O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 24 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 23

 

Kivrin agarrou a mão de Agnes e bateu em retirada para a segurança do celeiro. Precisava esconder-se até que partissem todos.

— Para onde estamos indo? — indagou Agnes.

Kivrin esquivou-se rápido de dois criados de Sir Bloet carregando um baú.

— Lá para cima — respondeu ela.

Agnes parou no mesmo segundo.

— Eu não vou ficar deitada! — lamuriou-se ela. — Eu não estou cansada!

— Lady Katherine! — chamou alguém do outro lado do pátio.

Kivrin pegou Agnes no colo e voltou a partir para o celeiro.

— Eu não estou cansada! — gritou Agnes. — Não estou!

Rosemund chegou correndo.

— Lady Katherine! Não me ouviu? Minha mãe está chamando. O emissário do bispo está indo embora.

Ela agarrou o braço de Kivrin, a obrigando a se virar na direção da casa grande.

Eliwys estava parada à porta, olhando agora para as três, e o emissário do bispo tinha acabado de sair e estava imóvel ao lado dela, com sua capa vermelha. Kivrin não viu Imeyne em parte alguma. Devia estar dentro da casa, arrumando a bagagem de Kivrin.

— O emissário tem um assunto urgente para resolver em Bernecestre — disse Rosemund, conduzindo Kivrin para a casa. — E Sir Bloet vai com eles — acrescentou, esboçando um sorriso rápido e feliz para Kivrin. — Sir Bloet disse que vai acompanhá-los até Courcy, para que eles durmam lá nesta noite e possam estar em Bernecestre amanhã.

Bernecestre. Bicester. Pelo menos não era Godstow. Mas Godstow ficava no caminho.

— Qual é o assunto urgente?

— Não sei — respondeu Rosemund, como se não tivesse importância.

Kivrin imaginou que, para a menina, era justamente isso. Sir Bloet estava indo embora, e isso era tudo que importava. Rosemund avançou, alegre, por entre o tumulto de criados, bagagens e cavalos, guiando Kivrin até a mãe.

O emissário do bispo estava falando a um dos seus criados, e Eliwys observava a cena, de cenho franzido. Nenhum dos dois perceberia se ela se virasse de repente e caminhasse rápido para trás de uma das portas do estábulo, agora escancaradas, mas Rosemund a agarrava firme pela manga e a arrastava para frente.

— Rosemund, eu tenho que voltar ao celeiro. Deixei minha capa… — começou ela.

— Mãe! — gritou Agnes, já correndo para Eliwys e quase desaparecendo embaixo de um dos cavalos. O animal relinchou e sacudiu a cabeça, e um criado mergulhou para segurar as rédeas.

— Agnes! — gritou Rosemund, e largou a manga de Kivrin, mas era tarde demais. Eliwys e o emissário do bispo já tinham avistado as três, e estavam andando em direção a elas.

— Não deve sair correndo pelo meio dos cavalos — repreendeu Eliwys, abraçando Agnes.

— Meu cachorrinho morreu — falou Agnes.

— Isso não é motivo para correr assim — disse Eliwys, e Kivrin soube que ela nem sequer escutara a filha. Eliwys virou-se para dar atenção ao emissário do bispo.

— Diga ao seu marido que ficamos gratos pelo empréstimo dos cavalos, com o revezamento, os nossos estarão descansados até a jornada para Bernecestre — agradeceu ele, que também parecia meio distraído. — Mandarei um dos servos de Courcy trazer de volta os animais.

— Quer ver meu cão? — perguntou Agnes, puxando a saia da mãe.

— Pssss — fez Eliwys.

— Meu secretário não seguirá viagem conosco nesta tarde — prosseguiu o emissário. — Creio que ele estava alegre demais durante a noite, e agora sente o desconforto de ter bebido muito. Peço que seja indulgente, minha boa senhora, permitindo-lhe que fique até se recuperar.

— Claro que sim — anuiu Eliwys. — Há alguma coisa que possamos fazer para ajudar? A mãe do meu marido…

— Não. Basta deixá-lo em paz. O sono é a única coisa que pode ajudar uma cabeça que dói. Ele estará bem quando chegar a noite — disse ele, também com aparência de quem se excedera nas comemorações.

Parecia nervoso, desatento, como se estivesse com uma dor de cabeça muito forte, e seu rosto aristocrático tinha uma cor cinzenta à luz da manhã. Ele estremeceu e puxou a capa em volta do corpo.

Ele mal havia olhado para Kivrin, e ela imaginou se no meio de tanta pressa ele teria esquecido a promessa feita a Lady Imeyne. Olhou ansiosa para o portão, esperando que Imeyne ainda estivesse repreendendo o padre Roche e que não aparecesse de repente para cobrar a promessa.

— Lamento que meu marido não esteja aqui — disse Eliwys — e que não tenha sido possível oferecer uma recepção melhor. Meu marido…

— Tenho que dar instruções aos meus criados — interrompeu ele.

Estendeu a mão e Eliwys dobrou o joelho e beijou seu anel. Antes que pudesse se erguer, ele já partia apressado em direção ao estábulo. Eliwys o acompanhou com os olhos, preocupada.

— Quer ver como ele ficou? — perguntou Agnes.

— Agora não — respondeu Eliwys. — Rosemund, precisa ir se despedir de Sir Bloet e de Lady Yvolde.

— Ele ficou frio — disse Agnes.

Eliwys virou-se para Kivrin.

— Lady Katherine, sabe onde está Lady Imeyne?

— Ela ficou para trás, na igreja, quando viemos — falou.

— Talvez ainda esteja fazendo suas preces — observou Eliwys. Ficou na ponta dos pés e examinou o pátio abarrotado. — Onde estará Maisry?

Escondida, pensou Kivrin, que é exatamente como eu deveria estar.

— Quer que eu procure ela? — indagou Rosemund.

— Não. Você precisa se despedir de Sir Bloet — observou Eliwys. — Lady Katherine, vá buscar Lady Imeyne na igreja, para que ela possa dar adeus ao emissário do bispo. Rosemund, o que ainda está esperando? Deve ir se despedir do seu noivo…

— Vou procurar Lady Imeyne — disse Kivrin, pensando: Vou sair e, se ela ainda estiver na igreja, desvio por trás das cabanas e vou me esconder no bosque.

Ela se virou para ir. Dois criados de Sir Bloet vinham lutando contra o peso de um baú enorme, que colocaram no chão com uma pancada surda, bem diante dela. O baú caiu de lado. Ela recuou e deu a volta, procurando não andar atrás dos cavalos.

— Espere! — chamou Rosemund, alcançando Kivrin e agarrando sua manga. — Tem que vir comigo para dar adeus a Sir Bloet.

— Rosemund… — começou Kivrin, olhando de longe a passagem que conduzia à igreja. A qualquer instante, Lady Imeyne podia aparecer ali, agarrando seu Livro das Horas.

— Por favor — pediu Rosemund, que parecia pálida e amedrontada.

— Rosemund…

— Vai ser só um segundinho e depois você pode ir buscar minha avó. — Ela começou a puxar Kivrin para o estábulo. — Ande, vamos agora, a cunhada está com ele.

Enquanto observava seu cavalo ser selado, Sir Bloet conversava com aquela senhora da coifa extraordinária, que não estava menos enorme pela manhã, mas tinha visivelmente sido posta às pressas. Pendia bastante para um lado.

— Que assunto urgente é esse para que mandem chamar o emissário do bispo? — estava ela perguntando.

Ele abanou a cabeça, a testa franzida, e depois sorriu para Rosemund e deu um passo à frente. Ela recuou, agarrando-se com força a Kivrin.

A cunhada bamboleou a touca na direção de Rosemund e prosseguiu:

— Ele recebeu alguma mensagem de Bath?

— Não apareceu nenhum mensageiro nem na noite passada nem agora pela manhã — respondeu Sir Bloet.

— Se não apareceu nenhum mensageiro, por que então ele não se referiu a esse assunto urgente logo quando chegou? — quis saber a cunhada.

— Não sei — respondeu ele, impaciente. — Fique aqui. Preciso me despedir da minha noiva.

Ele pegou a mão de Rosemund, e Kivrin viu o esforço que ela fez para não puxar a mão de volta.

— Adeus, Sir Bloet — disse ela, muito rígida.

— É assim que se despede do seu marido? — questionou ele. — Nem um beijo de despedida?

Rosemund deu um passo à frente, beijou às pressas aquele rosto e imediatamente voltou a se colocar fora de alcance.

— Agradeço pelo broche que me deu de presente — falou ela.

Bloet abaixou os olhos do rosto pálido dela até a abertura da túnica, na altura do pescoço.

— “Estou aqui no lugar do amigo que amo” — recitou ele, tocando o broche com o dedo.

Agnes irrompeu no local, gritando “Sir Bloet, Sir Bloet!”, e ele apanhou e ergueu a menina nos braços.

— Vim para dar tchau — avisou ela. — Meu cachorrinho morreu.

— Vou trazer para você um cão como presente do casamento — disse ele. — Mas só se me der um beijo.

Agnes jogou os braços em volta do pescoço dele e plantou um beijo barulhento em cada bochecha rosada.

— Você não é tão avarenta de beijos quanto sua irmã — comentou Sir Bloet, pondo a menina de volta no chão. Ele olhou para Rosemund. — Ou será que você também vai dar dois beijos no seu marido?

Rosemund não respondeu nada.

Ele deu um passo à frente e alisou com os dedos o broche.

— Io suiicien lui dami amo — recitou ele, pondo as mãos sobre os ombros dela. — Deve se lembrar de mim todas as vezes que puser esse broche. — Ele se inclinou e lhe deu um beijou no pescoço.

Rosemund não recuou, mas o sangue fugiu todo do seu rosto.

Ele a soltou.

— Virei buscar você na Páscoa — falou, e aquilo soou como uma ameaça.

— Vai me trazer um cãozinho negro? — quis saber Agnes.

Lady Yvolde aproximou-se do grupo, queixando-se:

— O que os seus criados fizeram com a minha capa de viagem?

— Vou procurá-la — disse Rosemund, e correu de volta para a casa, ainda rebocando Kivrin.

Assim que se viram em segurança, longe de Sir Bloet, Kivrin disse:

— Preciso encontrar Lady Imeyne. Veja, eles estão quase prontos para partir.

Era verdade. Aquele aglomerado de criados e caixas e cavalos tinha aos poucos assumido o formato de um cortejo, e Cob já estava abrindo o portão. Os cavalos que os três reis tinham montado na noite anterior estavam agora carregados de baús e sacos, as rédeas amarradas juntas. A cunhada de Sir Bloet e suas irmãs já estavam sobre as montarias, e o emissário do bispo, ao lado da égua de Eliwys, apertava a cilha da sela.

Mais alguns minutos, pensou Kivrin, basta que ela fique na igreja mais alguns minutos, e então eles já terão ido embora.

— Sua mãe me encarregou de encontrar Lady Imeyne — prosseguiu Kivrin.

— Precisa vir comigo ao salão, primeiro — disse Rosemund.

A mão que segurava o braço de Kivrin ainda tremia.

— Rosemund, não tenho tempo…

— Por favor — pediu ela. — E se ele entrar no salão e eu estiver sozinha?

Kivrin pensou no beijo que Sir Bloet dera no pescoço da menina.

— Eu vou com você — disse Kivrin —, mas se apresse.

Cruzaram o pátio correndo, atravessaram a porta, e quase colidiram em cheio com o monge. Ele estava descendo a escada do pavilhão, e tinha um aspecto irritado, ou de ressaca. Encaminhou-se para os biombos sem nem sequer olhar para elas.

Não havia ninguém mais no salão. A mesa continuava repleta de taças e de pratos de carne, e o fogo, entregue à própria sorte, ainda ardia, fumaçando.

— A capa de Lady Yvolde está no sótão. Espere aqui — disse Rosemund, e subiu a escada correndo, como se Sir Bloet viesse em sua perseguição.

Kivrin foi para perto dos biombos, de onde podia olhar para o lado de fora. O emissário do bispo estava parado junto da égua de Eliwys, com uma das mãos pousada no arção da sela, ouvindo o que o monge lhe dizia, bem próximo. Kivrin ergueu os olhos para a porta fechada do pavilhão, imaginando se o secretário, lá dentro, estaria mesmo de ressaca ou tivera algum tipo de discórdia com o seu superior. Os gestos do monge eram visivelmente de alguém incomodado.

— Aqui está — falou Rosemund, descendo a escada, apoiando-se com uma mão e trazendo na outra a capa dobrada. — Leve para Lady Yvolde, por favor. Vai levar só um minuto.

Era a chance que Kivrin estava esperando.

— Está bem — respondeu ela, tirando a capa das mãos de Rosemund e indo para a porta.

Assim que chegasse ao pátio, mandaria qualquer dos criados entregar a capa à irmã de Sir Bloet e iria direto para a passagem que conduzia ao relvado. Por favor, rezou Kivrin, que ela se demore na igreja mais alguns minutos. Eu só preciso chegar ao relvado. Ela cruzou a porta e quase colidiu com Lady Imeyne.

— Por que não está pronta para a viagem? — questionou Imeyne, olhando a capa que ela levava nos braços. — Onde está a sua capa?

Kivrin relanceou o olhar até o emissário do bispo. Ele estava segurando o arção da sela com as mãos e se preparava para colocar o pé nas mãos que Cob lhe estendia, com dedos trançados. O monge já estava montado.

— Minha capa está na igreja — disse Kivrin. — Vou buscá-la.

— Não vai dar tempo. Eles já estão saindo.

Kivrin olhou desesperada através do pátio inteiro, mas todos que avistou estavam fora do seu alcance: Eliwys estava parada ao lado de Gawyn, perto do estábulo; Agnes conversava animadamente com uma das sobrinhas de Sir Bloet; Rosemund não estava visível, provavelmente escondida dentro da casa.

— Lady Yvolde pediu que lhe levassem esta capa — informou Kivrin.

— Maisry pode fazer isso — avisou Imeyne. — Maisry!

Tomara que ainda esteja escondida, pensou Kivrin, com fervor.

— Maisry! — gritou Imeyne, e Maisry surgiu, se esgueirando pela porta do local de fabricação de cerveja, a mão cobrindo a orelha. Lady Imeyne arrebatou a capa das mãos de Kivrin e jogou contra Maisry. — Pare de vadiar e leve isto para Lady Yvolde — ordenou ela, secamente.

Depois agarrou Kivrin pelo pulso.

— Venha — sentenciou ela, já rumando em direção ao emissário do bispo. — Santo pai, esqueceu-se de Lady Katherine, que nos prometeu levar consigo até Godstow.

— Não vamos para Godstow — disse ele, e com certo esforço elevou-se no ar e pousou na sela. — Seguiremos para Bernecestre.

Gawyn já estava montado e conduzia Gringolet lentamente para o portão. Está indo com eles, pensou Kivrin. Talvez no trajeto até Courcy eu possa convencê-lo a me levar para o local do salto. Talvez eu possa convencê-lo a me dizer onde é, e então me separo do grupo e vou procurar sozinha.

— Será que ela não poderia acompanhá-los então até Bernecestre e de lá ser escoltada por algum monge até Godstow? Prefiro que ela seja devolvida a um convento.

— Não vai dar tempo — sentenciou o emissário, recolhendo as rédeas com a mão.

Imeyne agarrou o manto escarlate dele.

— Por que estão indo embora de repente? Foram ofendidos por alguém?

O emissário olhou para o monge, que segurava as rédeas da égua de Kivrin.

— Não — disse. Fez um vago sinal da cruz na direção de Imeyne. — Dominus vobiscum, et cum spiritu tuo — murmurou, olhando acintosamente para a mão que lhe agarrava o manto.

— E quanto ao novo capelão? — insistiu ela.

— Deixo aí o meu secretário para que lhe sirva de capelão — respondeu ele.

Está mentindo, pensou Kivrin, e pregou os olhos nele. O emissário trocou com o monge outro olhar, um olhar às escondidas, e Kivrin imaginou se o tal assunto urgente não seria apenas a necessidade de ficar longe daquela mulher.

— Seu secretário?! — repetiu Lady Imeyne, satisfeita, e largou o manto.

O emissário do bispo tocou com as esporas na montaria e atravessou galopando o pátio, quase passando por cima de Agnes, que se esquivou com rapidez e correu até Kivrin, afundando a cabeça na sua saia. O monge montou na égua de Kivrin e acompanhou o emissário.

— Vá com Deus, santo pai — disse bem alto Lady Imeyne, mas ele já cruzava o portão.

E de repente todos já haviam desaparecido. Gawyn afastou-se por último, com um galope exibicionista para ser notado por Eliwys. No fim das contas, não tinham levado Kivrin para Godstow, para longe do local do salto. Ela estava tão aliviada que nem sequer se incomodou com o fato de Gawyn estar seguindo entre eles. Era menos de meio dia de cavalgada até Courcy. Talvez à noite ele já estivesse de volta.

Todo mundo parecia aliviado, ou talvez fosse apenas a redução de atividade de uma tarde de Natal, além do fato de que todos tinham ficado acordados até o amanhecer. Ninguém fez um movimento no sentido de limpar as mesas, que ainda estavam repletas de travessas gordurosas e tigelas de comida devorada pela metade. Eliwys desabou na cadeira mais alta, os braços pendendo de lado, olhando para a mesa com indiferença. Depois de alguns minutos, ela chamou Maisry e, ao não obter resposta, não voltou a chamar. Encostou a cabeça no espaldar entalhado da cadeira e fechou os olhos.

Rosemund subiu ao sótão para se deitar um pouco, e Agnes sentou junto de Kivrin perto do fogo e pôs a cabeça em seu colo, brincando distraidamente com seu sininho.

Somente Lady Imeyne não cedeu à fadiga e ao langor da tarde.

— Acho que pedirei ao novo capelão para fazer as preces — disse ela, e subiu a escada para bater à porta do pavilhão.

Eliwys esboçou um fraco protesto, com os olhos ainda fechados, dizendo que, segundo o emissário do bispo, o secretário pedira para não ser perturbado, mas Imeyne bateu à porta várias vezes, com força, sem nenhum resultado. Ela esperou alguns minutos, bateu de novo e depois desceu a escada e ajoelhou-se lá embaixo para ler o seu Livro das Horas, sempre mantendo um olho na porta fechada para poder avistar o secretário assim que ele voltasse a aparecer.

Agnes deu pancadinhas no sino, de leve, com o dedo, soltando enormes bocejos.

— Por que não vai para a parte alta do celeiro e deita um pouco com sua irmã? — sugeriu Kivrin.

— Eu não estou cansada — respondeu Agnes, sentando-se. — Conte o que aconteceu com a donzela que o pai proibiu de entrar na floresta.

— Só conto se deitar — disse Kivrin, e começou a narrar a história.

Agnes não aguentou acordada duas frases.

Somente ao entardecer Kivrin se lembrou do cãozinho da menina. Àquela altura, todos dormiam, até Lady Imeyne, que desistira do secretário e subira para dormir no sótão. Maisry viera para o salão a certo momento, e estava enfiada embaixo de uma mesa, roncando sonoramente.

Cheia de cuidados, Kivrin puxou os joelhos de baixo da cabeça de Agnes e saiu para enterrar o cachorro. Não havia ninguém no pátio. Os restos de uma fogueira ainda brilhavam no centro do relvado, mas não havia ninguém por perto. Os aldeões deviam estar também tirando sua soneca de Natal.

Kivrin apanhou o corpo de Blackie e foi ao estábulo à procura de uma pá de madeira. Lá dentro, como encontrou apenas o pônei de Agnes, franziu a testa, pensando como o secretário poderia ir ao encontro do emissário do bispo em Courcy. Quem sabe o emissário não tivesse mentido, afinal de contas, e o secretário fosse ficar mesmo como novo capelão, querendo ou não.

Kivrin carregou a pá e o corpo do cãozinho, cada vez mais rígido, contornou a igreja e foi para o lado norte. Colocou o filhote no chão e começou a atacar a terra enregelada.

O chão estava, literalmente, duro como pedra. A pá de madeira não conseguia sequer deixar uma rachadura, mesmo quando Kivrin apoiava seu próprio peso, com ambos os pés. Ela subiu a colina até o começo do bosque, escavou a neve na base de um carvalho, e enterrou o cão no húmus das folhas caídas.

— Requiescat in pace — sentenciou, para poder dizer a Agnes que o filhote tivera um digno funeral cristão, e voltou a descer a colina.

Desejou que Gawyn estivesse voltando naquele momento. Poderia pedir a ele que a levasse ao local do salto enquanto todos na casa grande dormiam.

Caminhou devagar cruzando o relvado, aguçando o ouvido para ver se escutava o ruído de um cavalo. Gawyn viria provavelmente pela estrada principal. Ela encostou a pá à cerca de varas que fechava a pocilga e deu a volta à casa grande indo até o portão, mas não ouviu nada.

A luz da tarde começou a empalidecer. Se Gawyn não chegasse logo, ficaria escuro demais para cavalgar até o local do salto. Dentro de meia hora, o padre Roche tocaria as vésperas, o que acordaria todo mundo. De qualquer modo, como Gawyn teria que cuidar do cavalo, independentemente da hora que chegasse, ela podia se esgueirar até o estábulo e perguntar se ele podia levá-la até o local do salto, na manhã seguinte.

Ou talvez ele pudesse apenas dizer onde era, traçar algum mapa de modo a que ela pudesse achar o lugar por conta própria. Assim não precisaria entrar no bosque sozinha com ele e, se Lady Imeyne encarregasse o privé de alguma tarefa no dia marcado para o reencontro, Kivrin poderia montar num dos cavalos e chegar lá sozinha.

Ficou parada perto do portão até começar a sentir frio e então regressou, acompanhando a parede, passando pela pocilga e chegando ao pátio. O pátio continuava deserto, mas Rosemund estava na antessala, vestindo uma capa.

— Onde você esteve? — perguntou. — Procurei você por toda parte. O secretário…

O coração de Kivrin disparou.

— O que foi? Ele vai viajar?

Ele havia despertado de sua ressaca, pronto para viajar. E fora convencido por Lady Imeyne a levar Kivrin para Godstow. Só podia ser isso.

— Não — respondeu Rosemund, voltando para o salão, que estava vazio. Eliwys e Imeyne deviam estar as duas lá em cima no pavilhão com ele. A menina soltou o broche dado por Sir Bloet e tirou a capa. — Ele está doente. O padre Roche me mandou procurar você — disse ela, e começou a subir a escada.

— Doente? — repetiu Kivrin.

— Sim. Minha avó mandou Maisry ao pavilhão levar alguma coisa para ele comer.

Para depois mandá-lo trabalhar, pensou Kivrin, seguindo a menina escada acima.

— E Maisry encontrou o secretário doente?

— Sim. Ele está com febre.

Ele está de ressaca, pensou Kivrin, franzindo a testa. Mas Roche era capaz de reconhecer os efeitos da bebida, mesmo que Lady Imeyne não pudesse ou não quisesse.

Um pensamento terrível lhe ocorreu. Ele está dormindo na minha cama, pensou ela. Ele pegou o meu vírus.

— Quais são os sintomas que ele tem? — perguntou.

Rosemund abriu a porta.

Mal havia lugar para todos naquele quarto tão pequeno. O padre Roche estava junto da cama, e Eliwys um pouco atrás, de pé, com a mão pousada na cabeça de Agnes. Maisry estava meio escondida perto da janela. Lady Imeyne estava ajoelhada no chão, aos pés da cama, diante do seu cofre medicinal, atarefada na preparação de uma das suas nauseantes cataplasmas. Um outro cheiro também pairava no quarto, um cheiro doentio e tão forte que prevalecia sobre a mostarda e o alho-poró do unguento.

Todos, exceto Agnes, estavam com expressão de medo. Agnes parecia interessada, tal como ficara em relação a Blackie, e Kivrin pensou, Ele está morto, ele contraiu minha doença e morreu. Mas aquele pensamento era ridículo. Ela estava ali desde meados de dezembro, o que significaria um período de incubação de quase duas semanas. Além disso, ninguém mais tinha adoecido, nem mesmo o padre Roche, ou Eliwys, e os dois tinham ficado constantemente à cabeceira da cama ao longo da sua doença.

Ela olhou para o secretário. Estava deitado e descoberto, usando um camisolão, mas sem ceroulas por baixo. Suas demais roupas estavam amontoadas ao pé da cama, com a capa roxa arrastando no chão. O camisolão era de seda amarela, e os cordões tinham sido afrouxados, de modo que os lados estavam quase todo abertos até a altura do peito, mas Kivrin não prestou atenção em sua pele sem pelos nem nas bordas pregadas com arminho nas mangas do camisolão. Ele estava doente. Eu nunca estive tão mal assim, pensou Kivrin, nem mesmo quando quase morri.

Ela se aproximou da cama. Seu pé esbarrou numa garrafa de barro ainda com algum vinho dentro, fazendo o recipiente rolar para baixo da cama. O secretário fez uma expressão de dor. Outra garrafa, com a tampa ainda lacrada, estava pousada na cabeceira da cama.

— Ele comeu comida gordurosa em excesso — disse Lady Imeyne, amassando alguma coisa na sua tigela de pedra.

Porém, aquilo com certeza não era uma intoxicação alimentar. Nem tinha a ver com a bebida, apesar das garrafas. Ele está doente, pensou Kivrin, terrivelmente doente.

O secretário respirava muito depressa pela boca aberta, arquejando como o pobre Blackie, a língua meio esticada para fora. Estava muito vermelha e parecia inchada. O rosto era de um vermelho mais escuro e tinha uma expressão deformada, como se ele estivesse cheio de terror.

Ela pensou se seria possível que ele tivesse sido envenenado. O emissário do bispo estava tão ansioso para ir embora dali que quase atropelara Agnes. Também pedira a Eliwys que não perturbasse o secretário. A igreja fazia coisas desse tipo nos anos 1300, não é? Mortes misteriosas num mosteiro, numa catedral. Mortes convenientes.

Mas não fazia sentido. O emissário do bispo e o monge não sairiam às pressas dando instruções para que ninguém perturbasse o homem quando o propósito do envenenamento era fazer crer que se tratava de botulismo, ou peritonite, ou dúzias de outras complicações inclassificáveis de que as pessoas morriam na Idade Média. E por que o emissário do bispo envenenaria um dos seus subordinados quando poderia apenas dispensá-lo, tal como Lady Imeyne queria dispensar o padre Roche.

— É o cólera? — perguntou Lady Eliwys.

Não, pensou Kivrin, tentando lembrar os sintomas. Diarreia aguda e vômitos, com perda maciça de fluidos corporais. Expressão contraída, desidratação, cianose, uma sede terrível.

— Está com sede? — indagou ela.

O secretário não deu sinal de ter escutado. Seus olhos estavam semicerrados, e pareciam inchados também.

Kivrin pôs a mão na testa dele. O doente contraiu o rosto um pouco, os olhos vermelhos se abriram e voltaram a se fechar.

— Ele está ardendo em febre — disse Kivrin, enquanto pensava. Cólera não produz uma febre tão intensa. — Me tragam um pedaço de pano molhado.

— Maisry! — chamou Eliwys.

Só que Rosemund já estava ali, estendendo o mesmo trapo imundo que fora usado em Kivrin.

Pelo menos estava fresco. Kivrin dobrou o pano em retângulo, enquanto observava o rosto do secretário, que continuava arquejando. Quando ela pousou o pano molhado ao longo de sua testa, aquele rosto se contorceu, como se aquilo fosse doloroso. O homem apertou a mão de encontro à barriga. Apendicite?, se perguntou Kivrin. Não, essa inflamação costumava ser acompanhada por febre baixa. A febre tifoide podia provocar temperaturas de até 40 graus, embora normalmente não no princípio. Também fazia dilatar o baço, o que com frequência resultava em dor abdominal.

— Sente dor? — questionou ela. — Mostre para mim onde dói?

Os olhos dele voltaram a se entreabrir, e as mãos se moveram inquietas por cima do lençol. Aquele era um sintoma da febre tifoide, aquele gesto de beliscar algo sem parar, mas somente nos últimos estágios, oito ou nove dias com a doença já em progresso. Ela imaginou se ele já teria vindo doente.

Na chegada, ele cambaleara ao apear do cavalo e tinha sido amparado pelo monge. No entanto, comera e bebera à farta durante a festa, e havia assediado Maisry. Não poderia estar muito doente, e a tifoide se manifestava aos poucos, começando com uma dor de cabeça e apenas um pouco de febre. Não atingiria 39 graus antes da terceira semana.

Kivrin inclinou-se mais, puxando o camisolão frouxo para o lado, à procura de brotoejas com o cor-de-rosa característico da tifoide. Não havia nenhuma. A parte lateral do pescoço do secretário parecia um pouco inchada, mas gânglios intumescidos acompanhavam praticamente qualquer infecção. Ela puxou a manga dele. Não havia manchas cor-de-rosa no braço, mas as unhas estavam com uma coloração marrom-azulada, o que significava carência de oxigênio. Cianose. Um dos sintomas do cólera.

— Ele vomitou ou esvaziou os intestinos? — perguntou ela.

— Não — respondeu Lady Imeyne, espalhando uma pasta esverdeada sobre um pedaço de tecido. — Ele comeu muito açúcar e muitas especiarias, e isso produziu a febre no seu sangue.

Não podia ser cólera se não havia vômitos, sem contar que a febre era muito alta. Talvez fosse mesmo o vírus dela, afinal de contas, mas Kivrin não sentira nenhuma dor no estômago, e sua língua não inchara daquela maneira.

O secretário ergueu a mão e puxou o pano que lhe cobria a testa, largando-o no travesseiro, antes de deixar o braço cair de lado. Kivrin apanhou o trapo. Estava completamente seco. E o que mais, além de um vírus, podia causar uma febre tão alta? Não conseguia pensar em outra coisa senão febre tifoide.

— O nariz dele sangrou? — ela perguntou a Roche.

— Não — disse Rosemund, dando um passo à frente e tirando o trapo da mão de Kivrin. — Não vi nenhum sinal de sangue.

— Molhe o pano na água fria, mas não torça — pediu Kivrin. — Padre Roche, preciso que o senhor levante o tronco dele.

Roche aplicou as mãos aos ombros do doente e o ergueu. Não havia vestígios de sangue sobre o travesseiro de linho.

Roche voltou a deitar o secretário.

— Pensa que é a febre tifoide? — indagou ele, e havia algo curioso, quase esperançoso no tom de sua voz.

— Não sei — respondeu Kivrin.

Rosemund estendeu a Kivrin o trapo. A menina havia obedecido as ordens ao pé da letra: o pedaço de pano estava gotejando água gelada.

Kivrin se inclinou sobre a cama e colocou o trapo sobre a testa ardente do secretário.

Ele sacudiu os braços, brusca, violentamente, jogando o pano para longe da mão de Kivrin, e sentou na cama, brandindo as mãos contra ela, chutando a esmo com os pés. Seu punho fechado atingiu num lado da perna de Kivrin, fazendo-a dobrar os joelhos e quase cair da cama.

— Desculpe, desculpe — pediu Kivrin, tentando se reequilibrar e ao mesmo tempo segurar aquelas mãos. — Desculpe.

Os olhos dele, injetados de sangue, estavam bem abertos agora, olhando direto para a frente.

— Gloriam tuam — entoou ele numa voz estranha, aguda, quase um grito.

— Desculpe — insistiu Kivrin, que conseguiu agarrar um pulso dele, mas recebeu da outra mão um soco em cheio no peito.

— Requiem aeternam dona eis — rugiu o homem, pondo-se de joelhos sobre o colchão e logo em seguida de pé. — Et lux perpetua luceat eis.

Kivrin percebeu de repente que ele estava tentando cantar a missa dos mortos.

O padre Roche agarrou pelo camisolão o secretário, que reagiu aos pontapés, se desvencilhou e continuou desferindo chutes enquanto girava em torno de si mesmo, como se estivesse dançando.

— Miserere nobis.

Ele estava quase junto à parede, em uma posição difícil de alcançar, batendo nas tábuas com os pés e agitando os braços enquanto girava, parecendo nem sequer perceber.

— Quando estiver ao alcance, temos que agarrar pelos tornozelos e derrubá-lo — disse Kivrin.

O padre Roche concordou, quase sem fôlego. Os outros continuavam petrificados, sem nem sequer esboçar um movimento para conter o homem. Imeyne continuava de joelhos. Maisry enfiou-se completamente no vão largo da janela, cobrindo os ouvidos com as mãos e fechando os olhos com força. Rosemund tinha apanhado o trapo úmido e o estendia, como se achasse que Kivrin fosse tentar colocá-lo de novo na testa do doente. Agnes olhava boquiaberta o corpo seminu do secretário.

Ele deu outro giro e se virou para o grupo, as mãos batendo descontroladas sobre os cordões que fechavam a frente do camisolão, tentando se livrar da peça.

— Agora — disse Kivrin.

Ela e o padre agarraram e puxaram os tornozelos. O secretário caiu sobre um joelho, e então, agitando os braços com toda força, desvencilhou-se e pulou da cama direto em cima de Rosemund. Ela ergueu as mãos no ar, ainda segurando o pano, e ele a atingiu em cheio no peito.

— Miserere nobis — repetiu, e os dois rolaram no chão.

— Agarrem os braços, antes que ele possa machucá-la — disse Kivrin, mas o secretário tinha parado de agitar os braços.

Estava deitado sobre Rosemund, imóvel, a boca quase tocando a dela, os braços caídos e frouxos de ambos os lados.

O padre Roche agarrou um dos braços do secretário, que não resistiu, e tirou aquele corpo de cima de Rosemund. O doente caiu de lado, respirando em haustos curtos, mas já sem arquejar.

— Ele morreu? — perguntou Agnes e, como se a voz dela tivesse libertado os outros de algum tipo de encantamento, todos avançaram ao mesmo tempo.

Lady Imeyne ficou de pé com dificuldade, amparando-se a uma das colunas do dossel da cama.

— Blackie morreu — prosseguiu Agnes, agarrando-se às saias da mãe.

— Ele não morreu — disse Imeyne, ajoelhando-se junto ao religioso. — A febre do sangue subiu para o cérebro. Acontece muito.

Não, não acontece, pensou Kivrin. Nunca ouvi falar de nenhuma doença com um sintoma desses. O que poderia ser? Meningite espinhal? Epilepsia?

Ela se agachou junto de Rosemund. A menina estava deitada no chão com o corpo todo enrijecido, os olhos cerrados, as mãos fechadas com força, exibindo os nós brancos dos dedos.

— Ele machucou você? — perguntou Kivrin.

Rosemund abriu os olhos.

— Ele me derrubou — respondeu ela, a voz ainda um pouco trêmula.

— Consegue ficar de pé? — quis saber Kivrin.

Ela assentiu, e Eliwys avançou alguns passos, ainda com Agnes grudada à sua saia. As duas ajudaram Rosemund a se levantar.

— Meu pé está doendo — disse ela, apoiando-se na mãe, mas daí a pouco já conseguia firmar sobre ele o peso do corpo. — Ele… assim de repente…

Eliwys ajudou a filha a caminhar até os pés da cama e a sentar em cima do baú entalhado. Agnes escalou o baú e acomodou-se junto da irmã.

— O secretário do bispo pulou em cima de você — comentou ela.

O doente murmurou alguma coisa, e Rosemund olhou para ele, amedrontada.

— Ele vai se levantar de novo? — perguntou a Eliwys.

— Não — respondeu Eliwys, mas ajudou Rosemund a se levantar de novo e a conduziu para a porta. — Leve sua irmã para perto do fogo e fique sentada com ela — disse para Agnes.

Agnes tomou o braço de Rosemund, conduzindo-a para fora.

— Quando o secretário morrer vai ser enterrado no pátio da igreja — ia dizendo ela, enquanto desciam. — Como Blackie.

O secretário parecia já morto, com os olhos entreabertos e vidrados. O padre Roche ajoelhou-se ao lado dele e o ergueu por sobre o ombro, sem dificuldade. O homem ficou com a cabeça para baixo e os braços balançando, como Agnes quando Kivrin a carregara de volta após a missa da meia-noite. Kivrin apressou-se a puxar o lençol para um lado, e Roche voltou a deitar o doente na cama.

— Temos que puxar a febre que está no cérebro — avisou Imeyne, voltando à cataplasma. — Foram as especiarias que levaram febre para a cabeça dele.

— Não — sussurrou Kivrin baixinho, lançando um olhar para o religioso.

Ele estava deitado de costas, com os braços esticados, as palmas para cima. O camisolão fino estava rasgado do alto até a cintura, e caíra por completo do ombro esquerdo, de modo que o braço aberto estava todo exposto. Embaixo da axila havia um inchaço vermelho.

— Não — repetiu ela, sem voz.

O inchaço era de um vermelho vivo e quase do tamanho de um ovo. Febre alta, língua inchada, intoxicação do sistema nervoso, bulbos embaixo dos braços e na virilha.

Kivrin deu um passo atrás, afastando-se da cama.

— Não pode ser — disse ela. — Deve ser outra coisa.

Tinha que ser outra coisa. Uma queimadura. Ou uma úlcera de algum tipo. Ela estendeu a mão, puxando e afastando a manga.

As mãos do secretário estremeceram. Roche inclinou-se para agarrar e manter aqueles pulsos presos contra a cama. O inchaço era duro ao toque, e a pele em volta tinha manchas roxas e negras.

— Não pode — disse Kivrin. — Ainda é 1320.

— Isso vai puxar a febre dele — comentou Imeyne, que ficou de pé, bem empertigada, estendendo a cataplasma à frente. — Afaste a roupa do corpo dele, para que eu possa aplicar a cataplasma — ordenou ela, aproximando-se da cama.

— Não! — exclamou Kivrin, erguendo as mãos para detê-la. — Fique longe! Não toque nele!

— Está falando coisas sem razão — rebateu Imeyne. Ela olhou para Roche. — Isso não passa de uma febre do estômago.

— Não é uma febre! — falou Kivrin, e virou-se para Roche. — Solte as mãos dele e se afaste. Isso não é febre. É a peste.

Todos eles (Roche e Imeyne e Eliwys) olharam para ela com o mesmo ar estúpido de Maisry.

Eles nem sequer sabem do que se trata, pensou ela, em desespero. Porque não existe ainda, não havia ainda a Peste Negra. Mesmo na China não começou senão em 1333. E só chegou à Inglaterra em 1348.

— Mas é mesmo a peste — prosseguiu Kivrin. — Ele apresenta todos os sintomas. O bulbo e a língua inchada e a hemorragia por baixo da pele.

— É somente uma febre do estômago — insistiu Imeyne, e empurrou Kivrin para se aproximar da cama.

— Não… — pediu Kivrin, mas Imeyne já havia parado, segurando o recipiente da cataplasma sobre o corpo do doente.

— Deus tenha misericórdia de nós — disse Imeyne, e recuou, ainda segurando a vasilha.

— É a doença azul? — perguntou Eliwys, amedrontada.

E de repente Kivrin percebeu tudo. Aquela família não tinha se recolhido ali por causa do julgamento, nem porque Lord Guillaume estava tendo problemas com o rei. Ele enviara os seus para lá porque a peste estava em Bath.

“Nossa ama morreu”, dissera Agnes. Assim como o capelão de Lady Imeyne, o irmão Hubard. “Rosemund disse que o irmão Hubard morreu da doença azul”, tinha comentado Agnes. E Sir Bloet a certa altura mencionara que o julgamento estava atrasado porque o juiz tinha adoecido. Era por isso que Eliwys não queria que ninguém soubesse que estavam em Courcy e por que ficara tão zangada quando Imeyne mandou Gawyn em busca do bispo. Porque a peste estava em Bath. Mas não podia ser. A Peste Negra tinha chegado em Bath apenas no outono de 1348.

— Em que ano estamos? — perguntou Kivrin.

As mulheres a encararam com rosto inexpressivo, Imeyne ainda segurando a cataplasma esquecida. Kivrin voltou-se para Roche.

— Em que ano estamos?

— Está passando mal, Lady Katherine? — perguntou ele, ansioso, estendendo a mão para o pulso de Kivrin, como se receasse que ela também tivesse um daqueles ataques.

Ela afastou as mãos num gesto brusco.

— Me diga qual é o ano.

— É o vigésimo primeiro ano do reino de Eduardo III — disse Eliwys.

Terceiro, não segundo. Em seu pânico, ela não conseguia lembrar quando Eduardo III havia reinado.

— Qual é o ano? — insistiu ela.

— Anno domini — respondeu o secretário, da cama. Tentou umedecer os lábios com a língua inchada. — Mil trezentos e quarenta e oito.