O Livro do Juízo Final
Livro dois
Naquele inverno sombrio
gelado o vento gemeu
terra dura como ferro
água fria endureceu.
Tombou a neve, tombou, tombou,
neve na neve tombou,
naquele inverno sombrio
que passou.
Christina Rossetti
10
O fogo estava apagado. Kivrin ainda sentia o cheiro de fumaça no quarto, mas sabia que era um fogo ardendo em outro local. Não admira, pensou ela, só apareceram chaminés na Inglaterra no fim do século XIV, e estamos apenas em 1320. E, assim que esse pensamento se formou na sua mente, veio a consciência de todo o resto: estou em 1320 e doente. Tenho febre.
Por algum tempo não conseguiu avançar além disso. Havia uma paz tão grande em estar deitada ali, descansando. Sentia-se desgastada, como se tivesse atravessado um longo suplício que arrancara todas as suas forças. Imaginei que fossem me queimar na fogueira, pensou ela. Lembrava-se de ter se debatido contra eles e contra as chamas que se erguiam, lambiam suas mãos, queimavam seu cabelo.
Tiveram que cortar meu cabelo, pensou ela, perguntando-se depois se isso era uma lembrança ou um delírio. Estava cansada demais para erguer a mão até a cabeça, cansada até para lembrar. Andei muito doente, ponderou. Eles me deram a extrema-unção. “Não tenha medo”, dissera. “Você vai voltar de novo para casa.” Requiscat in pace. E dormiu.
Quando Kivrin voltou a acordar, estava escuro no quarto, e um sino tocava ao longe. Ela tinha a impressão de que o sino estava tocando há um longo tempo, como aquele sino solitário tinha tocado quando ela acordou depois do salto. De repente, começou outro a tocar, tão próximo que parecia ser ali do lado de fora da janela, suplantando todos os outros carrilhões com seu dobre. Kivrin pensou que eram as matinas, e pareceu se lembrar daquele sino tocando daquele jeito, antes, um dobre irregular, meio fora de tom, em compasso com a batida do seu coração, mas era impossível.
Ela devia ter sonhado. Sonhou que estava sendo queimada na fogueira. Sonhou que o cabelo fora cortado. Sonhou que os contemps falavam uma língua que ela não conseguia entender.
O sino mais próximo parou, e os outros ainda continuaram por algum tempo, como que aproveitando a oportunidade para se fazerem ouvir, e Kivrin se lembrou disso também. Há quanto tempo estava ali? Antes era de noite, e agora estava amanhecendo. Parecia ter sido uma única noite, mas agora se lembrava dos rostos se curvando sobre ela. Quando a mulher trouxe aquela xícara, e depois quando apareceu o padre, e com ele o degolador, ela pudera ver todos com muita clareza, sem o bruxulear daquela vela insegura. E nos intervalos ela lembrava da escuridão e da luz enfumaçada das velas de sebo e dos sinos, tocando, parando, voltando a tocar.
Ela sentiu uma pontada súbita de pânico. Há quanto tempo estaria deitada ali? E se tivesse passado semanas doente e perdido o dia do reencontro? Mas isso era impossível. Uma pessoa não fica delirando durante semanas, mesmo que tenha febre tifoide, e ela não podia ter contraído febre tifoide. Tinha feito todas as inoculações.
Estava frio no quarto, como se o fogo tivesse se apagado durante a noite. Ela apalpou a cama em busca das cobertas, e apareceram mãos do meio das trevas e puxaram alguma coisa macia que lhe cobriu os ombros.
— Obrigada — disse Kivrin, e adormeceu.
Depois ela acordou de frio, com a sensação de ter cochilado apenas alguns minutos, embora agora já houvesse um pouco mais de luz no quarto. A claridade vinha de uma janela estreita embutida na parede de pedra. A janela estava aberta, e era por ali que o frio surgia.
Uma mulher estava parada, na ponta dos pés em um banco de pedra, embaixo da janela, amarrando um pano para cobrir aquela abertura. Usava uma roupa preta e uma touca branca como de freira, e por um instante Kivrin pensou que estava num convento, e depois lembrou que as mulheres nos anos 1300 cobriam o cabelo depois que se casavam. Somente moças solteiras usavam o cabelo solto e descoberto.
A mulher não parecia velha o bastante para ser casada, ou para ser uma freira. Kivrin tinha visto uma mulher no quarto enquanto esteve doente, mas era uma mulher muito mais velha. Quando agarrou aquelas mãos no delírio, eram mãos ásperas e enrugadas, e a mulher tinha voz rouca pela idade, embora talvez isso também fizesse parte do delírio.
A mulher inclinou-se diante da luz que brotava da janela. A touca branca recebia reflexos amarelos, e não era um roupão que ela vestia, e sim uma túnica parecida com a de Kivrin, com um capote verde-escuro por cima. A peça era mal tingida e parecia ter sido feita do pano de um saco de aniagem, com uma trama de fios tão larga que Kivrin podia ver através dela mesmo àquela luz incerta. Devia ser uma serva, então, mas servas não usavam toucas de linho nem carregavam molhos de chaves como o que Kivrin via pendurado no cinto dela. Tinha que ser alguém de certa importância, a governanta, talvez.
E aquele era um lugar importante. Provavelmente não um castelo, porque a parede a que a cama estava encostada não era de pedra, e sim de madeira com mau acabamento. Ainda assim, devia ser a casa senhorial de alguém da primeira linha de nobreza, um barão menor, ou talvez até um título mais alto. A cama em que estava deitada era de verdade, com um dossel de madeira suspenso, tapeçarias pendentes e lençóis de linho: não era um simples catre, e as cobertas eram de pele. O banco de pedra junto à janela exibia algumas almofadas bordadas.
A mulher amarrou o pano em saliências da pedra que se projetavam dos lados da janela, desceu do banco de pedra e inclinou-se para pegar alguma coisa. Kivrin não podia ver o que era porque tinha a visão obstruída pelas tapeçarias penduradas em volta da cama, que eram de tecidos pesados, quase tapetes, e haviam sido puxadas para o lado e atadas com uma corda.
A mulher endireitou-se novamente, segurando uma tigela de madeira. Depois, agarrando as saias com a mão livre, voltou a subir no banco e começou a escovar algo espesso no pano. Kivrin pensou que era óleo. Não, cera. Linho encerado usado no lugar do vidro, nas janelas. O vidro era considerado comum nas casas senhoriais do século XIV. Dizia-se que os nobres levavam as vidraças com a bagagem e a mobília quando se mudavam para outra casa.
Preciso registrar isso no recorde, pensou Kivrin. Algumas casas da nobreza não tinham janelas de vidro, e então ela ergueu as mãos mas, como o esforço de mantê-las juntas no ar foi grande demais, acabou as deixando cair sobre as cobertas.
A mulher lançou um olhar distraído na direção da cama e depois voltou a se concentrar na janela, besuntando o tecido com movimentos longos, descansados. Devo estar melhorando, refletiu Kivrin. Essa mulher passava o tempo inteiro junto à cama quando eu estava pior. Voltou a pensar quanto tempo teria se passado. Vou ter que descobrir, disse para si mesma, e depois situar o local do salto.
Não podia ser muito longe. Se aquele era o vilarejo para onde ela pretendia ter ido, o local do salto não estaria a mais de um quilômetro e meio de distância. Ela tentou lembrar quanto tempo levara a viagem até o vilarejo. Parecia ter sido uma eternidade. O degolador a pôs em cima de um cavalo branco, que tinha sininhos nos arneses. Só que, no fim, ele não era um degolador, e sim um homem jovem e simpático, com cabelo ruivo.
Precisaria perguntar o nome do vilarejo para onde fora trazida: tinha a esperança de que fosse Skendgate. No entanto, mesmo que não fosse, bastaria o nome para ela saber em que direção estava o local do salto. E é claro, assim que ela estivesse um pouco mais forte, eles poderiam lhe mostrar onde era.
Como é o nome deste vilarejo para onde vocês me trouxeram? Ela não tinha conseguido encontrar as palavras na noite anterior, mas isso por causa da febre, sem dúvida. Agora, não haveria problema. O sr. Latimer tinha passado meses melhorando a pronúncia dela. Eles com certeza conseguiriam entendê-la. In whatte londe am I ou mesmo Whatte be thisse holding? e, por mais que houvesse alguma variação do dialeto local, o intérprete a corrigiria automaticamente.
— Whatte place hast thou brotte me? — perguntou Kivrin.
A mulher se virou, parecendo surpresa. Desceu de cima do banco, ainda segurando a tigela numa mão e uma escova na outra, só que na verdade não era uma escova, Kivrin pôde ver melhor quando ela se aproximou da cama. Era uma colher de madeira achatada, de concha bem rasa.
— Gottebae plaise tthar tleve — disse a mulher, segurando a colher e a tigela à frente do corpo. — Beth naught agast.
O intérprete deveria traduzir imediatamente aquelas palavras. Talvez a pronúncia de Kivrin estivesse longe do alvo, tão longe que a mulher chegasse a pensar que ela estava falando uma língua estrangeira e tentasse lhe responder num francês ou alemão desajeitado.
— Whatte place hast thou brotte me? — repetiu Kivrin bem devagar, para que o intérprete tivesse tempo de traduzir o que ela estava falando.
— Wick londebay yae comen lawdayke awtreen godelae deynorm andoar sic straunguwlondes. Spekefaw eek waenoot awfthy taloorbrede.
— Lawyes sharess loostee? — disse uma voz.
A mulher virou-se para olhar para uma porta que Kivrin não conseguia avistar, e outra mulher surgiu, bem mais velha, o rosto por baixo de uma touca pregueada. Aquelas eram as mãos que Kivrin lembrava do seu delírio, ásperas e velhas. Ela usava uma corrente de prata e trazia na mão um pequeno cofre de couro. Parecia com o baú que Kivrin trouxera no salto, mas bem menor, e reforçado com ferro em vez de latão. Ela pousou o cofre sobre o banco de pedra junto à janela.
— Auf specheryit darmayt?
Ela lembrou também a voz, áspera e soando quase zangada, falando com a mulher que estava junto à cama como se esta fosse uma serva. Bem, talvez fosse mesmo, e a mulher mais velha fosse a dona daquela casa, embora sua touca não fosse mais branca nem suas vestes mais finas. Só que não havia argola de chaves no seu cinto, e agora Kivrin se lembrava de que não era a governanta que conduzia as chaves, e sim a dona da casa.
A dona da casa senhorial trajava linho amarelado e tecido de aniagem mal tingido, o que significava que a roupa de Kivrin estava toda errada, tão errada quanto as pronúncias de Latimer, tão errada quanto as garantias da dra. Ahrens de que ela não contrairia nenhuma das doenças medievais.
— Tomei todas as minhas inoculações — murmurou ela, e as duas mulheres se viraram para olhá-la.
— Ellavih swot wardesdoor feenden iss? — perguntou vivamente a mulher mais velha.
Seria a mãe da mulher mais nova, ou a sogra, ou uma enfermeira? Kivrin não tinha ideia. Nenhuma das palavras que ela dissera, nem mesmo um nome próprio ou uma forma de tratamento, parecia se destacar entre os sons.
— Maetinkerr woun dahest wexe hoordoumbe — disse a mulher mais jovem.
— Nor nayte bawcows derouthe — respondeu a mais velha.
Nada. Frases mais curtas supostamente eram mais fáceis de traduzir, mas Kivrin não podia sequer afirmar que elas trocaram uma só palavra ou várias.
A mulher mais jovem ergueu o queixo com ar zangado.
— Certessan, shreevadwomn wolde nadae seyvous — disse bruscamente.
Kivrin imaginou se as duas estariam discutindo o que fariam com ela. Puxou a coberta com mãos fracas, como se assim pudesse se arrastar para longe, e a mulher mais jovem pousou imediatamente a tigela e a colher de madeira, e foi até a cama.
— Spaegun yovor tongawn glais? — perguntou ela, e pelo que Kivrin conseguia entender aquilo tanto podia ser “Bom dia” como “Está se sentindo melhor?” ou, quem sabe, “Vamos queimar você amanhã cedinho”. Talvez a doença estivesse atrapalhando o funcionamento do intérprete. Talvez quando a febre baixasse ela começasse a entender tudo que diziam.
A mulher velha ajoelhou-se junto à cama, segurando uma caixinha prateada presa a uma corrente, e começou a rezar. A mais jovem inclinou-se para examinar a testa de Kivrin e depois lhe apalpou a parte de trás da cabeça, fazendo um movimento que repuxou os cabelos de Kivrin, que compreendeu que elas deviam ter posto ataduras no ferimento em sua testa. Kivrin tocou com os dedos nas ataduras e depois procurou as madeixas em volta, mas não havia nada ali. Seu cabelo terminava numa franja desigual, logo abaixo das orelhas.
— Vae motten tiyez thynt — disse a mulher jovem, preocupada. — Far thotyiwort wount sorr.
Ela estava dando a Kivrin uma espécie de explicação, mesmo que Kivrin não pudesse entender, embora até desconfiasse: tinha estado muito doente, tão doente que chegou a pensar que seu cabelo estava em chamas. Ela lembrou de alguém — a mulher mais velha? — tentando conter suas mãos enquanto se debatia selvagemente contra o fogo. Não tinham tido alternativa.
Além do mais, Kivrin odiava aquela massa revolta de cabelo e o tempo interminável que levava para passar a escova, e tinha se preocupado pensando como seria que as mulheres medievais usavam o cabelo, se faziam tranças ou não, e imaginando como neste mundo conseguiria passar duas semanas inteiras sem lavá-lo. Devia estar feliz por elas terem feito o corte, mas tudo que conseguia lembrar era Joana d’Arc, que tinha cabelo curto e foi queimada na fogueira.
A mulher jovem tinha afastado as mãos de Kivrin das ataduras e agora olhava para ela com expressão amedrontada. Kivrin sorriu para ela, um sorriso incerto, e ela sorriu de volta: tinha um buraco onde dois dentes estavam faltando, do lado direito, e o dente junto ao buraco era marrom, mas quando sorria ela não parecia mais velha do que uma estudante do primeiro ano.
Ela terminou de desatar e largou a bandagem em cima da coberta. Era feita do mesmo linho amarelado da touca, mas rasgada em faixas desfiadas, com manchas marrons de sangue seco. Havia mais sangue do que Kivrin imaginara. O ferimento forjado pelo sr. Gilchrist devia ter começado a sangrar de novo.
A mulher tocou a testa de Kivrin, nervosa, como se não estivesse certa sobre o que fazer.
— Vexeyaw hongroot? — perguntou ela, pondo uma mão na nuca de Kivrin e a ajudando a erguer a cabeça.
A cabeça parecia leve, leve. Deve ser por causa do meu cabelo, pensou Kivrin.
A mulher mais velha estendeu para a jovem uma tigela de madeira, e ela a levou aos lábios de Kivrin, que bebeu devagarinho, com cuidado, pensando meio confusa que aquela era a mesma tigela usada para pôr a cera. Não era, e também não era a mesma bebida que tinham lhe dado antes. Era um mingau ralo, granuloso, menos amargo do que a bebida da noite passada, e que deixava na boca uma sensação gordurosa.
— Thasholde nayive gros vitaille towayte — disse a mulher velha, a voz áspera de impaciência e de queixa.
Só pode ser a sogra dela, pensou Kivrin.
— Shimote lese hoor fource — respondeu a jovem, mansamente.
O mingau tinha um gosto bom. Kivrin tentou tomar tudo, mas depois de alguns goles sentiu-se exausta.
A mulher mais jovem entregou a tigela para a mais velha, que tinha dado a volta para ficar ao lado da cama, também, e ajudou a abaixar a cabeça de Kivrin até o travesseiro. A mulher mais jovem recolheu a bandagem ensanguentada, tocou de novo a testa de Kivrin, como se estivesse debatendo consigo mesma se devia pôr a bandagem de volta ou não, e depois a estendeu para a mulher mais velha, que a colocou, com a tigela, no baú que devia haver aos pés da cama.
— Lo, liggethsteallouw — disse a jovem, sorrindo seu sorriso esburacado, e o tom daquelas palavras era inconfundível, ainda que Kivrin não reconhecesse uma única palavra. A mulher pedira que dormisse. Kivrin fechou os olhos.
— Durmidde shoalausbrekkeynow — disse a mulher velha, e as duas saíram do quarto e fecharam a porta.
Kivrin repetiu as frases devagar para si, tentando captar alguma palavra conhecida. O intérprete deveria melhorar sua capacidade de separar fonemas e reconhecer padrões sintáticos, e não apenas armazenar vocabulário em inglês médio, mas ela estava com a sensação de que aquele idioma era o servo-croata.
E talvez seja, pensou. Quem pode saber para onde me levaram? Eu estava delirando. Talvez o degolador tenha me colocado num barco e atravessado o Canal. Ela sabia que isso não era possível, pois recordava a maior parte da viagem noturna, mesmo que essa lembrança tivesse o aspecto desconjuntado de um sonho. Caí do cavalo, pensou ela, e um homem ruivo me levantou. E passamos por uma igreja.
Ela franziu a testa, tentando lembrar algo mais a respeito da direção tomada durante a viagem. Tinham se embrenhado na floresta, afastando-se dos arbustos, antes de chegarem a uma estrada que se dividia em duas, e foi ali que ela escorregou e caiu do cavalo. Se pudesse achar aquela bifurcação da estrada, talvez conseguisse chegar ao local do salto. A bifurcação ficava a pouca distância da torre.
Porém, se o salto tinha acontecido assim tão perto, ela estava em Skendgate e as mulheres estavam falando inglês médio, mas, se estavam falando inglês médio, por que não conseguia entender?
Talvez eu tenha batido com a cabeça quando caí do cavalo e isso danificou de algum modo o intérprete, cogitou, mas não batera com a cabeça no chão. Tinha apenas se soltado e deslizado para baixo, até se ver sentada no chão. É a febre, pensou. De algum modo ela está impedindo o intérprete de reconhecer as palavras.
Mas ele reconheceu o latim, continuou sua mente, e uma pequena pontada de pânico começou a alfinetar seu peito. Ele reconheceu o latim, e eu não posso estar doente. Tomei todas as vacinas. Lembrou de repente que sua inoculação antiviral tinha coçado e formado um caroço embaixo do braço, mas a dra. Ahrens a examinara antes do salto. A dra. Ahrens disse que estava tudo normal. E nenhuma das outras vacinas coçou, a não ser a da peste, pensou. E eu não estou com nenhum dos sintomas.
Vítimas da peste tinham grandes caroços embaixo do braço e na parte interna da coxa. Vomitavam sangue, e os vasos sanguíneos por baixo da pele se rompiam e ficavam enegrecidos. Não era a peste então, mas o que seria, e como teria contraído? Tinha sido vacinada contra todas as principais enfermidades de 1320 e, de qualquer modo, não fora exposta a nenhuma doença. Os sintomas tinham começado logo após o salto, antes de ter encontrado seja lá quem fosse. Micróbios não ficam simplesmente boiando perto do local de um salto, esperando que alguém aparecesse ali de repente. Tinham que ser espalhados pelo contato ou por um espirro ou por pulgas. A Peste Negra tinha se espalhado pelas pulgas.
Não é a peste, repetiu de si para si, com firmeza. Quem tem a peste não fica se preocupando se tem ou não. Está ocupada morrendo.
Não era a peste. As pulgas que disseminaram a doença se alojavam em ratos e em seres humanos, e não no meio de um bosque. Além disso, a Peste Negra não chegara à Inglaterra antes de 1348. Devia ser alguma doença medieval que a dra. Ahrens não conhecia. Existiram na Idade Média doenças das mais estranhas, como o mal do rei, a dança de são Vito e mil febres sem nome. Devia ser uma dessas, e seu sistema imunológico precisou de algum tempo para poder perceber o que era e começar a reagir. Só que a luta já tinha começado, e sua temperatura abaixara um pouco e logo o intérprete estaria funcionando. Tudo que ela precisava fazer era descansar e esperar até se sentir melhor. Consolada por aquela ideia, fechou os olhos novamente e voltou a dormir.
Quando Kivrin sentiu o toque, abriu os olhos. Era a sogra, examinando e virando suas mãos de um lado, depois do outro. Ela esfregava seu indicador rachado nas costas de cada mão de Kivrin, examinando as unhas. Assim que viu que os olhos de Kivrin estavam abertos, soltou as mãos, com um gesto de desagrado, e disse:
— Sheavost ahvheigh parage attelest, baht hoore der wikkonasshae haswfolletwe?
Nada. Kivrin tinha esperado que, de algum modo, enquanto dormia, os ampliadores do intérprete tivessem classificado e decifrado todas as palavras ouvidas, de modo que, ao despertar, ela o encontraria em pleno funcionamento. No entanto, aquelas palavras permaneciam ininteligíveis. Soavam um pouco como francês, com seus finais omitidos e inflexões ascendentes bem delicadas, mas Kivrin conhecia o francês normando — o sr. Dunworthy a obrigara a aprender — e não conseguia extrair nada daquelas palavras.
— Hastow naydepesse? — disse a mulher velha.
Soava como uma pergunta, mas tudo em francês soava como pergunta.
A mulher segurou o braço de Kivrin com uma mão áspera e pôs o outro braço em volta dela, como se querendo ajudá-la a levantar. Estou doente demais para ficar de pé, pensou Kivrin. Por que ela quer me fazer levantar? Para me interrogar? Para me queimar?
A mulher jovem entrou no quarto, carregando uma taça. Colocou em cima do banco junto à janela e veio pegar no outro braço de Kivrin.
— Hastontee natour yowrese? — perguntou, com o sorriso esburacado para Kivrin, que pensou que talvez elas estivessem a levando ao banheiro, e fez um esforço para sentar na cama e pousar os pés no chão.
Ficou tonta no mesmo momento. Sentou, as pernas nuas balançando no lado da cama tão alta, e esperou aquilo passar. Estava vestida com uma bata de linho, e nada mais. Pensou onde estariam suas roupas. Pelo menos tinham colocado aquela bata nela. As pessoas na Idade Média em geral não usavam nada para dormir.
As pessoas na Idade Média também não tinham instalações sanitárias internas, pensou, esperando não ter que ir lá fora para ter acesso a uma privada. Às vezes os castelos dispunham de cubículos fechados, ou de recantos sobre um poço vertical, cujo fundo tinha que ser periodicamente limpo, mas ali não era um castelo.
A jovem pôs um lençol fino mas dobrado por cima dos ombros de Kivrin, como um xale, e as duas a ajudaram a ficar de pé. O chão de tábuas era gelado. Ela deu alguns passos e toda a tontura voltou. Nunca vou conseguir chegar lá fora, pensou.
— Wotan shay wootes nawdaor youse der jordane? — disse a mais velha com voz cortante, e Kivrin julgou ter reconhecido “jardin”, a palavra francesa para jardim, mas por que as duas estariam discutindo a respeito de jardins?
— Thanway maunhollp anhour — respondeu a jovem, passando o próprio braço na cintura de Kivrin e pondo o braço dela por cima dos seus ombros. A velha segurou o outro braço com ambas as mãos. A idosa mal chegava ao ombro de Kivrin, e a jovem não parecia pesar mais do que quarenta e cinco quilos, mas as duas juntas conseguiram ajudá-la a andar por todo o comprimento da cama.
Kivrin ficava mais tonta a cada passo. Nunca vou conseguir chegar lá fora, pensou, mas as três se detiveram ao alcançar os pés da cama. Havia um baú ali, uma caixa baixa de madeira com um pássaro ou talvez um anjo entalhado na tampa. Sobre ele, havia uma bacia de madeira cheia de água, a bandagem ensanguentada que envolvera a cabeça de Kivrin e uma bacia menor, vazia. Como estivera concentrada para não cair, Kivrin não percebeu o que era senão quando a mulher mais velha disse:
— Swoune nawmaydar oupondre yorresette. — Fez um gesto de levantar as pesadas saias e sentar-se ali.
Um penico, pensou Kivrin, com gratidão. Sr. Dunworthy, penicos eram usados nas casas senhoriais dos vilarejos do interior em 1320. Ela anuiu, indicando que compreendera, e aceitou a ajuda das duas para abaixar-se ali, embora a tontura fosse tal que ela precisasse segurar-se às tapeçarias pesadas que pendiam da cama para não cair. Seu peito doeu tanto quando tentou se erguer de novo que ela dobrou o corpo para a frente.
— Maisry! — gritou a mulher mais velha em direção à porta. — Maisry, com undtvae holpoon!
A inflexão indicava claramente que estava chamando alguém — Marjorie? Mary? — para vir ajudar. No entanto, como ninguém apareceu, talvez Kivrin tivesse se enganado também quanto àquilo.
Ela se endireitou um pouco, experimentando até onde ia a dor. Tentou ficar ereta e, embora a dor tivesse diminuído um pouco, as duas tiveram que praticamente carregá-la de volta para a cama. Estava exausta quando por fim se deitou e puxou sobre si as cobertas. Fechou os olhos.
— Slaeponpon donu paw daton — disse a moça, que devia estar falando “descanse”, ou “tente dormir agora”, mas Kivrin ainda não decifrava coisa alguma. O intérprete está quebrado, pensou, e a pequena pontada de pânico começou a se formar mais uma vez, pior ainda do que a dor no peito.
Não pode ter se quebrado, refletiu. Não é uma máquina, e sim uma sintaxe química e um amplificador de memória. Não pode ter quebrado. No entanto, só podia funcionar com as palavras que tinha em sua memória, e obviamente o inglês médio do sr. Latimer fora inútil. “Whan that Aprille with his shoures sote…” A pronúncia do sr. Latimer devia estar tão longe da realidade que o intérprete não reconhecia o que estava ouvindo como as mesmas palavras. Porém, isso não significava que estivesse com defeito, apenas que precisava recolher novos dados e que as poucas frases registradas até aquele momento ainda não tinham sido suficientes.
Ele reconheceu o latim, pensou ela, sentindo a pontada de pânico de novo, mas resistindo. Ele tinha conseguido reconhecer o latim porque o ritual da extrema-unção era um texto pronto. Ele sabia quais palavras deviam estar ali. Já as palavras ditas pelas mulheres não eram algo pronto, mas ainda assim eram decifráveis. Nomes próprios, formas de tratamento, substantivos, verbos e frases preposicionais apareceriam em posições fixas que se repetiam outra e outra vez. Como seriam rapidamente destacadas do restante, o intérprete poderia usá-las como chave para testar o resto do código. O que Kivrin precisava fazer agora era colher mais dados, ouvir o que era dito sem tentar entender e deixar o intérprete trabalhar.
— Thin keowre hoorwoun desmoortale? — perguntou a jovem.
— Got tallon wottes — respondeu a velha.
Um sino começou a tocar, bem longe. Kivrin abriu os olhos. As duas mulheres estavam olhando para a janela, mesmo não podendo enxergar através do linho.
— Bere wichebay gansanon — disse a jovem.
A mulher mais velha não respondeu. Estava olhando a janela, como se pudesse enxergar através do pano de linho esticado, as mãos com dedos entrelaçados como se estivesse rezando.
— Aydreddit ister fayve riblaun — comentou a jovem e, a despeito de sua resolução, Kivrin tentou interpretar aquelas palavras como “está na hora das vésperas” ou “é o toque das vésperas”, mas não eram as vésperas. O sino continuou dobrando, mas desta vez sem o acompanhamento dos outros sinos. Ela imaginou se aquele seria o mesmo sino que escutara antes, tocando sozinho no final da tarde.
A mulher idosa virou-se abruptamente.
— Nay, Elwiss, itbahn diwolffin. — Apanhou o penico de cima do baú. — Gawynha thesspyd…
Da direção da porta brotou o ruído de um tumulto, um som de passos subindo escadas às carreiras, e uma voz de criança gritando:
— Modder! Eysmertemay!
Uma garotinha irrompeu quarto adentro, com as tranças louras e as tiras do gorro se agitando soltas, quase esbarrando na idosa, que empunhava o penico. Seu rostinho redondo estava avermelhado e manchado de lágrimas.
— Wol yadothoos forshame ahnyous! — grunhiu para ela a mulher idosa, erguendo a vasilha traiçoeira para fora do seu alcance. — Yowe maun naroonso inhus.
A garotinha não lhe deu atenção. Correu direto para a moça jovem, aos soluços.
— Rawzamun hattmay smerte, Modder!
Kivrin soltou um arquejo. Modder. Aquilo tinha que ser “mãe”.
A garotinha ergueu os braços, e a mãe, oh, sim, com certeza que era a mãe, a levantou. A pequena envolveu o pescoço da mãe com os braços e começou a chorar.
— Shh, ahnyous, shh — disse a mãe. É o som gutural de um “G”, pensou Kivrin. Um “G” alemão seco. “Shh, Agnes, shh.”
Ainda com a menina no colo, a mãe sentou-se junto à janela. Enxugou as lágrimas da criança com a borda da touca.
— Spekenaw dothass bifel, Agnes.
Sim, com certeza era Agnes. E “speken” era “speak”, dizer. “Diga para mim o que aconteceu.”
— Shayoss mayswerte! — disse Agnes, apontando para outra criança que acabava de entrar no quarto. A segunda garota era consideravelmente mais velha, uns nove ou dez anos pelo menos. Tinha cabelos longos e castanhos que desciam até as costas, presos por um lenço azul-escuro.
— Itgan naso, ahnyous — começou ela. — Tha pighte rennin gawn derstayres. — Não havia como não perceber a mistura de afeto e de desdém. A garota de cabelo castanho não se parecia com a menininha loura, mas Kivrin apostaria que era sua irmã mais velha. — Shay pighte renninge ahndist eyres, modder.
“Modder” de novo, e “shay” devia ser “she”, ela, e “pighte” devia ser “caiu”. Soava como francês, mas a chave para tudo aquilo devia ser o alemão. Kivrin quase podia sentir as coisas se encaixando.
— Na comfitte hoor thusselwys — disse a mulher idosa. — She hathnau woundes. Hoor teres been fornaught mais gain thy pitye.
— Hoor nay ganful bloody — disse a moça, mas Kivrin não ouviu. Estava prestando atenção agora à tradução do intérprete, ainda desajeitada e evidentemente com alguns segundos de atraso, mas uma tradução.
“Não é para mimar ela assim, Eliwys. Ela não se machucou. O choro é só para chamar atenção.”
E a mãe, cujo nome era Eliwys: “O joelho dela está sangrando”.
— Rossmunt, brangund oorwarsted frommecofre — continuou ela, apontando os pés da cama, e o intérprete acompanhou: “Rosemund, traga aquele pano em cima do baú”. A garota mais velha foi imediatamente até o baú, aos pés da cama.
A menina mais velha era Rosemund, a pequenininha era Agnes, e aquela mãe incrivelmente jovem em sua túnica e touca era Eliwys.
Rosemund ergueu um pano esfiapado que devia ser o que Eliwys desenrolara da cabeça ferida de Kivrin.
— Não toque! Não toque! — gritou Agnes, e Kivrin nem teria precisado do intérprete, que continuava com certo atraso, para entender o sentido.
— Só quero colocar o pano para estancar o sangue — disse Eliwys, recebendo o pano da mão de Rosemund. Agnes tentou empurrar a mão dela. “O pano não vai…” Houve uma lacuna, como se o intérprete desconhecesse uma palavra, e depois: “…você, Agnes”. A palavra faltante era evidentemente ferir ou machucar, e Kivrin imaginou se o intérprete não tinha a palavra na memória e por que não fornecera um termo aproximado, deduzido do contexto.
“…vai penaunce”, gritou Agnes, e o intérprete ecoou: “Vai…” e depois uma lacuna de silêncio. A lacuna era calculada de modo a deixar que Kivrin ouvisse a palavra original e tentasse deduzir seu significado. Não era uma má ideia, mas o intérprete estava tão atrasado em relação ao tempo do diálogo real que Kivrin não pôde ouvir a palavra. Se o intérprete fizesse isso todas as vezes em que não reconhecesse uma palavra, ela estaria com um problema.
— Vai penaunce — gritou Agnes, empurrando a mão da mãe para longe do seu joelho. “Vai dor”, cochichou o intérprete, e Kivrin sentiu alívio por ele ter finalmente encontrado algo, mesmo “dor” não sendo um verbo.
— Como foi que você caiu? — perguntou Eliwys, para distrair Agnes.
— Subiu a escada correndo — disse Rosemund. — Ela veio correndo para dar a notícia de que… chegou.
O intérprete deixou uma lacuna de novo, mas desta vez Kivrin captou a palavra original. Gawyn, que era provavelmente um nome próprio.
E o intérprete parecia ter chegado à mesma conclusão porque, quando Agnes gritou “Eu é que ia contar à mãe que Gawyn chegou!”, o intérprete já o incluiu na frase traduzida.
— Eu é que ia contar — repetiu Agnes, agora chorando de verdade, e enterrou o rosto no corpo da mãe, que prontamente aproveitou para terminar de prender a bandagem ao joelho da garota.
— Pode me contar agora — disse ela.
Agnes sacudiu a cabeça escondida.
— A bandagem está muito frouxa, minha nora — disse a mulher velha. — Você precisa amarrar mais forte, ou daqui a pouco ela vai cair.
A bandagem parecia bem apertada para Kivrin, e era evidente que qualquer tentativa de apertá-la ainda mais resultaria em mais gritos e choro. A mulher continuava segurando o penico com ambas as mãos. Kivrin ficou pensando por que ela ainda não tinha ido esvaziá-lo.
— Shhh, shh — fez Eliwys, balançando a garota com carinho e lhe dando tapinhas nas costas. — Eu preferiria que você contasse.
— O orgulho cai com uma queda — sentenciou a idosa, parecendo determinada a fazer Agnes chorar. — A culpa é sua se caiu. Não devia subir a escada correndo.
— Gawyn estava montando uma égua branca? — perguntou Eliwys.
Uma égua branca. Kivrin imaginou se Gawyn seria o homem que a colocara no cavalo e a trouxera até aquela casa.
— Não — disse Agnes, e o tom da resposta indicava que a mãe tinha feito algum tipo de piada. — Estava montando o garanhão negro, Gringolet. E se aproximou de onde eu estava e disse: Minha boa dama Agnes, quero falar com sua mãe.
— Rosemund, sua irmã se machucou por causa de você e da sua falta de cuidado — disse a mulher velha que, como não tinha conseguido aborrecer Agnes, decidiu buscar outra vítima. — Por que não cuidou dela?
— Eu estava bordando — respondeu Rosemund, olhando para a mãe em busca de apoio. — Era Maisry quem devia estar de olho nela.
— Maisry saiu para ver Gawyn — disse Agnes, sentando-se ereta no colo da mãe.
— E para conversar com o rapaz do estábulo — completou a velha, indo até a porta e gritando lá para fora: — Maisry!
Maisry. Era este o nome que a velha tinha chamado antes, e agora o intérprete não estava mais deixando lacunas quando surgiam os nomes próprios. Kivrin não sabia quem era Maisry, provavelmente uma serva. Ainda assim, se o andamento das coisas podia ser o indicativo de algo, Maisry talvez teria problemas. A velha parecia disposta a encontrar uma vítima, e a ausente Maisry parecia a pessoa ideal.
— Maisry! — gritou a mulher outra vez, e o nome ecoou.
Rosemund aproveitou a oportunidade para ir para junto da mãe.
— Gawyn nos pediu para dizer que pede licença para vir falar com você.
— Ele está esperando lá embaixo? — perguntou Eliwys.
— Não. Primeiro ele foi à igreja para falar sobre a dama com o padre Rock.
O orgulho cai com uma queda. O intérprete evidentemente estava ficando confiante demais. Padre Rolfe talvez, ou padre Pedro. Certamente não seria padre Rock.
— Por que ele foi falar com o padre Rock? — perguntou a idosa, voltando ao quarto.
Kivrin tentou escutar a palavra real por trás daquele sussurro enlouquecedor que era a tradução. Roche. A palavra francesa para “rock”. O padre Roche.
— Talvez ele tenha ficado sabendo sobre a dama — sugeriu Eliwys, olhando na direção de Kivrin. Pela primeira vez, alguém dava uma indicação de que sabiam que Kivrin estava ali no quarto. Kivrin fechou os olhos depressa, fingindo que estava dormindo, para que continuassem falando sobre ela.
— Gawyn cavalgou hoje de manhã em busca dos malfeitores — prosseguiu Eliwys. Kivrin abriu somente uma frestazinha dos olhos, mas a outra não estava mais olhando direto para ela. — Talvez tenha encontrado eles. — Ela se curvou e atou as pontas soltas da touca de linho de Agnes. — Agnes, vá para a igreja com Rosemund e diga a Gawyn que iremos falar com ele no salão. A dama está dormindo. Não devemos perturbá-la.
Agnes disparou para a porta, gritando:
— Sou eu que vou dizer a ele, Rosemund.
— Rosemund, deixe sua irmã dizer — falou alto Eliwys, enquanto as duas se afastavam. — Agnes, não corra.
As garotas desapareceram porta afora e pela escada abaixo, obviamente correndo.
— Rosemund já é quase mulher — disse a idosa. — Não convém que fique mandando recado para os homens a serviço do seu marido. Coisas ruins podem acontecer se suas filhas estiverem sem vigilância. Seria mais apropriado pedir uma ama para elas em Oxenford.
— Não — respondeu Eliwys com uma firmeza que Kivrin não seria capaz de supor. — Maisry pode tomar conta delas.
— Maisry não consegue tomar conta nem das ovelhas. Não devíamos ter vindo de Bath com tanta pressa. Com certeza podíamos ter esperado até…
Alguma coisa. O intérprete tinha deixado novamente uma lacuna ali, e Kivrin não reconheceu a frase, mas tinha captado os fatos mais importantes. Estavam vindo de Bath. Estavam perto de Oxford.
— Deixe Gawyn trazer uma ama. E alguma das mulheres com as sanguessugas para cuidar da dama.
— Não vamos mandar trazer ninguém — disse Eliwys.
— Para… — Outro nome de lugar que o intérprete não resolveu. — Lady Yvolde tem reputação contra ferimentos. Ela ficaria satisfeita se pudesse nos ceder uma das suas camareiras para servir de ama.
— Não — repetiu Eliwys. — Nós mesmas vamos cuidar dela. O padre Roche…
— Padre Roche — disse a outra, com menosprezo. — Ele não sabe nada de medicina.
Mas eu entendi tudo que ele disse, pensou Kivrin. Ela lembrava a voz tranquila cantando os derradeiros ritos, aquele toque suave em sua testa, em suas palmas, nas solas dos seus pés. Ele lhe dissera para não temer e perguntara seu nome, antes de pegar na sua mão.
— Se a dama for de berço nobre, gostaria que dissessem que você deixou um padre ignorante do vilarejo cuidar dela? — perguntou a mulher mais velha. — Lady Yvolde…
— Nós não vamos mandar buscar ninguém — cortou Eliwys, e pela primeira vez Kivrin percebeu que ela estava com medo. — Meu marido disse para esperarmos aqui até ele voltar.
— Ele devia ter vindo conosco.
— Você sabe que ele não pôde. Virá assim que puder. Eu preciso ir falar com Gawyn — disse Eliwys, passando pela outra mulher e indo para a porta. — Gawyn me contou que faria uma busca no local onde encontrou a dama para procurar algum sinal dos que a atacaram. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa que ajude a dizer quem ela é.
No local onde encontrou a dama… Gawyn era o homem que a encontrara, o homem de cabelo ruivo e rosto bom que a ajudara a subir no cavalo e a trouxera para ali. Esta parte, pelo menos, ela não tinha sonhado, embora talvez tivesse imaginado o cavalo branco. Ele a trouxera para lá. E sabia onde era o local do salto.
— Espere — disse Kivrin, que soergueu o corpo, apoiando-se no travesseiro. — Espere. Por favor. Eu queria falar com Gawyn.
As mulheres pararam. Eliwys aproximou-se da cama e parou do lado, com expressão de alarme.
— Eu queria falar com o homem chamado Gawyn — disse Kivrin, com todo cuidado, esperando um pouco antes de cada palavra até ter a tradução. Depois de certa altura, o processo deveria se tornar automático, mas por enquanto ela pensava a palavra e esperava até que o intérprete a traduzisse, e então repetia o som em voz alta. — Eu devo conferir esse lugar onde ele me achou.
Eliwys pousou a mão na testa de Kivrin, que a afastou com um gesto impaciente.
— Eu queria falar com Gawyn.
— Ela não tem febre, Imeyne — disse Eliwys para a outra mulher. — E mesmo assim tenta falar, embora saiba que nós não entendemos.
— Ela fala numa língua estrangeira — respondeu Imeyne, fazendo aquilo soar como se fosse um crime. — Talvez seja uma espiã francesa.
— Eu não estou falando francês — se defendeu Kivrin. — Estou falando inglês médio.
— Talvez seja latim — disse Eliwys. — O padre Roche disse que ela falou em latim durante a confissão.
— O padre Roche mal sabe o Paternoster — disse Imeyne. — Precisamos mandá-la para…
Aquele nome irreconhecível de novo. Kersey? Courcy?
— Eu queria falar com Gawyn — disse Kivrin em latim.
— Não — respondeu Eliwys. — Vamos esperar pelo meu marido.
A mulher velha deu meia-volta, irritada, e o conteúdo do penico balançou, salpicando gotas na manga. Ela a esfregou na saia e saiu porta afora, batendo com força ao passar. Eliwys fez o gesto de ir na direção dela.
Kivrin agarrou-lhe as mãos.
— Por que não me entende? — perguntou ela. — Eu entendo você. Eu preciso falar com Gawyn. Ele precisa me dizer onde é o local do salto.
Eliwys desvencilhou-se das mãos dela.
— Vamos, vamos, não deve chorar — ficou dizendo ela, com bondade. — Tente dormir. Você precisa descansar para poder ir para casa.
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(000915-001284)
Estou cheia de problemas, sr. Dunworthy. Não sei onde estou e não consigo falar o idioma. Aconteceu alguma coisa com o intérprete. Entendo uma parte do que os contemps dizem, mas eles não entendem nada do que falo. E isso nem é o pior.
Peguei uma espécie de doença. Não sei o que é. Não é a peste, porque não tenho nenhum dos sintomas e já estou começando a melhorar. Além disso, tomei vacina contra a peste. Tomei todas as inoculações, o reforço de células-T e tudo, mas talvez algo não tenha funcionado ou então se trata de alguma doença da Idade Média para a qual não temos vacinas.
Os sintomas são dor de cabeça, febre e tontura, e eu sinto dor no peito sempre que tento me mover. Tive delírios durante algum tempo, e não sei onde estou. Um homem chamado Gawyn me trouxe para cá no seu cavalo, mas eu não lembro muita coisa da viagem, exceto que estava escuro e pareceu levar horas. Espero estar errada e espero que a febre tenha dado a impressão de que o trajeto foi mais longo. Tomara que eu esteja mesmo no vilarejo da srta. Montoya.
Talvez seja Skendgate. Lembro que há uma igreja, e acho que estou numa casa senhorial. Estou num quarto ou num sótão, e não é simplesmente um mezanino porque há escadas, então significa no mínimo a casa de um pequeno barão. Há uma janela e, assim que a tontura diminuir, vou subir num banco de pedra junto dela e tentar avistar a igreja. Ela tem um sino, que tocou as vésperas ainda há pouco. Como a igreja do vilarejo da srta. Montoya não tinha campanário, temo que não esteja no lugar certo. Sei que estamos bastante próximos de Oxford, porque uma das contemps falou em mandar buscar uma médica de lá. É perto também de um vilarejo chamado Kersey ou Courcy, que não aparece nos mapas da srta. Montoya que eu memorizei, mas pode ser que seja o nome do dono das terras.
Por estar meio desnorteada, também não tenho certeza quanto à minha localização temporal. Tenho procurado lembrar, e acho que estou aqui há dois dias, mas pode ter sido mais. Não posso perguntar que dia é porque eles não me entendem, e não posso tentar levantar da cama sem cair, e eles cortaram meu cabelo bem curto, e não sei o que fazer. O que aconteceu? Por que o intérprete não funciona? Por que o reforço de células-T não funcionou também?
(Pausa)
Tem um rato embaixo da cama. Posso ouvi-lo escarafunchando no escuro.