O Livro do Juízo Final
Capítulo 13
Mais dois casos, ambos de estudantes, foram registrados enquanto Mary interrogava Colin sobre como conseguira entrar na área de quarentena.
— Foi muito fácil — respondeu Colin, indignado. — Eles só estão impedindo as pessoas de sair, não de entrar! — Estava pronto para dar mais detalhes quando um funcionário entrou.
Mary pediu a Dunworthy para acompanhá-la até a Emergência para ver se podia identificar os dois pacientes.
— E você fica aqui — disse ela a Colin. — Já causou confusões demais para uma noite.
Dunworthy não reconheceu nenhum, mas isso não teve importância. Os dois estavam conscientes e lúcidos, e já estavam passando a um funcionário os nomes de todos com quem tiveram contato quando Dunworthy e Mary chegaram. Ele olhou para ambos com atenção e depois abanou a cabeça.
— Os dois podiam fazer parte daquela multidão na High Street. Não consigo lembrar — disse ele.
— Tudo bem — reconfortou Mary. — Pode ir para casa, se quiser.
— Pensei que precisava esperar aqui até sair o resultado do exame de sangue — comentou ele.
— Ah, mas isso só vai sair lá pelas… — começou ela, olhando o relógio. — Meu Deus, são mais de seis horas.
— Vou lá em cima dar uma olhada em Badri — avisou ele. — Depois vou ficar na sala de espera.
Badri estava dormindo, disse a enfermeira.
— Eu não acordaria ele.
— Não, claro que não — concordou Dunworthy, e desceu de volta para a sala de espera.
Colin estava sentado no meio do aposento, com as pernas cruzadas, remexendo na mochila.
— Onde está minha tia-avó Mary? — perguntou. — Ela está meio chateada porque eu vim para cá, não é?
— Ela achava que você estava em segurança, em Londres — respondeu Dunworthy. — Sua mãe disse que o trem onde você estava tinha sido detido em Barton.
— E foi. Eles mandaram todo mundo descer e entrar noutro trem para voltar para Londres.
— E durante a baldeação você se perdeu?
— Não. Acabei ouvindo sem querer uma conversa sobre quarentena, sobre como havia uma doença terrível por aqui e todo mundo acabaria morrendo e tudo o mais… — Ele se interrompeu para voltar a remexer na mochila. Retirou e depois substituiu uma porção de coisas, vids, um vidder de bolso e um par de tênis sujos e puídos. Era parente de Mary, sem dúvida. — E eu não queria ficar preso lá com Eric e perder toda esta animação.
— Eric?
— O cara que vive com minha mãe. — Ele tirou de algum lugar uma enorme bola vermelha de chiclete, desprendeu alguns pedaços do papel laminado e colocou na boca, ficando com um inchaço na bochecha. — Eric é a pessoa mais absolutamente necrótica que existe no mundo inteiro — continuou, a boca cheia de chiclete. — Tem um apartamento em Kent e não há absolutamente nada que se possa fazer por lá.
— Então você desceu do trem em Barton. O que fez então? Veio a pé até Oxford?
Ele tirou o chiclete da boca. A bola não estava mais vermelha, e sim com uma coloração manchada de verde-azulado. Colin examinou a goma com olhar crítico por todos os ângulos e voltou a colocá-la na boca.
— Claro que não. Barton fica muito longe daqui. Peguei um táxi.
— Claro — disse Dunworthy.
— Falei para o motorista que estava realizando uma reportagem sobre a quarentena para o jornal da minha escola e queria fazer vídeos das barricadas. Como trazia meu vidder comigo, sabe, me pareceu uma coisa lógica. — Ele ergueu o vidder de bolso para ilustrar, antes de guardá-lo no interior da mochila e voltar a mexer dentro dela.
— Ele acreditou?
— Acho que sim. Quando perguntou qual era minha escola, eu disparei, bem ofendido: “O senhor devia ser capaz de saber”. Ele disse St. Edward, e eu respondi: “É claro”. Ele deve ter acreditado. Até porque me trouxe ao perímetro, não foi?
E eu preocupado com o que Kivrin faria caso não aparecesse nenhum viajante amistoso, pensou Dunworthy.
— E o que fez então, contou a mesma história à polícia?
Colin puxou uma jaqueta verde de lã com capuz, enrolou-a como uma trouxa e colocou em cima da mochila aberta.
— Não. No fim das contas, era uma história muito fraca. O que eu quero dizer é, que tipo de imagem a gente pode querer? Não tipo um incêndio, certo? Então eu só fui até o guarda como se quisesse perguntar alguma coisa sobre a quarentena e, no último instante, só dei um passo de lado, me abaixei e passei por baixo do cordão de isolamento.
— Eles não foram atrás de você?
— Claro. Mas só por algumas ruas. Estão trabalhando para evitar que as pessoas saiam, não que entrem. Depois tive que andar mais de um quilômetro para encontrar uma cabine de onde pudesse ligar.
Provavelmente tinha chovido durante todo aquele percurso mas Colin nem tocara no assunto, e não havia um guarda-chuva dobrável entre suas coisas.
— A parte mais difícil foi encontrar Mary — comentou ele, deitando-se ao comprido, a cabeça apoiada na mochila. — Fui para o apartamento dela, mas minha tia-avó não estava lá. Pensei que ela talvez estivesse esperando por mim na estação do metrô, mas a estação estava fechada. — Ele sentou-se, arrumou de outra maneira a trouxa feita com a jaqueta e deitou de novo. — Então pensei: ela é médica, deve estar no hospital.
Ele voltou a se sentar, deu uns socos na mochila até deixá-la no formato que queria, deitou e fechou os olhos. Dunworthy recostou-se na poltrona pouco confortável, sentindo inveja do jovem. Colin já estava quase dormindo, nem um pouco perturbado ou assustado com as próprias aventuras. Tinha caminhado por metade de Oxford no meio da noite, ou talvez tivesse pegado outros táxis, ou até tirado alguma bicicleta desmontável de dentro daquela mochila, completamente sozinho em meio a uma chuva gelada de inverno e, apesar disso, não estava nada inquieto pela aventura.
Kivrin estava bem. Se o vilarejo não estivesse onde eles imaginavam, ela andaria até encontrá-lo, ou pegaria um táxi, ou estaria deitada com a cabeça sobre uma trouxa formada pela capa, dormindo o indomável sono da juventude.
Mary entrou na sala.
— Os dois estudantes estiveram numa festa em Headington na noite passada — disse ela, abaixando a voz quando viu Colin deitado.
— Badri também esteve lá — cochichou Dunworthy.
— Eu sei. Um esteve ao lado dele na pista. Ficaram lá das nove da noite às duas da manhã, o que significa de vinte e cinco a trinta horas, dentro do período de incubação de quarenta e oito horas, se é que Badri infectou alguém.
— Não acha que foi Badri?
— Acho que o mais provável é que os três tenham sido infectados por uma mesma pessoa, provavelmente alguém que Badri encontrou mais cedo naquela noite, e os outros só algum tempo depois.
— Um portador do vírus?
Ela abanou a cabeça.
— As pessoas em geral não transmitem mixovírus sem também terem contraído a doença, mas ele ou ela talvez tivesse tido apenas manifestações leves, ou estivesse ignorando os sintomas.
Dunworthy pensou em Badri desmaiando sobre o console e ficou imaginando como era possível ignorar sintomas como aqueles.
— E se essa pessoa esteve na Carolina do Sul quatro dias atrás… — continuou Mary.
— Então você consegue fazer a ligação deste vírus com o vírus norte-americano.
— E você pare de se preocupar com Kivrin. Ela não estava na festa em Headington — disse ela. — Claro que a conexão se faz através de um número maior de elos.
Ela franziu a testa, e Dunworthy pensou, um número maior de elos que não deram entrada num hospital ou nem sequer ligaram para um médico. Diversos elos que ignoraram os sintomas.
Aparentemente Mary estava pensando o mesmo.
— Essas suas sineiras chegaram quando à Inglaterra?
— Não sei. Mas só chegaram a Oxford na tarde de hoje, depois que Badri já estava trabalhando na rede.
— Bem, pergunte a elas, em todo caso. Quando desembarcaram, onde estiveram, se alguma delas adoeceu. Talvez alguma tenha conhecidos em Oxford e tenha vindo antes das outras. Vocês têm estudantes americanos na graduação?
— Não. Mas Montoya é americana.
— Não tinha pensado nisso — disse Mary. — Há quanto tempo ela está aqui?
— Todo o semestre. Mas ela pode ter tido contato com alguém que veio dos Estados Unidos.
— Vou perguntar quando ela vier fazer o próximo exame — disse Mary. — Gostaria que você perguntasse a Badri se ele conhece algum norte-americano ou estudantes que possam ter viajado aos Estados Unidos, feito intercâmbio, essas coisas.
— Ele está dormindo.
— Você também deveria estar. Estou brincando. — Deu umas pancadinhas na manga do casaco dele. — Não preciso esperar até as sete horas. Vou mandar alguém aqui para tirar seu sangue e sua pressão, e você pode ir para a cama. — Pegou no pulso de Dunworthy e olhou o monitor de temperatura. — Algum calafrio?
— Não.
— Dor de cabeça?
— Um pouco.
— É porque está exausto. — Ela largou o pulso dele. — Vou mandar alguém agora mesmo.
Ela olhou para Colin, estirado no piso.
— Colin também precisa ser testado, pelo menos até termos certeza de que o contágio ocorre por gotículas.
A boca do rapaz estava aberta, mas a bola de goma de mascar estava presa com firmeza na bochecha. Dunworthy imaginou se aquilo podia redundar em sufocação.
— Por falar em Colin, não acharia melhor que eu o levasse comigo para Balliol? — perguntou Dunworthy
Ela mostrou-se imediatamente agradecida.
— Poderia fazer isso? Não gostaria de dar trabalho, mas dificilmente voltarei para casa antes de tudo isto aqui estar sob controle. — Ela suspirou. — Pobre menino. Espero que esse Natal não esteja de todo arruinado.
— Eu não me preocuparia muito com isso.
— Bem, fico muito grata — disse Mary. — Vou já providenciar os testes.
Ela saiu. Colin sentou-se imediatamente.
— Que tipo de testes? — perguntou. — Isso quer dizer que eu posso estar com o vírus?
— Espero sinceramente que não — respondeu Dunworthy, pensando no rosto congestionado de Badri, na dificuldade de respirar.
— Mas posso estar.
— As chances são mínimas. Eu não ficaria preocupado.
— Eu não estou preocupado. — Ele estendeu o braço. — Acho que está aparecendo aqui uma brotoeja — comentou ele, rapidamente, apontando uma manchinha.
— Isso não é sintoma de vírus. Pegue suas coisas, você vem comigo depois dos exames. — Ele apanhou o cachecol e o sobretudo na cadeira onde os deixara.
— Quais são os sintomas então?
— Febre, dificuldade de respirar.
A sacola de compras de Mary estava no chão, junto à poltrona de Latimer. Dunworthy resolveu que seria melhor levá-la.
A enfermeira entrou, trazendo a bandeja para os exames.
— Estou sentindo calor — disse Colin, segurando a garganta, com dramaticidade. — Não consigo respirar.
A enfermeira recuou um passo, assustada, agarrando a bandeja.
Dunworthy segurou Colin pelo braço.
— Não se preocupe — disse ele à enfermeira. — Não passa de um caso de envenenamento por chiclete.
Colin sorriu e descobriu o braço, sem medo para fazer o exame, depois jogou o casaco dentro da mochila e vestiu a jaqueta ainda úmida, enquanto Dunworthy cedia seu material de exame.
— A dra. Ahrens avisou que o senhor e o garoto não precisavam esperar pelos resultados — disse a enfermeira, e saiu.
Dunworthy pôs o sobretudo, apanhou a sacola de Mary e conduziu Colin pelo corredor até saírem da Emergência. Não viu Mary em parte alguma, mas ela dissera que não precisavam esperar, sem falar que de repente ele estava tão cansado que mal conseguia manter-se de pé.
Saíram. Estava começando a clarear, mas continuava chovendo. Dunworthy hesitou, parado no portão principal do hospital, pensando se deveria chamar um táxi, mas não queria correr o risco de Gilchrist aparecer para fazer o teste antes de o táxi chegar, nem de ter que ficar escutando os seus planos de como pretendia mandar Kivrin para a Peste Negra e depois para a Batalha de Agincourt. Achou e abriu o guarda-chuva de Mary.
— Graças aos céus que ainda está aqui — disse Montoya, derrapando e parando a bicicleta, entre salpicos de água. — Preciso encontrar Basingame.
Você e todos nós, pensou Dunworthy, imaginando onde ela teria ido durante todas aquelas conversas telefônicas.
Montoya desceu do banco, encaixou a bicicleta numa baia e trancou o cadeado.
— A secretária de Basingame diz que ninguém sabe onde ele está. Acredita nisso?
— Acredito — respondeu Dunworthy. — Andei tentando durante quase todo o dia hoje, quer dizer, ontem, e não consegui achá-lo. Ele está passando o feriado em algum lugar na Escócia, ninguém sabe exatamente onde. Pescando, segundo a esposa.
— Nesta época do ano? Quem iria daqui até a Escócia para pescar em dezembro? A esposa com certeza sabe onde ele está ou deve ter um número de contato ou algo assim.
Dunworthy abanou a cabeça.
— Mas isso é ridículo! — exclamou ela. — Tive um trabalho absurdo para conseguir que o Serviço Nacional de Saúde me concedesse acesso à escavação, e agora Basingame está de férias! — Ela enfiou a mão no casaco impermeável e tirou um maço de folhas de papel de cores variadas. — Eles concordaram em abrir uma exceção para mim se o diretor do curso de História assinar uma declaração atestando que a escavação é um projeto necessário e essencial para a universidade. Como é que ele pode sumir de uma hora para outra sem avisar ninguém? — Ela bateu com os papéis na perna, e gotas d’água saltaram. — Preciso que ele assine isto antes que o sítio fique todo inundado. Onde está Gilchrist?
— Deve estar aqui logo, logo, para o exame de sangue. Se conseguir falar com Basingame, diga que ele precisa voltar para cá imediatamente. Avise que estamos sob quarentena, que talvez uma historiadora esteja perdida e que o técnico está doente demais para poder nos ajudar.
— Pescando! — disse Montoya com menosprezo, entrando no hospital. — Se minha escavação for arruinada, ele vai ter que explicar muita coisa.
— Vamos agora — disse Dunworthy a Colin, ansioso para sair dali antes que aparecesse mais alguém.
Segurou o guarda-chuva de modo a também cobrir Colin, mas logo desistiu. O garoto caminhava depressa à frente, conseguindo acertar praticamente todas as poças d’água, e daí a pouco estava se virando, olhando as vitrines.
Não havia ninguém na rua, embora Dunworthy não soubesse dizer se o motivo era a quarentena ou o fato de ser muito cedo. Talvez todo mundo esteja dormindo, pensou ele, e a gente possa entrar e ir direto para a cama.
— Pensei que mais coisas aconteceriam — disse Colin, parecendo desapontado. — Sabe, sirenes, aquilo tudo.
— E as carroças dos mortos percorrendo as ruas, aos gritos de “tragam seus mortos”? — perguntou Dunworthy. — Você devia ter ido era com Kivrin. As quarentenas da Idade Média eram muito mais movimentadas do que deverá ser esta, com apenas quatro casos e uma vacina que está a caminho, vinda dos Estados Unidos.
— Quem é essa tal de Kivrin? Sua filha?
— Minha aluna. Ela acabou de viajar para 1320.
— Viagem no tempo? Apocalíptico!
Viraram a esquina na Broad.
— A Idade Média! — disse Colin. — É Napoleão, não é mesmo? Trafalgar, aquilo tudo?
— É a Guerra dos Cem Anos — respondeu Dunworthy, e Colin fez cara de quem não estava entendendo nada. O que estarão ensinando aos jovens nas escolas de hoje em dia?, pensou ele. — Cavaleiros, damas, castelos…
— As Cruzadas?
— Cruzadas foram um pouquinho antes disso.
— Era para lá que eu queria ir. Para as Cruzadas.
Estavam chegando ao portão do Balliol.
— Vamos continuar sem fazer barulho agora — sussurrou Dunworthy. — Todos devem estar dormindo.
Não havia ninguém na portaria nem no pátio quadrangular. Luzes estavam acesas no hall; provavelmente as sineiras estavam tomando o café da manhã, mas não havia luzes no salão principal nem no Salvin. Se os dois conseguissem subir a escada em silêncio, e se Colin não resolvesse anunciar de repente que estava com fome, chegariam ao aposento em segurança.
— Pssst — fez Dunworthy, virando-se para advertir Colin, que tinha parado no meio do pátio e tirado da boca a goma de mascar para examinar a cor, que era agora de um roxo enegrecido. — Não queremos acordar todo mundo aqui — disse ele, levando o dedo aos lábios.
Ao se virar, Dunworthy esbarrou em cheio num casal que cruzava a porta. Os pombinhos estavam vestindo capas de chuva de plástico e se abraçavam com ardor. O rapaz não demonstrou ter percebido o esbarrão, mas a jovem se desvencilhou e pareceu assustada. Tinha cabelo ruivo bem curto e usava um uniforme de estudante de enfermaria por baixo da capa. O rapaz era William Gaddson.
— O comportamento de vocês é inadequado para este lugar e para esta hora — disse Dunworthy, com severidade. — Demonstrações públicas de afeto são estritamente proibidas nesta faculdade. Também não é uma atitude aconselhável porque sua mãe pode aparecer aqui a qualquer momento.
— Minha mãe? — perguntou ele, parecendo tão alarmado quanto o próprio Dunworthy quando vira a sra. Gaddson surgir no corredor do hospital de valise em punho. — Aqui? Em Oxford? O que ela veio fazer aqui? Pensei que a gente estava de quarentena.
— E está, mas o amor de uma mãe desconhece barreiras. Ela está preocupada com a sua saúde, assim como eu, considerando as circunstâncias. — Ele franziu a testa para William e para a moça, que deu uma risadinha. — Minha sugestão é que escolte sua companheira de delito até a casa dela e depois comece os preparativos para a chegada de sua mãe.
— Preparativos? — repetiu ele, parecendo abalado de fato. — Quer dizer que ela vem para ficar?
— Receio que ela não tenha outra opção. Estamos em quarentena.
As luzes se acenderam de repente na escada, e Finch apareceu.
— Graças aos céus que chegou, sr. Dunworthy — disse ele.
Trazia na mão uma papelada de folhas coloridas, que mostrou a Dunworthy.
— O Serviço Nacional de Saúde acaba de nos mandar mais trinta pessoas detidas. Falei que não tínhamos mais espaço, mas não deram ouvidos. Já não sei o que fazer. Nós simplesmente não temos recursos para abrigar tanta gente.
— Papel higiênico — disse Dunworthy.
— Sim! — disse Finch, brandindo as folhas. — E comida. Somente nesta manhã metade do estoque dos ovos e do bacon foi consumida.
— Ovos e bacon? — indagou Colin. — Sobrou algum?
Finch lançou um olhar interrogativo para Colin e depois para Dunworthy.
— É o sobrinho da dra. Ahrens — explicou Dunworthy. — Ele vai ficar no quarto comigo — disse, antes que Finch recomeçasse.
— Muito bem, então, porque eu simplesmente não consigo encontrar espaço para mais uma pessoa.
— Nós dois passamos a noite acordados, Finch, de modo que…
— Aqui está a lista atualizada dos nossos suprimentos, feita agora pela manhã. — Entregou a Dunworthy uma folha úmida de papel. — Como pode ver…
— Finch, aprecio muito sua preocupação com os suprimentos, mas com certeza isso pode esperar até…
— Esta é uma lista das chamadas telefônicas para o senhor. Os telefonemas que o senhor precisa retornar estão marcados com asterisco. Já esta é a lista dos seus compromissos. O vigário gostaria que estivesse em St. Mary às seis e quinze de amanhã para ensaiar o serviço natalino.
— Vou retornar os telefonemas, mas somente depois que eu…
— A dra. Ahrens ligou duas vezes. Ela quer saber o que descobriu com relação às sineiras.
Dunworthy desistiu.
— Mande as novas pessoas retidas para Warren e Basevi, três em cada quarto. Há colchões extras no porão embaixo da sala principal.
Finch abriu a boca para protestar.
— Elas vão ter que se conformar com o cheiro de tinta.
Dunworthy estendeu para Colin o guarda-chuva e a sacola de Mary.
— Vá até aquele prédio, cujas luzes do salão estão acesas — disse ele, apontando a porta. — Diga aos funcionários que deseja comer alguma coisa e depois peça a um deles que conduza você até os meus aposentos.
Virou-se para William, que estava com as mãos ocupadas por baixo da capa de plástico da garota.
— Sr. Gaddson, arrume um táxi para sua cúmplice. Depois, descubra os estudantes que permaneceram aqui durante o feriado e pergunte se estiveram nos Estados Unidos semana passada ou se tiveram contato com alguém que esteve. Prepare uma lista. O senhor não esteve recentemente nos Estados Unidos, não é?
— Não, senhor — respondeu o rapaz, afastando as mãos da enfermeira. — Estive aqui este tempo todo, estudando Petrarca.
— Ah, claro, Petrarca — alfinetou Dunworthy. — Pergunte a esses estudantes o que sabem sobre as atividades de Badri Chaudhuri de segunda-feira para cá, e depois fale com os funcionários. Preciso saber onde cada um foi e com quem esteve. Quero o mesmo tipo de levantamento com relação a Kivrin Engle. Faça direito o trabalho e evite futuras manifestações de afeto em público. Se conseguir, posso dar um jeito para que o quarto de sua mãe fique o mais longe possível do seu.
— Obrigado, senhor — disse William. — Isso vai ser muito importante para mim.
— Agora, Finch, pode me dizer onde posso encontrar a sra. Taylor?
Finch entregou a ele mais uma porção de folhas impressas, contendo as referências de todos os aposentos ocupados, mas a sra. Taylor não era citada. Estava no salão comum menor, com outras sineiras e aparentemente com outras pessoas detidas que esperavam a transferência.
Assim que Dunworthy entrou, uma mulher imponente, com casaco de peles, agarrou seu braço.
— O senhor é o encarregado daqui?
Claro que não, pensou Dunworthy, que respondeu:
— Sou.
— Bem, o que vão fazer para disponibilizar um lugar decente para todo mundo dormir? Ficamos acordadas a noite inteira.
— Eu também fiquei, senhora — respondeu Dunworthy, receoso de que aquela fosse a sra. Taylor. Ela parecia mais frágil e menos perigosa ao telefone, mas as aparências enganam, e o sotaque e a atitude eram inconfundíveis.
— Não é a sra. Taylor, por acaso?
— Eu sou a sra. Taylor — disse uma mulher numa das poltronas de braços. Ela ficou de pé: parecia bem mais magra do que ao telefone e muito menos zangada. — Falei com o senhor ao telefone, mais cedo — e pelo tom da sua voz era como se os dois tivessem participado de um agradável bate-papo sobre as complexidades da arte do dobre de sinos. — Esta aqui é a sra. Piantini, a nossa tenor — completou ela, indicando a mulher do casaco de peles.
A sra. Piantini parecia capaz de arrancar o Great Tom dos alicerces. Ela tinha certeza absoluta de não saber da existência de vírus algum nos últimos tempos.
— Eu poderia falar a sós com a senhora por um instante, sra. Taylor? — Ele a conduziu para o corredor. — Conseguiu cancelar o seu concerto em Ely?
— Consegui — respondeu ela. — E o de Norwich. Todos foram muito compreensivos. — Ela inclinou-se ansiosa para a frente. — É verdade que é cólera?
— Cólera? — repetiu Dunworthy, sem entender.
— Uma das mulheres que vieram da estação disse que era cólera, que alguém trouxera a doença da Índia e que as pessoas estavam morrendo como moscas.
Ao que parecia não tinha sido uma boa noite de sono, e sim o medo, que produzira aquela mudança em sua atitude. Se Dunworthy dissesse que foram registrados apenas quatro casos, ela exigiria ser levada para Ely no mesmo segundo.
— Parece que se trata de um mixovírus — disse ele, medindo as palavras. — Quando seu grupo chegou à Inglaterra?
Os olhos dela se arregalaram.
— Estão achando que fomos nós que trouxemos isso? Nós não estivemos na Índia.
— Existe a possibilidade de ser o mesmo mixovírus relatado na Carolina do Sul. Alguma integrante do grupo é da Carolina do Sul?
— Não — respondeu ela. — Somos todas do Colorado, exceto a sra. Piantini, que é do Wyoming. Além do mais, nenhuma de nós está doente.
— Há quanto tempo estão na Inglaterra?
— Três semanas. Visitamos todas as sedes do Conselho Tradicional. Tocamos “Boston Treble Bob” em St. Katherine, e também “Post Office Caters” com três sineiras da sede de Bury St. Edmund, mas é claro que nenhum era um dobre novo. Agora, “Chicago Surprise Minor”…
— E chegaram todas a Oxford somente ontem pela manhã?
— Isso.
— Nenhuma chegou antes para conhecer melhor a cidade ou para rever amigos?
— Não — respondeu ela, parecendo chocada. — Estamos em turnê, sr. Dunworthy, não em uma viagem de férias.
— A senhora mencionou que ninguém do grupo ficou doente?
Ela abanou a cabeça.
— Não podemos nos dar ao luxo de adoecer. Somos apenas seis.
— Obrigado pela ajuda — disse Dunworthy, guiando a sineira de volta ao salão comum.
Depois de sair, ligou para Mary. Como não conseguiu localizá-la, deixou um recado e começou a repassar os asteriscos de Finch. Ligou para Andrews, para o Jesus College, para a secretária de Basingame e para St. Mary, sem nenhum sucesso. Desligou, fez uma pausa de cinco minutos e tentou de novo. Durante um dos intervalos, Mary retornou.
— Por que não está dormindo ainda? — questionou ela. — Você parece exausto.
— Falei com as sineiras. Estão na Inglaterra há três semanas. Nenhuma esteve em Oxford antes da manhã de ontem e nenhuma está doente. Quer que eu volte aí para interrogar Badri?
— Acho que não vai adiantar. Ele não está consciente.
— Estou tentando ligar para o Jesus College para saber que informação eles têm sobre as idas e vindas de Badri.
— Ótimo. Fale com a senhoria dele. E durma um pouco. Não quero ver você adoecendo. — Fez uma pausa. — Já temos seis casos novos.
— Algum da Carolina do Sul?
— Não. E ninguém que pudesse ter mantido contato com Badri. De modo que ele continua sendo nosso paciente zero. E Colin, está bem?
— Está tomando o café da manhã. Está bem. Não se preocupe com ele.
Dunworthy não conseguiu se recolher antes de uma e meia da tarde. Precisou de duas horas inteiras para conferir todos os asteriscos da lista de Finch e mais outra hora para descobrir onde Badri morava. A senhoria não estava em casa, e quando Dunworthy voltou Finch insistiu em repassar com ele a lista completa de suprimentos.
Dunworthy enfim conseguiu se ver livre do secretário ao prometer que telefonaria para o SNS e pediria mais papel higiênico. Foi quando voltou aos seus aposentos.
Colin tinha se encolhido na poltrona junto à janela, a cabeça sobre a trouxa de roupas, cobrindo-se com uma manta de viagem de crochê que não chegava nem aos seus pés. Dunworthy pegou um lençol dobrado ao pé da cama, cobriu o garoto e sentou no sofá para tirar os sapatos.
Estava quase cansado demais para fazer aquilo, embora soubesse que se arrependeria mais tarde se acabasse dormindo com a roupa que vestia. Esse era um privilégio dos jovens e de quem não tinha artrite. Colin acordaria repousado, apesar de um sono com botões apertados e mangas muito justas. Kivrin podia se enrolar naquela capa tão fina e dormir com a cabeça apoiada num toco, nem por isso ficaria indisposta. Já se ele dormisse com um travesseiro a menos, ou de camisa, acordaria com o corpo duro e cheio de cãibras. E, se continuasse sentado ali com os sapatos nas mãos, nunca chegaria à cama.
Ergueu-se da cadeira, ainda segurando os sapatos, apagou a luz e entrou no quarto. Vestiu o pijama e armou a cama, que parecia infinitamente convidativa.
Vou adormecer antes de encostar a cabeça no travesseiro, pensou ele, tirando os óculos. Deitou na cama e puxou as cobertas por cima de si. Vou adormecer antes mesmo de apagar a lâmpada, pensou ele, e apagou a lâmpada.
Havia uma escassa luz emanando da janela, uma fresta de cinza-escuro se destacando ao fundo de um emaranhado de trepadeiras de um cinza ainda mais escuro. A chuva caía de leve sobre as folhas grossas. Eu devia ter puxado as cortinas, pensou, mas agora estava cansado demais para levantar outra vez.
Pelo menos Kivrin não teria que enfrentar muita chuva. Era a Pequena Era Glacial. Haveria neve, no máximo. Os contemps costumavam dormir todos juntos, amontoados, junto ao fogo, e quando enfim ocorreu a alguém inventar a chaminé e a lareira, esses melhoramentos não chegaram aos vilarejos de Oxfordshire senão em meados do século XV. Mas Kivrin não se preocuparia, pois se encolheria igual a Colin e dormiria o sono fácil e subestimado da juventude.
Dunworthy imaginou se já teria parado de chover. Não ouvia mais o tamborilar das gotas na janela. Talvez a chuva tivesse se reduzido a mera neblina, ou estivesse prestes a desabar mais uma vez. O dia estava muito escuro, e ainda estava cedo para o sol se pôr. Ele puxou o braço debaixo das cobertas e olhou os números luminosos no relógio. Duas horas, ainda. Seriam seis da tarde onde Kivrin se encontrava. Precisava tentar ligar de novo para Andrews assim que acordasse, para que ele lesse o fix e pudesse afirmar com exatidão onde e quando ela estava.
Badri afirmara a Gilchrist que havia um desvio mínimo, que checara duas vezes os cálculos de coordenadas feitos pelo estagiário e que estava tudo correto, mas agora Dunworthy queria ter certeza. Gilchrist não tomara precauções, e mesmo com precauções, as coisas podiam dar errado. O dia inteiro fora uma prova disso.
Badri tinha tomado todos os antivirais. A mãe de Colin levara o filho ao metrô e lhe dera dinheiro extra. Na primeira vez que Dunworthy saltara para Londres, quase não tinha voltado, mesmo tomando incontáveis precauções.
Fora um salto bate e volta para testar a rede. Trinta anos apenas. Dunworthy precisava atravessar a Trafalgar Square, tomar o metrô de Charing Cross até Paddington, e apanhar o trem das 10h48 para Oxford, onde a rede principal seria aberta. Eles tinham garantido tempo de sobra, analisado inúmeras vezes a rede, pesquisado o guia ferroviário e os horários dos trens, checado duas vezes as datas impressas no dinheiro. No entanto, quando chegou à estação de Charing Cross, o metrô estava fechado. O guichê de compra de passagens estava com as luzes apagadas, e uma grade de ferro fora abaixada bloqueando a entrada e o acesso às roletas de madeira.
Ele puxou o lençol para cobrir o ombro. Diversas coisas podiam ter acontecido por ocasião do salto, coisas que não passaram pela mente de ninguém. A mãe de Colin nunca teria pensado que aquele trem teria o percurso interrompido em Barton. Eles nunca tinham pensado que Badri poderia de repente desmaiar em cima do console.
Mary tem razão, pensou ele, eu tenho um quê de sra. Gaddson. Kivrin superou uma infinidade de obstáculos para poder saltar para a Idade Média. Mesmo que algo saia errado, ela é capaz de enfrentar. Colin não admitiu que uma coisa insignificante como uma quarentena se interpusesse em seu caminho.
Sem falar que, no fim das contas, ele próprio acabou conseguindo voltar de Londres. Tinha esmurrado a grade fechada, disparado de volta pela escada e lido a sinalização de novo, pensando que talvez tivesse errado alguma indicação. Não tinha. Procurou um relógio. Talvez tivesse havido um desvio maior do que as checagens sugeriam, pensou, e o metrô já estivesse fechado até a manhã seguinte. Só que o relógio por cima da entrada indicava nove e quinze.
— Acidente — avisou um homem de aparência deplorável, com um boné sujo na cabeça. — A linha está fechada até que limpem tudinho.
— M-mas eu preciso pegar a linha Bakerloo — gaguejou ele para o homem, que apenas se afastou com passos arrastados.
Dunworthy ficou ali, olhando para a estação às escuras, incapaz de pensar em algo. Não trouxera dinheiro suficiente para um táxi, e Paddington ficava do lado oposto de Londres. Nunca chegaria ao local às 10:48.
— Que que tá acontecendo? — perguntou um rapaz de casaco de couro negro e cabelo moicano espetado verde. Dunworthy mal conseguiu entender o que ele dissera. Um punk, pensou. O rapaz deu outro passo à frente, ameaçador.
— Paddington — disse ele, e aquilo saiu como pouco mais que um guincho.
O punk enfiou a mão no bolso do casaco para pegar o que Dunworthy teve certeza que seria um canivete. Mas o que saiu dali foi um bilhete de metrô em papel laminado, e depois o garoto começou a examinar o mapa no verso.
— Vai pra District ou pra Sahcle, do Embankment. Desce em Craven Street e vira à esquerda.
Dunworthy percorreu o trajeto inteiro, esperando a todo instante que uma quadrilha punk caísse sobre ele para roubar seu dinheiro historicamente plausível e, quando chegou ao Embankment, não fazia ideia de como usar a máquina de bilhetes.
Uma mulher com duas crianças o ajudou, digitando o destino e o valor para ele, mostrando como se introduzia o tíquete na catraca. Ele chegou a Paddington com tempo de sobra.
“Será que não havia uma só pessoa de bem na Idade Média?”, perguntara Kivrin, e é claro que havia. Rapazes com canivetes ou com mapas de metrô sempre existiram em todas as épocas. O mesmo valia para mulheres conduzindo crianças e para as sras. Gaddson e os srs. Latimer. E os srs. Gilchrist.
Ele se virou para o outro lado. “Ela vai ficar bem”, disse em voz alta, mas não tanto, para não acordar Colin. “A Idade Média não tem chances com minha melhor aluna.” Puxou de novo o lençol por cima do ombro e fechou os olhos, pensando no rapaz do moicano espetado verde inclinando o rosto sobre o mapa. Só que a imagem que se impôs, flutuando em primeiro plano, foi a da grade de ferro fechada, interpondo-se entre ele e as roletas mecânicas, com a estação mergulhada nas trevas como pano de fundo.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(015104-016615)
19 de dezembro de 1320 (Calendário Antigo). Estou me sentindo melhor. Consigo respirar umas três ou quatro vezes seguidas antes de começar a tossir, e hoje de manhã estava até com fome, embora não contasse com aquele mingau oleoso que Maisry acabou trazendo. Eu seria capaz de matar por um prato de bacon com ovos.
E por um banho. Estou completamente imunda. Desde que cheguei aqui, além da minha testa, nada no meu corpo foi lavado, e nos dois últimos dias Lady Imeyne grudou em meu peito faixas de linho cobertas de uma pasta malcheirosa. Entre uma cataplasma e outra, suores intermitentes e uma cama que não é trocada desde os anos 1200. Estou fedendo muito, e meu cabelo, embora curto, está fervilhando. E olhe que sou a pessoa mais limpa por aqui.
A dra. Ahrens estava certa quando quis cauterizar meu nariz. Todo mundo aqui (até mesmo as menininhas) cheira terrivelmente mal, e isso que estamos no auge do inverno e faz um frio glacial. Não consigo imaginar como será a situação no verão. Todos aqui têm pulgas. Lady Imeyne para e se coça bem no meio de uma oração, e quando Agnes abaixou a meia, para me mostrar como estava o joelho, vi marcas vermelhas de mordidas em toda sua perna.
Eliwys, Imeyne e Rosemund têm rostos relativamente limpos, mas não lavam as mãos, mesmo depois de esvaziar o penico, e o conceito de lavar pratos e de trocar colchões ainda não foi inventado. Por essa infinidade de indícios, todos já deviam ter morrido de infecções mas, exceto pelo escorbuto e por muitos dentes estragados, todas as pessoas aqui parecem ter boa saúde. Mesmo o joelho de Agnes está sarando muito bem. Todos os dias ela vem me mostrar a casca da ferida. E sua fivela de prata, e seu cavaleiro de madeira, e o pobre do Blackie, amado em excesso.
Ela é um verdadeiro baú de informações, passando a maioria delas sem que eu precise pedir. Rosemund está “no ano treze”, o que significa que tem doze anos, e o quarto onde estão cuidando de mim é seu pavilhão. Custa imaginar que daqui a pouco ela terá idade para casar, e por isso tem direito a um “pavilhão de donzela”, mas nessa época com frequência as garotas eram casadas aos catorze ou quinze anos. Eliwys dificilmente devia ser mais velha do que isso quando casou. Agnes também me contou que tem três irmãos mais velhos, e que todos ficaram em Bath, com o pai.
O sino que toca a sudoeste é Swindone. Agnes sabe o nome de todos os sinos só ao ouvi-los tocar. Aquele mais distante e que sempre toca primeiro é o sino de Osney, o predecessor do Great Tom. Os sinos duplos ficam em Courcy, onde Sir Bloet mora, e os dois mais próximos são Witenie e Esthcote. Isso quer dizer que minha localização é próxima a Skendgate, e que o local bem poderia ser Skendgate. Tem alguns freixos, um tamanho aproximado, e a igreja fica no mesmo local. Acho que Montoya apenas não localizou ainda o campanário. Infelizmente, o nome do vilarejo é a única coisa que Agnes não sabe.
Ela sabia onde estava Gawyn. Contou que ele estava longe, perseguindo os malfeitores. “E quando achar vai acabar com eles, assim, com a espada”, disse ela, demonstrando com Blackie. Não tenho certeza de que seja possível confiar em tudo que ela me conta. Ela diz que o rei Eduardo está na França, e que o padre Roche viu o Diabo, todo vestido de preto e cavalgando um garanhão negro.
Essa última coisa é possível. (Que o padre tenha contado isso, não que tenha visto o Diabo.) A linha entre o mundo material e o mundo espiritual só foi traçada com clareza na Renascença, e os contemps têm o tempo todo visões de anjos, do Juízo Final e da Virgem Maria.
Lady Imeyne vive se queixando do quanto o padre Roche é iletrado, ignorante e incompetente. Ela continua tentando convencer Eliwys a mandar Gawyn trazer um padre para Osney. Quando pedi que chamasse o padre para rezar comigo (avaliei que tal pedido não poderia ser considerado ousado demais), Lady Imeyne me deu um recital de meia hora descrevendo como ele tinha esquecido uma parte do Venite, como apagava as velas soprando, em vez de apertar os pavios, o que gastava muita cera, e como vivia enchendo a cabeça dos servos com crendices supersticiosas (sem dúvida a respeito do Diabo e seu cavalo).
Padres de vilarejo, nos anos 1300, eram meros campônios que aprenderam a missa de cor, arranhando o latim. Para mim todos aqui cheiram igual, mas a nobreza via os seus servos como uma espécie totalmente diferente, e tenho certeza de que a alma aristocrática de Imeyne ficava ofendida ante a sugestão de confessar seus pecados a um mero aldeão!
Ele é sem dúvida tão supersticioso e iletrado quanto ela diz. Mas não é incompetente. Ele pegou na minha mão quando eu estava morrendo. Ele me disse para não ter medo. E eu não tive.
(Pausa)
Estou melhor, mesmo aos solavancos. Hoje à tarde passei meia hora sentada, e à noite desci para a ceia. Lady Eliwys trouxe para mim uma túnica marrom de lã rústica e um casaco solto cor de mostarda, além de uma espécie de lenço para cobrir meu cabelo curto (como não foi uma touca com coifa, Eliwys deve ainda pensar que eu sou uma donzela, a despeito de toda a tagarelice de Imeyne sobre as “dutras”). Só não sei se minhas roupas eram inadequadas ou boas demais para serem usadas no dia a dia. Eliwys não comentou nada. Ela e Imeyne me ajudaram a me vestir. Pensei em perguntar se podia me lavar antes de pôr as novas roupas, mas estou com medo de fazer qualquer coisa que possa deixar Imeyne ainda mais desconfiada.
Ela ficou espiando enquanto eu apertava os cordões e atava os cadarços, e não tirou os olhos de mim durante o jantar inteiro. Sentei entre as duas meninas e dividi com elas um pão enorme, seco, com a comida por cima. O caseiro foi relegado ao extremo oposto da mesa, e Maisry não foi vista em momento algum. De acordo com o sr. Latimer, o padre da paróquia comia na mesa do senhor, mas Lady Imeyne provavelmente não gosta também das maneiras do padre Roche à mesa.
Comemos carne, acho que de veado, e pão. A carne tinha gosto de canela, de sal e de falta de refrigeração, e o pão estava duro como pedra, mas era muito melhor do que aquele mingau, e acho que não cometi nenhum deslize.
Mesmo assim, tenho certeza de que estou cometendo deslizes o tempo todo, e é por isso que Lady Imeyne suspeita tanto de mim. Minhas roupas, minhas mãos, provavelmente a estrutura das minhas frases, estão ligeira ou nem tão ligeiramente assim equivocadas. Tudo isso contribui para que eu pareça estrangeira, peculiar — uma coisa suspeita.
Lady Eliwys está preocupada demais com o marido e com o julgamento para perceber meus equívocos, e as meninas são muito novas. Só que Lady Imeyne repara em tudo e está provavelmente compilando sobre mim uma lista semelhante à que tem sobre o padre Roche. Graças aos céus eu não disse que era Isabel de Beauvrier. Ela viajaria até Yorkshire, com ou sem inverno, para me flagrar na mentira.
Gawyn apareceu após a ceia. Maisry enfim deu as caras, com uma orelha avermelhada e trazendo uma tigela de madeira com cerveja clara, e arrastou os bancos mais para perto do fogo, que alimentou com alguns troncos de pinheiro, enquanto as mulheres cosiam à luz das chamas.
Gawyn surgiu e se deteve diante dos biombos, visivelmente de volta de uma jornada dura, e por um momento ninguém notou sua presença. Rosemund estava concentrada no bordado, Agnes puxava o carrinho para lá e para cá com o cavaleiro em cima, e Eliwys estava falando energicamente com Imeyne a respeito do aldeão, que ao que parece não se encontra muito bem. Como a fumaça da lenha fazia meu peito doer, afastei o rosto, tentando evitar a tosse. Foi quando vi Gawyn parado ali, olhando para Eliwys.
Depois de um instante, Agnes passou o carrinho por cima do pé de Imeyne, que declarou que ela era filha legítima do Demo, e Gawyn por fim entrou no salão. Abaixei os olhos e rezei para que ele se dirigisse a mim.
Ele fez isso, curvando um joelho diante do banco onde eu estava sentada.
— Boa dama, estou feliz em ver que melhorou — disse ele.
Eu não fazia ideia do que era apropriado dizer, se é que precisava dizer algo. Abaixei a cabeça ainda mais.
Ele continuou com um joelho pousado no chão, como um servo.
— Fiquei sabendo que não lembra nada a respeito dos seus agressores, Lady Katherine, é verdade?
— É verdade — murmurei.
— Nem dos seus servos, para onde podem ter fugido?
Abanei a cabeça, ainda de olhos baixos.
Ele se virou para Eliwys.
— Trago novidades sobre os bandidos, Lady Eliwys. Achei o rastro deles. Estavam em grande número e tinham cavalos.
Até então, meu medo era de ouvi-lo dizer que tinham capturado e enforcado algum pobre camponês que andava apanhando lenha.
— Peço a sua licença para perseguir o bando e vingar a dama — disse ele, olhando para Eliwys.
Eliwys parecia incomodada, cautelosa, tal como estava na visita anterior dele.
— Meu marido disse para esperarmos aqui até ele voltar. E incumbiu o senhor de ficar e nos proteger. Não parta.
— Ainda não ceou — disse Lady Imeyne num tom de quem dava o assunto por encerrado.
Gawyn ficou de pé.
— Agradeço sua bondade, senhor — disse eu, depressa. — Sei que me encontrou no bosque. — Respirei bem fundo e tossi. — Quero fazer um pedido, poderia me mostrar o lugar onde me achou?
Eu tinha tentado dizer coisas demais, e com muita pressa. Comecei a tossir, enchi demais os pulmões e logo estava me contorcendo de dor.
Quando enfim consegui controlar a tosse, Imeyne tinha servido carne e queijo na mesa para Gawyn, e Eliwys voltara a costurar, de modo que continuei sem saber de nada.
Não, não é verdade. Sei por que Eliwys parecia tão cautelosa quando Gawyn chegou e por que ele inventou aquela história sobre um bando de ladrões. E soube o que queria dizer toda aquela conversa a respeito de “dutras”.
Prestei atenção quando ele parou na porta, observando Eliwys, e não precisei de um intérprete para ler no seu rosto. Ele evidentemente está apaixonado pela esposa do seu senhor.