O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 16 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 15

 

Kivrin se recuperou da pneumonia tão rápido que se convenceu de que tinha algo a ver com a ativação do seu sistema imunológico. A dor no peito cessou de repente, e o corte na testa sarou como que por mágica.

Imeyne a examinava cheia de desconfiança, como se achasse que Kivrin tinha fingido estar ferida, e Kivrin estava aliviada por ter insistido que o ferimento fosse verdadeiro.

— Deve agradecer a Deus por ter curado você neste dia de Sabbath — disse ela, em tom de reprovação, e se ajoelhou junto à cama.

Imeyne tinha ido à missa e estava usando o seu relicário de prata ao pescoço. Juntou toda a correntinha entre as palmas das mãos, exatamente como eu faço com o recorde, pensou Kivrin, e recitou o Paternoster, depois ficou de pé.

— Gostaria de ter ido à missa com vocês — disse Kivrin.

Imeyne fungou.

— Achei que você estava muito doente — alfinetou ela, com uma ênfase cheia de insinuações na palavra “doente”. — E não foi uma missa muito boa.

Ela lançou-se então numa descrição dos pecados do padre Roche: ele lera o Evangelho antes do Kyrie, sua alva estava manchada com cera de vela, ele esquecera uma parte do Confiteor Deo. Fazer aquela lista de erros parecia melhorar o seu humor e, ao terminar, Imeyne deu uns tapinhas na mão de Kivrin, dizendo:

— Você ainda não sarou completamente. Vai ficar na cama por mais um dia.

Kivrin obedeceu, usando aquele tempo para gravar observações, descrevendo a casa grande, o vilarejo, as pessoas que tinha conhecido até então. O caseiro apareceu com uma vasilha cheia do chá amargo da sua esposa. Era um homem moreno, troncudo, que parecia pouco à vontade no gibão dominical, com um cinto com fivela de prata rebuscado demais. Também apareceu um garoto da idade de Rosemund, para dizer a Eliwys que a pata dianteira da égua estava machucada. Já o padre não deu o ar da graça.

— Ele foi ouvir a confissão do aldeão — disse Agnes.

Agnes continuava sendo uma excelente informante, respondendo com presteza às perguntas de Kivrin, quer soubesse ou não as respostas, e distribuindo uma infinidade de informações sobre o vilarejo e seus moradores. Rosemund era mais calada, mais preocupada em parecer adulta.

— Agnes, é muito infantil falar assim. Precisa ficar de olho na língua — dizia ela reiteradas vezes, um comentário que felizmente não ocasionava a menor reação por parte de Agnes.

Rosemund chegou a falar sobre seus irmãos e sobre o pai, que “Prometeu que chegaria no Natal, sem falta”. Era visível que idolatrava o pai e sentia muito a falta dele. “Queria ser um menino”, comentou quando Agnes estava mostrando a Kivrin o penny de prata que ganhara de Sir Bloet. “Então eu teria ficado com papai em Bath.”

Tomando conta das meninas e juntando trechos das conversas de Eliwys e de Imeyne, somando tudo isso às suas próprias observações, Kivrin foi montando pouco a pouco o quebra-cabeça daquele vilarejo. Era menor do que Probabilidade havia previsto que seria Skendgate, pequeno até mesmo para um vilarejo medieval. Pelos cálculos de Kivrin, ali não haveria mais do que umas quarenta pessoas, incluindo a família de Lord Guillaume e a do caseiro, que tinha mais cinco filhos, além do bebê.

Havia dois pastores e vários camponeses, mas aquela era “a propriedade mais pobre de Guillaume”, contou Imeyne, ao lamentar outra vez que a família teria que passar ali a festa de Natal. A esposa do caseiro era a principal alpinista social, e a família de Maisry era aquela em que ninguém presta para nada. Kivrin gravava tudo, as estatísticas e as fofocas, mãos postas em sinal de prece toda vez que tinha uma chance.

A neve que começou naquele fim de tarde em que a trouxeram de volta para a casa grande continuou caindo a noite inteira e entrou pela tarde do dia seguinte, deixando uma camada de uns trinta centímetros. No primeiro dia em que Kivrin ficou de pé, choveu e ela teve a esperança de que o aguaceiro derretesse a neve, mas tudo que a chuva fez foi transformá-la em gelo duro.

Receava não ser mais capaz de identificar o local do salto sem a ajuda da carroça e das caixas como ponto de referência. Tinha que dar um jeito de perguntar a Gawyn, mas falar era mais fácil do que agir. Gawyn só entrava no salão para as refeições ou para perguntar alguma coisa a Eliwys e, como Imeyne estava sempre por ali e de olho quando ele aparecia, ela não se atrevia a abordá-lo.

Kivrin começou a levar as meninas para pequenos passeios, em volta do pátio, pelo vilarejo, na esperança de acabar cruzando com Gawyn, mas ele nunca estava no celeiro nem no estábulo. Gringolet também não. Kivrin chegou a se perguntar se o privé teria partido atrás dos ladrões, apesar das ordens de Eliwys, mas Rosemund disse que fora caçar.

— Está abatendo cervos para a festa do Natal — comentou ela.

Ninguém dava atenção aos lugares aonde ia com as meninas ou ao tempo que passavam juntas. Lady Eliwys anuiu distraidamente quando Kivrin perguntou se podia levá-las ao estábulo, e Lady Imeyne nem sequer disse a Agnes para se agasalhar melhor com a capa ou usar luvas. Era como se tivessem repassado as crianças para os cuidados de Kivrin e se esquecido delas.

Estavam todas muito atarefadas com os preparativos para o Natal. Eliwys recrutara as mocinhas e as anciãs locais, e agora estavam todas assando e cozinhando. Mataram dois porcos e mais da metade dos pombos, que também foram depenados. O pátio estava coberto de penas e com o cheiro de pão saindo do forno.

Nos anos 1300, o Natal era uma celebração de duas semanas, com festas e jogos e danças, mas Kivrin estava surpresa de ver que Eliwys manteria tudo, apesar das circunstâncias. Ela devia estar convicta de que Lord Guillaume chegaria mesmo para o Natal, cumprindo a promessa.

Imeyne supervisionou a limpeza da sala principal, queixando-se o tempo todo das precárias condições do local e da falta de ajudantes decentes. Pela manhã, ela trouxe o caseiro e outro homem para abaixar as pesadas mesas que estavam apoiadas à parede e deitá-las em cima dos cavaletes. No momento, supervisionava Maisry e uma mulher com o pescoço marcado pelas cicatrizes de escrófulas. As duas esfregavam a mesa com areia e escovas duras.

— Não tem mais lavanda — Imeyne informou a Eliwys. — E também não temos a quantidade certa de juncos novos para cobrir o chão.

— Vamos ter que nos contentar com o que temos, então — respondeu Eliwys.

— Também não temos açúcar para a ambrosia, e está faltando canela. Em Courcy, temos provisões de sobra. Seríamos bem recebidas por Sir Bloet.

Kivrin estava ajudando Agnes a calçar as botas e aprontando a garota para um novo passeio ao estábulo. Ergueu o rosto, alarmada.

— É uma viagem de apenas metade de um dia — disse Imeyne. — O capelão de Lady Yvolde será o responsável por celebrar a missa e…

Kivrin não ouviu o resto porque Agnes disse:

— Meu pônei se chama Sarraceno.

— Hmm — fez Kivrin, tentando escutar a conversa. Natal era uma época em que a nobreza costumava fazer visitas. Ela deveria ter pensado nisso antes. Eles reuniam todos os pertences e ficavam na casa de outra família por semanas, ou até a Epifania, pelo menos. Se fossem para Courcy, podiam querer ficar lá até bem depois da data marcada para Kivrin comparecer ao reencontro.

— Meu pai chamou ele assim porque Sarraceno tem um coração de pagão — acrescentou Agnes.

— Sir Bloet não vai ficar nada satisfeito quando souber que estivemos tão perto durante as festas de Yule e não fomos fazer uma visita — comentou Lady Imeyne. — Ele vai achar que o noivado está enfrentando problemas.

— Não podemos passar as festas de Yule em Courcy — se intrometeu Rosemund, que estava sentada no banco, de frente para Kivrin e Agnes, mas se levantou ao pronunciar aquelas palavras. — Papai prometeu que viria passar o Natal, sem falta. Ele ficaria aborrecido se chegasse e não nos encontrasse.

Imeyne virou-se carrancuda para Rosemund.

— Ele ficaria aborrecido se soubesse que as filhas estão tão mal-educadas que falam quando têm vontade e se metem em assuntos que não são da conta delas. — Ela se virou para Eliwys, que olhava tudo, preocupada. — Meu filho com certeza não demoraria a nos procurar em Courcy.

— Meu marido disse para esperarmos aqui até ele voltar — retorquiu Eliwys. — Ele vai ficar satisfeito ao ver que obedecemos.

Ela foi até o fogo e recolheu as costuras de Rosemund, pondo claramente um ponto final à conversa.

Mas não por muito tempo, pensou Kivrin, observando Imeyne. A velha contraiu os lábios com raiva e apontou um local da mesa. A mulher com pescoço marcado apressou-se a ir limpá-lo.

Imeyne não deixaria as coisas assim. Abordaria de novo o assunto, enfileirando um argumento atrás do outro, explicando que deviam ir para os domínios de Sir Bloet, que dispunha de açúcar, de juncos e de canela. E de um capelão letrado e capaz de rezar uma missa de Natal. Lady Imeyne estava firmemente decidida a não ouvir a missa rezada pelo padre Roche. E Eliwys estava cada vez mais preocupada à medida que o tempo ia passando. Talvez ela decidisse de repente ir até Courcy em busca de auxílio. Ou quem sabe até viajar de volta para Bath. Kivrin precisava achar o local do salto.

Atou as tiras penduradas da touca de Agnes e puxou o capuz do casaco para cobrir a cabeça dela.

— Eu montava o Sarraceno todos os dias, em Bath — disse Agnes. — Eu queria poder montar aqui também. Eu levaria meu cachorro.

— Cachorros não andam a cavalo — rebateu Rosemund. — Eles correm ao lado.

Agnes contraiu os lábios, com teimosia.

— Blackie é muito pequeno para correr.

— Por que você não pode montar aqui? — perguntou Kivrin, para contornar o conflito.

— Não tem ninguém para ir conosco — respondeu Rosemund. — Em Bath, uma ama e um dos privés do meu pai nos acompanhava.

Um dos privés do meu pai. Gawyn poderia acompanhá-las, assim ela teria uma oportunidade não só de perguntar onde era o local, como de ser levada até lá. Gawyn estava ali. Kivrin o vira no pátio naquela manhã, e por isso sugerira a visita ao estábulo. Mas poder cavalgar ao lado dele era melhor ainda.

Imeyne aproximou-se de onde Eliwys estava sentada.

— Se vamos mesmo continuar aqui, precisamos de caça para preparar a torta de Natal.

Lady Eliwys pousou sua costura de lado e ficou de pé.

— Vou pedir ao caseiro que vá caçar com seu filho mais velho — avisou ela, com calma.

— Nesse caso não vai restar ninguém para colher a hera e o azevinho.

— Padre Roche vai colher hoje — respondeu Eliwys.

— Ele colhe para a igreja. Não vai querer nenhuma planta para decorar o salão? — perguntou Imeyne.

— Nós podemos trazer — disse Kivrin.

Eliwys e Imeyne se voltaram ao mesmo tempo para olhar para ela. Um erro, pensou Kivrin. Estava tão concentrada em descobrir uma maneira de falar com Gawyn que esquecera todo o resto, e agora tinha falado sem que elas lhe dirigissem antes a palavra, metendo-se em assuntos que obviamente não lhe diziam respeito. Lady Imeyne ficaria ainda mais convencida de que devia ir pra Courcy e de que estava na hora de arranjar uma ama mais apropriada para as meninas.

— Peço desculpas se falei num momento impróprio, boa senhora — continuou ela, abaixando a cabeça. — Sei que há muitos preparativos e poucas pessoas para fazer tudo. Agnes, Rosemund e eu poderíamos ir até o bosque e trazer o azevinho, sem problema.

— Isso mesmo — disse Agnes. — Eu posso ir no Sarraceno.

Eliwys começou a dizer algo, mas foi interrompida por Imeyne:

— Então não tem medo do bosque, embora até bem pouco ainda estivesse ferida?

Erro em cima de erro. Ela, que dizia ter sido atacada e abandonada à morte, estava agora se oferecendo para voltar com duas meninas para o mesmo bosque.

— Não pretendia que fôssemos sozinhas — disse Kivrin, com a esperança de não estar piorando as coisas ainda mais. — Agnes me disse que já cavalgou por ali, acompanhada por um dos privés do seu marido.

— Sim! — gritou Agnes. — Gawyn pode ir com a gente, e Blackie também.

— Gawyn não está — disse Imeyne, e logo se virou para ficar observando as mulheres que raspavam e limpavam a mesa, e tudo ficou em silêncio.

— Para onde foi ele? — indagou Eliwys com tranquilidade, mas suas bochechas se inflamaram de vermelho.

Imeyne arrebatou um trapo das mãos de Maisry e começou a esfregar uma mancha da mesa.

— Ele foi fazer algo para mim.

— Mandou ele para Courcy — disse Eliwys, e era uma afirmativa, não uma pergunta.

Imeyne girou o corpo para encará-la.

— Não convém estarmos tão perto de Courcy e não mandar pelo menos um cumprimento. Sir Bloet pode pensar que o estamos evitando e, nos tempos atuais, não podemos nos dar ao luxo de atrair a irritação de um homem tão poderoso…

— Meu marido disse que não deveríamos dizer a ninguém onde estávamos — interrompeu Eliwys.

— Meu filho não nos ordenou causar desagrado a Sir Bloet, nem perder sua boa vontade, ainda mais agora que podemos vir a precisar muito dela.

— O que mandou Gawyn dizer a Sir Bloet?

— Pedi que transmitisse nossos cumprimentos — respondeu Imeyne, torcendo o trapo entre as mãos. — Pedi para avisar que ficaríamos felizes em recebê-los no Natal. — Ela ergueu o queixo, desafiadora. — Não havia outra coisa a fazer, já que as duas famílias em breve serão unidas pelo casamento. Eles vão trazer provisões para a festa, servos…

— E o capelão de Lady Yvolde para celebrar a missa? — indagou Eliwys, com frieza.

— Eles vêm para cá? — quis saber Rosemund, que tinha se levantado, derrubando o pano de costura no chão.

Eliwys e Imeyne olharam para ela com o rosto pálido, como se tivessem se esquecido de que havia mais alguém na sala, e então Eliwys se virou para Kivrin.

— Lady Katherine, não ia com as meninas colher as plantas para enfeitar o salão? — perguntou.

— Sem Gawyn não podemos ir — objetou Agnes.

— O padre Roche pode acompanhar vocês — disse Eliwys.

— Sim, boa senhora — falou Kivrin, pegando na mão de Agnes para saírem do salão.

— Eles vêm para cá? — voltou a perguntar Rosemund, e seu rosto estava tão vermelho quanto o da sua mãe.

— Eu não sei — respondeu Eliwys. — Vá com sua irmã e com Lady Katherine.

— Eu vou no Sarraceno — avisou Agnes, soltando-se da mão de Kivrin e disparando para fora.

Rosemund pareceu querer dizer alguma coisa e depois foi buscar a capa que estava guardada no espaço entre os biombos.

— Maisry, essa mesa já parece boa. Vá trazendo o saleiro e a baixela de prata que estão no baú do sótão — ordenou Eliwys.

A mulher com cicatrizes de escrófulas bateu em retirada e a própria Maisry não relutou em subir a escada. Kivrin pôs e amarrou a capa às pressas, antes que lady Imeyne dissesse mais alguma coisa sobre ser atacada, mas as duas mulheres continuaram em silêncio. As duas estavam de pé, e Imeyne continuava apertando e torcendo nas mãos aquele trapo, visivelmente à espera de que Kivrin e Rosemund se fossem dali.

— Será que…— disse Rosemund, e saiu correndo atrás de Agnes.

Kivrin apressou-se em seguir as meninas. Gawyn estava fora, mas ela obtivera permissão para ir ao bosque e conseguira transporte. Além disso, o padre iria com elas. Rosemund dissera que Gawyn tinha encontrado o padre na estrada, quando estava trazendo Kivrin para a casa grande. Talvez Gawyn tivesse levado o padre para mostrar a clareira.

Kivrin cruzou o pátio praticamente correndo até o estábulo, com medo de que Eliwys gritasse lá de cima a qualquer minuto, avisando que tinha mudado de ideia, que ela ainda não estava de todo recuperada, que o bosque era perigoso.

Parece que as garotas tinham pensado a mesma coisa. Agnes já estava montada no pônei, e Rosemund estava apertando a cilha da sela de sua égua. O pônei não era bem um pônei: era um vigoroso alazão, apenas um pouco menor do que a égua de Rosemund, e Agnes parecia incrivelmente alta naquela sela com espaldar alto. O garoto que viera avisar Eliwys sobre a pata da égua estava segurando as rédeas do animal.

— Não fique com essa cara, Cob! — disse Rosemund para ele. — Ponha a sela no ruão para Lady Katherine!

Ele com obediência largou as rédeas, que Agnes agarrou, depois de se inclinar muito para a frente.

— Não é a égua da minha mãe! — avisou Rosemund. — É o ruão!

— A gente vai até igreja, Sarraceno — começou Agnes —, avisar o padre Roche que vamos colher as plantas com ele e depois vamos galopar. Sarraceno adora galopar. — Ela se inclinou bastante, a fim de acariciar a crina curta do animal, e Kivrin teve que se conter para não tentar segurá-la.

A menina era visivelmente capaz de cavalgar sozinha. Nem Rosemund nem o garoto que estava selando o outro cavalo davam a Agnes a menor atenção. Mas ela parecia tão minúscula, encarapitada no alto daquela sela, com sua botinha de sola macia no estribo encurtado, e passava a impressão de ser tão capaz de cavalgar com segurança quanto de andar sem correr.

Cob terminou de selar o ruão e o conduziu para fora, onde ficou à espera.

— Cob! — berrou Rosemund, com rudeza. O garoto aproximou-se, curvou o corpo e cruzou com força os dedos das mãos. Rosemund apoiou o pé ali e com um impulso subiu para a sela. — Não fique aí parado como um bobo. Ajude Lady Katherine.

Ele se aproximou desajeitado, para ajudar Kivrin, que hesitou, imaginando o que haveria de errado com Rosemund. A garota estava visivelmente afetada pela notícia de que Gawyn tinha ido até a propriedade de Sir Bloet. Rosemund não parecia saber grande coisa sobre o julgamento em que seu pai estava envolvido, mas talvez soubesse bem mais do que Kivrin pensava, ou mesmo do que pensavam sua mãe e sua avó.

“Um homem tão poderoso quanto Sir Bloet”, mencionara Imeyne, e “ainda mais agora que podemos vir a precisar da boa vontade dele”. Talvez o convite de Imeyne não fosse tão egoísta quanto parecia. Talvez significasse que Lord Guillaume estava com um problema muito mais sério do que Eliwys imaginava, e Rosemund, sempre sentada quietinha e costurando, tinha percebido.

— Cob! — gritou Rosemund, embora ele estivesse apenas esperando que Kivrin se decidisse a montar. — Por causa de sua demora vamos nos perder do padre Roche.

Kivrin deu um sorriso para tranquilizar Cob, e pôs as mãos nos ombros do garoto. Uma das primeiras coisas que o sr. Dunworthy a forçara a fazer foram aulas de montaria, e ela se saíra bastante bem. A sela lateral não fora introduzida antes dos anos 1390, felizmente, e as selas medievais costumavam ter arção e patilha mais altos. Aquela sela era ainda mais alta, no espaldar, do que a sela usada por ela no treinamento.

Se alguém cair, é mais provável que seja eu do que Agnes, pensou ela, olhando a garota instalada com confiança no seu pônei. Não estava nem sequer se segurando: tinha o corpo virado para um lado, mexendo em alguma coisa nos alforjes presos à sela.

— Vamos, vamos logo! — pediu Rosemund, impaciente.

— Sir Bloet disse que vai me dar um cabresto de prata para Sarraceno — comentou Agnes, ainda mexendo nos alforjes.

— Agnes! Pare com essa demora e venha logo — insistiu Rosemund.

— Sir Bloet disse que vai trazer o cabresto quando vier passar a Páscoa aqui.

— Agnes! — chamou outra vez Rosemund. — Venha! Vai chover!

— Não, não vai — respondeu Agnes, despreocupada. — Sir Bloet…

Rosemund virou-se para a irmã, furiosa.

— Oh, então você agora manda no clima? Você não passa de um bebê! Um bebê chorão!

— Rosemund! Não fale assim com sua irmã — intercedeu Kivrin, aproximando-se da égua de Rosemund e segurando as rédeas jogadas distraidamente. — O que foi, Rosemund? Está preocupada com alguma coisa?

Rosemund puxou as rédeas com a mão, apertando com força.

— Só com o fato de nos atrasarmos aqui por dar ouvidos às bobagens desse bebê chorão.

Kivrin largou as rédeas, franzindo a testa, e deixou Cob cruzar os dedos para que ela pisasse e subisse na sela. Nunca tinha visto Rosemund agir daquela maneira.

Cavalgaram ao longo do pátio, passando pelas pocilgas agora vazias e saindo para a relva. Era um dia de nuvens carregadas, com uma faixa mais baixa de nuvens brancas e nada de vento. Rosemund tinha razão quando dizia que “vai chover”. Havia no ar frio uma textura úmida, empapada. Ela bateu os calcanhares no cavalo, fazendo-o apressar o passo.

Era visível que o vilarejo estava se preparando para o Natal. Subia fumaça de todas as cabanas e, lá no extremo do relvado, dois homens estavam partindo e jogando lenha numa pilha já alta. Um enorme pedaço de carne escurecida (a cabra?) estava assando num espeto sobre brasas ao lado da cabana do caseiro, cuja esposa estava parada diante da choupana, ordenhando a vaca magricela em que Kivrin se encostara no dia em que saiu sozinha para tentar achar o local do salto. Kivrin tivera uma séria discussão com o sr. Dunworthy para decidir se precisava ou não aprender a ordenhar. Ela argumentara que as vacas não eram ordenhadas durante o inverno nos anos 1300, que os contemps as deixavam secar e usavam leite de cabra para fazer queijo. Dissera também que cabras não eram usadas como alimento.

— Agnes! — disse Rosemund, furiosa.

Kivrin ergueu os olhos. Agnes detivera o cavalo e estava girando o corpo para trás e mexendo na sela outra vez. Obedientemente ela voltou a fazer o cavalo avançar, mas Rosemund disse “Não vou mais esperar por você, seu bebê!” e fustigou o cavalo, partindo a trote, espantando galinhas e quase derrubando uma menina descalça que passava com uma braçada de gravetos.

— Rosemund! — gritou Kivrin, mas a garota já estava fora do alcance da voz, e Kivrin não queria ir atrás dela e deixar Agnes sozinha.

— Sua irmã está aborrecida porque precisamos colher azevinho? — perguntou ela a Agnes, sabendo bem que a razão não era aquela, mas com a esperança de que a menina desse alguma informação nova.

— Ela é sempre do contra. Minha avó vai ficar furiosa se vir que ela está montando como uma criança — respondeu Agnes, passando a trotar decorosamente com seu pônei, cruzando o relvado, um modelo de maturidade, cumprimentando os aldeões com pequenos gestos da cabeça.

A menina que Rosemund quase tinha atropelado estava parada, olhando para elas com a boca aberta. A esposa do caseiro levantou a vista quando elas passaram, sorriu e continuou ordenhando, mas os homens que estavam partindo lenha tiraram os gorros e fizeram uma reverência.

Elas passaram na frente da cabana onde Kivrin se abrigara no dia que tentou encontrar o salto, a mesma onde fora parar justamente quando Gawyn estava trazendo todas as suas coisas para a casa grande.

— Agnes, o padre Roche estava com vocês quando foram buscar o madeiro de Yule? — indagou Kivrin.

— Estava — disse Agnes. — Ele tinha que abençoar.

— Oh — fez Kivrin, desapontada. Esperava que talvez ele tivesse ido com Gawyn para ajudar a trazer os pertences dela, e que assim soubesse onde era o local. — Alguém ajudou Gawyn a trazer as minhas coisas para a casa?

— Não — respondeu Agnes, e Kivrin não podia saber se estava falando a verdade ou não. — Gawyn é muito forte. Ele matou quatro lobos com a espada.

Isso parecia improvável, mas resgatar uma donzela perdida no bosque também. E era bem visível que ele era capaz de fazer qualquer coisa para conquistar o amor de Eliwys, mesmo que fosse preciso trazer aquela carroça na cabeça.

— O padre Roche também é forte — continuou Agnes.

— O padre Roche não está — avisou Rosemund, já apeada junto ao cavalo. Tinha amarrado as rédeas do animal num portão coberto e estava parada no pátio de entrada, com as mãos nos quadris.

— Olhou dentro da igreja? — perguntou Kivrin.

— Não — respondeu Rosemund, carrancuda. — Mas veja como o tempo esfriou. O padre Roche não é bobo de ficar aqui esperando que comece a nevar.

— Vamos olhar dentro da igreja — disse Kivrin, desmontando e estendendo os braços para pegar Agnes. — Venha, Agnes.

— Não — objetou Agnes, soando quase tão teimosa quanto a irmã. — Eu espero aqui com Sarraceno. — Deu pancadinhas de leve na crina dele.

— Sarraceno vai ficar bem — insistiu Kivrin, agarrando e trazendo a menina para o chão. — Vamos. Primeiro vamos olhar lá dentro. — Pegou a mão da pequena e abriu o portão coberto que dava acesso ao pátio.

Agnes não protestou, mas ficou o tempo todo olhando ansiosa para os cavalos, por cima do ombro.

— Sarraceno não gosta de ficar sozinho.

Rosemund parou no meio do pátio e olhou em volta, com as mãos nos quadris.

— O que está escondendo lá, sua pestinha? Roubou maçãs e escondeu nos alforjes?

— Não! — disse Agnes, alarmada, mas Rosemund já partia decidida rumo ao pônei. — Fique longe! O pônei não é seu! — gritou Agnes. — É meu!

Bem, não vamos precisar ir à procura do padre, pensou Kivrin. Se ele estiver aqui, vai sair para ver que barulho é este.

Rosemund estava desafivelando um alforje.

— Ora, ora! — disse ela, erguendo o cãozinho de Agnes pelo couro da nuca.

— Oh, Agnes! — exclamou Kivrin.

— Você é uma menina muito má — disse Rosemund. — Eu devia levar seu cão para o rio e afogá-lo. — Ela virou-se naquela direção.

— Não! — gritou Agnes, correndo para o portão coberto. Rosemund imediatamente ergueu o cachorrinho, tirando-o do alcance da irmã.

Isto já está indo longe demais, pensou Kivrin, caminhando até lá e tirando o cãozinho das mãos de Rosemund.

— Agnes, pare de gritar. Sua irmã não vai maltratar seu cão.

O cãozinho se agitava junto ao pescoço de Kivrin, tentando lamber seu rosto.

— Agnes, não se pode trazer um cão em cima de um cavalo. Blackie não conseguiria respirar dentro desse alforje.

— Eu posso carregar ele — disse Agnes, mas já sem muita esperança. — Blackie queria andar no pônei.

— Ele já deu um belo passeio até aqui — disse Kivrin, com firmeza. — E vai dar outro, até o estábulo. Rosemund, leve Blackie de volta para o estábulo. — Ele agora tentava morder sua orelha. Ela entregou o cãozinho a Rosemund, que o agarrou de novo pelo couro da nuca. — Ele ainda é bebê, Agnes. Tem que ir agora para perto da mãe e dormir.

— Você que é bebê, Agnes! — vociferou Rosemund, com tal fúria que Kivrin reconsiderou confiar-lhe o cãozinho. — Botar um cachorro em cima de um cavalo! E agora vamos perder ainda mais tempo para levar ele de volta! Só queria já crescer logo e não ter que ficar andando com bebês!

Ela montou, ainda segurando o cão pelo couro. No entanto, assim que se acomodou na sela, envolveu o filhote com ternura com a beira da capa, e o agasalhou junto ao peito. Tomou as rédeas com a mão livre e fez o cavalo dar meia-volta.

— O padre Roche com certeza já saiu a esta hora! — disse com raiva, e saiu galopando.

Kivrin receava que ela tivesse razão. Aquela barulheira seria o bastante para fazer levantar os mortos das suas tumbas, mas não apareceu ninguém na igreja. Ele sem dúvida devia ter saído antes da chegada delas, e agora estava longe. Ainda assim, Kivrin pegou Agnes pela mão e foi com ela para dentro da igreja.

— Rosemund é uma menina muito má — comentou Agnes.

Kivrin se sentiu inclinada a concordar com ela, mas não podia externar isso, assim como não podia defender Rosemund, de modo que não disse nada.

— E eu não sou um bebê — prosseguiu Agnes, erguendo os olhos para Kivrin em busca de confirmação, mas também não havia nada a ser dito.

Kivrin empurrou a pesada porta e olhou para dentro da igreja.

Não havia ninguém ali. A nave estava mergulhada numa escuridão quase total, porque o dia acinzentado lá fora mandava pouca luz através das janelas estreitas com seus vitrais. Apesar disso, a claridade que entrava pela porta aberta era suficiente para mostrar que o lugar estava vazio.

— Talvez ele esteja no presbitério — disse Agnes, passando por Kivrin. Ela entrou na nave, ajoelhou-se, fez o sinal da cruz, e olhou impaciente para Kivrin por cima do ombro.

Também não havia ninguém no presbitério. Dali Kivrin pôde ver que não havia velas acesas no altar, mas Agnes não ficaria satisfeita enquanto elas não revistassem a igreja por completo. Kivrin ajoelhou-se e também se persignou, e as duas andaram ao longo de um biombo de treliça que mergulhava na escuridão. As velas em frente à estátua de santa Catarina estavam apagadas. Kivrin podia sentir o cheiro pungente do sebo e da fumaça. Imaginou se o padre Roche as teria apagado antes de sair. O fogo devia ser um grande problema, mesmo para uma igreja de pedra, e ali não havia os pratinhos votivos onde as velas podiam arder protegidas até o fim.

Agnes foi direto ao final do biombo, pressionou o rosto contra uma abertura na madeira e gritou:

— Padre Roche! — Virou-se imediatamente e anunciou: — Não está aqui, Lady Kivrin, talvez esteja na casa dele! — avisou, e saiu correndo pela porta privativa do padre.

Kivrin estava certa de que Agnes não deveria estar fazendo aquilo mas, como não podia fazer mais do que segui-la, cruzou o pátio da igreja até a casa mais próxima.

Devia ser a do padre, porque Agnes já estava plantada diante da porta, berrando “Padre Roche!”. Além disso, é claro que a casa do padre devia ser perto da igreja, mas mesmo assim Kivrin estava surpresa.

A cabana era tão desconjuntada quanto aquela onde ela havia se abrigado, e não era muito maior. Era costume o padre receber um dízimo da colheita e da criação de gado, mas naquele espaço estreito não havia animal nenhum exceto algumas galinhas descarnadas, e meia braçada de lenha empilhada à frente.

Agnes tinha começado a bater à porta, que parecia tão frágil quanto a cabana, e Kivrin receou que a menina botasse a porta abaixo para entrar, mas antes que chegasse mais perto Agnes virou-se e disse:

— Talvez ele esteja no campanário.

— Não, acho que não — respondeu Kivrin, agarrando a mão de Agnes antes que ela disparasse pelos campos afora. Começaram a voltar para o portão coberto. — O padre Roche não vai tocar o sino agora, só nas vésperas.

— Ele pode querer — disse Agnes, inclinando a cabeça como se querendo escutar alguma coisa.

Kivrin também prestou atenção, mas não distinguiu nenhum som, e percebeu de repente que o sino a sudoeste tinha parado. Ele tocara quase ininterruptamente enquanto ela estivera com pneumonia, e também o ouvira quando foi ao estábulo pela segunda vez, à procura de Gawyn, mas não lembrava se depois disso tinha voltado a tocar ou não.

— Ouviu isso, Lady Kivrin? — perguntou Agnes, arrancando a mão dos dedos de Kivrin e disparando não em direção ao campanário, mas ao lado norte da igreja, que contornou. — Está vendo? — gritou, apontando o que acabava de avistar. — Ele não saiu!

Era o burrinho branco do padre, mastigando com placidez o capim que se projetava por entre a neve. Estava preso por uma corda e tinha vários sacos vazios jogados às suas costas, sacos obviamente destinados a recolher a hera e o azevinho.

— Ele está no campanário, eu sabia — disse Agnes, e correu outra vez para lá.

Kivrin seguiu a menina, dando a volta inteira à igreja e chegando ao pátio. Viu Agnes desaparecer no interior do campanário e esperou, pensando onde mais poderiam procurar por ele. Talvez estivesse cuidando de algum doente numa das cabanas.

Ela viu de relance um movimento através de uma janela da igreja. Uma luz. Talvez enquanto estavam olhando o burro, nos fundos, ele tivesse voltado pela frente. Ela empurrou a porta da entrada privativa do padre e olhou para dentro. Uma vela fora acesa aos pés da estátua de santa Catarina. Podia ver o fraco clarão aos pés da estátua.

— Padre Roche! — chamou, baixinho.

Não houve resposta. Ela deu um passo para dentro, deixando a porta se fechar às suas costas, e foi até a estátua.

A vela estava colocada entre os blocos de pedra que eram os dois pés da estátua. A face áspera e o cabelo de santa Catarina estavam mergulhados na sombra, erguendo-se de maneira protetora sobre a pequena silhueta que deveria representar uma criança. Kivrin abaixou-se e recolheu a vela. Tinha acabado de ser acesa. Nem sequer começara a derreter o sebo em volta do pavio.

Kivrin olhou ao longo da nave. Não conseguia enxergar nada só com a luz da vela que iluminava o chão e os pés da estátua de santa Catarina, deixando o resto da igreja em total escuridão.

Deu alguns passos, ainda segurando a vela.

— Padre Roche?

Tudo estava em silêncio no interior da igreja, tal como estivera no bosque no dia de sua chegada. Era silencioso demais, como se, de pé por trás do túmulo ou de alguma das pilastras, houvesse alguém esperando.

— Padre Roche! — disse em alto e bom som. — Está aí?

Não houve resposta, somente aquele silêncio contido, como se à espera. Não havia ninguém no bosque, pensou, e deu mais alguns passos dentro daquela área mais sombria. Não havia ninguém ao lado do túmulo. O marido de Imeyne jazia de mãos postas sobre o peito, a espada bem perto, pacífica e silente. Também não havia ninguém na porta. Agora ela podia ver, apesar da luz ofuscante da vela acesa. Não tinha ninguém ali.

Ela sentia o coração martelando como naquele dia do bosque, tão alto que podia cobrir o som de passos, ou de respiração, ou de alguém parado ali, à espera. Deu meia-volta, a chama traçando um rastro de fogo durante esse movimento.

Ele estava bem atrás dela. A vela quase se apagou. A chama diminuiu, crepitando, mas logo voltou a crescer, clareando o rosto de degolador, de baixo para cima, tal como fora com o lampião.

— O que quer? — perguntou Kivrin, sem fôlego, quase sem conseguir emitir aquelas palavras. — Como entrou aqui?

O degolador não respondeu. Ficou apenas olhando para ela do jeito que olhara na clareira. Não foi fruto da minha imaginação, pensou ela, assustada. Ele estava lá. Ele tinha tentado… o quê? Roubá-la? Estuprá-la? E foi afugentado por Gawyn.

Ela recuou um passo.

— Eu perguntei: O que quer? Quem é você?

Ela estava falando inglês moderno. Podia ouvir o idioma ecoando naquele espaço frio de pedra. Oh, não, pensou ela, tomara que o intérprete não quebre logo agora.

— O que está fazendo aqui? — indagou ela, forçando-se a falar mais devagar e ouvindo sua própria voz dizendo Whette wolde thou withe me?

Ele estendeu a mão para ela, uma mão enorme, suja e avermelhada, a mão de um degolador, como se quisesse tocar-lhe os cabelos bem curtinhos.

— Vá embora — disse ela, recuando mais um passo e esbarrando no túmulo. A vela se apagou. — Não sei quem é você nem o que quer, mas é melhor ir embora daqui. — Era inglês moderno de novo, mas não tinha importância, o que ele queria era atacá-la, era matá-la e onde estava o padre? — Padre Roche! — gritou ela, desesperada. — Padre Roche!

Um som ecoou da porta, uma batida forte e na sequência o raspar de madeira sobre pedra, até que Agnes escancarou a porta.

— Aí está você — disse Agnes, feliz. — Procurei você por toda parte.

O degolador olhou para a porta.

— Agnes! — gritou Kivrin. — Corra!

A menina ficou imóvel, a mão ainda apoiada na porta.

— Desapareça daqui! — berrou Kivrin, e percebeu com horror que continuava falando inglês moderno. Qual era a palavra para “corra”?

O degolador deu mais um passo até Kivrin, que se encolheu contra o túmulo.

— Renne! Fuja, Agnes! — bradou, e então a porta bateu com estrondo. Kivrin disparou pelo chão de pedra e cruzou a porta atrás da menina, largando a vela durante a corrida.

Agnes já estava quase no portão coberto, mas parou assim que Kivrin surgiu na porta e correu de volta em sua direção.

— Não! — gritou Kivrin, acenando que se afastasse. — Corra!

— É um lobo? — perguntou Agnes, de olhos arregalados.

Não havia tempo para explicar nem para convencê-la a correr. Os homens que vira cortando lenha já tinham ido embora. Ela pegou Agnes no colo e correu para os cavalos.

— Havia um homem mau na igreja — disse ela, acomodando a menina em sua sela.

— Um homem mau? — repetiu Agnes, ignorando as rédeas estendidas por Kivrin. — Foi um dos que atacaram você no bosque?

— Foi — respondeu Kivrin, tentando desatar as próprias rédeas. — Deve cavalgar o mais depressa possível para sua casa. Não pare por nada.

— Eu não vi ele — disse Agnes.

Provavelmente não. Como tinha vindo do lado de fora, não poderia enxergar muita coisa na igreja às escuras.

— Foi o mesmo homem que roubou suas coisas e suas roupas e machucou sua cabeça?

— Foi — confirmou Kivrin, segurando com firmeza as rédeas e tentando desamarrar o nó.

— O homem mau estava escondido no túmulo?

— Como é?! — perguntou Kivrin. Não conseguia desatar o nó, pois o couro estava muito seco. Olhou ansiosa para a porta da igreja.

— Eu vi você e o padre Roche perto do túmulo. O homem mau estava escondido no túmulo do meu avô?