O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 31 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 30

 

Mary morreu pouco depois de Dunworthy cair doente. Ela adoeceu no mesmo dia da chegada do análogo. Desenvolveu uma pneumonia quase imediatamente e, no segundo dia, teve uma parada cardíaca. No dia 6 de janeiro. Dia da Epifania. Dia de Reis.

— Você devia ter me contado — disse Dunworthy.

— Eu contei — protestou Colin. — Então não se lembra?

Dunworthy não se lembrava. Nem ao menos desconfiara ao ver a sra. Gaddson com livre acesso ao seu quarto, ou quando Colin tinha comentado: “Eles não contam nada para você”. Nem sequer achara esquisito o fato de Mary não aparecer para uma visita.

— Eu avisei quando ela adoeceu — prosseguiu Colin. — E eu contei quando ela morreu, mas o senhor estava doente demais para entender.

Dunworthy imaginou Colin do lado de fora do quarto dela, esperando por notícias, e depois vindo e parando à cabeceira da cama dele, tentando avisá-lo.

— Sinto muito, Colin.

— O senhor não escolheu ficar doente — disse Colin. — Não foi culpa sua.

Dunworthy havia dito algo semelhante à sra. Taylor, e ela acreditara nas suas palavras tanto quanto ele estava acreditando nas de Colin agora. Teve a impressão de que o próprio Colin não estava convencido do que acabava de dizer.

— Está tudo bem — prosseguiu Colin. — Todo mundo foi muito legal comigo, menos a irmã. Ela não me deixou contar nada, mesmo depois que o senhor começou a melhorar, mas todos os outros foram legais, menos a chata da sra. Gaddson. Ela continuou lendo trechos das Escrituras para mim e dizendo que Deus abate os ímpios. O sr. Finch ligou para minha mãe, mas ela não teve como vir, então ele cuidou de todos os preparativos do funeral. Ele foi muito legal. As americanas foram legais, também. Me deram muitos doces.

— Sinto muito — repetiu Dunworthy e, depois que Colin foi expulso do quarto pela velha freira, repetiu de novo: — Sinto muito.

Colin não voltara desde então, e Dunworthy não sabia se a freira proibira o acesso do garoto à Emergência ou se, apesar de dizer que estava tudo bem, Colin não o tinha perdoado.

Dunworthy abandonara Colin, se ausentara e deixara o menino à mercê da sra. Gaddson e da freira e dos médicos que não contavam nada. Fugira para onde não poderia ser alcançado, tão incomunicável quanto Basingame pescando salmão num longínquo riacho da Escócia. E pouco importava o que Colin dissesse: Dunworthy sabia que o garoto dizia da boca para fora e que acreditava que, se ele quisesse mesmo, para valer, nem a doença nem nada o teriam impedido de estar ali do seu lado, ajudando.

— O senhor acha que Kivrin está morta, não é? — tinha perguntado Colin assim que Montoya saíra. — Pensa exatamente igual à srta. Montoya, certo?

— Receio que sim.

— Mas o senhor disse que Kivrin não poderia contrair a peste. E se ela não tiver morrido? E se ela estiver agora mesmo no local do reencontro, esperando pelo senhor?

— Ela foi infectada pela influenza, Colin.

— E daí? O senhor também foi e não morreu. Talvez ela também não tenha morrido. Acho que o senhor deveria procurar Badri e ver se ele tem alguma ideia. Talvez ele seja capaz de religar a máquina ou algo assim.

— Você não entende. Não é como uma lanterna elétrica, não é só desligar e religar o fix — explicara.

— Bem, talvez ele possa fazer outro. Um novo fix. Para aquele mesmo tempo.

Para aquele mesmo tempo. Um salto, mesmo com as coordenadas já preestabelecidas, precisava de dias para ser preparado. Sem contar que Badri não tinha as coordenadas. Tinha apenas a data. Ele podia “fazer” um novo conjunto de coordenadas baseadas na data, se as locacionais tivessem permanecido as mesmas. Se Badri, em plena febre, não tivesse deturpado todas elas também, e se os paradoxos permitissem a mera realização de um segundo salto.

Não havia como explicar tudo isso a Colin, não havia como dizer que não existia possibilidade de Kivrin ter sobrevivido à influenza num século onde o tratamento padrão era a sangria.

— Não tem como, Colin — respondera ele, de repente cansado demais para dar explicações. — Sinto muito.

— Então vai deixar ela lá e pronto? Sem saber se está viva ou morta? Não vai nem sequer perguntar a Badri?

— Colin…

— Minha tia-avó Mary fez tudo pelo senhor. Ela nunca desistiu.

— O que está acontecendo aqui? — perguntara a irmã, entrando no quarto, estalando sob o jaleco. — Vou ter que pedir que saia se estiver incomodando o paciente.

— Eu já estava de saída mesmo — dissera Colin e tinha disparado para fora.

O garoto não voltou a aparecer de tarde, nem durante a noite, nem tampouco na manhã seguinte.

— Tenho autorização para receber visitas? — perguntou à enfermeira de William quando chegou o turno dela.

— Tem — respondeu ela, conferindo os monitores. — E tem alguém querendo ver o senhor agora mesmo.

Era a sra. Gaddson, que já vinha de Bíblia aberta.

— Lucas, capítulo 23, versículo 33 — começou ela, encarando Dunworthy com uma expressão pestilencial. — Já que é tão interessado na Crucificação. “Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram.”

Se Deus soubesse onde o Seu filho estava, nunca permitiria que fizessem aquilo a ele, pensou Dunworthy. Teria resgatado Jesus. Ele chegaria de repente e levaria Cristo Consigo.

Durante a Peste Negra, os contemps acreditaram que tinham sido abandonados por Deus. “Por que nos virastes o Vosso rosto?”, haviam escrito. “Por que ignorais os nossos gritos?” Porém, talvez Deus não tivesse escutado. Talvez estivesse inconsciente, doente lá no Céu, desamparado e sem poder ajudar ninguém.

— “E houve trevas sobre a Terra inteira até à hora nona” — leu a sra. Gaddson. — “Tendo desaparecido o Sol.”

Os contemps tinham pensado que aquilo era o fim do mundo, que chegara o Armagedon, que Satanás enfim triunfara. E era isso mesmo, pensou Dunworthy. Ele fechou a rede. Ele perdeu o fix.

Pensou em Gilchrist. Imaginou se ele chegara a perceber o que tinha feito, antes de morrer, ou se faleceu inconsciente, apagado, sem saber que assassinara Kivrin.

— “Depois levou-os até Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os” — prosseguiu a sra. Gaddson. — “E enquanto os abençoava, distanciou-se deles e era elevado ao céu.”

Jesus se distanciou dos discípulos e foi elevado ao céu. Deus acabou vindo buscá-lo, pensou Dunworthy. Mas era tarde. Era tarde demais.

Ela continuou lendo, até que a enfermeira de William voltou a aparecer.

— Hora do cochilo do paciente — sentenciou ela num tom brusco, conduzindo a sra. Gaddson para fora. Depois se aproximou da cama, tirou e afofou o travesseiro.

— Colin já chegou? — perguntou Dunworthy.

— Não vejo ele desde ontem — respondeu ela, pondo o travesseiro de volta e ajudando Dunworthy a pousar a cabeça com cuidado. — Agora, quero que tente tirar um cochilo.

— A srta. Montoya não voltou aqui?

— Não desde ontem — disse, e estendeu um comprimido e um copo descartável.

— Alguém deixou recado?

— Nenhum recado — informou ela, pegando de volta o copo vazio. — Procure dormir.

Nenhum recado. “Darei um jeito de ser sepultada nessa igrejinha”, Kivrin havia dito a Montoya, mas os cemitérios da época não davam conta de tanta gente. Vítimas da peste chegaram a ser sepultadas em valas, em longas trincheiras. Outras tiveram os corpos atirados aos rios. Na fase final, ninguém se dava mais o trabalho de sepultar os cadáveres. Eram amontoados em pilhas enormes, a que se ateava fogo.

Montoya nunca encontraria aquele recorde. E, se encontrasse, qual seria a mensagem? “Fui para o local do salto, mas a rede não abriu. O que aconteceu?” A voz de Kivrin se erguendo em pânico, em recriminação, gritando: “Eli, Eli, por que me abandonaste?”.

A enfermeira de William o ajudou a sentar numa cadeira para o almoço. Quando ele terminou sua compota de ameixa, Finch apareceu.

— Estamos quase sem frutas enlatadas — começou ele, apontando a bandeja de Dunworthy. — E quase sem papel higiênico. Não faço ideia de como esperam que voltemos às aulas. — Ele sentou-se aos pés da cama. — A universidade marcou o reinício do período para o dia 25, mas é impossível aprontar tudo para essa data. Ainda temos quinze pacientes no Salvin, as campanhas de imunização mal começaram, e eu não estou totalmente convencido de que os casos acabaram de verdade.

— E quanto a Colin? — quis saber Dunworthy. — Ele está bem?

— Sim, senhor. Ficou um pouco melancólico após o falecimento da dra. Ahrens, mas está bastante animado por conta da recuperação do senhor.

— Obrigado por cuidar dele — disse Dunworthy. — Colin me contou que você se encarregou do funeral.

— Oh, fiquei feliz em poder ajudar, senhor. Como sabe, o garoto não tinha ninguém mais aqui. Eu tinha certeza de que a mãe dele viria depois que o perigo passou, mas ela disse que é difícil preparar tudo assim em cima da hora. Ela enviou umas flores lindas. Lírios e buquês de laser. O serviço religioso foi na capela do Balliol. — Ele mudou de posição no colchão. — Oh, e por falar na capela, espero que não se importe, mas dei permissão à Sagrada Igreja Re-Formada para realizar ali um concerto de sinos no dia 15. As sineiras americanas vão apresentar “When At Last My Savior Cometh”, de Rimbaud, e a Sagrada Igreja Re-Formada foi requisitada pelo SNS como centro de vacinação. Espero que esteja tudo bem.

— Sim — falou Dunworthy, pensando em Mary e se perguntando quando teria sido o funeral, e se tinham tocado o sino depois.

— Posso dizer a elas que o senhor preferiria que usassem a St. Mary — disse ele, ansioso.

— Não, claro que não — objetou Dunworthy. — A capela está perfeita. Você está mesmo fazendo um belo trabalho durante a minha ausência.

— Bem, eu tenho tentado, senhor. Tem sido difícil, com a sra. Gaddson. — Ele ficou de pé. — Bem, não quero atrapalhar o seu repouso. Há algo que eu possa trazer ou fazer pelo senhor?

— Não — respondeu Dunworthy. — Nada.

Finch foi para a porta e se deteve.

— A propósito, meus pêsames, sr. Dunworthy — disse ele, pouco à vontade. — Sei como o senhor e a dra. Ahrens eram próximos.

Próximos, pensou Dunworthy, depois que Finch saiu. Eu não era próximo coisa nenhuma. Tentou se lembrar de Mary inclinando-se sobre ele, dando-lhe um temp, examinando ansiosa os monitores, tentou se lembrar de Colin parado junto à cama, com o novo casaco verde e de cachecol, dizendo: “Minha tia-avó Mary morreu. Está me escutando?”. Só que não guardava lembrança de nada daquilo. De nada.

A freira chegou e pendurou mais uma bolsa de soro, que o apagou por completo. Quando acordou, Dunworthy se sentiu subitamente melhor.

— É o seu reforço de células-T que está se estabilizando — disse a enfermeira de William. — Temos visto isso em um grande número de casos. Algumas pessoas tiveram recuperações miraculosas.

Ela o ajudou a caminhar até o banheiro. E depois do almoço o acompanhou para uma caminhada ao longo do corredor.

— Quanto mais longe for, melhor — disse ela, ajudando-o a calçar os chinelos.

Eu não vou a lugar nenhum, pensou Dunworthy. Gilchrist desligou a rede.

Ela prendeu a bolsa de soro no ombro dele, conectou o motor portátil e ajudou Dunworthy a vestir o roupão.

— Não deve se preocupar com a depressão — avisou ela, ajudando-o a levantar da cama. — É um sintoma comum depois da influenza. Vai desaparecer assim que o organismo do senhor recuperar o equilíbrio químico.

Ela o conduziu pelo corredor.

— Talvez queira visitar algum dos seus amigos — sugeriu ela. — Há dois pacientes do Balliol na ala que fica no fim deste corredor. A sra. Piantini está no quarto leito. Faria bem a ela ter alguém para conversar.

— Será que o sr. Latimer… — disse ele, e parou. — O sr. Latimer continua internado?

— Sim — respondeu ela, e pelo tom da voz ele percebeu que Latimer ainda não se recuperara do derrame. — Duas portas adiante.

Ele arrastou os chinelos corredor afora até o quarto de Latimer. Não fora vê-lo logo que adoeceu, primeiro porque tinha de ficar à espera do telefonema de Andrews, e depois porque o hospital estava com escassez de vestimentas SPG. De acordo com Mary, Latimer havia sofrido paralisia completa e perda de funções.

Empurrou a porta do quarto. Latimer estava com os braços estendidos de cada lado, o esquerdo um pouco dobrado para acomodar as conexões e o soro. Havia tubos nas narinas e garganta adentro, e fibras ópticas unindo a cabeça e o peito ao painel de monitores sobre a cama. Seu rosto estava meio oculto por tudo aquilo, mas o paciente não dava sinais de incômodo.

— Latimer? — chamou Dunworthy, parado junto da cama.

Latimer não esboçou qualquer sinal de ter ouvido. Os olhos que estavam abertos não se moveram ao chamado, e por baixo do cipoal de tubos seu rosto não mudou de expressão. Parecia vago, distante, como se estivesse tentando recordar uma linha de Chaucer.

— Sr. Latimer! — chamou Dunworthy um pouco mais alto, e olhou para os monitores. Ali também nada mudou.

Ele não percebe nada, pensou, e levou a mão ao encosto da cadeira.

— O senhor não está sabendo nada do que aconteceu, não é? — perguntou. — Mary morreu. Kivrin está em 1348 — disse, de olho nas telinhas. — E tem mais: Gilchrist desligou a rede.

Não houve mudança nos monitores. As linhas continuaram se movendo com firmeza, despreocupadas, ao longo dos gráficos.

— O senhor e Gilchrist enviaram Kivrin para o meio da Peste Negra — gritou ele. — E agora o senhor está aí…

Ele parou e desabou na cadeira.

“Eu contei quando minha tia-avó Mary morreu”, dissera Colin, “mas o senhor estava doente demais para entender.” Colin tentara contar, mas Dunworthy ficou ali, como Latimer, indiferente, oblívio.

Colin nunca vai me perdoar, pensou ele. Também nunca vai perdoar a mãe, por não ter comparecido ao funeral. O que foi que ela disse Finch, que era difícil preparar tudo assim em cima da hora? Dunworthy pensou em Colin sozinho no funeral, olhando os lírios e os buquês de laser enviados pela mãe, enquanto ele permanecia ali, à mercê da sra. Gaddson e das sineiras.

“Minha mãe não pôde vir”, dissera Colin, mas ele não acreditara. Claro que ela poderia ter vindo, se quisesse mesmo.

Ele nunca vai me perdoar, pensou Dunworthy. Nem ele nem Kivrin. Ela é mais velha do que Colin, vai imaginar todas as circunstâncias atenuantes possíveis, talvez até a que aconteceu mesmo. Mas lá no fundo do coração, abandonada a sabe-se lá que degoladores e ladrões e pestilências, ela nunca vai acreditar que eu não poderia ter chegado até onde ela estava. Se eu quisesse mesmo.

Dunworthy ergueu-se com dificuldade, apoiando-se no assento e no encosto, sem olhar nem para Latimer nem para os monitores, e voltou para o corredor. Havia uma padiola com rodas, vazia, encostada à parede, e ele se apoiou ali durante algum tempo.

A sra. Gaddson apareceu no corredor.

— Oh, aí está, sr. Dunworthy — disse ela. — Eu estava justamente indo ler para o senhor. Será que já deveria mesmo estar de pé?

— Sim — respondeu ele.

— Bem, devo dizer que estou feliz que esteja por fim se recuperando. As coisas simplesmente desmoronaram durante o tempo em que o senhor adoeceu.

— É mesmo.

— O senhor precisa fazer alguma coisa a respeito do sr. Finch, sabe? Ele permite que as americanas ensaiem a qualquer hora do dia ou da noite e, quando eu tentei me queixar do barulho dos sinos, ele foi bem grosseiro. Sem falar que designou tarefas de enfermeiro para o meu Willy. Tarefas de enfermeiro! Logo para Willy, que é tão suscetível à doença. É um milagre que ele não tenha sucumbido ao vírus ainda.

Um milagre mesmo, pensou Dunworthy, considerando o número de mocinhas provavelmente doentes com quem o rapaz teve contato bem estreito durante a epidemia. Pensou se Probabilidade seria capaz de calcular que chances ele teria de passar incólume por todo esse processo.

— Agora, o sr. Finch obrigar o pobrezinho a trabalhar como enfermeiro?! — prosseguia a sra. Gaddson. — Não autorizei, é claro. “Eu me recuso a permitir que coloque em perigo a saúde de William de modo tão irresponsável”, falei para ele. “Não posso ficar de braços cruzados enquanto meu menino corre perigo mortal”, disse para ele.

Perigo mortal.

— Preciso ir ver a sra. Piantini — observou Dunworthy.

— O senhor deveria voltar para a cama, isso sim. Está com uma aparência péssima. — Ela brandiu a Bíblia para ele. — É um escândalo a maneira como é administrada esta Emergência. Permitir que os pacientes perambulem por aí. O senhor vai ter uma recaída e vai morrer, e será o único culpado por isso.

— Não — objetou Dunworthy, abrindo e cruzando a porta que dava para a ala interna.

Tinha imaginado que aquela ala estaria praticamente deserta, as camas, vazias, os pacientes, de alta, mas todos os leitos estavam ocupados. Em sua maioria, os pacientes estavam sentados, lendo ou assistindo a vids portáteis. Um que estava sentado numa cadeira de rodas junto à janela, observando a chuva, chamou sua atenção.

Precisou de alguns instantes para reconhecê-lo. Colin mencionara a recaída, mas Dunworthy não esperava por aquilo. Ele parecia um velho. O rosto moreno estava esbranquiçado por baixo dos olhos e com vincos profundos nos cantos da boca. O cabelo tinha ficado completamente branco.

— Badri — chamou ele.

Badri se voltou.

— Sr. Dunworthy.

— Eu não sabia que você estava nesta ala — comentou Dunworthy.

— Eles me transferiram para cá, depois que… — Ele se interrompeu. — Me disseram que o senhor está melhor.

— Sim.

Eu não vou aguentar isso, pensou Dunworthy. Como está se sentindo? Bem melhor, obrigado. E você? Melhorei bastante. Claro que é uma depressão, um sintoma pós-viral costumeiro.

Badri girou a cadeira de rodas para ficar de frente para a janela, e Dunworthy pensou que ele também não suportava aquilo.

— Eu cometi um erro quando inseri as coordenadas pela segunda vez — disse Badri, olhando para a chuva. — Inseri dados errados.

Dunworthy deveria dizer: Você estava doente, já estava com febre. Deveria dizer que confusão mental era um dos primeiros sintomas de influenza. Deveria dizer: Não foi culpa sua.

— Eu não percebi que estava doente — prosseguiu Badri, beliscando o roupão com as pontas dos dedos, como fizera nos períodos de delírio. — Eu passei aquela manhã inteira com dor de cabeça, mas achei que era pelo trabalho de operar a rede. Eu deveria ter percebido que havia alguma coisa errada e abortado o salto.

Já eu deveria ter me recusado a ser o orientador dela. Eu deveria ter insistido com Gilchrist para que testasse os parâmetros. Eu deveria tê-lo obrigado a abrir a rede assim que você me disse que havia alguma coisa errada.

— Eu deveria ter aberto a rede no dia em que o senhor adoeceu e não ter esperado pelo reencontro — continuou Badri, retorcendo entre os dedos a faixa do roupão. — Deveria ter aberto a rede na mesma hora.

Dunworthy olhou automaticamente para a parede por cima da cabeça de Badri, mas não havia monitores ali. O técnico sequer estava usando uma conexão plugada. Dunworthy se perguntou se era possível que Badri não soubesse que Gilchrist fechara a rede, se naquela preocupação geral com a recuperação do doente eles tivessem ocultado a informação de Badri, tal como ocultaram dele a notícia da morte de Mary.

— Eles não permitiram que eu saísse do hospital — disse Badri. — Eu deveria ter saído à força.

Vou ter que contar a ele, pensou Dunworthy, mas nada disse. Ficou calado ali, vendo Badri maltratar a faixa do roupão, redobrando-a, e sentindo por ele uma tristeza infinita.

— A srta. Montoya me mostrou as estatísticas de Probabilidade — seguiu Badri. — Acha que Kivrin morreu?

Espero que sim, pensou Dunworthy. Espero que tenha morrido do vírus, antes mesmo de perceber onde estava. Antes de perceber que nós a abandonamos lá.

— Não foi culpa sua — disse enfim.

— Eu só atrasei a abertura da rede em dois dias. Tinha certeza de que ela estaria esperando lá. Foram só dois dias!

— O quê?! — exclamou Dunworthy.

— Eu tentei conseguir permissão para sair do hospital no dia 6, mas os médicos se recusaram a me liberar antes do dia 8. Abri a rede assim que pude, mas ela não estava lá.

— Do que está falando?! — quis saber Dunworthy. — Como podia ter aberto a rede? Gilchrist a desligou.

Badri ergueu os olhos para ele.

— Nós usamos o backup.

— Que backup?!

— O do fix que eu consegui na nossa rede — disse Badri, parecendo surpreso. — O senhor estava tão preocupado com o modo como a Medieval estava conduzindo aquele salto que eu resolvi fazer um backup, só para garantir. Vim para o Balliol para falar sobre isso naquela tarde de terça-feira, mas o senhor não estava. Deixei um bilhete dizendo que precisávamos conversar.

— Um bilhete — repetiu Dunworthy.

— O laboratório estava aberto. Eu criei um fix redundante, usando a rede do Balliol — explicou Badri. — O senhor estava tão preocupado…

A força pareceu fugir de repente das pernas de Dunworthy. Ele sentou na cama desocupada de Badri.

— Tentei avisar o senhor — falou Badri. — Mas eu estava muito doente e ninguém me compreendia.

Existia um backup durante todo aquele tempo. Dunworthy perdera dias e mais dias tentando forçar Gilchrist a destrancar o laboratório, procurando Basingame, esperando Polly Wilson dar um jeito de invadir o computador da universidade, e durante o tempo todo o fix estivera ali, na rede do Balliol. “Tão preocupado”, falara Badri. “Backup”, sussurrara, e não “picape”.

— Você pode abrir a rede de novo?

— Claro, mas mesmo que ela não tenha contraído a peste…

— Não contraiu — interrompeu Dunworthy. — Ela foi imunizada.

— … ela não deve estar lá. O reencontro foi há oito dias. Kivrin não deve ter ficado ali esperando durante todo esse tempo.

— Alguém mais pode atravessar?

— Alguém mais? — repetiu Badri, com um olhar vazio.

— Para ir buscá-la. Alguém pode usar o mesmo salto para ir até lá?

— Não sei.

— Quanto tempo levaria para deixar tudo pronto para fazer um teste?

— Umas duas horas, no máximo. As coordenadas temporais e locacionais já estão fixadas, mas eu não sei quanto desvio pode existir.

A porta que dava para o corredor se abriu e Colin entrou.

— Até que enfim! — exclamou. — A enfermeira disse que o senhor tinha ido dar uma volta, mas eu não o achava em lugar nenhum. Pensei que tinha se perdido.

— Não — disse Dunworthy, olhando para Badri.

— Ela me pediu para levar o senhor de volta — advertiu Colin, pegando Dunworthy pelo braço e o ajudando a se erguer. — Não é para exagerar — explicou, já o conduzindo na direção da porta.

Dunworthy se deteve ali.

— Qual foi mesmo a rede que você usou para abrir no dia 8? — perguntou a Badri.

— A do Balliol — respondeu o técnico. — Tive medo de que parte da memória permanente tivesse sofrido danos quando a rede do Brasenose foi desligada, e não dava tempo de rodar um programa de avaliação.

Colin abriu a porta.

— O turno da irmã começa daqui a meia hora. Não vai querer que ela encontre o senhor aqui — disse, e fechou a porta. — Lamento não ter voltado antes, mas tive que levar umas planilhas de imunização a Godstow.

Dunworthy se recostou e apoiou o corpo na porta fechada. Talvez houvesse um desvio grande demais. Badri estava em cadeira de rodas, e o próprio Dunworthy não tinha certeza se era capaz de chegar ao fim do corredor, quanto mais voltar ao seu quarto. Tão preocupado. Ele imaginara que Badri queria dizer: “O senhor estava tão preocupado que eu decidi refazer as coordenadas”, mas não, era: “… que eu fiz um backup”. Um backup.

— O senhor está bem? — perguntou Colin. — Por acaso não está tendo uma recaída, esse tipo de coisa?

— Não — respondeu Dunworthy.

— Perguntou ao sr. Chaudhuri se ele é capaz de reconstituir o fix?

— Não — disse. — Havia um backup.

— Um backup?! — se surpreendeu Colin, excitado.

— Sim.

— Isso significa que vão poder buscar Kivrin?

Dunworthy parou e se apoiou numa maca sobre rodas.

— Não sei — falou.

— Eu vou ajudar — avisou Colin. — Diga, o que posso fazer? Pode pedir o que quiser. Posso levar recados e trazer coisas. O senhor não vai precisar fazer nada.

— Talvez não dê certo — começou Dunworthy. — O desvio…

— Mas o senhor vai tentar, não vai? Não vai?

Sentia um forte aperto no peito a cada passo, e Badri já tivera uma recaída, e mesmo que conseguissem talvez a rede não o deixasse passar.

— Sim — disse. — Eu vou tentar.

— Apocalíptico! — exclamou Colin.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

 

(078926-079064)

Lady Imeyne, a mãe de Guillaume D’Iverie.

(Pausa)

Rosemund está partindo. Não sinto mais os batimentos quando tomo seu pulso, e sua pele está amarelada, parecendo de cera, o que eu sei que é mau sinal. Agnes está lutando muito. Ainda não tem bulbos e ainda não vomitou, o que é um bom sinal, eu acho. Eliwys teve que cortar o cabelo dela. A menina ficava puxando a cabeleira o tempo todo, gritando meu nome, para que eu lhe fizesse tranças.

(Pausa)

Roche deu a extrema-unção a Rosemund. Ela não pôde se confessar, é claro. Agnes parece melhor, embora ainda há pouco tivesse um sangramento no nariz. Ela perguntou pelo sininho.

(Pausa)

Seu covarde! Não vou permitir que leve ela. É só uma criança. Mas essa é a sua especialidade, não é? Massacre de inocentes?! Já levou o bebê do caseiro e o cãozinho de Agnes e o garoto que me ajudou quando eu estava na cabana, e isso basta. Não vou permitir que mate ela, seu filho da puta! Não vou permitir!