O Livro do Juízo Final
Capítulo 2
— Bem — disse Mary, soltando um profundo suspiro represado por muito tempo —, acho que posso beber alguma coisa agora.
— Pensei que você estava indo buscar seu sobrinho-neto — disse Dunworthy, ainda olhando o local onde há pouco Kivrin estivera. O ar cintilava, cheio de partículas de gelo, no interior do véu de escudos. Perto do chão, na divisória, havia algumas formações de geada na parte de baixo do vidro.
A chatíssima trindade da Medieval continuava examinando os monitores, que não mostravam outra coisa senão a linha horizontal e reta indicando a chegada.
— Não preciso pegar Colin antes das três — disse Mary. — Você está com um ar de quem precisa recarregar um pouco as energias, e o pub O Cordeiro e A Cruz fica bem aqui nesta rua.
— Quero esperar até eles terem a confirmação — rebateu Dunworthy, de olho nos técnicos.
Ainda não havia nenhum dado visível nas telas. Badri estava com o rosto contraído. Montoya olhou o relógio e falou alguma coisa com Gilchrist, que assentiu. Ela então puxou uma mochila que estava guardada embaixo do console, acenou uma despedida para Latimer e saiu por uma porta lateral.
— Ao contrário de Montoya, que visivelmente mal consegue esperar a hora de voltar para suas escavações, eu gostaria de ficar aqui até ter certeza de que Kivrin chegou lá sem nenhum incidente — comentou Dunworthy.
— Não estou sugerindo que volte para Balliol — disse Mary, enfiando-se dentro do casaco —, mas isso aí pode levar mais de uma hora, até duas. Ficar parado durante esse tempo não vai acelerar as coisas. É como olhar a chaleira esperando que ferva, essas coisas. O pub fica quase aqui em frente. É um lugar pequeno, agradável, daquele tipo que não fica abarrotado de decorações natalinas nem tocando música de sinos. — Ela pegou e ofereceu o sobretudo dele. — Vamos tomar uma e comer alguma coisa. Depois você pode voltar para cá e abrir um buraco no chão andando de um lado para o outro, até eles terem a resposta.
— Quero esperar aqui — respondeu ele, ainda olhando a rede vazia. — Por que Basingame não implantou um localizador no pulso? O diretor da Faculdade de História não tem nada que viajar num feriado sem deixar sequer um telefone para contato.
Gilchrist endireitou o corpo que estava inclinado para enxergar melhor o monitor, ainda sem resposta, e deu uns tapinhas no ombro de Badri. Latimer piscou os olhos, como se não tivesse muita certeza de onde estava. Gilchrist apertou a mão dele, com um sorriso largo. Ele cruzou o salão, indo na direção da divisória, exibindo um ar de triunfo.
— Vamos embora — disse Dunworthy, pegando o sobretudo que Mary oferecia e abrindo a porta. Uma rajada de “While Shepherds Watched Their Flocks by Night” desabou sobre eles. Mary passou pela porta como se estivesse fugindo de algo, Dunworthy a fechou e seguiu Mary através do pátio e pelo portão de saída do Brasenose.
Fazia um frio cortante, mas não estava chovendo. No entanto, parecia que ia chover de um instante para outro, e pelo menos metade da multidão fazendo compras na calçada do Brasenose tinha pensado o mesmo, já estavam com os guarda-chuvas abertos. Uma mulher com uma sombrinha enorme e vermelha e os braços cheios de pacotes esbarrou em Dunworthy.
— Será que podia olhar por onde anda? — exclamou, antes de continuar, apressada.
— O espírito natalino — ironizou Mary, abotoando o casaco com uma mão e carregando firme a sacola na outra. — O pub fica logo ali, depois da farmácia — disse ela, indicando com a cabeça o lado oposto da rua. — Acho que isso é por causa desses sinos horrorosos. Eles deixam qualquer um mal-humorado.
Ela partiu pela calçada afora, por entre um labirinto de guarda-chuvas. Dunworthy considerou vestir o sobretudo, mas achou que não valia o esforço para uma distância tão curta. Seguiu atrás, tentando se esquivar das pontas mortais dos guarda-chuvas e tentando reconhecer que cântico natalino estavam sacrificando naquele instante. Soava como o cruzamento entre uma chamada às armas e um canto fúnebre, mas era bem provável que fosse “Jingle Bells”.
Mary estava esperando no meio-fio em frente à farmácia, mexendo de novo no interior da sacola.
— Que barulho horrível é este? — perguntou ela, extraindo um guarda-chuva dobrável. — “O Little Town of Bethlehem”?
— “Jingle Bells” — respondeu Dunworthy, e colocou o pé na rua.
— James! — gritou Mary, agarrando-o pela manga.
O pneu dianteiro da bicicleta passou a centímetros, e o pedal de trás o atingiu na perna. O ciclista bambeou e berrou:
— Não sabe atravessar a porra duma rua?!
Dunworthy recuou para a calçada e esbarrou numa criança de seis anos, agarrada a um Papai Noel de pelúcia. A mãe fez uma expressão de fúria.
— Tenha cuidado, James — pediu Mary.
Atravessaram a rua, Mary na frente. A meio caminho, a chuva começou. Mary abrigou-se embaixo do toldo da farmácia e tentou abrir o guarda-chuva. A vitrine da farmácia estava decorada com papel laminado de cores dourada e verde, e havia uma plaquinha entre os perfumes que dizia: SALVE OS SINOS DA IGREJA DA PARÓQUIA DE MARSTON. DOE AO FUNDO DA RESTAURAÇãO .
Depois de acabar de obliterar “Jingle Bells” ou “O Little Town of Bethlehem”, o carrilhão estava agora executando “We Three Kings of Orient Are”. Dunworthy reconheceu o tom menor.
Mary ainda não tinha conseguido abrir o guarda-chuva. Enfiou-o de volta na sacola e seguiu de novo pela calçada, acompanhada por Dunworthy, que tentava evitar colisões. Ele passou diante de uma papelaria e de uma tabacaria decoradas com luzes pisca-pisca verdes e vermelhas, e cruzou a porta que Mary segurou aberta.
Seus óculos ficaram embaçados imediatamente. Ele os tirou para enxugá-los na gola do sobretudo. Mary fechou a porta e os dois mergulharam numa bolha marrom de abençoado silêncio.
— Oh, céus — soltou Mary. — Eu disse que o pub era do tipo que não põe decoração.
Dunworthy voltou a colocar os óculos. As prateleiras por trás do balcão estavam cheias de fios pendurados com lampadazinhas de tons verde-pálido, cor-de-rosa e azul-anêmico. No canto do bar, via-se uma grande árvore natalina de fibra óptica, num pedestal giratório.
Não havia mais ninguém no estreito espaço do pub, a não ser um homem robusto por trás do balcão. Mary esgueirou-se por entre duas mesas e sentou num canto.
— Pelo menos não podemos escutar daqui os malditos sinos — disse ela, pondo a sacola sobre o banco de madeira com encosto alto. — Não! Pode deixar que eu trago as bebidas. Sente-se aí. Aquele ciclista quase tirou você de combate.
Ela pinçou algumas notas amarrotadas de dentro da sacola de compras e foi até o balcão.
— Dois pints da amarga — disse ela ao barman. — Quer algo para comer? — perguntou a Dunworthy. — Eles têm sanduíches e rolinhos de queijo.
— Você viu Gilchrist olhando para o console e sorrindo como o gato da Alice? Ele nem olhou de lado para ver se Kivrin tinha mesmo saltado, ou se estava ali, meio morta.
— Melhor: dois pints mais um uísque bom, duplo — disse Mary.
Dunworthy sentou-se. Havia um presépio na mesa, com pequenos carneiros de plástico e um bebê seminu na manjedoura.
— Gilchrist devia ter mandado ela da escavação — disse ele. — Os cálculos para um salto remoto são exponencialmente mais complexos do que para um salto presencial, feito para o próprio local. Imagino que eu deveria estar feliz por ele não querer mandá-la com lapso de tempo, também. Um estagiário do primeiro ano jamais seria capaz de fazer esses cálculos. Quando pedi Badri emprestado, tive medo que Gilchrist quisesse insistir num lapso de tempo, em vez de tempo real.
Ele moveu um pequeno carneiro de plástico mais para perto do pastor.
— Se é que ele entende que há uma diferença — continuou. — Sabe o que ele me disse quando eu comentei que devia fazer pelo menos um salto não tripulado? Ele disse: “se algum imprevisto acontecer à srta. Engle, podemos voltar no tempo e tirá-la de lá antes que aconteça, não”? O sujeito não tem noção de como a rede funciona, não tem noção de que existem paradoxos, não tem noção de que Kivrin está ali e de que o que acontece com ela é real e irrevogável.
Mary manobrou por entre as mesas, trazendo o uísque numa mão e os dois pints, desajeitadamente, na outra. Pôs o uísque na mesa à frente dele.
— É minha receita padrão para vítimas do ciclismo e pais superprotetores. Ele bateu na sua perna?
— Não — respondeu Dunworthy.
— Tive um acidente de bicicleta semana passada. Fiz um salto ao século XX. Tinha acabado de chegar da Primeira Guerra Mundial. Depois de duas semanas em Belleau Wood sem sofrer um arranhão, vim colidir com uma bicicleta aqui em plena Broad Street. — Ela voltou ao balcão para pegar os rolinhos de queijo.
— Detesto parábolas — sentenciou Dunworthy. Ele pegou a pequena Nossa Senhora de plástico, que usava um manto azul com capa branca. — Se ele tivesse mandado com lapso de tempo, pelo menos ela não estaria correndo o risco de morrer congelada. Estaria usando algo mais quente do que uma túnica com pele de coelho, ou será que jamais ocorrera a Gilchrist que 1320 foi o início da Pequena Era Glacial?
— Acabei de perceber com quem acho você parecido — disse Mary, pondo na mesa seu prato e um guardanapo. — A mãe de William Gaddson.
Era um julgamento para lá de injusto. William Gaddson era um dos seus alunos de primeiro ano. Durante aquele período escolar, a mãe já tinha dado as caras seis vezes, a última trazendo um par de protetores de orelha para seu filho.
— Ele gripa se ficar sem elas — ela tinha afirmado a Dunworthy. — Willy sempre foi muito sensível ao frio, e logo agora… tão longe de casa e tudo o mais. O tutor não tem dado muita atenção a ele, já tive que me queixar várias vezes.
Will era do tamanho de um carvalho e parecia tão sensível ao frio quanto um deles.
— Tenho certeza de que ele saberá se cuidar — disse ele à sra. Gaddson, o que foi um erro. Ela na hora o inscreveu na lista das pessoas que se recusavam a cuidar devidamente de Willy, mas isso não a impedia de aparecer a cada duas semanas para entregar vitaminas a Dunworthy e insistir que Willy fosse retirado da equipe de remo, porque estava fazendo exercícios em excesso.
— Eu dificilmente colocaria minha preocupação por Kivrin na mesma categoria da superproteção da sra. Gaddson — disse Dunworthy. — Os anos 1300 estão cheios de degoladores e ladrões. E coisa pior.
— Era isso o que a sra. Gaddson dizia de Oxford — rebateu Mary, placidamente, bebericando sua cerveja. — Eu disse para ela que não poderia proteger Willy da vida. Você também não pode proteger Kivrin. Você não se tornou historiador ficando em casa, no conforto. Tem que deixar que ela vá, mesmo que seja perigoso. Todo século tem índice 10, James.
— Este século não tem a Peste Negra.
— Teve a Pandemia, que matou sessenta e cinco milhões de pessoas. E não havia Peste Negra na Inglaterra em 1320. A doença só chegou lá em 1348. — Ela pousou o pint na mesa, e o bonequinho de Maria caiu. — Mas mesmo que tivesse, Kivrin não poderia contrair, pois vacinei ela contra a peste bubônica. — Mary deu um sorriso pesaroso a Dunworthy. — Eu também tenho meus momentos de gaddsonite. Além do mais, ela nunca vai contrair a peste, até porque estamos aqui nos preocupando com isso. Nenhuma das coisas com que a gente se preocupa jamais acontece. Acontece uma que a gente nunca pensou.
— Muito reconfortante. — Ele colocou a figurinha azul e branca de Maria junto à de José. Ela caiu. Ele a colocou de pé, com cuidado.
— Deve ser reconfortante mesmo, James — disse Mary, com alguma brusquidão. — Porque é óbvio que você pensou em cada uma das piores coisas que podiam acontecer com Kivrin. O que significa que ela está bem e cem por cento a salvo. Provavelmente já está sentada num castelo depois de almoçar uma torta de pavão, embora eu imagine que não seja a mesma hora do dia, aqui e lá.
Ele abanou a cabeça.
— Sempre vai haver um desvio, sabe Deus de quanto, porque Gilchrist não testou os parâmetros. Badri achou que levaria vários dias.
Ou várias semanas, pensou ele, e se estivessem em meados de janeiro não haveria nenhum feriado para que Kivrin pudesse ter certeza quanto às datas. Mesmo uma discrepância de várias horas poderia depositá-la no meio da estrada Oxford-Bath bem no meio da noite.
— Espero que o desvio não a impeça de ver o Natal — disse Mary. — Ela estava ansiosa para assistir a uma missa de Natal na Idade Média.
— Faltam duas semanas para o Natal, lá — explicou ele. — Ainda estavam usando o calendário juliano. O calendário gregoriano só foi adotado em 1752.
— Eu sei. O sr. Gilchrist fez uma peroração a respeito do calendário juliano em seu discurso. Estendeu-se bastante sobre a história da reforma do calendário e a discrepância de datas entre o Calendário Antigo e os calendários gregorianos. A certa altura pensei que ele ia desenhar um diagrama. Que dia é hoje lá?
— Treze de dezembro.
— Talvez seja até melhor não sabermos a hora certa. Deirdre e Colin passaram um ano nos Estados Unidos, e eu morri de preocupação com eles, mas fora de sincronia. Eu vivia imaginando que Colin era atropelado no trajeto para a escola quando, na verdade, eles estavam no meio da noite. Ficar se preocupando não adianta nada, a menos que você possa visualizar uma catástrofe nos mínimos detalhes, incluindo aí o tempo que fazia e que horas eram. Durante algum tempo me preocupei por não saber com que me preocupar. Depois disso não me preocupei mais. Talvez com Kivrin aconteça a mesma coisa.
Era verdade. Ele tinha ficado visualizando Kivrin como da última vez que a vira, jazendo por entre os destroços, com a testa ensanguentada, mas talvez isso fosse um erro. Já fazia cerca de uma hora que ela tinha dado o salto. Mesmo que nenhum viajante tivesse aparecido ainda, a estrada estaria fria, e ele não podia imaginar Kivrin obedientemente deitada na Idade Média e com os olhos fechados.
Na sua primeira viagem ao passado, ele ficou indo e voltando enquanto era calibrado o fix, a marcação exata do ponto do salto. Ele foi enviado para o meio do pátio, em plena noite, e deveria ficar imóvel enquanto eles conferiam os cálculos do fix e o pegavam de volta. Só que ele estava em Oxford em 1956. Os cálculos demorariam pelo menos uns dez minutos. Ele correu quatro quarteirões da Broad Street para olhar para a velha biblioteca Bodleian e quase provocou um infarto na técnica, quando ela abriu a rede e não o achou lá dentro.
Kivrin não ficaria deitada ali com os olhos fechados, não com todo o mundo medieval descortinando-se diante de seus olhos. De repente, ele podia imaginá-la, parada, naquela capa branca ridícula, examinando a estrada Oxford-Bath à procura de viajantes, pronta para se jogar de novo ao chão assim que necessário e, enquanto isso, absorvendo tudo, as mãos com os chips implantados postas numa prece de impaciência e deleite. Depois de imaginar isso, ele se sentiu mais seguro.
Claro que ela se sairia bem. Dali a duas semanas entraria de volta na rede, a capa branca emporcalhada, cheia de histórias sobre aventuras perigosas e relatos sobre quando escapou por pouco, histórias de arrepiar, sem dúvida, coisas que o fariam ter pesadelos durante semanas depois de ouvir.
— Ela vai ficar bem, James, você sabe — disse Mary, franzindo a testa para ele.
— Eu sei — concordou ele. Foi ao balcão e trouxe mais dois pints. — A que horas mesmo vai chegar o seu sobrinho-neto?
— Às três. Colin fica a semana toda, e não tenho ideia do que fazer com ele. Além de me preocupar, claro. Pensei em levá-lo para o Ashmolean. Crianças sempre gostam de museus, não é? Com a capa de Pocahontas e tudo o mais?
A lembrança de Dunworthy quanto à capa de Pocahontas era a de um retalho de material tosco e cinza, completamente desinteressante, muito parecido com o cachecol que ela iria dar de presente a Colin.
— Eu sugeriria o Museu de História Natural.
Houve um farfalhar de papéis laminados e uma lufada de “Ding Dong, Merrily on High” e Dunworthy olhou ansiosamente para a porta. Seu secretário estava no umbral, apertando os olhos para examinar o recinto.
— Talvez eu devesse mandar Colin subir à Carfax Tower e escangalhar esse carrilhão — disse Mary.
— É Finch — disse Dunworthy, e ergueu a mão para que o outro pudesse avistá-los, mas Finch já vinha direto para a mesa.
— Procurei o senhor por toda parte — disse ele. — Tem alguma coisa errada.
— Com o fix?!
O rosto do secretário ficou branco.
— O fix? Não, senhor. São as americanas. Chegaram muito cedo.
— Que americanas?
— As sineiras. Do Colorado. A Guilda das Mulheres Tocadoras de Sinos dos Estados do Oeste.
— Não me diga que vocês importaram mais sinos de Natal — suspirou Mary.
— Eu pensei que o previsto era que elas chegassem no dia 22 — disse Dunworthy a Finch.
— Hoje é 22 — respondeu Finch. — Era para chegarem apenas hoje à tarde mas, como o concerto delas em Exeter foi cancelado, elas se adiantaram. Liguei para Medieval e o sr. Gilchrist me disse que talvez o senhor tivesse saído para comemorar. — Ele baixou os olhos para o pint vazio de Dunworthy.
— Não estou comemorando — disse Dunworthy. — Estou esperando pelo fix de uma aluna minha de graduação. — Ele olhou o relógio. — Vai levar pelo menos mais uma hora.
— O senhor tinha prometido que faria um passeio para mostrar a elas os sinos locais, senhor.
— Não há motivo nenhum para você ficar aqui — sugeriu Mary. — Posso ligar para você no Balliol assim que o fix estiver confirmado.
— Eu voltarei para o Balliol quando tivermos o fix — disse Dunworthy, fechando a cara para Mary. — Enquanto isso, mostre a universidade para elas e ofereça um almoço. Isso deve levar uma hora.
Finch pareceu pouco satisfeito.
— Elas só estarão aqui até as quatro da tarde. Têm um concerto de sinos hoje à noite em Ely, e estão ansiosas para conhecer os sinos da Christ Church.
— Então leve elas para Christ Church e mostre também o sino da Tom Tower, o Great Tom. Suba com elas a torre de St. Martin. Depois vá até o New College. Irei para lá assim que puder.
Finch deu a impressão de que falaria alguma coisa, mas mudou de ideia.
— Então direi a elas que o senhor estará lá dentro de uma hora — disse ele, já indo para a porta. A meio caminho, ele se deteve e voltou. — Quase me esqueci. O vigário ligou para saber se o senhor se disporia a fazer a leitura das Escrituras na véspera de Natal, no circuito das igrejas. Este ano será na St. Mary the Virgin.
— Diga que sim — respondeu Dunworthy, agradecido por ter se livrado das sineiras. — Diga também que preciso que libere o campanário esta tarde, para que eu possa mostrar os sinos às americanas.
— Sim, senhor — concordou ele. — O que me diz de Iffley? Deveria levá-las para lá? Em Iffley tem um sino muito bonito, do século XI.
— Com certeza — anuiu Dunworthy. — Leve as americanas para Iffley. Eu irei assim que puder.
Finch abriu e fechou a boca de novo.
— Sim, senhor — disse, e saiu pela porta ao som de “The Holly and the Ivy”.
— Foi um pouco duro com ele, não acha? — perguntou Mary. — Afinal de contas, as americanas podem ser chatas.
— Ele vai voltar daqui a cinco minutos e me perguntar se deve levá-las primeiro a Christ Church — disse Dunworthy. — Esse rapaz não tem a menor iniciativa.
— Pensei que admirasse essa qualidade nos jovens — rebateu Mary, de esguelha. — De qualquer modo, ele jamais sairá correndo em direção à Idade Média.
A porta se abriu e “The Holly and the Ivy” invadiu o recinto.
— Deve ser para perguntar o que deve oferecer de almoço a elas.
— Carne e legumes muito cozidos — disse Mary. — Americanos adoram contar histórias sobre o quanto nossa culinária é terrível. Ai, meu Deus.
Dunworthy virou-se para olhar a porta. Gilchrist e Latimer estavam ali de pé, iluminados em contraluz pelo reflexo cinzento lá de fora. Gilchrist exibia um sorriso largo e falava alguma coisa por cima do som dos sinos. Latimer se esforçava para recolher um grande guarda-chuva preto.
— Acho que devemos ser educados e convidá-los a sentar conosco — sugeriu Mary.
Dunworthy estendeu a mão para o sobretudo.
— Seja educada, se quiser. Eu não tenho a menor intenção de ficar ouvindo esses dois trocando elogios por terem mandado uma garota inexperiente bem para o meio do perigo.
— Está soando de novo como você-sabe-quem — disse Mary. — Eles não estariam aqui se alguma coisa tivesse dado errado. Talvez Badri já tenha conseguido o fix.
— Cedo demais para isso — respondeu ele, mas voltou a se sentar. — O mais provável é que Badri tenha dispensado esses dois para poder trabalhar em paz.
Gilchrist aparentemente o avistou quando ele ficou de pé. Deu uma meia-volta como se quisesse voltar para a rua, mas Latimer já vinha em direção à mesa. Gilchrist acompanhou, já sem sorrir.
— Conseguiram o fix? — perguntou Dunworthy.
— O fix? — respondeu Gilchrist, vagamente.
— O fix — disse Dunworthy. — A determinação exata de onde e quando Kivrin está, o que tornará possível trazê-la de volta.
— Seu técnico disse que levaria pelo menos uma hora para determinar as coordenadas — respondeu Gilchrist, carrancudo. — Ele sempre leva tanto tempo assim? Disse que viria nos avisar quando terminasse. Mas que as leituras preliminares indicavam que o salto foi completado com perfeição e que o desvio foi mínimo.
— Que boa notícia! — disse Mary, aparentando alívio. — Venham, sentem-se conosco. Estamos esperando pelo fix também e, enquanto isso, tomando um pint. Vão beber alguma coisa? — perguntou ela a Latimer, que tinha fechado o guarda-chuva e estava atando a correia.
— Bem, acredito que sim — respondeu Latimer. — Afinal de contas este é um grande dia. Um conhaque, acho. Forte é o vinho, e que a bebermos dure. — Ele desistiu de atar a correia e a deixou enredada nas pontas do guarda-chuva. — Finalmente vamos ter uma chance de observar a perda de flexão dos adjetivos e a mudança do nominativo singular em primeira mão.
Um grande dia, pensou Dunworthy, sentindo-se, no entanto, aliviado. O desvio era sua maior preocupação, por ser a parte mais imprevisível, mesmo com as checagens de parâmetros.
A teoria sobre o desvio era de que se tratava de um mecanismo da própria rede, uma medida de segurança para evitar paradoxos no continuum espaço-tempo. O desvio para a frente deveria ajudar a evitar colisões, confrontos ou ações que pudessem afetar a História, e transferir o historiador, de maneira tranquila, para depois do momento crítico em que ele poderia atirar em Hitler ou salvar uma criança que se afogava.
Mas a teoria sobre a rede nunca tinha sido capaz de determinar quais eram os momentos críticos, e que quantidade de desvio cada salto específico poderia sofrer. Checar os parâmetros fornecia probabilidades, mas Gilchrist não fizera isso desta vez. O salto de Kivrin poderia ter sido adiantado por duas semanas, por um mês. Pelo que Gilchrist sabia, ela podia ter “aterrissado” em abril, com aquela capa forrada de coelho e saias de inverno.
Só que Badri tinha falado de um desvio mínimo, o que significava que Kivrin tinha chegado com uma diferença de apenas alguns dias, com tempo bastante para descobrir em que dia estavam e preparar seu retorno.
— Sr. Gilchrist, posso lhe trazer um conhaque? — perguntou Mary.
— Não, obrigado — respondeu ele.
Mary encontrou outra nota amassada e foi para o balcão.
— Seu técnico parece ter feito um trabalho passável — disse Gilchrist, virando-se para Dunworthy. — Medieval talvez peça ele emprestado para o próximo salto. Vamos enviar a srta. Engle para 1355, para observar os efeitos da Peste Negra. Os relatos da época são completamente duvidosos, sobretudo no que diz respeito a taxas de mortalidade. Sem dúvida, o suposto número de cinquenta milhões de mortes é impreciso, e as estimativas de que a Peste Negra tenha exterminado de um terço a metade da Europa são exageros óbvios. Estou ansioso para que a srta. Engle faça observações confiáveis.
— Não está sendo muito apressado? — questionou Dunworthy. — Talvez devesse esperar para ver se Kivrin sobrevive a este salto, ou no mínimo que ela escape a essa ida a 1320.
O rosto de Gilchrist assumiu um ar magoado.
— O fato de o senhor presumir o tempo inteiro que Medieval é incapaz de realizar um salto com sucesso me parece muito injusto — disse ele. — Posso garantir que pensamos com todo cuidado em cada detalhe. O método de regresso de Kivrin foi pesquisado em todos os aspectos.
“Probabilidade indica que a frequência de viajantes na estrada Oxford-Bath é de uma pessoa a cada 1,6 hora. Logo, existe uma chance de 92 por cento de acreditarem na história do ataque de ladrões, já que ocorrências desse tipo são corriqueiras. Um viajante em Oxfordshire tinha 42,5 por cento de chances de ser atacado no inverno, e 58,6 por cento no verão. Isso é uma média, claro. As chances aumentavam bastante em partes de Otmoor, no Wychwood e em estradas menores.”
Dunworthy ficou imaginando como diabos a equipe da Probabilidade tinha chegado àqueles números. O Livro do juízo final não listava ladrões, com a possível exceção dos recenseadores do rei, que às vezes extraíam algo mais do que meras informações. Além disso, os degoladores daquele tempo decerto não tinham deixado listas das pessoas que mataram e roubaram, assinalando o local no mapa com todo cuidado. Provas da morte de alguém fora de seu ambiente foram inteiramente “de facto”: a pessoa saiu e nunca voltou. E quantos corpos tinham sido abandonados na floresta, sem descoberta ou registro?
— Garanto que tomamos todas as providências para proteger Kivrin — prosseguiu Gilchrist.
— Como, por exemplo, checar os parâmetros? — alfinetou Dunworthy. — Testes não tripulados, testes de simetria?
Mary voltou do balcão.
— Aqui está, sr. Latimer — disse Mary, pondo um copo de conhaque na frente do homem. Depois de pendurar pelo gancho o guarda-chuva de Latimer no espaldar do banco, sentou-se ao lado dele.
— Eu estava justamente assegurando ao sr. Dunworthy que cada passo deste salto foi pesquisado à exaustão — disse Gilchrist. Ele pegou entre os dedos o bonequinho de plástico de um Rei Mago carregando uma caixa dourada. — O baú que ela está levando é uma réplica perfeita de uma caixa de joias que temos no museu Ashmolean. — Ele pôs o boneco de volta na mesa. — Até mesmo o nome dela foi meticulosamente pesquisado. Isabel era o nome feminino mais frequente nos Registros dos Tribunais e no Regista Regum, que cobrem de 1295 até 1320.
— É na verdade uma forma corrompida de Elizabeth — explicou Latimer, como se estivesse em uma de suas conferências. — O uso generalizado desse nome na Inglaterra a partir do século XII pode ter sua origem estabelecida com Isabel de Angoulême, esposa do Rei João.
— Kivrin me disse que tinha recebido uma identidade verdadeira, que Isabel de Beauvrier era uma das filhas de um nobre do Yorkshire — disse Dunworthy.
— E era — confirmou Gilchrist. — Gilbert de Beauvrier tinha quatro filhas mais ou menos na faixa de idade apropriada, mas seus nomes não estavam registrados nos documentos. Era uma prática comum. Com frequência as mulheres eram listadas apenas por sobrenome e parentesco, mesmo nos livros paroquiais e nas lápides das sepulturas.
Mary pousou uma mão conciliadora no braço de Dunworthy.
— Por que escolheu Yorkshire? — perguntou ela rapidamente. — Isso não vai deixá-la longe demais de casa?
Ela está a setecentos anos de casa, pensou Dunworthy, num século que desdenhava das mulheres a ponto de nem anotar seus nomes quando morriam.
— A sugestão partiu da própria srta. Engle — respondeu Gilchrist. — Ela achou que, se pertencesse a uma família tão distante, ninguém poderia fazer contato com os supostos parentes.
Nem aparecer e levá-la para lá, afastando-a do local do salto, como tinha comentado Kivrin. Ela provavelmente tinha pensado em tudo, pesquisando registros financeiros e eclesiásticos em busca de uma família com uma filha da mesma idade e sem conexões com a Corte, uma família lá nos confins de East Riding, longe o bastante para que a neve e as intransitáveis estradas impedissem qualquer mensageiro de partir a cavalo e avisar que a filha desaparecida tinha sido encontrada.
— Medieval deu a mesma cuidadosa atenção a cada detalhe deste salto — continuou Gilchrist — e criamos até um pretexto para a viagem dela, a doença de um irmão. Estabelecemos com segurança que houve um surto de gripe naquele setor do Gloucestershire em 1319, mesmo considerando as inúmeras doenças na Idade Média, e ele poderia com a mesma facilidade ter contraído cólera ou alguma infecção sanguínea.
— James — disse Mary, em tom de advertência.
— A roupa da srta. Engle foi toda cosida à mão. O tecido azul foi tingido à mão com anil, usando uma receita medieval. Sem falar que a srta. Montoya pesquisou exaustivamente o vilarejo de Skendgate, onde Kivrin vai passar as duas semanas.
— Se conseguir chegar lá — alfinetou Dunworthy.
— James — disse Mary.
— Que precauções vocês tomaram para garantir que o amistoso viajante que passa ali a cada 1,6 hora não decida carregá-la para o convento de Godstow ou para um bordel em Londres, ou para que não decida que ela é uma bruxa ao vê-la aparecer de repente? Que precauções tomaram para ter certeza de que esse viajante amistoso é amistoso mesmo, e não um dos assassinos que eliminavam 42,5 por cento dos viajantes?
— Probabilidade nos indicou que havia uma chance de no máximo 0,04 por cento de que houvesse alguém no local no momento do salto.
— Oh, vejam, Badri acaba de chegar — disse Mary, ficando de pé e se intrometendo entre Dunworthy e Gilchrist. — Trabalhou rápido, Badri. Correu tudo bem com o fix?
Badri viera sem casaco. O uniforme do laboratório estava molhado, e seu rosto, contraído de frio.
— Você parece meio congelado — comentou Mary. — Venha, sente-se aqui. — Ela indicou o lugar vazio ao lado de Latimer. — Vou trazer um conhaque.
— Conseguiu o fix? — perguntou Dunworthy.
Badri não estava apenas molhado, estava ensopado.
— Consegui — respondeu ele, e seus dentes começaram a bater.
— Grande sujeito — disse Gilchrist, de pé ao seu lado, distribuindo tapinhas no ombro. — Pensei que tivesse dito que ia precisar de uma hora. Isto pede um brinde. Vocês têm champanhe? — perguntou em voz alta ao barman. Deu mais um tapa no ombro de Badri e foi até o balcão.
Badri ficou olhando para ele, esfregando os braços e tremendo. Parecia desatento, quase atordoado.
— Tem certeza de que conseguiu o fix? — perguntou Dunworthy.
— Tenho — respondeu ele, ainda olhando para Gilchrist.
Mary voltou para a mesa trazendo um conhaque.
— Isso vai aquecer você um pouco — disse, estendendo o copo para ele. — Muito bem. Beba tudo. Ordens médicas.
Ele franziu a testa para o copo, como se não soubesse o que era aquilo. Seus dentes ainda batiam.
— O que houve? — perguntou Dunworthy. — Kivrin está bem, não está?
— Kivrin — repetiu ele, ainda olhando para dentro do copo, e então pareceu de repente voltar a si. Pôs o copo na mesa. — Preciso que venha comigo — disse e se levantou, começando a abrir caminho entre as mesas na direção da porta.
— O que aconteceu? — indagou Dunworthy, ficando de pé. As peças do presépio caíram todas na mesa, e um dos carneiros rolou até a borda e despencou no chão.
Badri abriu a porta e deixou entrar o carrilhão martelando “Good Christian Men, Rejoice”.
— Badri, espere, ainda vamos brindar — disse Gilchrist, voltando para a mesa com uma garrafa e um emaranhado de taças.
Dunworthy apanhou o sobretudo.
— O que foi? — quis saber Mary, recolhendo a sacola. — Ele não conseguiu o fix?
Dunworthy não respondeu. Segurando o sobretudo, foi atrás de Badri. O técnico já ia calçada afora, abrindo caminho entre as pessoas com compras de Natal como se elas nem estivessem ali. Chovia forte agora, mas Badri nem parecia perceber. Dunworthy enfiou de qualquer jeito o sobretudo e misturou-se à multidão.
Algo dera errado. Tinha havido um desvio afinal, ou então o estagiário do primeiro ano tinha cometido um erro nos cálculos. Talvez algo tivesse dado errado com a própria rede. Mas ela tinha recursos de segurança, e níveis de proteção e sistema de cancelamento de saltos. Se houvesse qualquer coisa errada com a rede, Kivrin simplesmente não poderia ter saltado. Sem falar que Badri respondeu que tinha conseguido o fix.
Tinha que ser desvio. Era a única coisa que podia ter acontecido e permitido que o salto acontecesse.
Lá adiante Badri atravessou a rua, evitando por um triz o choque com uma bicicleta. Dunworthy contornou duas mulheres carregando sacolas de compras ainda maiores que a de Mary e um pequeno terrier branco preso à coleira, e conseguiu avistá-lo de novo, duas portas adiante.
— Badri! — berrou ele. O técnico deu meia-volta e esbarrou em cheio numa mulher de meia-idade, com uma grande sombrinha florida.
A mulher vinha andando curvada para se proteger da chuva, segurando a sombrinha quase à frente, e obviamente também não tinha visto Badri. Decorada com flores de lavanda, a sombrinha pareceu explodir para cima, antes de cair na calçada. Badri, ainda se precipitando às cegas, quase caiu em cima do objeto.
— Será que podia olhar por onde anda? — vociferou a mulher, agarrando a sombrinha pela borda. — Isto aqui não é lugar de correr.
Badri olhou para ela e depois para a sombrinha, com o mesmo olhar atordoado que mostrara no pub. Dunworthy viu Badri pedir desculpas e se inclinar para apanhar o objeto: os dois pareceram travar uma disputa diante daquela paisagem de violetas, até que Badri agarrou o cabo e endireitou a sombrinha. Entregou-a à mulher, cujo rosto largo estava vermelho de raiva ou de frio ou dos dois.
— Desculpas? — disse ela, erguendo a sombrinha acima da cabeça como se fosse acertá-lo com aquilo. — É tudo que tem para dizer?
Ele pousou a mão na testa, num gesto hesitante, e depois, tal como fizera no pub, pareceu lembrar-se de onde estava e partiu outra vez, quase às carreiras. Entrou pelo portão principal do Brasenose, seguido por Dunworthy, que atravessou o pátio, passou por uma porta lateral que dava acesso ao laboratório, desceu por uma passagem e chegou à área onde ficava a rede. Badri já estava sentado, inclinado sobre o console, franzindo a testa diante do monitor.
Dunworthy receara que fosse ver a tela coberta de dados sem sentido ou, pior ainda, em branco, mas ela estava mostrando as colunas de números e matrizes típica de um fix.
— Conseguiu o fix? — perguntou Dunworthy, arquejando.
— Consegui — respondeu Badri, antes de se virar e encarar Dunworthy. Sua testa não estava mais contraída, mas seu rosto tinha um ar estranho, abstrato, como se ele estivesse com dificuldade para concatenar as ideias. — Quando foi que… — recomeçou, e então passou a tremer de novo. Sua voz sumiu, como se ele tivesse esquecido o que ia dizer.
A porta de vidro da divisória bateu com força, e Gilchrist e Mary entraram no laboratório, com Latimer logo atrás, mexendo no guarda-chuva.
— O que foi? O que aconteceu? — perguntou Mary.
— Quando foi o quê, Badri? — questionou Dunworthy.
— Eu consegui o fix — disse Badri, virando-se para olhar o monitor.
— É isto? — quis saber Gilchrist, debruçando-se para olhar por cima do ombro do outro. — O que querem dizer todos esses símbolos? Vai ter que traduzi-los para nós, que somos leigos.
— Quando foi o quê? — repetiu Dunworthy.
Badri pôs a mão na testa.
— Tem alguma coisa errada — disse ele.
— O quê?! — exclamou Dunworthy. — Desvio? Foi o desvio?
— Desvio? — repetiu Badri, tremendo tanto que mal conseguia falar.
— Badri — disse Mary —, você está bem?
Badri exibiu de novo aquele ar estranho, abstrato, como se estivesse avaliando a resposta.
— Não — respondeu ele, e desabou para a frente, sobre o console.