O Livro do Juízo Final
Capítulo 29
Chamou pedindo ajuda, mas ninguém apareceu, e pensou que todo mundo tinha morrido e só restava ele, como o monge John Clyn, no mosteiro de Friars Minor. “Eu, esperando pela morte…”
Tentou apertar o botão para chamar a enfermeira, mas não conseguiu encontrá-lo. Havia uma sineta de mão na mesa de cabeceira e tentou alcançá-la, mas seus dedos estavam sem força e ele acabou caindo no chão. A queda provocou um som horrível, interminável, como um Great Tom de pesadelo, mas ninguém apareceu.
Quando voltou a acordar, contudo, a sineta estava de novo sobre a mesa de cabeceira, então alguém devia ter vindo enquanto ele dormia. Fitou a sineta com olhos desfocados e imaginou quanto tempo teria dormido. Muito.
Não havia como saber que horas eram naquele quarto. Estava cheio de luz, mas uma luz muito forte, que não projetava sombras. Podia ser de tarde, podia ser o começo da manhã. Não havia relógio na mesa de cabeceira ou na parede, e ele não tinha forças suficientes para erguer o corpo e olhar na parede por trás de sua cabeça. Havia uma janela, embora ele também não conseguisse levantar o corpo e olhar para fora. Ainda assim, dava para perceber que estava chovendo. Estava chovendo desde quando fora para o Brasenose, e bem que podia ser a mesma tarde. Talvez ele tivesse apenas desmaiado e sido trazido para aquele quarto para observação.
— “Então eu farei o mesmo contra vós” — disse alguém.
Dunworthy abriu os olhos e tateou buscando os óculos, que não estavam ali.
— “Porei sobre vós o terror, o definhamento e a febre, que consomem os olhos e esgotam a vida.”
Era a sra. Gaddson. Estava sentada perto da cama, lendo a Bíblia. Não usava máscara nem jaleco, embora a Bíblia parecesse estar envolvida em plastene. Dunworthy apertou os olhos para focalizá-la.
— “E quando vos refugiardes nas vossas cidades, enviarei a peste no meio de vós.”
— Que dia é hoje? — perguntou Dunworthy.
Ela fez uma pausa, lançou para ele um olhar curioso e depois prosseguiu, placidamente:
— “E sereis entregues em poder do inimigo.”
Ele não podia estar ali há muito tempo. Vira a sra. Gaddson lendo para os pacientes quando foi visitar Badri no quarto. Talvez fosse a mesma tarde, e Mary ainda não tivesse aparecido para colocar a mulher para fora.
— Consegue engolir? — perguntou a enfermeira. Era a freira idosa do Setor de Suprimentos. — Preciso dar um temp para o senhor. Acha que consegue engolir?
Ele abriu a boca e ela pôs o temp na sua língua. Ela puxou a cabeça dele um pouco mais para a frente, para que pudesse beber, e Dunworthy a ouviu estalando sob o avental ao se mover.
— Desceu? — indagou ela, reclinando Dunworthy para trás só um pouco.
O temp estava alojado a meio caminho em plena garganta, mas ele assentiu. O movimento fez a cabeça doer.
— Ótimo. Então já posso remover isso — disse ela, despregando alguma coisa do braço dele.
— Que horas são? — perguntou Dunworthy, tentando não tossir o temp para fora.
— É hora de descansar — respondeu ela, espiando míope os mostradores por cima da cabeça dele.
— Que dia é hoje? — quis saber ele, mas ela já saía coxeando do quarto. — Que dia é hoje? — repetiu, virando-se para a sra. Gaddson, mas ela também já sumira.
Ele não podia estar ali há muito tempo. Ainda tinha febre, e dor de cabeça, que eram os primeiros sintomas de influenza. Talvez tivesse adoecido apenas por algumas horas. Talvez ainda fosse a mesma tarde e ele tivesse despertado bem na hora de ser trazido para aquele quarto, antes mesmo de terem conectado um botão de chamada ou de terem lhe dado um temp.
— Está na hora de tomar seu temp — avisou a enfermeira.
Era uma enfermeira diferente, a lourinha bonita que fizera tantas perguntas sobre William Gaddson.
— Acabei de tomar um.
— Isso foi ontem — comentou ela. — Venha, vamos engolir.
A estudante que estava fazendo as vezes de enfermeira no quarto de Badri dissera a Dunworthy que ela tinha contraído o vírus.
— Pensei que você estava com o vírus — observou ele.
— Estava, mas já fiquei boa, e o senhor também vai ficar.
Ela pôs a mão por trás da cabeça dele e o soergueu um pouco, para lhe dar um pouco de água.
— Que dia é hoje? — perguntou ele.
— Dia 11 — respondeu. — Não é que precisei fazer um esforço para lembrar? No final, as coisas ficaram muito confusas. Quase todos os funcionários adoeceram, e tivemos que trabalhar em turnos dobrados. Eu meio que perdi a noção dos dias — disse ela, e digitou alguma coisa no console e ergueu os olhos para os monitores, franzindo a testa.
Ele já sabia antes mesmo de ouvir a resposta, antes de ter tentado usar a sineta para pedir ajuda. A febre tinha diluído numa só tarde chuvosa todas as noites de delírio e todas as manhãs narcotizadas que ele não lembrava mais, só que o corpo mantivera a contagem normal do tempo, marcando cada hora, cada dia, de modo que ele sabia, antes mesmo da resposta. Ele tinha perdido o dia do reencontro.
Não houve reencontro, pensou, com amargura. Gilchrist fechou a rede. Não faria diferença se Dunworthy tivesse ido lá ou não, se estava ou não doente. A rede estava fechada e ele não poderia ter feito nada.
Dia 11 de janeiro. Quanto tempo Kivrin teria ficado esperando no local do salto? Um dia? Dois? Três até começar a achar que tinha se confundido de dia ou de local? Teria passado uma noite inteira à espera, perto da estrada Oxford-Bath, enrolada na sua inútil capa branca, com medo de acender uma fogueira e acabar atraindo lobos, ladrões ou camponeses fugindo da peste? E quando teria reconhecido, enfim, que ninguém viria buscá-la?
— Tem alguma coisa que eu possa trazer para o senhor? — indagou a enfermeira, enfiando uma seringa na cânula.
— Isso é algo para me fazer dormir?
— É.
— Ótimo — respondeu ele, e fechou os olhos cheio de gratidão.
Dormiu alguns minutos, ou um dia, ou um mês. A luz, a chuva, a falta de sombras, tudo era igual quando ele acordava. Colin estava sentado na cadeira perto da cama, lendo o livro que ganhara de Dunworthy no Natal e mascando alguma coisa. Não foi tanto tempo assim, pensou Dunworthy, entreabrindo os olhos. A goma de mascar ainda está no meio de nós.
— Oh, que bom! — exclamou Colin, fechando o livro com uma pancada seca. — Aquela freira horrorosa disse que só me deixaria ficar se eu prometesse não acordar o senhor, e eu não acordei mesmo, não é? O senhor vai dizer a ela que acordou sozinho, certo?
Ele tirou da boca a goma, que examinou e guardou no bolso.
— O senhor já esteve com ela? Aquela freira parece estar viva desde a Idade Média. É quase tão necrótica quanto a sra. Gaddson.
Dunworthy apertou os olhos para vê-lo melhor. O casaco em cujo bolso o garoto guardara a goma de mascar era novo, verde, e o cachecol cinzento em volta do pescoço ficava ainda mais sombrio em contraste com a cor. Colin parecia mais velho, como se tivesse crescido enquanto Dunworthy dormia.
Colin franziu a testa.
— Sou eu, Colin. Não está me reconhecendo?
— Sim, claro que estou. Por que não está usando sua máscara?
Colin sorriu.
— Não precisa mais. Além disso, o senhor já não está contagioso. Quer os seus óculos?
Dunworthy assentiu, com cautela, para que a dor de cabeça não voltasse.
— Nas outras vezes em que acordou, o senhor não me reconheceu — disse Colin, abrindo a gaveta da mesa de cabeceira, remexendo lá dentro e entregando os óculos a Dunworthy. — O senhor estava muito mal. Achei até que fosse bater as botas. Ficava me chamando de Kivrin o tempo todo.
— Que dia é hoje? — indagou Dunworthy.
— Dia 12 — respondeu Colin, impaciente. — O senhor já me perguntou isso hoje de manhã. Não está lembrado?
Dunworthy pôs os óculos no rosto.
— Não.
— Não lembra nada do que aconteceu?
Lembro que fracassei com Kivrin, pensou ele. Lembro que deixei ela ficar em 1348.
Colin arrastou a cadeira mais para perto e pôs o livro em cima da cama.
— A freira me disse que o senhor não lembraria, por causa da febre — falou Colin, mas num tom meio zangado com Dunworthy, como se fosse culpa dele. — Ela não me deixava entrar para ver o senhor e não me dizia nada. Acho isso injustiça pura. Eles mandam você ficar sentado numa sala de espera, obrigam você a ir para casa, dizem que não há nada que você possa fazer e, quando você pergunta alguma coisa, se limitam a responder: “A doutora vai aparecer daqui a pouco”. Eles não contam nada para você. Tratam você como uma criança. Quer dizer, a gente sempre acaba descobrindo, não é mesmo? Sabe o que a freira me disse hoje de manhã, ao me colocar para fora daqui?! “O sr. Dunworthy esteve muito doente. Não quero que você aborreça ele.” Como se minha intenção fosse essa.
Parecia cheio de indignação, mas ao mesmo tempo abatido, preocupado. Dunworthy pensou no garoto vagando pelos corredores e sentado na sala de espera, aguardando novidades. Não admira que parecesse mais velho.
— E agorinha mesmo a sra. Gaddson veio avisar que eu só devia contar ao senhor boas notícias, porque as más podiam fazer o senhor adoecer de novo e morrer, e nesse caso a culpa seria minha.
— Ela está mantendo o moral elevado, como se pode ver — disse Dunworthy, e sorriu para Colin. — Suponho que não exista nenhuma chance de a sra. Gaddson pegar o vírus, não é?
Colin pareceu atônito.
— A epidemia acabou — respondeu. — A quarentena vai ser suspensa na semana que vem.
O análogo acabou chegando, então, depois de toda a insistência de Mary. Ele pensou se teria chegado a tempo de ajudar Badri, e logo cogitou que talvez fosse essa a má notícia de que a sra. Gaddson queria poupá-lo. Já me deram a má notícia, ponderou. Perdemos o fix e Kivrin está em 1348.
— Me dê alguma boa notícia — pediu ele.
— Bem, já faz dois dias que ninguém adoece — disse Colin. — E, como os suprimentos finalmente chegaram, estamos comendo comida decente.
— E você ganhou roupas novas, pelo que estou vendo.
Colin abaixou os olhos para o casaco verde.
— Este é um dos presentes de Natal da minha mãe. Ela me mandou depois que… — interrompeu o que estava dizendo e franziu a testa. — Ela me mandou alguns vids e um kit manifestante, com máscara.
Dunworthy imaginou se ela havia esperado até a epidemia ter chegado mesmo ao fim antes de enviar os presentes do filho, e o que Mary teria a dizer sobre isso.
— Veja só — disse Colin, ficando de pé. — O casaco fecha automaticamente. É só tocar no botão, assim. O senhor não vai precisar mais pedir para eu me vestir direito.
A freira entrou, com um roçagar de saias.
— Ele acordou o senhor? — perguntou ela.
— Eu não disse?! — falou Colin, baixinho. — Não, irmã, não acordei. Olhe, eu estava tão quieto que o sr. Dunworthy não podia nem sequer me ouvir virando as páginas.
— Ele não me acordou e não está me incomodando — corroborou logo Dunworthy, antes que ela passasse à pergunta seguinte. — E está me dando apenas boas notícias.
— Você não deveria estar contando nada. O sr. Dunworthy precisa descansar — disse ela, erguendo e pendurando uma bolsa plástica de soro bem claro no suporte. — O sr. Dunworthy ainda está doente e não pode ser incomodado por visitas — acrescentou ela, conduzindo Colin para fora do quarto.
— Se está tão preocupada com as visitas, por que não proíbe a sra. Gaddson de entrar e ler a Bíblia para ele? — protestou Colin. — Ela, sim, deixa qualquer um doente. — Ele parou à porta, fazendo cara feia para a freira. — Vou voltar amanhã, sr. Dunworthy. Está precisando de alguma coisa?
— Como está Badri? — perguntou ele, preparando-se para a resposta.
— Está melhor — disse Colin. — Ficou quase cem por cento, mas teve uma recaída. Mas já melhorou bastante. Ele quer ver o senhor.
— Espere! — exclamou Dunworthy, mas a freira já havia fechado a porta.
“Não foi culpa de Badri”, dissera Mary, e claro que ela estava certa. Desorientação era um dos primeiros sintomas de influenza. Pensou no próprio caso e em como fora incapaz de digitar corretamente o número de Andrews, pensou na sra. Piantini cometendo um deslize após outro no ensaio com os sinos e dizendo, “Desculpem, desculpem”.
“Desculpem”, pensou Dunworthy. Não fora culpa de Badri. A culpa era dele. Tinha ficado tão preocupado com os cálculos do estagiário que acabara contaminando Badri com seus receios. Sua preocupação levara Badri a refazer os cálculos.
Colin deixara o livro em cima da cama. Dunworthy o puxou para si. Parecia extraordinariamente pesado, tão pesado que seu braço ficou tremendo pelo esforço de manter o volume aberto. Dunworthy então apoiou a obra na grade da cama e virou as páginas, quase ilegíveis devido ao ângulo de que ele olhava, mas acabou encontrando o trecho que procurava.
A Peste Negra atingira Oxford durante o Natal, provocando o fechamento das universidades e a fuga generalizada de pessoas, que acabavam levando a epidemia para os vilarejos próximos. Os que não podiam fugir morriam aos milhares, e eram tantos que “ninguém ficou para tomar conta e não havia gente bastante para enterrar os mortos”. Os poucos que restaram se refugiaram dentro dos colégios, escondidos e procurando em quem pôr a culpa daquilo.
Dunworthy adormeceu de óculos, mas acordou quando a enfermeira os removeu. Era a enfermeira amiga de William, e ela abriu um sorriso.
— Desculpe — disse ela, guardando os óculos na gaveta. — Não queria acordar o senhor.
Dunworthy apertou os olhos para vê-la.
— Colin comentou que a epidemia acabou.
— Sim — confirmou ela, olhando os monitores por cima da cama. — Eles encontraram a origem do vírus e produziram o análogo quase ao mesmo tempo, e na hora certa. Probabilidade estava projetando uma taxa de morbidade de 85 por cento, com mortalidade de 32 por cento, mesmo com os antimicrobiais e o reforço de células-T, e isso sem considerar a carência de suprimentos e que grande parte do corpo médico também adoeceu. No fim, tivemos quase 19 por cento de mortalidade, e muitos casos ainda estão numa fase crítica.
Ela tomou o pulso de Dunworthy e olhou o monitor.
— Sua febre baixou um pouco — avisou. — O senhor teve sorte, sabia? O análogo não funcionou em quem já havia sido infectado. A dra. Ahrens disse… — Ela se interrompeu. Ele imaginou o que Mary teria dito: talvez que ele não fosse resistir. — O senhor teve sorte — repetiu ela. — Agora, tente dormir um pouco.
Ele dormiu e, quando voltou a acordar, a sra. Gaddson estava de pé junto da cama, em posição de ataque, de Bíblia em riste.
— “Voltará contra ti as pragas do Egito que te horrorizavam, e elas se apegarão a ti” — leu ela no instante em que os olhos dele se abriram. — “E ainda mais: Iahweh lançará contra ti todas as doenças e pragas que estão escritas neste livro da Lei, até que sejas exterminado.”
— “E sereis entregues em poder do inimigo” — murmurou Dunworthy.
— O quê?! — reagiu a sra. Gaddson.
— Nada.
Ela se perdeu um pouco localizando o texto, folheando numa direção e noutra, em busca de trechos com pestilência, e recomeçou a leitura:
— “Deus enviou o Seu filho único ao mundo.”
Deus nunca teria feito isso se soubesse o que aconteceria, pensou Dunworthy. Herodes e o Massacre dos Inocentes e o Getsêmani.
— Leia para mim alguma passagem de são Mateus — pediu ele. — Capítulo 26, versículo 39.
A sra. Gaddson parou, pareceu irritada, mas folheou as páginas até o Evangelho de Mateus.
— “E, indo um pouco adiante, prostou-se com o rosto em terra e orou: ‘Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice’”
Deus não fazia ideia de onde estava seu filho, pensou Dunworthy. Ele enviara seu único filho para o mundo, mas alguma coisa tinha dado errado com o fix, e alguém desligara a rede, de modo que Ele não pôde mais alcançá-lo, e então as pessoas prenderam o filho, puseram uma coroa de espinhos em sua cabeça e o pregaram numa cruz.
— Capítulo 27 — disse ele. — Versículo 46.
Ela contraiu os lábios e virou a página.
— Eu realmente não acho que estes sejam trechos da Escritura apropriados para…
— Leia — interrompeu ele.
— “Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: ‘Eli, Eli, lamá sabachtáni?’, isto é: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’.”
Kivrin não faria nenhuma ideia do que podia ter acontecido. Pensaria que havia escolhido o local errado, ou o dia errado, que tinha perdido a noção do tempo de algum modo durante a peste, que alguma coisa dera errado com o salto. Pensaria que tinha sido abandonada.
— E então? — indagou a sra. Gaddson. — Mais algum pedido?
— Não.
A sra. Gaddson voltou ao começo, buscando o Velho Testamento.
— “Os que estão longe morrerão pela peste, enquanto os que estão perto hão de cair à espada” — leu ela.
Apesar de tudo, ele acabou dormindo, até enfim despertar para algo que não parecia apenas uma tarde sem fim. Chovia ainda, mas agora havia três sombras no quarto, e os sinos tocavam as quatro horas. A enfermeira de William o ajudou a ir ao banheiro. O livro sumira, e Dunworthy imaginou se Colin viera buscá-lo sem que se lembrasse. No entanto, quando a enfermeira abriu a porta do armário para pegar as chinelas, avistou o livro lá dentro. Pediu à moça que girasse a manivela até deixar a cama em um ângulo reto e, assim que ela saiu, pôs os óculos e abriu o livro mais uma vez.
A peste havia se espalhado de maneira tão aleatória e tão cruel que os contemps não conseguiam considerá-la como uma catástrofe natural. Tinham acusado os leprosos e as velhas e os doentes mentais de envenenarem e enfeitiçarem os poços d’água. Qualquer presença estranha, qualquer forasteiro ficava imediatamente sob suspeita. Em Sussex, dois viajantes foram apedrejados até a morte. Em Yorkshire, uma jovem foi queimada na fogueira.
— Ufa, aí está o livro! — exclamou Colin, entrando no quarto. — Pensei que eu tivesse perdido.
O casaco verde estava todo molhado.
— Tive que carregar as caixas com as sinetas de mão até a Sagrada Igreja Re-Formada, para ajudar a sra. Taylor. Sabe, está caindo o maior temporal!
Ao ouvir a menção à sra. Taylor, Dunworthy foi invadido por uma onda de alívio e percebeu que não fizera perguntas a respeito das pessoas detidas no colégio por medo de receber más notícias.
— A sra. Taylor está bem, então?
Colin tocou no botão e o casaco se abriu de ponta a ponta, salpicando água ao redor.
— Está. Vão se apresentar na Sagrada Igreja Re-Formada no dia 15 — disse, inclinando o corpo para ver a passagem que Dunworthy estava lendo.
Dunworthy fechou e entregou o livro a ele.
— E o restante das sineiras? A sra. Piantini está bem?
Colin fez um sinal afirmativo.
— Ela ainda está internada. O senhor não vai reconhecê-la de tão magra. — Ele abriu o livro. — Estava lendo sobre a Peste Negra, não estava?
— Estava — confirmou Dunworthy. — O sr. Finch não contraiu o vírus, não é?
— Não. Ele não adoeceu e está substituindo a sra. Piantini como tenor. Está muito aborrecido, porque não recebemos nenhum papel higiênico na carga de suprimentos que veio de Londres, e ele diz que os rolos estão quase acabando. Ele teve até uma discussão com a chata da sra. Gaddson por causa disso. — Ele colocou o livro em cima da cama. — O que vai acontecer com a sua garota?
— Não sei — respondeu Dunworthy.
— Não há nada que possam fazer para trazer ela de volta?
— Não.
— A Peste Negra foi terrível — observou Colin. — Morreu tanta gente que eles nem sequer conseguiam enterrar todos. Deixavam os cadáveres ao relento, formando pilhas enormes de corpos.
— Não posso chegar até onde ela está, Colin. Perdemos o fix quando Gilchrist desligou a rede.
— Eu sei, mas não há alguma outra coisa que se possa fazer?
— Não.
— Mas…
— Vou falar com o seu médico para restringir suas visitas — disse a freira, com severidade, puxando Colin para fora pela gola do casaco.
— Então pode começar restringindo as visitas da sra. Gaddson — rebateu Dunworthy. — E diga a Mary que preciso falar com ela.
Mary não apareceu, mas Montoya sim. Estava vindo direto da escavação, como era possível ver pela lama até os joelhos e pelo cabelo preto encaracolado repleto de salpicos. Colin estava com ela, com o casaco verde devidamente enlameado.
— Tivemos que esperar um momento de desatenção da enfermeira — justificou Colin.
Montoya tinha perdido bastante peso. As mãos que seguravam a grade da cama estavam magras, e a pulseira do relógio parecia frouxa.
— Como se sente? — perguntou ela.
— Melhor — respondeu ele, olhando as mãos dela. Havia lama por baixo das unhas. — Como se sente?
— Melhor — disse ela.
Montoya sem dúvida tinha ido direto para a escavação, à procura do recorde, assim que recebeu alta do hospital. E agora tinha vindo direto para vê-lo.
— Ela morreu, não é? — indagou ele.
As mãos dela se cerraram sobre a grade, depois a soltaram.
— Sim.
Kivrin chegara ao lugar certo, afinal de contas. O desvio das coordenadas locacionais fora de apenas uns poucos quilômetros, uns poucos metros, e ela conseguira encontrar a estrada Oxford-Bath e chegara a Skendgate. E morrera ali, vítima da influenza que havia contraído antes do salto. Ou de fome após a epidemia. Ou de desespero. Já estava morta há setecentos anos.
— Você o achou, então — disse ele, e não era uma pergunta.
— Achou o quê? — quis saber Colin.
— O recorde de Kivrin.
— Não — respondeu Montoya.
Ele não sentiu alívio algum:
— Mas vai achar — sentenciou.
As mãos dela tremeram um pouco, segurando a grade.
— Foi um pedido de Kivrin — revelou ela. — No dia do salto. Ela sugeriu que o recorde podia ficar parecido com uma saliência de um osso, para que o chip sobrevivesse, mesmo que ela não conseguisse. Ela me disse: “O sr. Dunworthy está se preocupando à toa mas, se alguma coisa não sair bem, darei um jeito de ser sepultada nessa igrejinha…”. — A voz de Montoya fraquejou um pouco. — “Para que vocês não tenham que escavar a Inglaterra inteira.”
Dunworthy fechou os olhos.
— Mas vocês nãosabem se Kivrin está morta, se ainda não acharam o recorde — interrompeu Colin. — Vocês disseram que nem sabiam onde ela estava. Como podem ter certeza de que ela morreu?
— Temos feito experiências com ratos de laboratório na escavação. Bastam quinze minutos de exposição ao vírus para que aconteça a infecção. Kivrin ficou diretamente exposta à tumba durante três horas. A chance de ter contraído o vírus é de 75 por cento e, com os escassos recursos médicos da época, é quase certo que ela teve complicações.
Escassos recursos médicos. Era um século que tentava curar as pessoas com sanguessugas e estricnina, um tempo em que ninguém ouvira falar de esterilização, ou germes, ou células-T. Os contemps teriam apenas aplicado fétidas cataplasmas sobre Kivrin e murmurado orações e lancetado as suas veias. “E os médicos aplicavam sangrias”, dizia o livro de Gilchrist, “mas ainda assim muitos morriam.”
— Sem antimicrobiais e sem reforço de células-T — prosseguiu Montoya —, a taxa de mortalidade do vírus é de 49 por cento. Probabilidade…
— Probabilidade! — repetiu Dunworthy, com amargura. — Por acaso são números de Gilchrist?
Montoya deu uma olhada para Colin e franziu a testa.
— A chance de Kivrin ter contraído o vírus é de 75 por cento, e a de ter sido exposta à peste é de 68 por cento. A taxa de morbidade para a peste bubônica é de 91 por cento, e a taxa de mortalidade é…
— Kivrin não contraiu a peste — voltou a interromper Dunworthy. — Ela foi imunizada. A dra. Ahrens e Gilchrist não contaram para você?
Montoya olhou de novo para Colin.
— Disseram que eu não podia contar de jeito nenhum para ele — justificou Colin, encarando-a com olhar desafiador.
— Contar o quê? Gilchrist está doente?
Dunworthy se lembrou de ter olhado os monitores e depois desmaiado nos braços de Gilchrist. Imaginou se teria contaminado o outro ao cair.
— O sr. Gilchrist morreu em decorrência do vírus, três dias atrás — informou Montoya.
Dunworthy olhou para Colin.
— O que mais pediram para você esconder de mim? — questionou. — Quem mais morreu enquanto eu estive doente?
Montoya começou a erguer a mão magra para interromper Colin, mas era tarde.
— Minha tia-avó Mary — respondeu Colin.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(077076-078924)
Maisry fugiu. Roche e eu a procuramos por toda parte, com medo de que ela tivesse adoecido e se arrastado para algum recanto, mas o caseiro avisou que a viu partindo para a floresta, quando estava cavando a sepultura de Walthef. Ela montava o pônei de Agnes.
Maisry vai só contribuir para propagar a peste, ou então acabará num vilarejo onde a epidemia já chegou. A peste está por toda parte agora. Os sinos soam como vésperas, só que fora de ritmo, como se os sineiros tivessem enlouquecido. É impossível distinguir se foram nove ou apenas três toques. Os sinos gêmeos de Courcy soaram uma única badalada esta manhã. Imagino se terá sido o bebê ou uma daquelas meninas risonhas.
Rosemund continua inconsciente, e o pulso está muito fraco. Já Agnes grita e se debate durante o delírio. Segue me chamando aos gritos, mas não deixa eu me aproximar. Quando tento falar com ela, começa a dar pontapés e a berrar, como se estivesse tendo um ataque.
Eliwys está definhando de tanto se desdobrar com Agnes e Lady Imeyne, que grita “Diabo!” para mim quando tento ajudar. Hoje de manhã quase me deixou com um olho roxo. O único que me deixa chegar perto é o secretário, que não pode mais ser ajudado e não deve passar de hoje. Ele cheira tão mal que tivemos que carregá-lo para a extremidade do salão. Seu bulbo recomeçou a supurar.
(Pausa)
Gunni, o segundo filho do caseiro.
A mulher com cicatrizes de escrófulas no pescoço.
O pai de Maisry.
Cob, o coroinha de Roche.
(Pausa)
Lady Imeyne está muito mal. Roche tentou lhe dar o último sacramento, mas ela se recusou a fazer a confissão.
— Deve fazer as pazes com Deus antes de morrer — disse Roche, mas ela virou o rosto para a parede e afirmou: — Ele é o culpado disso!
(Pausa)
Trinta e um casos. Mais de setenta e cinco por cento. Roche consagrou hoje de manhã uma parte da relva, porque o cemitério do pátio da igreja já está quase cheio.
Maisry não voltou. Deve estar dormindo na cadeira alta no salão de alguma casa abandonada pelos moradores. Quem sabe, quando tudo isso passar, acabe se tornando a ancestral de alguma linhagem da nobreza.
Talvez esteja aí o mal do nosso tempo, sr. Dunworthy: ele foi fundado por Maisry e pelo emissário do bispo e por Sir Bloet. Já todas as pessoas que ficaram e tentaram socorrer alguém contraíram a peste e morreram.
(Pausa)
Lady Imeyne está inconsciente e Roche está lhe dando os sacramentos, a pedido meu.
— Aquela era a voz da doença, mas a alma de Imeyne não se voltou contra Deus — argumentei, o que não era verdade.
Talvez ela não mereça ser perdoada, mas também não merece isso, o corpo contaminado, apodrecendo, desmanchando-se. E quem sou eu para condená-la por botar a culpa em Deus quando eu mesma coloco a culpa nela? Ninguém tem culpa. É uma doença.
O vinho consagrado acabou, e não há mais azeite. Roche está usando o óleo da cozinha para o rito, que tem cheiro de ranço. Quando ele toca com o dedo nas têmporas e nas palmas das mãos dela, a pele escurece.
É uma doença.
(Pausa)
Agnes está pior. É terrível vê-la deitada, arfando como o seu cãozinho, e gritando:
— Diga a Kivrin que venha me buscar, eu não gosto daqui!
O próprio Roche não consegue suportar isso.
— Por que Deus está nos castigando assim? — ele me perguntou.
— Ele não está castigando. É uma doença — disse eu.
Só que isso não é uma resposta, e ele sabe. A Europa inteira sabe, e a Igreja também sabe. Ela vai ficar na defensiva durante alguns séculos, dando desculpas, mas nada pode alterar o fato: Ele deixou que acontecesse. Ele não vem socorrer ninguém.
(Pausa)
Os sinos pararam. Roche me perguntou se eu achava aquilo um sinal de que a peste tinha acabado.
— Talvez Deus tenha interferido para nos ajudar, afinal — disse ele.
Acredito que não. Em Tournai, as autoridades da Igreja baixaram uma ordem proibindo o dobre de sinos, porque o som amedrontava o povo. Talvez o bispo de Bath tenha feito algo semelhante.
O som era amedrontador, mas o silêncio é pior. É como o fim do mundo.