O Livro do Juízo Final
Capítulo 7
— Eu sabia — disse a sra. Gaddson, avançando a todo vapor pelo corredor do hospital. — Ele contraiu alguma doença horrível, não é verdade? São aqueles exercícios de remo.
Mary avançou:
— Não pode entrar aqui. Área de isolamento.
A sra. Gaddson continuou adiante. O poncho transparente que vestia por cima do casaco salpicava enormes gotas de chuva para todos os lados enquanto ela caminhava, balançando a mala como se fosse uma arma.
— Não pode me mandar embora assim, sem mais nem menos. Sou a mãe dele. Exijo ver meu filho.
Mary ergueu a mão como um policial.
— Pare! — ordenou, em sua melhor imitação de enfermeira-chefe.
Surpreendentemente, a sra. Gaddson parou.
— Uma mãe tem o direito de ver o filho — disse ela. Sua expressão se amenizou. — Ele está muito doente?
— Se está falando do seu filho, William, ele não está doente de jeito nenhum — respondeu Mary. — Pelo menos não que eu saiba. — Ela ergueu mais uma vez a mão. — Por favor, não se aproxime mais. Por que acha que William está doente?
— Eu soube assim que ouvi falar de quarentena. Uma punhalada me atravessou no instante em que o chefe da estação disse “quarentena temporária”. — Ela pousou a mala no chão, para poder indicar melhor o local da punhalada. — É porque ele não tomou as vitaminas. Pedi aos professores que se responsabilizassem por isso — disse, lançando para Dunworthy um olhar de esguelha que rivalizava com os de Gilchrist —, e me disseram que ele já era grandinho e tinha idade para cuidar de si mesmo. Bem, parece óbvio que estavam errados.
— Não foi por causa de William que a quarentena foi decretada… Um dos técnicos da universidade contraiu uma infecção viral — disse Mary.
Dunworthy notou, com gratidão, que ela não dissera “um dos técnicos da Balliol”.
— O técnico é o único caso registrado, e não há nenhuma indicação de que haverá outros — prosseguiu Mary. — A quarentena não passa de medida de precaução, posso lhe garantir.
A sra. Gaddson não parecia convencida.
— Meu Willy sempre foi doentinho e não tem condições de cuidar de si mesmo. Fica muito tempo estudando naquele quarto cheio de correntes de ar — disse, com outro olhar tenebroso para Dunworthy. — Até fico surpresa que ele não tenha contraído uma infecção viral bem antes.
Mary abaixou e pôs a mão dentro do bolso onde carregava o bip. Espero que esteja pedindo ajuda, pensou Dunworthy.
— Depois do primeiro período que passou no Balliol, a saúde de Willy estava completamente abalada, e mesmo assim o seu tutor forçou o pobrezinho a ficar aqui durante o Natal e ler Petrarca — continuou a sra. Gaddson. — Foi por isso que eu vim. Só de pensar no coitado aqui sozinho, passando o Natal neste lugar horrível, comendo sabe Deus o quê e fazendo todo tipo de coisas nocivas à saúde, ah, isso é algo que um coração de mãe simplesmente não suporta.
Ela apontou o lugar onde tinha sentido a punhalada ao ouvir falar na quarentena:
— Por sorte, foi providencial que eu tivesse saído de casa na hora em que saí. Providencial. Quase perdi o trem, minha mala estava tão pesada, e eu cheguei a pensar, “ah, bem, virá outro daqui a pouco”. Mas como eu queria muito estar com o meu Willy, gritei com eles para segurarem a porta e mal havia descido em Cornmarket quando o chefe da estação apareceu dizendo “quarentena temporária, o serviço de trens está temporariamente suspenso”. Se eu tivesse perdido aquele trem e esperado pelo próximo, eu teria ficado presa na quarentena. Dói só de pensar.
Dói mesmo.
— Tenho certeza de que William vai ficar surpreso quando vir a senhora — disse Dunworthy, na esperança de que ela fosse em busca do filho.
— Vai mesmo — disse ela, sombria. — Provavelmente ele está sentado em algum lugar por aí, sem cachecol. Ele vai contrair essa infecção viral, sei disso. Ele contrai qualquer coisa. Na infância, ele vivia cheio de brotoejas. Só estou esperando para ver. Pelo menos a mãe dele vai estar aqui para ajudá-lo a superar esse momento delicado.
A porta se abriu e entraram às pressas duas pessoas de máscaras, jaleco, luvas e uma proteção de papel por cima dos sapatos. A quase corrida se reduziu a um passo normal quando perceberam que não havia ninguém prostrado no chão.
— Preciso deste local todo cercado e com um sinal indicando que é área de isolamento — avisou Mary. Virou-se para a sra. Gaddson. — Receio que haja uma possibilidade de que a senhora tenha sido exposta ao vírus. Como não temos certeza ainda sobre o modo de transmissão, não podemos eliminar a possibilidade da propagação pelo ar — completou ela, e por um terrível momento Dunworthy pensou que Mary mandaria trancar a sra. Gaddson com eles na saleta. — Podem conduzir a sra. Gaddson até um recinto isolado? — pediu ela a um dos mascarados. — Vamos precisar fazer exames de sangue e uma lista dos seus contatos, sra. Gaddson. Sr. Dunworthy, se puder me acompanhar…
E assim ela o conduziu de volta à saleta de espera antes que a sra. Gaddson pudesse protestar.
— Eles vão segurá-la durante algum tempo e dar ao pobre Willy mais algumas horas de liberdade.
— Essa mulher pode fazer qualquer um ter um ataque de brotoejas — disse ele.
Todos os presentes tinham erguido o olhar à entrada dos dois, menos a paramédica. Latimer estava sentado pacientemente junto à mesinha do chá, com a manga enrolada no braço. Montoya continuava ao telefone.
— O trem de Colin não passou — avisou Mary. — Ele já está em segurança, em casa.
— Oh, que bom — comentou Montoya, e desligou o telefone. Gilchrist deu um pulo para pegá-lo.
— Sr. Latimer, lamento muito tê-lo deixado esperando — disse Mary. Ela abriu o invólucro, calçou um novo par de luvas impermeáveis e começou a preparar um novo frasco de coleta de sangue.
— Aqui é Gilchrist, quero falar com o tutor-sênior — soprou Gilchrist ao telefone. — Sim, estou tentando falar com o sr. Basingame. Sim, posso esperar.
O tutor-sênior não faz a menor ideia de onde Basingame está, pensou Dunworthy, nem a secretária. Já tinha falado com os dois quando estava tentando abortar o salto. A secretária nem sequer sabia que Basingame tinha ido para a Escócia.
— Fico feliz que tenham encontrado o garoto — disse Montoya, olhando para o relógio. — Quanto tempo acha que vão nos manter aqui? Preciso voltar para minha escavação antes que ela se transforme num pântano. No momento, estamos escavando a igreja de Skendgate. A maior parte dos túmulos data dos anos 1400, mas já encontramos alguns da Peste Negra e outros de antes de Guilherme, o Conquistador. Na semana passada achamos o túmulo de um cavaleiro. Em belas condições. Será que Kivrin já está lá?
Dunworthy presumiu que ela se referia ao vilarejo, e não ao cemitério.
— Espero que sim — respondeu.
— Eu pedi que ela começasse a registrar suas observações sobre Skendgate o mais depressa possível, tanto do vilarejo quanto da igreja. Pedi também que desse uma atenção especial ao túmulo. A inscrição está meio desgastada, assim como uma parte dos entalhes. Mas dá para ler a data, e é de 1318.
— É uma emergência — disse Gilchrist, bufando de raiva durante uma longa pausa. — Eu já sei que ele foi pescar na Escócia. O que eu quero saber é precisamente onde.
Mary prendeu um emplastro ao braço de Latimer e fez um gesto chamando Gilchrist. Ele abanou a cabeça. Ela foi até a paramédica adormecida e a sacudiu até que acordasse. A mulher acompanhou Mary, piscando os olhos, sonolenta.
— Existem muitas coisas que só podemos saber por observação direta — continuou Montoya. — Pedi a Kivrin que gravasse cada detalhe. Espero que o recorde tenha bastante capacidade. Ele é tão pequeno. — Ela olhou o relógio de novo. — Mas claro que tinha que ser. Por acaso alguém teve a chance de vê-lo antes do implante? Parece um esporão de osso.
— Esporão de osso? — perguntou Dunworthy, observando o sangue da paramédica encher lentamente o frasco.
— Para não causar um anacronismo caso venha a ser descoberto. Ele se encaixa com precisão na superfície palmar do osso escafoide. — Ela esfregou o osso do pulso, junto ao polegar.
Mary fez um sinal para Dunworthy enquanto a paramédica se erguia, abaixando a manga comprida do uniforme. Ele tomou o lugar dela na cadeira. Mary arrancou o invólucro de um monitor, prendeu-o à parte interna do pulso de Dunworthy e lhe deu um temp para engolir.
— Pois diga ao secretário que ligue neste número assim que voltar — bradou Gilchrist, antes de desligar.
Montoya agarrou o telefone, digitou um número e disse:
— Oi. Poderia me dizer qual é o perímetro da quarentena? Preciso saber se Witney está incluído. Minha escavação é lá. — Aparentemente a resposta do outro lado foi não. — Então, com quem posso falar para pedir uma mudança do perímetro? É uma emergência.
Todos estão preocupados com suas próprias “emergências”, pensou Dunworthy, e ninguém lembra de se preocupar com Kivrin. Bem, mas o que havia para causar preocupação? O recorde tinha sido camuflado como um pequeno osso, para não causar um anacronismo quando os contemps decidissem cortar as mãos dela antes de queimá-la na fogueira.
Mary tirou sua pressão e depois cravou nele a pequena agulha.
— Se um dia esse telefone ficar desocupado — disse ela, prendendo tudo com um emplastro e fazendo um gesto chamando Gilchrist, que estava parado ao lado de Montoya, com ar de impaciência —, você pode ligar para William Gaddson e avisar que a mãe dele está a caminho.
Montoya disse:
— Isso. O número do National Trust. — Depois desligou e rabiscou um número num dos panfletos da mesa.
O telefone tocou. Gilchrist, que estava indo em direção a Mary, deu um pulo e o agarrou antes de Montoya.
— Não — disse ele, antes de passar com relutância o aparelho para Dunworthy.
Era Finch. Estava no setor de pessoal.
— Conseguiu a ficha médica de Badri? — indagou Dunworthy.
— Consegui, senhor. A polícia está aqui. Estão procurando um local para alojar todas as pessoas que foram detidas e que não moram em Oxford.
— E eles querem colocar todo mundo no Balliol — disse Dunworthy.
— Querem, senhor. Quantas pessoas posso dizer a eles que aceitamos?
Mary tinha ficado de pé, com o frasco de sangue de Gilchrist na mão, e fazia sinais para Dunworthy.
— Um momento, por favor — pediu ele, colocando em espera o microfone do aparelho.
— Eles estão pedindo para alojar as pessoas detidas? — quis saber Mary.
— Estão — disse ele.
— Não prometa todos os aposentos — avisou ela. — Talvez a gente precise de local para servir de enfermaria.
Dunworthy afastou a mão do aparelho e disse:
— Diga à polícia que podemos colocá-los em Fisher e nos quartos disponíveis em Salvin. Se você ainda não designou os quartos para as sineiras, calcule o dobro. Informe que o hospital pediu para separar Bulkeley-Johnson como uma ala de emergência. Você disse que achou a ficha médica de Badri?
— Achei, senhor. Passei o diabo para encontrá-la. O setor de pessoal o fichou sob o nome de Badri-vírgula-Chaudhuri, e as americanas…
— Descobriu o número do SNS dele?
— Descobri, senhor.
— Vou colocar a dra. Ahrens na linha — disse ele, antes que Finch se lançasse na narração de outro episódio com as sineiras. Chamou Mary com um gesto. — Passe a informação diretamente para ela.
Mary grudou um emplastro no braço de Gilchrist e um monitor de temperatura nas costas de sua mão.
— Consegui ligar para Ely, senhor — recomeçou Finch. — Informei sobre o cancelamento do concerto de sinos, e eles foram muito gentis, mas as americanas continuam insatisfeitas.
Mary terminou de anotar a leitura dos indicadores de Gilchrist, arrancou as luvas e foi pegar o fone das mãos de Dunworthy.
— Finch? Dra. Ahrens. Leia para mim o número do SNS de Badri.
Dunworthy estendeu para ela sua folha de SECUNDáRIOS e um lápis. Mary anotou o número e depois pediu uma série de dados sobre vacinas de Badri, que foi copiando em anotações que Dunworthy não conseguiu decifrar.
— Alguma reação ou alergia? — Houve uma pausa, e ela disse: — OK, nenhuma. O resto eu posso ver no computador. Ligo de novo se precisar de mais alguma informação. — Ela devolveu o fone a Dunworthy. — Ele ainda quer falar com você — avisou e saiu da sala, levando as anotações.
— As sineiras estão muito contrariadas por estarem confinadas aqui — disse Finch. — A sra. Taylor está ameaçando nos processar por quebra unilateral de contrato.
— Quando foi a última dose de antivirais de Badri?
Finch levou um tempo enorme consultando a ficha.
— Aqui está, senhor. Foi em 14 de setembro.
— Tomou a série completa?
— Tomou, senhor. Receptores análogos, reforço de APM e os sazonais.
— Ele já acusou alguma reação aos antivirais?
— Não, senhor. Não há nada anotado em seu histórico de alergias. Já falei isso para a dra. Ahrens.
Badri tinha tomado os antivirais. Não tinha histórico de reação.
— Já foi ao New College? — perguntou Dunworthy.
— Não, senhor. Estou saindo agora. O que devo fazer quanto aos produtos de higiene? Temos uma quantidade adequada de sabonete, mas há pouco papel higiênico.
A porta se abriu, mas não era Mary. Era o paramédico enviado para buscar Montoya. Ele foi até a mesinha e ligou a chaleira elétrica.
— Devo racionar o papel higiênico, senhor? — indagou Finch. — Ou espalhar recados para que as americanas economizem?
— O que você achar melhor — disse Dunworthy, e desligou.
Devia estar chovendo ainda. O uniforme do paramédico estava molhado e, quando a chaleira ferveu, ele estendeu as mãos para o vapor, como se tentando aquecê-las.
— Já terminou com o telefone? — perguntou Gilchrist.
Dunworthy passou o aparelho para ele. Imaginou como estaria o tempo onde Kivrin se encontrava, e se perguntou se Gilchrist teria pedido a Probabilidade para calcular as chances de a chegada dela coincidir com uma chuva. Aquela capa não parecia propriamente à prova d’água, e o tal viajante amistoso que deveria aparecer dentro de 1,6 hora já estaria enfurnado numa estalagem ou num celeiro até que as estradas secassem e ficassem transitáveis outra vez.
Dunworthy tinha ensinado a Kivrin como fazer fogo, mas ela dificilmente teria sucesso com as mãos dormentes de frio e com gravetos úmidos. Os invernos em 1300 eram muito rigorosos. Podia estar até nevando. A Pequena Era Glacial mal tinha começado em 1320, até que o tempo esfriou a ponto de congelar o Tâmisa. Temperaturas baixas e estações irregulares causaram tanta destruição nas colheitas que alguns historiadores colocaram a culpa da Peste Negra no estado generalizado de desnutrição das pessoas. O tempo tinha sido mesmo muito rigoroso. No outono de 1348, chovera em certa parte do Oxfordshire todos os dias sem exceção entre o dia de São Miguel, 29 de setembro, e o Natal. Kivrin provavelmente estava lá na estrada lamacenta, quase morrendo de hipotermia.
E coberta de brotoejas, de tanto que seu dedicado tutor se preocupava com ela. Mary tinha razão. Ele soava às vezes como a sra. Gaddson. Mais um pouco e estaria abrindo à força as portas da rede, como a sra. Gaddson fizera na estação, e Kivrin sentiria ao vê-lo a mesma alegria que William experimentaria quando avistasse a mãe. Os dois igualmente indefesos.
Kivrin era a aluna mais brilhante e mais capacitada que ele já tivera. Sem dúvida seria capaz de evitar uma chuva. Até onde sabia, ela havia passado as férias mais recentes entre um grupo de esquimós, aprendendo a construir um iglu.
Ela decerto teria pensado em tudo o mais, até nas próprias unhas. Quando veio mostrar as roupas, ele ergueu as duas mãos dela. As unhas estavam partidas, havia traços de sujeira nas cutículas.
— Eu sei que teoricamente sou da nobreza, mas da nobreza rural, e eles faziam uma porção de tarefas braçais entre bordar uma tapeçaria de Bayeux e outra. Como as damas de East Riding só vieram a conhecer a tesoura nos anos 1600, eu passei o sábado à tarde na escavação de Montoya, mexendo nas ossadas, até ficar desse jeito.
As unhas tinham uma aparência horrível e pareciam autênticas. Não havia motivo para ele ficar se preocupando com um detalhe tão bobo quanto a neve.
Só que ele não podia evitar. Se pudesse conversar agora com Badri, perguntar o que queria dizer com “tem alguma coisa errada”, certificar-se de que o salto correra na normalidade e de que o desvio não fora grande demais, então talvez parasse de se preocupar. No entanto, Mary não tinha obtido o número do SNS de Badri senão depois do telefonema de Finch. Ele pensou se Badri continuaria inconsciente naquele instante. Ou coisa pior.
Levantou-se, foi à mesinha e preparou uma xícara de chá. Gilchrist estava outra vez ao telefone, aparentemente falando com o porteiro, que também não sabia do paradeiro de Basingame. Quando Dunworthy tinha conversado com o porteiro, ele dissera que tinha a impressão de ter ouvido Basingame mencionar o lago Balkillan, um lago que nem sequer existia.
Dunworthy tomou seu chá. Gilchrist ligou para o setor de pessoal e depois para o administrador da faculdade: nenhum deles sabia para onde Basingame fora. A enfermeira que estivera até então de guarda à porta da sala entrou e concluiu os exames de sangue. O paramédico apanhou um dos panfletos motivacionais e começou a ler.
Montoya estava terminando de preencher os formulários e de levantar a lista de seus contatos.
— O que devo fazer? — perguntou ela a Dunworthy. — Listar todas as pessoas com quem tive contato hoje?
— Nos três últimos dias — disse ele.
Continuaram esperando. Dunworthy tomou mais uma xícara de chá. Montoya ligou para o SNS e tentou persuadi-los a liberá-la da quarentena para poder voltar à escavação. A paramédica estava dormindo outra vez.
A enfermeira entrou empurrando uma mesinha com rodas, trazendo uma ceia.
— Greet chere made our hoste us everichon, And to the soper sette us anon — disse Latimer, a primeira observação que fazia durante a tarde inteira.
Enquanto comiam, Gilchrist ofertou a Latimer uma descrição dos seus planos para mandar Kivrin ao período pós-Peste Negra.
— A visão histórica mais aceita é de que a peste destruiu completamente a sociedade medieval — explicou a Latimer, enquanto cortava seu rosbife. — Mas minha pesquisa sugere que ela foi mais purgativa do que catastrófica.
Do ponto de vista de quem?, pensou Dunworthy, enquanto imaginava que tudo estava demorando demais. Começou a se perguntar se estariam mesmo fazendo exames de sangue ou se apenas esperavam que alguém do grupo tombasse ao chão durante o chá, para que tivessem ideia do período de incubação.
Gilchrist ligou para o New College outra vez e perguntou pela secretária de Basingame.
— Ela não está lá — disse Dunworthy. — Foi passar o Natal com a filha em Devonshire.
Gilchrist o ignorou.
— Isso. Preciso passar um recado para ela. Estou tentando entrar em contato com o sr. Basingame. É uma emergência. Acabamos de mandar uma historiadora para os anos 1300, e Balliol não realizou os exames no técnico que operou a rede. Como resultado, ele contraiu um vírus contagioso. — Ele abaixou o aparelho. — Se o sr. Chaudhuri não tiver tomado os antivirais necessários, vou considerá-lo pessoalmente responsável por tudo isto, sr. Dunworthy.
— Ele tomou a série completa em setembro — respondeu Dunworthy.
— Tem alguma prova? — questionou Gilchrist.
— Ele pode ter sido transportado? — perguntou a paramédica.
Todos, até mesmo Latimer, viraram-se surpresos para olhar para ela. Até o instante em que falou, ela parecia estar dormindo como uma pedra, a cabeça caída sobre o peito, os braços cruzados, as mãos agarrando as folhas com as listas de contatos.
— O senhor disse que mandaram alguém para a Idade Média — continuou ela, agressivamente. — Foi mesmo?
— Receio que não… — começou a dizer Gilchrist.
— Esse vírus — disse ela. — Ele pode ter sido transportado pela máquina do tempo?
Gilchrist olhou com nervosismo para Dunworthy.
— Isso não é possível, certo?
— Não — respondeu Dunworthy. Era evidente que Gilchrist não conhecia nada a respeito dos paradoxos do continuum ou da teoria das cordas. Um homem como aquele não podia ocupar o posto de diretor em exercício. Ele não sabia sequer como funcionava aquela rede por onde tinha despachado com tanta alegria Kivrin. — O vírus não poderia passar pela rede.
— A dra. Ahrens diz que o indiano é o único caso até agora — objetou a paramédica. — E o senhor disse… — ela apontou para Dunworthy — que ele tomou a série antiviral inteira. Se ele tomou os antivirais, não poderia contrair um vírus a menos que fosse uma doença oriunda de outro lugar. E a Idade Média era cheia de doenças, não é mesmo? Varíola, a peste?
— Tenho certeza de que Medieval tomou todas as precauções para nos proteger contra a possibilidade de… — disse Gilchrist.
— Não existe possibilidade de um vírus ser transportado pela rede — cortou Dunworthy, aborrecido. — O continuum espaço-tempo não permite que aconteça.
— Vocês transportam pessoas — insistiu ela —, e um vírus é menor do que uma pessoa.
Dunworthy não ouvia aquele argumento desde os primeiros anos de uso das redes, quando a teoria era entendida apenas em parte.
— Posso garantir que todas as precauções foram tomadas — disse Gilchrist.
— Nada que possa afetar o curso da História pode passar pela rede — explicou Dunworthy, fazendo cara feia para Gilchrist, que estava dando rédeas a ela com aquela conversa sobre precauções e probabilidades. — Radiações, toxinas, micróbios, nada disso passa através de uma rede. Em qualquer um desses casos, a rede simplesmente não abre.
A paramédica não pareceu convencida.
— Posso assegurar… — ia dizendo Gilchrist, e nesse instante Mary entrou.
Estava carregando um maço de papéis de diferentes cores. Gilchrist ficou de pé na mesma hora.
— Dra. Ahrens, existe alguma possibilidade de que a infecção viral do sr. Chaudhuri tenha sido contraída através da rede? — perguntou.
— Claro que não — respondeu ela, franzindo o rosto como se a mera ideia daquela possibilidade fosse ridícula. — Em primeiro lugar, doença alguma passa através da rede. Violaria os paradoxos. Em segundo lugar, se tivesse passado, o que é impossível, Badri teria contraído a doença menos de uma hora antes de aparecerem os sintomas, o que significa que o vírus teria um período de incubação de uma hora, uma impossibilidade total. Por fim, se tivesse passado, e não pode ter, todos vocês já estariam doentes — ela olhou para o relógio —, já que se passaram mais de três horas desde a exposição. — Ela começou a recolher as listas de contatos.
Gilchrist pareceu irritar-se.
— Como diretor em exercício da faculdade de história, tenho responsabilidades com as quais lidar. Por quanto tempo mais pensa em nos manter aqui?
— Somente o tempo necessário para recolher as listas de contatos e passar algumas instruções — respondeu ela. — Digamos, cinco minutos.
Ela pegou primeiro a lista de Latimer. Montoya agarrou a sua, que estava em cima da mesa, e começou a rabiscar às pressas.
— Cinco minutos? — repetiu a paramédica. — Quer dizer que vamos poder ir embora?
— Sob observação médica — disse ela, que pôs todas as listas embaixo das folhas que já trazia e começou a distribuir para todos as folhas de cima, que eram de um virulento cor-de-rosa. Parecia ser uma espécie de formulário de alta, absolvendo o hospital de toda e qualquer responsabilidade.
— Completamos os exames de sangue de todos — prosseguiu Mary —, e nenhum acusa aumento do número de anticorpos.
Ela estendeu para Dunworthy uma folha azul, que absolvia o SNS de toda e qualquer responsabilidade e reafirmava a disposição do signatário de pagar integralmente todas e quaisquer despesas não cobertas pelo SNS no prazo máximo de trinta dias.
— Estive em contato com o CMI, e a recomendação é: observação controlada, com monitoração regular buscando sintomas de febre, e exames de sangue a intervalos de doze horas.
A folha que passou a distribuir em seguida era verde, e o cabeçalho dizia: INSTRUÇÕES PARA CONTATOS PRIMáRIOS . A primeira instrução dizia: Evite contato com outras pessoas.
Dunworthy pensou em Finch e nas sineiras que estariam sem dúvida esperando por ele no portão do Balliol, com invocações e Escrituras. Também em todos os transeuntes e pessoas que faziam compras de Natal ao longo do caminho.
— Registrem sua temperatura a intervalos de meia hora — avisou ela, distribuindo uma folha amarela. — Venham para cá imediatamente caso o seu monitor — indicou com o dedo o aparelhinho preso ao braço — marque aumento de temperatura. Alguma flutuação é normal. Nossa temperatura tende a se elevar no fim da tarde e começo da noite. Uma temperatura entre 36 e 37,4 é normal. Venham o quanto antes se ela exceder os 37,4 ou se aumentar de repente, ou caso comecem a sentir algum dos sintomas, como dor de cabeça, aperto no peito, confusão mental ou tontura.
Todos conferiram seus monitores e, sem dúvida, começaram a sentir uma dor de cabeça se aproximando. Dunworthy experimentara uma durante toda a tarde.
— Evitem ao máximo ter contato com outras pessoas — prosseguiu Mary. — Façam uma lista cuidadosa de todas as pessoas que encontrarem. Ainda não sabemos o modo de transmissão, mas a maioria dos mixovírus se dissemina por gotículas ou por contato direto. Lavem as mãos com água e sabão, com frequência.
Ela estendeu a Dunworthy outra folha cor-de-rosa. As cores começavam a escassear. Aquela folha era uma tabela, com o título CONTATOS, e embaixo: NOME/ENDEREÇO/TIPO DE CONTATO/HORáRIO.
Era uma pena que o vírus de Badri nunca tivesse precisado enfrentar o CCD, o SNS e o CMI. Não teria chance nem de chegar à porta.
— Todos devem voltar a se apresentar aqui amanhã cedo, às sete horas. Enquanto isso, recomendo uma boa refeição e depois cama. Descansar é o melhor remédio contra qualquer vírus. Vocês dois estão dispensados — disse, olhando para os paramédicos. — Por toda a duração da quarentena. — Distribuiu mais algumas folhas coloridas e depois perguntou, com educação: — Alguma pergunta?
Dunworthy olhou para a paramédica, esperando que perguntasse a Mary se a varíola podia ser transportada pela rede, mas ela estava apenas analisando com ar indiferente as folhas que segurava.
— Posso voltar para minha escavação? — perguntou Montoya.
— Não, a não ser que esteja dentro do perímetro da quarentena — respondeu Mary.
— Oh, que ótimo — disse ela, enfiando os papéis com raiva nos bolsos do casaco de terrorista. — A água vai arrastar tudo enquanto estou presa aqui. — Saiu pisando duro.
— Mais alguma pergunta? — indagou Mary, imperturbável. — Muito bem, vejo vocês amanhã, às sete.
O paramédico se retirou, seguido pela paramédica, que saiu se espreguiçando e bocejando, como se estivesse se preparando para outra soneca. Latimer continuava sentado, observando seu monitor de temperatura. Gilchrist disse algo mordaz, e Latimer se levantou, vestiu o casaco e foi recolher o guarda-chuva e o maço de papéis.
— Espero ser informado sobre todos os desdobramentos — avisou Gilchrist. — Estou localizando Basingame para dizer que ele precisa voltar e assumir o controle da situação. — Abriu a porta com força, mas teve que mantê-la aberta, esperando, enquanto Latimer se abaixava para apanhar duas folhas caídas no chão.
— Será que amanhã cedo você podia dar uma volta a mais e buscar Latimer? — perguntou Mary, conferindo as listas de contatos. — Ele nunca vai se lembrar de que precisa estar aqui às sete.
— Preciso falar com Badri — disse Dunworthy.
— Laboratório, Brasenose — respondeu ela, lendo uma ficha de cada vez. — Escritório do Decano, Brasenose. Laboratório, Brasenose. Ninguém esteve com Badri a não ser no local da rede?
— Quando estávamos vindo para cá na ambulância ele disse: “Tem alguma coisa errada” — comentou Dunworthy. — Pode ter havido um desvio. Se for algo maior do que uma semana, Kivrin não vai ter ideia de quando será o reencontro.
Mary não respondeu. Ficou manuseando as folhas, a testa franzida.
— Preciso ter certeza absoluta de que não aconteceu nada de errado com o fix — insistiu Dunworthy.
Ela ergueu os olhos.
— Muito bem — disse. — Essas listas de contato são inúteis. Há lacunas enormes nos movimentos de Badri de três dias para cá. Ele é a única pessoa que pode nos dizer onde esteve e com quem entrou em contato. — Ela conduziu Dunworthy de volta e ao longo do corredor. — Pus uma enfermeira junto, para fazer perguntas, mas ele estava muito desorientado e ficou com medo dela. Talvez tenha menos receio se vir você.
Seguiram pelo corredor, entraram no elevador e ela disse ao microfone:
— Térreo, por favor. — E para ele: — Badri tem apenas alguns minutos de lucidez por vez. Talvez isso continue noite afora.
— Tudo bem — concordou Dunworthy. — Não vou conseguir descansar enquanto não souber que Kivrin chegou bem do lado de lá.
O elevador subiu dois andares com eles, que seguiram por outro corredor e cruzaram uma porta com a placa: ENTRADA PROIBIDA. ALA DE ISOLAMENTO. Dentro, uma freira com expressão soturna estava sentada a uma mesa, vigiando um monitor.
— Vou levar o sr. Dunworthy para ver o sr. Chaudhuri — disse Mary. — Precisamos de equipamentos de proteção, trajes. Como está ele?
— A febre aumentou de novo: 39,8 — disse a freira, estendendo para eles os SPGs, embrulhos de plástico contendo aventais de papel com laço atrás, gorros, máscaras impermeáveis impossíveis de colocar depois dos gorros, protetores para os pés que subiam até a canela e luvas impermeáveis. Dunworthy cometeu o erro de colocar primeiro as luvas, e depois perdeu um tempo que pareceu horas tentando desdobrar o jaleco e fixar a máscara no rosto.
— Vai ter que fazer a ele perguntas muito específicas — informou Mary. — Pergunte o que ele fez assim que acordou hoje de manhã, se dormiu com alguém, o que comeu no café, quem estava lá, esse tipo de coisa. A febre alta causa desorientação. Talvez precise fazer a mesma pergunta várias vezes. — Ela abriu a porta do quarto.
Não era um quarto, na verdade: havia espaço apenas para a cama e para um banquinho que nem chegava a ser um assento. A parede atrás da cama estava coberta por telas e equipamentos. Na parede oposta, uma cortina e mais equipamentos. Mary lançou um olhar rápido para Badri e depois começou a checar os monitores.
Dunworthy olhou para as telinhas. A mais próxima estava cheia de números e letras. A linha de baixo dizia: ICU 14320691 22-12-54 1803 200/RPT 1800CRS IMJPCLN 200MG/Q6H NHS40-211-7 M AHRENS. Pareciam ser as instruções médicas.
As outras telas mostravam gráficos cheios de picos e colunas de números. Nenhum parecia fazer sentido, exceto por um número no meio do segundo monitor da esquerda para a direita. Lia-se ali TEMP: 39,9 . Deus do céu.
Ele olhou para Badri. Estava deitado com os braços para fora do lençol, ambos conectados a tubos pendurados de suportes. Um dos tubos era alimentado por pelo menos cinco bolsas plásticas diferentes. Os olhos dele estavam fechados, o rosto parecia magro e emaciado, como se ele tivesse perdido peso desde aquela manhã. A pele escura tinha um tom estranhamente arroxeado.
— Badri — disse Mary, curvando-se sobre ele —, pode me ouvir?
Ele abriu as pálpebras e olhou para eles sem reconhecê-los, o que talvez tivesse mais relação com o uso das roupas de papel da cabeça aos pés do que com o vírus.
— É o sr. Dunworthy — disse Mary, confiante. — Ele veio ver você. — O bip dela começou a tocar.
— Sr. Dunworthy? — repetiu ele com voz rouca, e tentou sentar-se.
Mary empurrou com delicadeza a cabeça dele de volta ao travesseiro.
— O sr. Dunworthy quer fazer algumas perguntas — disse ela, dando palmadinhas leves no peito de Badri, como fizera lá no laboratório no Brasenose. Ela endireitou-se, observou os mostradores na parede por trás dele. — Fique calmo. Preciso sair agora, mas o sr. Dunworthy vai ficar aqui com você. Descanse e procure responder às perguntas dele. — Depois de dizer isso, ela saiu.
— Sr. Dunworthy? — repetiu Badri outra vez, como se estivesse tentando captar o sentido das palavras.
— Sim — disse Dunworthy, sentando-se no banquinho. — Como está se sentindo?
— Quando acha que ele vai voltar? — perguntou Badri, e sua voz soava fraca e desgastada.
Ele tentou sentar outra vez. Dunworthy pousou a mão para detê-lo.
— Temos que encontrar ele — disse Badri. — Tem alguma coisa errada.