O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 33 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 32

 

“Apocalíptico” era o termo mais adequado para a mera ideia de resgatar Kivrin, pensou Dunworthy. Estava exausto quando enfim conseguiu voltar ao quarto, com o amparo de Colin, e a temperatura tinha subido de novo.

— Agora descanse — disse Colin, ajudando Dunworthy a deitar-se. — Não pode ter uma recaída, se está mesmo pensando em ir resgatar Kivrin.

— Preciso falar com Badri — comentou ele. — E com Finch.

— Eu cuido de tudo — avisou Colin, e disparou para fora.

Dunworthy precisava providenciar a alta para ele e Badri, e apoio médico para o resgate, caso Kivrin estivesse doente. Também precisaria tomar a vacina contra a peste, e imaginou quanto tempo seria necessário para que surtisse efeito. Mary havia dito que vacinara Kivrin quando ela esteve internada para fazer o implante do recorde. Isso acontecera duas semanas antes do salto, mas talvez a imunidade plena não precisasse de tanto tempo assim.

A enfermeira apareceu para tirar a temperatura.

— Meu turno está terminando — disse ela.

— Quando vou poder receber alta? — perguntou ele.

— Alta? — repetiu ela, num tom de surpresa. — Ora, ora, deve estar se sentindo melhor, então.

— Estou — respondeu ele. — Quanto tempo?

Ela franziu a testa.

— Há uma grande diferença entre ser capaz de dar uma volta e poder voltar para casa. — Ela ajustou a bolsa de soro. — O senhor não vai querer exagerar.

Saiu, e depois de alguns minutos Colin entrou com Finch e o livro sobre a Idade Média.

— Achei que talvez precisasse disso para estudar vestimentas e outras coisas — começou ele, largando o livro sobre as pernas de Dunworthy. — Vou buscar Badri — acrescentou, disparando para fora.

— Está parecendo bem-disposto, senhor — disse Finch. — Fico tão satisfeito. Receio que sua presença esteja sendo extremamente necessária lá no Balliol. É a sra. Gaddson. Ela acusa Balliol de prejudicar a saúde de William. Afirma que a combinação do estresse da epidemia com o das leituras de Petrarca afetou a saúde do filho. Ela está ameaçando levar o caso até o diretor da faculdade de história.

— Diga que a convidamos com fervor a tentar. Basingame está em alguma parte da Escócia — observou Dunworthy. — Preciso que você descubra com quanta antecedência é preciso tomar uma vacina contra a peste bubônica para que faça efeito, e também que apronte todo o laboratório para a execução de um salto.

— No momento, o laboratório está servindo como depósito — explicou Finch. — Recebemos inúmeras remessas de suprimentos de Londres, embora nenhuma com papel higiênico, apesar da minha requisição específica e…

— Bote tudo no corredor — interrompeu Dunworthy. — Quero a rede pronta o mais depressa possível.

Colin abriu a porta com o cotovelo e empurrou a cadeira de Badri para dentro, usando o outro braço e um joelho para manter a entrada aberta.

— Tive que passar com ele escondido da freira — mencionou sem fôlego o garoto, trazendo a cadeira de rodas até junto da cama.

— Eu quero… — disse Dunworthy, e se deteve, olhando para Badri. O técnico não tinha a mínima condição de operar a rede. Parecia exausto pelo simples esforço de ter sido trazido pelo corredor, e agora estava apertando entre os dedos o bolso do roupão, tal como fizera antes com a faixa da cintura.

— Vamos precisar de duas redes recursivas, um medidor de luz e um portal — listou Badri, e sua voz soava exausta também, mas não havia mais nela o desespero de antes. — E também precisamos de autorização tanto para o salto quanto para o resgate.

— E quanto aos manifestantes que estavam em frente ao Brasenose? — perguntou Dunworthy. — Será que podem tentar impedir o salto?

— Não — respondeu Colin. — Agora eles estão diante da sede do National Trust. Querem interditar a escavação a todo custo.

Ótimo, pensou Dunworthy. Montoya vai estar ocupada demais tentando defender seu sítio arqueológico contra os manifestantes e não vai interferir. Ocupada demais para continuar à procura do recorde de Kivrin.

— O que mais vai ser preciso? — perguntou ele a Badri.

— Uma memória insular e redundante para o backup. — Ele puxou do bolso uma folha de papel e olhou para ela. — E uma conexão remota para que eu possa checar os parâmetros.

Estendeu a lista para Dunworthy, que a repassou para Finch.

— Vamos precisar também de suporte médico para Kivrin — falou Dunworthy. — E quero um telefone instalado aqui no quarto.

Finch estava franzindo a testa para a lista.

— E não quero a desculpa de que algum item da lista está em falta — acrescentou Dunworthy, antes que Finch pudesse protestar. — Dê um jeito. Peça, pegue emprestado ou roube. — Virou-se para Badri. — Vai precisar de algo mais?

— Sim. Da alta. E receio que seja o obstáculo mais difícil — lastimou Badri.

— Ele tem razão — concordou Colin. — A irmã nunca vai permitir que ele saia. Só conseguimos entrar na surdina.

— Quem é seu médico? — perguntou Dunworthy.

— O dr. Gates — respondeu Badri. — Mas…

— Bom, vamos explicar a situação — interrompeu Dunworthy. — Dizer que se trata de uma emergência.

Badri abanou a cabeça.

— O médico não deve ficar sabendo de nada, em hipótese alguma. Convenci ele a me liberar para abrir a rede quando o senhor estava doente. Mesmo achando que eu não estava bem, ele acabou permitindo. Aí, quando eu tive a recaída…

Dunworthy o observou, com ansiedade.

— Tem certeza de que está em condições de operar a rede, Badri? Talvez eu possa convencer Andrews, agora que a epidemia está sob controle.

— Não vai dar tempo — explicou Badri. — E a culpa foi minha. Eu quero operar a rede. Talvez o sr. Finch possa me conseguir outro médico.

— Sim — disse Dunworthy. — Finch, também avise o meu médico que preciso falar com ele. — Apanhou o livro trazido por Colin.

— Também vou precisar de um figurino. — Ele folheou as páginas do livro, detendo-se nas que traziam ilustrações de vestimentas medievais. — Sem fitas, sem zíperes, sem botões. — Encontrou um retrato de Boccaccio e o exibiu para Finch. — Duvido que em Século XX tenhamos algo assim. Telefone para o Núcleo Dramático da Sociedade de Artes Cênicas e veja se eles têm algo.

— Farei o possível, senhor — disse Finch, franzindo o rosto, hesitante, com os olhos na ilustração.

A porta se abriu com ruído, e a freira entrou em pé de guerra, furiosa.

— Sr. Dunworthy, isso é uma completa irresponsabilidade — vociferou ela num tom que com certeza um dia havia horrorizado os feridos da Guerra das Malvinas. — Se não consegue cuidar da própria saúde, poderia pelo menos não colocar em risco a dos outros pacientes. — Ela cravou o olhar em Finch. — O sr. Dunworthy não receberá mais visitas.

Fulminou Colin com os olhos e se apossou da cadeira de rodas.

— O que tinha em mente afinal, sr. Chaudhuri? — questionou ela, empurrando a cadeira com tanta força que a cabeça de Badri foi jogada para trás. — Já teve uma recaída e não tenho a menor intenção de permitir que tenha outra — vociferou, levando-o na direção da porta.

— Falei para o senhor que Badri nunca poderia ter saído se não fosse na surdina — comentou Colin.

A enfermeira abriu a porta.

— Mais nenhuma visita — acrescentou ela na direção de Colin.

— Eu voltarei — sussurrou Colin para Dunworthy, e passou correndo por ela.

Ela fixou no garoto seus olhos ancestrais.

— Não se depender de mim — decretou.

Aparentemente dependia, porque Colin só voltou quando o turno dela chegou ao fim, mas tudo o que ele trouxe foi a conexão remota para Badri e um breve relatório sobre vacinas contra a peste para Dunworthy. Finch telefonara para o SNS. A vacina precisava de duas semanas para a imunidade plena, e sete dias para uma proteção parcial.

— Ah, o sr. Finch quer saber se o senhor não gostaria também de se vacinar novamente contra o cólera e a febre tifoide.

— Não vai dar tempo — respondeu Dunworthy.

Também não daria tempo para a vacina da peste. Kivrin já estava lá há mais de três semanas, e suas chances de sobrevivência diminuíam a cada dia. Além disso, ele não estava perto de receber alta.

Assim que Colin saiu, ele tocou a campainha chamando a enfermeira de William e disse que precisava ver seu médico.

— Estou pronto para receber alta — explicou.

Ela deu uma risada.

— Já estou completamente recuperado — falou. — Dei dez voltas no corredor hoje de manhã.

Ela abanou a cabeça.

— O índice de recaídas deste vírus tem sido altíssimo. Eu, de verdade, não posso correr esse risco. — Ela sorriu para ele. — Por que está tão impaciente para sair? Seja qual for a razão, pode esperar mais uma semana.

— Vai começar o período letivo — disse ele, e percebeu que era verdade. — Por favor, diga ao meu médico que preciso falar com ele.

— O dr. Warden não vai mudar uma palavra do que eu disse — argumentou ela, mas parece que transmitiu o recado, porque depois da hora do chá o médico entrou, manquitolando.

Obviamente, ele fora recrutado de algum abrigo de terceira idade para ajudar durante o surto epidêmico. Contou uma história longa e sem propósito sobre as condições da medicina durante a Pandemia, e depois sentenciou, com uma voz rangente:

— No meu tempo os pacientes ficavam internados até a recuperação total.

Dunworthy nem tentou argumentar. Esperou que ele e a freira se afastassem corredor afora, trocando reminiscências da Guerra dos Cem Anos, prendeu ao ombro a bolsa de soro e caminhou até a cabine telefônica perto da Emergência, para ouvir o relato dos progressos feitos por Finch.

— A freira não permite um telefone no seu quarto — começou Finch. — Mas tenho boas notícias sobre a peste. Uma aplicação de injeções de estreptomicina com gamaglobulina e reforço de células-T pode proporcionar imunidade temporária e pode ser injetada cerca de doze horas antes da exposição ao vírus.

— Ótimo — aprovou Dunworthy. — Encontre um médico que possa aplicar tudo isso e me dar alta. Um médico jovem. E mande Colin aqui. A rede está pronta?

— Quase pronta, senhor. Consegui as autorizações para o salto e o resgate, e encontrei uma ligação remota. Ia buscá-la agora mesmo.

Desligou, e Dunworthy voltou para o quarto. Não havia mentido para a enfermeira. Tinha a impressão de que estava mais forte a cada hora que passava, embora tenha sentido uma pontada na região baixa das costelas quando por fim chegou ao quarto. A sra. Gaddson estava lá, concentrada, folheando a Bíblia em busca de menções à peste, às febres e às hemorroidas.

— Leia para mim Lucas, capítulo 11, versículo 9 — pediu ele.

Ela procurou a página.

— “Também eu vos digo: Pedi e vos será dado” — leu ela, cravando nele uns olhos cheios de suspeita. — “Buscai e achareis; batei e vos será aberto.”

A sra. Taylor apareceu quase no fim do horário de visitas, trazendo uma fita métrica.

— Colin me pediu que viesse tirar suas medidas — avisou ela. — Aquela velha não deixa sequer que ele se aproxime daqui. — Ela passou a fita em volta da cintura de Dunworthy. — Tive que dizer a ela que estava indo visitar a sra. Piantini. Estique o braço. — Ela estendeu a fita ao longo do braço. — Ela está se sentindo bem melhor. Talvez até consiga tocar “When At Last My Savior Cometh”, de Rimbaud, no dia 15, conosco. Vamos fazer um concerto para a Sagrada Igreja Re-Formada, como o senhor sabe, mas o SNS ocupou a igreja deles, de modo que o sr. Finch foi muito gentil e nos permitiu usar a capela do Balliol. Que número o senhor calça?

Ela anotou todas as medidas, informou que Colin apareceria ali no dia seguinte e pediu que Dunworthy não se preocupasse, porque a rede estava quase pronta. Ela saiu, supostamente para ir ver a sra. Piantini, e voltou minutos depois trazendo um recado de Badri.

“Sr. Dunworthy, rodei vinte e quatro parâmetros para checar”, dizia o bilhete. “Todos os vinte e quatro mostram um desvio mínimo, e onze apresentam desvio de menos de uma hora, e cinco desvio de menos de cinco minutos. Estou rodando uma verificação de divergências e de DAR para tentar saber o que se passa.”

Eu sei o que se passa, pensou Dunworthy. É a Peste Negra. A função do desvio era evitar interações capazes de alterar a História. Um desvio de cinco minutos significava que não havia anacronismos, nenhum encontro crucial que o continuum precisasse evitar que acontecesse. Queria dizer que o salto estava sendo feito numa área desabitada. E que a peste tinha passado por lá. E que todos os contemps estavam mortos.

Colin não apareceu pela manhã, e depois do almoço Dunworthy foi outra vez à cabine telefônica e ligou para Finch.

— Não consegui ainda encontrar um médico disposto a aceitar novos pacientes — informou Finch. — Telefonei para todos os médicos deste perímetro. Muitos ainda estão doentes — desculpou-se ele. — E muitos outros…

Finch parou, e Dunworthy entendeu o que ele iria dizer. Muitos outros morreram, inclusive aquela que com certeza ajudaria, que lhe aplicaria a vacinação e depois daria alta a Badri.

“Minha tia-avó Mary nunca desistiu”, dissera Colin. Ela nunca entregaria os pontos, pensou Dunworthy, apesar da freira e da sra. Gaddson e de uma dor nas costelas. Se Mary estivesse viva, ajudaria em tudo o que pudesse.

Ele andou de volta para o quarto. A freira tinha afixado na porta um enorme recado, VISITAS EXPRESSAMENTE PROIBIDAS, mas não estava nem na mesa de recepção nem no quarto. Ao contrário de Colin, que carregava um enorme pacote molhado.

— A irmã está na outra ala — explicou Colin, sorrindo. — A sra. Piantini teve um desmaio bastante oportuno. Devia ter visto ela. É uma atriz e tanto! — Ele mexeu no cordão do pacote. — A outra enfermeira acabou de chegar para cumprir seu turno, mas não precisa se preocupar. Ela está na rouparia com William Gaddson.

Dunworthy abriu o pacote. Estava cheio de roupas: um longo gibão preto e culotes pretos, nenhum dos dois nem remotamente medieval, e um par de meias colantes pretas, de mulher.

— De onde saiu isto? — perguntou Dunworthy. — De uma encenação do Hamlet?

— Ricardo III — respondeu Colin. — Foi montada pelo pessoal do Keble College no semestre passado. Eu mesmo tirei a corcunda.

— Tem uma capa? — indagou Dunworthy, procurando por entre as peças de roupa. — Diga para Finch me arranjar uma capa. Uma capa longa, que cubra tudo.

— Sim — falou Colin, distraído. Estava muito concentrado mexendo no seu casaco verde novo. O casaco abriu-se de repente e Colin o retirou de cima dos ombros. — E então? O que achou?

Ele se saíra consideravelmente melhor do que Finch. As botas estavam erradas, lembravam um par de botas Wellington das usadas pelos jardineiros, mas a bata de estopa e as calças cinzentas e folgadas pareciam as utilizadas pelos servos das ilustrações do livro.

— A calça tem uma faixa de prender na cintura — observou o garoto —, mas não é visível porque a camisa cai por cima. Copiei tudo do livro. Afinal de contas, eu vou ser o seu escudeiro.

Dunworthy devia ter adivinhado.

— Colin — disse —, você não pode ir comigo.

— Por que não? Posso ajudar o senhor a encontrar Kivrin — argumentou Colin. — Sou bom em achar as coisas.

— É impossível. Os…

— Ah, já sei! Agora o senhor vai querer me convencer de que a Idade Média era muito perigosa, não é? Bem, aqui também não está muito diferente, certo? O que me diz da minha tia-avó Mary? Ela teria ficado mais segura na Idade Média, não acha? Eu tenho feito muita coisa perigosa. Levei remédios para as pessoas, coloquei cartazes nas enfermarias. Durante a sua doença, eu fiz todo tipo de coisa arriscada que o senhor nem pode imaginar e…

— Colin…

— O senhor é idoso demais para ir sozinho. E minha tia-avó Mary me incumbiu de ficar de olho no senhor. Já pensou se tiver uma recaída?

— Colin…

— Minha mãe nem liga se eu for.

— Mas eu ligo. Não posso levar você comigo.

— Então vou sentar aqui e esperar — disse o menino, com amargura. — E ninguém vai me contar nada e não vou saber se o senhor está vivo ou não. — Ele voltou a apanhar o casaco. — Isso não é justo.

— Eu sei.

— Posso pelo menos ir para o laboratório?

— Pode.

— Ainda acho que seria melhor me levar — insistiu ele, começando a dobrar as peças de roupa. — Devo deixar o seu traje aqui?

— É melhor não. A irmã pode confiscar.

— Mas o que significa isso, sr. Dunworthy? — perguntou a sra. Gaddson.

Os dois deram um pulo. Ela vinha entrando no quarto, Bíblia em riste.

— Colin está recolhendo doações de roupas — respondeu Dunworthy, ajudando o menino a enfiar tudo de volta no pacote. — Para as pessoas detidas.

— Passar roupas de uma pessoa para outra é uma excelente maneira de transmitir a infecção — acusou ela.

Colin sobraçou o pacote e desapareceu dali.

— E permitir que uma criança entre aqui e corra o risco de contrair alguma doença! Francamente! Quando ele se ofereceu ontem para me acompanhar até meu dormitório ao sair da Emergência, sabe o que eu disse? “Não vou permitir que arrisque sua saúde por minha causa!”

Ela sentou ao lado da cama e abriu a Bíblia.

— É pura negligência permitir a visita desse menino. Mas suponho que eu não deveria esperar outra coisa, dada a maneira como administra a sua faculdade. Aliás, durante a sua ausência, o sr. Finch se transformou num tirano completo. Quase se atirou sobre mim ontem quando requisitei um rolo extra de papel higiênico e…

— Preciso falar com William — interrompeu Dunworthy.

— Aqui?! — explodiu ela. — No hospital?! — Ela fechou a Bíblia com uma pancada seca. — Eu simplesmente não permito. Ainda há muitos pacientes infectados aqui, e o pobre Willy…

Está na rouparia com a enfermeira, pensou ele.

— Avise que preciso falar com ele o quanto antes — pediu Dunworthy.

Ela brandiu a Bíblia na direção dele, como se fosse Moisés trazendo as pragas do Egito.

— Pretendo relatar em pessoa ao diretor da faculdade de história a sua cruel indiferença para com o bem-estar dos alunos — vociferou ela, e saiu pisando com força.

Dunworthy a ouviu se queixando em altas vozes a alguém no corredor, possivelmente a enfermeira, porque William apareceu quase em seguida, arrumando os cabelos.

— Preciso de injeções de estreptomicina e gamaglobulina — disse Dunworthy. — Também preciso de duas altas, uma para mim e outra para o sr. Badri Chaudhuri.

Ele aquiesceu.

— Eu sei. Colin me disse que o senhor pretende ir resgatar a sua historiadora. — Ele pareceu concentrado. — Bem, eu conheço uma enfermeira…

— Uma enfermeira não pode aplicar injeções sem a autorização de um médico, e as altas também são mediante assinatura.

— Conheço uma garota no Setor de Registros. O senhor precisava disso para quando?

— O mais depressa possível.

— Vou ver então. Pode levar dois ou três dias — disse ele, já saindo. — Eu conheci Kivrin, esbarrei com ela uma vez. Ela tinha ido ao Balliol à sua procura. Bonita ela, não?

Tenho que prevenir Kivrin a respeito desse rapaz, refletiu Dunworthy, e percebeu que tinha começado a acreditar de fato que seria capaz de trazê-la de volta, apesar de tudo. Aguente firme, pensou ele, estou chegando. Dois ou três dias.

Passou a tarde andando no corredor para lá e para cá, tentando aumentar o preparo físico. O corredor onde ficava o quarto de Badri tinha uma placa de VISITAS EXPRESSAMENTE PROIBIDAS em todas as portas, e a irmã fixava os olhos azuis em Dunworthy sempre que ele ia naquela direção.

Colin entrou no quarto, molhado de chuva e sem fôlego, com um par de botas para Dunworthy.

— Ela colocou fiscais por toda parte — comentou o garoto. — O sr. Finch pediu para dizer que a rede está pronta, mas que não consegue ninguém para dar o suporte médico.

— Então peça isso para William — falou. — Ele está encarregado de providenciar as nossas altas e a injeção de estreptomicina.

— Eu sei. Tenho um recado dele para Badri. Volto já.

Ele não voltou, e William não apareceu. Quando Dunworthy andou até a cabine telefônica para ligar para o Balliol, a freira o interceptou na metade do caminho e o escoltou de volta ao quarto. Talvez as linhas de defesa da irmã incluíssem agora a sra. Gaddson. Ou talvez a sra. Gaddson estivesse zangada com William. Ela não apareceu a tarde inteira.

Depois da hora do chá, uma enfermeira bonita que ele não vira até então entrou com uma seringa.

— A irmã foi chamada para atender uma emergência — explicou ela.

— O que é isso? — perguntou ele, apontando a seringa.

Ela digitou algo no teclado do console com um dedo da mão que estava livre. Olhou o monitor, digitou mais alguns caracteres e aproximou-se de Dunworthy.

— Estreptomicina — respondeu.

Ela não parecia nervosa nem furtiva, de modo que William devia afinal ter conseguido uma autorização. Esvaziou a considerável ampola dentro da cânula, sorriu para ele e saiu. Deixou o monitor ligado. Dunworthy levantou-se da cama e deu uma volta completa para examinar as telinhas por cima da cabeceira.

Era o seu mapeamento. Sabia porque era idêntico ao de Badri e igualmente ininteligível. A última linha de comando dizia: ICU 15802691 14-1-55 1805 150/RPT 1800CRS 1MSTMC 4ML/Q6H NHS40-211-7 M AHRENS.

Ele voltou a sentar na cama. Ah, Mary.

William devia ter conseguido o código de acesso dela, talvez por meio da amiga que tinha lá no Setor de Registros, e assim entrou no sistema. O Setor de Registros devia estar com tudo em atraso, inundado de pedidos devido à epidemia, e a morte de Mary não fora oficializada. Cedo ou tarde perceberiam o erro, mas William, que parecia cheio de cartas na manga, sem dúvida tivera o cuidado de apagar os próprios rastros.

Dunworthy rolou a tela para baixo, com todos os gráficos e mostradores. Havia apontamentos de M AHRENS até 8-1-55, o dia em que ela morrera. Mary devia ter cuidado dele até não poder mais se sustentar em pé. Não admira que o coração não resistisse.

Desligou o console, para que a freira não percebesse aquele registro, e deitou-se. Ficou pensando se William planejava usar o nome de Mary também na documentação da alta hospitalar. Desejou que sim. Ela gostaria de ter ajudado.

Não apareceu ninguém durante a noite. A freira entrou claudicando para checar o bracelete preso ao pulso de Dunworthy e dar-lhe seu temp às oito horas, e usou o console, mas aparentemente não percebeu nada de estranho. Às dez, uma outra enfermeira, também bonita, entrou, repetiu a injeção de estreptomicina e aplicou uma de gamaglobulina.

Deixou as telas ligadas, e Dunworthy precisou torcer o corpo para ler o nome de Mary. Achou que não conseguiria pegar no sono, mas adormeceu. Sonhou com o Egito e o Vale dos Reis.

— Sr. Dunworthy, acorde — sussurrou Colin, apontando uma lanterninha de bolso contra o rosto dele.

— O que é isso? — indagou Dunworthy, os olhos piscando contra a luz. Ele tateou até encontrar os óculos. — O que aconteceu?

— Sou eu. Colin.

O menino virou a lanterna em sua própria direção. Por alguma misteriosa razão, estava usando um grande jaleco branco de laboratório, e seu rosto parecia contraído e sinistro à luz da lanterna.

— O que há de errado? — quis saber Dunworthy.

— Nada — sussurrou Colin. — O senhor está recebendo alta.

Dunworthy terminou de prender os óculos atrás das orelhas. Continuou sem enxergar nada.

— Que horas são? — perguntou, também sussurrando.

— Quatro horas. — Ele atirou o par de chinelos para perto de Dunworthy e virou o facho da lanterna para o armário. — Se apresse. — Pegou o roupão pendurado num gancho e o entregou a Dunworthy. — Ela pode chegar a qualquer instante.

Dunworthy enfiou-se no roupão e nos chinelos, tentando despertar, se perguntando por que estaria recebendo alta àquela hora inusitada e onde estaria a irmã.

Colin foi até a porta e espiou para fora. Desligou a lanterna, guardou-a no bolso do desproporcional jaleco e voltou a encostar a porta. Depois de segurar a respiração por um longo momento, abriu uma fresta e olhou para fora.

— Caminho livre — disse, chamando Dunworthy com um gesto. — William levou ela para a rouparia.

— Quem, a enfermeira? — inquiriu Dunworthy, ainda meio zonzo. — Por que ela está neste turno?

— Ela não. A irmã. Wiliam vai mantê-la ocupada até que a gente saia.

— E a sra. Gaddson?

Colin pareceu meio encabulado.

— Ela está lendo para o sr. Latimer — informou ele, na defensiva. — Eu tinha que fazer alguma coisa com ela, e o sr. Latimer não pode ouvir mesmo. — Ele abriu toda a porta. Havia uma cadeira de rodas ali no corredor. Colin segurou as guias de metal.

— Eu consigo andar — protestou Dunworthy.

— Não temos tempo — sussurrou Colin. — E se alguém nos surpreender eu posso dizer que estou levando o senhor para ser escaneado.

Dunworthy sentou e deixou que Colin o empurrasse corredor afora, passando pela rouparia e pelo quarto de Latimer. Pôde ouvir a voz distante da sra. Gaddson através da porta, lendo passagens do Êxodo.

Colin continuou na ponta dos pés até o fim daquele corredor mas, ao virar, disparou numa velocidade que em hipótese alguma seria a de quem leva um paciente a um escâner. Os dois passaram por mais um corredor, viraram de novo e enfim cruzaram uma porta para o exterior, na mesma saída lateral onde haviam sido abordados pelo homem-sanduíche, cujo panfleto anunciava O FIM DOS TEMPOS ESTá CHEGANDO .

Estava escuro como breu naquela transversal, e a chuva caía forte. Dunworthy mal conseguia avistar a ambulância estacionada na esquina. Colin bateu na traseira do veículo com o punho fechado e uma socorrista saltou para fora. Era a jovem paramédica que ajudara a trazer Badri no começo de tudo e que estivera na manifestação diante do Brasenose.

— Consegue subir? — perguntou ela, ficando bem vermelha.

Dunworthy assentiu, e ficou de pé.

— Puxe e bata a porta quando entrar — explicou ela a Colin, e contornou para voltar para o volante.

— Não precisa me dizer. Ela também é uma amiga de William — disse Dunworthy, olhando na direção dela.

— Claro! — exclamou Colin. — Ela até me perguntou que tipo de sogra eu achava que a sra. Gaddson poderia ser.

Ele ajudou Dunworthy a pisar no degrau e entrar na ambulância.

— Onde está Badri? — perguntou Dunworthy, enxugando as lentes dos óculos.

Colin subiu, puxou e bateu a porta por dentro.

— No Balliol. Levamos ele primeiro, para que fosse preparando a rede. — Ele olhou com ansiedade pelo vidro traseiro. — Espero mesmo que a irmã não toque o alarme antes que a gente consiga sair.

— Eu não me preocuparia com isso — comentou Dunworthy.

Sem dúvida tinha subestimado os poderes do rapaz. Nesse momento, a velha freira devia estar no colo de William na rouparia, bordando as iniciais entrelaçadas dos dois nas toalhas.

Colin acendeu a lanterninha e iluminou a padiola.

— Trouxe seu disfarce — disse ele, entregando a Dunworthy o gibão preto.

Dunworthy tirou o roupão e vestiu o gibão. O motor da ambulância arrancou, quase o derrubando. Ele sentou no banco longo na lateral, apoiando-se de encontro à parede do veículo, e deu um jeito de enfiar os culotes pretos.

A paramédica de William não havia ligado a sirene, mas acelerava tanto que isso talvez fosse recomendável. Dunworthy agarrou-se com uma mão à alça de couro pendente da parede da ambulância e puxou os culotes com a outra, e Colin, que ajeitava as botas, quase virou de pernas para o ar.

— Achamos uma capa para o senhor — falou Colin. — O sr. Finch pegou emprestada do Núcleo Clássico da Sociedade de Artes Cênicas.

O garoto exibiu a capa, que era vitoriana, em cor preta e forrada com seda vermelha. Prendeu-a em volta dos ombros de Dunworthy.

— Em que peça eles usaram isso? — perguntou ele. — Drácula?

A ambulância parou com uma sacudidela mais forte, e a paramédica abriu as portas traseiras. Colin ajudou Dunworthy a descer e segurou a barra da capa, como um pajem. Os dois cruzaram o portão. A chuva caía com força sobre as pedras, mas apesar do barulho do aguaceiro se ouvia um som melodioso.

— O que é isso? — indagou Dunworthy, espiando na direção do pátio escuro.

— “When At Last My Savior Cometh” — respondeu Colin. — As americanas estão ensaiando para alguma coisa que vão fazer numa igreja. Necrótico, hein?

— A sra. Gaddson mencionou que elas ensaiam o tempo todo, mas não imaginei que isso incluísse as cinco da manhã.

— O concerto é hoje à noite — disse Colin.

— Hoje à noite? — repetiu Dunworthy, e lembrou de repente que aquele era o dia 15. O dia 6, pelo calendário juliano. A Epifania. O Dia de Reis.

Finch apressou-se na direção de Dunworthy, trazendo um guarda-chuva.

— Desculpe a demora, mas eu não conseguia achar um guarda-chuva — justificou, erguendo-o sobre a cabeça de Dunworthy. — Vocês não fazem ideia de quantas pessoas detidas aqui saem e se esquecem dos guarda-chuvas por aí. Especialmente as americanas…

Dunworthy foi cruzando o pátio a passos largos.

— Está tudo pronto?

— O suporte médico não chegou ainda — comentou Finch, tentando manter o guarda-chuva por cima da cabeça de Dunworthy —, mas William Gaddson acabou de telefonar dizendo que está tudo acertado e que a profissional deve chegar daqui a pouco.

Dunworthy não ficaria surpreso se o rapaz dissesse que a velha freira se apresentara de livre e espontânea vontade para essa tarefa.

— Tenho esperanças de que William nunca dedique a vida a alguma atividade criminosa — observou ele.

— Oh, não acredito que isso aconteça, senhor. A mãe dele não permitiria. — Finch deu uma corridinha, tentando emparelhar com ele. — O sr. Chaudhuri está rodando as coordenadas preliminares. E a srta. Montoya está aqui.

Ele parou.

— Montoya? O que houve?

— Não sei dizer. Ela disse que trazia uma informação para o senhor.

Agora não, pensou ele. Não agora que estamos tão perto.

Entrou no laboratório. Badri se encontrava no console, e Montoya, trajando o casaco de terrorista e jeans enlameados, estava inclinada sobre ele, olhando o monitor. Badri comentou alguma coisa e ela abanou a cabeça e olhou o relógio. Ergueu os olhos e avistou Dunworthy, e uma expressão de compaixão apareceu no seu rosto. Ela ficou de pé e enfiou a mão no bolso da camisa.

Não, pensou Dunworthy.

Ela veio na direção deles.

— Não sabia que o senhor estava planejando isto — disse ela, puxando uma folha de papel dobrada. — Quero ajudar. — Ela estendeu um papel. — Estas são as informações de que Kivrin dispunha quando saltou.

Ele olhou para o papel em sua mão. Era um mapa.

— Aqui é o local do salto — mostrou ela, apontando uma cruz no meio de uma linha negra. — E aqui fica Skendgate. Vai poder reconhecer o local pela igreja. É normanda, com murais por cima dos biombos de treliça e uma estátua de santo Antônio. — Ela sorriu. — O santo padroeiro dos objetos perdidos. Achei a estátua ontem.

Ela apontou várias outras cruzes.

— Se por algum motivo Kivrin não tiver chegado a Skendgate, os vilarejos mais próximos são Esthcote, Henefelde e Shrivendun. No verso do papel fiz uma lista dos pontos de referência mais importantes.

Badri ficou de pé e veio até eles. Parecia ainda mais debilitado do que no hospital, se é que isso era possível, e movia-se devagar, como o velho que tinha se tornado.

— Ainda estou obtendo um desvio mínimo independente das variáveis que coloque — informou, levando a mão às costelas. — Estou rodando um salto intermitente, abrindo por cinco minutos a intervalos de duas horas. Deste modo podemos manter a rede aberta por umas vinte e quatro horas, ou até trinta e seis, se tivermos sorte.

Dunworthy se perguntou por quantos desses intervalos de duas horas Badri aguentaria. Já parecia esgotado.

— Quando avistar o brilho, ou o começo da condensação de vapor, ande para dentro da área — orientou Badri.

— E se estiver escuro? — indagou Colin, que havia tirado o jaleco de laboratório. Dunworthy viu que o garoto estava trajando sua vestimenta de escudeiro.

— Ainda assim será possível ver o brilho. E nós chamaremos — acrescentou Badri. Soltou um grunhido baixinho e pôs de novo a mão nas costelas. — Recebeu suas vacinas?

— Sim.

— Ótimo. Só estamos esperando agora o suporte médico. — Ele olhou para Dunworthy. — Tem certeza de que está em condições de fazer isso?

— Você está? — rebateu Dunworthy.

A enfermeira de William entrou, usando um impermeável, e enrubesceu quando avistou Dunworthy.

— William me disse que o senhor precisava de suporte médico. Onde devo ficar?

Tenho mesmo que prevenir Kivrin a respeito desse rapaz, pensou Dunworthy. Badri mostrou à moça onde preferia que ela ficasse, e Colin correu para ir buscar o equipamento.

Montoya conduziu Dunworthy até um círculo de giz traçado no piso, por baixo dos escudos da rede.

— Vai usar os óculos?

— Vou — respondeu ele. — Pode cavar na igreja depois e recuperá-los.

— Tenho certeza de que não estarão lá — objetou Montoya, solene. — Prefere sentar ou ficar deitado?

Ele pensou em Kivrin deitada, o braço cobrindo o rosto, indefesa e cega.

— Ficarei de pé — disse.

Colin entrou carregando um baú de viagem, que colocou junto do console. Aproximou-se da rede.

— Não está correto o senhor ir sozinho — protestou.

— Eu tenho que ir sozinho, Colin.

— Por quê?

— É muito perigoso. Você não pode imaginar como era aquilo no tempo da Peste Negra.

— Posso, sim. Eu li duas vezes aquele livro e já tomei minhas… — Ele se interrompeu. — Eu sei tudo a respeito da Peste Negra. Além do mais, se é tão perigoso assim, o senhor não deveria ir sozinho. Não vou atrapalhar, prometo.

— Colin — insistiu ele, desamparado —, você está sob minha responsabilidade. Não posso correr esse risco.

Badri aproximou-se da rede, segurando um medidor de luz.

— A enfermeira precisa de ajuda com o resto do equipamento — avisou ele.

— Se não voltar, nunca ficarei sabendo o que foi que aconteceu com o senhor — constatou Colin. Deu meia-volta e saiu dali correndo.

Badri rodeou Dunworthy, devagar, fazendo medições. O técnico franziu a testa, segurou no cotovelo de Dunworthy, fez mais medições. A enfermeira se aproximou com uma seringa. Dunworthy arregaçou a manga do seu gibão.

— Quero que saiba que eu não aprovo de maneira alguma tudo isto — avisou ela, esfregando algodão no braço dele. — Vocês dois deveriam estar no hospital, isso sim. — Ela aplicou a injeção e voltou para perto do baú de viagem.

Badri esperou Dunworthy desdobrar a manga do gibão e então moveu o braço dele, mediu uma e outra vez, voltou a movê-lo. Colin trouxe para o laboratório uma unidade de scan e saiu depressa, sem olhar para Dunworthy.

Dunworthy ficou contemplando os gráficos nos mostradores mudando, mudando outra vez. Podia ouvir ao longe as sineiras, um som quase musical com a porta assim cerrada. Colin abriu a porta e a melodia se expandiu com mais força por um momento, até que o garoto conseguisse arrastar para dentro um segundo baú e fechasse a porta.

Colin arrastou o baú até onde a enfermeira estava posicionada e, em seguida, foi para perto do console, parando ao lado de Montoya, olhando os números continuamente produzidos nas telinhas. Pensou que deveria ter pedido para ir sentado. As botas, muito duras, incomodavam seus pés, e ele estava cansando com o esforço de ficar parado.

Badri falou outra vez ao ouvido do console, e os escudos vieram descendo, tocaram o solo, agitaram-se um pouco. Colin sussurrou alguma coisa a Montoya, e ela ergueu o olhar, franziu a testa, depois anuiu e virou-se para os monitores. Colin caminhou até a rede.

— O que está fazendo? — quis saber Dunworthy.

— Parece que uma dessas cortinas aí ficou presa — explicou Colin, que caminhou até a extremidade e deu uns puxões na borda.

— Pronto? — perguntou Badri.

— Pronto — respondeu Colin, e recuou até a porta. — Não, espere um instante. — Ele voltou na direção dos escudos. — Não seria melhor o senhor tirar os óculos? Para o caso de alguém vê-lo chegar?

Dunworthy removeu e enfiou os óculos no bolso interno do gibão.

— Se o senhor não voltar, irei à sua procura — disse Colin, e afastou-se. — Pronto! — exclamou.

Dunworthy olhou as telas. Não passavam de um borrão, assim como Montoya, que estava inclinada sobre o ombro de Badri. Ela olhou o relógio de pulso. Badri falou alguma coisa para o console.

Dunworthy fechou os olhos. Podia ouvir as sineiras plangendo à vontade em “When At Last My Savior Cometh”. Abriu os olhos novamente.

— Agora! — gritou Badri. Apertou um botão e nesse instante Colin disparou como uma flecha para o espaço protegido pelos escudos, atirando-se nos braços de Dunworthy.