O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 32 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 31

 

Agnes morreu um dia após o Ano-Novo, ainda gritando e chamando por Kivrin.

— Ela está aqui — disse Lady Eliwys, apertando a mãozinha da filha. — Lady Katherine está aqui.

— Não está! — gritou Agnes, com a voz rouca, mas ainda forte. — Diga a ela que venha!

— Vou dizer — prometeu Eliwys, e ergueu os olhos para Kivrin, com uma expressão ligeiramente perplexa. — Vá buscar o padre Roche — pediu.

— O que foi? — perguntou Kivrin. O padre já havia administrado o último sacramento na primeira noite, com Agnes retorcendo-se e dando pontapés como se estivesse tendo um acesso, e desde então a menina se recusava a tê-lo por perto. — Está passando mal, senhora?

Eliwys abanou a cabeça, ainda olhando para Kivrin.

— O que vou dizer ao meu marido quando ele chegar? — indagou ela, pousando a mão da filha junto ao corpinho, e só então Kivrin percebeu que Agnes estava morta.

Kivrin lavou o corpo da garota, quase todo coberto de pequenas manchas roxas. A mãozinha estava toda escurecida, onde Eliwys tinha apertado. Parecia que Agnes tinha sido espancada. E foi, pensou Kivrin, espancada e torturada. E assassinada. O Massacre dos Inocentes.

O casaquinho e o camisolão estavam imprestáveis: não passavam de um misto endurecido de sangue e vômito. Já as outras roupas há muito tinham sido rasgadas em tiras. Kivrin envolveu o corpinho da menina em sua própria capa branca, e Roche e o caseiro foram realizar o sepultamento.

Eliwys não quis ir junto.

— Tenho que ficar com Rosemund — justificou ela, quando Kivrin avisou que estava na hora. Eliwys não podia fazer nada por Rosemund: a menina continuava tão silenciosa como se estivesse enfeitiçada, e Kivrin cogitou que talvez a febre tivesse provocado algum dano cerebral. — E pode ser que Gawyn volte — acrescentou Eliwys.

Fazia muito frio. Enquanto baixavam o corpo de Agnes para a cova, Roche e o caseiro exalavam fumaça de condensação de vapor, e a visão daquela respiração branca enfureceu Kivrin. A menina não pesa quase nada, pensou com amargura, seria possível carregar seu corpo numa mão só.

A visão de todos aqueles túmulos recentes também a enfureceu. O pátio da igreja estava abarrotado, assim como quase todo o trecho de relva que Roche havia consagrado. O túmulo de Lady Imeyne estava praticamente no caminho para o portão coberto, e o bebê do caseiro não tinha túmulo próprio: o padre Roche o deixara repousar aos pés da mãe, embora ele não tivesse sido batizado. Não havia mais espaço.

E o filho mais novo do caseiro?, pensou Kivrin, zangada. E o secretário? Onde pretende colocá-los? A Peste Negra devia matar apenas entre um terço e metade da Europa. Não ela inteira.

— Requiescat in pace, amen — rezou Roche, e o caseiro apanhou a pá e passou a jogar terra gelada em cima da pequena cova.

O senhor tinha razão, sr. Dunworthy, pensou ela, com amargura. Tecido branco suja com facilidade. O senhor tem razão em tudo, não é mesmo? O senhor me suplicou para não vir, insistiu que coisas terríveis aconteceriam. Pois bem, aconteceram. E o senhor mal pode esperar para me dizer: Ah, eu avisei. Só que o senhor não vai ter essa satisfação, porque eu não sei onde é o salto, e a única pessoa que sabe provavelmente já morreu.

Ela não esperou que o caseiro terminasse de cobrir o corpo de Agnes com terra nem que Roche concluísse seu bate-papo com Deus. Começou a atravessar a relva, furiosa com todos: com o caseiro por ficar parado ali de pá em punho, ansioso para abrir mais covas, com Eliwys por não estar presente no enterro da filha, com Gawyn por não ter regressado. Ninguém está vindo, pensou ela. Ninguém.

— Katherine — chamou Roche.

Ela se virou, e ele quase correu ao seu encontro, a respiração formando praticamente uma nuvem à sua volta.

— O que foi? — perguntou.

Ele olhou para ela com ar solene.

— Não devemos perder as esperanças — encorajou.

— Por que não?! — explodiu ela. — Atingimos oitenta e cinco por cento, e nem começamos ainda. O secretário está morrendo, Rosemund está morrendo, vocês todos já foram expostos. Por que eu não deveria perder as esperanças?

— Deus não nos abandonou — respondeu ele. — Agnes está segura nos braços Dele.

Segura, pensou ela, com ironia. No chão. No gelo. No escuro. Ela cobriu o rosto com as mãos.

— Agnes está no Céu, onde não pode ser alcançada pela peste. E o amor de Deus está sempre conosco — prosseguiu. — E nada pode separar esse amor de nós, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem as coisas do presente…

— Nem as coisas do futuro — disse Kivrin.

— Nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura — continuou ele, pondo a mão no ombro dela com delicadeza, como se ministrasse um sacramento. — Foi o amor de Deus que mandou você para nos ajudar.

Ela ergueu o braço, ficou segurando a mão que ele pousava em seu ombro.

— Devemos ajudar uns aos outros — falou ela.

Ficaram os dois parados durante um longo minuto, e então Roche disse:

— Devo ir tocar o sino, para que a alma de Agnes faça uma boa passagem.

Ela assentiu, recolhendo a mão.

— Vou ver como estão Rosemund e os outros — avisou ela, e caminhou para o pátio.

Eliwys justificara que preferia ficar perto de Rosemund mas, quando Kivrin voltou a entrar na casa grande, ela não estava ao lado da filha. Estava encolhida no catre de Agnes, envolta na capa, olhando para a porta.

— Talvez o cavalo dele tenha sido roubado por alguém que fugia — observou ela. — Por isso ele está demorando a chegar.

— Agnes foi sepultada — disse Kivrin, com frieza, e foi olhar Rosemund.

A menina estava acordada. Lançou um olhar solene para Kivrin enquanto se ajoelhava ao lado dela e tomava-lhe a mão.

— Oh, Rosemund! — suspirou Kivrin, o nariz e os olhos ardendo de lágrimas. — Meu bem, como você se sente?

— Com fome — respondeu ela. — Meu pai já chegou?

— Ainda não — disse Kivrin, e até já não parecia impossível que aquilo acontecesse. — Vou trazer um pouco de pão. Você precisa descansar até eu voltar, porque esteve muito doente.

Rosemund obedeceu e fechou os olhos, que pareciam menos fundos agora. Porém, ainda havia olheiras escuras em volta deles.

— Onde está Agnes? — perguntou ela.

Kivrin afastou os cabelos negros, emaranhados, colados ao rosto dela.

— Está dormindo.

— Que bom! — exclamou Rosemund. — Eu não queria que ela viesse brincar e gritar aqui. Ela faz muito barulho.

— Bem, vou trazer um pouco de pão para você — repetiu Kivrin, e foi até Eliwys. — Lady Eliwys, tenho boas notícias. Rosemund está acordada — disse ela, ansiosa.

Eliwys ergueu o corpo apoiando-se no cotovelo e lançou um olhar para Rosemund, mas com apatia, como se estivesse pensando em outra coisa, e voltou a se deitar.

Kivrin, alarmada, levou a mão à testa dela, que parecia quente. No entanto, como suas mãos ainda carregavam um pouco do frio lá de fora, Kivrin não teve certeza.

— Está doente? — perguntou.

— Não — falou Eliwys, mas com a mente em outro lugar. — O que vou dizer ao meu marido?

— Pode dizer a ele que Rosemund está melhor — respondeu ela, e desta vez Eliwys pareceu entender.

Levantou-se, foi até Rosemund e sentou-se ao lado da filha. Porém, quando Kivrin voltou da cozinha trazendo um pão, Eliwys tinha retornado para o catre de Agnes e estava encolhida mais uma vez por baixo da capa.

Rosemund já dormia, mas não era aquele sono semelhante à morte de algum tempo atrás. A menina estava mais corada, embora a pele do rosto ainda estivesse muito esticada.

Eliwys estava dormindo também, ou fingindo dormir, o que dava no mesmo.

Enquanto Kivrin fora buscar o pão na cozinha, o secretário tinha se arrastado do seu catre e agora estava a meio caminho da barricada. Quando Kivrin fez menção de levá-lo de volta, ele tentou bater nela, alucinado. Kivrin teve que chamar o padre Roche para ajudar a contê-lo.

O olho direito do secretário estava ulcerado, a peste roendo de dentro para fora, e ele arranhava insistentemente com as mãos.

— Domine Jesu Christe — bradava. — Fidelium defunctorium de poenis infermis. Salvai as almas dos fiéis que partiram, salvai-as das penas do Inferno.

Sim, rezou Kivrin, lutando contra as mãos dele, que eram duas garras, salvai esse fiel agora.

Ela remexeu mais uma vez no cofre medicinal de Imeyne, procurando algo que servisse de analgésico. Não havia ópio em pó. Aliás, será que as sementes de ópio já tinham chegado à Inglaterra em 1348? Encontrou alguns farrapos alaranjados que lembravam papel, ou pétalas de papoula, e colocou para ferver, mas o secretário não conseguiu beber o chá. Sua boca era um horror de feridas expostas, e ele tinha os dentes e a língua cobertos de sangue seco.

Ele não merece isso, pensou Kivrin. Mesmo que tenha trazido a peste para cá. Ninguém merece isso. Por favor, rezou ela, sem saber direito o que estava pedindo.

Seja lá o que fosse, não foi concedido. O secretário começou a vomitar uma bile negra, raiada de sangue, e nevou durante dois dias inteiros, e Eliwys parecia pior à medida que o tempo passava. Ela não aparentava ter a peste. Não tinha bulbos, não tossia, não vomitava, e Kivrin se perguntou se não seria, em vez da doença, simplesmente dor e culpa.

— O que vou dizer ao meu marido? — repetia ela, sem cessar. — Ele nos mandou para cá para ficarmos em segurança.

Kivrin tocou na testa dela. Estava quente. Todos vão pegar, pensou ela. Lord Guillaume mandou a família para cá por questão de segurança, mas elas vão adoecer, uma por uma. Preciso fazer alguma coisa. Mas não conseguia pensar em nada. A única proteção possível contra a peste era a fuga, mas elas já tinham fugido para aquele vilarejo, e de nada adiantara, e em todo o caso não podiam fugir enquanto Rosemund e Eliwys estivessem doentes.

Só que Rosemund está ficando mais forte a cada dia, pensou Kivrin, e Eliwys não tem a peste. É apenas uma febre. Talvez a família tenha alguma outra propriedade para onde possamos ir. Algo no norte.

A peste não tinha chegado a Yorkshire ainda. Kivrin podia dar um jeito para que elas se mantivessem longe de outras pessoas na estrada e não fossem expostas.

Perguntou a Rosemund se a família tinha alguma propriedade em Yorkshire.

— Não — respondeu Rosemund, sentando-se apoiada num dos bancos. — Só em Dorset.

Dorset não adiantava. A peste já estava lá. Além disso, embora muito melhor, Rosemund estava fraca demais para conseguir ficar sentada mais que alguns minutos. A menina jamais conseguiria cavalgar. Isso se tivéssemos cavalos, pensou Kivrin.

— Meu pai tinha um lugar em Surrey, também — acrescentou Rosemund. — Ficamos lá quando Agnes nasceu. — Ela olhou para Kivrin. — Agnes morreu?

— Sim — disse Kivrin.

Ela anuiu, como se não estivesse surpresa.

— Ouvi os gritos dela.

Não havia nada a dizer.

— Meu pai está morto, não está?

Também não havia nada a dizer. Era quase certo que estivesse morto, assim como Gawyn. Já fazia oito dias que o privé tinha partido para Bath. Eliwys, ainda febril, havia dito pela manhã:

— Ele vai chegar, agora que a tempestade passou.

Porém, nem mesmo ela parecia acreditar nas próprias palavras.

— Talvez ele ainda venha — consolou Kivrin. — Pode ter se atrasado por causa da neve.

O caseiro entrou, ainda carregando a pá, e parou junto à barricada de proteção. Ele aparecia todos os dias para ver o filho, contemplando-o embrutecido por cima da mesa virada. No entanto, agora apenas olhou de relance para o menino e virou-se para observar Kivrin e Rosemund, apoiando-se na pá.

A neve cobria o capuz e os ombros dele, bem como a lâmina da pá. Andou cavando outra cova, pensou Kivrin. Para quem?

— Morreu alguém? — perguntou ela.

— Não — falou, e continuou olhando para Rosemund, com um olhar especulativo.

Kivrin ficou de pé.

— Precisa de alguma coisa?

Ele a encarou com um olhar vazio, como se não compreendesse a pergunta, e voltou a fitar Rosemund.

— Não — respondeu ele, e saiu.

— Ele vai cavar a cova de Agnes? — indagou Rosemund, acompanhando o homem com os olhos.

— Não — disse Kivrin, com delicadeza. — Sua irmã já está enterrada no pátio da igreja.

— Ele vai cavar a minha?

— Não! — exclamou Kivrin, horrorizada. — Não! Você não vai morrer. Você está melhorando. Você ficou muito doente, mas o pior já passou. Agora só precisa descansar e tentar dormir para ficar melhor.

Obediente, Rosemund deitou-se e fechou os olhos, mas depois de um minuto voltou a abri-los.

— Se meu pai tiver morrido, a coroa vai dispor do meu dote — observou ela. — Acha que Sir Bloet ainda está vivo?

Espero que não, pensou Kivrin. Pobre criança, ficou preocupada com o casamento durante este tempo todo? Pobrezinha. Se Bloet morrer, será a única coisa boa de toda esta praga. Se morrer.

— Não deve se preocupar com ele agora. Precisa descansar para recobrar as forças.

— O rei às vezes honra um noivado já apalavrado — prosseguiu Rosemund, os dedos beliscando o lençol. — Se ambas as partes concordarem.

Você não precisa concordar com nada, pensou Kivrin. Ele está morto. O bispo matou todos.

— Se as partes não concordarem, o rei me indicará um noivo — continuou Rosemund. — Sir Bloet pelo menos é alguém que eu conheço.

Não, pensou Kivrin, mas sabia que aquela seria provavelmente a melhor alternativa para a menina. Rosemund estava imaginando abominações piores do que Sir Bloet, monstros e degoladores, e Kivrin sabia que existiam.

Rosemund seria vendida pelo rei a algum nobre a quem o monarca devesse dinheiro ou cuja lealdade estivesse tentando comprar, algum dos perigosos seguidores do Príncipe Negro, talvez, alguém que levaria a garota sabe Deus para onde, para viver sabe Deus em que condição.

Havia abominações muito piores do que um velho lúbrico e uma cunhada megera. O barão Garnier manteve a mulher acorrentada durante vinte anos. Já a esposa do conde de Anjou foi queimada viva. Além disso, Rosemund não teria família nem amigos para protegê-la, para cuidar dela quando adoecesse.

Vou levar Rosemund daqui, para algum lugar onde não possa ser encontrada por Bloet e onde estejamos a salvo da peste, pensou Kivrin, num impulso.

Só que esse lugar não existia. A epidemia chegara a Bath e Oxford. Estava avançando ao sul e ao leste para Londres, e depois para Kent, e para o norte pelas Midlands até Yorkshire. Em seguida voltaria a atravessar o Canal da Mancha rumo à Alemanha e aos Países Baixos. Chegaria a alcançar a Noruega, invadindo-a através de um navio cheio de cadáveres. Não existia lugar seguro.

— Gawyn está aqui? — perguntou Rosemund, soando como a mãe ou a avó. — Posso pedir que cavalgue até Courcy e diga a Sir Bloet que me juntarei a ele.

— Gawyn?! — repetiu Eliwys, lá do seu catre. — Ele está vindo?

Não, pensou Kivrin. Ninguém está vindo. Nem mesmo o sr. Dunworthy.

Pouco importava que tivesse perdido o reencontro. Não haveria ninguém lá, porque eles não sabiam que ela estava em 1348. Se soubessem, jamais a teriam deixado ali.

Alguma coisa devia ter dado errado com a rede. O sr. Dunworthy estava preocupado por enviá-la tão longe sem checar os parâmetros. “Pode haver imprevistos com uma distância tão grande”, dissera ele. Talvez um desses imprevistos tivesse corrompido o fix ou feito com que eles o perdessem, de modo que estavam procurando por ela em 1320. Perdi o reencontro por quase trinta anos, pensou Kivrin.

— Gawyn?! — repetiu Eliwys pela segunda vez, tentando se levantar do catre.

Não conseguiu. Estava piorando a olhos vistos, embora ainda não tivesse nenhuma das marcas da peste. Quando começou a chover, ela disse, aliviada: “Ele agora não virá enquanto não passar a tempestade”, e levantou-se e foi sentar junto de Rosemund. No entanto, durante a tarde, teve que se deitar de novo, e sua febre subiu bastante.

Roche ouviu a confissão dela. Ele tinha uma aparência exausta. Todos estavam exaustos. Se sentassem para descansar, dentro de segundos estariam dormindo. O caseiro viera dar uma olhada no seu filho Lefric e cochilou de pé, roncando, encostado à barricada, e Kivrin dormitara enquanto cuidava do fogo e acabou queimando bastante a mão.

Não podemos continuar assim, pensou ela, olhando o padre Roche fazer o sinal da cruz sobre Eliwys. Ele vai morrer de cansaço. Vai pegar a peste.

Preciso tirá-los daqui, voltou a pensar. A epidemia não estava em todos os lugares. Havia vilarejos totalmente intocados. A peste passara ao largo da Polônia e da Boêmia, e em trechos do norte da Escócia nunca penetrou.

— Agnus dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis — dizia o padre Roche, com a mesma voz reconfortante que Kivrin ouvira quando estava à beira da morte.

Então ela soube que não havia esperança. Ele nunca abandonaria os seus paroquianos. Durante a Peste Negra, a história relatava incontáveis casos de padres que abandonaram o seu rebanho, que se recusaram a fazer sepultamentos, que se refugiaram em igrejas e mosteiros ou que fugiram para longe. Agora, ela se perguntava se essas estatísticas também estariam incorretas.

E mesmo que ela encontrasse uma maneira de levar todos, Eliwys, que se virava para olhar para a porta até enquanto se confessava a Roche, insistiria em ficar à espera de Gawyn ou do marido, pois estava convencida de que eles chegariam, agora que a tempestade havia passado.

— O padre Roche saiu para recebê-lo? — perguntou Eliwys, quando Roche foi levar os sacramentos de volta para a igreja. — Ele vai chegar daqui a pouco. Sem dúvida foi primeiro a Courcy para avisar sobre a peste. De lá para cá, é somente meio dia de viagem — disse, antes de insistir com Kivrin para que levassem o catre mais para perto da porta.

Enquanto Kivrin reorganizava a barricada para que o vento que entrava pela porta não fosse direto sobre Eliwys, o secretário soltou um grito súbito e começou a ter convulsões. Todo o seu corpo se contraía em espasmos, como se estivesse levando choques, e o rosto assumiu uma rigidez terrível, com o olho ulcerado apontando para o alto.

— Não faça isso com ele! — gritou Kivrin, tentando enfiar a colher de Rosemund entre os dentes do homem. — Será que já não basta?!

O corpo do clérigo se sacudia.

— Pare! — soluçou Kivrin. — Chega!

O corpo do secretário se afrouxou de maneira brusca. Kivrin conseguiu enfiar a colher entre os dentes, e um filete de baba escura escorreu do canto da boca.

Morreu, pensou ela, sem conseguir acreditar. Observou o secretário, o olho ulcerado entreaberto, o rosto inchado e enegrecido sob a barba por fazer. Ele tinha os braços esticados, punhos cerrados. Nem parecia humano, ali deitado, e Kivrin cobriu aquele rosto com o lençol para que Rosemund não o visse.

— Ele está morto? — perguntou Rosemund, sentando-se, com ar de curiosidade.

— Está — disse Kivrin. — Graças a Deus. — Ela ficou de pé. — Preciso avisar o padre Roche.

— Não gostaria que me deixasse aqui sozinha — comentou Rosemund.

— Sua mãe está bem ali — ponderou Kivrin. — Tem também o filho do caseiro. E só vou ficar fora alguns minutos.

— Estou com medo — falou Rosemund.

Eu também, pensou Kivrin, olhando para a cabeça coberta com o lençol. O secretário estava morto, mas nem mesmo isso o libertara do sofrimento: ainda parecia em agonia, cheio de terror, embora o rosto nem sequer parecesse mais humano. O sofrimento do inferno.

— Por favor, não me deixe aqui — pediu Rosemund.

— Preciso avisar o padre Roche — repetiu Kivrin, mas sentou entre Rosemund e o corpo do secretário e esperou que a menina adormecesse.

Só então saiu à procura do padre. Ele não estava no pátio nem na cozinha. A vaca do caseiro, que estava ocupando a passagem e comendo um resto de feno da pocilga, saiu bamboleando atrás de Kivrin.

O caseiro estava no pátio da igreja, cavando dentro de um túmulo, os ombros à altura do nível do chão. Ele já está sabendo, pensou ela. Não, isso seria impossível. O coração de Kivrin começou a bater forte no peito.

— Onde está o padre Roche? — perguntou ela de longe, mas o caseiro não respondeu, nem mesmo virou a cabeça.

A vaca aproximou-se de Kivrin e encostou-se nela.

— Vá embora! — gritou Kivrin, correndo na direção do caseiro.

O túmulo na verdade não estava sendo cavado no pátio da igreja, e sim no relvado, para além do portão coberto. Havia dois outros túmulos vazios alinhados, e os montinhos de terra duríssima erguiam-se na neve ao lado de cada cova.

— O que está fazendo? — questionou ela. — Para quem são estas covas?

O caseiro jogou uma pá de terra na direção do monte. Os pedaços congelados se chocavam com ruído, como se fossem pedras.

— Por que cavou três covas? — insistiu ela. — Quem morreu? — A vaca esfregou um chifre no ombro de Kivrin, que deu um passo, afastando-se. — Hein, quem morreu?

O caseiro enterrou com força a pá no chão duro como ferro.

— São os últimos dias, rapaz — respondeu ele, empurrando o pé com força para enfiar a pá mais um pouco.

Kivrin teve um sobressalto de medo, mas então percebeu que ele não a reconhecera naquelas vestes de menino.

— Sou eu, Katherine — disse ela.

Ele ergueu os olhos e anuiu.

— É o fim dos tempos — falou ele. — Quem ainda não morreu vai morrer. — Inclinou-se para a frente, projetando todo o peso em cima da pá.

A vaca tentou enfiar a cabeça embaixo do braço de Kivrin.

— Saia daqui! — berrou ela, desferindo uma pancada no focinho do animal.

A vaca recuou desajeitada, afastou-se beirando as covas, e só então Kivrin percebeu que não eram todas do mesmo tamanho.

A primeira era grande, mas a do lado não era maior do que a sepultura de Agnes, e a que o caseiro estava cavando também não parecia muito maior. Eu disse a Rosemund que ele não estava cavando a cova dela, pensou Kivrin, mas ele está.

— Não tem o direito de fazer isso! — exclamou ela. — Seu filho e Rosemund estão melhorando. E Lady Eliwys está apenas cansada e triste. Eles não vão morrer.

O caseiro ergueu o rosto para ela, com o mesmo semblante inexpressivo de quando estivera medindo o túmulo de Rosemund com os olhos, lá junto da barricada.

— O padre Roche afirma que você foi mandada para nos ajudar, mas o que pode fazer contra o fim do mundo? — Ele empurrou o pé sobre a pá de novo. — Vocês vão precisar dessas covas. Todos, todos vão morrer.

A vaca trotou para o lado oposto da cova e abaixou a cabeça até o nível da cabeça do caseiro, mas ele não pareceu notar a presença do animal.

— Não deve abrir mais covas. Proíbo você de fazer isso — alertou Kivrin.

Ele continuou cavando, como se também não notasse a presença dela.

— Elas não vão morrer — prosseguiu. — A Peste Negra matou somente entre um terço e metade dos contemps. Já atingimos a cota.

Ele continuou cavando.

Eliwys morreu naquela noite. O caseiro teve que aumentar a cova de Rosemund para colocar o cadáver dentro e, durante o sepultamento, Kivrin viu que ele já tinha começado outra para Rosemund.

Preciso tirá-los daqui, pensou ela, olhando para o caseiro. O homem segurava a pá apoiada no ombro e, assim que terminou de cobrir a cova de Eliwys, voltou a trabalhar na de Rosemund. Preciso levá-los antes que também adoeçam.

Porque todos acabariam doentes. A peste estava à espreita, nos bacilos, nas vestes, nas roupas de cama, no próprio ar. E, se por algum milagre não fossem infectados ali, a peste varreria todo o Oxfordshire na primavera, espalhada por mensageiros e aldeões e emissários do bispo. Não podiam permanecer ali.

Escócia, pensou ela, e começou a tomar o caminho da casa. Eu poderia levá-los para o norte da Escócia. A peste não chegou tão longe. O filho do caseiro pode ir montado no burro e prepararemos uma padiola para Rosemund.

Rosemund estava sentada no catre.

— O filho do caseiro está chamando você — disse ela, assim que Kivrin entrou.

Ele tinha vomitado um muco sangrento. Seu catre estava encharcado. Quando Kivrin limpou seu corpo, o menino estava fraco até para erguer a cabeça. Mesmo que Rosemund consiga cavalgar, ele não conseguirá, pensou ela, com desalento. Não vamos a lugar nenhum.

À noite, lembrou-se da carroça que trouxera no salto. Talvez o caseiro pudesse ajudá-la em algum conserto, assim Rosemund iria deitada dentro. Kivrin usou os carvões do fogo para acender uma lamparina e foi até o estábulo para verificar. O burro de Roche zurrou tão logo a porta se abriu, e quando Kivrin ergueu a chama fumegante ouviu o ruído pressuroso de algo fugindo para os cantos.

As caixas arrebentadas estavam empilhadas contra a carroça como uma barricada, e assim que as puxou para baixo Kivrin percebeu que aquilo não funcionaria. A carroça era grande demais, e o burro não conseguiria puxá-la. Sem contar que estava faltando o eixo de madeira, que algum contemp teria usado para reforçar uma cerca ou para fazer de lenha. Ou para se barricar contra a peste, pensou ela.

Quando Kivrin saiu, estava tudo escuro no pátio, e as estrelas brilhavam nítidas e faiscantes como naquela véspera de Natal. Ela pensou em Agnes adormecida contra o seu ombro, o sininho preso ao pulso, e no som dos grandes sinos dobrando o toque da morte do demônio. Prematuramente, pensou Kivrin. O demônio ainda não morreu. Está à solta no mundo.

Ficou desperta por um longo tempo, tentando pensar em outro plano. Talvez pudessem fazer algum tipo de liteira que o burro conseguisse puxar, caso a neve não estivesse profunda demais. Ou talvez pudessem colocar as duas crianças sobre o lombo do animal e carregar a bagagem em sacos, às costas.

Adormeceu por fim e despertou quase imediatamente, ou pelo menos teve essa sensação. Continuava escuro, e Roche estava inclinado sobre ela. O fogo, quase extinto, iluminava o rosto do padre de baixo para cima, dando-lhe a mesma aparência daquela noite na clareira, quando Kivrin pensou que ele era um degolador. Ainda meio adormecida, estendeu a mão e tocou na face dele.

— Lady Katherine — chamou ele, e então ela despertou.

É Rosemund, pensou, e girou o corpo para olhar para ela, mas a menina dormia sossegada, o rostinho apoiado na mão.

— O que foi? — perguntou ela. — O senhor está passando mal?

Ele abanou a cabeça. Abriu a boca, mas fechou em seguida.

— Chegou alguém? — perguntou ela, ficando de pé com esforço.

Ele abanou a cabeça de novo.

Não pode ser alguém doente, pensou Kivrin. Não sobrou ninguém. Olhou para a pilha de lençóis perto da porta, onde costumava dormir o caseiro, mas ele não estava lá.

— O caseiro está doente? — perguntou.

— O filho dele morreu — respondeu o padre, com uma voz estranha, aturdida, e então Kivrin percebeu que Lefric não estava mais ali. — Eu fui à igreja para dizer as matinas… — prosseguiu Roche, e sua voz falhou. — Precisa vir comigo — disse ele, rumando para fora da casa.

Kivrin recolheu seu lençol surrado e seguiu atrás de Roche até o pátio.

Não podiam ser mais do que seis da manhã. O sol estava um pouquinho acima do horizonte, manchando o céu nublado e a neve com um tom cor-de-rosa. Roche já estava cruzando a passagem estreita que dava acesso ao relvado. Kivrin envolveu os ombros com o lençol e correu atrás dele.

A vaca do caseiro estava parada diante da passagem, a cabeça enfiada na cerca da pocilga, puxando com a boca a palha que havia lá dentro. O animal levantou a cabeça e mugiu para Kivrin.

— Xô!… — enxotou, agitando as mãos, mas a vaca apenas puxou a cabeça que estava enfiada na cerca e caminhou em direção a Kivrin, mugindo.

— Não tenho tempo para ordenhar você — disse, empurrando a traseira do animal e cruzando a passagem.

O padre Roche já estava na metade do relvado quando ela conseguiu alcançá-lo.

— O que foi? Não pode me contar? — perguntou, mas o padre não respondeu, nem sequer olhou para ela.

Mudou de direção indo rumo às sepulturas abertas no relvado, e ela pensou, sentindo um súbito alívio, que o caseiro tentara sepultar o filho sozinho, sem a presença de um sacerdote.

A pequena cova já estava tapada, um monte de terra e neve. O caseiro acabara a cova de Rosemund e também outra, maior. A pá jazia dentro, com o cabo apoiado na borda.

Roche não foi na direção da cova de Lefric. Parou junto à cova mais recente e repetiu, com a mesma voz aturdida:

— Eu fui à igreja para dizer as matinas…

Kivrin olhou para dentro do túmulo.

Aparentemente o caseiro tentara se enterrar com a pá, mas isso tinha ficado difícil num espaço tão estreito. Então ele largara a pá e tentara puxar a terra sobre si mesmo com as mãos nuas. Ainda segurava um grande bloco de terra na mão congelada.

As pernas estavam quase totalmente cobertas, o que lhe dava uma aparência indecente, como se ele estivesse deitado numa banheira.

— Temos que enterrar ele direito — falou Kivrin, e tomou a pá.

Roche abanou a cabeça.

— É solo sagrado — objetou, entorpecido.

Então ela se deu conta: Roche achava que o caseiro havia se suicidado.

Pouco importa, pensou ela, percebendo que a despeito de tudo aquilo, horror atrás de horror, Roche ainda acreditava em Deus. Estava indo rezar as matinas quando encontrou o caseiro e, se todos morressem, continuaria rezando, sem ver nada de incongruente em suas preces.

— Foi a doença — disse Kivrin, mesmo não fazendo ideia se era verdade ou não. — A peste septicêmica, que infecciona o sangue.

Roche a encarou sem compreender.

— O caseiro deve ter adoecido enquanto cavava — explicou ela. — A peste septicêmica envenena o cérebro. Ele não estava em seu juízo perfeito.

— Como Lady Imeyne — observou ele, quase aliviado.

Ele não gostaria de ter que enterrar o caseiro num solo qualquer, apesar de sua crença, pensou Kivrin.

Ela ajudou Roche a acomodar o corpo do caseiro, embora já apresentasse alguma rigidez. Não tentaram mudar a posição, nem envolver o cadáver num sudário. Roche cobriu aquele rosto com um pano preto, e os dois se alternaram com a pá, varrendo terra e neve para cima da cova. Os pedaços de terra congelada se chocavam com ruído, como pedras.

Roche não foi para a igreja buscar as vestimentas ou o missal. Primeiro se postou junto ao túmulo de Lefric e depois ao do caseiro, fazendo as orações dos defuntos. Kivrin ficou atrás, mãos cruzadas, dizendo baixinho para si mesma, Ele não estava em seu juízo perfeito. O caseiro sepultou a esposa e seis filhos, sepultou praticamente todas as pessoas que conhecia e, mesmo que não estivesse febril, mesmo que tivesse se arrastado para dentro da cova e esperado morrer congelado, ainda assim a peste fora a causa da morte.

Ele não merecia uma sepultura de suicida. Não merecia sepultura alguma. Deveria ir com a gente para a Escócia, pensou Kivrin, e ficou horrorizada com a súbita onda de alegria que sentiu.

Podemos ir para a Escócia agora, refletiu, olhando para a cova que ele havia aberto para Rosemund. Rosemund pode ir no burro, e Roche e eu podemos levar comida e cobertores. Ela abriu os olhos e fitou o céu, mas agora que o sol estava mais alto as nuvens pareciam mais leves, como se o tempo fosse abrir ainda durante a manhã. Saindo hoje de manhã, ponderou ela, poderíamos deixar a floresta pelo meio-dia e pegar a estrada de Oxford-Bath. À noite estaríamos na estrada principal para York.

— Agnus dei, qui tollis peccata mundi,dona eis requiem — disse Roche.

Temos que levar aveia para o burro, pensou ela, e o machado para cortar lenha. E também lençóis.

Roche terminou suas orações.

— Dominus vobiscum et cum spiritu tuo. Requiescat in pace. Amen — concluiu ele, e se encaminhou para a igreja, para tocar o sino.

Não há tempo para isso, pensou Kivrin, disparando na direção da casa grande. Ela poderia empacotar talvez metade de tudo que levariam enquanto Roche dobrava o sino aos finados, e depois revelaria o seu plano, e ele carregaria o burro, e sairiam em seguida. Ela atravessou o pátio correndo e entrou na casa. Tinham que levar carvões para acender a fogueira quando fosse preciso. Poderiam usar o cofrezinho medicinal de Imeyne.

Entrou no salão. Rosemund ainda dormia, o que era bom. Não havia necessidade de acordá-la até que estivessem prontos para partir. Kivrin passou por ela, na ponta dos pés, pegou e esvaziou o cofrezinho de Imeyne. Deixou-o junto ao fogo e virou-se para ir à cozinha.

— Eu acordei e você não estava aqui — falou Rosemund, sentada no catre. — Tive medo que tivesse ido embora.

— Nós vamos todos embora — revelou Kivrin. — Vamos para a Escócia. — Aproximou-se da menina. — Você precisa descansar para a viagem. Volto daqui a pouco.

— Para onde está indo? — indagou Rosemund.

— Só até a cozinha. Está com fome? Posso trazer um mingau para você. Agora, deite e descanse.

— Eu não gosto de ficar sozinha — comentou Rosemund. — Não pode ficar comigo um pouquinho?

Eu não tenho tempo para isso, pensou Kivrin.

— Vou só até a cozinha. E o padre Roche está aqui. Não está ouvindo? Ele está tocando o sino. Vou me ausentar apenas alguns minutos, está bem? — Ela deu um sorriso radiante para Rosemund, que aquiesceu com relutância. — Volto já.

Lá fora, ela quase correu. Roche ainda dobrava o sino aos finados, devagar, com firmeza. Vamos, vamos, pensou ela, não temos muito tempo. Vasculhou a cozinha, pondo toda a comida em cima da mesa. Havia um queijo redondo e vários pães brancos. Empilhou todos como pratos dentro de um saco de estopa, colocou o queijo por cima e levou tudo para junto do poço.

Rosemund estava parada à porta da casa, apoiando-se no umbral.

— Não posso ficar sentada na cozinha com você? — perguntou ela. Tinha vestido a túnica e calçado os sapatos, mas já estava tiritando no ar gelado.

— Está muito frio — respondeu Kivrin, apressando-se em ir para junto dela. — E você precisa descansar.

— Sempre que você sai eu fico com medo de que não volte — suspirou Rosemund.

— Eu estou bem aqui — tranquilizou Kivrin, mas logo entrou na casa para apanhar a capa de Rosemund e uma braçada de cobertores de pele. — Pode sentar aí no batente e ficar olhando enquanto eu arrumo as coisas — disse ela, pondo a capa sobre os ombros da menina e arrumando os cobertores em volta dela, como um ninho. — Está bem?

O broche que Sir Bloet dera ainda estava preso à capa. Rosemund mexeu no fecho, com as mãozinhas magras tremendo um pouco.

— Vamos para Courcy? — quis saber.

— Não — falou Kivrin, ajudando Rosemund a prender melhor o broche. Io suiicien lui dami amo. “Estou aqui no lugar do amigo que amo.” — Vamos para a Escócia. Lá estaremos em segurança, longe da peste.

— Acha que meu pai morreu com a peste?

Kivrin hesitou.

— Minha mãe dizia que ele estava atrasado ou que não podia vir. Imaginava que talvez meus irmãos estivessem doentes, e que ele viria quando todos melhorassem.

— Pode ser — consolou Kivrin, agasalhando os pés dela com uma pele. — Deixaremos uma carta para ele, para que saiba onde estamos.

Rosemund abanou a cabeça.

— Se ele estivesse vivo, teria vindo me buscar.

Kivrin envolveu os ombros magros de Rosemund com uma manta.

— Preciso ir buscar comida para a viagem — disse, com delicadeza.

Rosemund anuiu, e Kivrin foi até a cozinha. Havia um saco de cebolas encostado na parede, e outro de maçãs. Estavam murchas, e a maioria já apresentava manchas marrons, mas Kivrin arrastou o saco para fora assim mesmo. Não teriam que ser cozidas, e todos precisariam de vitaminas até a chegada da primavera.

— Quer uma maçã? — perguntou a Rosemund.

— Quero — respondeu ela.

Kivrin remexeu no saco, tentando encontrar uma que estivesse ainda firme e sem marcas. Tirou de lá uma meio vermelha, meio verde, esfregou na meia e entregou à menina, sorrindo diante da ideia de como teria sido agradável o sabor de uma maçã quando estava doente.

Depois da primeira mordida, porém, Rosemund pareceu perder o interesse. Recostou-se no portal e ficou quietinha contemplando o céu, escutando o dobrar contínuo do sino tocado por Roche.

Kivrin continuou escolhendo as maçãs, separando as que valia a pena levar e imaginando quanto peso o burro suportaria. Tinham que levar aveia para o animal. Não haveria capim, embora quando chegassem à Escócia ele pudesse comer urzes. Não precisariam levar água, pois havia muitos córregos no trajeto. Só que tinham que levar uma panela para ferver a água.

— Seus familiares não vieram buscar você — constatou Rosemund.

Kivrin ergueu os olhos. A menina continuava encostada ao portal, segurando a maçã.

Vieram, pensou, mas eu não estava no local.

— Não — respondeu.

— Acha que eles morreram da peste?

— Não — disse Kivrin, e pensou, Pelo menos não preciso ficar me perguntando se eles estão mortos ou indefesos em algum lugar. Pelo menos sei que todos estão bem.

— Quando eu encontrar Sir Bloet, vou contar como você nos ajudou — avisou Rosemund. — Vou pedir a ele para manter você e o padre Roche perto de mim. — Ela ergueu a cabeça, com orgulho. — Tenho direito aos meus próprios acompanhantes e meu capelão.

— Obrigada — agradeceu Kivrin, com solenidade.

Ela colocou o saco de maçãs boas ao lado do saco com pão e queijo. O sino parou de tocar, e suas reverberações continuaram se espalhando pelo ar frio. Ela apanhou e baixou o balde ao fundo do poço. Poderia preparar um pouco de mingau e cortar as maçãs mais velhas dentro. Seria uma refeição substancial para o começo da viagem.

A maçã de Rosemund passou rolando pelos seus pés até se chocar com a base do poço e parar. Kivrin se inclinou para apanhá-la. Havia apenas um pequeno pedaço mordido, uma mancha clara no meio da casca rubra. Kivrin limpou a fruta na meia.

— Você soltou sua maçã — disse, e virou-se para devolvê-la.

A mão ainda estava aberta, como se a menina tivesse se inclinado para apanhar o fruto quando caiu.

— Oh, Rosemund — suspirou Kivrin.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

(079110-079239)

Eu e o padre Roche estamos de partida para a Escócia. Para dizer a verdade, acho que não faz muito sentido contar isso, porque vocês nunca vão escutar o que está registrado neste recorde, mas vai que alguém encontre o chip um dia por acaso em uma charneca ou a srta. Montoya escave alguma área da Escócia depois de terminar Skendgate. Caso aconteça algo assim, quero que vocês saibam o que aconteceu conosco.

Sei que fugir talvez seja a pior coisa a fazer, mas preciso tirar o padre Roche daqui. A propriedade inteira está contaminada de peste: roupas de cama, vestimentas, o próprio ar. Além disso, há ratos por toda parte. Vi um na igreja quando fui buscar a alva e a estola de Roche para o funeral de Rosemund. Sem contar que, mesmo que ele não seja contaminado pelos ratos, a peste paira por toda a redondeza, e eu nunca conseguiria convencê-lo a permanecer aqui. Ele vai querer ajudar alguém.

Vamos nos manter afastados das estradas e longe dos vilarejos. Temos comida bastante para uma semana, e então já estaremos bem ao norte e poderemos comprar mantimentos em alguma cidade. O secretário trazia consigo uma bolsa de moedas de prata. E não se preocupem. Estaremos bem. Como diria o sr. Gilchrist, “todas as precauções foram tomadas”.