? Chamaria Colin e pediria que trouxesse um machado na cozinha do caseiro, para decepar a mão e depois escutar a voz de Kivrin narrando os horrores por que tinha passado? Sem dúvida Dunworthy não seria capaz de fazer isso, assim como não se atrevia a virar aquele corpo para cima e ver de uma vez por todas se o rosto era ou não de Kivrin.

Pousou a mão dela com suavidade junto ao corpo, segurou o cotovelo e enfim virou o corpo para cima.

Ela tinha morrido da variedade bubônica da peste. Havia uma feia mancha amarela na parte lateral da túnica azul, no ponto onde o bulbo embaixo do braço estourou e escorreu. A língua estava negra e tão inchada que preenchia a boca inteira, como algum objeto horrível e obsceno enfiado por entre os dentes para sufocá-la. O rosto pálido também estava inchado e distorcido.

Não era Kivrin. Dunworthy tentou ficar de pé, cambaleou um pouco e depois pensou, tarde demais, que deveria ter coberto o rosto da mulher.

— Sr. Dunworthy?! — gritou Colin, correndo em disparada e Dunworthy ergueu os olhos, fitando com ar distante e desamparado o garoto. — O que aconteceu? Encontrou ela? — perguntou Colin, em tom acusatório.

— Não — respondeu ele, bloqueando a passagem.

Não encontrei nem vamos encontrá-la.

Colin estava olhando para a mulher. Em contraste com o brilho da neve, o rosto dela era branco-azulado, e a roupa, de um azul vívido.

— Encontrou ela, não é? É ela?

— Não — disse Dunworthy. Mas podia ser. Podia ser. E não tenho mais condições de continuar desvirando corpos, sempre pensando que podia ser ela. Seus joelhos estavam fraquejando, como se não suportassem mais o peso do próprio corpo. — Me ajude a voltar para o barracão — pediu.

Colin permaneceu obstinadamente parado.

— Se for ela, pode me dizer. Eu aguento.

Mas eu não, pensou Dunworthy. Não aguentarei se ela estiver morta.

Ele começou a caminhar de volta para a residência do caseiro, apoiando uma mão no muro de pedra da igreja e imaginando como faria ao chegar ao relvado.

Colin pulou para o lado dele, agarrando seu braço e o encarando com ansiedade.

— Qual é o problema? O senhor está tendo uma recaída?

— Só preciso descansar um pouco — respondeu ele, e continuou andando, quase sem querer. — Kivrin estava usando uma roupa azul quando saltou.

Quando saltou, quando se deitou no chão e fechou os olhos, desamparada e confiante, e desapareceu para sempre nesta câmara de horrores.

Colin empurrou e escancarou a porta do barracão, ajudando Dunworthy a entrar e segurando o braço dele com as mãos. O cavalo levantou os olhos de um saco de aveia para observá-los.

— Como não encontrei feno, dei a ele um pouco de grãos — explicou Colin. — Cavalos comem grãos, não comem?

— Sim — falou Dunworthy, encostando-se nos sacos empilhados. — Não deixe que coma tudo. Ele pode se empanturrar e explodir.

Colin foi até o saco e começou a arrastá-lo para fora do alcance do cavalo.

— Por que pensou que fosse Kivrin? — indagou ele.

— Por causa da túnica azul — disse Dunworthy. — A túnica de Kivrin era daquela cor.

O saco era pesado demais para Colin. Quando o garoto puxou com ambas as mãos, a parte lateral se rasgou, espalhando aveia sobre o chão de barro. O cavalo mordiscou a aveia, com avidez.

— Não… quer dizer… todas aquelas pessoas morreram da peste, não é? Só que Kivrin foi vacinada. Então não pode ter contraído a peste. Do que mais poderia ter morrido?

Disso, pensou Dunworthy. Ninguém poderia sobreviver a tudo isso, vendo crianças e bebês morrerem como animais, empilhando os corpos em poços e jogando terra por cima com uma pá, arrastando os cadáveres com uma corda laçada ao pescoço. Como ela poderia ter sobrevivido a tudo isso?

Colin conseguiu afastar mais o saco de aveia e o largou junto de um pequeno baú. Depois foi sentar-se diante de Dunworthy, um pouco ofegante.

— Tem certeza de que o senhor não está tendo uma recaída?

— Tenho — respondeu ele, mas estava começando a tremer.

— Talvez esteja só cansado — comentou Colin. — Descanse, e eu volto num instante.

Ele saiu, fechando a porta do barracão atrás de si. O cavalo estava comendo com mordidas bruscas e ruidosas a aveia derramada por Colin. Dunworthy ficou de pé, apoiando-se num poste rústico de madeira, e caminhou até o pequeno baú. Os reforços de latão estavam manchados, e o couro da tampa exibia um pequeno corte, mas afora isso o baú parecia novo em folha.

Dunworthy sentou-se do lado e abriu a tampa. O caseiro usara o objeto para guardar suas ferramentas. Havia um rolo de corda de couro, e a lâmina enferrujada de um enxadão. O forro de tecido azul, mencionado por Gilchrist quando estavam no pub, estava rasgado onde o enxadão repousava.

Colin regressou com o balde.

— Trouxe um pouco de água para o senhor — falou ele. — Peguei no córrego. — Pousou o balde no chão e mexeu nos bolsos até apanhar um frasco. — Tenho apenas dez aspirinas, então nada de exagerar nas recaídas. Roubei do sr. Finch.

O garoto agitou o frasco até dois comprimidos caírem na palma da mão.

— Roubei um pouco de sintamicina também, mas fiquei com medo de que ela ainda não tivesse sido inventada. Achei que os contemps tinham que conhecer aspirinas. — Estendeu os comprimidos para Dunworthy e trouxe o balde mais para perto. — O senhor vai ter que beber usando as mãos. Imagino que os canecos e outros recipientes dos contemps devem estar cheios de germes da peste.

Dunworthy engoliu a aspirina e colheu com a mão um pouco de água para ajudar a descer.

— Colin — disse ele.

Colin levou o balde de volta para perto do cavalo.

— Não acho que este seja o vilarejo. Entrei na igreja, e o único túmulo que tem lá é de alguma mulher — observou o garoto, puxando o mapa e o localizador que estava em outro bolso. — Ainda estamos muito a leste. Acho que estamos aqui. — Apontou para uma das anotações de Montoya. — Então, se a gente voltar para aquela outra estrada, e depois cortar para o leste…

— Vamos voltar para o local do salto — cortou Dunworthy. Ficou de pé com muito cuidado, sem tocar na parede nem no poste.

— Por quê?! Badri comentou que temos pelo menos um dia, e só checamos um vilarejo. Tem muitos. Ela pode estar em qualquer um.

Dunworthy desamarrou o cavalo.

— Posso montar e ir à procura dela de cavalo — sugeriu Colin. — Posso cavalgar bem depressa e olhar nesses vilarejos todos e depois voltar aqui e avisar o senhor assim que encontrar ela. Ou então podíamos dividir os vilarejos: eu procuro numa metade, o senhor na outra. Quem achar Kivrin primeiro manda algum tipo de sinal, acendendo uma fogueira, algo assim, para que o outro veja e venha ao encontro.

— Ela está morta, Colin. Não vamos achá-la.

— Não diga isso! — exclamou Colin, e sua voz soou esganiçada, infantil. — Ela não está morta! Ela tomou vacinas!

Dunworthy apontou para o baú.

— Este é o baú que ela trouxe quando veio.

— Mesmo se for, e daí?! — rebateu Colin. — Pode haver mil baús iguais a esse. Ou ela pode ter fugido quando a peste chegou. Não podemos simplesmente voltar e deixar ela aqui! E se fosse eu que estivesse perdido, esperando dias e dias que alguém viesse, e não aparecesse ninguém? — O nariz dele começou a escorrer.

— Colin — suspirou Dunworthy, desalentado —, às vezes a gente faz tudo por uma pessoa, mas isso não basta para salvar a vida dela.

— Como a minha tia-avó Mary — disse Colin, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Mas não é sempre assim.

É sempre assim, pensou Dunworthy.

— Não — respondeu ele —, não é sempre assim.

— Às vezes a gente pode salvar as pessoas — teimou Colin.

— Sim — concordou ele. — Está bem. — Voltou a amarrar as rédeas do cavalo ao poste. — Vamos procurar ela. Me dê mais duas aspirinas. E me deixe descansar um pouco até que façam efeito. Depois vamos atrás dela.

— Apocalíptico! — se entusiasmou Colin, tirando o balde de perto do cavalo, que tinha recomeçado a lamber a água lá dentro. — Vou buscar mais água.

Correu para fora, e Dunworthy voltou a sentar, as costas apoiadas à parede.

— Por favor — pediu. — Faça com que a gente encontre ela.

A porta se abriu devagar. O contorno de Colin, parado num umbral, se projetava contra a luz lá fora.

— Ouviu isso? — perguntou ele. — Preste atenção.

Era um som distante, abafado pelas paredes do barracão. E havia uma longa pausa entre cada repique, mas Dunworthy podia ouvir bem. Ficou de pé e foi para o lado de fora.

— Está vindo daquela direção — observou Colin, apontando para sudoeste.

— Traga o cavalo — disse Dunworthy.

— Tem certeza de que é Kivrin? — indagou Colin. — Está vindo da direção errada.

— É Kivrin — respondeu ele.