O Livro do Juízo Final
Capítulo 14
Dunworthy dormiu sem interrupções até a manhã seguinte.
— Seu secretário quis acordá-lo, mas eu não deixei. Ele me pediu para entregar isto — disse Colin, estendendo uma papelada para ele.
— Que horas são? — perguntou Dunworthy, sentando meio entrevado na cama.
— Oito e meia — respondeu Colin. — Todas as sineiras e todos os detidos estão tomando o café da manhã no salão. Aveia. — Ele fez um som de engasgo. — É absolutamente necrótico. Aquele seu secretário disse que vamos ter que racionar os ovos e o bacon por causa da quarentena.
— Oito e meia da manhã — repetiu Dunworthy, piscando com olhos míopes na direção da janela. Estava tudo tão sombrio e melancólico como na hora em que ele adormecera. — Meu Deus, eu precisava ter voltado ao hospital para falar com Badri.
— Eu sei — disse Colin. — A tia-avó Mary pediu para deixar o senhor dormindo, porque de qualquer modo não poderia fazer perguntas a Badri. Ele está fazendo exames.
— Ela ligou? — perguntou Dunworthy, tateando na cabeceira em busca dos óculos.
— Eu fui lá de manhã cedo. Para fazer meu exame de sangue. A tia-avó Mary pediu para dizer que precisamos ir lá fazer exames somente uma vez por dia.
Ele enganchou as ponteiras dos óculos atrás das orelhas e olhou para Colin.
— Ela avisou se o vírus já foi identificado?
— Hm-hmmm — respondeu Colin, com uma protuberância na bochecha. Dunworthy ficou se perguntando se a bola de chiclete permanecera dentro da boca a noite inteira, e nesse caso por que não diminuíra de tamanho. — Ela mandou para o senhor essas listas de contato. — Estendeu a papelada para Dunworthy. — A senhora que encontramos na saída do hospital também ligou. Aquela da bicicleta.
— Montoya?
— Isso. Ela queria saber se o senhor sabe como entrar em contato com a esposa do sr. Basingame. Eu disse que o senhor ligaria para ela. Sabe quando o correio passa aqui?
— O correio? — indagou Dunworthy, remexendo na pilha de papéis.
— É. Minha mãe não teve tempo de comprar os presentes para mandá-los por mim — informou Colin. — Disse que enviaria pelo correio. Acha que a quarentena pode causar algum atraso?
Alguns dos papéis que Colin passara estavam com as folhas coladas, sem dúvida devido às pausas de Colin para examinar a goma de mascar, e a maioria da papelada não parecia ser listas de contatos, e sim vários memorandos enviados por Finch. Uma das saídas de aquecedor em Salvin estava bloqueada. O Serviço Nacional de Saúde ordenou todos os moradores de Oxford e arredores que evitassem contato com pessoas infectadas. O sr. Basingame estava em Torquay para passar o Natal. O papel higiênico estava acabando.
— O senhor não acha, não é mesmo? Que pode haver atraso?
— Atraso do quê? — perguntou Dunworthy.
— Do correio! — respondeu Colin, com desagrado. — A quarentena não pode atrasar as entregas, ou pode? A que horas o correio costuma passar?
— Às dez — disse Dunworthy, folheando os memorandos, colocando todos numa só pilha e abrindo um grande envelope pardo. — No Natal, normalmente atrasa um pouco por causa de todos os pacotes e cartões de Natal.
As páginas grampeadas dentro do envelope também não eram listas de contatos, mas o relatório de William Gaddson sobre as andanças de Badri e de Kivrin, digitado com clareza e organizado em seções de manhã, tarde e noite para cada dia. Parecia algo muito mais bem-feito do que qualquer trabalho já entregue por ele. Impressionante como a salutar presença de uma mãe pode significar um estímulo.
— Não sei por que é assim — continuava Colin. — Quer dizer, como não é gente nem nada, não é contagioso, certo? Quando passa, onde é colocado?
— O quê?
— O correio.
— Na portaria — disse Dunworthy, lendo o relatório sobre Badri.
Badri fora de novo ao local da rede na terça-feira à tarde, depois que esteve no Balliol. Finch conversara com ele às duas horas, quando Badri perguntou onde estava o sr. Dunworthy, e de novo um pouco antes das três, quando Badri lhe entregou o bilhete. A certa altura entre as duas e as três horas, John Yi, um aluno do terceiro ano, viu Badri cruzar o pátio e entrar no laboratório, aparentemente à procura de alguém.
Às três, o porteiro do Brasenose registrou a entrada de Badri, que trabalhou na rede até sete e meia. Depois, o técnico voltou para seu apartamento, trocou de roupa e foi à tal festa.
Dunworthy ligou para Latimer.
— Em que horário o senhor esteve na rede durante a tarde de terça-feira?
Latimer piscou atarantado para ele, da telinha.
— Terça? — indagou, olhando em volta como se tivesse perdido algo. — Isso foi ontem?
— Na véspera do salto — respondeu Dunworthy. — O senhor foi para a biblioteca Bodleian durante a tarde.
Ele aquiesceu.
— Ela queria saber como poderia dizer: “Socorro, fui atacada por ladrões”.
Dunworthy presumiu que “ela” se referia a Kivrin.
— O senhor e Kivrin se encontraram na Bodleian ou no Brasenose?
Ele pôs a mão no queixo, matutando.
— Tivemos que trabalhar noite adentro, decidindo a melhor maneira de pronunciar — respondeu ele. — A queda das inflexões pronominais já estava muito adiantada nos anos 1300, mas ainda não era completa.
— Kivrin veio se encontrar com o senhor aqui na rede?
— Na rede…? — repetiu Latimer, hesitante.
— No laboratório, no Brasenose — cortou Dunworthy.
— Brasenose? O serviço da véspera de Natal não vai ser no Brasenose, vai?
— O serviço da véspera de Natal?
— O vigário comentou que gostaria que eu fizesse a leitura da bênção — disse Latimer. — Vai ser mesmo no Brasenose?
— Não. O senhor se encontrou com Kivrin na tarde de terça-feira, para trabalhar na pronúncia dela. Onde foi o encontro?
— A palavra “ladrões” estava difícil de traduzir. Ela deriva do Inglês Antigo “theaf”, mas o…
Aquilo era absurdo.
— O serviço da véspera de Natal vai ocorrer na St. Mary the Virgin, às sete — disse Dunworthy, e desligou.
Ligou para o porteiro do Brasenose, que continuava decorando a árvore, e pediu que procurasse o nome de Kivrin nos registros de entrada. Não havia ocorrências da entrada dela ali na tarde de terça-feira.
Sentando em frente ao console, Dunworthy digitou as tabelas dos contatos, com os acréscimos mais recentes do relatório de William. Kivrin não vira Badri na terça. Terça de manhã, ela estivera no Hospital e logo em seguida com ele, Dunworthy. Na tarde da terça-feira, estivera com Latimer, e Badri já teria partido para sua festa em Headington, bem antes de ela e de Latimer saírem da biblioteca Bodleian.
Na segunda, das três em diante, Kivrin ficou no hospital, mas ainda havia um espaço vazio entre o meio-dia e as duas e meia, quando ela talvez pudesse ter encontrado Badri.
Dunworthy examinou as listas de contatos, que tinham preenchido de novo. A de Montoya tinha poucas linhas, com os contatos de quarta de manhã, mas nenhum da segunda e da terça, e nenhuma referência a Badri. Dunworthy se perguntou o porquê, e então se lembrou de que ela havia chegado depois que Mary passara as instruções de como preencher os formulários.
Talvez Montoya tivesse visto Badri antes da quarta-feira de manhã, ou talvez soubesse onde ele tinha passado aquele intervalo entre o meio-dia e as duas e meia da tarde de segunda.
— Quando a srta. Montoya ligou, ela deixou o número de telefone? — perguntou a Colin. Como não houve resposta, ergueu os olhos. — Colin?
Ele não estava no quarto nem no outro aposento, embora a mochila continuasse ali, com o conteúdo todo espalhado no tapete.
Dunworthy procurou o número de Montoya no Brasenose e ligou para lá, sem esperar uma resposta. Se ela ainda estava à procura de Basingame, isso significava que não tinha conseguido permissão para ir até a escavação, e estaria sem dúvida no SNS ou no National Trust, sacudindo todos até que declarassem o sítio de “valor incomparável”.
Vestiu-se e foi até o salão, procurando Colin. Continuava chovendo, e o céu tinha o mesmo cinza encharcado das pedras do pavimento e da casca das árvores. Ele tinha a esperança de que as sineiras e os funcionários já tivessem tomado café e se retirado, mas era uma esperança vã. Começou a ouvir a confusão de vozes antes de chegar à metade do pátio.
— Graças aos céus que chegou, senhor — disse Finch, indo encontrá-lo na porta. — O SNS acabou de ligar. Eles querem mandar mais vinte pessoas.
— Diga a eles que não podemos — respondeu Dunworthy, olhando a multidão por alto. — Recebemos ordens de não entrar em contato com pessoas infectadas. Você viu o sobrinho da dra. Ahrens?
— Estava bem aqui — comentou Finch, olhando por cima das cabeças das mulheres, mas a essa altura Dunworthy já localizara o garoto. Estava na ponta da longa mesa cheia de sineiras, e passava manteiga numa pilha de torradas.
Dunworthy foi até lá.
— Quando a srta. Montoya ligou, ela disse como podia ser contatada?
— Aquela da bicicleta? — indagou Colin, passando marmelada por cima da manteiga.
— Isso.
— Não, ela não disse.
— Vai querer café da manhã, senhor? — quis saber Finch. — Receio que não haja mais bacon nem ovos, e estamos ficando com pouca marmelada… — acrescentou, fazendo uma cara feia para Colin. — Mas temos aveia e…
— Chá, somente — cortou Dunworthy. — Ela não mencionou de onde estava ligando?
— Sente-se — disse a sra. Taylor. — Estou precisando muito falar com o senhor a respeito do nosso “Chicago Surprise”.
— O que foi exatamente que Montoya disse? — perguntou Dunworthy a Colin.
— Que ninguém ligava para o fato de que sua escavação estava sendo arruinada e que um elo insubstituível com o passado estava se perdendo. Também comentou que tipo de pessoa era capaz de sair para pescar em pleno inverno — respondeu Colin, raspando a marmelada das faces internas da tigela.
— Estamos quase sem chá — disse Finch, servindo a Dunworthy uma xícara bastante pálida.
Dunworthy sentou à mesa.
— Gostaria de um pouco de chocolate, Colin? Ou um copo de leite? — perguntou.
— Estamos quase sem leite — se intrometeu Finch.
— Não quero nada, obrigado — disse Colin, apertando uma fatia de torrada contra a outra. — Vou levar isto aqui comigo e estarei na portaria, esperando o correio.
— O vigário telefonou — disse Finch. — Pediu para avisar que o senhor só precisa ficar lá no serviço religioso até seis e meia.
— Vão manter o serviço de véspera de Natal? — indagou Dunworthy. — Não acho que muita gente vai aparecer, nestas circunstâncias.
— Ele disse que o Comitê Intereclesiástico votou pela manutenção, mesmo assim — informou Finch, pondo um quarto de colher de chá de leite na palidez do chá e estendendo a xícara para ele. — Ele acredita que dar seguimento a todos os procedimentos usuais ajuda a manter o moral elevado.
— Vamos executar diversas peças nas sinetas — acrescentou a sra. Taylor. — Não substitui um dobre de sinos de verdade, é claro, mas já é alguma coisa. O padre da Sagrada Igreja Re-Formada vai ler trechos da “Missa em Tempo de Peste”.
— Ah! — exclamou Dunworthy. — Vai ajudar a subir o moral, sem dúvida.
— Vou ter que ir? — perguntou Colin.
— Ele não tem por que sair daqui, nesta chuva — disse a sra. Gaddson, aparecendo como uma harpia, com uma grande tigela de mingau de aveia, que colocou à frente de Colin. — E também não tem por que ficar se expondo aos germes nas correntes de ar de dentro de uma igreja. Ele pode ficar aqui comigo durante o serviço religioso — sentenciou ela, puxando uma cadeira e sentando-se atrás dele. — Sente e coma seu mingau.
Colin olhou para Dunworthy, desamparado.
— Colin, eu deixei o número do telefone da srta. Montoya nos meus aposentos. Você poderia dar um pulo lá em cima e pegá-lo para mim?
— Claro! — exclamou o garoto, e sumiu em disparada.
— Quando esse menino pegar a gripe indiana — começou a sra. Gaddson —, espero que o senhor se lembre de que estimulou os deploráveis hábitos alimentares dele. Para mim, está mais do que claro o que causou esta epidemia. Má nutrição e uma completa falta de disciplina. É uma desgraça o modo como estão administrando este lugar. Pedi para ficar próxima do meu filho William, mas me designaram um quarto num prédio completamente diferente e…
— Receio que terá que resolver a questão com Finch — cortou Dunworthy, ficando de pé e embrulhando num guardanapo as torradas com marmelada de Colin. — Estão precisando de mim na Emergência — anunciou, e escapuliu antes que a sra. Gaddson pudesse recomeçar.
Voltou para os seus aposentos e ligou para Andrews. A linha deu ocupada. Ligou para o número da escavação, contando com a remota chance de que Montoya tivesse conseguido uma autorização para sair da quarentena, mas ninguém atendeu. Ligou para Andrews mais uma vez. Por incrível que pareça, a linha estava livre. Tocou três vezes e caiu na caixa postal.
— Aqui é o sr. Dunworthy — disse ele, que hesitou antes de passar o número dos seus aposentos. — Preciso falar com você imediatamente. É importante.
Desligou, guardou o aparelho no bolso, pegou o guarda-chuva e a torrada de Colin, e atravessou o pátio.
Colin estava encolhido sob um abrigo ao lado da portaria, olhando com ansiedade a estrada que conduzia a Carfax.
— Estou indo à Emergência para ver o técnico que trabalha para mim e conversar com sua tia-avó Mary — avisou Dunworthy, estendendo o embrulho feito com o guardanapo. — Gostaria de ir comigo?
— Não, obrigado — agradeceu Colin. — Não quero perder o correio.
— Bem, por tudo neste mundo, vá lá em cima e volte de casaco, antes que a sra. Gaddson venha lá de dentro encher os seus ouvidos.
— A chata já veio — disse ele. — Tentou me obrigar a usar um cachecol. Um cachecol! — Ele voltou a olhar com ansiedade para a rua. — Ignorei ela.
— Não tinha pensado nisso — comentou Dunworthy. — Devo voltar a tempo para o almoço. Se precisar de alguma coisa, peça a Finch.
— Mmmm — fez Colin, visivelmente sem ouvir nada.
Dunworthy ficou pensando no que a mãe do menino estaria enviando para merecer tamanha devoção. Com certeza não era um cachecol.
Ele enrolou o próprio cachecol em volta do pescoço e partiu na direção da Emergência, embaixo de chuva. Havia poucas pessoas na rua, e todas se mantinham afastadas. Uma mulher chegou a descer da calçada para não passar perto demais de Dunworthy.
Se não fosse pelo carrilhão que badalava, “It Came Upon the Midnight Clear”, ninguém faria ideia de que era véspera de Natal. Não havia um só pedestre carregando presentes ou pinheirinhos, não havia ninguém com pacotes de qualquer espécie. Era como se a quarentena tivesse nocauteado e apagado completamente a noção de Natal daquelas mentes.
Bem, e não era assim mesmo? Ele próprio nem sequer cogitara comprar presentes ou montar uma árvore. Pensou em Colin encolhido junto à portaria do Balliol à espera do correio, e desejou que a mãe do garoto tivesse pelo menos se lembrado de mandar seus presentes. Quando voltasse deveria parar em algum lugar e achar uma lembrança para Colin, um brinquedo, um vid, alguma coisa assim, tudo menos um cachecol.
Na Emergência, foi imediatamente conduzido para a Ala de Isolamento e levado para falar com os casos mais recentes.
— É essencial que possamos estabelecer uma conexão com alguém dos Estados Unidos — disse Mary. — Há um empecilho junto ao CMI. Não há ninguém de plantão que seja capaz de fazer o sequenciamento, por causa do feriado. Claro que em teoria eles estão a postos o tempo inteiro, mas parece que é depois do Natal que costumam enfrentar problemas: intoxicações alimentares, excessos que se disfarçam de vírus. Por isso, nos dias anteriores, eles procuram se poupar. De qualquer modo, o CCD em Atlanta concordou em mandar um protótipo da vacina para o CMI sem uma identificação positiva, mas eles não podem começar a fabricar enquanto não tivermos uma conexão nítida.
Ela conduziu Dunworthy ao longo de um corredor cheio de cordões de isolamento.
— Todos os casos se assemelham com o perfil do vírus da Carolina do Sul: febre alta, dores no corpo, complicações pulmonares secundárias, mas infelizmente isso não prova nada ainda. — Ela parou à entrada de uma ala do hospital. — Você achou alguém dos Estados Unidos entre os contatos de Badri que possa ser uma conexão?
— Não, mas ainda há muitas lacunas. Quer que eu fale com ele também?
Ela hesitou.
— Ele está pior — deduziu Dunworthy.
— Está. Ele desenvolveu uma pneumonia. Não sei se vai conseguir dizer alguma coisa. A febre continua muito alta, o que corresponde ao perfil. Estamos aplicando antimicrobiais e adjuvantes a que o vírus da Carolina do Sul é sensível. — Ela abriu a porta, dando acesso àquela ala. — Esta tabela aqui registra todos os últimos casos recebidos. Pergunte à enfermeira encarregada qual é a cama em que cada um está. — Ela digitou apressadamente alguma coisa no console aos pés da primeira cama. Na tela se acendeu um gráfico que se ramificava e se entrelaçava, como as grandes faias do pátio. — Você não se incomoda de cuidar de Colin por mais uma noite, não é?
— Nem um pouco.
— Oh, que bom. Duvido muito que eu possa voltar para casa antes de amanhã, e ficaria preocupada se ele tivesse que ficar sozinho no apartamento. Ao que tudo indica, a única pessoa que dá importância a isso sou eu — disse ela, zangada. — Enfim consegui falar com Deirdre em Kent, e ela não estava nem um pouco apreensiva. “Oh, estão de quarentena?”, perguntou ela. “Ando tão atarefada que nem vi as notícias.” E aí começa a me contar dos planos que faz com o cara que vive com ela, sugerindo com muita clareza que não teria muito tempo para dedicar a Colin e que estava feliz por se ver livre dele. Em alguns momentos, chego a me convencer de que ela não é minha sobrinha.
— Será que ela enviou os presentes de Colin? Sabe algo a respeito? Ele disse que chegariam pelo correio.
— Tenho certeza de que ela estava ocupada demais para comprar, quanto mais para despachar no correio. Na última vez que Colin passou o Natal comigo, o presente dele só chegou na Epifania. Ah, por falar nisso, você sabe o que aconteceu com a minha sacola de compras? Os meus presentes para Colin estão lá.
— Está comigo no Balliol — respondeu ele.
— Oh, que bom. Não acabei de fazer minhas compras, mas se você embrulhar direitinho o cachecol e as outras coisas, ele vai ter algo embaixo da árvore, não é mesmo? — Ela ficou de pé. — Se achar qualquer conexão possível, me comunique imediatamente. Como pode ver, já localizamos muitos dos contatos secundários de Badri, mas essas pessoas podem ser apenas ligações cruzadas enquanto a conexão fundamental está em mais alguém.
Assim que Mary saiu, Dunworthy sentou junto à cama da mulher com a sombrinha cor de lavanda.
— Sra. Breen? — chamou ele. — Receio que precise me responder algumas perguntas.
O rosto dela estava muito vermelho, e a respiração soava difícil como a de Badri, mas ela respondeu sem pestanejar e com clareza. Não, não fora aos Estados Unidos no mês passado. Não, não conhecia nenhum norte-americano nem ninguém que tivesse posto os pés nos Estados Unidos. Tomara o metrô em Londres para passar o dia fazendo compras, “Na Blackwell, sabe?”, e percorrera Oxford inteira entrando em lojas, e depois caminhara para a estação do metrô, e lá havia pelo menos umas quinhentas pessoas com quem entrara em contato e que podiam ser a conexão que Mary estava buscando.
Dunworthy ficou ocupado até depois das duas horas, até conseguir interrogar os contatos primários e somar outros contatos à lista. Nenhum era o contato dos Estados Unidos, embora tenha descoberto que havia mais duas pessoas que foram à festa em Headington.
Ele subiu para a Ala de Isolamento mesmo sem muita esperança de que Badri pudesse responder a alguma pergunta, mas encontrou o técnico com uma aparência melhor. Estava dormindo quando Dunworthy entrou, mas a um toque leve na mão seus olhos se abriram e focaram-se nele.
— Sr. Dunworthy — disse ele, com voz fraca e rouca. — O que está fazendo aqui?
Dunworthy sentou junto da cama.
— Como está se sentindo?
— É esquisito, as coisas que a gente sonha. Eu pensei… eu tive tanta dor de cabeça…
— Preciso fazer algumas perguntas, Badri. Você se lembra de quem viu na festa em Headington?
— Havia tanta gente — respondeu ele, e engoliu, como se a garganta doesse. — A maioria eu não sei quem era.
— Lembra quem tirou para dançar?
— Elizabeth… — começou ele, quase coaxando. — Sisu qualquer coisa, não sei o sobrenome dela — murmurou ele. — E Elizabeth Yakamoto.
Aproximou-se deles a enfermeira de rosto lúgubre.
— Está na hora do seu raio X — disse ela, sem olhar para Badri. — Precisa sair, sr. Dunworthy.
— Pode me dar somente mais alguns minutos? É importante — pediu ele, mas ela já estava tamborilando em cima do console com as chaves.
Ele se inclinou sobre a cama.
— Badri, quando você conseguiu o fix, de quanto foi o desvio?
— Sr. Dunworthy — insistiu a enfermeira.
Dunworthy a ignorou.
— Foi um desvio maior do que você esperava?
— Não — respondeu Badri, com a voz carregada. Levou a mão à garganta.
— De quanto foi o desvio?
— Quatro horas — sussurrou Badri, e Dunworthy permitiu que fosse conduzido para fora.
Quatro horas. Kivrin dera o salto ao meio-dia e meia. Isso a jogaria para quatro e meia, perto do pôr do sol, mas ainda com luz bastante para que pudesse ver onde estava, tempo suficiente até para ir andando até Skendgate, se necessário.
Foi à procura de Mary e passou os nomes das duas garotas com quem Badri tinha dançado. Mary checou a lista com as últimas internações. Como nenhuma delas estava lá, Mary disse a ele que podia ir para casa, depois de lhe tirar a temperatura e o sangue para que não precisasse voltar de novo. Dunworthy estava pronto para sair quando Sisu Fairchild foi trazida. Não conseguiu chegar em casa senão na hora do chá.
Colin não estava nem na portaria nem no salão principal, onde Finch se lamentava por estar quase sem manteiga e açúcar.
— Onde está o sobrinho da dra. Ahrens? — perguntou Dunworthy.
— Esperou junto à portaria a manhã toda — informou Finch, contando com ansiedade os torrões de açúcar. — O correio passou somente por volta de uma da tarde, e depois ele foi até o apartamento da tia-avó para ver se a remessa não teria sido enviada para lá. Percebi que não foi, pois ele voltou muito abatido, e então, cerca de meia hora atrás, ele disse de repente, “Acabei de pensar uma coisa”, e disparou. Talvez tenha pensado em algum outro lugar para onde pudessem ter mandado a remessa.
Mas não tem remessa, pensou Dunworthy.
— A que horas fecham as lojas hoje? — perguntou ele a Finch.
— Numa véspera de Natal?! Oh, já fecharam, senhor. Sempre fecham cedo na véspera de Natal, e algumas lojas chegam a fechar ao meio-dia por falta de clientes. Senhor, tenho aqui certo número de mensagens…
— Vão ter que esperar — interrompeu Dunworthy, recolhendo o guarda-chuva e partindo outra vez.
Finch estava certo. As lojas estavam todas fechadas. Ele desceu até a Blackwell, imaginando que pelo menos a livraria estaria aberta, mas encontrou tudo trancado também. Já tinham tirado toda a vantagem das vendas possíveis naquela situação, contudo. Na vitrine, bem arrumados entre casas cobertas de neve num vilarejo vitoriano de brinquedo, viam-se livros médicos de autoajuda, compêndios sobre remédios e um livro de bolso em cores berrantes intitulado O riso é o caminho para uma saúde perfeita.
Por fim, Dunworthy encontrou uma agência dos correios ainda aberta em High, mas ali só havia cigarros, doces baratos e um mostruário cheio de cartões de felicitações, nada que pudesse ser dado de presente a um garoto de doze anos. Ele saiu sem comprar nada mas depois voltou e comprou o equivalente a uma libra esterlina em caramelos, uma bola de goma de mascar do tamanho de um pequeno asteroide e alguns pacotinhos de balas que pareciam tabletes de sabão. Não era muito, mas Mary tinha dito que comprara outras coisas.
As outras coisas revelaram-se um par de meias de lã cinzenta, ainda mais medonhas do que o cachecol, e um vid de enriquecimento de vocabulário. Havia Christmas crackers, pelo menos, e folhas de papel de presente, mas um par de meias e um monte de caramelos dificilmente seriam um bom presente de Natal. Ele olhou em volta no escritório, procurando algo que pudesse servir.
Colin tinha dito “Apocalíptico!” quando Dunworthy contou que Kivrin estava na Idade Média. Ele tirou da estante A Era da Cavalaria. Tinha apenas ilustrações comuns, nenhuma holo, mas era o melhor que podia conseguir sem muita antecedência. Embrulhou às pressas o livro e o resto dos presentes, trocou de roupa, e apressou-se na direção da St. Mary the Virgin embaixo de um aguaceiro, correndo de cabeça baixa através do pátio deserto da Bodleian e tentando evitar o jorro das calhas sobre a rua.
Ninguém em perfeito juízo compareceria àquele serviço religioso. No ano anterior o tempo estava seco, e ainda assim a igreja contava apenas com metade da ocupação. Kivrin estava com ele. Tinha ficado ali durante o feriado para estudar, e ele a encontrara na Bodleian e insistiu para que ela tomasse um xerez na festa de despedida e depois fosse à igreja.
— Eu não devia estar fazendo isso — disse ela, a caminho da igreja. — Devia estar pesquisando.
— Pode pesquisar lá na St. Mary the Virgin. Foi construída em 1139 e continua tudo como era na Idade Média, inclusive o sistema de aquecimento.
— O serviço ecumênico também é autêntico, imagino — alfinetou ela.
— Não tenho dúvida de que em espírito é tão bem-intencionado e tão repleto de tolices quanto qualquer missa medieval — respondeu ele.
Dunworthy se apressou na descida no caminho estreito perto do Brasenose e abriu a porta da St. Mary, deixando sair um hausto de ar quente. Seus óculos se embaçaram. Ele se deteve no nártex e limpou as lentes na ponta do cachecol, mas voltaram a se embaçar no mesmo instante.
— O vigário está procurando pelo senhor — avisou Colin. Usava casaco e camisa, e o cabelo estava penteado. Estendeu para Dunworthy um missal de uma grande pilha que carregava.
— Pensei que você ficaria no alojamento — disse Dunworthy.
— Com a sra. Gaddson? Que ideia mais necrótica. Até a igreja é melhor do que isso, então eu disse à sra. Taylor que queria ajudar a carregar as sinetas.
— E o vigário também pediu sua ajuda — acrescentou Dunworthy, ainda tentando limpar as lentes. — Teve alguma coisa para fazer?
— Está brincando? A igreja está cheia.
Dunworthy espiou para dentro da nave. Os bancos já estavam todos cheios, e algumas cadeiras dobráveis estavam sendo instaladas nos fundos.
— Oh, que bom, está aqui — disse o vigário, aparecendo às voltas com uma braçada de hinários. — Desculpe o calor. É a fornalha. O National Trust não permite a troca por um modelo moderno, e por outro lado é quase impossível achar peças para estes modelos de combustível fóssil. No momento é o termostato que está com defeito. O aquecimento liga e desliga. — Ele puxou duas folhas de papel de dentro do bolso da sotaina e olhou para elas. — Por acaso viu o sr. Latimer? Contamos com ele para ler a bênção.
— Não vi — respondeu Dunworthy. — Mas ainda hoje lembrei ele da hora.
— Sim, bem, ano passado ele misturou as informações e chegou uma hora mais cedo. — Ele estendeu para Dunworthy uma das folhas de papel. — Aqui está seu texto da Escritura. É da Bíblia do Rei Jaime, este ano. A Igreja do Milênio insistiu, mas pelo menos não é a Versão Popular como no ano passado. A Bíblia do Rei Jaime pode ser arcaica, mas pelo menos não é criminosa.
A porta se abriu. Abaixando e fechando guarda-chuvas e sacudindo a água dos chapéus, algumas pessoas entraram, receberam de Colin os missais e se dirigiram para a nave da igreja.
— Sabia que devíamos ter marcado para a Christ Church — disse o vigário.
— O que tanta gente faz aqui? — questionou Dunworthy. — Será que essas pessoas não percebem que estamos em pleno surto epidêmico?
— Sempre é assim — comentou o vigário. — Lembro muito bem os tempos iniciais da Pandemia. As maiores coletas que já fizemos. Mais tarde será difícil arrancar essas pessoas de suas casas, mas por enquanto elas querem o calor humano, querem conforto.
— E é tocante — acrescentou o padre da Sagrada Igreja Re-Formada. Ele vestia uma camisa preta de gola alta, calças largas, uma alva xadrez em verde e vermelho. — É possível ver o mesmo fenômeno em tempo de guerra. Essas pessoas vêm pelo drama que há na coisa toda.
— E isso espalha o contágio duas vezes mais rápido, creio eu — disse Dunworthy. — Ninguém disse a eles que o vírus é contagioso?
— Pretendo dizer — respondeu o vigário. — Sua leitura das Escrituras vem logo depois das sineiras. Houve uma mudança. Mais uma vez a Igreja do Milênio. Lucas, capítulo 2, do versículo 1 ao 19. — Ele se afastou, distribuindo hinários.
— Onde está a sua aluna Kivrin Engle? — perguntou o padre. — Senti a falta dela na missa em latim de hoje à tarde.
— Ela está em 1320, espero que no vilarejo de Skendgate e ao abrigo da chuva.
— Oh, que bom — comentou o padre. — Ela queria tanto ir. E que sorte que esteja sendo poupada de tudo isto aqui.
— Temos mesmo — disse Dunworthy. — Bem, acho que preciso agora dar pelo menos uma passada de olhos nas Escrituras.
Ele passou para a nave principal da igreja. Ali dentro estava ainda mais quente, com um cheiro pesado de lã úmida e pedras úmidas. Velas de laser ardiam palidamente nas janelas e no altar. As sineiras estavam arrumando duas grandes mesas diante do altar, e cobrindo-as com pesadas toalhas de lã. Dunworthy aproximou-se do atril e abriu a Bíblia no livro de Lucas.
“E assim se passou naqueles tempos, em que saiu um decreto de César Augusto, de que todo o mundo teria que ser taxado”, leu ele em silêncio.
O inglês da Bíblia do Rei Jaime é arcaico, pensou ele. E onde Kivrin está, isso ainda não foi escrito.
Saiu à procura de Colin. Continuavam entrando mais pessoas. O padre da Sagrada Igreja Re-Formada e o imã muçulmano foram até o oriel trazer mais cadeiras, e o vigário ficou ajustando o termostato da fornalha.
— Reservei duas cadeiras para nós na segunda fila — disse Colin. — Sabe o que a sra. Gaddson fez durante o chá? Jogou fora meu chiclete. Disse que estava coberto de germes. Ainda bem que a minha mãe não é assim. — Ele arrumou as bordas dos papéis dobrados, cuja pilha já tinha diminuído visivelmente. — O que acho que aconteceu é que os presentes não puderam passar, por causa da quarentena, entende? Quer dizer, é provável que precisava mandar primeiro as provisões e outras coisas. — Ele voltou a alinhar a pilha de papéis já alinhada.
— É bem possível — concordou Dunworthy. — Quando gostaria de abrir os seus outros presentes? Esta noite ou amanhã cedinho?
Colin tentou aparentar despreocupação.
— Na manhã de Natal, se possível.
Distribuiu um missal e um sorriso deslumbrante a uma senhora num impermeável amarelo.
— Bem — disse ela, com rispidez, arrancando o papel da mão do garoto. — Fico feliz em ver que alguém ainda mantém o espírito do Natal, mesmo com uma epidemia mortal acontecendo.
Dunworthy entrou e sentou-se. Toda a atenção dispensada à fornalha pelo vigário não parecia estar obtendo bons resultados. Ele tirou o cachecol e o sobretudo, e guardou, enrolados, na cadeira vizinha.
Tinha sido um frio glacial no ano passado. “Extremamente autêntico”, Kivrin murmurara para ele, “e as Escrituras também. Por volta desse tempo, os políticos resolveram aumentar os impostos em cima dos contribuintes”, disse ela, citando a Versão Popular. Sorriu para ele. “A Bíblia da Idade Média também estava numa linguagem que eles não compreendiam.”
Colin apareceu e sentou em cima do sobretudo e do cachecol de Dunworthy. O padre da Sagrada Igreja Re-Formada levantou-se, foi se esgueirando por entre as mesas das sineiras e a parte dianteira do altar.
— Oremos — disse ele.
No piso, havia fileiras de genuflexórios, e todo mundo se ajoelhou.
— “Ó Deus, vós que mandais estas aflições sobre nós, dizei ao vosso anjo destruidor, detém vossa mão, e que essa terra não se veja desolada, e que não se destrua cada alma humana.”
Era tudo que o nosso moral precisava, pensou Dunworthy.
— “Como nos dias em que o Senhor enviou uma pestilência sobre Israel, e morreram ali, nos povos de Dan a Bersebá, setenta mil homens, assim estamos agora no meio de uma aflição e vos imploramos para que afasteis dos vossos fiéis o fogo da vossa cólera.”
A tubulação do aquecimento começou a chocalhar, mas nem isso foi capaz de deter o padre. Ele continuou por uns bons cinco minutos, citando um sem-número de casos em que Deus esmagou os incorretos e “trouxe a peste para o seu seio”, e terminou pedindo a todos que se erguessem e cantassem “God Rest Ye Merry, Gentlemen, Let Nothing You Dismay”.
Montoya enfiou-se entre os bancos e sentou ao lado de Colin.
— Passei o dia inteiro no SNS tentando conseguir uma autorização para sair — cochichou ela. — Parece que eles acham que eu quero sair correndo como uma doida espalhando um vírus. Eu expliquei que tudo que queria era ir para a escavação, que não tem lá ninguém para ser infectado, mas pensa que me deram atenção?
Ela se virou para Colin.
— Se eu conseguir a autorização, vou precisar de voluntários para me ajudar. O que acha de trabalhar desenterrando corpos?
— Ele não pode — se antecipou Dunworthy, com rapidez. — A tia-avó dele não permite. — Ele se inclinou para ela, à frente de Colin, e murmurou: — Estou tentando determinar o paradeiro de Badri Chaudhuri na segunda-feira à tarde, do meio-dia até as duas e meia. Por acaso você viu ele?
— Psssst — fez a mulher que tinha falado com Colin à entrada.
Montoya abanou a cabeça.
— Eu estava com Kivrin, repassando o mapa e a planta baixa de Skendgate — sussurrou ela de volta.
— Onde? Na escavação?
— Não, no Brasenose.
— E Badri não estava lá? — perguntou Dunworthy, mas não havia razão nenhuma para que Badri estivesse no Brasenose. Ele não pedira a Badri para operar a rede senão quando se encontrou com o técnico, a partir das duas e meia.
— Não — cochichou Montoya.
— Pssssssst — sibilou a mulher.
— Ficou quanto tempo com Kivrin?
— Das dez até a hora em que ela teve que entrar no hospital, às três, acho — sussurrou Montoya.
— Psssst!…
— Vou ter que sair, vou recitar uma “Prece ao Grande Espírito” — sussurrou Montoya, ficando de pé e afastando-se lateralmente até sair da fila de cadeiras.
Ela leu o canto indígena norte-americano, e depois as sineiras, com luvas brancas e rostos cheios de determinação, tocaram “O Christ Who Interfaces with the World”, que soava parecido com alguém percutindo num encanamento.
— Elas são absolutamente necróticas, não são? — murmurou Colin pondo o missal à frente do rosto.
— É música atonal de fins do século XX — murmurou de volta Dunworthy. — A intenção é parecer horrível.
Quando as sineiras deram a impressão de ter encerrado sua parte, Dunworthy se dirigiu ao atril e leu as Escrituras.
— “E assim se passou naqueles tempos, em que saiu um decreto de César Augusto, de que todo o mundo teria que ser taxado…”
Montoya voltou a se levantar e a passar por Colin até chegar à parte lateral da nave, por onde desapareceu rumo à porta. Dunworthy gostaria de ter perguntado a ela se vira Badri em algum momento na segunda-feira, e se sabia de algum norte-americano com quem o técnico pudesse ter tido contato.
Poderia fazer essas perguntas no dia seguinte, quando fossem tirar sangue para os exames. Ele já tinha descoberto a coisa mais importante: que Kivrin não se encontrara com Badri na tarde da segunda-feira. Montoya disse que esteve com ela das dez da manhã às três da tarde, quando Kivrin foi para o hospital. A essa altura, Badri já estava no Balliol para a reunião com ele e, como o técnico chegara de Londres apenas ao meio-dia, não poderia tê-la contaminado.
— “E o anjo lhes disse, não temei: Porque, vede, eu vos trago tempos de grande júbilo, o qual será de todos…”
Ninguém parecia estar prestando atenção. A mulher que falara com Colin estava tentando se desvencilhar do casaco, e todos já tiraram os seus e se abanavam com os missais.
Dunworthy pensou no serviço religioso do ano passado e em Kivrin, ajoelhada no chão de pedra, olhos pregados nele enquanto lia. Ela também não estava prestando atenção: estava imaginando como seria uma véspera de Natal em 1320, quando as escrituras eram lidas em latim e as velas tremeluziam junto das janelas.
Imagino se está sendo como ela imaginava, pensou ele, e depois se lembrou que lá não era Natal ainda. Onde ela estava ainda faltavam umas duas semanas. Se é que ela estava mesmo lá. Se é que ela estava bem.
— “… mas Maria guardou todas essas coisas, e as pesou com todo cuidado dentro do seu coração” — concluiu Dunworthy, que voltou a sentar no seu lugar.
O imã anunciou em seguida os horários dos serviços religiosos de Natal em todas as igrejas, depois leu o boletim do SNS explicando como evitar contato com pessoas infectadas. O vigário principiou seu sermão.
— Existem aqueles que acreditam que doenças são uma punição enviada por Deus — disse ele, lançando um olhar duro para o padre da Sagrada Igreja Re-Formada. — No entanto, Cristo passou a sua vida curando os enfermos e, se estivesse aqui, sem dúvida estaria curando quem padece com este vírus, do mesmo modo que curou o leproso samaritano. — A partir deste ponto, ele decolou numa conferência de dez minutos sobre como se proteger da influenza. Enumerou todos os sintomas e explicou como se dava a transmissão através de gotículas.
— Bebam muito líquido e descansem — concluiu ele, erguendo as mãos por trás do púlpito como se estivesse dando uma bênção. — E, ao primeiro sinal de algum desses sintomas, liguem para o seu médico.
As sineiras voltaram a pôr suas luvas brancas e acompanharam o órgão em “Angels From the Realms of Glory”, que até soou reconhecível.
A ministra da Igreja Unitária Convertida subiu ao púlpito.
— Nesta mesma noite, mais de dois mil anos atrás, Deus enviou o Seu Filho, Seu precioso filho, para o nosso mundo. Podem imaginar que amor inacreditável foi preciso para proceder assim? Naquela noite, Jesus deixou seu posto celestial e veio para um mundo cheio de perigos e de enfermidades — prosseguiu a ministra. — Veio como um bebê inocente e indefeso, sem nada conhecer do Mal e das traições que viria a conhecer no futuro. Como Deus teria sido capaz de mandar Seu único filho, Seu precioso filho, para um perigo tão grande? A resposta é amor. Amor!
— Ou incompetência — murmurou Dunworthy.
Colin ergueu os olhos, que estavam examinando a nova goma de mascar, e o encarou.
E depois que Ele deixou o filho ir, Ele se preocupou com isso em cada minuto, pensou Dunworthy. Imagino se ele terá tentado cancelar tudo.
— Cristo veio a este mundo por amor, e por amor estava disposto, ou melhor, ansioso, para vir.
Tem razão, pensou ele. As coordenadas estão corretas. Houve apenas quatro horas de desvio. Ela não foi exposta ao vírus. Está em segurança em Skendgate, com a data de reencontro marcada e o gravador já pela metade de observações, está bem de saúde e animada e, felizmente, sem saber de nada que acontece aqui.
— Ele foi enviado ao nosso mundo para nos ajudar em nossos problemas e atribulações — dizia a ministra.
O vigário estava gesticulando para chamar a atenção de Dunworthy. Ele se inclinou à frente de Colin, aproximando o ouvido.
— Acabei de ser informado que o sr. Latimer está doente — sussurrou o vigário, entregando a Dunworthy uma folha dobrada de papel. — Poderia, por favor, ler a bênção?
— … um mensageiro de Deus, um emissário do amor — concluiu a ministra, e foi se sentar.
Dunworthy rumou para o atril.
— Por favor, podem ficar de pé para a bênção? — pediu ele, abrindo a folha e olhando para ela. As primeiras palavras impressas eram: “Ó, Senhor, detende vossa mão carregada de ira”…
Ele amassou e enfiou o papel no bolso.
— Pai Misericordioso — disse ele —, protegei aqueles que estão ausentes e distantes de nós, e fazei com que voltem para casa em segurança.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(035850-037745)
20 de dezembro de 1320. Estou quase totalmente boa. Minhas células-T reforçadas e os antivirais ou alguma outra coisa até que enfim ganharam a batalha. Já posso respirar sem sentir dor, não tenho mais tosse e me sinto tão disposta que poderia ir a pé daqui até o local do salto, se eu soubesse onde é.
O corte na minha cabeça também sarou. Lady Eliwys olhou-o pela manhã e saiu para trazer Imeyne para examinar. “É um milagre”, disse Eliwys, achando aquilo ótimo, mas Imeyne fez uma cara ainda mais suspeita. O próximo passo é ela declarar que eu sou uma bruxa.
De imediato ficou claro que, como eu não sou mais uma inválida, passo a ser um problema. Além de Imeyne pensar que eu estou espionando ou então roubando as colheres, existe a dificuldade de estabelecer quem eu sou — ou seja, qual é o meu status e de que maneira devo ser tratada —, e Eliwys não tem tempo nem energia para lidar com isso.
Ela já tem problemas de sobra. Lord Guillaume ainda não chegou, o seu privé está apaixonado por ela, e o Natal se aproxima. Ela recrutou metade do vilarejo como criados ou como cozinheiros, e falta certo número de suprimentos essenciais, sendo que Imeyne insiste para que mandem buscá-los em Oxford ou Courcy. Agnes contribui para o problema porque está sempre atrapalhando as pessoas e tentando escapar do controle de Maisry.
— Deve mandar pedir uma camareira a Sir Bloet — disse Imeyne, depois que encontraram a menina brincando na parte mais alta do celeiro. — E que tragam açúcar, também. Estamos sem açúcar para a ambrosia e os doces.
Eliwys pareceu exasperada.
— Meu marido disse para…
— Eu posso tomar conta de Agnes — interrompi, rezando para que o intérprete tivesse traduzido corretamente “camareira” e para que o que constava nos vids de História fosse verdade: que a posição para cuidar de uma criança era muitas vezes preenchida por mulheres de sangue nobre. Ao que tudo indica, era verdade. Eliwys pareceu grata no mesmo instante, e Imeyne não fez cara mais feia do que o usual. De modo que agora eu cuido de Agnes. E aparentemente de Rosemund, que hoje de manhã me pediu ajuda no bordado.
As vantagens de ser ama de Agnes e Rosemund é poder fazer todas as perguntas a respeito do pai delas e do vilarejo, e poder sair com as duas para o estábulo e a igreja e procurar pelo padre ou por Gawyn. A desvantagem é que muita coisa não chega até as meninas. Já houve uma vez em que Eliwys parou de falar com Imeyne assim que Agnes e eu entramos no salão, e quando perguntei a Rosemund por que a família tinha decidido ficar ali, ela respondeu: “Meu pai acha que o ar é mais saudável em Ashencote”.
É a primeira vez que alguém menciona o nome do vilarejo. Não existe nenhum Ashencote no mapa nem no Livro do juízo final. Suponho que possa ser mais um caso de “vilarejo perdido”. Com uma população de quarenta habitantes, o povoado pode perfeitamente ter sido varrido pela Peste Negra, ou ter sido absorvido por uma das cidades nos arredores, mas continuo achando que se trata de Skendgate.
Perguntei às meninas se sabiam de algum lugar chamado Skendgate, e Rosemund disse que nunca ouvira falar, o que não prova coisa alguma, uma vez que não moram propriamente aqui. Porém, parece que Agnes perguntou a Maisry, que também não sabia. A primeira referência escrita a um “portão”, “gate”, que era na verdade uma “represa”, não ocorreu senão em 1360, e muitos dos topônimos anglo-saxônicos foram substituídos por nomes normandizados ou batizados em homenagem aos novos donos. O que não é um bom sinal para Guillaume D’Iverie, e para o desfecho do julgamento do qual ainda não voltou. A menos que este seja um vilarejo completamente diferente, o que não seria um bom sinal para mim.
(Pausa)
Ao que tudo indica, os sentimentos de amor cortês que Gawyn alimenta por Eliwys não entram em conflito com suas relações com os servos. Pedi a Agnes para me mostrar o seu pônei no estábulo, esperando que Gawyn estivesse por lá. Ele estava numa das baias, com Maisry, produzindo ruídos e arquejos nem um pouco corteses. Maisry não parecia mais assustada do que o de sempre, e suas mãos estavam segurando as saias erguidas acima da cintura, e não tapando os ouvidos, de modo que aparentemente não era estupro. Não era l’amour courtois tampouco.
Tive que distrair Agnes depressa e conduzi-la para fora do estábulo. Falei que gostaria de cruzar a relva e ir até o campanário. Entramos lá, fiquei olhando aquela corda tão pesada.
— O padre Roche toca esse sino quando uma pessoa morre — contou Agnes. — Se não tocar, o Diabo vem e carrega as almas dos mortos, que não podem mais ir para o céu.
Suponho que seja mais um capítulo da tagarelice supersticiosa que tanto irrita Lady Imeyne.
Agnes queria tocar o sino, mas consegui convencê-la a entrarmos na igreja para procurar o padre Roche.
O padre Roche não se encontrava. Agnes falou que ele provavelmente estaria ainda com o aldeão doente, “que não morre por mais mirrado que fique”, ou rezando em algum outro lugar.
— O padre Roche gosta de rezar na floresta — comentou ela, olhando para o altar através das treliças.
A igreja é normanda, com uma ala central, pilastras de arenito e um chão de grandes lajes. As janelas com vitrais são muito estreitas e pequenas, e suas cores são escuras. Não deixam passar quase que luz nenhuma. A meio caminho ao longo da nave, há um túmulo, um apenas, que pode ser aquele em que eu trabalhei na escavação. Tem em cima a efígie de um cavaleiro, suas armas gravadas em luvas de metal cruzadas sobre o peito, com a espada junto ao corpo. Em um lado, as palavras talhadas na pedra rezam: Requiescat cum Sanctis tuis in aeternum. Descanse entre os Teus santos para sempre. O túmulo lá na escavação tem uma inscrição que começa com Requiescat, mas era tudo que fora escavado até o momento.
Agnes contou que o túmulo é do seu avô, que morreu de uma febre “muito tempo atrás”, mas ele parece bastante novo e, por isso, muito diferente do túmulo que vi na escavação. Conta com uma porção de adereços que o túmulo da escavação não tem, mas podem ter se partido ou se desgastado com o tempo.
Exceto pelo túmulo e por uma estátua tosca, a nave está completamente vazia. Como os contemps assistem à missa de pé, não há bancos, e a prática de encher a nave com memoriais e monumentos não teve início senão nos anos 1500.
Um biombo com treliça de madeira entalhada, do século XII, separa a nave e os recessos mais obscuros do presbitério e do altar. Por cima deste, de cada lado do crucifixo, há duas pinturas rústicas do Juízo Final. Uma mostra os fiéis entrando no paraíso, e a outra os pecadores sendo enviados para o inferno, mas as duas são muito parecidas, pintadas em tintas fortes, vermelho e azul, com personagens em expressões atônitas.
O altar é simples, coberto com um pano comum de linho, com dois candelabros de prata de cada lado. A estátua toscamente esculpida não é da Virgem, como imaginei, mas de Catarina de Alexandria. A santa tem o mesmo corpo reduzido e a cabeça aumentada das esculturas do pré-Renascimento, e uma coifa estranha, quadrada, que acaba por trás das orelhas. Está parada, segurando num braço uma criança do tamanho de uma boneca, e com a outra mão uma roda. Havia uma pequena vela amarelada e fogareiros a óleo no chão, diante dela.
— Lady Kivrin, o padre Roche diz que você é uma santa — comentou Agnes, quando saímos.
Era fácil perceber como se dera a confusão neste caso, e imaginei se teria acontecido o mesmo com o sino e com o Diabo no cavalo negro.
— Eu recebi meu nome em homenagem a santa Catarina — disse eu —, assim como você recebeu o seu por causa da santa Agnes. Mas nem eu nem você somos santas.
Ela abanou a cabeça.
— O padre Roche disse que nos últimos dias Deus vai mandar os seus santos para os pecadores. Ele disse que, quando alguém reza, está falando na língua que Deus fala.
Tenho tentado ser cuidadosa ao usar o recorde, e registrado as observações somente quando estou sozinha no quarto, mas não posso saber o que aconteceu quando estive doente. Lembro que ficava pedindo ajuda ao padre e que vocês viessem me buscar e me levar de volta. Se o padre Roche me escutou falando inglês moderno, pode muito bem ter imaginado que eu estava falando em transe. Pelo menos ele pensa que eu sou uma santa, e não uma bruxa, mas Lady Imeyne também estava no quarto durante minha doença e preciso redobrar o cuidado.
(Pausa)
Fui de novo ao estábulo (depois de me assegurar que Maisry estava na cozinha), mas Gawyn não se encontrava lá, nem Gringolet, ao contrário das minhas caixas e dos pedaços desconjuntados da carroça. Gawyn deve ter feito uma dúzia de viagens para poder trazer aquilo. Examinei tudo, e não achei o pequeno baú forrado de latão. Espero que Gawyn não tenha achado e que continue à beira da estrada, onde o deixei. Se continuar, já deve estar completamente coberto pela neve, mas hoje o sol saiu e a neve está começando a derreter.