O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 19 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 18

 

Quando por fim chegaram ao Balliol, outros dois detidos tinham caído de cama com o vírus. Dunworthy mandou Colin para seus aposentos e ajudou Finch a levar os doentes para a cama e ligar para o hospital.

— Todas as nossas ambulâncias estão ocupadas — disse a atendente. — Mandaremos uma assim que for possível.

O “assim que for possível” ocorreu à meia-noite. Dunworthy conseguiu se recolher apenas depois de uma da manhã.

Colin estava adormecido no colchão que Dunworthy colocara para ele. A Era da Cavalaria estava junto da sua cabeça. Dunworthy chegou a pensar se valeria a pena recolher o livro, mas teve medo de acordar o garoto. Foi direto para a cama.

Kivrin não podia estar no meio da peste. Badri falara num desvio de quatro horas, e a peste não tinha atingido a Inglaterra senão em 1348. Kivrin fora enviada para 1320.

Ele se virou para o outro lado e cerrou os olhos com força. Ela não podia estar no meio da peste. Badri estava delirando. Tinha falado todo tipo de insanidades, desde tampas e porcelanas quebradas a ratos. Nada daquilo fazia sentido. Era a voz da febre. Ele dissera a Dunworthy para registrar. Tinha lhe passado notas imaginárias. Nada daquilo significava alguma coisa.

“Foram os ratos”, comentara Badri. Os contemps não sabiam que a peste era espalhada pelas pulgas nos ratos. Não faziam a menor ideia da causa da doença. Tinham acusado todo mundo: os judeus, as bruxas, os loucos. Tinham assassinado pessoas com retardo e enforcado mulheres idosas. Tinham queimado gente na fogueira.

Ele levantou da cama e caminhou em silêncio até a sala ao lado. Foi na ponta dos pés até o colchão de Colin e retirou A era da cavalaria que estava encostado à cabeça do garoto, que se mexeu mas não acordou.

Dunworthy sentou-se junto da janela e procurou a Peste Negra no livro. Ela tivera início na China em 1333, propagando-se para o Oeste através de navios mercantes até Messina, na Sicília, e dali para Pisa. Espalhara-se por toda a Itália (oitenta mil mortos em Siena, cem mil em Florença, trezentos mil em Roma) e pela França, antes de cruzar o Canal da Mancha. Alcançou a Inglaterra em 1348, “um pouco antes da festa de são João Batista”, no dia 24 de junho.

Isso indicava uma diferença de vinte e oito anos. Badri tinha se preocupado com a possibilidade de um desvio muito grande, mas ele estava falando em termos de semanas, não de anos.

Inclinando-se sobre o colchão de Colin, ele tirou da estante o Pandemias de Fitzwiller.

— O que está fazendo? — perguntou Colin, sonolento.

— Lendo sobre a Peste Negra — sussurrou ele. — Vá dormir.

— Eles não chamavam assim — murmurou Colin, com a boca cheia de goma de mascar. Ele virou de lado, enrolando-se nos lençóis. — Chamavam de doença azul.

Dunworthy pegou e levou os dois livros para a cama. Fitzwiller datava a chegada da Peste na Inglaterra como no dia de são Pedro, 29 de junho, em 1348. A Peste alcançou Oxford em dezembro, Londres em outubro de 1349, e depois se espalhou para o norte e também através do Canal da Mancha até os Países Baixos e a Noruega. Chegou a todas as partes, menos à Boêmia e à Polônia, que ficou de quarentena, e curiosamente a algumas partes da Escócia.

Quando acabou, tinha varrido o interior da Inglaterra como um Anjo da Morte, devastando vilarejos inteiros, sem deixar sequer alguém para dar a extrema-unção ou enterrar os corpos em decomposição. Em um mosteiro, morreram todos os monges, menos um.

O único sobrevivente, John Clyn, deixou um registro: “E, para que coisas que devem ser lembradas não sucumbam ao tempo nem se desvaneçam da memória dos que virão depois de nós”, escreveu ele, “eu, vendo tantos males e vendo o mundo, por assim dizer, sob a garra do Maligno, e estando eu próprio como se já entre os mortos, eu, esperando pela morte, deliberei deixar por escrito todas as coisas que testemunhei”.

Ele descreveu tudo, como um verdadeiro historiador, e ao que tudo indica morreu depois, completamente só. Sua caligrafia no manuscrito se limita a se perder num risco sem direção, e abaixo, com outra letra, alguém escreveu: “Aqui, ao que parece, o autor morreu”.

Alguém bateu à porta. Era Finch, trajando um roupão, com os olhos vermelhos e agitado.

— Mais uma pessoa detida adoeceu, senhor — informou.

Dunworthy pôs o dedo nos lábios e saiu para o corredor com ele.

— Ligou para o hospital?

— Liguei, senhor, e me avisaram que pode demorar algumas horas até haver uma ambulância disponível. Pediram que essa senhora ficasse em isolamento e recebesse rimantadina e suco de laranja.

— Algo que, imagino, está quase acabando — disse Dunworthy, irritado.

— Está, senhor, mas não é este o problema. Ela não quer colaborar.

Dunworthy pediu a Finch que esperasse do lado de fora enquanto ele se vestia e colocava a máscara facial, e depois os dois desceram até Salvin. Havia um agrupamento de detidos diante de uma porta, todos trajando uma combinação variada de roupas de baixo, casacos e lençóis. Somente alguns tinham a máscara facial. Depois de amanhã, todos vão cair de cama, pensou Dunworthy.

— Graças aos céus que está aqui — disse um, com fervor. — Não podemos fazer nada por ela.

Finch conduziu Dunworthy para dentro, onde a mulher estava sentada na cama, muito empertigada. Era uma senhora idosa, com cabelos brancos e ralos, e tinha os mesmos olhos acesos de febre e a mesma expressão frenética e alerta de Badri naquela primeira noite.

— Vá embora! — disse ela assim que avistou Finch, ameaçando lhe dar um tapa. Virou os olhos ardentes para Dunworthy. — Papai! — exclamou, e depois fez um beicinho. — Eu fui muito má — disse, com voz infantil. — Comi o bolo de aniversário todinho, e agora minha barriga está doendo.

— Entende o que eu falei, senhor? — indagou Finch.

— Os índios estão vindo, papai? — perguntou ela. — Não gosto de índios. Eles têm arcos e flechas.

Somente ao amanhecer conseguiram finalmente levá-la para um dos colchões colocados numa das salas de conferências. Dunworthy a certa altura teve que dizer: “Papai quer que a menininha deite e fique bem quieta”. Assim que ela se acalmou, a ambulância apareceu.

— Papai! — gritou ela, quando as portas da ambulância foram se fechando. — Não me deixe aqui sozinha!

— Oh, céus — disse Finch quando a ambulância se afastou. — Passa da hora do café. Espero que não tenham comido todo o bacon.

Ele saiu para fazer o racionamento da comida, e Dunworthy se dirigiu para seus aposentos, para esperar o telefonema de Andrews. Colin já vinha descendo a escada, comendo uma fatia de torrada e enfiando o casaco.

— O vigário quer uma mãozinha para angariar roupas para as pessoas detidas — disse ele, com a boca cheia de torrada. — A tia-avó Mary telefonou. Quer que ligue para ela.

— Andrews não ligou?

— Não.

— As ligações estão com imagem?

— Não.

— Ponha sua máscara — ordenou Dunworthy, enquanto o garoto se afastava. — E o cachecol!

Ligou para Mary e esperou impaciente durante uns cinco minutos, até que ela veio ao fone.

— James! — disse ela. — É Badri. Está perguntando por você.

— Está melhor, então?

— Não. A febre continua muito alta, e ele está muito agitado. Fica chamando por você e insiste que tem alguma coisa para lhe dizer. Está resvalando para um estado perigoso. Se você puder vir e falar com ele, talvez se acalme.

— Ele falou alguma coisa sobre a Peste?

— A Peste?! — repetiu ela, parecendo incomodada. — Não me diga que você aderiu a esses boatos ridículos que estão circulando, James, dizendo que é o cólera, que é a dengue, que é o retorno da Pandemia…

— Não — respondeu Dunworthy. — Estou apenas me referindo a Badri. Na noite passada, ele disse: “matou metade da Europa” e “foram os ratos”.

— Ele está delirando, James. É a febre. Não significa nada.

Ela tem razão, pensou ele. A mulher falara de índios com arco e flecha, mas ninguém sairia por causa disso à procura dos sioux. Ela pensara num bolo de aniversário como a explicação para estar se sentindo doente, e Badri pensou na Peste. Não queria dizer nada.

Não obstante, disse para Mary que iria de imediato ao hospital ver Badri e saiu à procura de Finch. Andrews não tinha especificado a que horas ligaria, mas Dunworthy não podia correr o risco de deixar o telefone sem ninguém por perto. Deveria ter pedido a Colin para ficar, enquanto conversava com Mary.

Finch provavelmente estaria no salão, defendendo o bacon com a própria vida. Dunworthy deixou o fone fora do gancho, para parecer que estava ocupado, e cruzou o pátio até o salão.

A sra. Taylor veio ao seu encontro na porta.

— Já estava indo à sua procura — começou ela. — Fiquei sabendo que um dos detidos adoeceu com o vírus esta noite.

— Isso mesmo — disse ele, olhando em torno do salão à procura de Finch.

— Oh, céus. Suponho então que todos nós fomos expostos.

Ele não via Finch em lugar algum.

— De quanto tempo é o período de incubação? — perguntou a sra. Taylor.

— De doze a quarenta e oito horas — respondeu ele, pescoço esticado, tentando ver por cima das cabeças das pessoas.

— Isso é terrível! — exclamou a sra. Taylor. — E se uma de nós adoecer bem no meio do concerto? Nós pertencemos ao Tradicional, o senhor sabe, não somos do Conselho. As regras são bem explícitas.

Ele ficou se perguntando por que o Tradicional, seja lá o que fosse, achou por bem ter regras relativas a sineiras com influenza.

— A Regra Três, por exemplo — prosseguiu a sra. Taylor. — “Cada pessoa deve tocar o seu sino sem interrupções.” Não podemos colocar outra pessoa durante o recital se uma de nós adoecer de repente. E vai prejudicar o ritmo.

Ele teve a rápida visão de uma das sineiras, com suas luvas brancas, desabando no chão e sendo chutada para longe para não quebrar o ritmo.

— Existe algum sintoma prévio? — perguntou a sra. Taylor.

— Não — respondeu ele.

— A circular distribuída pelo SNS fala de desorientação, febre e dor de cabeça, mas isso de nada adianta. Os sinos sempre nos dão dor de cabeça.

Posso imaginar, pensou ele, agora à procura de William Gaddson ou de algum estudante que pudesse deixar de sentinela junto ao telefone.

— Se fôssemos do Conselho, é claro, não haveria problema. Eles permitem a substituição dos músicos a torto e a direito. Durante um concerto de “Tittum Bob Maxims”, em Ork, contaram com dezenove sineiras. Dezenove! Não sei como conseguem chamar isso de concerto.

Nenhum dos seus alunos estava ali no salão, Finch sem dúvida tinha se barricado na despensa, e Colin já saíra há muito tempo.

— Tem certeza de que ainda precisam de uma sala para ensaios? — perguntou à sra. Taylor.

— Tenho. A menos que uma de nós adoeça dessa coisa. Claro, podíamos fazer stedmans, mas não seria a mesma coisa, não acha?

— Deixarei que usem meus aposentos se prometerem que atenderão o telefone e receberão meus recados. Estou esperando um telefonema importante, de fora, um interurbano, e é essencial para mim que haja alguém por perto o tempo inteiro.

Ele foi mostrar o local à sra. Taylor.

— Oh, não é muito grande, não é mesmo? — comentou ela. — Não estou certa de que haja espaço para todas. Posso afastar os móveis?

— Pode fazer o que quiser, desde que atendam o telefone e anotem os recados. Estou esperando uma ligação do sr. Andrews. Digam a ele que não precisa de autorização para penetrar na área da quarentena. Digam para ir direto para o Brasenose, que me encontrarei com ele lá.

— Bem, está tudo certo, acho — disse ela, como se estivesse fazendo um favor. — Pelo menos é melhor do que aquela cafeteria cheia de correntes de ar.

Depois de deixar a sra. Taylor arrastando móveis, ainda sem ter certeza de que agia certo ao confiar aquela missão a ela, Dunworthy apressou-se ao encontro de Badri. Seu técnico tinha alguma coisa para lhe dizer. Matou todo mundo. Metade da Europa.

A chuva diminuíra até uma neblina leve, e os manifestantes contra a Comunidade Europeia estavam todos agrupados à entrada do hospital. O grupo ganhara reforço de uma porção de jovens da idade de Colin, usando máscaras negras e gritando as palavras de ordem “Libertem meu povo!”.

Um dos manifestantes agarrou Dunworthy pelo braço.

— O governo não tem o direito de manter você aqui contra a sua vontade — vociferou ele, aproximando seu rosto mascarado do rosto também mascarado de Dunworthy.

— Não seja bobo — rebateu Dunworthy. — Estão querendo começar outra Pandemia?

O rapaz largou seu braço, parecendo confuso, e Dunworthy esgueirou-se para dentro do prédio.

A Emergência estava lotada de pacientes deitados em macas. Um deles estava perto do elevador. Parada ao lado dele, uma enfermeira de aspecto imponente, trajando um volumoso SPG, lia alguma passagem de um livro encapado em plástico.

— “Recordaste de um inocente que tenha perecido?” — leu ela, e Dunworthy percebeu com alarme que não era uma enfermeira, e sim a sra. Gaddson. — “Onde já se viu que justos fossem exterminados?”

Ela se interrompeu e folheou as páginas finas da Bíblia, à procura de outro trecho encorajador, e Dunworthy cortou por um corredor lateral e dali pelas escadas, eternamente grato ao SNS pela distribuição de máscaras faciais.

— “Iahweh te ferirá com tísica e febre” — entoou a mulher, e sua voz ressoou no corredor enquanto Dunworthy se afastava — “com inflamação, delírio, secura, ferrugem e mofo”.

E os ferirá com a sra. Gaddson, pensou ele, e ela fará a leitura das Escrituras para manter elevado o moral.

Pelas escadas, Dunworthy seguiu até a Ala de Isolamento, que aparentemente ocupava agora quase a totalidade do primeiro andar.

— Ah, aqui está o senhor — disse a enfermeira, a estudante lourinha e bonita de novo. Ele pensou se deveria preveni-la da proximidade da sra. Gaddson.

— Já estava quase desistindo — prosseguiu ela. — Ele chamou pelo senhor a manhã inteira. — Ela lhe estendeu um kit de SPG, ele colocou as vestimentas de segurança e a seguiu para dentro do quarto.

— Ele estava agitadíssimo chamando o senhor há cerca de meia hora — comentou ela, sussurrando. — Insistiu o tempo todo que tinha algo para lhe dizer. Está um pouco melhor agora.

Badri, de fato, parecia bem melhor. Tinha perdido aquela vermelhidão congestionada do rosto e, embora sua pele morena continuasse pálida, ele estava mais parecido com o Badri de sempre. Estava parcialmente erguido, encostado numa pilha de travesseiros, os joelhos levantados, as mãos apoiadas de leve sobre eles, os dedos curvos. Tinha os olhos fechados.

— Badri — chamou a enfermeira, inclinando-se e pondo a mão enluvada sobre o ombro dele —, o sr. Dunworthy está aqui.

Ele abriu os olhos.

— Sr. Dunworthy?

— Isso mesmo — respondeu ela, apontando para o outro lado da cama. — Não falei que ele estava vindo?

Badri se empertigou um pouco mais junto aos travesseiros, mas sem fitar Dunworthy. Estava olhando diretamente para a frente.

— Estou aqui, Badri — disse Dunworthy, movendo-se para entrar no campo de visão dele. — O que você queria me dizer?

Badri continuava olhando para a frente, e suas mãos começaram a se mexer inquietas sobre os joelhos. Dunworthy lançou um olhar para a enfermeira.

— Ele tem feito isto — comentou ela. — Parece que está digitando. — Ela observou os monitores e saiu do quarto.

Ele estava mesmo digitando, os pulsos pousados nos joelhos, os dedos batendo no lençol numa sequência complexa. Seus olhos fitavam alguma coisa à frente — uma tela? — e depois de algum tempo ele franziu a testa.

— Isso não pode estar certo — comentou, e começou a digitar rapidamente.

— O que é, Badri? — perguntou Dunworthy. — O que está errado?

— Deve haver um erro — disse Badri, inclinando-se um pouco para o lado. — Passe para mim uma leitura linha por linha direta do TAA.

Dunworthy percebeu que ele estava falando no microfone do console. Está lendo o fix, pensou.

— O que não está correto aí, Badri?

— O desvio — respondeu Badri, os olhos pregados no monitor imaginário. — Checar a leitura — disse ao ouvido do console. — Não pode estar correto.

— O que há de errado com o desvio? — indagou Dunworthy. — Foi um desvio maior do que você esperava?

Badri não respondeu. Digitou por alguns instantes, fez uma pausa, olhando o monitor, e começou a digitar freneticamente.

— Quanto de desvio, Badri? — quis saber Dunworthy.

Ele digitou durante um minuto inteiro, depois parou e ergueu os olhos para Dunworthy.

— Tão preocupado — disse, pensativo.

— Preocupado com o quê, Badri? — perguntou Dunworthy.

Badri jogou de repente o lençol para um lado e agarrou a grade lateral da cama.

— Preciso achar o sr. Dunworthy — respondeu, tentando arrancar a cânula do braço, puxando a fita adesiva.

Os monitores atrás se alteraram de repente, e os gráficos deram piques bruscos para cima, soltando bipes. Lá fora, em algum lugar, um alarme começou a tocar.

— Não deve fazer isso — disse Dunworthy, estendendo os braços, tentando detê-lo.

— Ele está no pub — falou Badri, repuxando e rasgando a fita.

Os monitores todos saltaram para uma linha reta, alongando-se horizontalmente.

— Desconectado — disse uma voz de computador. — Desconectado.

A enfermeira entrou às pressas.

— Oh, já é a segunda vez que ele faz isso — comentou ela. — Sr. Chaudhuri, não deve fazer mais isso. Vai acabar arrancando sua cânula.

— Vá chamar o sr. Dunworthy, agora mesmo — disse ele. — Tem alguma coisa errada. — Mesmo assim, ele voltou a se recostar na cama, e deixou a enfermeira cobri-lo. — Por que ele não vem?

Dunworthy esperou enquanto a enfermeira voltava a aplicar fita adesiva à cânula e reiniciava as telas. Ficou observando Badri. Parecia desgastado, apático, quase entediado. Um novo hematoma estava se formando acima da cânula.

A enfermeira retirou-se, comentando:

— Acho que o melhor é pedir um sedativo para ele.

Assim que ela saiu, Dunworthy disse:

— Badri, aqui é Dunworthy. Você queria me dizer alguma coisa. Olhe para mim, Badri. O que foi? O que deu errado?

Badri olhou para ele, mas sem expressão.

— Houve um desvio muito grande, Badri? Kivrin está na Peste Negra?

— Não tenho tempo — respondeu Badri. — Eu estive fora no sábado e no domingo. — Ele fez de novo o movimento de digitar, os dedos movimentando-se incessantemente sobre o lençol. — Isso não pode estar certo.

A enfermeira entrou trazendo o remédio.

— Oh, que bom — disse ele, e sua expressão relaxou e descontraiu, como se um enorme peso tivesse sido tirado de seus ombros. — Não sei o que aconteceu. Tive uma dor de cabeça tão grande.

Ele fechou os olhos antes mesmo que a enfermeira terminasse de plugar o frasco na cânula, e começou a roncar bem de leve.

Ela conduziu Dunworthy para fora.

— Se ele acordar e chamar pelo senhor de novo, como posso avisá-lo? — perguntou.

Passou a ela seu telefone.

— O que foi exatamente que ele falou? — indagou, enquanto despia as roupas de proteção. — Quando eu não estava aqui?

— Ele ficou repetindo o seu nome e dizendo que precisava encontrar o senhor para dizer alguma coisa muito importante.

— Falou algo a respeito de ratos? — quis saber.

— Não. Por um momento ele disse que precisava encontrar Karen, ou Katherine…

— Kivrin.

Ele anuiu.

— Isso. Ele disse: Tenho que encontrar Kivrin. O laboratório está aberto? E então falou alguma coisa a respeito de um cordeiro, mas nada sobre ratos, até onde eu lembre. Na maior parte do tempo não entendo o que ele diz.

Ele jogou as luvas dentro do saco.

— Quero que anote tudo que ele disser. Com exceção das partes que não entender — acrescentou ele, antes que ela pudesse fazer uma objeção. — Mas anote o resto. Voltarei aqui hoje à tarde.

— Vou tentar — disse ela. — Mas a maior parte é sem sentido.

Ele desceu as escadas. A maior parte era sem sentido, devaneios febris que não diziam nada. Dunworthy saiu e ficou à procura de um táxi. Queria chegar ao Balliol o mais depressa possível, falar com Andrews, pedir para que lesse o fix.

“Isso não pode estar certo”, dissera Badri, e tinha que ser alguma coisa referente ao desvio. Será que ele fizera uma leitura equivocada dos números, pensando que tinham sido apenas quatro horas, e depois descoberto... o quê? Que eram quatro anos? Ou vinte e oito?

— Vai chegar mais depressa se for andando — comentou alguém. Era o rapaz com máscara. — Se está esperando um táxi, vai ficar aí para sempre. Foram todos requisitados pelo maldito governo.

O manifestante apontou para um táxi que acabava de entrar e parar à porta da Emergência. Havia uma placa do SNS afixada ao vidro lateral.

Dunworthy agradeceu ao rapaz e partiu em direção ao Balliol. Estava chovendo de novo, e ele andou depressa, com a esperança de que Andrews já tivesse telefonado e que àquela hora já estivesse a caminho. “Vá chamar o sr. Dunworthy, agora mesmo”, dissera Badri. “Tem alguma coisa errada.” Ele estava visivelmente revivendo no delírio as ações que tomou assim que estabeleceu o fix, quando correu embaixo de chuva até o pub O Cordeiro e a Cruz para ir buscá-lo. “Isso não pode estar certo”, foram as suas palavras.

Dunworthy cruzou o pátio quase correndo e subiu para seus aposentos. Sua preocupação era se a sra. Taylor teria ou não conseguido ouvir o toque do telefone em meio a um bimbalhar de campainhas. No entanto, quando abriu a porta, encontrou as sineiras em círculo, de pé, no meio da saleta, de máscara no rosto, os braços erguidos e as mãos juntas como num gesto de súplica, abaixando as mãos diante do corpo e curvando os joelhos, num silêncio solene.

— O secretário do sr. Basingame ligou — informou a sra. Taylor, erguendo-se e abaixando-se. — Disse que acha que o sr. Basingame está em algum lugar nas Terras Altas. E o sr. Andrews pediu que ligasse. Ele acabou de telefonar.

Dunworthy ligou imediatamente, sentindo um alívio imenso. Enquanto esperava que Andrews atendesse, ficou observando o curioso número e tentando entender se a ordem tinha um padrão. A sra. Taylor parecia sacudir-se numa base semirregular, mas as outras faziam curvaturas sem nenhuma regularidade perceptível. A maior delas, a sra. Piantini, estava contando baixinho, o cenho franzido de concentração.

— Consegui autorização para que você entre na área de quarentena. A que horas você vem? — perguntou Dunworthy, assim que Andrews atendeu.

— Estive pensando nisso, senhor — disse o técnico. A ligação tinha imagem, mas estava muito borrada para que Dunworthy pudesse ver a expressão no rosto do interlocutor. — Acho que não seria uma boa ideia. Estive assistindo aos vids a respeito da quarentena. Dizem que esse vírus indiano é extremamente contagioso, senhor.

— Você não vai ter que entrar em contato com nenhum dos doentes — objetou Dunworthy. — Posso dar um jeito de conduzir você direto para o laboratório do Brasenose. Vai estar perfeitamente seguro. Isso é da maior importância.

— Sim, senhor, mas é que os vids dizem que isto pode ter sido causado pelo sistema de aquecimento da universidade.

— O sistema de aquecimento?! — repetiu Dunworthy. — A universidade não tem sistema de aquecimento, e os sistemas específicos de cada unidade têm mais de cem anos e são incapazes de aquecer, quanto mais de contaminar alguém. — As sineiras voltaram-se todas ao mesmo tempo para olhar para ele, mas sem sair do ritmo. — Isso não tem nada a ver com o aquecimento. Nem com a Índia, nem com a ira divina. Começou na Carolina do Sul. A vacina já está a caminho. É totalmente seguro.

Andrews parecia obstinado.

— Mesmo assim, senhor, continuo achando que ir para aí não seria uma boa ideia.

As sineiras pararam abruptamente.

— Desculpem — disse a sra. Piantini, e elas recomeçaram.

— Nós precisamos verificar esse fix. Estamos com uma historiadora em 1320, e não sabemos de quanto foi o desvio. Posso providenciar um adicional de insalubridade para você — disse Dunworthy, e então percebeu que aquela não era a melhor abordagem. — Posso dar um jeito de você ficar isolado, conseguir vestes anticontágio ou…

— Posso ler o fix daqui — interrompeu Andrews. — Tenho uma amiga que é capaz de fazer a conexão de acesso. Ela estuda em Shrewsbury. — Ele fez uma pausa. — É o máximo que posso fazer. Sinto muito.

— Desculpem — disse a sra. Piantini outra vez.

— Não, não, seu sino vem em segundo — comentou a sra. Taylor. — Você toca dois-três e sobe e desce, e três-quatro para baixo, e depois um puxão completo. E mantenha os olhos nas colegas, não no chão. Um, dois e vai!

Elas recomeçaram o minueto.

— Eu simplesmente não posso correr esse risco — argumentou Andrews.

Estava bem claro que ele não seria persuadido.

— Como se chama sua amiga de Shrewsbury? — quis saber Dunworthy.

— Polly Wilson — respondeu Andrew, demonstrando alívio. Ele passou a Dunworthy o número do telefone. — Diga a ela que precisa de uma leitura remota, solicitação IA, e ponte de transmissão. Eu estarei neste número aqui.

Ele esboçou o gesto de desligar.

— Espere! — exclamou Dunworthy, atraindo um olhar de reprovação das sineiras. — Qual seria o desvio máximo num salto para 1320?

— Não faço ideia — disse Andrews prontamente. — Desvio é uma coisa difícil de arriscar. Muitos fatores envolvidos.

— Uma estimativa — pediu Dunworthy. — Poderia chegar a vinte e oito anos?

— Vinte e oito anos? — repetiu Andrews, e o seu tom de voz atônito foi como uma rajada de alívio para Dunworthy. — Oh, acredito que não. A tendência geral é haver desvios maiores à medida que se salta para um passado mais distante, mas esse aumento não é exponencial. A checagem dos parâmetros pode dizer isso para o senhor.

— Medieval não fez a checagem.

— Eles mandaram uma historiadora ao passado sem checar os parâmetros? — questionou Andrews, que parecia chocado de verdade.

— Sem checar os parâmetros, sem testes não tripulados, sem testes de reconhecimento — acrescentou Dunworthy. — Por isso é essencial fazer a verificação desse fix. Quero que você faça algo para mim.

Andrews se retesou.

— Não precisa vir aqui para isso — acrescentou Dunworthy rapidamente. — O Jesus College tem um sistema de rede em Londres. Quero que você vá até lá e faça a checagem de parâmetros para um salto ao meio-dia de 13 de dezembro de 1320.

— Quais são as coordenadas locais?

— Não sei. Vou obter quando for ao Brasenose. Quero que você me telefone neste número assim que tiver determinado qual seria o desvio máximo. Pode fazer isso?

— Posso — respondeu ele, mas apresentava de novo um semblante dubitativo.

— Ótimo. Vou ligar para Polly Wilson. Leitura remota, solicitação IA e ponte de transmissão. Aviso você assim que ela estiver com tudo pronto no Brasenose — disse Dunworthy, e desligou antes que Andrews mudasse de ideia.

Ficou segurando o aparelho e observando as sineiras. A ordem mudava a cada vez, mas a sra. Piantini, aparentemente, não voltou a errar a contagem.

Ligou para Polly Wilson e repassou as especificações dadas por Andrews, imaginando se ela também teria assistido aos vids e se também estaria com receio dos aquecedores do Brasenose, mas ela respondeu sem hesitação:

— Vou ter que encontrar um portal. Vejo o senhor lá, em quarenta e cinco minutos.

Ele deixou as sineiras ainda se movendo e seguiu para o Brasenose. A chuva voltara a diminuir, e havia mais gente na rua, embora muitas lojas continuassem fechadas. Seja lá quem estivesse cuidando do carrilhão da Carfax Tower tinha adoecido também ou esquecido tudo devido à quarentena. O carrilhão prosseguia tocando “Bring a Torch, Jeanette, Isabella” ou possivelmente “O Tannenbaum”.

Havia três manifestantes diante da loja de comida indiana e mais uma meia dúzia à frente do Brasenose, segurando a várias mãos uma enorme faixa que dizia: VIAGENS NO TEMPO SãO PREJUDICIAIS à SAÚDE . Ele reconheceu uma moça, a que estava na ponta: era a jovem paramédica da ambulância.

Sistema de aquecimento e Comunidade Europeia e viagens no tempo. Durante a Pandemia, fora o programa de guerra bacteriológica dos Estados Unidos e o ar-condicionado. Na Idade Média, puseram a culpa das epidemias em Satã e no aparecimento de cometas. Sem dúvida, quando fosse revelado que o vírus tinha origem na Carolina do Sul, diriam que a culpa era dos Confederados ou então do frango frito do KFC.

Ele cruzou o portão e foi à recepção. A árvore de Natal estava numa extremidade do balcão, um anjo debruçado sobre ela.

— Uma aluna de Shrewsbury vem se encontrar comigo aqui para montar um equipamento de comunicação — disse ele ao porteiro. — Precisamos do laboratório.

— O laboratório está com restrições, senhor — avisou o porteiro.

— Restrições?

— Sim, senhor. Está trancado, e tenho ordem de não deixar ninguém entrar.

— Por quê? O que aconteceu?

— É por causa da epidemia, senhor.

— A epidemia?

— Isso. Talvez seja o caso de falar com o sr. Gilchrist, senhor.

— Talvez seja. Diga a ele que estou aqui e que preciso ter acesso ao laboratório.

— Receio que ele não esteja no momento.

— E onde está?

— No hospital, creio eu. Ele…

Dunworthy não esperou para ouvir o resto. Na metade do caminho para o hospital, ocorreu-lhe que talvez Polly Wilson ficasse à sua espera sem ter a menor ideia de onde ele tinha ido e, ao avistar o hospital, pensou que Gilchrist poderia estar ali porque adoecera também.

Bem feito, pensou, ele merece. No entanto, Gilchrist estava na saleta de espera, de máscara facial, em perfeita saúde, arregaçando a manga diante da enfermeira, que esperava de injeção em punho.

— Seu porteiro disse que o laboratório está sob restrição — disse Dunworthy, interpondo-se entre os dois. — Preciso entrar lá. Encontrei uma técnica que pode fazer uma leitura remota do fix. Precisamos instalar um equipamento de transmissão.

— Receio que não seja possível — respondeu Gilchrist. — O laboratório está sob quarentena até que a origem do vírus seja estabelecida.

— A origem do vírus?! — comentou ele, com incredulidade. — O vírus teve origem na Carolina do Sul.

— Só teremos certeza quando houver uma identificação positiva. Enquanto isso, achei que o melhor a fazer era minimizar os riscos para a universidade, restringindo o acesso ao laboratório. Agora, se me permite, estou aqui para receber o meu reforço de sistema imunológico — disse, tentando contornar Dunworthy e se aproximar da enfermeira.

Dunworthy o deteve pelo braço.

— Quais riscos?

— Tem havido um considerável clamor público de que o vírus possa ter sido transmitido através da rede.

— Clamor público? Você se refere àquela meia dúzia de patetas com uma faixa diante do seu portão?

— Estamos em um hospital, sr. Dunworthy. Abaixe a voz, por favor — pediu a enfermeira.

Ele a ignorou.

— Tem havido um “considerável clamor público”, como diz você, de que o vírus possa ter sido causado por leis de imigração muito liberais. Tem intenção de se separar da Comunidade Europeia também?

O queixo de Gilchrist se ergueu, e as rugas se acentuaram nas laterais do seu nariz, visíveis até por baixo da máscara.

— Como diretor em exercício da Faculdade de História, minha responsabilidade é agir nos melhores interesses da universidade. Nossa posição nesta comunidade, como tenho certeza de que o senhor sabe, depende da preservação da simpatia dos seus habitantes. Achei que seria importante acalmar os temores da população e fechar o laboratório até recebermos o sequenciamento do vírus. Se de fato ficar comprovado que o vírus é da Carolina do Sul, então o laboratório será reaberto imediatamente, é claro.

— E, enquanto isso, o que fazemos em relação a Kivrin?

— Se não abaixar a voz, vou ser obrigada a relatar o fato à dra. Ahrens — ameaçou a enfermeira.

— Excelente — respondeu Dunworthy. — Vá buscá-la. Preciso que ela explique ao sr. Gilchrist como ele está sendo ridículo. Esse vírus não pode ter passado através da rede.

A enfermeira saiu pisando firme.

— Se os seus manifestantes são tão despreparados a ponto de não entender as leis da física — prosseguiu Dunworthy —, eles provavelmente não vão compreender o que é um salto. A rede foi aberta apenas para dar acesso a 1320, não para trazer algo de lá. Nada pode chegar até nós vindo do passado.

— Se for assim, então a srta. Engle não corre perigo, e não faremos mal a ninguém se esperarmos até o resultado do sequenciamento.

— Como não corre perigo? O senhor não sabe nem onde ela está.

— Seu técnico obteve o fix, relatou que o salto foi bem-sucedido e que havia apenas um mínimo de desvio — disse Gilchrist, que desarregaçou a manga da camisa e abotoou o punho. — Para mim, basta saber que a srta. Engle está onde deveria estar.

— Muito bem, para mim não. Nem bastará enquanto eu não tiver certeza de que Kivrin chegou sã e salva.

— Talvez eu deva recordar mais uma vez que a srta. Engle está sob a minha responsabilidade, não a sua, sr. Dunworthy. — Ele enfiou o casaco. — Tenho que fazer o que eu achar melhor.

— E acha melhor interditar provisoriamente o laboratório por causa de meia dúzia de malucos — disse ele, com amargura. — Também existe um “considerável clamor público” de que o vírus seja um castigo de Deus. O que pretende fazer para preservar a simpatia dos moradores daqui? Levar mártires para a fogueira?

— Não gosto desses seus comentários nem de sua interferência constante em assuntos que não são da sua conta. O senhor parece decidido, desde o começo, a sabotar Medieval e dificultar seu acesso às viagens temporais. E, como se não bastasse, agora parece decidido a desrespeitar minha autoridade. Talvez eu deva recordar que sou o diretor em exercício da faculdade de história na ausência do sr. Basingame, e nesta qualidade…

— O senhor não passa de um tolo, de um ignorante metido a besta que nunca deveria ter ocupado um cargo em Medieval nem se encarregado da segurança de Kivrin.

— Não vejo propósito em prosseguir nesta discussão — falou Gilchrist. — O laboratório está interditado e ficará assim até a divulgação do resultado do sequenciamento.

E ao fim dessas palavras ele se retirou.

Dunworthy partiu atrás dele e quase colidiu com Mary. Ela estava usando o traje de proteção e lendo uma planilha.

— Não vai acreditar no que Gilchrist fez desta vez — começou. — Depois de ser convencido por um grupo de manifestantes de que o vírus veio através da rede, ele interditou o laboratório.

Ela não disse nada, nem sequer ergueu os olhos da planilha.

— Badri disse hoje cedo que os números do desvio não podem estar certos — prosseguiu Dunworthy. — Ficou repetindo “tem alguma coisa errada”.

Ela lançou para ele um olhar distraído e voltou a examinar a planilha.

— Estou com uma técnica pronta para ler o fix de Kivrin por via remota, mas Gilchrist trancou as portas — continuou. — Você precisa falar com ele e dizer que já se sabe com certeza que o vírus teve origem na Carolina do Sul.

— Não teve.

— Como assim, não teve? O sequenciamento chegou?

Ela abanou a cabeça.

— O CMI localizou a técnica deles, mas ela ainda está trabalhando no sequenciamento. As leituras preliminares indicam que não é o vírus da Carolina do Sul. — Ele ergueu os olhos para ele. — E eu sei que não é. — Olhou para a planilha. — O vírus da Carolina do Sul tem taxa zero de mortalidade.

— O que quer dizer? Alguma coisa aconteceu com Badri?

— Não — respondeu ela, dobrando e segurando a planilha contra o peito. — Beverly Breen.

Dunworthy deve ter ficado branco. Pensava que ela ia dizer “Latimer”.

— A mulher com a sombrinha cor de lavanda — acrescentou Mary, que parecia zangada. — Ela acaba de falecer.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

 

(046381-054957)

22 de dezembro de 1320 (Calendário Antigo). O joelho de Agnes piorou: está vermelho e doendo (um eufemismo, já que ela grita quando eu tento tocar nele), e ela mal consegue andar. Não sei o que fazer: se eu contar a Lady Imeyne, ela vai pôr mais uma das suas cataplasmas e vai piorar tudo, e Eliwys vive distraída e visivelmente preocupada.

Gawyn ainda não voltou. Deveria ter chegado ao meio-dia de ontem e, quando não apareceu nem na hora das vésperas, Eliwys acusou Imeyne de tê-lo mandado para Oxford.

— Mandei ele para Courcy, já disse — falou Imeyne, num tom de defensiva. — Sem dúvida ficou retido com a chuva.

— Só para Courcy? — insistiu Eliwys, zangada. — Não terá mandado ele a outro lugar, para trazer um novo capelão?

Imeyne se levantou.

— O padre Roche não é a pessoa adequada para rezar a Missa de Natal, caso Sir Bloet chegue com sua comitiva — rebateu ela. — Quer passar vergonha diante do noivo de Rosemund?

Eliwys estava completamente lívida.

— Para onde mandou ele?

— Mandei Gawyn levar uma mensagem ao bispo, dizendo que você precisa de um capelão.

— Mandou Gawyn para Bath? — perguntou Eliwys, erguendo a mão como se fosse bater em Imeyne.

— Não. Apenas a Cirencestre. O arquidiácono deve ficar na abadia durante as festas de Yule. Pedi a Gawyn que lhe entregasse a mensagem. Um dos acólitos levará o recado até Bath. Embora eu tenha certeza de que as coisas não podem estar tão ruins em Bath a ponto de Gawyn não poder ir até lá, senão meu filho já teria se retirado.

— Seu filho não vai ficar satisfeito quando souber que você desobedeceu uma ordem. Ele disse que deveríamos ficar aqui até que chegasse, e isso incluía Gawyn.

Ela ainda parecia furiosa, e quando abaixou a mão foi com o punho cerrado, como se tivesse vontade de esbofetear os ouvidos de Imeyne como fazia com os de Maisry. Mas a cor tinha voltado ao seu rosto no momento em que Imeyne mencionara “Cirencestre”, e acho que ela ficou pelo menos um pouco aliviada.

“As coisas não podem estar tão ruins em Bath a ponto de Gawyn não poder ir até lá”, disse Imeyne. Só que é óbvio que Eliwys não pensa assim. Será que ela tem medo de que Gawyn caia numa armadilha ou que possa atrair os inimigos de Lord Guillaume para cá? E será que as coisas estão tão “ruins” que Guillaume não pode sair de Bath?

Talvez as três coisas juntas. Eliwys foi até a porta olhar para a chuva lá fora uma dúzia de vezes durante a manhã de hoje, e está tão irritada quanto Rosemund estava lá no bosque. Ainda há pouco ela perguntou se Imeyne tinha certeza de que o arquidiácono estava em Cirencestre. Está visivelmente receosa de que, se o religioso não estiver lá, Gawyn tenha que ir pessoalmente a Bath levar a mensagem.

O medo de Eliwys contaminou todo mundo. Lady Imeyne se recolheu num canto com seu relicário, para rezar. Agnes choraminga, e Rosemund está sentada com o bordado no colo, olhando para ele sem ver.

(Pausa)

Levei Agnes para ver o padre Roche hoje à tarde. O joelho da menina estava muito pior. Ela não conseguia andar, e aparentemente havia o começo de uma mancha vermelha um pouco acima. Não pude ter certeza, porque todo o joelho estava vermelho e inchado, mas tive medo de esperar demais.

Não havia cura para infecções sanguíneas em 1320, e ela machucou o joelho por culpa minha. Se eu não tivesse insistido em procurar o local do salto, ela não teria caído. Sei que teoricamente os paradoxos não permitem que minha presença aqui tenha qualquer efeito sobre a vida dos contemps, mas não quero arriscar. Teoricamente, também, eu não devia ter adoecido.

Por isso, quando Imeyne subiu ao sótão, levei Agnes para a igreja para que o padre desse uma olhada. Estava chovendo de novo quando chegamos lá, mas Agnes não se queixava por estar molhada, o que me amedrontou mais do que a mancha vermelha.

A igreja estava escura e com cheiro de mofo. Ouvi a voz do padre Roche na parte dianteira, soando como se ele estivesse se dirigindo a alguém.

— Lord Guillaume ainda não chegou de Bath — dizia. — Temo pela segurança dele.

Pensei que talvez Gawyn tivesse voltado e, como eu queria saber o que diziam sobre o julgamento, não avancei mais. Fiquei parada com Agnes no colo, escutando.

— Está chovendo há dois dias — disse Roche — e tem soprado um vento cortante do oeste. Tivemos que recolher o rebanho de ovelhas que estava no campo.

Depois de um minuto espreitando no interior escuro da nave, forçando os olhos, finalmente o avistei. Estava de joelhos diante do biombo que protege a cruz, as mãos enormes com os dedos cruzados em oração.

— O bebê do caseiro está com cólicas no estômago e não consegue segurar o leite que toma. O aldeão Tabord está muito doente.

Ele não estava rezando em latim, e sua voz não trazia nada daquela cantilena da Sagrada Igreja Re-Formada ou da oratória do vigário. O padre soava coloquial e prático, como eu devo estar soando agora, enquanto me dirijo ao senhor.

Deus devia parecer algo muito real aos contemps dos anos 1300, mais vívido do que o mundo material que habitavam.

“Você vai voltar de novo para casa”, dissera o padre Roche quando eu estava doente, e devia ser assim que os contemps pensavam: que a vida do corpo é ilusória e sem importância, e que a vida de verdade é a da alma imortal, como se eles estivessem no mundo apenas de passagem, como eu estou de passagem pelo século deles, mas não tenho visto muitas demonstrações dessa concepção. Eliwys murmura obedientemente seus “aves” durante as vésperas e as matinas, e depois se levanta e limpa a poeira da saia como se suas preces não tivessem nada a ver com seus problemas com as meninas, o marido ou Gawyn. E Imeyne, apesar do seu relicário e do seu Livro das Horas, preocupa-se apenas com sua posição social. Eu não tinha experimentado nenhuma prova de que Deus era real para eles antes de estar ali na igreja úmida, ouvindo o padre Roche.

Fico pensando se ele consegue visualizar Deus e o Paraíso com tanta clareza quanto eu visualizo o senhor e Oxford, a chuva caindo no pátio, e os seus óculos embaçados a ponto de precisar tirá-los e secá-los com o cachecol. Penso se aquilo tudo parece ao padre tão próximo, e igualmente difícil de alcançar, quanto o senhor parece a mim.

— Livrai nossas almas do mal e conduzi-nos em paz ao Paraíso — pediu o padre.

Como se obedecendo a uma deixa, Agnes ergueu-se no meu colo e disse:

— Eu quero o padre Roche.

O padre se levantou e veio em nossa direção.

— O que é isso? Quem está aí?

— Sou eu, Lady Katherine — respondi. — Eu trouxe Agnes comigo. O joelho dela está… — O quê? Infeccionado? — Gostaria que o senhor desse uma olhada.

Ele tentou olhar mas, como estava muito escuro ali na igreja, nos levou para sua casa. Lá estava apenas um pouco menos sombrio. A casa não era muito maior do que a cabana onde eu tinha me abrigado, nem mais alta. O padre se manteve meio curvado todo o tempo que estivemos lá, para não bater com a cabeça nos caibros.

Ele abriu a persiana da única janela que havia, o que fez a chuva entrar, e depois acendeu uma vela de sebo e deitou Agnes em cima de uma mesa rústica de madeira. Desenrolou a bandagem, e a menina tentou se afastar.

— Se ficar quieta, Agnus, eu conto como foi que Cristo veio do céu aqui para a Terra — prometeu ele.

— No dia de Natal — disse Agnes.

Roche apalpou em volta do ferimento, tocando as partes inchadas com a ponta do dedo, enquanto falava:

— E os pastores ficaram receosos, porque não sabiam que luz resplandecente era aquela. Nem que sons eram aqueles que ouviam, como sinos que tocavam no céu. Mas mesmo assim entenderam que era o anjo de Deus que havia descido entre os homens.

Agnes tinha gritado e empurrado minhas mãos quando tentei examinar seu joelho, mas ela deixou que Roche apalpasse a área machucada com aqueles dedos enormes. Havia de fato o começo de uma mancha vermelha. Roche tocou nela de leve e aproximou a vela de sebo.

— E de terras muito distantes — continuou ele, olhando o ferimento bem de perto — vieram três reis trazendo presentes.

Tocou com cuidado na mancha vermelha e depois cruzou os dedos das mãos, como se fosse começar a rezar, e eu pensei: não reze, faça alguma coisa.

Ele abaixou as mãos e olhou para mim.

— Receio que a ferida esteja envenenada — comentou. — Farei uma infusão de hissopo para puxar o veneno.

Ele andou até uma espécie rústica de lareira, remexeu em algumas brasas mornas, e derramou numa panela de ferro um pouco da água que havia num balde.

O balde era sujo, a panela era suja, as mãos com que apalpou a ferida de Agnes estavam sujas, e eu ali, parada, olhando o padre botar aquela panela imunda no fogo e remexer num saco imundo, lamentava ter vindo. Ele não era mais preparado que Imeyne. Uma infusão de folhas e sementes curaria uma infecção sanguínea tanto quanto uma das cataplasmas de Imeyne, e as rezas também não ajudariam em nada, mesmo que ele falasse com Deus como se Ele realmente estivesse ali.

Quase perguntei: “Isso é tudo que pode fazer?”, mas percebi que estaria pedindo o impossível. A cura de uma infecção se dava através de penicilina, reforço de células-T, antissépticos, e ele não tinha nada daquilo dentro do seu saco de estopa.

Lembro-me do sr. Gilchrist falando sobre médicos medievais numa de suas aulas. Ele comentou o quanto eram tolos ao aplicarem sangrias nas pessoas e tratá-las com arsênico e urina de cabra durante a Peste Negra. Mas o que ele esperava que fizessem? Eles não tinham análogos nem antimicrobiais. Não sabiam sequer o que causava a doença. O padre Roche, ali diante de mim, esfarelando pétalas e folhas secas entre os dedos sujos, estava fazendo o melhor que podia.

— Tem vinho? — perguntei. — Vinho velho?

A cerveja deles tem pouquíssimo álcool, e o vinho não muito, mas quanto mais antiga for a bebida maior o teor alcoólico, e álcool é antisséptico.

— Lembrei que, se for derramado vinho velho numa ferida, isso às vezes controla uma infecção — falei.

Ele não perguntou o que queria dizer “infecção” ou como eu era capaz de me lembrar daquilo se não conseguia me lembrar de nada. Correu imediatamente até a igreja e trouxe uma garrafa de barro cheia de um vinho de cheiro muito forte, e eu embebi a bandagem e lavei a ferida de Agnes.

Trouxe a garrafa comigo para a casa grande e escondi embaixo da cama no pavilhão de Rosemund (porque era vinho de missa e tudo de que Imeyne precisaria para fazer Roche ser queimado como herege). Desse modo, posso continuar fazendo a limpeza do joelho de Agnes. Antes de ela ir para a cama, derramei um pouco do vinho direto na ferida.