O Livro do Juízo Final
Capítulo 21
Duas outras pessoas morreram no dia 28, ambas casos primários que estiveram na festa em Headington, e Latimer sofreu um derrame.
— Ele teve uma miocardite, que causou uma tromboembolia — disse Mary, quando telefonou. — Nesse momento, não está reagindo.
A esta altura, metade dos detidos sob abrigo de Dunworthy já fora derrubada pelo vírus, e na Emergência só havia espaço para os casos mais graves. Dunworthy e Finch, acompanhados por um detido (descoberto por William) que estudara enfermagem durante um ano, distribuíram temps e suco de laranja em turnos sucessivos. Dunworthy improvisou colchonetes e medicou os doentes.
E começou a se preocupar. Quando contou a Mary a respeito de Badri ter falado “isso não pode estar certo” e “foram os ratos”, ela respondera:
— É a febre, James. Eles não estão falando coisa com coisa. Estou com um paciente que não para de falar dos elefantes da rainha.
Mas ele não conseguia tirar da cabeça a ideia de que Kivrin estava em 1348. “Em que ano estamos?”, dissera Badri naquela primeira noite, além de “isso não pode estar certo”.
Após a discussão com Gilchrist, Dunworthy telefonou para Andrews e disse que seria impossível conseguir acesso à rede no Brasenose.
— Não importa — comentou Andrews. — As coordenadas locacionais não são tão importantes quanto as temporais. Vou obter latitude e longitude da escavação, com o pessoal lá do Jesus College. Já falei a respeito de checar os parâmetros, e eles disseram que tudo bem.
O visual tinha sumido de novo nas ligações, mas Andrews parecia nervoso, como se receasse que Dunworthy voltasse a abordar a possibilidade de uma ida dele a Oxford.
— Fiz uma breve pesquisa a respeito de desvios — prosseguiu ele. — Teoricamente não há limites, mas na prática o desvio mínimo é sempre maior que zero, mesmo em áreas desabitadas. O desvio máximo nunca ultrapassou cinco anos, e todos foram em saltos não tripulados. O maior desvio num salto tripulado foi um remoto para o século XVII. Duzentos e vinte e seis dias.
— Poderia ser alguma outra coisa? — perguntou Dunworthy. — Alguma coisa além do desvio poderia ter dado errado?
— Se as coordenadas estão corretas, não — sentenciou Andrews, que prometeu dar notícias assim que acabasse de checar os parâmetros.
Um desvio de cinco anos significava 1325. A peste ainda não começara nem mesmo na China. Sem falar que Badri dissera a Gilchrist que o desvio fora mínimo. E o problema não podia ser com as coordenadas. Badri checara tudo antes de adoecer. Apesar disso, o medo continuou a afligir Dunworthy, que passou os poucos momentos de sossego que teve telefonando para outros técnicos, tentando achar alguém disposto a vir ler o fix quando o sequenciamento chegasse e Gilchrist abrisse o laboratório de novo. O resultado devia ter chegado na véspera, mas quando Mary ligou para ele disse que estavam ainda esperando.
Ela voltou a telefonar no fim da tarde.
— Pode separar uma ala para nós? — perguntou.
As ligações estavam sendo transmitidas em visual novamente. Mary parecia ter dormido usando aquele traje de proteção, e a máscara pendia do seu pescoço pendurada por uma tira.
— Já separei, não? — indagou ele. — Está lotada de pessoas detidas. Tivemos trinta e um casos agora à tarde.
— Tem espaço para separar outra? Não precisa ser agora — disse Mary, cansada. — Mas cedo ou tarde vou precisar, sim. Estamos chegando aqui ao limite da nossa capacidade, e vários integrantes da equipe médica ou adoeceram ou estão se recusando a vir.
— O sequenciamento ainda não chegou? — quis saber ele.
— Não. O CMI ligou há pouco. O primeiro resultado apresentou falhas e precisaram recomeçar do princípio. Acham que vai ficar para amanhã. Trabalham agora com a hipótese do vírus uruguaio. — Ela deu um sorriso desalentado. — Você acha que Badri teve contato com alguém do Uruguai? Bem, em quanto tempo acha que pode aprontar os leitos?
— Hoje à noite — respondeu Dunworthy.
Mas Finch informou que estavam quase sem colchonetes, e ele precisou ir até o SNS pedir mais uma dúzia. Só conseguiram preparar a nova ala, em duas salas de aulas, antes do amanhecer.
Enquanto o ajudava a arrumar os colchonetes e a forrar as camas, Finch avisou que estavam ficando sem lençóis limpos, máscaras faciais e papel higiênico.
— Não temos o bastante nem para os detidos — disse, enfiando as bordas de um lençol sob o colchão —, quanto mais para os pacientes. Também não temos ataduras.
— Não é uma guerra — respondeu Dunworthy. — Duvido que apareça alguém ferido. Pesquisou se algum outro colégio de Oxford dispõe de técnicos?
— Sim, senhor. Telefonei para todos, mas nenhum deles tem. — Ele prendeu um travesseiro com o queixo contra o pescoço. — Espalhei cartazes pedindo a todos que economizassem papel higiênico, mas não deu resultado. As americanas, em particular, gastam muitos rolos. — Ele enfiou a fronha no travesseiro de baixo para cima. — Apesar disso, fico com muita pena. Helen está acamada desde ontem à noite, o senhor sabe, e elas não têm substituta.
— Helen?
— A sra. Piantini. A tenor. Está com febre de 39,7. Elas não vão ter como apresentar o seu “Chicago Surprise”.
O que provavelmente é uma bênção, pensou Dunworthy.
— Pergunte a elas se ainda estão de olho nos meus telefonemas, mesmo que tenham parado de ensaiar — pediu ele. — Estou esperando algumas ligações importantíssimas. Andrews retornou?
— Não, senhor, ainda não. E as ligações estão sem visual. — Ele bateu no travesseiro para amaciá-lo. — É uma pena esse problema com o dobre. Elas podem executar os stedmans, é claro, mas é muito batido. Pena que não tenham alternativa.
— Você fez a lista dos técnicos?
— Fiz, senhor — confirmou Finch, engalfinhando-se com um colchonete revolto. Fez um gesto com a cabeça. — Está ali, perto do quadro-negro.
Dunworthy pegou a papelada e olhou a folha de cima. Estava preenchida com uma coluna de números, todos com os dígitos de um a seis, em diferentes ordens.
— Não é isto — disse Finch, tirando as folhas da mão dele. — Estas aqui são as mudanças usadas no “Chicago Surprise”. — Ele separou e entregou uma folha a Dunworthy. — Aqui está. Listei todos os técnicos por colégio e incluí endereços e telefones.
Colin entrou nesse momento, com o casaco molhado, carregando um rolo de fita adesiva e um embrulho coberto de plastene.
— O vigário me pediu para colar estes cartazes em todas as alas — informou ele, exibindo um anúncio que dizia: “Desorientação e dificuldade de concatenar as ideias? Confusão mental pode ser um indício de que você contraiu o vírus”.
Ele rasgou uma tira da fita adesiva e prendeu o cartaz no quadro-negro.
— Quando fui colar os cartazes na Emergência, o que vocês imaginam que a chata da sra. Gaddson estava fazendo? — questionou ele, tirando da pilha outro cartaz, que dizia: USE SUA MáSCARA FACIAL. Ele prendeu o anúncio na parede por cima do colchonete que Finch estava arrumando. — Estava lendo a Bíblia para os doentes! — Ele guardou a fita adesiva no bolso. — Espero que eu não acabe pegando isso. — Colocou o resto dos cartazes embaixo do braço e foi em direção à porta.
— Use sua máscara facial — disse Dunworthy.
Colin sorriu.
— Foi isso que a chata disse. E disse mais: que o Senhor castigaria aqueles que não escutam a voz dos justos. — Ele tirou de outro bolso o cachecol cinza. — Eu uso isto em vez de máscara — falou, amarrando a echarpe por cima do nariz e da boca, no estilo bandoleiro.
— Esse tecido não protege você de vírus microscópicos — avisou Dunworthy.
— Eu sei. Mas a cor afugenta todos eles — rebateu o garoto, disparando porta afora.
Dunworthy ligou para Mary para avisar que a nova ala estava pronta, mas não conseguiu completar a ligação, de modo que foi a pé até o Hospital. A chuva diminuíra um pouco, e havia pessoas na rua, a maioria de máscaras, voltando do armazém ou fazendo fila diante das farmácias. No entanto, pairava sobre a rua inteira um silêncio pouco natural.
Alguém desligou o carrilhão, pensou Dunworthy, e quase lamentou isso.
Mary estava em sua sala, olhando para um monitor.
— O sequenciamento chegou — disse ela, antes que ele pudesse falar sobre a nova ala.
— Já comunicou a Gilchrist? — perguntou ele, rapidamente.
— Não — respondeu ela. — Não é o vírus do Uruguai, nem o da Carolina do Sul.
— E o que é?
— É um H9N2. Os vírus da Carolina do Sul e do Uruguai são H3.
— Então, de onde ele veio?
— O CMI não sabe. Não é um vírus conhecido. Provavelmente nunca foi sequenciado antes. — Ela estendeu uma folha impressa. — Tem sete pontos de mutação, o que explica por que está matando gente.
Ele olhou a folha. Estava coberta por colunas de números, como a lista de mudanças do “Chicago Surprise”, e era igualmente ininteligível.
— Tem que vir de algum lugar — comentou ele.
— Não necessariamente. Como a cada dez anos, mais ou menos, ocorre uma mudança antigênica com potencial epidêmico, o vírus pode ter se originado em Badri. — Ela pegou a folha impressa de volta. — Você sabe se nas proximidades de onde ele mora existem criadouros de gado ou aviários?
— Criadouros de gado? Ele mora num apartamento em Headington.
— Variações mutantes são produzidas às vezes pela interseção entre um vírus avícola e uma variante humana. O CMI quer checar todos os contatos possíveis com aves, bem como exposição a radioatividade. Mutações virais são causadas às vezes por raios X. — Ela olhou a folha impressa como se aquilo fizesse sentido. — É uma mutação pouco usual. Não há recombinação dos genes de hemaglutinina, somente uma mutação pontual muito grande.
Não era de admirar que ela não houvesse avisado Gilchrist. Ele dissera que abriria o laboratório quando o sequenciamento chegasse, mas essas últimas notícias só serviriam para convencê-lo do contrário.
— Há cura para isso?
— Haverá, assim que se possa produzir um análogo. E uma vacina. Já estão trabalhando no protótipo.
— Quanto vai demorar?
— De três a cinco dias para o protótipo, depois mais uns cinco dias para a fabricação, caso não encontrarem nenhum problema em duplicar as proteínas. Devemos estar em condições de aplicar a vacina em dez dias.
Dez dias. E esse era o prazo para começarem o processo de imunização. Quanto tempo levaria para imunizar a área de quarentena? Uma semana? Duas? Quanto tempo antes que Gilchrist e os manifestantes idiotas considerassem seguro abrir o laboratório?
— Tempo demais — disse Dunworthy.
— Eu sei — concordou Mary, e suspirou. — Deus sabe quantos casos ainda teremos até lá. Só hoje de manhã apareceram mais vinte.
— Acha que é uma variante mutante?
Ela pensou um pouco.
— Não, acho mais provável que Badri tenha apanhado de alguém na festa em Headington. Deve ter havido algum hindu-novo por lá, ou alguém dos terrenos, ou alguém mais que não acredita em antivirais ou em medicina moderna. A gripe do ganso canadense de 2010, como você se lembra, foi rastreada e teve origem confirmada numa comunidade de Ciência Cristã. Existe uma origem. E vamos encontrar.
— E enquanto isso, o que acontece com Kivrin? E se chegar o dia do reencontro e ainda não tiverem descoberto a origem do vírus? A volta de Kivrin está marcada para 6 de janeiro. Acha que até lá terão encontrado a origem?
— Não sei — respondeu ela, cansada. — Talvez ela não queira voltar para um século que está rapidamente merecendo um índice 10. Talvez ela prefira ficar em 1320.
Se estiver mesmo em 1320, pensou Dunworthy, e subiu ao quarto de Badri. Ele não tinha falado mais em ratos desde a noite de Natal. Estava de volta àquela tarde no Balliol quando fora à procura de Dunworthy no pub. “Laboratório?”, murmurou ele quando viu Dunworthy. Tentou debilmente lhe estender um “bilhete” e depois afundou no sono, exausto pelo esforço.
Dunworthy ficou alguns minutos, antes de ir procurar Gilchrist.
A chuva estava mais forte quando chegou ao Brasenose. O grupo de manifestantes estava se amontoando embaixo da faixa de protesto, tremendo de frio.
O porteiro estava na mesa de recepção, removendo as decorações da pequena árvore de Natal. Lançou uma olhadela para Dunworthy e pareceu subitamente alarmado. Dunworthy passou por ele e cruzou o portão.
— Não pode entrar aí, sr. Dunworthy — gritou o porteiro por trás dele. — O colégio está interditado.
Dunworthy caminhou ao longo do pátio. Os aposentos de Gilchrist ficavam no prédio atrás do laboratório. Apressou-se naquela direção, temendo que o porteiro o alcançasse e tentasse detê-lo.
O laboratório ostentava um grande cartaz amarelo ACESSO SOMENTE PARA PESSOAL AUTORIZADO e um alarme eletrônico preso ao portal.
— Sr. Dunworthy — chamou Gilchrist, avançando até ele sob a chuva. O porteiro devia ter ligado. — O laboratório está interditado.
— Vim para falar com o senhor — disse Dunworthy.
O porteiro se aproximou, arrastando atrás de si uma guirlanda de papel laminado.
— Quer que eu telefone para os guardas? — perguntou.
— Não é preciso — respondeu Gilchrist. E para Dunworthy: — Vamos subir aos meus aposentos. Tenho uma coisa que preciso mostrar para o senhor.
Ele conduziu Dunworthy para seu escritório, sentou-se por trás de uma mesa atulhada e colocou uma máscara complicada, cheia de filtros.
— Falei há pouco com o CMI — começou ele, com voz oca, como se vinda de longe. — É um vírus ainda não sequenciado, de origem desconhecida.
— Acaba de ser sequenciado — disse Dunworthy — e o análogo e a vacina ficarão prontos dentro de alguns dias. A dra. Ahrens concordou em dar ao Brasenose prioridade na imunização, e estou tentando localizar um técnico que possa ler o fix assim que a imunização for concluída.
— Receio que seja impossível — disse Gilchrist, com voz oca. — Estou dirigindo uma pesquisa sobre a incidência de influenza nos anos 1300. Há indícios claros de que uma série de epidemias de influenza na primeira metade do século XIV enfraqueceu gravemente a população, diminuindo sua resistência para enfrentar a Peste Negra. — Ele pegou um livro de aparência antiga. — Encontrei seis referências independentes a surtos ocorridos entre outubro de 1318 e fevereiro de 1321. — Ergueu o livro e começou a ler. — “Depois da época da colheita, surgiu em Dorset uma febre tão forte que matou muitas pessoas. Essa febre começava com dor de cabeça e confusão em todas as partes do corpo. Os médicos aplicaram sangria nos pacientes, mas mesmo assim morreram muitos.”
Uma febre. Numa era de febres e tifoides e cóleras e sarampos, todos produzindo “dor de cabeça e confusão em todas as partes”.
— Mil, trezentos e dezenove. Os tribunais de Bath do ano anterior foram cancelados — comentou Gilchrist, erguendo outro livro. — “Uma doença do peito surgiu na corte, de modo que não sobrou ninguém, nem juízes nem jurados, para ouvir os casos” — leu Gilchrist, e lançou um olhar para Dunworthy por cima da máscara. — O senhor disse que o clamor público com relação à rede não passava de histeria sem fundamento. Só que aparentemente se baseia em fatos históricos bastante sólidos.
Fatos históricos bastante sólidos. Referências a febres e doenças do peito que podiam ser qualquer coisa, infecção sanguínea, tifo, qualquer doença entre centenas de doenças anônimas. Não valia a pena discutir sobre nada daquilo.
— O vírus não pode ter passado através da rede — disse ele. — Já foram realizados saltos ao tempo da Pandemia, às batalhas da Primeira Guerra Mundial em que foi utilizado o gás de mostarda, a Tel Aviv. Século XX enviou equipamento de detecção à catedral de são Paulo dois dias depois do bombardeio de Londres. Nada passou de lá para cá.
— Isso é o que o senhor diz. — Ele ergueu uma folha impressa. — Probabilidade indica uma possibilidade de 0,003 por cento de um micro-organismo ser transmitido através da rede, e uma chance de 22,1 por cento de um mixovírus viável estar presente na área crítica quando a rede foi aberta.
— Onde o senhor obtém esses números, pelo amor de Deus?! — questionou Dunworthy. — Tira de uma cartola? De acordo com Probabilidade — rebateu ele, pondo uma ênfase maldosa na palavra — havia apenas uma chance de 0,04 por cento de alguém estar presente quando Kivrin deu o salto, uma probabilidade que o senhor considerou insignificante.
— Vírus são organismos excepcionalmente resistentes — disse Gilchrist. — Existem registros de casos em que ficaram adormecidos por longos períodos de tempo, expostos a temperaturas extremas e à umidade, e continuaram ativos. Sob certas condições, formam cristais que retêm indefinidamente sua estrutura. Quando mergulhados de novo numa solução, voltam a ter o poder de infectar. Já foram encontrados mosaicos de cristais de tabaco, viáveis, datando do século XVI. Existe um risco significativo de que um vírus penetre na rede quando ela é aberta, e nessas circunstâncias não posso permitir isso.
— O vírus não pode ter vindo pela rede — insistiu Dunworthy.
— Então por que está tão ansioso para fazer alguém ler o fix?
— Porque… — começou Dunworthy, e fez uma pausa para retomar o autocontrole. — Porque a leitura do fix nos dirá se o salto correu normalmente ou se alguma coisa saiu errada.
— Ah, admite então a possibilidade de um erro, não é? — perguntou Gilchrist. — Então, por que não pode ter havido um erro que permitiu a passagem do vírus através da rede? Enquanto existir essa possibilidade, o laboratório vai continuar interditado. Tenho certeza de que o sr. Basingame aprovará meus procedimentos.
Basingame, pensou Dunworthy. Esta era a questão. Não tinha nada a ver com vírus nem com manifestantes nem tampouco com “doenças do peito” de 1318. Tudo aquilo era para que ele pudesse se justificar diante de Basingame.
Gilchrist era o diretor em exercício durante a ausência de Basingame e tinha atualizado às pressas o ranking, supervisionado às pressas um salto no tempo, sem dúvida com a intenção de surpreender Basingame, quando do seu retorno, com um brilhante fait accompli. Só que não tinha dado certo. Pelo contrário, o que tinha em mãos agora era uma epidemia, uma historiadora perdida e manifestantes diante da faculdade. Sua única preocupação agora era achar uma maneira de vindicar suas ações e salvar a própria pele, mesmo que isso significasse sacrificar Kivrin.
— E quanto a Kivrin? Será que ela aprova os procedimentos adotados pelo senhor?
— A srta. Engle estava perfeitamente consciente dos riscos, quando se apresentou por livre e espontânea vontade para ir a 1320 — respondeu Gilchrist.
— Estava consciente de que o senhor pretendia abandoná-la à própria sorte?
— Esta conversa está terminada, sr. Dunworthy — disse Gilchrist, levantando-se. — Vou abrir o laboratório apenas quando a origem do vírus tiver sido estabelecida e quando alguém provar, de maneira que me pareça satisfatória, que não há chances de que o vírus tenha surgido através da rede.
Ele conduziu Dunworthy até a saída. O porteiro estava à espera do lado de fora da porta.
— Eu não pretendo deixar que abandone Kivrin à própria sorte — avisou Dunworthy.
Gilchrist contraiu os lábios por baixo da máscara.
— E eu não pretendo deixar que o senhor coloque em perigo a saúde desta comunidade. — Ele se virou para o porteiro. — Acompanhe o sr. Dunworthy até o portão. Se ele tentar entrar no Brasenose de novo, telefone para a polícia.
Depois dessa ordem, bateu a porta.
O porteiro caminhou ao lado de Dunworthy ao longo do pátio, vigiando-o como se ele pudesse se tornar perigoso a qualquer momento.
Bem que eu poderia, pensou Dunworthy.
— Preciso usar seu telefone — disse Dunworthy, quando chegaram ao portão. — Assunto de interesse da Universidade.
O porteiro pareceu nervoso, mas pôs um telefone em cima do balcão e ficou vigiando enquanto Dunworthy digitava o número do Balliol. Quando Finch atendeu, ele disse:
— Precisamos localizar Basingame. É uma emergência. Ligue para o Departamento de Licenças de Pesca da Escócia e faça uma lista de hotéis e pousadas. E me passe o número de Polly Wilson.
Anotou o número, desligou, começou a digitar os números mas mudou de ideia e ligou para Mary.
— Quero ajudar a descobrir a origem do vírus — disse ele.
— Gilchrist não quis abrir a rede — presumiu ela.
— Isso mesmo — anuiu ele. — O que posso fazer para ajudar nesse rastreamento?
— O mesmo que estava fazendo quando pesquisou os contatos primários. Rastreie os contatos e investigue as possibilidades que mencionei: exposição a radioatividade, proximidade com aviários ou criadouros de gado, religiões que proíbem o uso de antivirais. Você vai precisar das planilhas de contatos.
— Mandarei Colin buscar aí — disse ele.
— Pedirei a alguém para deixar uma cópia pronta. Também seria bom você checar os contatos de Badri nos últimos seis dias, caso ele venha a ser a origem do vírus. O tempo de incubação de um reservatório pode ser mais longo do que o de uma contaminação pessoa a pessoa.
— William vai ficar encarregado disso — respondeu ele.
Devolveu o telefone ao porteiro, que imediatamente contornou o balcão e o acompanhou até a saída. Dunworthy se surpreendeu quando o homem não quis segui-lo até o Balliol.
Assim que chegou lá, ligou para Polly Wilson.
— Existe algum modo de acessar o console da rede sem ter acesso ao laboratório? — indagou. — Você pode entrar lá diretamente através do computador da Universidade?
— Não sei — disse ela. — O computador da Universidade é protegido. Posso improvisar um aríete ou um worm a partir do console do Balliol. Preciso ver antes quais são os protocolos de segurança. Já tem um técnico para ler o material, caso eu consiga o acesso?
— Estou providenciando — avisou ele, e desligou.
Colin entrou, pingando, em busca de outro rolo de fita adesiva.
— Já soube que o sequenciamento chegou e é um vírus mutante?
— Já — respondeu Dunworthy. — Quero que vá à Emergência e traga a planilha de contatos que está com sua tia-avó.
Colin largou no chão a pilha de cartazes. O de cima dizia: “Não tenha uma recaída”.
— Estão comentando que é alguma espécie de arma biológica — disse o garoto. — Estão dizendo que escapou de um laboratório.
Não do de Gilchrist, pensou ele, com amargura.
— Sabe onde está William Gaddson?
— Não. — Colin fez uma careta. — Deve estar em algum lance de escada beijando alguém.
Estava na despensa, abraçado a uma das detidas. Dunworthy pediu para ele descobrir por onde Badri andara entre a quinta-feira e o domingo de manhã, e para obter uma cópia das despesas do cartão de crédito de Basingame no mês de dezembro. Em seguida, voltou aos seus aposentos para telefonar para os técnicos.
Um deles estava operando uma rede para o Século XIX em Moscou, e dois tinham ido esquiar. Os outros não estavam em casa, ou talvez, alertados por Andrews, preferiram não atender.
Colin trouxe as planilhas de contatos. Um desastre. Ninguém fizera uma tentativa de relacionar as informações, exceto possíveis conexões com americanos, e havia um número enorme de interações. Metade dos primários estivera na festa em Headington, dois terços fizeram compras de Natal, e todos, com exceção de dois, andaram de metrô. Era como procurar uma agulha num palheiro.
Ele passou metade da noite checando a religião dos listados e batendo referências cruzadas. Quarenta e dois eram anglicanos; nove, da Sagrada Igreja Re-Formada; dezessete não tinham filiação. Oito eram estudantes do Shrewsbury College; onze estiveram na fila em uma loja da Debenham para ver o Papai Noel; nove trabalharam na escavação de Montoya; trinta fizeram compras na Blackwell.
Vinte e um tinham contatos cruzados com pelo menos dois secundários, e o Papai Noel da Debenham entrara em contato com trinta e dois (com exceção de onze, todos num pub depois do trabalho), mas nenhum podia ser rastreado até os contatos primários, com exceção de Badri.
Pela manhã, Mary trouxe a lista de novos casos. Estava usando SPG, mas sem máscara.
— As camas estão prontas? — quis saber.
— Estão. Temos duas alas com dez camas cada.
— Ótimo. Vou precisar de todas.
Ajudaram os pacientes a se transferir para as alas improvisadas e a se instalar nas camas, deixando-os aos cuidados da jovem enfermeira de William.
— Mandaremos os que precisam de maca assim que tivermos uma ambulância disponível — avisou Mary, cruzando de volta o pátio com Dunworthy.
A chuva havia parado completamente e o céu estava mais claro, como se o tempo pudesse abrir a qualquer momento.
— Quando vai chegar o análogo? — perguntou ele.
— Mais dois dias pelo menos — respondeu ela.
Chegaram ao portão. Ela se encostou à parede de pedra.
— Quando tudo isso acabar, quem vai viajar através da rede sou eu — falou ela. — Para um século onde não haja epidemias, onde não haja ninguém esperando ou se preocupando ou impotente em uma maca. — Passou a mão pelo cabelo grisalho. — Algum século que não tenha índice 10. — Sorriu. — Mas não existe nenhum, não é mesmo?
Ele abanou a cabeça.
— Já contei sobre o Vale dos Reis? — perguntou ela.
— Você já me disse que esteve lá na época da Pandemia.
Ela assentiu.
— Como o Cairo estava sob quarentena, tivemos que pegar o voo em Adis Abeba, e no caminho dei uma gorjeta ao taxista para que nos levasse ao Vale dos Reis. Eu queria ver o túmulo de Tuntankamon — observou ela. — Foi uma grande bobagem. A Pandemia já tinha chegado até Luxor, e quase fomos alcançados pela quarentena. Atiraram duas vezes contra nós. — Ela abanou a cabeça. — Podíamos ter morrido. Minha irmã se recusou a deixar o carro, mas eu desci os degraus, fui até a porta do túmulo e pensei, era assim que estava quando Howard Carter o descobriu.
Ela olhou para Dunworthy como se não o visse, e continuou recordando.
— Quando o túmulo foi descoberto, a porta estava trancada, e eles deveriam ter ficado esperando que as autoridades competentes viessem abrir a câmara. Carter fez uma abertura na porta, enfiou a mão com uma vela e se curvou para olhar lá dentro. — A voz dela ficou mais baixa. — Lord Carnavon perguntou, “Pode ver alguma coisa?”, e Carter respondeu, “Sim, coisas maravilhosas”.
Ela fechou os olhos.
— Nunca vou esquecer aquilo, eles parados diante daquela porta trancada. Consigo ver a cena com clareza até hoje. — Ela abriu os olhos. — Talvez seja o lugar para onde eu queira ir depois que acabar isso tudo. Para a abertura do túmulo do rei Tut.
Ela se afastou da parede.
— Ih, veja só, está chovendo de novo. Tenho que voltar. Vou mandar quem precisa de maca assim que uma ambulância ficar disponível. — Ela lançou um olhar penetrante para ele. — Por que não está usando sua máscara?
— Faz os meus óculos ficarem embaçados. Por que não está usando a sua?
— As máscaras estão acabando. Você já fez o seu reforço de células-T, não?
Ele abanou a cabeça.
— Não tive tempo.
— Pois trate de arranjar — disse ela. — E use a máscara. Você não vai poder ajudar Kivrin se adoecer.
Não estou podendo ajudar agora, pensou ele, caminhando de volta para seus aposentos. Não consigo entrar no laboratório, nem trazer um técnico a Oxford, nem localizar Basingame. Tentou imaginar para onde mais poderia estender sua pesquisa. Já tinha contatado todos os agentes de viagem e todos os guias de pesca e todas as locadoras de barcos na Escócia. Não havia sinal do homem. Talvez Montoya tivesse razão e ele não estivesse mesmo na Escócia, e sim em algum lugar dos trópicos, com uma amante.
Montoya. Tinha se esquecido dela completamente. Não a via desde o serviço religioso da véspera de Natal. Ela estava procurando Basingame para que ele assinasse uma autorização permitindo que fosse à escavação. Depois tinha telefonado no dia de Natal para perguntar se Basingame costumava pescar salmão ou truta. Depois ligou outra vez para dizer: “Não se incomode”. O que podia significar que ela descobrira não só se ele preferia salmão ou truta, mas o próprio Basingame.
Subiu a escada rumo ao dormitório. Se Montoya tivesse encontrado Basingame e obtido a autorização, teria ido para a escavação sem perder tempo. Não esperaria para avisar os outros. Dunworthy nem sequer tinha certeza de que Montoya sabia que ele também estava à procura de Basingame.
Sem dúvida Basingame teria voltado imediatamente assim que Montoya falasse a respeito da quarentena, a menos que tivesse ficado retido pelo mau tempo ou por estradas bloqueadas. Ou talvez Montoya não tivesse mencionado a quarentena. Obcecada pela escavação como estava, talvez tivesse dito apenas que precisava da assinatura dele.
Ao chegar aos seus aposentos, encontrou a sra. Taylor, suas quatro sineiras ainda com saúde, e Finch. Estavam formando um círculo e dobrando os joelhos. Finch segurava um papel e murmurava baixinho uma contagem.
— Eu estava indo agora mesmo para a ala dos doentes falar com as enfermeiras — disse ele, encabulado. — Aqui está o relatório de William. — Entregou um papel a Dunworthy e sumiu dali às pressas.
A sra. Taylor e o seu quarteto recolheram as caixas de suas sinetas de mão.
— Uma tal de srta. Wilson ligou — disse a sra. Taylor. — Pediu para dizer que um aríete não vai funcionar, e que o senhor terá que entrar através do console do Brasenose.
— Obrigado — agradeceu Dunworthy.
Ela saiu, acompanhada em fila indiana por suas quatro sineiras.
Ele ligou para a escavação. Nenhuma resposta. Ligou para o apartamento de Montoya, depois para a sala dela no Brasenose, para a escavação de novo. Nenhuma resposta. Ligou mais uma vez para o apartamento e deixou tocando, enquanto dava uma olhada no relatório de William. Badri passara todo o sábado e a manhã de domingo trabalhando na escavação. William devia ter feito contato com Montoya para saber aquela informação.
Ele pensou de repente na própria escavação. Ficava no campo, na região de Witney, numa fazenda administrada pelo National Trust. Talvez houvesse ali patos, ou galinhas, ou porcos, ou os três. E Badri passara um dia e meio trabalhando no local, cavando na lama, uma oportunidade perfeita para entrar em contato com um reservatório do vírus.
Colin entrou, molhado até os ossos.
— Os cartazes acabaram — disse ele, remexendo na mochila. — Londres vai mandar mais, amanhã. — Ele achou a bola de goma de mascar e enfiou na boca, com fiapos e tudo. — Sabe quem está aí na sua escada? — perguntou, jogando-se na cadeira junto da janela e abrindo o livro sobre Idade Média. — William e uma dessas garotas. Beijando e conversando e aquele nhem-nhem-nhem todo. Mal tive espaço para passar.
Dunworthy abriu a porta. William se separou com relutância de uma morena miudinha com um agasalho da Burberry e se aproximou.
— Sabe onde está a srta. Montoya? — perguntou Dunworthy.
— Não. O SNS disse que ela está na escavação, mas ela não atende o telefone. Talvez esteja perto da igreja ou em algum lugar da fazenda em que não possa ouvir. Pensei em usar um screamer, mas depois lembrei dessa garota que estuda Arqueohistória e… — ele fez um gesto indicando a moreninha. — Bem, ela me disse que viu a escala da escavação e que o nome de Badri aparecia no sábado e no domingo.
— Um screamer? O que é isso?
— Um aparelho plugado na linha que aumenta o volume do toque no outro lado. Caso a outra pessoa esteja no jardim, ou no banheiro, algo assim.
— Pode plugar um desses aqui no meu telefone?
— Para mim é um pouco complicado. Mas conheço uma aluna que pode dar um jeito. Tenho o número dela anotado no meu quarto. — Ele saiu, de mãos dadas com a moreninha.
— Sabe, se a srta. Montoya estiver na escavação, eu posso ajudar o senhor a passar pelo perímetro — comentou Colin, tirando a goma de mascar da boca e examinando. — É fácil. Há uma porção de lugares que não estão sendo vigiados. Os guardas não gostam de ficar na chuva.
— Não pretendo furar o perímetro da quarentena. A ideia é que a epidemia pare, não que se espalhe — argumentou ele.
— Foi assim que a Peste Negra se espalhou — disse Colin, examinando a goma, que estava com uma cor amarela bem doentia. — Eles tentavam fugir dela, mas tudo que conseguiam era carregar consigo.
William enfiou a cabeça pela porta.
— Ela disse que levaria uns dois dias para instalar no seu telefone, mas o dela já tem um, se quiser usar.
Colin estendeu o braço e agarrou o casaco.
— Posso ir junto?
— Não — respondeu Dunworthy. — E trate de trocar essas roupas molhadas. Não quero que pegue o vírus.
Ele desceu as escadas com William.
— Ela é aluna de graduação no Shrewsbury — disse William, tomando a dianteira sob a chuva.
Colin alcançou os dois quando estavam no meio do pátio.
— Não vou ficar doente. Eu tomei o reforço — avisou ele. — Na Peste Negra não havia quarentena, por isso ela se espalhou por toda parte. — Ele tirou o cachecol do bolso do casaco. — A Botley Road é um bom lugar para furar o perímetro. Tem um pub na esquina, perto do bloqueio, e de vez em quando o guarda vai tomar alguma coisa para se esquentar.
— Feche o casaco — ordenou Dunworthy.
A garota, afinal de contas, era Polly Wilson. Ela disse a Dunworthy que estivera trabalhando num traidor óptico capaz de invadir o console, mas ainda não estava pronto. Dunworthy ligou para a escavação, mas não teve resposta.
— Deixe tocar — falou Polly. — Talvez ela esteja a certa distância. O screamer tem um alcance de cerca de quinhentos metros.
Ele deixou tocar durante dez minutos, depois pousou o receptor, esperou cinco minutos, tentou de novo e deixou tocar por quinze minutos antes de dar o braço a torcer. Polly lançava longos olhares a William, e Colin tiritava dentro do casaco encharcado. Dunworthy levou o garoto de volta para seus aposentos e o pôs na cama.
— Talvez eu possa cruzar o perímetro e pedir para ela ligar para cá — sugeriu Colin, guardando a goma de mascar de volta na mochila. — Caso o senhor esteja com receio de ir porque é muito velho. Eu levo jeito para furar perímetros.
Dunworthy esperou até que William aparecesse na manhã seguinte e depois voltou para o Shrewsbury e tentou de novo, mas sem resultado.
— Vou programar para tocar a intervalos de meia hora — disse Polly, acompanhando Dunworthy até o portão. — O senhor saberia me dizer se William tem outras namoradas?
— Não, não saberia — respondeu Dunworthy.
O som de sinos brotou de repente da direção da Christ Church, em badaladas altas por entre a chuva.
— Alguém ligou de novo esse carrilhão horrível? — indagou Polly, inclinando-se para olhar para fora.
— Não — disse ele. — São as sineiras americanas. — Ele esticou a cabeça na direção do som, tentando determinar se a sra. Taylor tinha optado por stedmans, mas conseguia distinguir seis sinos, os antigos sinos de Osney: Douce e Gabriel e Marie, um após o outro, Clement e Hautclerc e Taylor. — Elas e Finch.
Soavam bastante bem, não como o carrilhão digital nem como “O Christ Who Interfaces With The World”. Tocavam um som alto e claro, e Dunworthy quase podia ver as sineiras formando um círculo no campanário, curvando os joelhos e erguendo os braços, enquanto Finch acompanhava a lista de mudanças.
“Cada pessoa deve tocar o seu sino sem interrupções”, dissera a sra. Taylor. Dunworthy não experimentara outra coisa senão interrupções, mas mesmo assim se sentia estranhamente reanimado. A sra. Taylor não pudera levar suas sineiras para a apresentação de véspera de Natal em Norwich, mas se mantivera fiel aos seus sinos, e agora tocavam de maneira ensurdecedora, num delírio que enchia as alturas, como uma celebração, uma vitória. Como uma manhã de Natal. Ele encontraria Montoya. E Basingame. Ou um técnico que não tivesse medo da quarentena. Ele encontraria Kivrin.
O telefone estava tocando quando voltou ao Balliol. Ele subiu correndo a escada, com a esperança de que fosse Polly. Era Montoya.
— Dunworthy? Oi. É Lupe Montoya. O que está acontecendo?
— Onde você está? — perguntou ele.
— Na escavação — respondeu ela, mas isso era visível.
Na tela, Montoya aparecia diante da nave em ruínas da igreja, no sítio medieval meio escavado. Dunworthy viu por que ela queria tanto voltar ao local. Havia mais de trinta centímetros de água em alguns pontos. Ela havia espalhado uma enorme variedade de lonas e de plásticos sobre as áreas já cavadas, mas a chuva gotejava em uma dúzia de pontos diferentes, e em outros as lonas vergavam com o peso da água, que se derramava pelas bordas em verdadeiras cascatas. Tudo ali — as lápides, as lâmpadas portáteis firmadas com presilhas, as pás enfileiradas contra a parede — estava coberto de lama.
Montoya estava coberta de lama, também. Usava seu casaco de terrorista e perneiras de pescador que subiam até a coxa, como as que Basingame, onde quer que estivesse, deveria estar usando. Estava coberta de umidade e sujeira, e a mão com que segurava o telefone tinha uma camada de lama seca.
— Estou ligando para você há dias — disse Dunworthy.
— Não posso ouvir o telefone por causa da bomba de água. — Ela fez um gesto indicando algo fora do campo visual do aparelho, presumivelmente a bomba, embora Dunworthy não ouvisse nada além do gotejar da chuva sobre as lonas. — Uma correia quebrou agora e não tenho como substituir. Então ouvi os sinos. Isso quer dizer que a quarentena acabou?
— Longe disso — falou ele. — Estamos no meio de uma epidemia em larga escala. Setecentos e oitenta casos e dezesseis mortes. Não tem lido os jornais?
— Não vi nada nem ninguém desde que vim para cá. Passei os últimos seis dias tentando evitar que este maldito lugar seja alagado, mas não posso dar conta de tudo sozinha. Ainda mais sem a bomba. — Ela afastou o pesado cabelo negro do rosto com uma mão suja. — Por que os sinos estão tocando, então, se a quarentena não acabou?
— É o dobre “Chicago Surprise Minor”.
Ela pareceu irritada.
— Se a quarentena é tão grave assim, por que não procuram fazer algo útil?
Os sinos são úteis, pensou ele. Fizeram você telefonar para mim.
— Eu arranjaria trabalho bastante para todas elas aqui. — Ela afastou de novo o cabelo para trás. Parecia tão cansada quanto Mary. — Eu tinha alguma esperança de que acabassem com a quarentena para que pudesse trazer um pessoal para trabalhar aqui. Quanto tempo mais acha que vai durar?
Tempo demais, pensou ele, olhando uma verdadeira cachoeira que desabava por entre as lonas. Você nunca vai conseguir a tempo a ajuda necessária.
— Preciso de algumas informações sobre Basingame e Badri Chaudhuri — comentou ele. — Estamos tentando rastrear a origem do vírus e precisamos saber de todas as pessoas que entraram em contato com Badri. Ele trabalhou aí na escavação no dia 18 e na manhã de 19. Quem mais esteve na escala durante esse período?
— Eu estive.
— Quem mais?
— Ninguém. Tive uma dificuldade terrível em conseguir ajudantes durante dezembro inteiro. Todos os meus estudantes de Arqueohistória viajaram assim que começou o feriado. Precisei recolher voluntários onde consegui.
— Tem certeza de que só vocês dois trabalharam aí?
— Tenho. Lembro disso porque abrimos o túmulo do cavaleiro no sábado e tivemos muita dificuldade para erguer a tampa de pedra. Gillian Ledbetter estava escalada para trabalhar no sábado, mas ligou de última hora dizendo que tinha um compromisso.
Com William, pensou Dunworthy.
— Alguém mais esteve aí com Badri no domingo?
— Ele só veio para cá de manhã, quando não havia ninguém. Precisou sair depois porque ia a Londres. Escute, tenho que ir agora. Se não vai aparecer ninguém para me ajudar por enquanto, devo voltar ao trabalho. — Ela começou a afastar o receptor do ouvido.
— Espere! — gritou Dunworthy. — Não desligue.
Ela pôs de volta o receptor no ouvido. Parecia impaciente.
— Tenho que fazer outras perguntas. É muito importante. Quanto mais depressa a origem do vírus for rastreada, mais depressa a quarentena acabará e você poderá conseguir ajuda na escavação.
Montoya não pareceu muito convencida, mas digitou um código, pôs o receptor de volta no aparelho e disse:
— Não se importa se eu continuar trabalhando enquanto a gente conversa?
— Não — respondeu Dunworthy, aliviado. — Vá em frente. Fique à vontade.
Ela saiu de quadro abruptamente, retornou, e digitou outra coisa.
— Desculpe, está fora de alcance — disse, e a tela ficou embaralhada enquanto ela, presumivelmente, levava o aparelho para seu local de trabalho.
Quando a imagem reapareceu, Montoya estava agachada à beira de um buraco lamacento junto a um túmulo de pedra. Dunworthy considerou que seria o tal cuja tampa de pedra ela e Badri quase tinham deixado cair no chão.
A tampa mostrava a efígie de um cavaleiro trajando armadura completa, os braços cruzados sobre a cota de malha no peito, de modo que as mãos nas pesadas couraças pousavam nos ombros e a espada estava aos seus pés. Encostada num ângulo precário à lateral do túmulo, a enorme tampa de pedra tapava as letras da inscrição. Requiesc… era tudo o que ele conseguia ver. Requiescat in pace. Descanse em paz. Uma bênção a que o cavaleiro, obviamente, não tivera direito. Seu rosto adormecido sob o elmo parecia ter um ar de desaprovação.
Por cima da abertura do túmulo, Montoya estendera uma fina capa de plastene, que estava toda salpicada de gotas d’água. Dunworthy imaginou se o lado oposto do túmulo ostentava a mórbida imagem entalhada do horror que havia dentro, como o que vira na ilustração de Colin, e se seria algo tão horrendo quanto a realidade. Água gotejava sem parar de cima do túmulo, fazendo o plástico afundar com o peso.
Montoya endireitou o corpo, trazendo nas mãos uma caixa achatada coberta de lama.
— E então? — começou ela, colocando a caixa sobre a quina do túmulo. — Você disse que tinha mais perguntas?
— Sim — respondeu ele. — Você mencionou que não havia mais ninguém durante o tempo que Badri passou aí.
— Não havia — repetiu ela, limpando o suor da testa. — Puxa, está um forno isto aqui — observou, despindo e pendurando o casaco de terrorista na tampa de pedra.
— E quanto a moradores locais e pessoas sem laços com a escavação?
— Se alguém tivesse aparecido aqui, eu teria recrutado. — Ela começou a remexer na lama no interior da caixa, extraindo várias pedras marrons. — Essa tampa de pedra pesa uma tonelada e foi só removermos que começou a chover. Eu teria chamado qualquer um que aparecesse para nos ajudar, mas este lugar fica muito distante, ninguém passa por aqui.
— E quanto à equipe do National Trust?
Ela colocou as pedras uma a uma dentro d’água, para limpá-las.
— Só aparecem durante o verão — respondeu.
Dunworthy tinha a esperança de que alguém ali na escavação acabasse se revelando a fonte de contaminação, de que Badri tivesse entrado em contato com algum morador local, ou com um membro do National Trust, ou quem sabe com algum caçador de patos que tinha se perdido. Só que os mixovírus não têm meros “portadores”. Esse misterioso personagem deveria já estar sofrendo os efeitos da doença, e Mary fizera contato com todos os hospitais e todas as clínicas da Inglaterra. Não havia nenhum caso de contaminação fora do perímetro da quarentena.
Montoya segurou as pedras uma por uma junto à lâmpada alimentada por bateria, presa a um dos pedestais, girando-as contra os raios brilhantes, examinando as arestas ainda incrustadas de terra.
— E o que me diz sobre aves?
— Aves?! — exclamou Montoya, como se ele estivesse sugerindo que ela arregimentasse aves para ajudar a mover a tampa de pedra.
— O vírus pode ser disseminado através de aves. Patos, gansos, galinhas — disse ele, mesmo sem ter muita certeza a respeito dessas últimas. — Existem aves por aí?
— Galinhas?! — repetiu ela, com uma pedra meio erguida de encontro à luz.
— De vez em quando os vírus são produzidos pela interseção entre vírus humanos e animais — explicou ele. — Aves domésticas são os reservatórios mais comuns, mas às vezes até peixes podem ser responsáveis por isso. Ou porcos. Tem porcos aí na escavação?
Ela continuava o encarando como se ele estivesse dizendo algum absurdo. Dunworthy insistiu:
— Essa escavação fica numa fazenda que pertence ao National Trust, não é isso?
— Fica, mas a fazenda em si fica a quilômetros daqui. Estamos no meio de um campo de cevada. Por aqui não há porcos, nem pássaros, nem peixes — falou ela, voltando a examinar as pedras.
Nada de aves, de porcos, nenhum contato local. A fonte do vírus também não estava ali na escavação. Talvez não estivesse em lugar nenhum, e a influenza de Badri fosse uma mutação espontânea, como Mary afirmara que ocorria de vez em quando, algo que surgia do nada e se abatia sobre Oxford do mesmo modo como a peste se abatera sobre a população inadvertida nos arredores daquela igreja.
Montoya estava erguendo as pedras diante da luz mais uma vez, raspando com a ponta da unha eventuais crostas de lama e depois esfregando a superfície, e ele percebeu de repente que o que ela estava examinando eram ossos. Vértebras, possivelmente, ou o dedão do pé do cavaleiro. Requiescat in pace.
Ela achou um que, aparentemente, era o que estava procurando, um osso desigual do tamanho de uma noz, com um lado abaulado. Ela despejou todos os outros de volta à caixa, mexeu no bolso da camisa até extrair uma escova de dentes de cabo curto e começou a esfregar as partes côncavas, com o cenho franzido.
Gilchrist jamais aceitaria uma mutação espontânea como a origem de tudo. Estava encantado demais com a ideia de que um vírus qualquer do século XIV chegara pela rede. E encantado demais com sua própria autoridade como diretor em exercício da faculdade de História para dar o braço a torcer, mesmo se Dunworthy tivesse encontrado patos nadando nos charcos em volta da igreja.
— Preciso fazer contato com Basingame — falou. — Onde ele está?
— Basingame?! — repetiu ela, contraindo a testa para o osso. — Não faço ideia.
— Mas… pensei que você tinha localizado ele. Quando você me ligou no Natal disse que precisava encontrar Basingame para poder conseguir uma liberação do SNS.
— Eu sei. Passei dois dias ligando para todas as agências de pesca de truta e de salmão na Escócia, e então decidi que não podia mais esperar. Se quer saber, não acredito que ele esteja na Escócia. — Ela puxou um canivete do bolso do jeans e começou a raspar a aresta irregular do osso. — Por falar no SNS, poderia me fazer um favor? Ligo o tempo todo para o número deles e só dá ocupado. Poderia dar um pulo rápido lá e dizer a eles que eu preciso de mais ajudantes? Diga que a escavação tem valor histórico incomparável e que vai ser danificada irremediavelmente se não me mandarem pelo menos cinco voluntários. E uma bomba d’água.
O canivete enganchou no osso. Ela franziu a testa e raspou com mais força.
— E como conseguiu a autorização de Basingame, se não sabia onde ele estava? Pelo que eu tinha entendido, a liberação precisava da assinatura dele.
— Precisava sim — disse ela. Uma lasca de osso voou de repente e foi parar em cima da capa de plastene. Ela examinou o osso e colocou de volta na caixa, já sem franzir a testa. — Eu falsifiquei.
Ela voltou a se agachar junto ao túmulo e começou a exumar outros ossos. Parecia tão concentrada na tarefa quanto Colin ao examinar seu chiclete. Dunworthy se perguntou se ela ao menos lembrava que Kivrin estava no passado remoto, ou se já se esquecera dela, como parecia ter se esquecido da epidemia.
Ele desligou, pensando que Montoya talvez nem percebesse, e foi a pé até a Emergência, para comunicar a Mary o que descobrira e para falar outra vez com os contatos secundários, em busca da origem do vírus. Estava chovendo forte, a água jorrava das biqueiras e em certo local estava arrastando coisas de valor histórico incomparável.
Com a ajuda de Finch, as sineiras continuavam em plena atividade, tocando seus instrumentos alternadamente, na ordem determinada, dobrando os joelhos e tão concentradas em seus sinos quanto Montoya em seu trabalho. O som se propagava alto, pesado, através do temporal, como um alarme, como um grito de socorro.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(066440-066879)
Véspera de Natal 1320 (Calendário Antigo). Não tenho tanto tempo quanto pensava. Agora mesmo, quando voltei da cozinha, Rosemund veio dizer que Lady Imeyne queria falar comigo. Imeyne estava concentrada numa conversa intensa com o emissário do bispo e, pela sua expressão, imaginei que estava desfiando as contas dos pecados do padre Roche mas, quando me aproximei com Rosemund, ela apontou para mim e disse:
— É esta a mulher de quem falei.
Mulher, não “donzela”, e o tom de suas palavras era crítico, quase acusatório. Fiquei pensando se ela teria comentado com o emissário do bispo sua teoria de que eu era uma espiã francesa.
— Ela diz que não se lembra de nada — prosseguiu Lady Imeyne —, mas mesmo assim é capaz de falar e de ler. — Ela se voltou para Rosemund. — Onde está o seu broche?
— Preso na minha capa, guardada lá no sótão — respondeu Rosemund.
— Vá buscar.
Rosemund saiu, relutante. Assim que ela se afastou, Imeyne disse:
— Sir Bloet trouxe um broche para minha neta, com palavras escritas em latim. — Olhou para mim com ar de triunfo. — Ela disse o que significava, e à noite, na igreja, pronunciou as palavras da missa antes mesmo que o padre recitasse.
— Quem lhe ensinou as letras? — perguntou o emissário do bispo, a voz pastosa pelo efeito do vinho.
Pensei em responder que Sir Bloet dissera o significado das palavras, mas receei que ele já houvesse negado o fato.
— Não sei — respondi. — Não tenho lembrança da minha vida antes de ser atacada no bosque, porque levei uma pancada na cabeça.
— Quando ela despertou falou numa língua que ninguém conhece — disse Imeyne, como se isso fosse mais uma prova, mas eu não fazia uma ideia clara de qual era a acusação nem do envolvimento do emissário do bispo. — Santo Padre, irá para Oxenford quando nos deixar?
— Sim — respondeu ele, com cautela. — Não podemos ficar aqui mais do que alguns dias.
— Eu gostaria que levassem ela para as boas irmãs de Godstow.
— Não vamos para Godstow — respondeu ele, visivelmente como uma desculpa para não atender aquele pedido. O convento ficava a menos de dez quilômetros de Oxford. — Mas perguntarei ao bispo se há notícias da mulher quando voltar e lhe mandarei uma mensagem.
— Acredito que ela seja freira porque fala em latim e conhece as palavras da missa — disse Imeyne. — Pensei que, se ela fosse levada, seria possível perguntar aos demais conventos quem ela pode ser.
O emissário do bispo pareceu ainda mais nervoso, mas concordou. Assim, só tenho tempo até a partida deles. Alguns dias, segundo suas palavras, e com sorte isso significa que eles não partirão antes das comemorações do Massacre dos Inocentes. De qualquer maneira, pretendo levar Agnes para a cama e conversar com Gawyn o mais depressa possível.