O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 27 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 26

 

— Isso é impossível — disse Kivrin. — Não pode ser 1348.

Mas tudo se encaixava. A morte do capelão de Imeyne, o fato de estarem sem criados, a recusa de Eliwys em mandar Gawyn a Oxford para descobrir a identidade de Kivrin. “Há muita gente doente lá”, comentara Lady Yvolde, e a Peste Negra tinha atingido Oxford no Natal de 1348.

— O que aconteceu? — disse ela, e sua voz se ergueu, fugindo ao controle. — O que aconteceu?! Eu estava indo para 1320. Para 1320! O sr. Dunworthy disse que eu não devia vir, que Medieval não sabia o que estava fazendo, mas não é possível que eles tenham me mandado para o ano errado! — Ela fez uma pausa. — Vocês precisam sair daqui! É a Peste Negra!

Todos estavam olhando para ela com tanta incompreensão que Kivrin se perguntou se o tradutor não teria revertido novamente ao inglês moderno.

— É a Peste Negra — repetiu ela. — A doença azul.

— Não… — disse Eliwys baixinho.

— Lady Eliwys, precisa levar Lady Imeyne e o padre Roche lá para baixo, para o salão — respondeu Kivrin.

— Não pode ser — disse ela, mas pegou Imeyne pelo braço e a conduziu para fora.

Imeyne se agarrava à cataplasma como se fosse seu relicário. Maisry correu atrás das duas, as mãos tapando os ouvidos.

— O senhor deve ir também — pediu Kivrin a Roche. — Eu vou ficar com o secretário.

— Thruuuu… — murmurou o clérigo, estirado na cama.

Roche se virou e olhou para ele. O homem debateu-se, tentando se levantar, e Roche fez menção de segurá-lo.

— Não! — exclamou Kivrin, segurando-o pela manga. — Não deve chegar perto dele! — Ela se interpôs entre o padre e a cama. — A doença do secretário é contagiosa — prosseguiu ela, forçando o intérprete a traduzir com precisão. — Uma infecção. Ela se propaga por pulgas e… — Kivrin hesitou, sem saber como se referir à contaminação por gotículas. — Ela se propaga também pelos humores e pelas exalações dos doentes. É uma doença letal, que mata quase todas as pessoas que chegarem perto.

Ela o encarou com ansiedade, pensando se ele teria entendido algo do que acabava de dizer, se ele seria capaz de entender. Não havia nenhum conhecimento a respeito de micróbios nos anos 1300, nenhuma ideia de como as doenças proliferavam. Os contemps da Peste Negra acreditavam que a doença era um castigo de Deus. Pensavam que ela se propagava mediante névoas venenosas que pairavam sobre os campos, ou pelo olhar de um morto, ou por mágica.

— Padre — chamou o secretário, e Roche tentou contornar Kivrin, mas ela barrou a passagem.

— Não podemos abandonar ninguém à morte — protestou o padre.

Mas abandonavam, pensou ela. Iam embora e deixavam os outros para trás. Pais abandonavam os filhos, médicos se negavam a vir, e todos os padres fugiam.

Ela se inclinou e apanhou uma das tiras de pano que Lady Imeyne rasgara para usar na cataplasma.

— O senhor deve cobrir a boca e o nariz com isso — falou.

Ela estendeu o pano e o padre olhou para a tira, com o cenho franzido, e depois a dobrou ao meio e colocou diante do rosto.

— Amarre atrás — pediu Kivrin, enquanto pegava outro pano. Dobrou-o em diagonal e colocou tapando o nariz e a boca, como um bandido de faroeste, e finalizou amarrando à nuca. — Assim.

Roche obedeceu, dando o nó com alguma dificuldade, e olhou para Kivrin. Ela se moveu para o lado, e ele se curvou sobre o secretário, pousando a mão sobre o seu tórax.

— Não… — disse ela, e o padre ergueu os olhos. — Toque nele o mínimo possível.

Ela prendeu a respiração enquanto Roche examinava o doente, receosa de que o secretário saltasse de repente e se agarrasse ao padre, mas ele se manteve imóvel. O bulbo embaixo do braço tinha começado a supurar sangue e uma espécie de pus esverdeado.

Kivrin colocou a mão no braço do padre, como sinal de advertência.

— Não toque nisso — ordenou. — Deve ter estourado durante a confusão.

Ela limpou o sangue e o pus com mais um dos pedaços de pano de Imeyne e prendeu a ferida com outro, atando-o com firmeza sobre o ombro. O secretário não contraiu o rosto nem gemeu, e quando ela o encarou viu que ele estava imóvel, fitando o teto.

— Está morto? — perguntou ela.

— Não — respondeu Roche, a mão ainda pousada no peito do doente, e então ela pôde ver que o tórax se erguia e se abaixava. — Devo trazer os sacramentos — prosseguiu ele através da máscara, e suas palavras estavam quase tão ininteligíveis quanto as do clérigo.

Não, pensou ela, o pânico retornando. Não vá. E se ele morrer? E se ele pular de novo sobre mim?

Roche endireitou o corpo.

— Não tenha medo — disse ele. — Eu volto.

Ele saiu às pressas, deixando a porta aberta, e Kivrin foi até lá para fechá-la. Ouviu barulho lá embaixo: as vozes de Eliwys e de Roche. Deveria ter pedido ao padre para não comentar nada com os demais.

— Eu quero ficar com Kivrin — disse Agnes e começou a chorar em voz alta e Rosemund respondeu com irritação, gritando ainda mais alto.

— Pois eu vou contar tudo a Kivrin — berrou Agnes, indignada.

Kivrin fechou a porta depressa, pondo a tranca por dentro.

Agnes não pode entrar aqui, nem Rosemund, nem ninguém. Elas não podem ser expostas. Não havia cura para a Peste Negra. A única maneira de protegê-las era impedindo o contágio. Kivrin tentou freneticamente recordar todas as informações que tinha sobre a doença. Estudara o tema no Século XIV, e a dra. Ahrens conversara a respeito da peste quando estava dando as inoculações.

Havia dois tipos diferentes. Não, três. Um entrava direto na corrente sanguínea e matava o infectado dentro de algumas horas. Já a peste bubônica se propagava pelas pulgas dos ratos, e esse era o tipo que produzia os bulbos. O outro tipo era a pneumônica, que não apresentava bulbos. A vítima tossia e vomitava sangue. Propagada pelas gotículas, a pneumônica era altamente contagiosa. Porém, o secretário estava com a bubônica, que não era tão contagiosa assim. Estar ao lado da pessoa doente não seria o bastante para a infecção: a pulga teria que passar de um corpo para o outro.

Ela teve a súbita e rápida lembrança do secretário caindo sobre Rosemund, derrubando a menina no chão. E se Rosemund pegasse a doença?, pensou. Não pode, não pode pegar. Não existe cura!

O secretário mexeu-se na cama, e Kivrin aproximou-se.

— Sede — comentou ele, passando a língua inchada sobre os lábios.

Ela trouxe um copo d’água e ele bebeu alguns goles avidamente. Depois se engasgou e tossiu sobre ela.

Kivrin recuou, arrancando do rosto a máscara molhada. É a bubônica, repetiu de si para si, limpando o peito exasperadamente. Esta aqui não é transmitida por gotículas. Além disso, não posso contrair a peste, se passei por uma inoculação. Sim, mas também tomara os antivirais e o reforço de células-T, o que devia ter evitado que contraísse o vírus. Sem contar que não devia ter descido em 1348.

— O que foi que aconteceu? — sussurrou ela.

Não podia ser o desvio. O sr. Dunworthy tinha se zangado por não terem checado a possibilidade de desvio, mas na pior das hipóteses teriam sido algumas semanas, não anos. Alguma coisa devia ter dado errado na rede.

Para o sr. Dunworthy, o sr. Gilchrist não sabia o que estava fazendo, e algo saíra errado e ela viera parar em 1348, mas então por que não tinham abortado o salto assim que perceberam que a data não estava certa? O sr. Gilchrist talvez não tivesse a sensatez de puxá-la de volta, mas o sr. Dunworthy teria. Nem sequer queria que ela saltasse. Por que ele não abrira a rede, então?

Porque eu já não estaria lá, pensou ela. Precisariam de pelo menos duas horas para estabelecer o fix. A essa altura, Kivrin já havia caminhado por entre o bosque. Ainda assim, ele teria mantido a rede aberta. Não teria fechado até o reencontro. Teria mantido a rede aberta, esperando por ela.

Ela alcançou quase correndo para a porta e segurou a tranca. Precisava encontrar Gawyn, para que ele dissesse onde era o salto.

O secretário sentou na cama e jogou uma perna nua sobre a borda, fazendo menção de segui-la.

— Me ajude — disse ele, e tentou mover a outra perna.

— Não posso ajudar — disse ela, zangada. — Eu não sou daqui. — Ela puxou a pesada tranca para fora do buraco. — Preciso ir falar com Gawyn.

Mas assim que terminou a frase ela lembrou que ele não estava lá, que tinha acompanhado o emissário do bispo e Sir Bloet até Courcy. O emissário do bispo, tão apressado para se afastar dali que quase atropelara Agnes.

Ela voltou a colocar a tranca e lançou um olhar para ele.

— Os outros também têm a peste? — perguntou. — O emissário do bispo tem?

Ela se lembrava daquele rosto acinzentado e do modo como ele tinha calafrios e puxava a capa em torno do corpo. Acabaria contaminando todos: Bloet e sua irmã orgulhosa e as garotas tagarelas. E Gawyn.

— Sabia que já estava com a doença quando veio para cá, não é? Não é?!

O secretário ergueu para ela os braços, rígidos, como uma criança.

— Me ajude — repetiu, e caiu para trás, com a cabeça e um ombro quase fora da cama.

— Você não merece ajuda. Você trouxe a peste para cá.

Houve uma batida na porta.

— Quem é? — perguntou ela, irritada.

— Roche — respondeu a voz do outro lado.

Ela sentiu uma onda de alívio e de alegria por ele ter voltado, mas não se moveu. Olhou de novo para o secretário, ainda com o corpo meio pendido para fora da cama. A boca estava aberta, preenchida completamente pela língua inchada.

— Me deixe entrar — pediu Roche. — Tenho que ouvir a confissão do doente.

Confissão.

— Não — respondeu Kivrin.

Ele bateu de novo, mais forte.

— Não posso permitir sua entrada — disse Kivrin. — É contagioso. O senhor pode pegar a doença.

— Ele está correndo risco de vida — falou Roche. — Deve confessar para ser admitido no reino dos céus.

Ele não vai para o céu, pensou Kivrin. Ele trouxe a peste para cá.

O secretário abriu os olhos. Estavam injetados de sangue, inchados, e sua respiração tinha algo de rouco. Está morrendo, pensou ela.

— Katherine! — exclamou Roche.

Morrendo, e tão longe de casa. Como eu estava. Ela também trouxera uma doença e, se ninguém havia sucumbido, não se devia a nada que ela tivesse feito. Enquanto estava doente, todos tinham ajudado: Eliwys e Imeyne e Roche. Kivrin podia ter infectado todos. Roche lhe ministrara o último sacramento e segurara sua mão.

Kivrin foi até a cama, ergueu com delicadeza a cabeça do secretário e o acomodou na cama. Depois foi até a porta.

— Vou deixar que entre para dar a extrema-unção — disse ela, entreabrindo a porta para que ele entrasse. — Mas preciso falar com o senhor primeiro.

Roche tinha posto as vestimentas sacerdotais e tirado a máscara do rosto. Carregava os santos óleos e o viático numa cestinha, que colocou em cima do baú, aos pés da cama, olhando para o secretário, cuja respiração estava ficando mais ruidosa.

— Tenho que ouvir a confissão do doente — repetiu ele.

— Não! — exclamou Kivrin. — Não enquanto não ouvir o que preciso dizer. — Ela aspirou fundo. — O secretário está com a peste bubônica — prosseguiu ela, escutando com cuidado a tradução. — É uma doença terrível. Quase todas as pessoas que adoecem morrem. Ela é transmitida pelos ratos e suas pulgas e pela respiração dos contaminados, e suas roupas, e seus objetos pessoais.

Ela encarou Roche com ansiedade, desejando muito que ele entendesse! Ele parecia ansioso, também, e desnorteado.

— É uma doença terrível — continuou ela. — Não é como a tifoide ou o cólera. Já matou centenas de milhares de pessoas na Itália e na França, e em alguns lugares matou tanto que não ficou ninguém para sepultar os mortos.

A expressão do rosto dele era indecifrável.

— Você lembrou quem é e de onde veio — sussurrou Roche, e não estava perguntando.

Ele acha que eu estava fugindo da peste quando Gawyn me encontrou no bosque, pensou ela. Se eu disser que sim, ele vai achar que eu trouxe a peste para cá. No entanto, nada havia de acusador naquele olhar, e ela precisava conseguir que ele compreendesse.

— Sim — disse ela, e esperou.

— O que precisamos fazer? — perguntou ele.

— O senhor deve manter os outros longe deste quarto e pedir que permaneçam todos em casa, sem tolerar a entrada de ninguém de fora. Deve pedir aos aldeões também que fiquem todos dentro de casa e não se aproximem de ratos mortos, caso vejam algum. Não devem mais festejar e dançar na relva. Todas as pessoas do vilarejo devem ficar afastadas da casa grande, do pátio e da igreja. Não devem se agrupar em lugar algum.

— Direi a Lady Eliwys para manter Agnes e Rosemund dentro de casa — concordou ele. — E direi às pessoas do vilarejo que não saiam dos seus lares.

O secretário emitiu um som estrangulado lá da cama, e os dois se viraram para olhar.

— Não há nada que possamos fazer para ajudar quem apanhou essa peste? — indagou ele, pronunciando a palavra desajeitadamente.

Ela havia tentado lembrar que remédios os contemps tinham tentado durante a ausência do padre. Os contemps portavam ramalhetes de flores e bebiam pó de esmeraldas e aplicavam sanguessugas aos bulbos, mas tudo isso era inútil. Para piorar, a dra. Ahrens dissera que, por mais que tivessem tentado, nada teria resolvido o problema, exceto antimicrobiais como tetraciclina e estreptomicina, que foram descobertos apenas no século XX.

— Temos que dar líquidos e manter os doentes aquecidos — respondeu ela.

Roche olhou para o clérigo.

— Sem dúvida Deus virá em seu auxílio — disse.

Não virá mesmo, pensou ela. Não veio. Metade da Europa.

— Deus não pode nos auxiliar contra a Peste Negra — avisou ela.

Roche aquiesceu e apanhou os santos óleos.

— Precisa colocar sua máscara — falou Kivrin, ajoelhando-se para pegar a última tira de pano, que amarrou sobre o nariz e a boca dele. — Sempre deve usar isso quando estiver perto dele — pediu ela, esperando que o padre não reparasse a ausência da sua própria máscara.

— Foi Deus quem mandou isso sobre nós? — indagou Roche.

— Não — disse Kivrin. — Não foi.

— Foi o Diabo, então?

Era tentador dizer que sim. A maior parte da Europa acreditava que era Satã o responsável pela Peste Negra. E essa gente perseguia os enviados do Diabo, torturava judeus e leprosos, apedrejava mulheres idosas, queimava meninas novas na fogueira.

— Ninguém mandou coisa alguma — respondeu Kivrin. — É uma doença. Não é culpa de ninguém. Deus nos ajudaria se pudesse, mas Ele… — Ele o quê? Não pode nos escutar? Foi embora? Não existe? — Ele não pode vir — concluiu ela, sem convicção.

— E nós devemos agir em Seu nome? — quis saber Roche.

— Sim.

Roche ajoelhou-se ao lado da cama. Inclinou a cabeça sobre as mãos postas e depois a ergueu de novo.

— Eu sabia que Deus havia mandado você para junto de nós por uma boa razão — disse ele.

Ela se ajoelhou também, e ficou igualmente de mãos postas.

— Mittere digneris sanctum Angelum — rezou Roche. — Enviai para nós Vosso santo anjo do céu, para guardar e proteger todos os que estão reunidos nesta casa.

— Não permita que Roche adoeça — Kivrin disse para o recorde. — Não permita que Rosemund adoeça. Permita que o secretário possa morrer antes que a doença chegue aos seus pulmões.

A voz de Roche salmodiando os ritos fúnebres era a mesma que Kivrin escutara durante a sua doença, e ela teve a esperança de que representasse para o secretário o mesmo conforto. Não dava para afirmar. Ele não era capaz de confessar, e os óleos pareciam incomodá-lo. Fez uma careta quando o óleo tocou a palma de suas mãos e, durante a prece de Roche, sua respiração ficou mais ruidosa. Roche ergueu a cabeça e olhou para ele. Os braços do secretário estavam exibindo pequenas manchas arroxeadas, indicando que sob a pele os vasos sanguíneos estavam se rompendo, um por um.

Roche virou-se para Kivrin.

— São estes os últimos dias? — perguntou ele. — O fim do mundo profetizado pelos apóstolos do Senhor?

Sim, pensou Kivrin.

— Não — respondeu ela. — Não são. É apenas uma época complicada. Uma época terrível, mas nem todo mundo vai morrer. Virão tempos maravilhosos depois. A Renascença e as reformas sociais e a música. Tempos maravilhosos. Haverá novos remédios, e as pessoas não morrerão mais da peste nem de varíola nem de pneumonia. Todo mundo terá comida suficiente, e as casas serão aquecidas mesmo no inverno. — Ela pensou em Oxford decorada para o Natal, as ruas e as lojas todas iluminadas. — Haverá luzes por toda parte, e sinos que não precisam ser tocados por ninguém.

A voz dela acalmou o secretário. Sua respiração ficou mais serena, e ele pareceu cochilar.

— Deve se afastar dele agora — pediu Kivrin, conduzindo Roche para perto da janela. Trouxe uma tigela e estendeu para ele. — Deve lavar suas mãos sempre que o tocar — avisou.

Havia apenas um pouco de água na tigela.

— Devemos lavar todas tigelas e colheres que usarmos para alimentar o secretário — prosseguiu ela, observando o padre lavar as mãos enormes. — E depois temos que queimar as roupas e as ataduras. A peste está nelas.

Ele enxugou as mãos na barra da batina e desceu para explicar a Eliwys o que era preciso fazer. Trouxe de volta um comprido corte de pano e uma tigela de água limpa. Kivrin rasgou o pano em tiras bem largas e amarrou uma delas sobre o nariz e a boca.

A água não durou muito tempo. O secretário despertou do cochilo e começou a pedir reiteradas vezes algo para beber. Kivrin segurou o copo para ele, tentando manter Roche afastado o máximo possível.

O padre saiu para dizer as vésperas e tocar o sino. Kivrin trancou de novo a porta e aguçou os ouvidos, mas não percebeu nenhum ruído vindo lá de baixo. Talvez estejam dormindo, pensou, talvez estejam doentes. Lembrou-se de Imeyne inclinando-se sobre o secretário com sua cataplasma, de Agnes parada junto ao pé da cama, de Rosemund sob o corpo inerte do doente.

É tarde demais, pensou Kivrin, andando de um lado para o outro. Todos já foram expostos. De quanto tempo era o período de incubação? Duas semanas? Não, isso era o tempo que a vacina levava para fazer efeito. Três dias? Dois? Ela não conseguia lembrar. E há quanto tempo o secretário estaria infectado? Tentou recordar quem havia sentado ao lado dele durante a ceia de Natal, com quem ele havia conversado, mas não tinha se interessado muito pelo religioso. Sua atenção estava voltada para Gawyn. A única lembrança clara que tinha era do secretário agarrando a saia de Maisry.

Foi de novo até a porta e abriu, chamando:

— Maisry!

Não houve resposta, o que não queria dizer nada. Maisry devia estar dormindo ou escondida em algum lugar. Além disso, o secretário tinha a peste bubônica, disseminada pelas pulgas, e não a pneumônica. Havia boas chances de que não tivesse infectado ninguém. Apesar disso, assim que Roche voltou, Kivrin o deixou com o doente e levou o braseiro para baixo, a fim de recolher brasas mais vivas. E de se assegurar de que estavam todos bem.

Rosemund e Eliwys estavam sentadas perto do fogo, com trabalhos de costura no colo, e perto delas Lady Imeyne lia seu Livro das Horas. Agnes brincava com seu carrinho, empurrando-o de um lado para o outro sobre as lajes do piso e conversando com ele. Maisry dormia em cima de um banco ao lado da mesa. Seu rosto estava zangado, mesmo adormecido.

Agnes abalroou o pé de Imeyne com o carrinho, e a mulher lançou para ela um olhar severo:

— Vou tomar esse carrinho de você se não aprender a brincar direito, Agnes.

A secura da reprovação, o sorriso reprimido às pressas por Rosemund, o tom cor-de-rosa sadio daqueles rostos à luz das chamas, tudo aquilo deu a Kivrin uma indescritível sensação de segurança. Aquela podia estar sendo uma noite como qualquer outra na casa grande.

Eliwys não estava costurando, mas cortando um pano em tiras bem largas com a tesoura, erguendo os olhos constantemente para observar a porta. A voz de Imeyne, lendo o Livro das Horas, tinha um vestígio de preocupação, e Rosemund, rasgando o pano com força, olhava com ansiedade para a mãe. Eliwys ficou de pé e caminhou até os biombos, passando por eles rumo à saída. Kivrin imaginou se ela teria escutado a chegada de alguém, mas logo Eliwys retornou, sentou-se e ocupou-se com os panos de novo.

Kivrin veio descendo a escada em silêncio, mas não o bastante. Agnes largou o carrinho e subiu os degraus às carreiras.

— Kivrin! — gritou, jogando-se sobre ela.

— Cuidado — advertiu Kivrin, mantendo a menina longe com um braço estendido. — São brasas acesas.

Não eram, claro. Se estivessem acessas, ela não estaria descendo para substituí-las, mas Agnes recuou mesmo assim.

— Por que está de máscara? — perguntou ela. — Vai me contar uma história?

Eliwys também tinha ficado de pé, e Imeyne virou-se para olhar para Kivrin.

— Como está o secretário do bispo? — quis saber Eliwys.

Ela pensou em responder: em pleno tormento. Mas se limitou a comentar:

— A febre baixou um pouco. É bom que vocês todas fiquem longe de mim. A infecção pode estar na minha roupa.

Ficaram todas de pé, até mesmo Imeyne, que fechou o Livro das Horas com a corrente do relicário dentro, dando um passo para longe do fogo, os olhos pregados nela.

O toco do madeiro de Yule ainda estava queimando. Kivrin protegeu a mão com a barra da saia e tirou a tampa do braseiro, despejando um punhado de carvões acinzentados. Cinzas se derramaram, um carvão chocou-se com o tronco e repicou de volta, derrapando chão afora.

Agnes deu uma risada, e todos ficaram olhando a trajetória do carvão ao longo do piso, até se perder embaixo de um dos bancos, menos Eliwys, que tinha se virado na direção dos biombos.

— Gawyn já voltou com os cavalos? — indagou Kivrin, e logo lamentou. Já sabia a resposta, pelo rosto tenso de Eliwys, mas a pergunta fez Imeyne girar o corpo e plantar um olhar glacial sobre ela.

— Não — respondeu Eliwys, sem voltar a cabeça. — Acha que os outros integrantes da comitiva do bispo estavam doentes também?

Kivrin lembrou o rosto acinzentado do bispo, a expressão escaveirada do monge.

— Não sei — disse.

— O tempo esfriou muito — comentou Rosemund. — Pode ser que Gawyn tenha achado melhor passar a noite lá.

Eliwys não respondeu. Kivrin se ajoelhou junto do fogo e remexeu os carvões com um pesado atiçador, puxando as brasas mais rubras para cima. Tentou arrastá-las para dentro do braseiro com o atiçador, acabou desistindo e recolheu as brasas usando a tampa.

— Foi você quem trouxe isso para todos nós — disse Imeyne.

Kivrin ergueu os olhos para ela, o coração batendo acelerado, mas Imeyne não estava olhando para ela. Estava olhando para Eliwys.

— É pelos seus pecados que precisaremos suportar essa punição — disse.

Eliwys virou-se para olhar para Imeyne, e Kivrin esperava ver choque ou raiva no seu rosto, mas nada disso havia. Eliwys olhou para a sogra com indiferença, como se sua mente estivesse em outro lugar.

— O Senhor castiga os adúlteros e toda sua casa — prosseguiu Imeyne —, como está punindo a sua agora. — Ela brandiu o Livro das Horas diante dos olhos da nora. — Foi seu pecado que trouxe a peste para cá.

— Foi você quem mandou chamar o bispo — rebateu Eliwys, com frieza. — Você não estava satisfeita com o padre Roche. Foi você quem chamou os religiosos para virem, e eles trouxeram a peste para cá.

Ela deu meia-volta rápida e saiu caminhando entre os biombos.

Imeyne ficou imóvel, como se tivesse sido atingida por algo. Depois caminhou de volta ao mesmo banco, ajoelhou-se, tirou o relicário do livro e ficou mexendo a correntinha com as pontas dos dedos.

— Vai me contar a história agora? — perguntou Agnes.

Imeyne apoiou os cotovelos no banco e apertou as mãos contra a testa.

— Conte a história da donzela teimosa — pediu Agnes.

— Amanhã. Eu conto uma história para você amanhã — respondeu Kivrin, e levou o braseiro outra vez para cima.

A febre do secretário tinha voltado. Ele estava delirando, gritando frases da missa dos mortos como se fossem obscenidades. Pedia água o tempo todo, e primeiro Roche, depois Kivrin, tiveram que ir ao pátio para buscá-la.

Kivrin desceu a escada na ponta dos pés, carregando o balde e uma vela, com a esperança de que Agnes não chegasse a vê-la, mas já estavam todas dormindo. Menos Lady Imeyne, que continuava rezando de joelhos, as costas rígidas e inflexíveis. Foi você quem trouxe isso para todos nós.

Kivrin saiu para o pátio às cegas. Dois sinos estavam soando, ligeiramente fora de ritmo entre si, e ela pensou se aquilo seriam os toques das vésperas ou se era um dobre de finados. Junto ao poço havia um balde com água até a metade, mas ela o esvaziou sobre as pedras e o encheu com água nova. Deixou o balde diante da porta da cozinha e entrou, para pegar algo que pudessem comer. Numa extremidade da mesa, estavam empilhadas as mantas grossas que protegiam os pratos ao serem levados da cozinha para a casa grande. Depois de colocar sobre uma pão e um grande pedaço de carne fria, Kivrin amarrou as pontas, apanhou o resto delas e levou consigo, escada acima. Comeram sentados no chão diante do braseiro, e Kivrin sentiu-se melhor logo após a primeira mordida.

O secretário parecia melhor, também. Voltou a cochilar e depois acordou banhado num suor ardente. Assim que Kivrin o enxugou com uma das mantas da cozinha, ele suspirou como se aquilo fosse agradável e acabou adormecendo de novo. Quando acordou, estava com menos febre. Roche e ela arrastaram o baú para um lado da cama e puseram sobre ele uma vela de sebo acesa. Os dois ficaram se alternando, ora velando à cabeceira do doente, ora descansando no banco junto da janela. Fazia frio demais para se dormir de verdade, mas Kivrin se enrodilhava no recanto de pedra e dormitava, e cada vez que abria os olhos o secretário parecia melhor.

Ela havia lido em História da Medicina que lancetar os bulbos às vezes salvava um paciente. O do secretário tinha parado de supurar, e sua respiração já não fazia ruído. Talvez acabasse sobrevivendo.

Alguns historiadores não acreditavam que a Peste Negra tivesse matado o número de pessoas que aparecia nos registros. O sr. Gilchrist achava que as estatísticas foram grosseiramente exageradas por medo e ignorância, e defendia que, mesmo que as estatísticas estivessem corretas, a peste não havia exterminado a metade de cada vilarejo. Alguns lugares tinham sofrido apenas um ou dois casos. Em outros, ninguém chegou a morrer.

Eles haviam isolado o secretário assim que perceberam o que tinha, e Kivrin conseguira evitar que Roche chegasse muito perto, a maior parte do tempo. Tomaram todas as precauções possíveis. E a doença não tinha se transformado em pneumônica. Talvez isso bastasse, e eles tivessem conseguido sustar o processo a tempo. Ela precisava pedir a Roche que isolasse o vilarejo, impedisse qualquer pessoa de entrar, e talvez a peste simplesmente passasse por ali sem se deter. Isso já acontecera: vilarejos inteiros foram poupados, e em partes da Escócia a peste jamais chegou.

Ela deve ter cochilado. Quando abriu os olhos, já havia alguma luminosidade e Roche tinha desaparecido. Ela olhou para a cama. O secretário estava perfeitamente imóvel, os olhos abertos e fixos, e Kivrin pensou, Ele morreu e Roche saiu para cavar a sepultura, mas assim que o pensamento se formou ela viu as cobertas sobre o peito do doente, que se erguiam e se abaixavam. Procurou o pulso do secretário. Estava rápido e tão fraco que mal dava para perceber.

O sino começou a bater e só então Kivrin percebeu que Roche devia ter saído para tocar as matinas.

Pôs a máscara no rosto e aproximou-se da cama.

— Padre — chamou baixinho, mas o secretário não deu sinais de ter ouvido.

Ela pôs a mão sobre a testa dele. A febre tinha diminuído, mas a tez ainda não parecia normal: estava seca como um papel. Além disso, as hemorragias sob a pele dos braços e das pernas estavam maiores e mais escuras. A língua inchada aparecia por entre os dentes, horrivelmente roxa.

O cheiro do doente era terrível, um odor nauseante que ela podia sentir através da máscara. Ela foi para junto da janela e desamarrou o pano encerado que a cobria. O ar fresco lhe pareceu maravilhoso, frio, cortante, e Kivrin se debruçou para respirar fundo.

Não havia ninguém no pátio mas, enquanto ela sorvia o ar frio e limpo, o padre Roche apareceu lá embaixo, à porta da cozinha, carregando uma tigela com algo fumegante. Ele caminhou sobre as lajes do pátio até a porta da casa grande, e nisso surgiu Lady Eliwys, que chamou Roche. O padre foi até ela, deteve-se e puxou a máscara para o rosto enquanto conversavam. Ele está fazendo o possível para se proteger das pessoas, pensou Kivrin. Ele entrou na casa grande e Eliwys foi na direção do poço.

Kivrin amarrou de novo o pano na lateral da janela e olhou em torno, em busca de alguma coisa para abanar o ar no interior do quarto. Saltou do banco, foi pegar um dos panos que trouxera da cozinha e voltou à janela.

Eliwys continuava junto do poço, içando o balde. Ela parou, ainda segurando a corda, e se virou para olhar o portão. Gawyn vinha chegando, puxando o cavalo pela rédea.

Deteve-se quando avistou Eliwys, e Gringolet esbarrou no dono, erguendo a cabeça, incomodado.

A expressão no rosto de Gawyn era a mesma de sempre, cheia de esperança e ansiedade, e Kivrin sentiu um impulso de raiva ao ver que nada mudara, nem mesmo agora. Mas ele não sabe, pensou ela. Está chegando agora de Courcy. Sentiu uma pontada de pena por ele, porque ficaria sabendo tudo, e pela boca de Eliwys.

Eliwys, de costas, puxou o balde mais para cima, deixando-o emparelhado com a borda do poço, e Gawyn deu mais um passo na direção dela, ainda puxando Gringolet pela rédea, e então parou.

Ele já sabe, pensou Kivrin. Com certeza, já está sabendo. O emissário do bispo deve ter caído doente, e ele correu de volta à casa para avisar todo mundo. Kivrin notou então que ele não trouxera os outros cavalos consigo. O monge está doente, ponderou ela, e os outros fugiram todos.

Gawyn ficou olhando, imóvel, enquanto Eliwys erguia o pesado balde por cima da borda de pedra do poço. Ele faria qualquer coisa por ela, pensou Kivrin, qualquer coisa mesmo, salvaria sua amada de uma centena de degoladores no meio do bosque, mas não vai poder salvá-la disso.

Gringolet, impaciente para chegar logo ao estábulo, sacudiu a cabeça. Gawyn ergueu a mão até o focinho para tranquilizá-lo, mas já era tarde demais. Eliwys acabava de vê-lo.

Ela largou o balde, que caiu ao chão com um estrépito que Kivrin escutou lá do alto. No instante seguinte, Eliwys estava nos braços dele. Kivrin levou a mão à boca.

Uma pancada soou baixinho à porta. Kivrin saltou e correu para abrir. Era Agnes.

— Não quer me contar uma história agora? — perguntou ela.

A menina estava muito desarrumada. Ninguém lhe fizera as tranças desde o dia anterior. O cabelo despontava por baixo da touca em todos as direções possíveis, e era visível que ela dormira junto do fogo. Uma das mangas estava coberta de cinza.

Kivrin resistiu ao impulso de limpá-la.

— Você não pode entrar — falou ela, deixando aberta apenas uma fresta da porta. — Para não pegar a doença.

— Não tem ninguém para brincar comigo — reclamou Agnes. — Minha mãe saiu e Rosemund está dormindo.

— Sua mãe foi só buscar mais água — disse ela, com firmeza. — Onde está sua avó?

— Rezando. — Ela estendeu a mão para pegar na saia de Kivrin, que se afastou.

— Não deve tocar em mim! — exclamou.

Agnes fez um biquinho.

— Por que está brava comigo?

— Não estou brava com você — disse Kivrin, com mais suavidade. — Mas você não pode entrar aqui. O secretário está muito doente, e quem chegar perto dele pode… — não podia esperar que Agnes entendesse o que era “contágio” — … po-de ficar doente também.

— Ele vai morrer? — quis saber Agnes, tentando olhar pela fresta da porta.

— Receio que sim.

— Você vai?

— Não — respondeu ela, e descobriu que não estava mais com medo. — Rosemund vai acordar daqui a pouco. Peça à sua irmã para contar uma história.

— O padre Roche vai morrer?

— Não. Vá e brinque com seu carrinho até Rosemund acordar.

— Você me conta uma história depois que o secretário morrer?

— Sim. Vá lá para baixo.

Agnes desceu uns três degraus com relutância, amparando-se na parede.

— Vamos todos morrer? — perguntou.

— Não — respondeu Kivrin. Não se eu puder evitar. Fechou a porta e encostou-se nela por dentro.

O secretário continuava deitado, sem ver, sem perceber nada, todo o seu ser reduzido à batalha contra um inimigo que seu sistema imunológico nunca havia enfrentado, e contra o qual não tinha defesas.

Uma nova batida ecoou na porta.

— Vá lá para baixo, Agnes! — mandou Kivrin, mas era Roche, trazendo uma tigela de caldo quente e um balde cheio de carvões em brasa. Derramou todos dentro do braseiro e agachou-se, assoprando.

Kivrin tinha recebido a tigela das mãos dele. O caldo estava morno e cheirava horrivelmente mal. Ela imaginou o que haveria ali capaz de fazer baixar uma febre.

Roche levantou-se e pegou a tigela de volta, e os dois tentaram juntos dar algumas colheres ao secretário, mas o líquido escorria em volta da língua enorme e pelos cantos da boca.

Alguém bateu na porta.

— Agnes, já disse que você não pode entrar aqui — explicou Kivrin impaciente, tentando limpar o cobertor da cama.

— Minha avó me mandou chamar você.

— Lady Imeyne está doente? — perguntou Roche, indo na direção da porta.

— Não. É Rosemund.

O coração de Kivrin começou a disparar.

Roche abriu a porta, mas Agnes não entrou. Ficou parada na soleira, olhando para a máscara no rosto dele.

— Rosemund está doente? — indagou Kivrin, com ansiedade.

— Ela caiu.

Kivrin passou às pressas pelos dois e desceu a escada correndo.

Rosemund estava sentada em um dos bancos próximos do fogo, com Lady Imeyne ao seu lado, de pé.

— O que aconteceu? — quis saber Kivrin.

— Eu caí — respondeu Rosemund, parecendo desorientada. — Bati com o braço.

Ela ergueu o braço para mostrar a Kivrin, com um cotovelo dobrado.

Lady Imeyne murmurou alguma coisa.

— O quê? — perguntou Kivrin, e então percebeu que a velha estava rezando.

Olhou em volta do salão à procura de Eliwys, que não estava lá. Havia apenas Maisry, encolhida e amedrontada no chão junto à mesa, e pela mente de Kivrin passou a ideia de que Rosemund poderia ter tropeçado na criada e caído.

— Tropeçou em alguma coisa? — inquiriu Kivrin.

— Não — disse Rosemund, ainda parecendo tonta. — Minha cabeça dói.

— Bateu com a cabeça?

— Não. — Ele puxou a manga para cima. — Bati com o braço nas pedras.

Kivrin puxou a manga até acima do cotovelo. O braço estava arranhado, mas não havia sangue. Kivrin imaginou se a garota podia ter quebrado um osso. Estava erguendo o braço num ângulo tão estranho.

— Dói? — perguntou, mexendo um pouquinho no braço.

— Não — respondeu a menina.

Ela torceu delicadamente o antebraço.

— E assim?

— Não.

— Pode mover os dedos?

Rosemund mexeu um dedo de cada vez, o braço ainda dobrado. Kivrin olhou para ele de testa franzida, intrigada. Ela podia ter sofrido uma luxação, mas nesse caso não conseguiria mover o braço com tanta facilidade.

— Lady Imeyne, poderia trazer aqui o padre Roche? — pediu ela.

— Ele não pode nos ajudar — comentou Imeyne com desagrado, mas foi na direção da escada.

— Não acho que esteja quebrado — observou Kivrin.

Rosemund abaixou o braço, soltou um arquejo de dor e voltou a levantá-lo. A cor fugiu do seu rosto, e gotas de suor apareceram acima do seu lábio superior.

Só pode estar quebrado, pensou Kivrin, e segurou o braço da menina outra vez. Rosemund recuou e, antes que Kivrin percebesse o que estava acontecendo, caiu do banco com tudo, nas pedras do chão.

Desta vez bateu com a cabeça. Kivrin ouviu a pancada surda no instante da queda. Passou por cima do banco e ajoelhou-se.

— Rosemund, Rosemund — chamou. — Está me ouvindo?

A menina não se mexeu. Tinha levantado o braço no momento da queda, como que para se proteger, e quando Kivrin tocou nele, ela o recolheu, mas sem abrir os olhos. Kivrin olhou em torno, aflita, à procura de Imeyne, mas a velha não estava na escada. Ela ergueu o corpo, ainda ajoelhada.

Rosemund abriu os olhos.

— Não me abandone — suplicou.

— Tenho que buscar ajuda — disse Kivrin.

Rosemund abanou a cabeça.

— Padre Roche! — gritou Kivrin, mesmo sabendo que ele não poderia ouvi-la por trás da pesada porta, e nisso Lady Eliwys surgiu por entre os biombos, correndo pelas lajes do piso.

— Ela está com a doença azul? — indagou.

Não.

— Ela caiu — respondeu Kivrin.

Pousou sua mão sobre o braço nu de Rosemund, ainda erguido. O braço estava quente. Rosemund havia fechado os olhos de novo e estava respirando devagar, com regularidade, como se houvesse adormecido.

Kivrin pegou a pesada manga da roupa e puxou toda para o alto, por cima do ombro. Para conseguir olhar a axila, virou para cima o braço de Rosemund, que tentou recolhê-lo, mas Kivrin segurou com força.

O bulbo não era tão grande quanto tinha sido o do secretário, mas era de um vermelho vivo, e já duro ao toque. Não, pensou Kivrin. Não. Rosemund gemeu e tentou recolher o braço, e Kivrin o soltou com delicadeza, arrumando a manga com cuidado em volta dele.

— O que foi? — perguntou Agnes, sentada no chão a meio caminho da escada. — Rosemund está doente?

Não posso permitir que isso aconteça, pensou Kivrin. Preciso de ajuda. Todos foram expostos, inclusive Agnes, e não há nada aqui que possa ajudá-los. Os antimicrobiais não serão descobertos antes de seiscentos anos.

— Seus pecados trouxeram tudo isso — sentenciou Imeyne.

Kivrin ergueu os olhos. Eliwys estava olhando para Imeyne, mas com ar ausente, como se não tivesse escutado a sogra.

— Seus pecados e os de Gawyn — prosseguiu Imeyne.

— Gawyn — repetiu Kivrin.

O privé poderia mostrar onde era o local do salto, e ela podia buscar ajuda. A dra. Ahrens saberia o que fazer. E o sr. Dunworthy. A dra. Ahrens daria vacinas e estreptomicina para trazer.

— Onde está Gawyn? — inquiriu Kivrin.

Eliwys estava olhando para Kivrin agora, com um rosto cheio de anseio, cheio de esperança. A menção ao nome de Gawyn conseguiu tirá-la da apatia, pensou Kivrin.

— Gawyn — repetiu Kivrin. — Onde está ele?

— Foi embora — respondeu Eliwys.

— Para onde? — quis saber ela. — Preciso falar com ele. Precisamos ir buscar ajuda.

— Não há ajuda — interferiu Lady Imeyne, ajoelhando-se junto de Rosemund e ficando de mãos postas. — É o castigo de Deus.

Kivrin ficou de pé.

— Para onde ele foi? — perguntou.

— Para Bath — disse Eliwys. — Para trazer meu marido.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

(070114-070526)

Resolvi que era melhor contar tudo agora. O sr. Gilchrist disse que tinha esperanças de que, com a abertura de Medieval, seríamos capazes de obter um relato em primeira mão da Peste Negra, e acho que será este.

O primeiro caso da peste aqui foi com um clérigo que veio como secretário do emissário do bispo. Não sei se já estava doente ou não quando chegou. Talvez já estivesse mal e por isso os religiosos vieram para cá e não para Oxford, para se livrar dele antes que fossem infectados. Ele estava visivelmente doente na manhã de Natal, quando foram todos embora, o que significa que provavelmente estava contagioso na noite anterior, quando teve contato com pelo menos metade do vilarejo.

O secretário passou a doença para a filha de Lord Guillaume, Rosemund, que adoeceu… no dia 26? Perdi a noção do tempo. Os dois doentes apresentam os clássicos bulbos. O do secretário se rompeu e se esvaziou bastante. Já o de Rosemund está duro, do tamanho de uma noz e crescendo. A área em volta está toda inflamada. Os dois estão com febre alta e delírio intermitente.

O padre Roche e eu isolamos os doentes no pavilhão e orientamos os aldeões a ficarem em casa e evitar qualquer contato entre si, mas receio que já seja tarde demais. Quase todo mundo do vilarejo esteve na festa de Natal, e a família inteira estava lá, na companhia do secretário.

Gostaria de saber se a doença já é contagiosa antes da aparição dos primeiros sintomas, e de quanto tempo é o período de incubação. Sei que a peste assume três formas: bubônica, pneumônica e septicêmica, e sei que a forma pneumônica é a mais contagiosa de todas, porque pode ser transmitida pela tosse, pela respiração, ou pelo toque do doente. Tanto o secretário quanto Rosemund parecem ter a bubônica.

Estou com tanto medo que não consigo pensar direito. Trata-se de algo acima das minhas forças, incontrolável. Está tudo bem e de repente o medo brota dentro de mim e preciso agarrar a armação da cama para não sair correndo do quarto, da casa, do vilarejo, para longe disso tudo!

Sei que tomei as inoculações contra a peste, mas também tomei meu reforço de células-T e meus antivirais e adoeci mesmo assim. Sempre que o secretário toca em mim, eu me retraio. O padre Roche volta e meia esquece de colocar a máscara, e morro de medo que ele acabe adoecendo, ele ou Agnes. Também receio que o secretário morra. E Rosemund. Além disso, tenho medo que alguém do vilarejo contraia a febre pneumônica, e que Gawyn não volte e eu não consiga descobrir o local do reencontro.

(Pausa)

Agora me sinto um pouco mais calma. Parece que ajuda falar com vocês, por mais que possam não estar me ouvindo.

Rosemund é jovem e forte. E a peste não matou todo mundo. Em alguns vilarejos nem uma só pessoa morreu.