O Livro do Juízo Final
Capítulo 25
— Isso é impossível! — exclamou Dunworthy.
— Em 1348? — disse Mary, atônita. — Mas não pode ser. Esse é o ano da Peste Negra.
Ela não pode estar em 1348, pensou Dunworthy. Andrews dissera que o desvio máximo era de apenas cinco anos. Badri afirmara que as coordenadas de Puhalski estavam corretas.
— Em 1348? — repetiu Mary. Os olhos dela se ergueram até as telas acesas na parede por trás de Badri, como na esperança de que aquilo não passasse de um delírio. — Você tem certeza?
Badri fez que sim.
— Eu soube que tinha alguma coisa errada assim que vi o desvio… — começou ele, e soava tão atônito quanto Mary.
— Não pode ter havido um desvio tão grande a ponto de mandar Kivrin para 1348 — interrompeu Dunworthy. — Pedi para Andrews checar os parâmetros. Ele disse que o desvio máximo era de apenas cinco anos.
Badri abanou a cabeça.
— Não era esse o problema. O desvio foi de apenas quatro horas. Muito pequeno. O desvio mínimo num salto para um passado tão remoto devia ser de pelo menos quarenta e oito horas.
O desvio não tinha sido muito grande. Pelo contrário, tinha sido pequeno demais. Eu não perguntei a Andrews qual era o desvio mínimo, apenas o máximo.
— Não sei o que aconteceu — comentou Badri. — Tive tanta dor de cabeça. Durante todo aquele tempo de preparação da rede, parecia que eu ia explodir de dor de cabeça.
— Já era o vírus — observou Mary, que parecia atordoada. — Dor de cabeça e desorientação são os primeiros sintomas. — Ela desabou na cadeira ao lado da cama. — Em 1348 — repetiu.
Em 1348. Dunworthy parecia incapaz de assimilar aquilo. Tinha se preocupado com o risco de Kivrin pegar um vírus, tinha se preocupado com a possibilidade de um desvio muito grande e, durante o tempo todo, ela estava em 1348. A Peste tinha atingido Oxford em 1348. Na época do Natal.
— Assim que eu vi o quanto o desvio era pequeno, soube que tinha alguma coisa errada — prosseguiu Badri. — Então refiz as coordenadas…
— Você disse que tinha checado as coordenadas de Puhalski — afirmou Dunworthy, em tom de acusação.
— Puhalski era apenas um estagiário, um cara do primeiro ano. Nunca tinha operado um salto remoto. E Gilchrist não tinha a menor noção do que estava fazendo ali. Eu tentei dizer ao senhor. Ela não estava no reencontro? — Ele olhou para Dunworthy. — Por que não trouxeram ela de volta?
— Não sabíamos — respondeu Mary, ainda sentada e estupefata. — Você não conseguiu nos avisar nada. Estava delirando.
— A peste matou cinquenta milhões de pessoas — disse Dunworthy. — Matou metade da Europa.
— James — pediu Mary.
— Tentei dizer ao senhor — repetiu Badri. — Por isso fui à sua procura. Para que trouxéssemos Kivrin de volta antes que ela saísse do local.
Ele tentara dizer. Tinha saído em disparada até o pub. Tinha corrido sob a chuva sem casaco, para avisá-lo, abrindo caminho entre os compradores de última hora e suas sacolas de Natal e suas sombrinhas, como se eles não estivessem ali. Chegara ensopado, enregelado, os dentes chocalhando de febre. Tem alguma coisa errada.
Tentei dizer ao senhor. Tentou mesmo. “Matou metade da Europa”, falara ele, assim como “foram os ratos” e “em que ano estamos?”. Ele bem que tentou avisar.
— Se não foi o desvio, então deve ter sido um erro nas coordenadas — falou Dunworthy, agarrado à grade aos pés da cama.
Badri encolheu-se contra a pilha de travesseiros, como um animal acuado.
— Você disse que as coordenadas de Puhalski estavam corretas.
— James! — advertiu Mary.
— As coordenadas são a única outra coisa que pode dar errado! — gritou ele. — Qualquer outro problema abortaria o salto. Badri, você disse que checou as coordenadas duas vezes. Disse que não achou nenhum equívoco.
— E não achei — disse Badri. — Mas eu não confiava nos resultados. Estava com receio de que Puhalski tivesse cometido algum erro nas coordenadas siderais que não estivessem aparecendo. — O rosto dele ficou acinzentado. — Eu refiz todos os cálculos. Na manhã do salto.
Na manhã do salto. Quando ele estava com aquela dor de cabeça terrível. Quando já estava febril e desorientado. Dunworthy se lembrou de Badri debruçado sobre o console, digitando, o cenho franzido ao ler os números no monitor. Eu estava olhando enquanto ele operava, pensou. Eu fiquei parado olhando Badri mandar Kivrin para o ano da Peste Negra.
— Não sei o que aconteceu — prosseguiu Badri. — Eu devo ter cometido…
— A peste varreu do mapa vilarejos inteiros — cortou Dunworthy. — Morreu tanta gente que não ficou ninguém para sepultar os mortos.
— Deixe ele em paz, James — disse Mary. — Não foi culpa de Badri. Ele estava doente.
— Doente?! — repetiu Dunworthy. — Kivrin foi exposta ao vírus. Ela está em 1348.
— James! — repreendeu Mary.
Ele não esperou para ouvir o resto. Escancarou a porta e partiu pelo corredor.
Colin estava ali, balançando-se numa cadeira inclinada contra a parede, as duas pernas no ar.
— Oh, aí está o senhor — começou ele.
Dunworthy passou pelo garoto, apressado.
— Aonde está indo? — quis saber Colin, inclinando a cadeira para a frente com estrépito. — A tia-avó Mary me disse para não deixar o senhor sair sem tomar o seu reforço. — Ele se inclinou de lado, apoiou-se nas mãos e, com um giro do corpo, ficou de pé. — Por que não está usando trajes de proteção?
Dunworthy desapareceu pela porta.
Colin cruzou a porta, deslizando pelo piso.
— A tia-avó Mary me pediu para não permitir de jeito nenhum que o senhor saísse sem tomar o seu reforço.
— Não tenho tempo para isso — disse Dunworthy. — Ela está em 1348.
— A tia-avó Mary?
Dunworthy avançou pelo corredor.
— Kivrin? — perguntou Colin, apressando-se para emparelhar com ele. — Não pode estar. Esse foi o ano da Peste Negra, não foi?
Dunworthy abriu com força a porta que dava para as escadas e começou a descer os degraus de dois em dois.
— Não entendo — prosseguiu Colin. — Como ela pode estar em 1348?
Dunworthy empurrou a porta no pé da escada e seguiu pelo corredor até a cabine telefônica, remexendo nos bolsos à procura da pequena agenda dada por Colin.
— Como vão trazer ela de volta? — perguntou Colin. — O laboratório está interditado.
Dunworthy tirou a agenda do bolso e começou a virar as páginas. Tinha escrito o número de Andrews na parte de trás.
— O sr. Gilchrist não vai permitir a entrada no laboratório. Como pretende fazer? Ele disse que não deixaria o senhor colocar os pés lá dentro.
O número de Andrews estava na última página. Ele apanhou o aparelho.
— Se ele permitir a entrada, quem vai operar a rede? O sr. Chaudhuri?
— Andrews — respondeu Dunworthy, laconicamente, e começou a digitar o número.
— Pensei que ele não viria até aqui. Por causa do vírus.
Dunworthy pôs o receptor junto à orelha.
— Não vou permitir que ela fique lá.
Uma mulher atendeu.
— Aqui é o 24837 — disse ela. — H. F. Shepherds Ltda.
Dunworthy olhou sem compreender para a agenda em sua mão.
— Estou tentando falar com Ronald Andrews — começou ele. — Que número é esse?
— É o 24837 — disse a mulher, impaciente. — Aqui não tem ninguém com esse nome.
Ele bateu o fone com força.
— Que sistema mais estúpido! — vociferou, e começou a digitar o número de novo.
— Mesmo que ele aceite vir, como vocês vão encontrar Kivrin? — perguntou Colin, olhando por cima do ombro dele para a tela do aparelho. — Ela não vai estar lá, certo? O reencontro é só daqui a três dias.
Dunworthy escutou o toque do telefone na outra extremidade, enquanto imaginava o que Kivrin teria feito ao descobrir o ano em que estava. Teria voltado ao local do salto e esperado lá, sem dúvida. Se estivesse ao seu alcance. Se não tivesse adoecido. Se não tivesse sido acusada de trazer a peste para Skendgate.
— Aqui é 24837 — disse a mesma voz feminina. — H. F. Shepherds Ltda.
— Que número é esse? — gritou Dunworthy.
— É 24837 — respondeu ela, exasperada.
— Pois então! — vociferou Dunworthy. — É para esse número que estou ligando.
— Não, não é — disse Colin, estendendo o braço e apontando o número de Andrews rabiscado na página. — O senhor misturou os dígitos. — Ele tirou o fone da mão de Dunworthy. — Deixa eu tentar. — Ele digitou o número e devolveu o aparelho a Dunworthy.
O toque do telefone era diferente agora, mais distante. Dunworthy pensou em Kivrin. A peste não tinha se propagado simultaneamente por todos os cantos. Havia registros em Oxford durante o Natal, mas não havia como saber quando teria chegado a Skendgate.
Não houve resposta. Ele deixou o telefone tocar dez, onze vezes. Não conseguia se lembrar da direção tomada pela peste. Ela viera da França. Sem dúvida, isso indicava o leste, perto do Canal da Mancha. E Skendgate ficava a oeste de Oxford. Talvez não chegasse ali senão depois do Natal.
— Onde está o livro? — perguntou ele a Colin.
— Que livro? Sua agenda, quer dizer? Está aí.
— O livro que eu lhe dei no Natal. Por que não está com ele?
— Aqui? — perguntou Colin, perplexo. — Ele deve pesar uns cinco quilos.
Ainda não havia resposta. Dunworthy desligou, guardou a agenda e foi na direção da porta.
— Espero que carregue o livro com você o tempo todo. Não está vendo que estamos no meio de uma epidemia?
— O senhor está bem, sr. Dunworthy?
— Vá buscá-lo — respondeu Dunworthy.
— Como é?! Agora?!
— Agora. Volte ao Balliol e pegue o livro. Preciso saber quando foi que a peste chegou a Oxfordshire. Não à cidade. Aos vilarejos em volta. E de que direção ela veio.
— Para onde está indo? — perguntou Colin, andando ao lado dele.
— Vou fazer com que Gilchrist abra o laboratório.
— Se ele se recusou a abrir por causa do vírus, nunca vai abrir por causa da Peste — disse Colin.
Dunworthy abriu a porta e saiu para a rua. Chovia forte. Os manifestantes contra a Comunidade Europeia estavam amontoados embaixo da marquise do hospital. Um deles avançou em direção aos dois, estendendo um panfleto. Colin tinha razão. Revelar a origem do vírus a Gilchrist não surtiria nenhum efeito. Ele continuaria convicto de que o vírus tinha vindo através da rede e se recusaria a abri-la, com medo de que a peste brotasse por ali.
— Me dê uma folha de papel — pediu Dunworthy, procurando uma caneta nos bolsos.
— Uma folha de papel? — repetiu Colin. — Para quê?
Dunworthy arrebatou um panfleto da mão de um manifestante e começou a rabiscar no verso.
— O sr. Basingame está autorizando a abertura da rede — disse ele.
Colin espiou as linhas rabiscadas.
— Ele nunca vai acreditar nisso, sr. Dunworthy. No verso de um panfleto?!
— Então me dê uma folha de papel! — gritou ele.
Os olhos de Colin se arregalaram.
— Vou buscar — disse ele, para acalmar Dunworthy. — Espere aqui, viu? Não vá embora!
O garoto partiu como uma flecha prédio adentro e reapareceu imediatamente com algumas folhas de ofício. Dunworthy arrancou as folhas da mão dele e escreveu ali as instruções, assinando com o nome de Basingame.
— Corra e vá buscar seu livro. Encontro você no Brasenose.
— E o seu casaco?
— Não temos tempo — respondeu ele, dobrando duas vezes a folha de papel e guardando-a no bolso.
— Está chovendo. Não seria melhor tomar um táxi? — perguntou Colin.
— Não há táxis — disse Dunworthy, seguindo pela calçada.
— Sabe que a minha tia-avó Mary vai me matar, não sabe? — gritou Colin às suas costas. — Ela me encarregou de fazer o senhor tomar o reforço.
Dunworthy deveria ter tomado um táxi. Quando chegou ao Brasenose, a chuva se transformara num temporal que caía forte, em diagonal, e na próxima hora se tornaria neve. Ele estava congelado até a medula.
Pelo menos a chuva mandara embora os manifestantes. Diante do Brasenose restavam apenas alguns panfletos encharcados, largados no chão. Um portão retrátil de metal fora colocado diante da porta de entrada principal. O porteiro estava em sua guarita, com a janela fechada.
— Abra! — berrou Dunworthy, chacoalhando ruidosamente o portão. — Abra agora mesmo!
O porteiro ergueu a persiana e olhou para fora. Quando reconheceu Dunworthy, pareceu ficar alarmado e tomou uma atitude beligerante.
— Brasenose está em quarentena. O acesso está restrito — informou ele.
— Abra o portão agora mesmo — repetiu Dunworthy.
— Receio que não possa fazer isso, senhor — disse ele. — O sr. Gilchrist deu ordens para que ninguém tenha acesso ao Brasenose enquanto não for descoberta a origem do vírus.
— A origem do vírus já foi descoberta. Abra o portão — mandou Dunworthy.
O porteiro abaixou a persiana. Um minuto depois saiu da guarita e caminhou até o portão.
— Foram mesmo as decorações de Natal? — quis saber. — Andaram dizendo que os enfeites estavam infectados.
— Não — respondeu Dunworthy. — Abra o portão e me deixe entrar.
— Não sei se devo fazer isso, senhor — hesitou ele, parecendo pouco à vontade. — O sr. Gilchrist…
— O sr. Gilchrist não está mais no comando — interrompeu Dunworthy.
Ele puxou do bolso o papel dobrado e passou através da grade para as mãos do porteiro.
O funcionário desdobrou e leu o papel, parado sob a chuva.
— O sr. Gilchrist não é mais o diretor em exercício — avisou Dunworthy. — O sr. Basingame transferiu para mim a responsabilidade sobre o salto. Abra o portão.
— O sr. Basingame — repetiu o homem, olhando a assinatura já borrada. — Vou buscar as chaves — avisou.
Voltou a entrar na guarita, levando o papel consigo. Dunworthy encolheu-se contra o portão, evitando o mais que podia a chuva gelada e tremendo de frio.
Ele preocupado com a possibilidade de Kivrin ter que dormir num chão gelado… E ela no meio de uma carnificina, onde as pessoas morriam congeladas porque não havia ninguém em condições de ficar de pé e cortar lenha, e os animais pereciam nos campos porque não aparecia ninguém para cuidar deles. Oitenta mil mortos em Siena, trezentos mil em Roma, mais de cem mil em Florença. Metade da Europa.
O porteiro emergiu enfim com uma grande argola repleta de chaves e caminhou até o portão.
— Vou abrir num instante, senhor — disse, procurando a chave.
Kivrin sem dúvida correria de volta para o local do salto assim que descobrisse o ano em que estava. Devia estar lá este tempo todo, esperando a rede abrir, desesperada por não ter sido resgatada ainda.
Isso se descobrisse. Ela não tinha como saber que estava em 1348. Badri dissera a ela que o desvio deveria ficar em torno de vários dias. Ela verificaria a data do mês tendo como ponto de referência as festas do Advento, mas afora isso pensaria que estava mesmo na época planejada. Nunca lhe ocorreria perguntar a alguém em que ano estava. Para ela, seria 1320 e enquanto isso a Peste estaria circulando ao seu redor.
Houve um estalo na fechadura e o portão cedeu ao empurrão de Dunworthy, que abriu apenas o bastante para se esgueirar.
— Traga essas chaves — ordenou. — Preciso que abra o laboratório.
— A chave do laboratório não está aí — disse o porteiro, e desapareceu na guarita outra vez.
Fazia frio naquela passagem, e a chuva continuava caindo oblíqua, mais gelada ainda. Dunworthy encostou-se à porta da guarita, tentando aproveitar um pouco do calor que vinha de dentro, e enfiou as mãos com força no fundo dos bolsos, para que não tremessem mais.
Ele preocupado com degoladores e ladrões… e ela o tempo inteiro em 1348, onde os mortos eram empilhados no meio das ruas e as pessoas ensandecidamente queimavam na fogueira quem fosse judeu, quem fosse estranho.
Ele preocupado com o fato de Gilchrist ter se recusado a fazer a checagem de parâmetros… tão preocupado a ponto de contaminar com a sua ansiedade Badri, que já febril tentou refazer as coordenadas. Tão preocupado.
Ele percebeu de repente que o porteiro já tinha sumido há um tempo longo demais. Devia estar avisando Gilchrist.
Virou-se para a porta e nesse instante o porteiro apareceu, trazendo um guarda-chuva e praguejando contra o frio. Ofereceu um lado do guarda-chuva a Dunworthy.
— Já estou molhado mesmo — recusou Dunworthy e partiu na frente, atravessando o pátio.
A porta do laboratório estava interditada por uma fita amarela de plástico. Dunworthy rasgou a fita enquanto o porteiro procurava nos bolsos a chave magnética de desligar o alarme, passando o guarda-chuva de um braço para o outro.
Dunworthy ergueu a vista por cima dele até a direção dos aposentos de Gilchrist. Ficavam virados para o laboratório, e havia uma luz na janela da sala, mas Dunworthy não percebeu nenhum movimento.
O porteiro encontrou a chave magnética, desligou o alarme e passou a procurar a chave da porta.
— Ainda não sei ao certo se deveria abrir o laboratório sem o sr. Gilchrist mandar uma autorização pessoal — disse ele.
— Sr. Dunworthy! — berrou Colin, que cruzava o pátio correndo.
Os dois se viraram. Colin vinha a toda, ensopado de chuva e com um livro embaixo do braço, envolto no cachecol.
— A… peste… só… atingiu… partes… de… Oxfordshire… em… março! — anunciou ele, arquejando entre as palavras. — Desculpe. Eu… vim… correndo… de lá até aqui.
— Que partes? — perguntou Dunworthy.
Colin entregou o livro a ele e curvou o corpo para a frente, com as mãos nos joelhos, respirando fundo e com barulho.
— O… livro… não… diz.
Dunworthy desenrolou o cachecol e abriu o livro na página cujo canto superior fora dobrado por Colin, mas seus óculos estavam salpicados demais de chuva, e as páginas que abriu logo estavam encharcadas.
— O livro diz que a Peste começou em Melcombe e seguiu para o norte até Bath e dali para o leste — prosseguiu Colin. — Conta que a Peste chegou a Oxford durante o Natal e em Londres em outubro do ano seguinte, mas que partes de Oxfordshire foram atingidas apenas no final da primavera e que, em alguns vilarejos isolados, ela apareceu apenas em julho.
Dunworthy contemplava cegamente aquelas páginas ilegíveis.
— Isso não nos diz nada — disse ele.
— Eu sei — concordou Colin, endireitando o corpo e ainda ofegante. — Mas pelo menos não diz que a Peste já havia invadido Oxfordshire inteira por volta do Natal. Talvez Kivrin esteja num desses vilarejos onde a Peste só chegou em julho.
Dunworthy usou o cachecol para tirar o excesso de água das páginas e fechou o livro.
— A Peste se moveu rumo ao leste a partir de Bath — refletiu baixinho. — Skendgate fica bem ao sul da estrada entre Oxford e Bath.
O porteiro enfim se decidiu e enfiou a chave na fechadura.
— Liguei de novo para Andrews, mas ele não atendeu — falou Colin.
O porteiro abriu a porta.
— Como vai operar a rede sem um técnico? — indagou Colin.
— Operar a rede?! — exclamou o porteiro, ainda segurando a chave. — Eu pensei que o senhor estava vindo aqui para pegar alguns dados no computador. O sr. Gilchrist não permite que ninguém opere a rede sem autorização — disse, voltando a pegar a autorização de Basingame e olhando para a folha.
— Eu autorizo — sentenciou Dunworthy, e irrompeu laboratório adentro.
O porteiro foi atrás, mas o guarda-chuva aberto ficou preso na porta e ele tateou o cabo em busca do botão.
Colin agachou-se e passou por baixo do guarda-chuva, indo atrás de Dunworthy.
Gilchrist devia ter mandado desligar os aquecedores. O laboratório estava apenas um pouquinho menos frio do que lá fora, mas os óculos de Dunworthy, mesmo molhados, se embaçaram imediatamente. Ele os retirou do rosto e tentou limpar as lentes contra a lapela ensopada do paletó.
— Tome — disse Colin, estendendo um maço de papel. — É papel higiênico. Estou recolhendo para entregar ao sr. Finch. A questão é: vai ser bem difícil encontrar Kivrin mesmo se descermos no lugar certo e, como até o senhor disse, marcar o tempo e o local exatos é algo terrivelmente complicado.
— Nós já temos o lugar e o tempo exatos — respondeu Dunworthy, limpando as lentes com o papel higiênico. Voltou a colocar os óculos no rosto. Ainda estavam borrados.
— Receio que tenha que pedir aos dois para se retirarem — começou o porteiro. — Não posso permitir que permaneçam aqui sem que o sr. Gilchrist… — Ele se deteve.
— Oh, droga! — exclamou Colin. — É o sr. Gilchrist.
— O que significa isso? — perguntou Gilchrist. — O que estão fazendo aqui?
— Vim resgatar Kivrin — respondeu Dunworthy.
— Com autorização de quem? — quis saber Gilchrist. — Essa rede pertence ao Brasenose e isso é invasão de propriedade. — Ele se virou para o porteiro. — Eu dei ordens para que o sr. Dunworthy não tivesse acesso a nossas instalações.
— O sr. Basingame autorizou — se justificou o porteiro, estendendo a folha molhada.
Gilchrist arrebatou o papel.
— Basingame? — Ele olhou o papel. — Esta assinatura não é de Basingame! — exclamou, furioso. — Invasão de propriedade e falsificação de assinatura. Sr. Dunworthy, pode ter certeza de que vou registrar queixa. E, quando o sr. Basingame voltar, pretendo contar como…
Dunworthy avançou um passo na direção dele.
— E eu pretendo contar como o diretor em exercício se recusou a abortar um salto, como ele intencionalmente colocou em perigo a vida de uma historiadora, como ele se recusou a permitir acesso ao laboratório e como, em virtude disso, a localização temporal da historiadora não pôde ser determinada com precisão. — Ele fez um gesto indicando o console. — Sabe o que diz o fix? O fix que o senhor não deixou que fosse lido pelo meu técnico durante dez dias por causa de uma porção de imbecis que não entendem nada de viagem no tempo, inclusive o senhor? Sabe o que ele diz? Que Kivrin não está em 1320. Que está em 1348, bem no meio da Peste Negra. — Ele se virou e fez um gesto indicando os monitores. — E está lá há duas semanas. Por causa da sua estupidez. Por causa da… — Ele se deteve.
— O senhor não tem o direito de falar assim comigo — disse Gilchrist. — E não tem o direito de estar neste laboratório. Exijo que saia imediatamente.
Dunworthy não respondeu. Deu um passo na direção do console.
— Chame o inspetor — ordenou Gilchrist ao porteiro. — Quero que ponham esse invasor na rua.
O monitor não estava apenas vazio, estava apagado, bem como as luzes de função acima, no console. O botão POWER estava desligado.
— Vocês desligaram a energia — disse Dunworthy, e sua voz soou tão envelhecida quanto tinha soado a voz de Badri. — Vocês fecharam a rede.
— Sim — respondeu Gilchrist. — E estou vendo que foi uma providência correta, já que o senhor acha que tem o direito de entrar aqui sem autorização.
Dunworthy ficou com a mão estendida, cegamente, na direção do console, e cambaleou um pouco.
— Vocês fecharam a rede — repetiu.
— O senhor está bem, sr. Dunworthy? — perguntou Colin, dando um passo à frente.
— Achei que o senhor tentaria entrar aqui e abrir a rede — continuou Gilchrist —, já que parece não respeitar a autoridade de Medieval. Cortei a energia para impedir que isso acontecesse, e ao que parece fiz a coisa certa.
Dunworthy já ouvira falar em pessoas que desabavam ao ouvir uma má notícia. Quando Badri contara que Kivrin estava em 1348, ele não tinha sido capaz de absorver totalmente o sentido daquilo, mas esta nova notícia pareceu atingi-lo com força, fisicamente. Ele não conseguia respirar direito.
— Vocês fecharam a rede — repetiu de novo. — Vocês perderam o fix!
— O fix?! — exclamou Gilchrist. — Bobagem. Temos backups e tudo o mais, com certeza. Quando a energia voltar a ser ligada…
— Isso quer dizer que não sabem onde Kivrin está? — perguntou Colin.
— Exatamente — respondeu Dunworthy e, quando começou a cair, ainda teve tempo de pensar, vou cair sobre o console, como Badri, mas não caiu. Caiu devagar, quase como um amante, nos braços que Gilchrist estendeu para ampará-lo.
— Eu sabia — Dunworthy ouviu Colin dizer. — Isso é porque não tomou o reforço. Minha tia-avó Mary vai me matar.